Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Internacional - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde lidera programa doutoral para estudar o cérebro

Consórcio internacional reúne 23 parceiros de 12 países para formar 15 doutorandos e explorar novas abordagens terapêuticas para doenças neurológicas e psiquiátricas


O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto vai coordenar, pela primeira vez, um consórcio internacional no âmbito das Marie Skłodowska-Curie Actions – Doctoral Networks, tendo sido distinguido com um financiamento europeu de 4,5 milhões de euros para a criação de um programa doutoral pioneiro no domínio das neurociências.

Coordenado por Olga Sin e denominado AstroCirc, este programa doutoral reúne 23 parceiros académicos e não académicos, de 12 países europeus, incluindo Portugal, Reino Unido, Noruega, Áustria, República Checa e Alemanha. O objetivo principal é investigar o papel dos astrócitos — as células não neuronais mais abundantes no cérebro — na formação, funcionamento e manutenção dos circuitos cerebrais.

“Queremos compreender os mecanismos que estão na base da disfunção dos astrócitos num conjunto alargado de doenças neurológicas e psiquiátricas, incluindo epilepsia, depressão, doença de Alzheimer e doença de Parkinson, e abrir caminho a abordagens terapêuticas mais integradas e inovadoras”, sublinha Olga Sin.

Formação doutoral internacional e intersetorial

Com início previsto para 2027 e duração de três anos, o AstroCirc vai formar 15 estudantes de doutoramento, especializados nas interações astrócito-neurónio e na dinâmica dos circuitos neurais.

Os doutorandos serão distribuídos por 12 instituições académicas do consórcio e terão a oportunidade de realizar estágios noutras instituições académicas e parceiros não académicos, promovendo uma verdadeira mobilidade internacional e intersetorial. Dois estudantes vão ficar sedeados no i3S, cabendo ao Instituto da U.Porto receber mais quatro doutorandos de outras instituições em sistema de rotatividade.

De acordo com Olga Sin, o programa distingue-se por uma abordagem simultaneamente interdisciplinar e intersetorial: “É interdisciplinar porque reúne investigadores de renome internacional em biologia glial, provenientes de backgrounds científicos muito diversos, que colaboram pela primeira vez para responder a questões científicas complexas a partir de perspetivas complementares”.

Por outro lado, continua a gestora do programa, “é intersetorial porque expõe os doutorandos a contextos para além da academia, através de estágios, cursos e workshops dinamizados por empresas de biotecnologia, indústria farmacêutica, editores-chefes de revistas científicas, associações de doentes e profissionais da área do direito”.

Preparar carreiras dentro e fora da academia

Para além de proporcionar uma formação científica de excelência, o AstroCirc pretende capacitar os doutorandos para tomarem decisões informadas sobre os seus percursos profissionais, seja na investigação académica, na indústria ou outros setores da sociedade.

Para Olga Sin, este programa doutoral tem um significado pessoal e profissional profundo. Tendo feito a transição da investigação para a gestão de projetos científicos, explica, a coordenação do AstroCirc é “a concretização de um sonho profissional”.

“Conceber um programa educativo de raiz, ajustado às necessidades atuais da nossa área de investigação, é exactamente onde queria estar nesta fase da minha carreira. Vou ter o privilégio de moldar a próxima geração de cientistas, gestores de ciência ou líderes em setores não académicos, e fazê-lo num contexto internacional”, sublinha.

A gestora destaca ainda a importância do contacto próximo com os doutorandos e da colaboração com parceiros fora da academia: “Motiva-me a poder contribuir de forma ativa e próxima para a educação e carreira de jovens promissores, trabalhando lado a lado com cientistas de renome e com exemplos de sucesso na biotecnologia, farmacêutica, advocacia, edição científica e empreendedorismo”.

Sobre as MSCA Doctoral Networks

As redes de doutoramento Marie Skłodowska-Curie Actions constituem um dos instrumentos centrais de financiamento do Horizonte Europa, focado na formação de doutorandos de elevado nível.

Cada rede apoia um grupo de investigadores em fase de doutoramento, distribuídos entre as instituições parceiras do consórcio, promovendo a mobilidade internacional, a colaboração interdisciplinar e a articulação com o setor não académico.

Para mais informações, consultar a página da iniciativa. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Portugal - Investigação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde recebe financiamento da Fundação «la Caixa»

Projetos nas áreas dos danos cerebrais, cancro e autismo estão entre os 34 distinguidos no âmbito do Concurso de Investigação em Saúde 2025


Desenvolver novas terapias para doenças neurológicas como o AVC, a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica, criar um dispositivo implantável para tratar o glioblastoma e melhorar a avaliação do risco de desenvolver autismo são os principais objetivos dos três projetos liderados por investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), que acabam de ser distinguidos no âmbito do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa”. O financiamento total ascende a quase três milhões de euros.

As três propostas do i3S estão entre um total de 34 projetos (portugueses e espanhóis) de investigação biomédica de excelência, que vão receber mais de 26 milhões de euros. Nesta oitava edição, foram apresentadas 714 propostas de investigação básica, clínica e translacional, tendo sido selecionadas nove portuguesas e 25 espanholas.

No âmbito deste concurso, a Fundação “la Caixa” concede até 500 mil euros a projetos com uma única instituição de investigação envolvida e até um milhão de euros a consórcios de investigação formados por várias instituições, como acontece com os projetos liderados por investigadores do i3S.

Uma nova forma de combater os danos cerebrais a partir do interior

Liderado por Ana Paula Pêgo, líder do grupo «NanoBiomaterials for Targeted Therapies» do i3S, o projeto «MIND» foi financiado pela Fundação “la Caixa” e pela FCT com um milhão de euros e vai focar-se nas doenças neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que afetam milhões de pessoas em todo o mundo, provocando frequentemente incapacidades a longo prazo ou mesmo a morte.

Uma das principais causas do dano cerebral associado a estas doenças, explica a investigadora do i3S, “é a acumulação no cérebro de uma substância química que, em excesso, leva à morte neuronal. Apesar de décadas de investigação, nenhum tratamento conseguiu até agora proteger eficazmente o cérebro deste processo”. Embora a maioria dos estudos se tenha centrado em formas de neuroproteção focando-se nos neurónios, Ana Paula Pêgo considera que a chave poderá residir noutro tipo de célula cerebral: os astrócitos.

Este projeto propõe uma nova estratégia de proteção cerebral, que consiste em aumentar a eficiência dos astrócitos. Conforme explica Ana Paula Pêgo, “os astrócitos eliminam o excesso da substância química nociva, mas durante um AVC ou outro evento neurológico agudo, não conseguem manter o equilíbrio, o que leva à acumulação de danos”.

Como tal, a equipa propõe uma solução inovadora: “Introduzir diretamente nos astrócitos instruções úteis através de ARN mensageiro (mRNA) que dão indicações às células para produzir mais quantidade de uma proteína essencial para eliminar a substância química tóxica”. Para garantir a segurança e eficácia do tratamento, os investigadores estão a desenvolver pequenas partículas inteligentes capazes de libertar a sua carga apenas nas áreas danificadas do cérebro.

O projeto, que será desenvolvido em consórcio com os investigadores Francisco Campos, do Instituto de Investigación Sanitaria de Santiago de Compostela (IDIS) (Espanha), e Ben Maoz, da Universidade de Telavive (Israel), inclui ainda o desenvolvimento de um modelo tridimensional (3D) relevante para mimetizar o cérebro humano, que «permitirá testar a terapia em condições fisiológicas realistas, bem como a utilização de ferramentas de imagem avançadas para monitorizar os efeitos do tratamento, que será testado no contexto do AVC», sublinha Ana Paula Pêgo.

Se alcançar os objetivos propostos, garante a cientista, «esta abordagem poderá abrir caminho a novas terapias, não só para o AVC, mas também para outras doenças cerebrais com mecanismos semelhantes de dano neuronal».

Dispositivo implantável para administração de fármacos contra o glioblastoma

Financiado com 990 mil euros, o projeto liderado por Bruno Sarmento, em consórcio com os investigadores Bruno Costa, da Universidade do Minho, e Álvaro Mata, da Universidade de Nottingham (Reino Unido), vai centrar-se no tratamento do glioblastoma, o tipo de cancro cerebral mais letal em adultos. Os tratamentos atuais, que incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia e pouco têm evoluído nas últimas duas décadas, apresentam resultados limitados devido à resistência do tumor e à dificuldade em dirigir fármacos diretamente ao cérebro.

A equipa pretende revolucionar o tratamento do glioblastoma através do desenvolvimento de um sistema terapêutico implantável capaz de libertar moléculas anticancerígenos diretamente no cérebro após a cirurgia de remoção do tumor. O sistema, explica Bruno Sarmento, “foi concebido para libertar, de forma controlada e gradual, uma combinação de fármacos que combatem o cancro de forma mais eficaz e reduzem a necessidade de quimioterapia diária”.

O projeto, adianta, “envolve o desenho de um novo tipo de implante, capaz de libertar fármacos quimioterápicos, inibidores da resistência ao tratamento e sequências de ARN dirigidos especificamente às células cancerígenas”.  O objetivo, sublinha Bruno Sarmento, é que “esta estratégia inovadora melhore a efetividade dos fármacos, reduza os efeitos secundários e aumente a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes”.

Para já, os dados preliminares são promissores: “O novo sistema demonstrou reduzir significativamente o crescimento tumoral em modelos laboratoriais. Os resultados esperados incluem maiores taxas de sobrevivência, menores efeitos adversos e um novo padrão de cuidados para doentes com glioblastoma”, garante o líder do grupo «Nanomedicines & Translational Drug Delivery» do i3S. Estes avanços, adianta Bruno Sarmento, “poderão ainda abrir caminho ao desenvolvimento de tratamentos semelhantes para outros tipos de tumores cerebrais, com impacto significativo na saúde pública e nos custos dos sistemas de saúde”.

Como pequenas alterações no ADN moldam o cérebro em desenvolvimento

Sabe-se que o transtorno do espectro autista (TEA), que afeta aproximadamente uma em cada 44 crianças, tem uma forte base genética. No entanto, a maioria das alterações genéticas associadas ao TEA não se encontra propriamente nos genes, mas nas regiões não codificantes do ADN que controlam a ativação e inativação dos genes. A equipa liderada pelo investigador do i3S Diogo Castro quer compreender como essas alterações influenciam o desenvolvimento cerebral com o objetivo de “explicar a origem do TEA e melhorar os métodos de avaliação do risco de desenvolver este transtorno”.

Este projeto, financiado pela Fundação “la Caixa” em colaboração com a FCT com mais de 730 mil euros, visa descobrir o efeito dessas alterações genéticas não codificantes no desenvolvimento do cérebro, especialmente nas primeiras etapas, durante a formação da estrutura cerebral.

As equipas do consórcio, que inclui os investigadores Gaia Novarino, do Institute of Science and Technology Austria (ISTA) (Áustria), e Justin O’Sullivan, do The Liggins Institute, University of Auckland (Nova Zelândia), vão utilizar ferramentas avançadas para analisar milhares de variantes genéticas e observar como elas influenciam a atividade genética de células cerebrais humanas cultivadas em laboratório.

Além disso, explica Diogo Castro, “vamos utilizar ferramentas de inteligência artificial para identificar quais das alterações genéticas associadas com o TEA têm um maior valor de prognóstico. Isto levará à criação de um modelo que poderá ajudar a prever quais as crianças que estão em risco de desenvolver TEA, permitindo assim um diagnóstico e intervenção precoces”.

Para compreender como essas alterações afetam o desenvolvimento cerebral, os investigadores do projeto, “vão editar variantes genéticas específicas em células estaminais e cultivá-las em minicérebros ou organoides. Isso permitirá observar o efeito das alterações na formação e no funcionamento do tecido cerebral”. O projeto conta com a participação de especialistas em desenvolvimento cerebral, genética e ciência de dados, estando como tal bem posicionado para enfrentar um desafio complexo.

Sobre o concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” de 2025

A cerimónia de entrega dos prémios decorreu no dia 20 de novembro no Museu de Ciência CosmoCaixa. Segundo Àngel Font, subdiretor-geral de Investigação e Bolsas da Fundação ”la Caixa”, «a investigação biomédica é uma das formas mais poderosas de melhorar a vida das pessoas. Os 34 projetos premiados abordam desafios muito diversos a partir de diferentes perspetivas, mas todos partilham três eixos fundamentais para avançar rumo a um futuro mais promissor para os doentes e as suas famílias: colaboração, talento e inovação”. De acordo com a Fundação la Caixa, os projetos portugueses deste ano sobressaem pelo seu carácter inovador e elevado impacto social.

Este ano, A Fundação la Caixa desenvolveu acordos com a Fundação Breakthrough T1D e com a Fundação Luzón, o que permitiu dar maior destaque ao financiamento de iniciativas centradas na diabetes tipo 1, com dois projetos financiados, e na esclerose lateral amiotrófica (ELA), com um projeto financiado. O concurso conta ainda com a colaboração da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que destinou 1,8 milhões de euros para financiar três dos nove projetos portugueses premiados nesta edição.

Desde o início do programa em 2018, o montante total do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” ascende a 172,3 milhões de euros para 234 projetos, dos quais 162 são liderados por equipas espanholas e 72 por grupos de investigação portugueses. Universidade do Porto - Portugal


terça-feira, 2 de maio de 2023

Internacional - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde integra consórcio pioneiro para tratar doenças neurológicas

Os investigadores vão desenvolver metodologias para tratar doenças neurológicas associadas à perda de neurónios, intervindo diretamente no cérebro dos doentes


O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) é um dos parceiros de um projeto internacional recentemente financiado com mais de 16 milhões de euros (24 milhões de dólares canadianos) pelo «New Frontiers in Research Fund (NFRF)—Transformation Grant». O objetivo do consórcio, que integra 20 grupos de investigação canadianos e quatro europeus, é desenvolver metodologias para tratar certo tipo de doenças neurológicas associadas à perda de neurónios, intervindo diretamente no cérebro dos doentes, mais especificamente no local onde se verificou a lesão.

Atribuído pelo conjunto das três agências governamentais Canadianas para a investigação – Canadian Institutes of Health Research (CIHR), Natural Sciences and Engineering Research Council (NSERC) and Social Sciences and Humanities Research Council (SSHRC) -, este financiamento tem a duração de seis anos e começou no início de março, sob coordenação do Sunnybrook Research Institute, no Canadá. A equipa do i3S, coordenada pelo investigador Diogo Castro, líder do grupo «Stem Cells & Neurogenesis», irá receber cerca de 750 mil euros.

Apesar de não existir cura para os distúrbios neurológicos associados à disfunção ou perda neuronal, a chamada reprogramação neuronal direta (conversão de outras células em neurónios) é cada vez mais encarada como uma estratégia promissora para “reparar” o cérebro em situações patológicas associadas a perda de neurónios, como por exemplo no caso de doenças neurodegenerativas, ou acidentes vasculares cerebrais.

Na base desta ideia estão resultados encorajadores de experiências desenvolvidas em células em cultura, e que usam proteínas, chamadas fatores de transcrição, para ligar e desligar genes que dão às células características de neurónios.

Reprogramar os neurónios

O desafio, agora, é efetuar a reprogramação neuronal diretamente no cérebro. Para isso, explica o investigador Diogo Castro, “é preciso ultrapassar algumas barreiras”, que o consórcio já identificou como sendo os seus objetivos estratégicos para os próximos seis anos.

Usando, para já, modelos animais, os investigadores vão procurar identificar o conjunto de fatores de transcrição ideal para obter determinados tipos de neurónios (sendo que cada doença está associada à perda de tipos específicos de neurónios); desenvolver metodologias para colocar os fatores dentro das células cerebrais que se quer reprogramar, e encontrar formas de avaliar o sucesso da reprogramação neuronal, por exemplo usando técnicas de imagiologia do funcionamento cerebral.

O objetivo a longo prazo, sublinha Diogo Castro, “é conceber aplicações clínicas para reprogramação neuronal diretamente no cérebro dos pacientes, mais especificamente na zona onde houver perda de neurónios, gerando novos neurónios a partir de células residentes do cérebro adulto, nomeadamente os astrócitos. Mas primeiro é necessário fazermos prova de conceito em modelos pré-clínicos”.

Os astrócitos, explica o investigador, “pela sua plasticidade, abundância e localização, são o candidato ideal para este efeito, já que podem ser convertidos em neurónios com relativa facilidade e se encontram disseminados por todo o órgão”.

O papel do i3S

O grupo de Diogo Castro no i3S tem vindo a desvendar como funcionam os fatores de transcrição envolvidos na geração dos neurónios durante o desenvolvimento embrionário, e que serão os mesmos usados no processo de reprogramação.

No âmbito específico deste consórcio, irá contribuir para o mapeamento dos locais de ligação dos fatores de transcrição ao genoma dos astrócitos, durante a reprogramação neuronal.

Este é um passo importante para se conseguir melhorar este processo, identificando as barreiras naturais existentes, e tornando-o o mais eficiente possível. Universidade do Porto - Portugal