Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Portugal - “Meteorizações” de Filipa César em Serralves reflecte sobre ecos coloniais da Guiné-Bissau

Os elementos água, terra, ar e fogo são o fio condutor de “Meteorizações”, a primeira exposição antológica de Filipa César inaugurada em Serralves, Porto, convocando o passado colonial da Guiné-Bissau e ecos no presente.


“Tínhamos de encontrar uma forma de organizar todas estas obras e pensámos em organizá-las através dos elementos [água, terra, ar, fogo]”, explicou Filipa César, durante uma visita à imprensa, sobre a sua primeira grande exposição antológica no Museu de Serralves, no Porto.

Na primeira sala da exposição, “Meteorizações” é dedicada à água e o visitante é envolvido em sons de água a correr que Filipa César explica ser o fluxo do Rio Trancoso a entrelaçar-se com vozes das gentes das “escolas do mangal”. As “escolas do mangal” são espaços que promovem a educação ambiental e o desenvolvimento comunitário focado na protecção e restauração dos mangais na Guiné-Bissau.

“A sala da água convoca muitos fluxos, desde os passadores através do Rio Trancoso, como as escolas do mangal na Guiné-Bissau, como também um excerto de um filme com Marinho de Pina [contador de histórias guineense], sobre os conflitos que nós [Filipa e Pina] tínhamos nos processos destes trabalhos colaborativos”, descreve a artista nascida em 1975.

O percurso da exposição leva o visitante a uma nova sala que convoca o elemento Terra. É naquele espaço que aparecem, por exemplo, imagens de Amílcar Cabral (1924-1973) noutro filme. Amílcar Cabral, político e agrónomo nascido em Bafatá, na Guiné, sob domínio colonial português, liderou a luta pela libertação e independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

“Interessava-se muito pelo solo como um corpo histórico”, afirmou a artista sobre o co-fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

O título da exposição – “Meteorizações” – remete para uma noção oriunda da geologia, reinterpretada por Amílcar Cabral, que entende a terra “como um produto de forças naturais e de dinâmicas históricas e políticas em permanente mutação”, lê-se no dossiê de imprensa.

“Foi a partir daí que desenvolvi muitos textos de pesquisas, filmes que partem desse princípio comum de um solo como um corpo inscrito e a que chamei de agropoética, que é essa relação de pesquisa, mas o solo como um ponto de partida para pensar as possibilidade e as condições da terra em relação à humanidade que a habita”, acrescenta Filipa César.

Filipa César tem vindo a investigar a prática de cinema militante e a agropoética do movimento de libertação africano na Guiné-Bissau – ou seja, no contexto dos movimentos políticos e sociais que lutaram pela descolonização da África -, através da produção de oficinas, textos, filmes, performances, publicações e encontros comunitários.

O percurso da exposição tem duas outras salas. Na dedicada ao ar, “aos pensamentos e ideias”, há uma colecção de tecelagem e várias questões sobre os ‘panu di pinti’, tecido tradicional da Guiné-Bissau feito à mão.

O ‘panu di pinti’ “inscreve muitas questões que nos ligam e que trazem a questão do crioulo como um local de encontro, de união e de transformação e não um espaço de separação”, sublinha Filipa César.

Há também a sala dedicada ao elemento fogo, onde é possível ver um filme e uma instalação que exploram como as tecnologias ópticas de design militar e colonial – desde as lentes Fresnel dos faróis até aos sistemas globais de navegação por satélite – informam e são informadas pelos modelos ocidentais de conhecimento, adoptando uma abordagem crítica às ideologias por trás do desenvolvimento desses instrumentos de orientação e vigilância.

Todo o percurso expositivo tem filmes, diversos livros (alguns foram proibidos em Portugal durante a ditadura de Salazar), documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais como “The Embassy” (2011), até produções mais recentes da artista.

A exposição antológica revela um processo contínuo de investigação ao longo dos últimos 15 anos, contou Filipa César, destacando que não é só feita por si, mas em colaboração com investigadores, cineastas e comunidades locais, incluindo uma estreita colaboração com o realizador guineense Sana na N´Hada, que filmou a guerrilha e foi responsável do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau.

É uma exposição que “constrói relações transversais entre diferentes tempos, suportes e contextos”, convidando “o público a pensar criticamente o passado colonial e os seus efeitos no presente”.

O texto de apresentação destaca “filmes, objectos e documentos que evocam eventos históricos como a desobediência antifascista portuguesa e a resistência anticolonial guineense”, num percurso que atravessa “arquivos audiovisuais do período das lutas de libertação, reflexões sobre o mangal, políticas da óptica e da tecelagem, e o pensamento agropoético de Amílcar Cabral”.

A exposição, produzida pela Fundação de Serralves, tem curadoria de Inês Grosso, curadora-chefe do Museu, e de Paula Nascimento. A mostra inclui ainda uma publicação inédita, com ‘design’ de Bárbara Says e coordenação de Amarante Abramovici, reunindo um arquivo de ensaios, conversas, correspondência que acompanhou o processo de pesquisa dos últimos 15 anos.

Filipa César é cineasta, educadora e organizadora comunitária e, desde 2011, tem vindo a investigar colectivamente a prática de cinema militante.

A exposição “Meteorizações” vai ficar patente em Serralves até 31 de Maio. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Portugal - Projeto da Universidade de Coimbra recebe bolsa ERC para testar protótipo que deteta cianobactérias e bactérias patogénicas na água

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveu um protótipo que deteta cianobactérias e bactérias patogénicas na água. A nova ferramenta será testada no âmbito do projeto Porous sensors for real-time monitoring of water quality risks (PROTEGE), financiado pelo European Research Council (ERC), através de uma bolsa ERC Proof of Concept Grant. 


O financiamento, no valor de 150 mil euros, pretende valorizar e transferir para o mercado os resultados de investigação de excelência, previamente alcançados no âmbito do projeto Generating Energy from Electroactive Algae (GREEN).

De acordo com Paulo Rocha, professor da Departamento de Ciências da Vida (DCV) e coordenador dos projetos, a contaminação imprevisível de comunidades microbianas em ambientes aquáticos é uma preocupação global para os fornecedores de água potável e produtores aquícolas.

«Os custos associados ao tratamento de água potável, principalmente, causados pela proliferação excessiva de cianobactérias nocivas, podem ultrapassar os 150 milhões de euros, por ano, nos países europeus. O cenário agrava-se quando se consideram os ataques debilitantes de bactérias patogénicas em tanques de aquacultura, que geram perdas económicas globais superiores a 25 mil milhões de dólares. Em ambos os setores industriais, os custos de mitigação aumentam com o atraso na deteção microbiana», declara o também investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC.

As soluções de monitorização da qualidade da água atualmente disponíveis baseiam-se, na sua maioria, em medições demoradas de frações de azoto e fósforo, temperatura e oxigénio dissolvido, ou na utilização da clorofila como indicador indireto. No entanto, estas abordagens ainda não permitem uma deteção eficaz e em tempo real da contaminação microbiana.

«No âmbito do projeto anterior, o GREEN, identificámos uma aplicação comercial promissora que, através de eletrofisiologia ultrassensível, permite uma deteção sem precedentes e em tempo real de microrganismos nocivos em ambientes aquáticos. Este avanço foi possível graças ao desenvolvimento de espumas de poliuretano condutoras porosas ultrassensíveis, que exploram uma área de elétrodo alargada, maximizando a sensibilidade à deteção microbiana», revela o especialista. 

Agora, «o principal objetivo do PROTEGE é demonstrar um protótipo funcional nas instalações dos parceiros industriais, capaz de detetar em tempo real cianobactérias em reservatórios de abastecimento de água e bactérias patogénicas em tanques de aquacultura, bem como desenvolver um plano de negócio e a exploração para a comercialização da tecnologia, com um protótipo orientado para o mercado e equipado com telemetria em tempo real», conclui.

Coordenado pela FCTUC e com a colaboração da UC Business da Universidade de Coimbra, a empresa Seaculture do Grupo Jerónimo Martins, as Águas de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, IP (INIAV) e o Instituto Pedro Nunes (IPN), este é um projeto multidisciplinar que destaca o bioempreendedorismo, uma disciplina lecionada pelo professor Paulo Rocha. Universidade de Coimbra - Portugal

quinta-feira, 27 de março de 2025

Galiza - Água tóxica e um cheiro nauseabundo: como a criação de porcos transformou uma cidade espanhola num "monte de esterco"

Os moradores têm muito medo de beber água dos poços locais ou de abrir as janelas por medo do fedor das criações de gado que se encontram próximas



Pela primeira vez na história da justiça, cidadãos espanhóis entraram com uma ação judicial contra autoridades nacionais e regionais por causa da criação intensiva de porcos.

Os moradores dizem que a má gestão da poluição causada por décadas de criação industrial de porcos tornou a vida na sua comunidade "inviável" - e está a colocar a sua saúde em risco.

É a primeira vez que um tribunal na Europa ouvirá um caso sobre os impactos nos direitos humanos das operações intensivas de pecuária em fontes de água.

Moradores têm medo de beber água de poços

Existem centenas de herdades de criação intensiva de suínos e aves na região de A Limia, na Galiza, que dependem do que são vistas como aprovações automáticas das autoridades locais para operar.

Tanto a lei nacional quanto a europeia exigem que as autoridades protejam a saúde e o bem-estar dos moradores locais. Os reclamantes argumentam que, legalmente, esse princípio deve determinar se as instalações de agricultura industrial são aprovadas.

No entanto, as condições de vida na área tornaram-se terríveis, fazendo com que os moradores tenham medo de beber água dos poços locais ou de abrir as janelas por medo do fedor das criações de gado que estão próximas.

Nalguns casos, o abastecimento de água municipal também foi poluído.

“Estamos tão preocupados com a poluição que até a ideia de caminhar perto do reservatório se tornou inviável”, diz Pablo Álvarez Veloso, presidente da associação local de moradores e autor do caso.

“No entanto, em vez de avisar a nossa comunidade sobre a verdadeira extensão da poluição na área, as nossas autoridades locais estão a alegar que a água está em 'boas condições'. Todo o ano, eles dizem que as crianças podem nadar e brincar no reservatório sem um aviso à vista de quão tóxica a água pode ser.”

“Durante os meses mais quentes do ano, temos medo até de abrir as janelas para refrescar a casa, porque é quando o cheiro do reservatório é pior”, acrescenta Mercedes Álvarez de León, outra reclamante no caso e proprietária de uma empresa local.

Como a representante da Friends of the Earth, Blanca Ruibal, que apoia o caso, resume sucintamente, “[a cidade] tornou-se um monte de esterco”.

Moradores espanhóis levam autoridades ao tribunal por poluição causada pela criação de porcos

Como as repetidas tentativas de pedir às autoridades locais e outras que resolvam a poluição que assola a área falharam, os moradores da cidade de As Conchas estão agora tomando medidas legais.

O grupo entrou com uma ação no Tribunal Superior de Justiça da Galiza pelo que eles alegam ser uma violação da legislação nacional e europeia.

Eles são apoiados pelas instituições de caridade ambientais ClientEarth e Friends of the Earth Spain. Entre os reclamantes está a organização de consumidores CECU, representando a região de A Limia.

“Tentámos muitas vezes levantar essas questões diretamente com o governo local - mas acreditamos que não estamos sendo ouvidos”, diz Álvarez Veloso. “Então, estamos a tomar as questões nas nossas próprias mãos - estamos indo ao tribunal para proteger a nossa comunidade.”

A poluição causada pela criação de porcos pode colocar os moradores em risco de cancro

Um nível extremamente elevado de nitratos foi registado no reservatório local, o que é um fator de risco bem conhecido para vários tipos de cancro, incluindo cancro da tiroide, mama, ovário, estômago, pâncreas e bexiga.

A sua presença também foi associada ao linfoma não-Hodgkin (LNH) e à metemoglobinemia, uma doença potencialmente fatal originária do sangue.

Além de nitratos, estudos encontraram no reservatório bactérias resistentes a antibióticos, conhecidas por causar doenças muito difíceis (e em alguns casos impossíveis) de tratar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que estes tipos de superbactérias resistentes a antibióticos estão entre as dez maiores ameaças à humanidade.

O forte odor dessas instalações intensivas é produto, como alega a denúncia, de partículas finas no ar, que podem causar problemas respiratórios e asma, principalmente em jovens e idosos. 

“Durante o verão, as dores de cabeça que tenho desde 2012 só pioram e ficam mais frequentes. Fui ao médico várias vezes para descobrir o que está a causar isto e eles parecem não conseguir descobrir. Acho que é por causa dessa poluição”, diz Álvarez de León.

“A situação está tão ruim que tem dias que nem saio de casa.”

Novas fazendas ainda estão a receber licenças apesar das preocupações com a saúde

Mesmo com os riscos claros à saúde pública expostos no processo e as dificuldades que os moradores de As Conchas enfrentam diariamente, as autoridades locais continuam a permitir que estas fazendas industriais operem como estão.

Licenças ainda estão a ser concedidas para novas herdades, apesar das obrigações que as autoridades têm sob a constituição espanhola, a Convenção Europeia de Direitos Humanos e a legislação ambiental nacional e europeia.

“Acreditamos que as autoridades estão a falhar com esses moradores, pois, apesar de saberem e verem o impacto em tempo real da criação industrial de gado na área, elas continuam a aprovar esses locais repetidamente”, diz a advogada da ClientEarth, Nieves Noval.

“Esta falha é ilegal - e levou à situação com a qual os nossos reclamantes têm de conviver dia após dia. A poluição descontrolada colocou a sua saúde em risco e comprometeu a sua água, o ar que respiram e o solo em que cultivam os seus próprios produtos agrícolas.”

As autoridades regionais da Galiza disseram que estão a trabalhar com os conselhos locais e a indústria de criação de suínos para encontrar soluções - e acrescentaram que o governo nacional também deve envolver-se.

Numa declaração enviada por correio eletrónico à Reuters, as autoridades da Galiza disseram que estão "a trabalhar num projeto de economia circular para a pecuária sustentável que envolve a transformação de resíduos em recursos". Euronews.green


domingo, 19 de janeiro de 2025

África - A colossal barragem que pode ‘destruir’ uma nação milenar e secar o maior rio do mundo

Não há um país no mundo que dependa tanto de um rio como o Egipto do Nilo: e num mundo cheio de conflitos, o grande medo do Cairo não é um exército estrangeiro ou terroristas, mas sim a água, em particular uma possível escassez. Essa preocupação é real há pouco mais de uma década, isto porque, no coração do Nilo Azul, nas terras altas da Etiópia, está a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), uma obra monumental que encarna as aspirações de desenvolvimento de um país e, ao mesmo tempo, o epicentro das tensões geopolíticas entre duas potências regionais que agora estão ‘condenadas’ a entender-se.



Este titã de betão, com uma capacidade de armazenamento de 74 mil milhões de metros cúbicos e uma potência hidroelétrica de 6450 megawatts, promete transformar a economia etíope, mas ao mesmo tempo ameaça perturbar o delicado equilíbrio abastecimento de água do Nilo, o rio que tem sido a força vital do Egipto durante milénios.

O arranque dos trabalhos neste colossal projeto deu-se em 2013, sendo que a tensão entre Egipto e Etiópia já era palpável: afinal, tratam-se de duas das maiores e mais populosas economias de África – o Cairo solicitou veementemente a interrupção das obras, uma vez que boa parte dos seus 112 milhões de habitantes necessitam do rio Nilo – e do seu caudal atual – para viver. A Etiópia defendeu que precisa da barragem para gerar a energia de que os seus 126 milhões de habitantes necessitam.

No final de 2023, a Etiópia anunciou com grande orgulho que o enchimento da barragem tinha sido concluído, ultrapassando obstáculos e enfrentando duras ameaças do Egipto e do Sudão, que temem que a barragem afete os níveis das águas do Nilo. Exigiram que Adis Abeba, a capital da Etiópia, deixasse de as encher até que se chegasse a acordo sobre os mecanismos para o fazer. Não só o enchimento foi concluído, como em 2024 a construção foi concluída e foram acionadas duas turbinas, com capacidade para gerar 400 megawatts cada. Estas turbinas juntaram-se a outras duas já em funcionamento, que geraram 375 megawatts cada, perfazendo um total de 1550 megawatts.

A GERD é a maior barragem de África e já está entre as maiores do mundo. O seu muro de 145 metros de altura e 1,8 quilómetros de comprimento, frisou a publicação espanhola ‘El Economista’, é um colosso concebido para gerar electricidade suficiente para abastecer toda a Etiópia e exportar energia para os países vizinhos. Para Adis Abeba é um símbolo de orgulho nacional e de autossuficiência, para o Cairo um risco existencial.

“Para os egípcios, a construção da barragem é uma questão que ameaça a sua existência: um dos exemplos mais claros de um país que é prisioneiro da geografia. O Nilo é a força vital do país e do seu povo”, indicou o escritor e especialista em geografia e geopolítica, Tim Marshall. Ou seja, se a Etiópia decidir fechar a torneira por necessidade ou por ameaça, isso poderá significar o fim do seu vizinho. “Não é que a Etiópia pretenda fechá-la completamente, mas terá capacidade para o fazer”, sustentou o especialista, algo mais do que suficiente para manter os egípcios acordados durante a noite.

“O Egipto é um país em grande parte desértico, pelo que 95% dos seus 112 milhões de habitantes vivem nas margens do delta do rio. O Cairo teme que a mera retenção de 10% da água, por apenas alguns anos, deixe desempregados cinco milhões de agricultores, reduzir a produção agrícola para metade e desestabilizar ainda mais o país”, afirmou Marshall.

Conflito faraónico

A tensão entre a Etiópia e o Egipto sobre o controlo do Nilo não é nova. Desde os tempos faraónicos que as águas deste rio têm sido alvo de disputas e alianças. No entanto, a Grande Barragem levou esta questão a um nível febril. As negociações, mediadas por organizações internacionais e países vizinhos, têm progredido lentamente, com acordos temporários que não respondem às preocupações fundamentais de cada nação.

A Etiópia insiste que tem o direito de utilizar os recursos hídricos para o seu desenvolvimento, referindo que mais de 60% da sua população não tem acesso à eletricidade. O Egipto, por seu lado, exige garantias de que o enchimento e o funcionamento da barragem não comprometerão as suas necessidades de água, especialmente durante os períodos de seca.

Neste complexo panorama, o Sudão desempenha um papel crucial como país intermediário entre a Etiópia e o Egipto. Embora o Sudão possa beneficiar desta grande barragem através de um melhor controlo das cheias e de eletricidade mais barata, também teme os efeitos adversos da gestão unilateral da água por parte da Etiópia.

A diplomacia tentou atenuar estas tensões, mas com resultados limitados. As Nações Unidas, a União Africana e países como os Estados Unidos mediaram as negociações, mas os acordos alcançados até agora foram frágeis e temporários. O Egipto alertou que “todas as opções estão em cima da mesa” se não for garantido um caudal de água adequado, o que inclui implicitamente a possibilidade de conflito armado. In “Executive Digest” - Portugal


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

França - Quer proibir a água engarrafada em embalagens de plástico de pequeno porte

A França tem vários esquemas em vigor para diminuir o uso de plástico, mas o projeto de lei proposto irá ainda mais longe.


Um político francês pediu a proibição de pequenas garrafas plásticas de água, chamando-as de “completamente absurdas” e “um absurdo ambiental”.

Pierre Cazeneuve, que pertence ao partido Renascença do presidente Emmanuel Macron, apresentou uma proposta de lei esta semana que pode acabar com garrafas de água menores que 50 cl.

Desenvolvendo o seu raciocínio "absurdo", Cazeneuve disse que as garrafas diminutas - que abrangem os tamanhos 33, 25 e 17cl - "contêm 20 - 25 gramas de plástico para apenas três ou quatro goles de água". Ele não incluiu garrafas maiores na sua potencial proibição - ainda.

A proposta de proibição de garrafas de água será sancionada na lei francesa?

O projeto de lei proposto terá de passar por vários obstáculos legislativos para se tornar lei.

Para conseguir isso, seria necessário debatê-lo no parlamento e obter o apoio da maioria dos parlamentares.

Atualmente, não é muito provável que isso aconteça, já que a composição atual do governo não só está profundamente dividida, mas também não há maioria partidária na Câmara.

No entanto, se for aprovada, muitos cidadãos franceses provavelmente serão a favor.

Uma pesquisa recente, conduzida pela OpinionWay para as instituições de caridade Zero Waste France e No Plastic in My Sea, descobriu que cerca de dois terços das pessoas no país seriam a favor de tal proibição.

Qual é a situação atual do plástico na França?

Na França, pelo menos 13 mil milhões de garrafas plásticas são produzidas todo o ano.

Para piorar a situação, uma proporção significativa delas não é reciclada, com grande parte delas a acabar nos oceanos, o que causa enormes danos ambientais.

No entanto, a França já tem uma legislação inclusiva que abrange plásticos de uso único.

A chamada "lei anti desperdício" proibiu gradualmente o uso de plásticos de uso único, incluindo talheres, canudos e caixas de comida para viagem, e também impôs limites às embalagens plásticas para comerciantes.

As garrafas plásticas de água, no entanto, não são cobertas pela lei. Há, no entanto, muitos esquemas em andamento para encorajar as pessoas a pararem de comprar novas garrafas plásticas e optarem por garrafas recarregáveis.

Em toda a França, muitas cidades têm fontes de água potável acessíveis, onde as garrafas podem ser recarregadas.

Em Paris, se vir uma placa na janela de um bar ou café com o logotipo "L'eau de Paris", pode encher a sua garrafa com água da torneira sem pagar nada.

A água engarrafada é um assunto delicado na França há muito tempo.

No início deste ano, uma investigação do jornal Le Monde e da emissora Radio France descobriu que quase uma em cada três marcas de água mineral no país passa por um tratamento de purificação que deveria ser usado apenas em água da torneira.

A revelação veio depois que a Nestlé admitiu que tratava a água das suas principais marcas, incluindo Perrier e Vittel, com luz ultravioleta e filtros de carvão ativo.

Isso vai contra uma lei francesa, baseada numa diretiva da União Europeia, que proíbe a desinfecção de água mineral, que supostamente é de alta qualidade natural, antes de ser engarrafada. Euronews.green


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Timor-Leste - Aldeia dá exemplo de restauração da segurança alimentar

Local abalado por escassez de água, desmatamento, erosão e deslizamentos está a recuperar a sua capacidade produtiva por meio de um novo sistema de irrigação e técnicas agroflorestais introduzidos pelo PNUD, os resultados incluem redução da subnutrição em aproximadamente 12%, beneficiando mais de 119 crianças


As terras férteis da aldeia Bahadatu em Timor-Leste sofreram um duplo impacto nas últimas décadas: a escassez de água causada pela alteração climática e os deslizamentos de terra como efeito de práticas agrícolas que assolaram a mata.

Ambos os eventos abalaram as fontes de irrigação, fazendo com que o local historicamente abundante mergulhasse na pobreza. Os campos que antes eram viçosos e verdes tornaram-se estéreis e muitas colheitas falharam. Os rendimentos das famílias diminuíram quase 40%.

Envolvimento da comunidade

A aldeia, localizada no suco (distrito) de Fatulia, ganhou uma nova vida com um projeto do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, que aliou a reconstrução do sistema de irrigação com técnicas agroflorestais nas encostas para proteger a fonte de água dos impactos de deslizamentos.

Ao visitar o local, a ONU News percebeu que a principal razão para o sucesso desta restauração não foram os 415 metros de alvenaria do canal de irrigação nem os 1,5 mil metros quadrados de paisagem recuperada. Foi o envolvimento da comunidade que plantou novas árvores e maneja a irrigação todos os dias com as próprias mãos.

Eles contam com brilho nos olhos sobre as técnicas de plantio que aplicaram e mostram com empolgação o caminho que a água percorre quando é aberta a comporta construída para regular a irrigação dos campos de cultivo.

De acordo com o chefe do Suco Fatulia, Angelino Moisés Pereira, antigamente a comunidade só conseguia plantar arroz uma vez por ano, hoje, eles semeiam duas vezes.


Melhoria da segurança alimentar

Segundo o PNUD, houve um aumento entre 10 e 15% no rendimento das culturas, resultando num volume adicional de 300 a 450 quilos de arroz por hectare. Isso melhorou diretamente a segurança alimentar de 918 moradores e reduziu a subnutrição em aproximadamente 12%, beneficiando mais de 119 crianças.

O projeto, apoiado pelo Fundo Verde do Clima e iniciado em maio de 2023, já garantiu o plantio de 14.665 árvores, incluindo 1334 espécies frutíferas. Com isso, a comunidade irá beneficiar no futuro de uma variedade maior de alimentos.

O agricultor Américo Ximenes Pereira relatou o seu envolvimento dizendo que plantou até agora com sucesso 1,8 mil árvores polivalentes, incluindo rambutan, mogno e laranjeiras.

Disse estar otimista de que dentro de cinco anos estas árvores produzirão uma “colheita substancial”, permitindo-o “vender os frutos no mercado e, assim, melhorar a situação económica” da sua família.

Empoderamento económico das mulheres

O agricultor Câncio Pereira dos Reis, disse que com a orientação recebida da ONG Raebia, parceira do PNUD, todos aprenderam como plantar de forma eficaz para garantir a sobrevivência das árvores.

Sobre o sistema de irrigação, ressaltou que todos partilham a responsabilidade garantindo que cada campo de arroz receba a quantidade adequada de água.

A chefe da aldeia Bahadatu, Edviges da Costa Gusmão,  disse que as mulheres estão plenamente envolvidas em diversas tarefas físicas, tais como plantar árvores, cultivar campos de arroz e estabelecer viveiros de peixes e criadouros.

Segundo ela “estas atividades não só capacitam as mulheres, mas também lhes proporcionam incentivos económicos”.

Necessidade de reabilitação das estradas

No entanto, a líder da aldeia disse que o grande desafio agora é a estrada que conecta os campos com os mercados. As más condições significam que durante a estação chuvosa, não é possível transitar pelo caminho.

Edviges pediu que o PNUD e o governo continuem os esforços de reabilitação para garantir que a comunidade possa “aceder à estrada à medida que a estação das chuvas se aproxima”.

Mateus Soares Maia, representante da ONG Raebia explicou que o governo participou da inauguração deste canal de irrigação e se comprometeu a inaugurar outro em breve na região. O Ministério da Agricultura também forneceu três tratores manuais para os agricultores da aldeia Bahadatu.

O chefe do suco, Angelino Moisés Pereira, disse que até ao final deste ano, com as duas fontes a operar, será possível abastecer de água toda a comunidade do posto administrativo de Venilale.

Culinária Local

Ele comentou que um benefício positivo do envolvimento comunitário é o aumento do conhecimento entre os membros sobre técnicas eficazes de plantação. Isto fez com que um maior número de indivíduos participasse ativamente no cultivo dos campos de arroz.

Esse alimento é preparado de diversas maneiras em Timor-Leste, sendo uma das mais tradicionais a katupa, um bolinho de arroz cozido em leite de coco, temperado com açafrão, alho e sal e enrolado em uma folha de coqueiro ou bambu.

A aldeia Bahadatu, localizada em uma das muitas encostas montanhosas do país, enfrenta dificuldades de acesso, problemas de infraestrutura e pobreza. Mas nada disso diminui a força de vontade da sua gente, que sonha em melhorar de vida por meio da agricultura, nem a hospitalidade com os visitantes, que são recebidos com uma grande variedade de pratos locais como a katupa.

A intervenção do PNUD para melhorar e proteger a irrigação dos campos de cultivo e introduzir árvores frutíferas é, portanto, uma forma de alimentar os sonhos e a identidade de um dos locais mais remotos, de um dos países mais longínquo do mundo. Felipe de Carvalho – Timor-Leste ONU News




sábado, 1 de junho de 2024

Cabo Verde - “Caçadores” de nevoeiro recolhem até 700 litros de água por dia

Uma associação cabo-verdiana da ilha da Brava está a recolher até 700 litros de água a partir da condensação de nevoeiro, utilizando-a na criação de gado, disse à Lusa o líder da iniciativa.

“Há um mês, fizemos a instalação do sistema de captação de água no nevoeiro e agora estamos a monitorizar os resultados”, referiu à Lusa Carlos Bango, membro da associação Biflores, avançando que os painéis esticados nos pontos altos recolhem “entre 500 a 700 litros por dia”.

A chuva é rara no arquipélago e três membros da associação viajaram há sete meses até às ilhas Canárias para aperfeiçoar a técnica de “caçar” o nevoeiro, para captar água.

Na altura, a expectativa era captar até 400 litros de água por dia, mas depois de ter instalado três captadores e conseguir quase o dobro, a associação de conservação da biodiversidade ficou ainda mais motivada com a ideia.

“Estamos a ter grandes resultados. Ficávamos contentes com um bidão de água por dia, mas agora enchemos três bidões, todos os dias”, realçou.

A Biflores está a mobilizar parcerias para instalar mais captadores.

Enquanto isso, armazena água em bidões e num reservatório de duas toneladas.

“Na semana passada, havia condições e conseguimos encher o tanque de duas toneladas”, descreveu.

A comunidade “está muito contente” porque recebe água para criação de gado e até a associação vai passar a alimentar um sistema de rega gota-a-gota para a restauração ecológica de área fruteiras e forrageiras endémicas.

“Vamos também remover espécies invasoras, que consomem muita água e que matam outras plantas endémicas”, acrescentou.

Nesta fase inicial da experiência, sem precisar o número de beneficiários, o líder do projeto explicou que não haverá um limite de distribuição da água: o valor dependerá da necessidade de cada pessoa.

O projeto de captação implementado na ilha surge como resposta às secas severas sofridas pelos cabo-verdianos e que têm afetado sobretudo os agricultores e a conservação das espécies endémicas da ilha.

A ilha da Brava, a mais pequena das nove ilhas habitadas de Cabo Verde, é a que está situada mais a sul e conta com cerca de 5600 habitantes. In “Green Savers” – Portugal com “Lusa”


quarta-feira, 13 de março de 2024

Timor-Leste e Estados Unidos debatem futuro da cooperação

A cooperação futura entre os Estados Unidos e Timor-Leste dominou ontem o encontro entre a responsável adjunta do gabinete para o Sudeste Asiático do Departamento de Estado e o primeiro-ministro timorense. “É realmente notável o quanto alcançamos a trabalhar juntos, mas estamos a olhar para o futuro para ver o que mais podemos fazer para ajudar a atingir alguns dos objectivos e necessidades de desenvolvimento”, afirmou Melissa Brown aos jornalistas no final do encontro com Xanana Gusmão, no início de uma visita ao país.

A responsável norte-americana, que tem ainda previsto um encontro com o Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse também que sai de Timor-Leste “optimista em relação ao futuro”. “Estou entusiasmada com alguns dos novos projectos que temos, relacionados com a água, o saneamento e a educação, e também com alguns programas de nutrição”, disse.

Melissa Brown explicou também que debateu com Xanana Gusmão a adesão de Timor-Leste à Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e como “podem trabalhar juntos”, ao mesmo tempo que analisaram aspectos regionais e globais. “Foi uma conversa muito calorosa e franca”, salientou a responsável daquele gabinete do Departamento de Estado norte-americano.

Brown iniciou ontem uma visita a Timor-Leste, tendo estado já reunida com o chefe da diplomacia timorense, Bendito Freitas, a quem felicitou pela adesão à Organização Mundial do Comércio.

Os Estados Unidos e Timor-Leste assinaram em 2022 um acordo de cooperação até 2027, focado na melhoria das condições de água e saneamento em Díli e arredores e na criação de um centro para formação de professores e responsáveis educativos. In “Ponto Final” - Macau


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Espanha - Luta contra a escassez de água nas ilhas Canárias, Catalunha e Andaluzia

A ilha de Tenerife enfrenta meses ou possivelmente anos de escassez crítica de água, dizem os especialistas


Tenerife está a planear declarar uma emergência hídrica na sexta-feira, já que os reservatórios estão com níveis baixos devido à seca contínua.

Algumas zonas de Espanha e das Ilhas Canárias estão a sofrer graves secas. A presidente do governo de Tenerife, Rosa Dávila, afirma que foi um dos “invernos mais secos da história recente” para a ilha.

Tenerife deverá declarar a emergência hídrica na sexta-feira, após uma sessão plenária. Dávila está confiante de que a iniciativa terá o apoio unânime de todos os partidos políticos, uma vez que “o povo de Tenerife não vê diferenças ideológicas nisto”.

A ilha enfrenta meses ou possivelmente anos de escassez crítica de água, dizem os especialistas.

Tenerife vive um dos invernos mais secos da história

As zonas centrais de Tenerife estão a sofrer uma seca extrema e prolongada, com grave escassez de água que pode continuar durante meses ou mesmo anos, de acordo com relatórios técnicos.

Apesar de ser uma das Ilhas Canárias mais verdes, Tenerife sofreu uma ausência crítica de chuva naqueles que deveriam ser os meses de inverno mais chuvosos - especialmente nas zonas do norte.

Nos últimos anos, a precipitação também diminuiu entre 15 e 40 por cento. A evaporação da água aumentou entre 10 e 25 por cento nas regiões centrais agrícolas da ilha devido às temperaturas mais elevadas.

Este mês de Janeiro registou temperaturas médias de 20,9ºC, tornando-o o mais quente da ilha em 60 anos.

Tenerife declarará emergência de seca

As condições extremas obrigaram o governo local a tomar medidas agora para garantir o abastecimento de água durante os meses secos de verão.

Relatórios locais dizem que a partir de 1 de Fevereiro, os reservatórios estavam com 34,6 por cento da capacidade, em comparação com 52 por cento no mesmo período do ano passado.

Dávila disse que “garantir o abastecimento de água aos cidadãos e ao interior de Tenerife é uma questão essencial que não pode ter preferências políticas”.

O vice-presidente Lope Afonso alertou ainda que a seca terá “graves consequências para o sector agrícola”.

A par da emergência hídrica a declarar na sexta-feira, o Conselho da Água da Ilha de Tenerife e o Ministério do Turismo planeiam lançar campanhas de informação pública.

Estas serão dirigidas aos residentes, mas também aos turistas e visitantes, sublinhando a importância do uso responsável da água.

A seca e o calor extremo provocaram incêndios florestais que devastaram áreas das florestas da ilha em agosto de 2023.

Tenerife luta com escassez de água

Tenerife está a estudar formas de combater a escassez de água, incluindo o aumento da capacidade das estações de tratamento e dessalinização de água para aumentar o abastecimento à agricultura e às habitações.

A ilha não tem rios e tem muito poucas barragens, pelo que depende de fontes subterrâneas para 80 por cento do seu abastecimento.

Outras áreas de Espanha também enfrentam problemas de escassez de água. As autoridades da Catalunha declararam uma emergência de seca em Barcelona no dia 1 de Fevereiro.

A região da Andaluzia restringirá o uso de água no verão em algumas cidades, incluindo Sevilha e Córdoba, a menos que a área veja “pelo menos 30 dias consecutivos de chuva”, segundo o presidente regional. Euronews.green


sábado, 17 de fevereiro de 2024

Luxemburgo - Disponibiliza verba a Cabo Verde para reforço do acesso aos serviços de água e saneamento

O Grão-Ducado do Luxemburgo vai disponibilizar mais 6 milhões de euros a Cabo Verde, no quadro do Programa Indicativo de Cooperação “Desenvolvimento – Clima- Energia” que visa aumentar o acesso aos serviços de água e saneamento no país


A informação foi avançada à imprensa pelo encarregado de Negócios do Luxemburgo em Cabo Verde, Thomas Barbancey, na abertura da III Reunião do Comité de Pilotagem do Programa Água e Saneamento, que foi co-presidida pelo ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva.

O encontro teve como objetivo fazer o balanço do trabalho realizado em 2023 e planear as atividades para 2024, no âmbito do programa conjunto de cooperação Luxemburguesa e Cabo Verde que visa assegurar que todos tenham acesso aos serviços de água e saneamento de qualidade e a um custo acessível.

“Para nós é evidente constatar que muitos foram os progressos alcançados pelo país nesta área, especialmente no sector da água”, observou Thomas Barbancey, que sublinhou que, ao contrário de há 20 ou 30 anos, a problemática essencial deixou de ser a disponibilidade de água para as pessoas e passou a ser a universalização da ligação de água potável à casa.

Para este ano, avançou, o Comité irá aprovar um plano de trabalho de mais de 6 milhões de euros, (aproximadamente 660 mil contos), cujo principal objetivo é, por um lado, realizar atividades dirigidas ao reforço da eficiência técnica e operacional das empresas municipais, e, por outro, o reforço da consolidação da governança e seguimento do sector.

O encarregado de Negócios do Luxemburgo salientou a parceria com as entidades gestoras, centrada na otimização da gestão técnica e comercial do sector, adiantando que serão beneficiárias especiais deste pacote, a Água Brava, Águas de Santiago, Águas e Energia do Maio e a Águas e Energia da Boa Vista.

“A estas juntam-se agora mais duas, Santo Antão e São Nicolau, pela criação das suas empresas municipais de água e saneamento que substituirão os antigos SAAS”, disse, realçando o empenho do Governo neste processo.

Por isso, assegurou que o Luxemburgo pretende este ano continuar a dar suporte aos esforços para a redução de perdas de água nas redes da Praia, em seis bairros da capital, e no Porto Inglês, na ilha do Maio, assim como continuar a apoiar os trabalhos de reabilitação de 51 escolas do país.

Por seu lado, o Governo, através do ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, enalteceu a contínua parceria com Cabo Verde, considerando que Luxemburgo é “um dos maiores e mais constantes parceiros” do país em matéria de água e saneamento.

“É um projeto que contribui para a redução das perdas, físicas e comerciais, para a melhoria do funcionamento das redes de distribuição, para a redução dos custos de produção e distribuição, relativamente ao investimento nas renováveis, também na melhoria do desempenho das entidades gestoras”, indicou.

De modo que, concluiu, este e outros programas executados no âmbito da cooperação com Luxemburgo têm dado resultados concretos, e contribuído para melhorar o bem-estar dos cidadãos cabo-verdianos. In “Inforpress” – Cabo Verde


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Espanha - Introduz restrições de água à medida que os reservatórios secam

Uma emergência de seca foi declarada em algumas partes da Catalunha, onde as pessoas estão a ser instadas a reduzir o consumo de água


A Catalunha declarou emergência de seca em 24 municípios na semana passada, após a falta de chuvas nos últimos 30 meses.

Os níveis dos reservatórios estão baixos e restrições de água foram impostas por causa da seca. 

O reservatório de Darnius Boadella, no nordeste da Espanha, está com apenas 20% de sua capacidade.

Artur Duran estende a mão à cintura para mostrar o nível de água de que se lembra há dois anos. Então, ainda era profundo o suficiente para navegar. Agora, uma longa seca quase o esvaziou.

"Nunca o vimos tão baixo", disse o morador local de 79 anos à Reuters no reservatório.

A seca está a deixar os reservatórios vazios

As pessoas tomaram banho de sol na margem recém-exposta do reservatório, onde surgiram algumas manchas de erva. Alguns visitantes tentaram remar.

As autoridades da Catalunha impuseram na semana passada novas restrições de uso de água em 22 aldeias ao redor do reservatório, perto da fronteira com a França, já que o aquífero que as abastece também está a esvaziar-se.

A Espanha registou o início de ano mais seco nos primeiros quatro meses de 2023 desde que os registos começaram na década de 1960, com a Catalunha e a Andaluzia, no sul da Espanha, sendo as mais afetadas.

Várias ondas de calor registadas na Espanha e em toda a Europa neste verão pioraram a seca, diminuindo os níveis dos reservatórios à medida que a evaporação e o consumo de água aumentaram, disse Ruben del Campo, porta-voz da agência meteorológica espanhola AEMET.

A Catalunha declara emergência de seca em dezenas de aldeias

As 22 aldeias, mais duas no sul da Catalunha, que totalizam cerca de 25000 habitantes, estão em estado de emergência hídrica.

Isso significa que eles devem reduzir o seu consumo para uma média diária de 200 litros de água por habitante, de um limite anterior de 230.

As autoridades ainda não estão a limitar a água para consumo humano, mas a irrigação para fins agrícolas será amplamente proibida, e o uso de água para fins industriais e recreativos deve cair 25%.

A vila de Agullana, com 900 moradores, vem mantendo o consumo de água abaixo do limite de 200 litros há vários meses, mas o seu prefeito disse que outras medidas serão implementadas.

"Reduziremos a zero a irrigação dos jardins, do campo de futebol, do relvado da piscina, que veremos amarelar como se tivesse queimado", disse Josep Jovell.

Nenhuma água será usada para limpar as ruas, apenas serão varridas, acrescentou. Euronews Green com “Reuters”


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Espanha - A dessalinização pode ajudar a combater a crise da água?

Barcelona está a apoiar-se na maior central de dessalinização da Europa, já que a seca reduz o abastecimento de água


Quando pensamos em economia circular, geralmente vem-nos à mente reparar e reciclar produtos. Mas há um elemento importante que muitas vezes é esquecido: a água.

Como um recurso finito que sustenta toda a vida na Terra, a água é essencial para a nossa sobrevivência.

Com partes da Europa enfrentando secas severas, a crise da água nunca pareceu tão próxima da nossa casa.

A gestão responsável deste precioso recurso é essencial, pois os suprimentos são ameaçados pelo clima imprevisível e populações crescentes.

Com as reservas de água potável diminuindo devido às ondas de calor e à seca, Barcelona está a recorrer à maior central de dessalinização de água da Europa como uma tábua de salvação para os moradores ressequidos.

Onde antes a segunda cidade da Espanha bebia principalmente dos seus rios e poços, agora ela depende de uma malha labiríntica de canos verdes, azuis e roxos dentro de uma planta industrial para evitar que fique com sede.

Mal utilizada após ser construída em 2009, a central de dessalinização está a funcionar “a todo o vapor” para ajudar a área metropolitana de Barcelona e cerca de cinco milhões de pessoas a adaptarem-se ao impacto das alterações climáticas.

Como funciona a central de dessalinização de Barcelona?

A central de dessalinização de Llobregat bombeia água a uma distância de dois quilómetros no Mar Mediterrâneo, onde fica num percurso isolado da praia.

Depois de passar por vários sistemas de limpeza e filtragem, chega à sua parte final: os canais multicoloridos que torcem e giram que espremem cada gota de água para livrá-la do seu sal.

Em abril de 2021, antes da seca, os rios forneciam 63% da água potável de Barcelona, ​​os poços forneciam 34% e a dessalinização apenas 3%.

Dois anos depois, a dessalinização representa 33 por cento da água potável da cidade, enquanto os poços fornecem 23 por cento e os rios encolheram para apenas 19 por cento, de acordo com a companhia municipal de água de Barcelona.

Por que Barcelona precisa de uma central de dessalinização?

A região do Mediterrâneo está a aquecer a um ritmo mais rápido do que muitas outras áreas do globo. Isso levou a um recorde de calor em 2022 na Espanha e a uma seca generalizada que está a prejudicar a agricultura.

A falta de água é particularmente grave no nordeste da Catalunha, cuja agência de água prevê que os seus recursos hídricos diminuirão 18% antes de 2050.

Os reservatórios alimentados pelas bacias hidrográficas do norte da Catalunha estão atualmente com apenas 25% da sua capacidade. Limites foram colocados na quantidade de água disponível para agricultura, indústria e alguns usos municipais.

Mas as autoridades ainda não tiveram de tomar medidas drásticas como durante a seca de 2006-2008, quando navios-tanque transportaram água potável.

“Sabíamos que mais cedo ou mais tarde viria uma seca”, diz Carlos Miguel, gerente da fábrica de Llobregat.

“Enquanto durar a seca, a central vai continuar a funcionar. Isso está claro.

As autoridades responsáveis pelo abastecimento de água preveem que a área de Barcelona está a caminhar para uma 'emergência de seca' oficial, o que implicará em restrições mais rígidas, até setembro.

“Prevemos que nos próximos tempos as chuvas serão acima da média, mas isso não compensa os 32 meses de seca”, diz Samuel Reyes, chefe da Agência Catalã de Água.

A central de dessalinização é sustentável?

Embora a construção da central de Llobregat seja o resultado de as autoridades atenderem aos alertas de especialistas em clima e planearem com antecedência, ela tem altos custos económicos e ambientais.

No processo de dessalinização da central de Llobregat, para cada 0,45 litro de água doce, são produzidos como resíduo cerca de 0,55 litro de salmoura extremamente salgada. Esta é despejada no mar, onde a sua carga super salgada pode prejudicar o ecossistema.

Outro problema premente para o planeta são os processos intensivos em energia envolvidos na dessalinização.

O processo de osmose reversa, onde a alta pressão força a água do mar através de membranas que separam o sal, requer muita energia que ainda não vem inteiramente de fontes de energia renováveis.

A Espanha gerou 42% de sua eletricidade a partir de fontes de energia renováveis ​​em 2022 e espera chegar a 50% este ano, mas ainda usa grandes quantidades de gás natural que aquece o planeta. A eletricidade gerada pelos painéis solares da central de Llobregat vai para a rede elétrica, não diretamente para as operações do local.

Turismo e agricultura sobrecarregam os recursos hídricos na Espanha

Julio Barea, especialista em água do Greenpeace na Espanha, enfatiza que a dessalinização não é uma panaceia.

Barea cita o aumento constante do uso de água na Espanha nas últimas décadas para apoiar dois dos pilares económicos do país: agricultura e turismo.

Cerca de 80% da água da Espanha vai para a agricultura, calcula o Greenpeace, enquanto as áreas costeiras, incluindo Barcelona, ​​são grandes atrativos turísticos, muitos oferecendo hotéis com piscinas que precisam de ser atestadas. As restrições de água a serem implementadas em breve na Catalunha proibirão o enchimento de piscinas privadas, enquanto os hotéis ainda poderão encher as deles.

“[As autoridades] têm de fornecer água potável para as pessoas, mas as centrais de dessalinização têm um impacto porque são essencialmente fábricas de água que precisam de muita energia”, diz Barea. “Deveria ser o último recurso e devemos nos perguntar como chegámos a esta situação.”

Onde mais depende da dessalinização?

A dessalinização formou uma parte fundamental da política de água da Espanha por mais de meio século.

A ilha de Lanzarote, no arquipélago espanhol das Ilhas Canárias, instalou a primeira central de dessalinização da Europa em 1964. A indústria continuou crescendo no país do sul da Europa, propenso a verões longos e secos.

O desenvolvimento e difusão da técnica de osmose inversa nas décadas de 1980 e 1990, juntamente com a redução de custos, levaram à sua implantação em muitas zonas da Espanha continental.

A Espanha é agora a quarta no mundo pela sua capacidade de dessalinização, cerca de 5% do total global, atrás da Arábia Saudita, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos, de acordo com a Associação Espanhola de Dessalinização e Reutilização de Água.

A capacidade de dessalinização aumentou constantemente em todo o mundo na última década, com novas tecnologias, tendo um aumento maior na Europa e na África.

A Espanha tem cerca de 800 centrais de dessalinização que podem produzir 5 milhões de litros cúbicos por dia de água para beber, agricultura e indústria. Se fosse dedicado exclusivamente ao consumo humano, saciaria a sede de 34 milhões de pessoas - mais de 70% da população da Espanha.

Como parte de um pacote de resposta à seca de € 2,2 mil milhões, o governo nacional da Espanha disse esta semana que estava a reservar € 220 milhões para expandir outra central de dessalinização ao norte de Barcelona, ​​além de outros € 200 milhões para uma central na costa sul da Espanha. Também se comprometeu a gastar 224 milhões de euros na melhoria dos sistemas de purificação de água no sul da Espanha.

Este pequeno milagre de inovação científica, no entanto, inclui ainda mais custos.

Quanto custa a dessalinização?

Segundo a empresa pública que gere a central de Llobregat, mil litros de água dessalinizada custam 0,70 euros a produzir, contra 0,20 euros a mesma quantidade de água retirada do rio Llobregat e purificada para beber. Isso significa uma carga tributária mais pesada e, possivelmente, contas de água mais altas.

Xavier Sánchez-Vila, professor de engenharia civil e especialista em águas subterrâneas da Universitat Politècnica de Catalunya, disse que, embora as centrais de dessalinização como a de Barcelona tenham fornecido uma tábua de salvação em tempos de crise, as autoridades devem continuar a diversificar as suas estratégias e concentrar-se em melhorar a purificação e reutilização da água.

“Claro que com as alterações climáticas sabemos que as secas vão ser mais frequentes e por isso há esta necessidade [de dessalinização]”, diz. “Mas em termos económicos, não tenho a certeza absoluta se faz sentido continuar a construir talvez mais alguns, mas sabendo que esta é uma solução muito cara."

Quais são as alternativas à dessalinização?

À medida que as populações urbanas continuam a crescer, as cidades em todo o mundo exigirão mais água e produzirão mais águas residuais e poluição da água. Enquanto isso, as secas devem tornar-se mais frequentes e severas, de acordo com a ONU.

Portanto, confiar num modelo linear de uso e descarte não é mais viável.

Então, de que outra forma podemos alavancar a economia circular para reutilização e reciclagem de água?

Como alternativa à dessalinização, Sánchez-Vila aplaude o aumento do uso de águas residuais tratadas em Barcelona numa estação de tratamento separada situada ao lado da instalação de Llobregat. Essa água tratada que é reintroduzida rio acima e depois disponível para ser puxada de volta para o abastecimento da cidade agora representa 25% da água de Barcelona.

Isto pode ser aplicado em menor escala em casa, com edifícios projetados para usar a água mais de uma vez em um formato de 'cascata' - por exemplo, água de chuveiros sendo reutilizada para descarga de vasos sanitários.

As águas residuais agrícolas podem ser purificadas naturalmente usando pântanos construídos, que apresentam plantas que absorvem nitrogénio e fosfato.

Combater uma das principais causas subjacentes à escassez de água - a alteração climática - reduzindo as emissões de gases de efeito estufa continua a ser essencial. Euronews.green