Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Timor-Leste - Criação de Autoridade Marítima poderá ter cooperação portuguesa

Díli - Portugal pode ter um papel importante na edificação do sistema da futura Autoridade Marítima, com eventual apoio, incluindo formação dos primeiros membros da instituição, disse à Lusa o chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas portuguesas.

"O nosso país tem capacidade de ter um papel importante (...), desde logo porque o sistema que Timor está a desenvolver tem algumas semelhanças com o sistema português", disse à Lusa o almirante António Silva Ribeiro, na conclusão da sua visita a Timor-Leste.

"Essas questões vão ser certamente tratadas este mês quando vier a Timor-Leste o ministro da Defesa", explicou.

Silva Ribeiro disse que no decurso desta visita o tema dominante das conversas com responsáveis militares e políticas foi a Autoridade Marítima, especialmente dada a eminente aprovação do quadro legal para a criação da nova instituição.

Para já, disse, houve uma troca de opiniões sobre os passos seguintes, com as autoridades timorenses interessadas em perceber "à luz do que é o sistema português, quais são as melhores decisões para Timor-Leste", procurando soluções "eficazes e eficientes" para evitar "edificar capacidades que depois levem a um consumo de recurso desnecessárias".

O CEMGFA recordou a sua própria experiência na área, tendo sido diretor-geral da Autoridade Marítima, comandante da Polícia Marítima e depois chefe de Estado Maior da Armada.

Agora, afirmou, o assunto tem que passar para o nível político, com eventuais solicitações a Portugal a terem de ser "enquadradas no programa quadro de cooperação".

Depois da lei que cria a autoridade, disse, é preciso constituir os órgãos, mas deve já começar a pensar-se na formação, com Portugal a poder colocar a sua Escola da Autoridade Marítima à disposição de Timor-Leste.

A formação, disse, pelo menos para já, "deve decorrer em Portugal dada a alta especialidade e as capacidades científicas e pedagógicas dos professores" e para que as pessoas possam depois ter formação prática, nas capitanias e Polícia Marítima.

Noutro âmbito, Portugal pode também ter um papel de apoio na eventual formação em Timor-Leste de um Colégio Militar, à semelhança do que já existe em Portugal, onde estão atualmente 12 timorenses a estudar.

"Quererem importar o Colégio Militar significa que querem alargar a possibilidade dessa formação de qualidade e nos valores essenciais da pessoa humana à sociedade portuguesa", afirmou.

Em termos gerais, Silva Ribeiro sublinhou que na área de defesa e segurança, Timor-Leste "continua a olhar para Portugal como parceiro privilegiado".

A sua própria proximidade pessoal ao país e aos responsáveis militares tem permitido falar com todos como "irmãos" e "acompanhar profundamente a evolução das Forças de Defesa de Timor-Leste" desde a sua criação.

"O que tenho sentido em todo o processo é que Portugal é para os timorenses um parceiro indispensável, mas um parceiro em que se confia. Há uma reciprocidade nesta confiança", frisou.

O responsável militar português disse que a cada visita, quase anual, nota que as preocupações e solicitações das lideranças políticas e militares de Timor-Leste às Forças Armadas portuguesas e ao Ministério da Defesa se prendem com "a construção das Forças Armadas num país democrático que está também ele em construção". In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

Timor-Leste – Familiares das vítimas da 2ª Guerra Mundial recordam o dia 01 de Outubro de 1942

Joel, 9 anos, tem na ‘t-shirt’ a mesma foto do bisavô, Evaristo Madeira, que está colocada numa das campas onde jazem, em Aileu, 12 portugueses e timorenses mortos na 2ª Guerra Mundial



De cabelo comprido ligeiramente encaracolado, mochila pelas costas, mostra o mesmo olhar intenso de Evaristo José Madeira, o bisavô que morreu aos 32 anos, às mãos das colunas negras das forças japonesas.

Evaristo Madeira, nasceu a 14 de agosto de 1910 e morreu a 01 de outubro de 1942, lê-se na placa simples, preta e cinzenta, a mesma cor da foto onde o primeiro cabo aparece de boné militar, com um bigode preto e fino a decorar-lhe o rosto sério.

As campas – são 10, mas têm 12 corpos, entre eles três timorenses não identificados – são o coração do monumento “Aos Massacrados de Aileu – 1942”, cuja obra de recuperação, trabalho de militares timorenses e portugueses, foi ontem apresentada.

Depois da parte oficiosa, a entrada no perímetro do monumento das famílias dos homens e mulheres ali enterrados, foi a mais solene.

Joel entrou no monumento em formato de tranqueira, de mãos dadas com a avó, Teresa Madeira, hoje com 84 anos, sogra do ex-primeiro-ministro timorense Rui Maria de Araújo.

“Estou muito agradecida por arranjarem tudo isto. Isto estava tudo muito sujo”, disse à Lusa.

Praticamente com a idade do neto, a 01 de outubro de 1942 testemunhou, sem compreender o massacre que aqui é ali recordado.

“Tinha seis ou sete anos. Era muito pequenina. Chamaram-nos para fora, numa dessas casas, que já nem sei bem onde é. Chamaram-nos todos fora, ficámos sentado num corredor e mataram o João Florindo e o Alves Meira à nossa frente”, recordou.

“Morreu muita gente. Aqui enterrado está o meu pai, Evaristo”, explicou.

Numa campa quase ao lado, cenas idênticas: Alice Florindo e o irmão mais velho, João Florindo, os dois octogenários evocaram a memória do pai junto ao seu túmulo.

Alice beijou a mão e levou o beijo na mão até à foto da campa. Depois ajudou a levar a mão do irmão, com dificuldades de visão, a cumprimentar do mesmo modo a memória do pai.

Com uma área total de quase 3000 metros quadrados, o monumento foi construído em 1947 aproveitando o amuralhado e pórtico da antiga tranqueira, residência do comandante.

Quem ali está enterrado morreu na madrugada de 01 de outubro de 1942 pelas Colunas Negras durante a invasão japonesa de Timor-Leste que ocorreu depois de soldados australianos e holandeses terem ocupado a ilha, violando a neutralidade de Timor-Leste.

Estão sepultados no local um capitão de infantaria, quatro cabos, três soldados timorenses e quatro civis.

Promotor da iniciativa de recuperação, a par do seu homólogo timorense, o chefe do Estado-maior General das Forças Armadas portuguesas, almirante António Silva Ribeiro disse que a obra representa “cumprir um dever fundamental (…) de honrar e respeitaram aqueles que fizeram o sacrifico supremo, dando a sua vida pelo ideal da liberdade do território onde viviam e da bandeira que juraram defender”.

Na cerimónia, recordou a “grande violência e o grande número de atacantes que não permitiram aos militares portugueses garantirem a defesa dos habitantes locais” e que apesar dos gestos heroicos não sobreviveram “aquela fatídica noite”.

Na sua primeira visita a Timor-Leste, Joaquim Chito Rodrigues, presidente da Liga dos Combatentes, recordou a ligação antiga a Timor-Leste, desde as menções ao Tata Mailau e ao Ramelau, nos seus livros da escola primária, à veneração à bandeira portuguesa, mensagens “recebidas e jamais esquecidas”.

“Vivi sempre os assuntos de Timor sem nunca cá ter estado”, disse, recordando o “sentimento nacional” dos portugueses, em apoio a Timor-Leste, durante a luta pela independência.

“Aqui se mistura o sangue português e o sangue timorense. Aqui homenageamos e aprofundamos a amizade entre dois povos”, afirmou, mostrando-se disponível para apoiar a recuperação de outros monumentos.

Um por um, leu o nome dos “massacrados de Aileu”, declarando a cada nome a palavra “presente”.

O comandante das Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL), Lera Anan Timur, aproveitou o momento para saudar “os laços de amizade e solidariedade construídos e consolidados em momentos difíceis da história recente de Timor” e que “vão para lá das simples relações institucionais”.

E depois deixou recados: há que recuperar os edifícios e locais históricos do país, homenageando o que representam, mas ao mesmo tempo ecoando como “memórias do passado”.

“Servem para mostra às gerações futuras o sacrifício de tantos que deram a sua própria vida na defesa da sua terra, da sua pátria, de valores que consideravam fundamentais”, disse. In “Sapo Timor-Leste” com “Lusa”

Portugal – “A Porta de Vidro” um retrato da comunidade chinesa

Três anos em Macau fizeram com que se apercebesse da dificuldade que é chegar mais perto da comunidade chinesa. De volta a Lisboa, Bruno Saavedra levava consigo essa incógnita por resolver, algo que não tinha conseguido ultrapassar e que talvez partisse de questões culturais. A fotografia foi a quase resolução do problema: o projecto “Made in China” permitiu-lhe “pensar diferente e começar a entendê-los”, ainda que continue a ter “alguma dificuldade”. A mostra do mundo chinês que se desenrola na capital portuguesa que conta com 19 fotografias e será inaugurada a 2 de Setembro na Fundação Rui Cunha



“Se em Macau a comunidade chinesa é um pouco fechada, aqui [Lisboa] é ainda mais”, assim descreve Bruno Saavedra o cenário com que se deparou durante os três meses em que fotografou os chineses que residem entre o Bairro do Intendente e os Anjos. Três meses em que “a comunicação não foi fácil”, à semelhança do que já era natural no território, onde viveu durante três anos. “Falam entre eles, os mais velhos não sabem falar português. Os jovens que nasceram cá já falam, mas mesmo assim é muito complicado”, disse em entrevista ao Jornal Tribuna de Macau.

Por uma questão cultural, ou “por acharem que poderia estar a roubar alguma coisa” à sua intimidade, Bruno Saavedra diz muitos diziam ou mostravam não querer ser fotografados. Se no primeiro mês conheceu a fundo as ruas e bairros daquela zona da capital, depois percebeu que precisava de ajuda para ir mais longe. Foi então que pediu ajuda a uma amiga macaense que fala mandarim. “Foi a partir daí que comecei a entrar nas casas deles, mas via-se uma barreira, como se fosse uma porta de vidro entre eu e eles, sabe? Não ultrapassava nunca aquela porta. Queria sempre saber mais, perguntar mais, mas ela estava lá”, contou.

O luso-brasileiro traz agora ao território a mostra individual intitulada “Made in China”, que estará patente na Galeria de Arte da Fundação Rui Cunha, entre 2 e 11 de Setembro, com o apoio da Casa de Portugal, onde trabalhou. O projecto iniciou-se quando voltou a Portugal e depois de se ter começado a dedicar “a 100% à fotografia, algo que em Macau não conseguia”. Foi no “workshop” da fotógrafa Pauliana Valente Pimentel – “Narrativas Fotográficas do Intendente” – que decidiu dedicar-se ao tema.

Ao longo do processo de fotografar – tanto pormenores como retratos -, Bruno Saavedra deu conta de que aquelas pessoas “praticamente vivem para trabalhar” e que “muitos vivem nas mesmas casas, por vezes em situações precárias”, descreveu. “Fui-me apercebendo dessa realidade. No início achava que cada um tinha a sua casa, por exemplo. No geral vivem todos ali no mesmo bairro, trabalham ali, fazem toda a vida ali e por vezes acaba por ser tudo até um pouco clandestino”, prosseguiu.

A única altura em que considera ter chegado ao mais genuíno modo de viver daquela comunidade foi durante as comemorações do Ano Novo Chinês. “Consegui mesmo conviver com eles e entrar dentro da cultura. Foi o Ano do Galo, em 2017, em que limpavam as casas, como acontece aí, as senhoras as melhores roupas que tinham, nessa altura consegui conviver com eles, mas não era exactamente isso que queria”, explicou. Na verdade, Bruno Saavedra “queria ver como são realmente no dia-a-dia e não num dia de festa”. Tanto que, as fotografias deste dia quase não utilizadas para o projecto final.

Uma “visão fria e distante”

Volvidos três meses “muito complicados”, Bruno Saavedra quis, no processo de selecção das imagens, “dar um olhar mais especial”: a sua visão através de pormenores que encontrou nas casas e lugares frequentados por esta comunidade, “nunca assumindo plenamente quem é quem, mas sempre olhando para eles como uma comunidade”. “Essa visão muito fria e distante foi o que senti durante o trabalho todo”, disse, acrescentando que foi isso mesmo que quis mostrar a quem visitar a exposição.

Dos pormenores que conseguiu captar destaca, por exemplo, cantos das casas ou partes do vestuário. “Há uma fotografia de uma bacia em que lavam a roupa na casa de banho, depois um pormenor de um sapato dourado de uma jovem – essa foi no dia do Ano Novo Chinês -, e outra em que uma senhora estava toda vestida de vermelho , com um colar, e estava um calor insuportável, e ela estava com um casacão de pêlo, são coisas assim pequenas”, descreveu.

Mas há também retratos, por exemplo, o de uma criança vestida de galo, durante as celebrações do Ano Novo Chinês, retratos de pessoas mais velhas e outras mais jovens. “Descobri que todos os dias às sete da manhã havia um senhor que ia fazer tai chi para o largo e que às seis da manhã havia um grupo de mulheres que ia fazer danças chinesas antes de entrar para o trabalho”, recordou.

Bruno Saavedra contou ainda que durante todo este processo descobriu as diferenças entre os mais novos, que nasceram já em Portugal, e aqueles que mudaram de país e aí foram obrigados a recomeçar uma vida. “Os jovens têm uma mentalidade muito diferente, diversas vezes perguntei se queriam voltar para a China e diziam que não. Às pessoas mais velhas fiz a mesma pergunta e diziam sempre que tinham de morrer lá [China], que queriam regressar ao local onde nasceram”, afirmou.

“Chinatown” invisível, mas que existe

Restaurantes, salões de massagens, cabeleireiros, lojas e supermercados chineses, clínicas e igrejas – “uma Chinatown que não se mostra, mas, se for lá, vê que existe”. O problema é que “é tudo muito escondido”. Bruno Saavedra só descobriu este mundo por causa do projecto a que se dedicou. “Se não tivesse feito este trabalho, passava por lá todos os dias e não sabia que existia. Eles tentam sempre ser muito invisíveis”, observou. Outra descoberta que fez foi a existência de um jornal em língua chinesa que era publicado mensalmente.

“Fui a um restaurante clandestino em que a dona também tinha um salão de cabeleireiro, de noite abria o restaurante e dia cortava o cabelo. O salão era dentro da sua própria casa, tínhamos de tocar à campainha e só consegui entrar porque fui com a minha amiga chinesa, porque se forem pessoas que não são chinesas eles não aceitam. É mesmo tudo muito fechado”, exemplificou o fotografo.

“Made in China” acabou “por abrir os horizontes” a Bruno Saavedra: “Consegui de alguma forma mudar o meu pensamento, continuo a ter alguma dificuldade culturalmente com eles, mas acabei de alguma forma por conseguir pensar diferente e começar a entendê-los. Para mim foi super positivo”, considerou.

O fotógrafo considera que “será uma enorme alegria regressar a Macau ao fim de cinco anos, principalmente para mostrar o meu trabalho fotográfico. Será uma mistura de sentimentos e um enorme privilégio”.

Assim que voltar para Portugal, ainda no mês de Setembro, Bruno Saavedra irá levar a sua exposição “Made in China” até a galeria do espaço Solar dos Zagallos em Sobreda, Almada. O projeto também está pré-selecionado para se apresentar na edição de 2019 do festival de fotografia Paraty em Foco no Rio de Janeiro, Brasil. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

Associação de Farmacêuticos dos Países de Língua Portuguesa - XIV Congresso Mundial dos Farmacêuticos de Língua Portuguesa



O XIV Congresso Mundial dos Farmacêuticos de Língua Portuguesa já tem data marcada: dias 7, 8 e 9 de maio 2020, em Lisboa, Portugal.

O XIV Congresso Mundial da AFPLP decorre a par com a edição 2020 do Congresso Nacional dos Farmacêuticos, organizado pela Ordem dos Farmacêuticos de Portugal.

Durante três dias, o Centro de Congressos de Lisboa recebe o maior evento português do setor farmacêutico. O tema "Abrir horizontes. Fazer acontecer." dará o mote para um debate sobre os desafios da profissão e dos sistemas de saúde na próxima década.

Integrado neste evento, o XIV Congresso Mundial dos Farmacêuticos de Língua Portuguesa contará com um Simpósio de alto nível, a Assembleia Geral da AFPLP, e sessões paralelas relativas aos vários setores de atividade da profissão farmacêutica no espaço da lusofonia. Associação de Farmacêuticos dos Países de Língua Portuguesa

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Ensaios que valem para sempre

                                                            I
Letras del Ecuador, revista de literatura lançada pela Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión (CCE), de Quito, em abril de 1945, criou fama em toda a América Latina pela excepcional qualidade de seus artigos e ensaios. Em 74 anos de existência, a publicação, que teve anunciada sua última aparição em meados de 2012, com edição comemorativa por ter chegado ao seu número 200, ressurgiu em abril de 2015, em seu formato original, tablóide, para seguir ideia pioneira de seu fundador, Benjamin Carrión (1897-1979), escritor, diplomata, político, professor da Universidade Central do Equador, ex-ministro da Educação e promotor cultural, considerado o grande suscitador da cultura de seu país. Trata-se de uma revista que continua a brindar os seus refinados leitores com textos que surpreendem por suas reflexões no campo das Ciências Humanas, com temáticas que nunca envelhecem.

Para marcar essa trajetória que segue firme, a Casa de la Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión vem lançando também volumes que resgatam a presença da publicação em mais de sete décadas de produção literária e reúnem obras publicadas nos cem primeiros números da revista Letras del Ecuador. Em 2010, saiu o volume de número 3 que traz ensaios que vieram à luz entre dezembro de 1948 e maio de 1951 nos números de 39 a 67 da revista.

São textos que constituem não só um amálgama do pensamento sobre a identidade do homem equatoriano como “um espelho do realidade – drama e promessa – espiritual e fática de todo um continente”, como observa o poeta, escritor e professor Fabián Guerrero Obando, doutor em Jurisprudência pela Universidade Central do Equador, na apresentação que escreveu para a quarta capa do tomo. Enfim, como diz Obando, este volume condensa “uma boa parte dos grandes temas públicos do século XX, locais, continentais e de dimensão universal”.

De fato, o volume reúne textos de 39 ensaístas e os temas variam de análises sobre autores equatorianos a estudos a respeito de autores universais, como Walt Whitman (1819-1892), Guillaume Apollinaire (1880-1918), Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Thomas Stearns Eliot (1888-1965), Gabriela Mistral (1889-1957), Ramón del Valle Inclán (1866-1936), Edgar Allan Poe (1809-1849), César Vallejo (1892-1938), Antonio Machado (1875-1939), Sinclair Lewis (1885-1951), Blaise Cendrars (1887-1961), e o pianista e compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849), entre outros.

Entre os ensaístas equatorianos que fazem parte deste volume estão Jorge Enrique Adoum (1926-2009), César Dávila Andrade (1918-1967) e Jorge Carrera Andrade (1903-1978), cujos poemas constam da Antologia Poética Ibero-americana (Cuiabá, Associación de Agregados Culturales Iberoamericanos, 2006), traduzidos por Fernando Mendes Vianna (1933-2006), José Jeronymo Rivera e Anderson Braga Horta, além de Pio Jaramillo Alvarado (1884-1968) e o próprio Benjamín Carrión, para citarmos apenas os mais conhecidos entre nós.

                                                 II
Um dos melhores ensaios deste volume é aquele que, publicado na edição de número 39-40, de outubro-dezembro de 1948, aborda a vida e a obra do poeta T. S. Eliot, Prêmio Nobel de Literatura de 1948, assinado por Jorge Enrique Adoum, para quem a poesia do poeta inglês sempre haverá de transmitir uma “sensação de desolação, de morte fria, solitária”. Ou seja: “Para sempre a terra será para ele a terra devastada onde não há água, onde se busca um caminho, através de tudo aquilo a que ele renunciou, por desorientação, por caracteres contraditórios de sua vida. Renunciou a seu país de origem, convertendo-se em britânico; renunciou ao seu tempo regressando à antiguidade; renunciou às soluções que a experiência dos homens dava aos problemas do mundo, recorrendo à fé e à humildade franciscana, distorcida e vestida de rima perfeita”.

Como se sabe, Eliot, nascido nos Estados Unidos, é autor do poema “Terra devastada” (1922), que se transformou em mito literário como o Ulisses (1922), de James Joyce (1882-1941), ao mostrar a Europa arrasada depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), “os ideais e a fé triturados sob os cascos da cavalaria e das forças motorizadas, o desconcerto geral e a dúvida”, nas palavras de Adoum.

                                                           III
De César Dávila Andrade, o volume traz dois ensaios: o primeiro sobre o médico, psiquiatra e escritor sueco Axel Munthe (1857-1949) e o segundo sobre Antonio Machado”, poeta ligado ao Modernismo espanhol que, aliás, nada tem a ver com o Modernismo brasileiro, constituindo um movimento artístico correspondente ao art nouveau francês. De Machado, Andrade diz que “Don Antonio não aparecia por Madri. Ele habitava e purgava a Espanha profunda, aquela que é difícil de olhar; a recatada, aquela que viveu Cervantes, quando andava pelos pequenos povoados; a que amou Juan Ruiz, quando se largava a vagar acompanhado de ruidosos estudantes metidos a poetas; a que conheceu Federico, desde sua carreta migrante, entre os magos da vida em sonho”.

Para quem não sabe, não custa dizer que Juan Ruiz (c.1.284-c.1.351), também conhecido como Arcipreste de Hita, é autor de uma das obras em versos mais importantes da literatura medieval espanhola, Libro del buen amor (1330). Já Federico, obviamente, refere-se ao poeta andaluz Federico García Lorca (1898-1936), assassinado por uma horda fascista em Granada ao início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Já Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) é o famoso autor de Dom Quixote (1605), considerado o primeiro romance moderno, um clássico da literatura ocidental.

O breve ensaio dedicado à Axel Munthe, publicado no número 42, de fevereiro de 1949, foi escrito por Andrade quando o poeta ainda vivia, depois de uma vida dedicada ao exercício da medicina em Paris e Roma, que o levaria, inclusive, a tornar-se médico da família real sueca. Filantropo e defensor dos direitos dos animais, por aqueles anos, Munthe, autor de O Livro de San Michele (1929), sua obra mais famosa, andava numa luta intensa contra a propagação da cólera em Nápoles. Descreve Andrade assim a figura do médico-poeta: “(....) Vai andrajoso, insone, faminto, dando assistência aos coléricos. Sua figura apostólica e romântica entra no Convento das Sepultadas Vivas e presencia a agonia das estranhas enclausuradas. Presencia o aflorar das ratazanas enlouquecidas que brotam aos milhares das cloacas romanas e devoram indistintamente moribundos e cadáveres”.

                                                IV
Já de Jorge Carrera Andrade, o volume traz três ensaios: “Chateaubriand e os índios”, “Grandeza e miséria do Existencialismo” e “Carta de navegar pela poesia hispano-americana”. No primeiro ensaio, publicado no número 56-60 da revista, abril-agosto de 1950, o poeta-ensaísta faz um resumo da vida de François-René de Chateaubriand (1768-1848), escritor, ensaísta, diplomata e político francês, de origem aristocrática, que se imortalizou por sua obra literária pré-romântica.

Do visconde de Chateaubriand, o quitenho lembra que ele deixou sua Saint-Maló natal protestando contra a sociedade francesa e a corrupção de seu tempo e declarando que preferia “o desterro das sociedades naturais” do Novo Mundo. E reproduz o que o escritor francês escreveu a respeito dos indígenas que conheceu: “Os jovens índios não reclamam nunca, nem tampouco discutem; não são alvoroçados nem mexeriqueiros nem melancólicos, e em seu semblante se descobre certa seriedade própria da tranquilidade de alma e certa nobreza filha da independência”.

No ensaio sobre o Existencialismo, publicado no número 62, de novembro-dezembro de 1950, Carrera Andrade faz um retrospecto do que estava sendo à época aquele fenômeno literário, nascido de conversas entre intelectuais em mesas do Café de Flore, um pequeno estabelecimento localizado no bairro parisiense de Saint-German-de- Prés, onde pontificava o filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980). “O Existencialismo é uma escola literária, uma filosofia, uma moral, um culto?”, indagava Carrera Andrade. E respondia: “(...) é tudo isso: nasceu da literatura e vai se transformando em seita. Seu fundador e supremo pontífice é Jean Paul Sartre, novelista, professor de filosofia, homem de quarenta anos, com rosto de administrador de hotel ou de rentista aposentado”.

Carrera Andrade, porém, ao final de seu trabalho, não deixa de condenar o vazio existencial defendido por Sartre, citando o filósofo russo Fiodor Dostoievsky (1821-1881), para lembrar que se a humanidade vier a perder a fé – a fé na elevação do destino humano –, o mundo retrocederá à barbárie. E argumenta que, com a frase “cada coisa a seu tempo”, frequentemente repetida por Sartre, caía o véu que cobria o Existencialismo, deixando à mostra sua nudez, ou seja, “uma teoria filosófica da vida cotidiana para o uso de gente ordinária, sem espírito, sem moral, sem religião e sem idealismo”.

No terceiro ensaio, publicado no número 66, de abril de 1951, Carrera Andrade, como deixa claro o seu título, traça um retrospecto da poesia hispano-americana desde a época do domínio espanhol no continente que dura de 1600 até 1830, mas continua até 1900 dentro da tradição do colonialismo, nutrindo-se do romanticismo hispânico. Em seguida, procura fazer uma “navegação por todo o oceano da poesia hispano-americana” no período que vai de 1920 a 1950, que, segundo ele, “é muito variado e oferece inumeráveis surpresas”.

É um período que assinala a agonia do esplendor modernista, marcada por grandes figuras como Leopoldo Lugones (1874-1938) na Argentina, José Maria Eguren (1874-1942) no Peru, Medardo Ángel Silva (1898-1919) e Humberto Fierro (1890-1929) no Equador, Guillermo Valencia (1873-1943) e Porfirio Barba Jacob (1883-1942) na Colômbia e Ramón López Velarde (1888-1921) no México. É a época também em que começam a se afirmar duas vozes que marcam o século XX na América hispânica: o chileno Pablo Neruda (1904-1973), Prêmio Nobel de Literatura em 1971, e o mexicano Octavio Paz (1914-1998), Prêmio Nobel de Literatura em 1990.

Para Carrera Andrade, a poesia de Neruda constituía, já à época, “a realização maior do espírito sul-americano atual”, enquanto o livro Libertad bajo palabra (1949), de Paz, era “uma das mais profundas realizações da lírica de nosso tempo”. Adelto Gonçalves - Brasil


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Letras del Ecuador 100: Ensayo, tomo III, selección de ensayo de la revista Letras del Ecuador 1948-1951. Quito: Casa de Cultura Ecuatoriana Benajmín Carrión, 2010, 564 páginas. E-mail: dpcce@hotmail.com   Site: www.cce.org.ec
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Adelto Gonçalves, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Brasil - 41 instituições de ensino superior portuguesas já aceitam exame nacional

O Ministério da Educação brasileiro informou na sexta-feira que mais quatro instituições de ensino superior portuguesas aceitarão as notas do Exame Nacional do Ensino Secundário do Brasil, passando para 41 as instituições a admitirem essa prova.

“Quatro instituições de educação superior portuguesas assinaram acordo interinstitucional com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para usar as notas do Exame Nacional do Ensino Secundário (Enem) na seleção de brasileiros nos seus cursos de graduação”, anunciou o ministério na sua página na internet.

Três das instituições de ensino superior portuguesas que assinaram o acordo têm sede em Lisboa: o Instituto Universitário de Lisboa, a Universidade Autónoma de Lisboa e o Instituto Politécnico da Lusofonia.

A quarta instituição a aceitar o exame nacional brasileiro como método de admissão é a Escola Superior de Saúde Norte da Cruz Vermelha Portuguesa, localizada em Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro.

O Ministério da Educação brasileiro acrescentou ainda que as duas primeiras instituições a assinar o acordo, em 2014, a Universidade de Coimbra e a Universidade do Algarve, renovaram o acordo.

“Esta é mais uma medida do Ministério da Educação para tornar o Enem num sistema moderno e intercambiável (…). O objetivo é inserir o Brasil no contexto mundial, do mundo desenvolvido, científico e democrático”, afirmou o ministro da Educação do país sul-americano, Abraham Weintraub, citado no ‘site’.

O presidente do Inep, Alexandre Lopes, frisou que se trata de “uma oportunidade para o jovem brasileiro que queira estudar fora”.

“O jovem brasileiro que vai fazer a prova do Enem em 2019 tem de saber que, além das universidades públicas e privadas brasileiras, a prova também pode ser utilizada para permitir o acesso ao ensino superior português. Essa é uma oportunidade para o jovem brasileiro que queira estudar fora”, disse Alexandre Lopes, segundo a agência Brasil.

“[O estudante] não vai precisar de fazer novas provas. Vai apresentar outros tipos de documentações ou exigências da universidade”, esclareceu o presidente do Inep.

O Enem Portugal, como é denominado o programa de acordos interinstitucionais entre o Inep e as instituições de ensino superior portuguesas, foi criado em 2014 durante o governo da ex-Presidente Dilma Rousseff, quando as universidades de Coimbra e do Algarve assinaram acordos com o Ministério da Educação brasileiro aceitando o exame como forma de admissão.

Segundo a tutela, citada pela agência Brasil, desde o início do acordo, Coimbra já recebeu 1239 alunos brasileiros e a Universidade de Algarve 450. In “Mundo Português” - Portugal

Indonésia - Aprendizagem: Bom para os trabalhadores, bom para a indústria

Um programa de aprendizagem setorial em andamento na Indonésia está a criar oportunidades de emprego para os jovens trabalhadores e uma nova geração de trabalhadores para a indústria



Indonésia - Com 19 anos de idade, Arif Riri Alfiansyah habilmente monta peças de automóveis, enquanto Komarudin, da mesma idade, instala partes das portas traseiras. Eles são dois dos 400 estagiários que este ano estão a estudar por um período de seis meses na PT Toyota Motor Manufacturing Indonésia (PT TMMIN), localizada em Karawang, Java Ocidental.

“Depois de me receber e antes de me inscrever no programa de aprendizagem, trabalhei cinco meses como operário de construção. Foi melhor do que estar desempregado”, diz Alfiansyah. Depois de se formar numa escola técnica e de se especializar em mecânica, ele imediatamente dirigiu-se ao Escritório Provincial de Recursos Humanos de Karawang. Lá aprendeu sobre o programa de aprendizagem do PT TMMIN.

Superou o processo de seleção, no qual ele competiu com outros 300 candidatos, Alfiansyah já completou seis semanas no programa. "Agora eu sei como instalar o isolamento das carrocerias e encher o motor com óleo", disse ele.

Komarudin também conseguiu juntar-se ao programa. Com a orientação de um tutor e um instrutor, passou um mês a aprender a montagem do carro seguindo os módulos pedagógicos teóricos, antes de começar a formação prática no local de trabalho da fábrica.



"No início, o meu ritmo de trabalho era lento", afirmou. “Só conseguia completar 10 carros por turno, agora eu faço pelo menos 30”.

Colaboração entre o governo e a indústria automóvel

No âmbito do projecto conjunto das Nações Unidas, "Plataformas de Soluções Integradas: Educação e Formação Técnicas e Profissionais (TVET) - Colaboração com a Indústria", a Organização Internacional do Trabalho está a documentar as melhores práticas em parceria e colaboração entre as escolas de formação profissional e os centros de capacitação. O objetivo do projeto é promover a cooperação entre a indústria e a TVET para reduzir a falta de correspondência de qualificações com o mercado de trabalho e promover a participação no financiamento das despesas correspondentes entre o governo e o setor privado.



Michiko Miyamoto, diretor do escritório da OIT na Indonésia, enfatiza o importante papel da indústria na formulação de programas de aprendizagem. “A indústria e seus setores são os que melhor conhecem as competências necessárias e têm capacidade e recursos para implementar este programa. Isso beneficia todas as partes interessadas, porque os trabalhadores obtêm as habilitações necessárias e cada setor obtém funcionários competentes”, diz Michiko.

Desde 2016, o governo indonésio promoveu o programa de aprendizagem industrial como um método para melhorar as competências laborais dos jovens indonésios, particularmente os que se formam em centros de formação profissional e de formação.

Através do Ministério de Recursos Humanos, concentrou-se na formação profissional e na capacitação como uma das medidas de apoio ao desenvolvimento inclusivo e ao crescimento económico nacional.

“O princípio orientador da formação profissional é a prática. O melhor lugar para praticar é o setor, onde os aprendizes ganham experiência real no mundo do trabalho. É diferente da formação prática oferecida pelos centros de formação profissional”, explica Bambang Satrio Lelono, diretor-geral da área de Colocação, Formação e Produtividade do Ministério de Recursos Humanos.

Uma nova geração de trabalhadores

No próximo ano, o número de participantes no programa de formação da Toyota será aumentado para 700. Os formandos recebem uniformes, a identificação correspondente, equipamentos de segurança, subsídio de transporte, além de seguro de saúde. Ao fim de seis meses, submetem-se a uma prova de competência e, caso a superem, recebem um certificado.

“Organizamos este programa profissional porque isto beneficia a empresa. Além disso, desejamos ajudar o Governo da Indonésia a desenvolver os recursos humanos do país. Graças a este programa, obtêm-se trabalhadores competentes que, posteriormente, aumentarão a produtividade da empresa”, afirma Amirul Chusni, chefe de divisão do Centro de Formação da PT TMMIN.

Rama Wijaya é um ex-aprendiz que atualmente trabalha no Departamento de Logística da PT TMMIN. “O programa de aprendizagem ensina-nos a sermos bons funcionários, sempre dispostos a trabalhar”, refere Wijaya. "Além disso, permitiu-me ajudar a sustentar a minha família. "Organização Internacional do Trabalho"