Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Moçambique - Miguel Luís lança romance sobre o drama da mineração em Manica

O escritor moçambicano Miguel Luís lançou na cidade da Beira, o seu primeiro romance, intitulado A terra ainda está zangada, na Livraria Fundza, numa sessão que marcou o início de um roteiro literário que leva o autor às províncias de Manica e Maputo.

Ambientado no universo da mineração, particularmente na província de Manica, o romance acompanha Francisco, um adolescente que vê o seu sonho de continuar os estudos ameaçado depois de o pai desaparecer num desabamento ocorrido num campo de mineração. Ao lado do amigo Eurico, o jovem acaba por descobrir que uma empresa mineira, alegadamente protegida por autoridades e homens armados, pretende apoderar-se das terras, do ouro e das águas do rio Púnguè.

A narrativa aborda temas como a perda, os conflitos familiares, a ganância, a injustiça e a resistência de comunidades confrontadas com a exploração dos seus recursos naturais. Para Miguel Luís, o interesse pela mineração não está apenas no fenómeno económico ou técnico, mas sobretudo nas consequências que esta actividade produz sobre as pessoas, as famílias, os afectos e o território.

O escritor, que actualmente vive em Portugal, explica que a obra resulta também de uma ligação permanente a Moçambique e da necessidade de reflectir sobre as dores e transformações do país. O processo de escrita começou entre 2018 e 2019, quando a exploração de rubis despertou a sua atenção. No entanto, o projecto ganhou novo impulso depois de uma passagem por Maputo, em Dezembro de 2024, experiência que, segundo o autor, o levou a confrontar-se com um país marcado pela dor.

Mais do que um simples romance, Miguel Luís considera A terra ainda está zangada uma espécie de oração à sua terra natal. O título, explica, reflecte as feridas que permanecem na sociedade moçambicana depois de diferentes períodos de conflito e instabilidade, incluindo a luta de libertação, a guerra civil, os conflitos militares e a violência registada em 2024.

A ensaísta Fátima Mendonça considera a obra um romance de formação, destacando a capacidade narrativa do autor e uma escrita ancorada na realidade social moçambicana.

Depois da apresentação na Beira, Miguel Luís seguiu para Manica. Na cidade de Chimoio, o escritor esteve na Escola Mwana Unerufaro, no dia 14, para uma conversa com alunos do ensino secundário. No mesmo dia a obra foi apresentada aos leitores na UniPúnguè pelo escritor e editor Dany Wambire.

O programa incluiu ainda um encontro com o Clube do Livro da Beira, no dia 15 e uma apresentação em Maputo, no dia 20, pelo músico Stewart Sukuma, além de uma conversa com estudantes de Ensino de Português da Universidade Eduardo Mondlane, marcada para o dia 25.

Nascido em Maputo, Miguel Luís é escritor e advogado. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mestre em Estratégia de Investimento e Internacionalização pelo Instituto Superior de Gestão. Tem textos publicados em antologias e na imprensa moçambicana e portuguesa e foi distinguido em diferentes prémios literários. Em 2023, publicou O Desamparo das Flores, obra que foi finalista do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil de Moçambique em 2024. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 20 de maio de 2025

Moçambique - Natércia Chicane revela “O baú dos infelizes”

Neste 20 de Maio, às 17h00, no Instituto Guimarães Rosa, em Maputo, Natércia Chicane vai lançar o livro “O baú dos infelizes”, pela Editorial Fundza.

O livro possui 164 páginas, e retrata um conjunto de problemas sociais, familiares e conjugais, que, sobretudo, giram em torno da poligamia ou do pensamento de que a mulher deve suportar calada os vícios e as traições do marido.

Para Lucrécia Paco, a prefaciadora do livro, o enredo de Natércia Chicane “faz-nos pensar no amor e seus tropeços, nas relações abusivas no sentido do homem para com a mulher, da mulher para com o homem e dos pais para com os seus filhos.”

“O baú dos infelizes” é uma das obras seleccionadas na terceira Chamada Literária da Editorial Fundza, uma iniciativa que tem vindo a revelar novas vozes na literatura moçambicana.

Desde 2022, já foram publicados mais de 40 novos autores de todo o país.

Natércia Chicane, natural de Maputo, é guionista e realizadora de cinema. É licenciada em Contabilidade e Auditoria e também possui formação em Literatura e Cinema. Estreou na ficção com o documentário “Johana – A Terra que roubou os nossos Maridos”, lançado em Maputo durante o Festival Dokanema, em 2009. Escreveu e realizou 7 filmes. Conquistou, em 2011, o Prémio de Poesia Nosside, realizado na Itália. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 22 de abril de 2025

Moçambique - Jeremias F. Jeremias lança “Locus Corpus” em Maxixe

Na próxima quarta-feira, às 17 horas, na Biblioteca da UniSave-Maxixe, Campus-2, na Província de Inhambane, Jeremias F. Jeremias vai lançar a sua mais recente proposta poética, intitulada “Locus Corpus”.

De acordo com a nota de imprensa da Editorial Fundza, que chancela o livro, “Locus Corpus” é resultado do apuramento feito na terceira Chamada Literária 2023/24, promovida pela própria editora, uma iniciativa anual que visa dar oportunidade de publicação aos jovens autores talentosos, moçambicanos, sem nenhum custo para a publicação do livro.

A obra literária de Jeremias F. Jeremias possui 119 páginas, numa prosa-poética que cataloga, canta, de maneira denunciante, o flagelo, o horror e o esgotamento humano em vários extremos, perfilando nas suas linhas estreitas textos que gravitam em torno do absurdo, da angústia ou aborrecimento que confirmam o horizonte do declínio da existência, as crises ideológicas que se verificam em vários quadrantes do mundo, como a fome que devasta a maior parte das populações do continente africano.

Jeremias F. Jeremias, natural de Manjacaze (Gaza), é licenciado em Organização e Gestão da Educação pela Universidade Eduardo Mondlane e formado em Ensino de Português pela Universidade Pedagógica. Foi vencedor do Prémio de Poesia Reinaldo Ferreira 2022, com a obra “Rostos desabitados [e] Fragmentos do escuro”, e da primeira edição do Prémio de Poesia Gala-Gala 2020. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Moçambique - Padre Timothée Bationo lança “O caminho da liderança e do triunfo na vida” na cidade da Beira

Na Livraria Fundza, cidade da Beira, o Padre Timothée Bationo Mafr lançou o seu livro “O caminho da liderança e do triunfo na vida”.



O livro, de 73 páginas, é composto por quatro secções, que, inspiradas nos pensamentos do escritor Robin Sharma e na história de vida do próprio autor, mostram os caminhos que levam o ser humano a tornar-se um bom líder e a triunfar em sua vida. 

“O presente livro é fruto de leitura constante de livros deste grande mentor americano e frutos de êxitos por nós conquistados”, afirma Pe. Timothée Bationo Mafr.

Na sua produção, “o texto foi trabalhado de tal forma que o autor se encontra facilitado, tanto na leitura e na apreensão dos conteúdos, bem como na descontracção activa que o próprio texto sugere, ao alternar a matéria com as histórias, parte delas adquiridas com base nas narrações de Gilson Souza ”, explica o autor.

“’O caminho da liderança e do triunfo na vida’ alterna ensinamentos com histórias que ajudam o leitor a visualizar a forma pela qual as nossas decisões e atitudes influenciam no rumo das nossas vidas”, avança a nota de imprensa da Editorial Fundza, que chancela o livro.

Timothée Bationo, sacerdote dos Missionários de África, nasceu em 1971, no Burkina Faso. Formado em Filosofia e Teologia, fez o Noviciado na Zâmbia e estágio pastoral em Moçambique, onde foi ordenado em 2004. Exerceu funções como Superior dos Missionários de África, Vigário Episcopal e co-fundador do Mojocas. Actualmente, dirige o Centro de Formação de Nazaré, dedicando-se à formação espiritual, catequese e promoção vocacional, contribuindo significativamente para as comunidades que serve. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Moçambique - Editorial Fundza lança “Pensar o Direito dos Registos e Notariado” na Beira

A Editorial Fundza lançou, na passada quinta-feira, na Casa do Artista, Cidade da Beira, o livro “Pensar o Direito dos Registos e Notariado”, da autoria de João Jaime Ndaipa Maruma.

Com 173 páginas, o livro reúne conjunto de várias apresentações por si feitas em “Reuniões dos Notários e Conservadores, organizadas e orientadas pela Direcção Nacional dos Registos e Notariado, de 2014 a 2024”.

De acordo com a nota de imprensa da Editoral Fundza, “Pensar o Direito dos Registos e Notariado” foi prefaciado pelo Advogado Gilberto Correia, para quem “a obra tem a flexibilidade e a maleabilidade de ser profissionalmente útil a Notários e Conservadores, mas também a profissionais forenses, a juristas bancários, aos legisladores; enfim, a um leque diverso de profissionais”.

João Jaime Ndaipa Maruma nasceu a 11 de Fevereiro de 1971, no distrito de Marromeu, província de Sofala, Moçambique. Licenciou-se em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane em 2001, onde concluiu o Mestrado em Ciências Jurídicas, em 2013. Entre 2000 e 2017, foi docente em várias universidades, destacando-se a Universidade Eduardo Mondlane, a UniZambeze e a Universidade Católica de Moçambique. É co-autor do livro “Um Olhar Jurídico, Sociológico e Económico sobre HIV/SIDA em Moçambique” (2015). Desde 2003, exerce como Notário e Conservador Superior. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Moçambique - Emília Paulino estreia-se com “Bebé O e a descoberta do mundo azul” na Beira

Nesta sexta-feira, às 17 horas, a Editorial Fundza vai lançar, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, o livro “Bebé O e a descoberta do mundo


Nesta sexta-feira, às 17 horas, a Editorial Fundza vai lançar, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, o livro “Bebé O e a descoberta do mundo azul”, da escritora Emília Paulino.

De acordo com o comunicado de imprensa da Editorial Fundza, trata-se de um livro infanto-juvenil que aborda a história inspiradora de um bebé com espectro autista, que, com o apoio de médicos, familiares e, em especial, da sua irmã mais nova, desenvolve habilidades essenciais e valores como o amor, a inclusão e a união.

A autora avança que o livro traz uma mensagem de esperança e reforça a importância do apoio familiar e social no processo de desenvolvimento de uma criança autista, conforme se pode ler na nota de imprensa: “Com esta obra, pretendo abraçar, mesmo que de longe, os pais de filhos especiais e todos os meninos autistas para dizer-lhes que não estão sozinhos, que o autismo não é um segredo e que juntos somos mais fortes”, reforça a escritora.

Na cidade da Beira, a obra será apresentada por Rodrigues Germano, especialista na terapia da fala e que assiste muitas crianças com necessidades especiais.

Emília Paulino, natural da cidade da Beira, é advogada e docente universitária. Tem um mestrado em Direito e outro em Sistemas de Informação Geográfica, além de formação em neurociências do autismo e em ABA e estratégias naturalistas. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 12 de novembro de 2024

Moçambique - Editorial Fundza lança quarta chamada literária para novos autores

A Editorial Fundza vai receber, entre os dias 25 e 30 deste mês, originais para publicação ao longo do próximo ano.



A iniciativa, enquadrada na quarta chamada literária da Fundza, pretende seleccionar infanto-juvenis, romances, crónicas, poesias e contos inéditos.
Os autores interessados em participar na quarta chamada literária da Editorial Fundza deverão enviar um projecto de livro em word, uma sinopse de 10 linhas desse mesmo texto e uma biografia de cinco linhas para a editorial.fundza@gmail.com.
Para a organização, o objectivo principal da chamada literária é abrir e ampliar o espaço para a democratização do acesso à publicação de obras literárias no país, o que inclui a participação de autores de todas as províncias.
“A iniciativa tem vindo a revelar novas vozes na literatura moçambicana. Desde 2022, já foram publicados mais de 40 novos autores de todo o país. Entre as publicações, encontram-se Pétalas negras ou a sombra do inanimado (poesia), de Belmiro Mouzinho; Estórias trazidas pela ventania (conto), de Adelino Albano Luís, O encanto da poesia (poesia), de Assane Cadry; O ardina dos sapatos gastos (contos), de Alerto Bia; O dicionário da sobrevivência (contos), de Francisco Raposo; A rapariga sem reflexo (motivacional), de Clévia Guivala; Insiste em ignorar-me (motivacional), de Argentina Banze; O amor que há em ti (romance), de Larsan Mendes; As máscaras da verdade (romance), de Almeida Cumbane; O Príncipe Suehtam e a Aruella no Tulipix (infanto-juvenil), de Andreia Edna da Silva; O peixe que sonhava comprar um barco (infanto-juvenil), de Japone Arijuane; e Makhalelo (crónicas), de Adriano Félix”, avança a nota de imprensa da Editorial Fundza.
Os originais submetidos à chamada literária da Fundza são seleccionados por um júri competente identificado pela editora.
Antes de serem publicados, todos os originais passam por um cuidadoso processo editorial. Garante a editora. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Moçambique - Severino Ngoenha lança o livro “Da Wesselia à Wesselia” na Beira

O filósofo moçambicano Severino Ngoenha lançou na Beira o seu mais recente livro, “Da Wesselia à Wesselia”, uma obra sob a chancela da Editorial Fundza, a qual reflecte sobre o lugar do homem num contexto dominado pela tecnociência, que consegue fazer “homens” melhores que os biológicos.


Segundo a publicação da Editora Fundza, Dany Wambire, editor do livro, no seu discurso, disse que a Fundza não está virada apenas para obras literárias, pois também tem estado a trabalhar com livros de outras áreas do conhecimento, como o caso de “Da Wesselia à Wesselia”.

Por sua vez, José Rombe, apresentador da obra, disse que Severino Ngoenha procura, “com “Da Wesselia à Wesselia”, colocar no centro da análise a necessidade de os africanos, especificamente os moçambicanos, comprometerem-se com a tecnologia e a ciência para ganhar uma posição entre as nações.

Na sua intervenção, Severino Ngoenha afirmou que a obra denuncia o problema ético das tecnologias ligadas às ciências, porque resultam na manipulação, em várias áreas, o que traz a disparidade entre os homens, havendo um convívio entre os fracos e os fortes.  “Há uma grande distância tecnológica entre vários países. O que será da humanidade? Se não acelerarmos os nossos passos, corremos o risco de sermos a espécie que vai desaparecer”’, advertiu o filósofo. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Moçambique - Baptista Américo lança “O endereço para dentro do segredo” em Nampula

Nesta terça-feira no Museu Nacional de Etnologia, em Nampula, a Editorial Fundza procedeu ao lançamento do livro “O endereço para dentro do segredo”, de Baptista Américo.

Com 81 páginas, avança a nota de imprensa da Editorial Fundza, o livro é um conjunto de 52 poemas que tentam, de maneira ousada, dar forma às lágrimas, às angústias e à dor. Com este exercício, o autor pretende que os seus leitores fortaleçam “o corpo, que é foz desse turvo rio”.

“O endereço para dentro do segredo” é uma bússola para uma peregrinação penitente pelo interior do ser humano. “É mesmo um endereço para quem queira tomar o segredo das coisas que tornam o sujeito poético incompleto, frágil e insípido”, garante o autor, citado na nota de imprensa da Editorial Fundza.

A obra é uma das seleccionadas na terceira Chamada Literária da Editorial Fundza, uma iniciativa que tem vindo a revelar novas vozes na literatura moçambicana. Desde 2022, já foram publicados mais de 40 novos autores de todo o país.

Na cerimónia de lançamento, o livro “O endereço para dentro do segredo”, de Baptista Américo, foi apresentado pelo docente universitário Francisco Victor Gaita.

Baptista Américo é natural de Lichinga, Niassa. É docente no Instituto de Formação de Professores de Alto Molócuè, Zambézia. Parte da sua produção literária está publicada nas antologias “Reduto dos poetas” (2019), “Contos e crónicas para ler em casa – II volume” (2020), “No cais do amor – antologia poética” (2022) e “Nampula: antologia de his-es-tórias de uma cidade vibrante” (2022). É um dos três vencedores da primeira edição do Prémio Gala-Gala e recebeu uma Menção Honrosa na primeira edição do Prémio Nó da Gaveta (2021). In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Moçambique - “Estórias trazidas pela ventania” garantem Prémio Literário Mia Couto a Adelino Albano Luís

O escritor Adelino Albano Luís venceu, esta quinta-feira, a segunda edição do Prémio Literário Mia Couto, com o livro Estórias trazidas pela ventania (prosa). A iniciativa é da Associação Kulemba em parceria com a Cornelder de Moçambique.

Macossa é um distrito como tantos outros do país. O lugar recôndito não tem electricidade e nem água canalizada. Só da vila-sede para a cidade de Chimoio, são umas boas cincos horas de carro. Afinal, a estrada é péssima e os 200 quilómetros de distância são uma infinidade de circunstâncias difíceis para quem almeja chegar rápido e seguro ao destino.

Na Escola Básica de Nhamagua, em Macossa, trabalha um professor de Português, que, há um ano e meio, tem leccionado as 7ª, 8ª e 9ª classes. Chama-se Adelino Albano Luís, e, segundo ficou a saber esta noite, é o grande vencedor da segunda edição do Prémio Literário Mia Couto, no género prosa. Quando lhe foi dada a informação, depois das 23h30, encontrava-se na cama, a tentar sonhar um capítulo para o dia seguinte. Por isso, longe de pensar o que pretendia a pessoa que lhe ligou, mal soube da razão, suspirou com espanto: “Meu Deus!”.

Contendo a emoção, naquele mesmo lugar agreste, o escritor de 26 anos de idade explicou que vencer o Prémio Literário Mia Couto significa que deve continuar a escrever e a melhorar cada vez mais a sua prosa, os seus contos. De seguida, entre sorrisos e silêncios repentinos, confessou: “Não contava que ganharia o prémio. Quando a lista com os nomes dos ilustres escritores finalistas foi anunciada, conclui que não tinha qualquer chance. Esta notícia é, para mim, uma enorme surpresa”.

Estórias trazidas pela ventania é um livro escrito em um ano, entre os finais de 2021 e os finais de 2022. Adelino Albano Luís lançou-se ao projecto logo depois de ter terminado o seu primeiro livro, Cronicontos da cabeça de velho.

Estórias trazidas pela ventania é um livro que, ao longo do tempo, foi ganhando novas páginas e narrativas até à versão final, que permitiu ao autor conquistar mais um prémio literário. “Espero que este prémio contribua para minha afirmação enquanto escritor e atraia mais leitores e curiosos, para que saibam o que escrevo a ponto de vencer um prémio tão distinto quanto este”.

À pergunta que tipo de responsabilidade a distinção pode trazer, Adelino Albano Luís respondeu: “A única responsabilidade é o maior compromisso para comigo mesmo. O meu pai disse-me, quando fui anunciado como finalista, que, se eu levava a escrita nas brincadeiras, a partir daquele momento, devia levá-la a sério”.

Tal como o pai, quem também lê o escritor de Macossa é a irmã mais nova, Saquina Albano Luís. É também por ela e pelos alunos de Nhamagua que o contista escreve. “Espero que este prémio sirva de incentivo para os meus alunos daqui de Macossa, um lugar que está a ser uma rica fonte de inspiração e de novas histórias”.

Estórias trazidas pela ventania, conforme a acta do júri, constituído por Lourenço do Rosário (presidente), Teresa Manjate, Ondjaki, Marcelo Panguana e Tânia Macedo, distinguiu-se “pela riqueza temática, versatilidade linguística e uma consistente construção dos contos”. Assim, reconhecido o seu livro, as ventanias de Agosto levam a casa de Adelino Albano Luís 400 mil meticais, valor fornecido pela empresa Cornelder de Moçambique, que, em parceria com a Associação Kulemba, organiza o prémio.

Ao género poesia, nesta segunda edição do Prémio Literário Mia Couto, o júri decidiu não atribuir nenhum vencedor.

Sobre o premiado

Adelino Albano Luís nasceu em 1998, na Cidade de Chimoio. É licenciado em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane. É autor da obra Cronicontos da Cabeça do Velho (2022), prémio literário Calane da Silva, organizado pela Alcance Editores (4ª edição- 2021). Também conquistou o primeiro lugar do Concurso de Crónicas da primeira edição da Feira de Livros da Beira (2021). José dos Remédios – Moçambique in “O País”


Moçambique - Adelino Albano Luís e Timóteo Papel lançam livros na Cidade de Chimoio 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Moçambique - Lex Mucache lança “Poemas do breve” em Maputo

Esta quinta-feira a Editorial Fundza lançou o livro “Poemas do Breve”, da autoria de Lex Mucache. O evento teve lugar no Instituto Guimarães Rosa, na Cidade de Maputo.

A obra de Lex Mucache é um conjunto de 33 poemas, cuja produção foi inspirada num universo luminoso, que fascina o autor desde a tenra idade.

“Desde pequeno, fascinou-me tudo o que existe e nos rodeia, incluindo o próprio ser humano, que é, a meu ver, a razão de tudo o que existe — se não é para ser admirado pelo homem, por que razão então o universo está aqui?”, reforça o poeta, no comunicado de imprensa da Editorial Fundza.

“Poemas do breve” é a primeira incursão poética de Lex Mucache, depois de ter iniciado o seu percurso literário na prosa, com um livro de contos, seguido por um romance. Mas sempre, segundo o autor, se interessou pela escrita de versos e pela combinação rítmica e estética de palavras”.

Justificando a escolha do título para a sua obra, o autor esclarece que a escrita do livro “foi muito diferente do exercício árduo que muitos escritores referem, quando falam do labor de redigir textos”.

“Poemas do breve” é um dos livros seleccionados na terceira chamada literária da Editorial Fundza, uma iniciativa que tem vindo a revelar novas vozes na literatura moçambicana. Desde 2022, já foram publicados mais de 40 novos autores de todo o país.

Lex Mucache é pseudónimo de Heráclito Mucache, nascido na cidade de Maputo, a 9 de Novembro de 1980. É mestre em Ciências de Educação. É professor e desenvolve actividades de leitura e escrita nas escolas. Publicou, em 2020, o livro de contos “Asas decepadas”, obra finalista do prémio 10 de Novembro. Em 2022, publicou o romance “Encontro em Rosebank”, livro finalista na 1ª edição do Prémio Literário Mia Couto. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Moçambique - Macedo Pinto lança livro que defende tese de que Revolução 25 de Abril iniciou na Beira

A Editorial Fundza lançou, às 18 horas desta quinta-feira, no Centro Cultural Português da Beira, o livro “Beira, a origem do fim”, da autoria do advogado Augusto Macedo Pinto. A obra foi apresentada pelo sociólogo e poeta Filimone Meigos.


O livro de Augusto Macedo Pinto defende a tese de que a Revolução de 25 de Abril de 1974, que marca o início da vida democrática em Portugal, pondo termo ao regime autoritário do Estado Novo e abrindo caminho para a resolução do problema da guerra colonial, terá começado na Cidade da Beira.

“É nossa intenção, nesta retrospectiva, mais do que elencar factos cronológicos, e do que dar uma opinião, logo subjectiva, apresentar factos ocorridos a partir de e na cidade da Beira, que deram a sua contribuição decisiva para a queda do Estado Novo (Salazar/Marcelo Caetano) em Portugal, a 25 de Abril de 1974”, afirma Augusto Macedo Pinto, citado na nota imprensa da Fundza.

No prefácio do livro, o antigo Presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, destaca a importância de “Beira, a origem do fim”, afirmando que Augusto Macedo Pinto “relembra factos aos que os viveram ou ouviram falar, e personagens aos que os conheceram e com eles conviveram ou deles ouviram falar, e informa a juventude e a outros que não tiveram a oportunidade de conhecer os que de forma brutal tentaram em vão suster o vento da mudança que tinha como objectivo a independência de Moçambique”.

Mais adiante, o Antigo Presidente da República ressalta o papel dos tumultos que tiveram lugar, na Cidade da Beira, a 17 de Janeiro de 1974, “que pelos vistos foram o detonador do despertar da consciência dos portugueses, com efeitos determinantes que levaram ao 25 de Abril de 1974, em Portugal”, avança a nota de imprensa.

Augusto Macedo Pinto, de ascendência luso-moçambicana, veio ao mundo em Nespereira, Cinfães, Viseu, em 11 de Dezembro de 1948. Sua jornada levou-o a Lourenço Marques, hoje conhecida como Maputo, em 1953, e, desde 1955, viveu em Tete. Entre os anos de 1968 e 1975, dedicou-se aos estudos na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Direito, enquanto dividia a sua vida entre Moçambique e Portugal. Actualmente, fixou residência na Cidade da Beira, Província de Sofala. Advogado de profissão, foi, entre 1991 e 1999, Cônsul Geral Honorário de Moçambique no Porto e na Zona Norte de Portugal. Actuou como assessor para os Assuntos Europeus da Ministra dos Negócios Estrangeiros do Governo de São Tomé e Príncipe. Mantém o blog “NANDI IWE” activo desde 2010, dedicado exclusivamente a notícias positivas sobre pessoas e países, e contribui como articulista, tendo os seus artigos publicados tanto na imprensa nacional quanto estrangeira. In “O País” - Portugal


quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Moçambique - Um canhão ou uma causa: um ensaio sobre “O Caçador de Pássaros” de João Baptista Caetano Gomes

Edita-se “O Caçador de Pássaros” de João Baptista pela Editorial Fundza em 2022; o autor é poeta e escritor moçambicano nascido em Malawi e residente em Manica. Publicou o livro de poesia, Águas cristalinas em 2022. Venceu o concurso de conto infantil ’Nó da gaveta’ com o livro “As aventuras de Manuelito”.


De acordo com a Ananaz (2018), a literatura infantil dedica-se especialmente às crianças, jovens e adolescentes. Fazendo parte desta literatura as histórias fictícias infantis e juvenis, biografias, novelas, poemas, obras folclóricas e culturais.

Ruz (2011) citado por Ananaz (2018), diz que os livros infantis são compostos por ilustração e texto, embora o formato varie. Sendo importantes elementos como a forma, a cor, textura e dimensão do texto. Vemos isto no livro ‘’O Caçador de Pássaros’’.

Por que um livro infantil? Porque a infância é um lugar que representa o primeiro estágio do desenvolvimento da criança. É um jardim que se guarda adentro de um homem. É o reino dos sonhos de cada humano, onde a água, a luz, o pão com queijo, ovo e leite são alimentos gratuitos e o mundo é perfeito porque o mal é apenas um personagem de classe baixa, na maioria dos casos tem sido um personagem negro, tal como retrata a Disney e algumas telenovelas, um personagem que chora quando vare o quintal da casa e quando lava a louça nas manhãs ou porque não se pode juntar à roda com outras crianças porque o vestido está roto ou porque é larápio e etc. Guardar a infância como um lugar sagrado é transformar um canhão numa causa, numa sociedade em que o som do canhão se ouve a detonar em todas as famílias e avenidas, onde homens e mulheres dedicam-se a trocar os sonhos por baldes de violência de diversificadas formas, desde a verbal à física. O desrespeito pelas leis e pelos símbolos nacionais. A cobrança ao outro do que nós próprios nunca o fizemos. Amotinamos dessa forma os canhões nas igrejas que discute-se o poder enquanto Deus é colocado em canhões. Nas instituições públicas e privadas onde os canhões detonam os sonhos de quem tem uma causa pela qual vive.

Logo à prior o autor começa de forma sábia oferecendo doses de coragem a cada leitor que é medicado por estas palavras terapêuticas na tentativa de silenciar os canhões, dizendo: “Não se envergonhe dos seus medos, pássaros medrosos também voam. Na natureza.”

Para Nietzshe (1973; pág.54), erro de causas imaginárias – tomando como ponto de partida o sonho: a uma sensação determinada, por exemplo, à sensação produzida pela detonação de um canhão, soando ao longe, é substituída depois por uma causa. Imagino o processo criativo deste livro tendo começado pela causa imaginária em que o sonho tenha sido o ponto aludido por Nietzshe. Oates (2008), descreve Faulkner que na composição do seu romance “o som e a fúria” começou por uma inexplicável imagem através duma janela, a visão de uma rapariga desconhecida com roupa coberta de lama a trepar uma árvore…ou Hemingway escrevendo em todas manhãs num café de Paris para mais tarde se tornar o seu primeiro romance. Nesta senda, vejo o autor imaginando que as pessoas pudessem voar, e porque o voo é a sublimação de nobreza, só as aves dispõem desse privilégio, embora os homens o façam por dentro dos seus sonhos, vejo o autor sonhando com as asas de quem vem suportando quem não as tem e um menino que ama as aves sendo arrastado pelo bico dos pássaros que usam das suas asas para fazer dele um ser voador. Começa assim a escrita deste livro que imagino ter sido do voo para a iniciação de um menino que dorme e se esquece do mundo e da escola para viver um sonho de caçar pássaros, não para aprisioná-los, mas sim para se tornar um deles e voar tal como eles o fazem. E assim o sonho torna-se uma causa.

Vejamos 4 áreas de estudo do livro:

Estudo do espaço;

Estudo de tempo;

Estudo da acção.

Exercícios de análise gramatical e estética.

Estudo do espaço:

De acordo com Ananaz (2018), existem espaços físicos, sociais, psicológicos e culturais. Espaços físicos, indicam o lugar onde acção se realiza; espaços sociais, o meio social onde os personagens se movimentam; espaços psicológicos, vivenciados pelos personagens de acordo com o seu estado do espírito; espaços culturais, referências culturais no texto.

João Baptista Caetano Gomes, apresenta os seus personagens inseridos numa casa que representa a família, um menino sonhador que vai à escola onde sonha com pássaros. Vide o excerto da pág. 11: ‘’Voam pelas ruas da cidade. Casa na rua.”

Em “O Caçador de Pássaros’’, encontra-se a presença do ritmo temporal na isocronia estabelecida entre o Benjamim, personagem principal do conto e pinguim e os demais pássaros que estabelecem um diálogo num espaço físico onde narram as aventuras de Benjamim.

O sonho movido por um mundo inclusivo, justo e de igualdades revela-se na escrita do autor, tal como se pode ver no excerto da pág 10: ”Surgem pássaros de todas as cores. Pássaros de todas as idades.’’

Estudo do tempo

Há descrições cronológicas que ocorrem no texto, o autor se dedica a associar as acções à determinadas marcas de passagem de tempo. Vejamos na pág. 9: “o dia já amanheceu’’ e na pág 11: “orvalho da manhã, ou no sol da tarde”

Estudo da acção

A narrativa apresenta uma acção aberta em que a imaginação se tece ao longo da descrição do conto. A imaginação move os personagens e o leitor que se põe a reflectir na acção psicológica do personagem com vista a antecipar os factos.

Benjamim, o menino descrito no conto de João Baptista, tem um sonho. Para viver o seu sonho abandona a sua família para viver na rua com os pássaros.

Exercícios de análise gramatical e estética:

A categoria gramatical da palavra presente no texto mostra a enumeração de substantivos, o uso de texto corrido para maior interactividade das crianças e o uso de figuras de sintaxe e de pensamento fazem do texto aqui apresentado num contributo de relevo para a nossa literatura infantil. Vide o excerto da pág 9: “nas árvores verdejantes. Nas acácias, nas mangueiras, nas laranjeiras.’’

João Baptista é um poeta que se autodenuncia ainda que num infanto-juvenil, pelo uso de figuras de pensamento e de sintaxe:

Vide os excertos da pág. 9: “vê-se a aurora do sol. O girassol…vai à escola com sua sacola de sonhos.”

O autor apresenta as asas como realização de um sonho no conto, sustentando a ideia que a sociedade tem, quer seja na religião cristã, onde as asas simbolizam pureza e santidade. Por isso, o símbolo do espírito santo, a pomba, tem asas. Quer seja para os gregos, as asas representavam ser mensageiro de divindades ou ser divindade. Para os xamanistas as asas representam o voo da alma e para taoistas o poder de voar significa alcançar a imortalidade. É assim que se nos oferece, o sonho em o “Caçador de Pássaros”. Onde o autor busca a significação das asas representadas em pássaros sonhados por Benjamim, para mostrar-nos que o céu é todos nós e com asas ou sem asas se pode partilhar a liberdade uns com os outros como um bem comum e que deve beneficiar a todos de forma inclusiva.

É caso para dizer que mais do que viver com as riquezas do mundo há que se libertar a alma de cada canhão e viver uma causa que move-nos à luz e ao encontro de nós próprios. Um dever que é também uma necessidade individual. E por esta via o autor convida-nos a sorvermos a liberdade. Deusa d’Africa – Moçambique in “O País”

Referências Bibliográficas:

ANANAZ, Kanguimbu. “A Literatuta Infantil Angolana no Período Pós-Independência: Estudo sobre a Escritora Cremilda de Lima”. Editora das Letras. Angola. 2018, Pág 23-27.

NIETZSHE, Frederico. “O Crepúsculo dos Ídolos”. Editorial presença. Portugal. 1973. Pág. 54.

OATES, Joyce Carol. “A Fé de um Escritor. Vida, Técnica, Arte”. Casa das Letras. Portugal. 2008. Pág. 96-98.




terça-feira, 10 de outubro de 2023

Brasil - Manuel Mutimucuio participa na Festa Literária Internacional de Paraty

O escritor Manuel Mutimucuio irá participar, entre 22 e 26 de Novembro, em Paraty, Rio de Janeiro, no Brasil, na edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty.

Durante a sessão literária, Manuel Mutimucuio espera divulgar a edição brasileira do romance Moçambique com Z de Zarolho, que, no país, foi editado pela Editorial Fundza.

Conforme o escritor explicou, aceitou o convite de participar na Festa Literária Internacional de Paraty porque a iniciativa constitui uma plataforma internacional de enorme prestígio, mas também porque permite dialogar com o público brasileiro, que é a maior audiência na literatura em língua portuguesa.

Há alguns anos, Manuel Mutimucuio participou no Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, igualmente no Brasil. Também por isso, o escritor espera continuar a consolidar a sua presença no mercado literário brasileiro, através de feiras internacionais que são poderosas plataformas de intercâmbio.

Na Festa Literária Internacional de Paraty, Manuel Mutimucuio irá interagir com autores de diferentes proveniências Entre os autores confirmados, constam Augusto de Campos, Itamar Vieira Jr., Flora Süssekind, Luiza Romão, Joice Berth, Angélica Freitas (Brasil), Kwaeke Emezi (Nigéria, EUA), Alana Portero (Espanha), Christina Sharpe (EUA), David Jackson (EUA), Dionne Brand (Trinidad e Tobago, Canadá), Ilya Kaminsky (Ucrânia, EUA), Kelefa Sanneh (Inglaterra, EUA), Laura Wittner (Argentina), Marion Aubert (França), Mónica Ojeda (Equador), Nora Krug (Alemanha) e Sinéad Gleeson (Irlanda).

Moçambique com Z de zarolho retrata um cenário capitalista global, que “obriga” o governo moçambicano a adoptar uma medida extrema e nada consensual: instituir o inglês como idioma oficial e deixar para trás tanto as línguas bantu locais quanto a língua portuguesa. No entanto, essa mudança abrupta tem impactos na vida das personagens. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Moçambique – A poesia de Elísio Miambo em Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas

Elísio Miambo oferece-nos “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” em poesia, pela Editorial Fundza, um livro que divide-se em três partes: primeiro acto designado catarse, o segundo acto desigado kiini e por fim, epístolas. O poeta apresenta este drama poético que purifica-nos a cada cena que o autor representa a cada um de nós nesta poesia.


Na escrita de Elísio Miambo, vê-se o escritor e o movimento dos objectos por via do uso das imagens que movem os sentimentos e os objectos. Vide o excerto da página 16, “sento-me rente à escrivaninha”. Assim começa o movimento do poeta diante do objecto que se move por via das palavras, move o escritor e o que lê.

O poeta fala a língua da fé, cita Saramago para iluminar as palavras de largos horizontes neste engenho que é a arte de escrever em que o autor é resiliente no ofício que outros desfloram. O Poeta começa o seu exercício de escrita cantando e dedicando aos seus irmãos de Xitende, vê-se a prior pela dedicatória feita: “aos meus, do Xitende”; pela menção feita ao belíssimo poema de Andes Chivangue “Alma Trancada Entre os Dentes”, pelo romance sagaz de Dom Midó das Dores “A Biblia dos pretos”, pela “Equidade no Reino Celestial” de Deusa d’Africa, pelas “ilusões” (romance intitulado Ilusão à Primeira Vista) de Almeida Cumbane e pela “A ilha dos mulatos” de Sérgio Raimundo. Faz alusão ao escritor Milan Kundera “a insustentável leveza do ser”, cujas técnicas se reverberam em múltiplos sentimentos adiante apresentados. Cita o Fernando Pessoa no seu poema “Fingidor”, autor considerado como uma tradição que se segue na Xitende e as dúbias de Antero de Quental. Nota-se neste primeiro poema um panegírico em que são cantados os seus irmãos e mestres. Ele mostra que não é só, na solidão da sua alma que devaneia em noites na escrivaninha, o poeta é um conjunto de seus. Vide o excerto da pág 17, “ler é deitar-se de costas numa caixa de espelhos..(…)…Ressonância de expurgação de brumas e escancaro clausuras”.

Com esta poesia o autor nos empresta as chaves para escancarar as clausuras e expurgar as brumas, afinal, que se desfaçam todas as brumas tecidas para que a paz floresça nas famílias de todas as nações. Revisto-me de curandeira que lê a sorte lançada pelo poeta, nesta escrita onde um sonho revestido de metáforas e metalinguagens se oculta, mas porque ninguém se oculta dos ósculos e de sua crença revelo: o poeta sonha com a paz para todos, Homens mais humanos e um mundo aberto para todos.

No poema vácuos da página 19, o autor descreve uma rua migrante que tem por dentro, leva-nos às memórias de Noémia de Sousa, a força de sua escrita que fê-la exilar-se em Paris por opor-se ao sistema político que vigorava. Vide o excerto “Fizera Vera Micaia travestir o poema….(…)… o poema traveste o poeta em mim”. Vemos o poeta travestido em vários outros seres e com vários rostos e géneros, o que faz-nos compreender o poder conferido pela poesia ao qual o poeta não se faz de rogado e governa o seu território com afoiteza.

Elisio Miambo, traz-nos o atleta queniano Abel Mutai, que se equivocara confundido a linha de chegada com alguns sinais próximos e que fora salvo pela bondade do espanhol que gritou e levou o Mutai à vitória nos jogos olimpicos de Londres em 2012. A medida que a poesia aqui se tece, o título do livro, ganha mais significação de ser, vide o excerto “nesses rifles por desarmar” ou mesmo brumas por desfazer’’.

No poema “Tratado” da página 20, denota-se como um mero plano pode conduzir uma sociedade ao cume de inverdades na sublimação de um criador sem criatura alguma. Vide, “neste tempo em que a memória infinda a coincidência. Propõe a referência. Ou o intertexto.”

O poeta faz alusão ao marxismo no poema “revelação” da página 21, onde descreve o povo que se reveste nele próprio, colocado sempre em posição dominada diante de um omnipotente que representa o dominador.

De acordo com Paz (2009), o poeta é linguagem em tensão, denota-se este conceito nas imagens deste texto da página 21, “Com Cachimbo em chamas. Um olhar taciturno. Calções de Ganga. Rotos. E uma túnica castanha. De linho. Cobrindo o tronco nu. As sandálias com três tiras de couro preto. A barba desfeita e grisalha. Como o pouco cabelo que lhe sobra. Um aroma de incenso à mistura…”

O poema “muedas” da página 22, é um grito de socorro em que o poeta que se vê massacrado na manifestação contra a dominação colonial desta pátria ocorrida em 1960, o massacre de Mueda, um ano que é também de África. Entrelaça a palavra no solo de Mueda, berço da moçambicanidade e também palco actual de incessantes massacres terroristas e não encontra as promessas feitas, o fruto do amor plantado, nele vê-se uma alma rota de um homem que não mais encontra os retalhos com que cobriu uma pátria. Enfurece-se e em prantos exorciza a terra que quiçá o mundo por ela não se componha. Vide o excerto, “Goteja em mim, quando eu, aos prantos, vou exorcismando o Mueda em que me deixaste. Como se de outros Muedas o mundo não se compusesse.”

Critica as vozes que sopram como os ventos de Agosto em campanhas eleitorais em que se anunciam os planos quinquenais como um tiro dado no escuro mesmo na incerteza. Aqui o poeta revestido de cidadão apela a uma política racional e em conformidade com as necessidades da colectividade que acima de tudo que seja exequível para que esses ventos de Agosto tenham no seu resquício alguns frutos comestíveis. Vejamos na página 23, “como poeira de Agosto. Revigoram-se as vozes (distintas no timbre e siameses na ausência de escala) no íntimo das gotículas da saliva. …votem, votem, votem…dizem. Porque mesmo no escuro. É preciso dar um tiro certeiro….”

O poeta é comprometido com o seu povo, os clichés ofertados em discursatas que não enchem a barriga do povo, desassossegam o autor, que em seu vaticínio anuncia um futuro em que o povo tenha água e luz, para viver condignamente. Neste texto reencontro-me com Oates (2008), que diz que a escrita é a tentativa de captar a voz humana e o poeta Elísio diz que sonhar é voar, encontramos aqui, uma imagem de captura da voz com todos os incensos que perfumam o hálito humano: se grotesco ou nauseabundo como a fome ou mesmo adorável como os manjares da música jazz que enleva a alma, vide a página 25, o poema “pouso” que diz: “como se sonhar não fosse a experiência do voo. Para quem não tem asas. Fiz, pela janela, preces de água, pão e luz. Ao raio de uma estrela cadente…. É preciso ser muito poeta para vaticinar (ao povo) o que não cabe na bolsa de valores”

No poema Sillicon Valley da página 28, abalroamo-nos com uma sociedade feita por oligarquias em que enquanto uns sonham, outros abrem a porta dos sonhos, entram e neles moram, um ready made em que a miséria é uma obra de arte seja em estado de sítio ou lockdown. Vide o excerto, ‘‘edificava-se plurais. Com o ranger de uma porta. Que se abria para o horizonte…”

O poeta, mostra-se preocupado pelo facto de abandonarmos ritmos tradicionais como o “pandza” que alegra e contangia para aceitarmos de tudo e sobretudo aquilo que não é nosso. Homenageia Jimy Dludlu e Elsa Mangue como músicos conducentes à tradição cultural, porque ’’o regresso às raízes se faz peremptório. Sempre que a leveza consciente da maturidade, pesa mais que o peso inconsciente da infância’’ página 31.

No poema das páginas 42-43, “além da carne” descreve o que à outrora fora belo como um pensamento-imagem vácuo, sem adornos e questiona a justiça feita diante das desigualdades sociais, questiona a força com que à outrora se fez a busca da liberdade, a mesma força que hoje sucumbe no soalho, porque somos todos mortais, ele cita a sapiência como além do tempo e da carne, mesmo que seja para ser aplicada num ambiente em que o poder oprime ao conhecimento e aplaude a quem se prostra e mendiga a quem expulsa de seu reino ou território. Vide o excerto “resguardo-me neste pensamento-imagem de ti: sem peito, sem quadril, sem bunda….com os teus prantos mortos…libertadora e caçadora de equidades. Arrasas-te ante o brio da carne. Que agora se deita no soalho. Sobrando-te só o intelecto que soçobra sem boia que lhe sustente. Ei-la, portanto, a bruma que te enclausura no pranto das equidades… com que tecidos se tece o baile da equidade, que vive na pedincha por aplausos do opressor”.

Neste poema encontramos nesta poesia que a auto-intitula em fala híbrida ou prosódico, este jogo estético de ser um e tanto outros sem se importar com a forma. Encontramos comumente o povo, numa intensa busca pela equidade nas lutas travadas. Pode se notar que esta poesia é o arquétipo de uma arte interventora, em que o uso da língua e da metalíngua para a definição dos objectos, o gosto pela música jazz ou blues, pandza ou marrabenta e a força da escrita, faz com que tudo viva para além da matéria que sobrevive para além do tempo quando a força de querer transpõe as barreiras do tempo.

Após a sua estreia em “retroalimentações do ego” em 2020, Elísio Miambo, regressa trazendo um abraço ou aperto de mão como acerto de contas, pois aquiesce-nos pagar as dívidas ocultas desocultando-as ao expurgar as brumas e escancarar as clausuras. Aqui desfazemos as brumas e enclausurarmo-nos desnudados de todo o poder para que na terra onde encontramos o nosso umbigo, a nossa mãe, vivamos sem nos preocuparmos em lutar pelas facilidades que nos abrem as portas de outros horizontes, apenas sejamos nós mesmos, mais humanos, mais independentes e vivamos a nossa solicitude e uma paz duradoira. In “O País” - Moçambique

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Referências Bibliográficas:

OATES, Joyce Carol. ‘‘A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte’’. Lisboa: Casa das Letras, 2008.

PAZ, Octavio. “Signos em Rotação”. São Paulo: Perspectiva, 2009.


Moçambique - Adelino Albano Luís e Timóteo Papel lançam livros na Cidade de Chimoio

Nesta quinta-feira, na Faculdade de Engenharia da Universidade Católica de Chimoio, foram lançadas as obras literárias Estórias trazidas pela ventania (contos), de Adelino Albano Luís, e Deixa-me escrever-te (poesia), de Timóteo Papel.


Segundo uma nota da Editorial Fundza, Estórias trazidas pela ventania é um livro de 25 contos, que, usando uma linguagem simples e coloquial, retrata diversos acontecimentos de fórum social e privado. Por isso mesmo, enquanto lê, o leitor depara-se, não raras vezes, com situações facilmente denotáveis com a realidade de Moçambique.

Ao longo dos enredos dos contos, casas se movem por si mesmas; um natal é comemorado na lixeira; há um sequestro sem um sequestrado; uma psicóloga que precisa ser consolada pela paciente ou um Eusébio que não quer saber de futebol. A proposta literária de Adelino Albano Luís foi apresentada por Inocêncio Albino.

Quanto a Deixa-me escrever-te, avança a mesma nota da Editorial Fundza, é uma obra poética rítmica e cantada. O ritmo, que é a característica intrínseca e peculiar da poesia oral africana, evidencia-se nos poemas com maior propriedade. Isto é, o poeta diz a arte em versos e comunga a sacralidade do amor em um recorte lúdico e potente, no universo de uma realidade que, por vezes, é tão árida, tão inóspita, fazendo ressurgir, até mesmo aos olhos mais cépticos, a existência de afectos que soariam inatingíveis em determinadas circunstâncias.

Deixa-me escrever-te conduz o leitor, portanto, aos detalhes despercebidos do cotidiano, com os momentos e delicadezas que não se revelam aos olhos enevoados de rotina. A proposta literária de Timóteo Papel foi apresentada por Francisco Massambo. In “O País” - Moçambique

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Adelino Albano Luís nasceu em 1998, na Cidade de Chimoio. Licenciado em Filosofia pela UEM, é professor e o conto é seu género literário de eleição. Estreou-se com obra ″Cronicontos da Cabeça do Velho″ (2022), prémio literário Calane da Silva ⁄ Alcance Editores (4ª edição – 2021). Conquistou o primeiro lugar do Concurso de Crónicas da 1ª edição da Feira do Livro da Beira (2021); Conquistou o primeiro lugar do concurso literário Dia Mundial da Língua Portuguesa: estórias pandémicas, e foi finalista do prémio Fundação Fernando Leite Couto (2022), com a obra Estórias trazidas pela ventania. Participou em várias antologias, dentre as quais o volume I de Espíritos Quânticos – Diário de uma Quawwi.

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Timóteo Gentil Papel nasceu em 1990, na Zambézia. É docente, pesquisador, poeta e escritor, licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ensino de História, pela Universidade Pedagógica de Maputo. É Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, pela Universidade de Santiago – Cabo Verde. É autor da obra Não sei ser triste (2021). Participou nas antologias Literatura e cultura em tempos de pandemia (2021); As Áfricas dentro de mim (2021); Encontro de gerações (2022); e Antologia Luís Vaz de Camões e convidados (2022).

Os dois livros foram seleccionados na segunda chamada literária da Editorial Fundza.


sexta-feira, 21 de julho de 2023

Moçambique - Editorial Fundza lança Boleia à chave da felicidade de Roberto Savanguanni

Boleia à chave da felicidade, da autoria de Roberto Savanguanni, é o título do mais recente livro da Editorial Fundza, lançado esta sexta-feira, na Biblioteca Central da Universidade Pedagógica de Maputo (Museu).

Com aproximadamente duzentas páginas, o livro de Roberto Savanguanni é constituído por sete capítulos, designadamente: Apresentação; O despertar da iluminação do sonho; A esperança alimenta o sonho; A persistência cria ideias; Relatórios especiais; Resumo relatórios 16: os três diamantes; e Resumo do relatório: conclusivo.

Conforme sugerem os capítulos, trata-se de um livro que, não obstante o seu carácter literário, pretende ser um exercício motivacional, capaz de apoiar o leitor rumo a uma postura positiva em relação aos eventos diários e à vida em sociedade. Por isso mesmo, na Boleia à chave da felicidade, o amor é um belo complexo que se constrói no solo insubstituível do próximo.

No livro de Roberto Savanguani, é com o amor que a vida se torna útil para nós e para o outro, pois nos protege da erosão do coração e da mente. Tal fundamento proporciona condições mais do que suficientes para a edificação do bem-comum ao nível individual e social.

Roberto Savanguanni, pseudónimo de Roberto Armando Savanguane, nasceu a 06 de Dezembro, em Maputo. É escritor, poeta, empreendedor e estilista moçambicano. Estudou Gestão de Transportes. Foi actor de teatro e gestor. In “O País” - Moçambique


quarta-feira, 1 de março de 2023

Moçambique - Japone Arijuane estreia-se no universo infanto-juvenil com O peixe que sonhava comprar um barco

O peixe que sonhava comprar um barco é o título da nova proposta literária do poeta Japone Arijuane. O livro infanto-juvenil foi apresentado pelo jornalista Elton Pila com leitura encenada de Guilherme Roda. A sessão de lançamento decorreu no Instituto Guimarães Rosa/ Centro Cultural Brasil-Moçambique, Cidade de Maputo


Ao longo dos anos, Japone Arijuane sempre ouviu os amigos, colegas de escrita, a defender que escrever para os mais novos é algo complexo e muito responsável. Verdade ou não, o poeta desafiou-se a escrever para as crianças. Porque sim. No entanto, os primeiros ensaios não resultaram em publicação. Ficaram trancados em alguma gaveta lá de casa. Ainda assim, a alma do artista não esmoreceu. Pelo contrário, aventurou-se numa nova tentativa, a que intitulou O peixe que sonhava comprar um barco.

Na verdade, quando terminou de escrever esse texto, abandonou-o em algumas páginas word do computador. Até que há mais ou menos um ano, teve o conhecimento de que a Editorial Fundza tinha lançado a primeira chamada literária. Como tentar não faz mal a ninguém, o poeta submeteu o texto e, depois de ter sido apreciado por um júri constituído para seleccionar as melhores propostas literárias, ao invés de terminar numa grelha, temperado com alho e limão, O peixe que sonhava comprar um barco ganhou peso e consistência. Por isso, a Fundza juntou o poeta a escritora Angelina Neves, de modo que o resultado final fosse o melhor possível. “Com a colaboração da Angelina, a sua atenção e revisão, tornamos o texto mais infanto-juvenil”, admitiu Japone Arijuane.

Ao mesmo tempo que o poeta trabalhava com Angelina Neves, o texto ia sendo ilustrado por Walter Zand. “Uma das melhores surpresas foi a ilustração do Walter. Fiquei maravilhado! O trabalho dele superou as minhas expectativas”.

Apesar de se tratar de um livro infanto-juvenil, o poeta previne o leitor: “No fundo está aqui o Japone de outros livros. A minha essência como poeta está aqui”.

Ainda assim, por se tratar de um livro para os mais novos, o poeta adianta que sentiu a necessidade de investir mais no ritmo, na imagem e na musicalidade dos poemas. Afinal, entende, desse modo também se pode prender o leitor de todas as idades. José dos Remédios – Moçambique in “O País”