Agachado entre montanhas de plástico descartado, Lanh retira os rótulos das garrafas de Coca-Cola, Evian e chás vietnamitas locais para que possam ser derretidos e transformados em pequenos grânulos para reutilização. Mais lixo chega diariamente, acumulando-se como nevões multicoloridos ao longo das estradas e rios de Xa Cau, uma das centenas de aldeias de reciclagem “artesanais” que rodeiam Hanói, a capital do Vietname, onde o lixo é separado, triturado e derretido
As aldeias apresentam um paradoxo:
permitem a reutilização de parte das 1,8 milhões de toneladas de resíduos
plásticos que o Vietname produz anualmente e possibilitam aos trabalhadores a
obtenção de salários tão necessários. Mas, a reciclagem é feita com pouca
regulamentação, polui o ambiente e ameaça a saúde dos envolvidos, disseram à
AFP trabalhadores e especialistas.
“Este trabalho é extremamente sujo. A poluição ambiental
é realmente grave”, disse Lanh, de 64 anos, pedindo para ser identificada
apenas pelo primeiro nome por receio de perder o emprego.
É um dilema enfrentado por muitas economias em rápido
crescimento, onde a utilização e eliminação do plástico ultrapassou a
capacidade do governo de recolher, separar e reciclar. Mesmo nos países ricos,
as taxas de reciclagem são frequentemente muito baixas porque a reutilização de
produtos plásticos pode ser cara e as taxas de triagem são baixas.
No entanto, os métodos rudimentares utilizados nas
aldeias artesanais do Vietname produzem emissões perigosas e expõem os
trabalhadores a produtos químicos tóxicos, alertam os especialistas.
“O controlo da poluição do ar é zero nestas instalações”,
disse Hoang Thanh Vinh, analista do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, com foco na reciclagem de resíduos. O esgoto não tratado é
frequentemente despejado directamente nos cursos de água, acrescentou.
A verdadeira dimensão do problema é difícil de avaliar,
existindo poucos estudos abrangentes.
Na aldeia de Minh Khai, segundo Vinh, uma análise de
sedimentos detectou “uma contaminação muito elevada por chumbo e a presença de
dioxinas”, bem como furano – todos associados ao cancro. Em 2008, verificou-se
que a esperança de vida dos residentes das aldeias era uma década inferior à
média nacional, segundo o Ministério do Ambiente.
As autoridades locais e o ministério não responderam aos
pedidos de comentários da AFP.
Lanha acredita que o lixo tóxico em Xa Cau causou cancro
no sangue do marido, mas ainda passa os dias a separar o lixo para pagar as
suas despesas médicas. “Esta aldeia está cheia de casos de cancro, pessoas
apenas à espera da morte”, disse ela.
Não existem dados sobre as taxas de cancro nas aldeias,
mas a AFP falou com mais de meia dúzia de trabalhadores em Xa Cau e Minh Khai
que relataram casos de colegas ou familiares com cancro.
O coordenador da Aliança Lixo Zero do Vietname, Xuan
Quach, disse que a exposição contínua ao “ambiente tóxico” torna inevitável que
os residentes enfrentem “riscos para a saúde que são, obviamente, maiores”.
Um residente de 60 anos, conhecido por Dat, separa o
plástico em Xa Cau há uma década e disse que o trabalho “afecta definitivamente
a saúde”. “Não faltam casos de cancro nesta aldeia”, aponta.
Mas também não faltam trabalhadores, ávidos da tábua de
salvação económica que a reciclagem proporciona.
Em Xa Cau, o plástico acumula-se em redor de casas de
vários andares, algumas com fachadas ornamentadas que indicam os anos em que
foram construídas.
“Enriquecemos graças a este negócio”, disse Nguyen Thi
Tuyen, de 58 anos, que vive numa casa de dois andares. “Agora todas as casas
são de tijolo. No passado éramos apenas uma aldeia agrícola”.
A maior parte do lixo que os residentes reciclam é de
produção local, dizem investigadores e residentes.
Embora o Vietname recicle apenas cerca de um terço do seu
próprio lixo plástico, importa milhares de toneladas anualmente da Europa, EUA
e Ásia. As importações dispararam depois de a China ter deixado de aceitar lixo
plástico em 2018, embora o Vietname tenha recentemente endurecido as
regulamentações e anunciado planos para eliminar gradualmente também as
importações.
Para já, estatísticas comerciais dos EUA e da União
Europeia mostram que as remessas para o Vietname provenientes destas duas
economias atingiram mais de 200 mil toneladas em 2024.
Em Minh Khai, o proprietário de uma fábrica de grânulos
de plástico disse que a oferta interna “não é suficiente”. “Preciso de importar
do estrangeiro”, explicou Dinh, de 23 anos, no meio do zumbido das máquinas
pesadas.
A maior parte do lixo doméstico não está separado, pelo
que não pode ser facilmente reutilizado.
Houve esforços para melhorar o sector, incluindo a
proibição da queima de resíduos não recicláveis e a construção de instalações
modernas. Mas, a queima continua e o lixo inutilizável é frequentemente
descartado em terrenos baldios, referiu Vinh, defendendo que o governo deveria
ajudar as empresas de reciclagem a mudarem-se para parques industriais com
melhores medidas de protecção ambiental, formalizando um sector que processa um
quarto da reciclagem do país.
“O método actual de reciclagem nas
aldeias de reciclagem… não é nada bom para o ambiente”. In “Jornal
Tribuna de Macau” com “AFP”
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