Proposta é mudar contextos dominados por homens, oportunidades de misoginia e ensinar jovens a defender-se na esfera digital. A ONG Girls Up nasceu nos EUA e alastra-se a outros países. A socióloga Munah Munek disse à ONU News que debate entre meninas e meninos é essencial para construção de uma nova realidade
Quem ouve as jovens? Uma jovem
brasileira que lidera clubes para jovens defende que elas precisam ocupar
espaços de destaque, desde a própria comunidade até os grandes centros de
poder.
Já uma socióloga participante na 70.ª Sessão da Comissão
sobre a Situação da Mulher, CSW, considera urgente conquistar o direito e a
legitimidade de falar de igual para igual.
Impacto na Sociedade
Neste mês de março, o Mês da Mulher, levou milhares de
vozes femininas a Nova Iorque. Na sede da ONU, a 70.ª CSW teve brasileiras da
iniciativa global Girl Up promovendo um evento especial com foco na saúde
menstrual de adolescentes e principais perguntas de milhares de jovens.
Em 2026, os debates foram guiados pelo lema: “Justiça.
Ação. Para todas as Mulheres e Meninas”. Em pauta: o direito à liderança, o
acesso aos espaços de decisão e a luta ativa contra a desigualdade e a
violência.
A ONU News conversou com Lucília, representante da
ONG Girls Up. Ela atua diretamente com clubes locais que ajudam a quebrar as
barreiras impostas às mulheres, na expectativa de mudar a trajetória e o futuro
dessas jovens.
“O que acontece muito é que, às vezes, nós não temos voz,
nós meninas mais jovens, acabamos não tendo tanta voz nos debates e existem
muitas questões que as meninas precisam que sejam ditas. Então, um dos tópicos
que a gente vem falando muito sobre ultimamente é a dignidade menstrual, como
as necessidades que certas meninas têm com relação à sua saúde menstrual. Elas
precisam ser ouvidas, quais as adaptações que precisam ser feitas, mas essa voz
muitas vezes não ecoa onde ela precisa ecoar. Então, nós viemos aqui como uma
forma de trazer essa mensagem, que essas meninas precisam que cheguem mais
longe para que elas sejam atendidas.”
Expor o que jovens passam e precisam
Quem também participou da conversa foi a socióloga Munah
Munek. Na conversa com a ONU News, ela ressalta que abrir espaço para a
juventude debater e expor as suas necessidades é essencial, seja para meninos
ou meninas.
Segundo a especialista, nada supera a sensação de saber
que a sua voz tem valor.
“É um sentimento muito bom de abertura, realmente,
porque, como eu falei, às vezes esse espaço não é aberto. Então, quando nós
conseguimos abrir esse espaço e esses jovens e essas jovens, meninos, meninas,
quando todos conseguem sentir que o espaço foi aberto para que o debate
aconteça, para que nós consigamos trazer as nossas perguntas, é uma coisa muito
boa, porque não existe nada melhor do que sentir que você está sendo ouvido.
Então, é uma coisa realmente muito gratificante ver essas meninas, esses
jovens, podendo trazer a sua realidade, falar, é isso aqui que acontece na
minha região, na minha casa foi desse jeito, e essas pessoas sentem que,
finalmente, estão podendo expor aquilo que elas passam e que elas precisam.”
Estratégias de segurança digital
A presença da Girl Up vai muito além do Brasil: trata-se
de uma força global. Nascida nos Estados Unidos, a ONG atua em nações como
México, Chile, Argentina e Índia, moldando as suas ações de acordo com as
necessidades específicas de cada região.
A apresentação mostrou estratégias que as jovens usam
para reivindicar direitos e engajar outras meninas de forma presencial ou
virtual. Além disso, destacou a necessidade de fortalecer a conexão com jovens
de outros continentes.
“Na Girls Up Brasil, a gente tem algumas parcerias para
esse projeto, em especial, sobre saúde menstrual, que a gente vai falar hoje,
nós temos a parceria do Instituto Alana, que é um instituto também que trabalha
para promover a igualdade, o crescimento, o desenvolvimento de crianças no
Brasil, e a Girls Up Brasil também se organiza em diversas frentes, além de
menstruação. Nós trabalhamos também com democracia, com política, encorajando
meninas a não só se candidatarem, serem lideranças, mas também trabalharem para
promover o voto jovem, para consciencialização política pela democracia,
trabalhamos também com as áreas de tecnologias, meninas nas ciências, estamos
muito enfocadas também em seguranças e estratégias de segurança digital, e com
o nosso pilar de saúde, onde está a saúde menstrual, a saúde mental, também
trabalhando esses eixos.”
No diálogo, Munah Munek destacou ainda um avanço recente
e importante para meninas na busca por equidade: a segurança digital dos
menores, agora garantida por lei modernizada no Brasil.
Em vigor desde 17 de março, o chamado ECA Digital
atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente e moderniza a proteção dos
jovens na internet.
“ECA é o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é uma
lei que nós temos no Brasil, se eu não me engano é desde 1992, é uma lei
extremamente sofisticada no que tange à proteção dos direitos de crianças e
adolescentes, desde garantir a eles o acesso à vida comunitária, o direito à
saúde, educação, lazer, ao brincar, colocando crianças e adolescentes como
prioridade absoluta em todos os temas que tangenciam as nossas vidas. O que a
gente faz na Guerra UP é aumentar, extrapolar essa questão da segurança, também
dando para essas jovens que trabalham, que estão dentro da nossa rede,
conectadas dentro da nossa comunidade, a possibilidade de exercerem as suas
lideranças”.
Para Munah, atualizar as ferramentas de segurança
digital, criar um senso de comunidade e formar líderes são passos que
transformam a realidade de milhares de meninas.
Maior projeção
Lucília, por sua vez, faz um alerta: é urgente que as
meninas sejam ouvidas em todos os níveis de decisão. Ela acredita que, ao dar
espaço para essas vozes, as jovens passarão a ocupar lugares de destaque, desde
o dia a dia na comunidade até os grandes centros de poder.
"A primeira coisa que todas nós queremos é que o
mundo esteja aberto a nos escutar, não só sobre a nossa saúde, mas, como a
Munah falou, a Girl Up atua em diversos temas e nós queremos fazer parte de
todos esses temas. Isso não significa necessariamente estar na ONU ou estar no
Congresso Nacional, óbvio que estar nesses lugares é uma coisa maravilhosa, a
Girl Up Brasil já esteve nos dois, então é claro que nós queremos essas
oportunidades também, mas se nós pudermos ser ouvidas nas nossas casas, nas
nossas ruas, bairros, cidades, onde tudo começa, exatamente, dos lugares
menores aos de maior projeção, se nós pudermos ser escutadas em todos os temas
que têm algo a ver com a nossa existência, aí eu acredito que as meninas vão
ter o direito e a propriedade para lidar
com o mundo da forma que nós queremos”
Potencializado pela atuação dos clubes, o novo mecanismo
para garantir um ambiente digital seguro e a proteção integral da infância
exigirá uma responsabilidade compartilhada entre famílias, plataformas e o
Estado. A medida também requer ferramentas rigorosas de verificação de idade e
controlo parental.
O trabalho da Girl Up aborda, ainda, o combate à
exploração sexual e os desafios impostos pelas plataformas digitais, que afetam
as meninas de forma desproporcional. Eleutério Guevane – Brasil ONU News
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