Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Moçambique – A Fundação Fernando Leite Couto apresenta “A Arte do Pensamento Crítico”, programa para 90 jovens dos PALOP

A Fundação Fernando Leite Couto, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e em parceria com os colectivos CACAU (São Tomé e Príncipe), Kino Yetu (Angola), Ur-GENTE (Guiné-Bissau) e o Instituto Pedro Pires (Cabo Verde) promove em 2026 A Arte do Pensamento Crítico, um programa dirigido a 90 jovens de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.


O crescimento do espaço digital ampliou a circulação de informação e a coexistência de múltiplas narrativas, tornando mais complexos os processos de interpretação de conteúdos e do mundo. Neste contexto, o pensamento crítico afirma-se como uma competência essencial para interpretar, questionar e enquadrar narrativas. A Arte do Pensamento Crítico parte desta realidade contemporânea e propõe um espaço de formação e criação centrado na relação entre o pensamento crítico e as linguagens artísticas contemporâneas.

O programa estrutura-se em masterclasses, oficinas práticas, sessões de mentoria e uma mostra pública de trabalhos desenvolvidos, dirigindo-se a jovens entre os 18 e os 30 anos, nacionais e residentes nos PALOP.

As masterclasses reúnem escritores, académicos, jornalistas e criadores como Francisco Noa, Eduardo Quive, Raquel Lima, Nástio Mosquito e Mehak Vieira, e abordam temas como pensamento crítico, desinformação, identidade, linguagem e circulação de narrativas no contexto contemporâneo. A sessão de abertura do ciclo de masterclasses estará a cargo de Mia Couto e Elísio Macamo.

Nas oficinas, os participantes desenvolvem trabalhos autorais em escrita, fotografia e vídeo, acompanhados por facilitadores como José dos Remédios, Luísa Nhamtunbo e João Graça, que intervêm directamente no processo de construção das ideias e na tomada de decisões estruturantes relativos ao que se pretende como resultado.

O percurso inclui ainda sessões de mentoria individual e acompanhamento do desenvolvimento dos trabalhos, promovendo o aprofundamento dos processos de criação e reflexão. O programa culmina numa mostra pública de trabalhos desenvolvidos, apresentando obras em diferentes linguagens (texto, fotografia, vídeo e storytelling) produzidas ao longo do percurso.

A Arte do Pensamento Crítico parte da ideia de que o pensamento crítico não é apenas uma competência individual, mas um processo activo de construção de sentido, em diálogo com as práticas artísticas contemporâneas. As candidaturas ao programa abrem em data a anunciar brevemente. In “Moz Entretenimento” - Moçambique



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hungria - Mia Couto distinguido com o título de Doutor Honoris Causa

O escritor moçambicano Mia Couto foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Eötvös Loránd (ELTE), uma das mais prestigiadas instituições académicas da Hungria, sediada em Budapeste.


A homenagem foi atribuída durante uma cerimónia realizada na passada sexta-feira, 08 de Maio, onde a universidade destacou o escritor moçambicano como uma “voz incontornável dos povos do chamado Sul Global”, sublinhando ainda a relevância internacional da sua obra, traduzida e premiada em dezenas de países.

Além de Mia Couto, a universidade distinguiu também quatro cientistas internacionais pelos seus contributos de relevância global nas respectivas áreas.

Na sua mensagem durante a cerimónia de gala Mia Couto partilhou aquele galardão de mérito com todos os escritores moçambicanos e com todos os professores que “se empenham em trazer luz e esperança para as novas gerações de Moçambique”

Mia Couto é um dos mais importantes escritores africanos contemporâneos. Autor de mais de 30 livros entre romances, contos, poesia e crónicas, tem a sua obra traduzida para mais de 30 línguas e publicada em diversos países. Vencedor do Prémio Camões, Mia Couto destaca-se pela recriação poética da língua portuguesa e pela forma como aborda a memória, a identidade, a tradição e os desafios sociais de Moçambique. A sua obra é referência incontornável da literatura africana e lusófona, contribuindo para a projecção internacional da cultura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Moçambique - Paulina Chiziane e Mia Couto inspiram tese de doutoramento de docente da UniLicungo em Portugal

Os escritores moçambicanos Paulina Chiziane e Mia Couto tornaram-se tema de uma investigação de doutoramento defendida pelo docente Joel António Tiago, da Faculdade de Educação da Universidade Licungo, na Universidade de Aveiro, em Portugal.


A tese, intitulada “A Identidade Cultural, Política e Religiosa em Paulina Chiziane e Mia Couto”, foi defendida na tarde de 6 de Maio de 2026, no âmbito do Doutoramento em Estudos Literários, especialidade em Literaturas em Língua Portuguesa, sob orientação científica do Professor Doutor António Manuel Ferreira.

Segundo a UniLicungo, a investigação procurou analisar a representação da identidade cultural, política e religiosa de Moçambique através das obras O Sétimo Juramento, de Paulina Chiziane, e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto.

O estudo teve ainda como objectivo identificar e descrever as principais marcas da moçambicanidade presentes nas obras dos dois autores, explorando questões ligadas à cultura, religião, política e construção da identidade nacional no período pós-colonial.

De acordo com a nota divulgada pela instituição, Joel Tiago destacou que Moçambique apresenta uma riqueza cultural marcada pela coexistência de vários grupos culturais e religiosos, factor que abre espaço para múltiplas abordagens científicas e literárias.

A investigação também abordou o sincretismo religioso presente na sociedade moçambicana, analisando a convivência entre religiões tradicionais africanas e outras crenças, como o cristianismo, islamismo e hinduísmo, elementos frequentemente retratados nas narrativas de Chiziane e Mia Couto.

Além dos Estudos Literários, a tese incorporou contribuições de áreas como Estudos Culturais, Ciências Políticas, Antropologia e Sociologia, reforçando o carácter multidisciplinar da pesquisa.

Com esta conquista académica, a Faculdade de Educação da UniLicungo passa a contar oficialmente com mais um doutor, num feito que a instituição considera importante para o fortalecimento da investigação científica e valorização da literatura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Moçambique - Mia Couto lança novo livro infantil “As Sementes do Céu”

O escritor moçambicano Mia Couto regressa à literatura infantil com o lançamento da obra As Sementes do Céu, que será apresentada ao público neste sábado, 13 de dezembro, às 10 horas, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo.


O conto, ilustrado por Susa Monteiro, aborda a relação entre o ser humano e a natureza, destacando o valor da infância, da memória e do diálogo entre gerações. A narrativa acompanha um avô e o seu neto, que lamentam o avanço do desmatamento e refletem sobre a responsabilidade de preservar a vida que brota da terra. A história sublinha a importância de cultivar esperança e de construir um futuro sustentável.

O livro traz passagens emblemáticas, como: «Um dia, o avô espreitou pela janela e contemplou as montanhas. Deu um passo atrás, com as mãos no peito, como se lhe faltasse o ar. Apontou para o topo dos montes, lá onde vivia uma imensa floresta. Agora, restava apenas areia e pedra. Tinham cortado as árvores todas.»

O lançamento contará com uma leitura encenada pelos actores Fernando Macamo e Nélia Gilberto, seguida de uma intervenção do autor e sessão de autógrafos. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Brasil – Moçambicanos Mia Couto e Énia Lipanga participam na Festa Literária Internacional de Niterói

A cidade de Niterói será palco de grandes encontros literários no dia 17 de Outubro, durante a Festa Literária Internacional de Niterói. Entre os nomes de destaque desta edição figuram a poeta e activista moçambicana Énia Lipanga e o consagrado escritor Mia Couto, que participam em mesas e conferências dedicadas à literatura como espaço de diálogo, resistência e criação de novos mundos.


Énia Lipanga integra a mesa “Escrever, Espaço de Resistência”, que propõe uma reflexão sobre a escrita enquanto lugar de enfrentamento, memória e afirmação. Reconhecida pela sua escrita feminista e pelo seu compromisso com a defesa dos direitos das mulheres, Énia levará à conversa a sua experiência como poeta, comunicadora e activista, explorando as múltiplas formas de resistência que a palavra pode assumir.

Já Mia Couto participa na conferência “Memórias e Mundos Possíveis”, um encontro que celebra a força da literatura na construção de sentidos e narrativas capazes de atravessar fronteiras. Autor de mais de trinta obras, Mia Couto é considerado um dos nomes mais relevantes da literatura em língua portuguesa, tendo sido distinguido com prémios de prestígio, como o Prémio Camões e o Neustadt International Prize for Literature.

A Festa Literária Internacional de Niterói reúne autores brasileiros e estrangeiros, promovendo debates, oficinas e apresentações culturais. O evento é gratuito e aberto ao público, consolidando-se como um importante espaço de encontro entre diferentes vozes e expressões literárias do mundo lusófono. In “Moz Entretenimento” – Moçambique com “Cidade de Niterói”

Programa completo



domingo, 5 de outubro de 2025

“Sal”










“Sal”

 

Água cega

na retina seca.

 

O sal

é o universo enroscado

é um cristal

no meu sangue.

 

No meu corpo de terra,

se afundam rios de areia.

 

Dentro do peito,

um coração

escavado sem medida:

um poço vazio num oco morto.

 

No sal,

guardo a sede do Sol:

água seca

na retina cega.

 

O que aprendi do rio:

a eterna vocação de alisar a pedra.

 

Mia Couto - Moçambique

In Vagas e Lumes, p.64 (Caminho)

_________

Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi jornalista e professor, e é, atualmente, biólogo e escritor. Está traduzido em diversas línguas.

Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 2007 Mia foi distinguido com o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia. Jerusalém foi considerado um dos 20 livros de ficção mais importantes da «rentrée» literária francesa por um júri da estação radiofónica France Culture e da revista Télérama. Em 2011 venceu o Prémio Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo de Mia Couto para o desenvolvimento da língua portuguesa. Em 2013 foi galardoado com o Prémio Camões e com o prémio norte-americano Neustadt. Em 2015 foi finalista do The Man Booker Prize.

O seu livro Compêndio para Desenterrar Nuvens ganhou o Grande Prémio do Conto Branquinho da Fonseca APE | Câmara Municipal de Cascais | Fundação D. Luís I, 2023.

Já em 2024 obteve o Prémio Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México). In “Wook”

 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Moçambique - Mia Couto e os 50 anos da independência: "Nós queríamos descolonizar-nos, mas colonizamo-nos a nós próprios"

Em declarações à TSF, o escritor defende que é preciso encontrar um "modelo democrático mais próximo dos cidadãos" e garante que este desafio não é sentido apenas neste país africano

Mia Couto considera que Moçambique precisa de um modelo político "mais participativo e mais próximo das pessoas" (assim como "o resto do mundo"). Decorridos 50 anos da conquista da independência, o escritor diz à TSF que aquele país africano ainda não conseguiu ter uma governação que tenha em conta as necessidades da população.

Tal deve-se, acredita, aos "modelos" de Estado de outros países "política e culturalmente distantes" que a ex-colónia adotou: "Nós queríamos descolonizar-nos, mas colonizamo-nos a nós próprios."

O vencedor do prémio Camões 2013 defende, por isso, que é preciso encontrar um "modelo democrático mais próximo dos cidadãos" e diz que este desafio não é sentido apenas em Moçambique.

"Quem são as pessoas que, por exemplo, em Portugal ou em Espanha, ou onde for, se revêem nesta maneira de fazer política, em que há uma democracia parlamentar onde [os deputados] estão a discutir coisas que são completamente nas costas e distantes das preocupações das pessoas?", pergunta.

Questionado sobre como gostava que fosse o futuro do país, Mia Couto lembra com nostalgia o momento que viveu há 50 anos: "Eu gostava que houvesse o mesmo clima que já vivi, de utopia, em que as pessoas se podiam juntar todas num grande estádio e festejarem juntos a vida, sem diferenças de consideração política, étnica ou religiosa. In TSF” - Portugal


sábado, 12 de abril de 2025

Estados Unidos da América – Moçambicano Mia Couto vence Prémio PEN/Nabokov 2025 para literatura internacional

O escritor moçambicano Mia Couto venceu o Prémio PEN/Nabokov 2025, tornando-se o primeiro autor de língua portuguesa a ser distinguido com este galardão do PEN América destinado à literatura internacional, revelou a editorial Caminho



“O PEN America atribui o Prémio PEN/Nabokov de Literatura Internacional ao eminente escritor moçambicano Mia Couto pelo conjunto da sua obra. Couto é admirado por romances como ‘Terra Sonâmbula’ (1992) e, mais recentemente, a trilogia ‘As Areias do Imperador’ (2015, 2016 e 2018), selecionada para o Prémio Booker Internacional”, lê-se no comunicado do PEN norte-americano, citado pela editora.

De acordo com o júri do prémio, o trabalho de Mia Couto é um testemunho da dramática história da sua pátria, “bem como dos enigmas da identidade e da existência”.

Mia Couto, que escreve em português, ocupa “uma posição singular no panorama das literaturas africana e mundial”, acrescenta o júri.

O Prémio PEN/Nabokov de Literatura Internacional, no valor de 50 mil dólares (cerca de 45 mil euros), é concedido anualmente pelo PEN America, em colaboração com a Fundação Literária Vladimir Nabokov, a um autor vivo cujo corpo de trabalho, escrito ou traduzido para inglês, representa o mais alto nível de realização em ficção, não-ficção, poesia e/ou drama, segundo informação do ‘site’ oficial do galardão.

O prémio celebra autores cuja obra demonstra “originalidade duradoura e artesanato consumado”, evocando a versatilidade e o compromisso com a literatura, características da escrita de Vladimir Nabokov, acrescenta.

Fundado em 2016, este prémio distinguiu anteriormente os escritores Maryse Conde, Vinod Kumar Shukla, Ngũgĩ wa Thiong’o, Anne Carson, M. NourbeSe Philip, Sandra Cisneros, Edna O’Brien e Adonis.

Em setembro do ano passado, Mia Couto foi distinguido com o Prémio FIL (Feira Internacional do Livro de Guadalajara) de Literatura em Línguas Românicas 2024.

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, trabalhou como jornalista e professor, e atualmente é biólogo e escritor.

Prémio Camões em 2013, Mia Couto é autor, entre outros, de “Jesusalém”, “O Último Voo do Flamingo”, “Vozes Anoitecidas”, “Estórias Abensonhadas”, “Terra Sonâmbula”, “A Varanda do Frangipani” e “A Confissão da Leoa”.

Traduzido em mais de 30 línguas, o escritor foi igualmente distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira, em 1999, com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas, em 2007, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2011, pelo conjunto da obra, entras outras distinções.

“Terra Sonâmbula” foi eleito um dos 12 melhores livros africanos do século XX, e “Jesusalém” esteve entre os 20 melhores livros de ficção mais publicados em França, na escolha da rádio France Culture e da revista Télérama. In “Sapo Mag” – Portugal com “Lusa”


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Moçambique - Escritor Mia Couto muito contestado no seu país

O escritor Mia Couto causou polémica ao solicitar ao Bastonário dos Advogados equilíbrio na actuação da Ordem dos Advogados no contexto da crise pós-eleitoral em Moçambique. Críticos desconfiam que Mia Couto esteja a “cooperar com um regime extremamente repressivo” em nome dos seus interesses empresariais, ao não mencionar numa carta a violência excessiva das autoridades policiais contra os cidadãos.

Face aos protestos intensos, o mais conhecido escritor moçambicano escreveu uma carta, publicada pelo jornal Carta de Moçambique, na qual parabeniza o Bastonário dos Advogados pela independência face ao poder político e pela defesa da Constituição e do Estado de Direito, na sequência da crise eleitoral que se instalou em Moçambique. Ao mesmo tempo, Mia Couto exige que a Ordem dos Advogados informe sobre “as regras que a lei define”. O escritor escreve: “Solicito que voltem a público para que, com o peso da vossa instituição, contribuam para a normalização da vida do nosso país”.

A reivindicação indignou alguns sectores da sociedade moçambicana que reagiram imediatamente ao teor da referida carta, como é o caso do escritor Jessemusse Cacinda. “A sua voz a nível internacional acaba dando a ideia de estar a transmitir uma voz que representa Moçambique. E, por via disso, é natural que, quando os moçambicanos não se sentirem representados nos seus pronunciamentos, mostrem indignação”, reage Cacinda.

Por sua vez, o jornalista e activista social Zito Ossumane considera “Mia Couto um colonizador disfarçado” por este não ser o primeiro posicionamento do escritor que indigna alguns sectores no país.

Ossumane aponta Mia de ter feito acusações graves aquando da organização de uma marcha em homenagem ao rapper Azagaia, em 2023. Mia Couto teria considerado os organizadores como “marionetes de partidos políticos e influências externas”.

Na sequência destas declarações, Ossumane diz que o escritor de renome internacional “está a tentar condicionar o pensamento dos cidadãos moçambicanos”.

Entretanto, a Constituição que prevê o direito à manifestação também consagra o direito à liberdade de expressão, mesmo que esta não vá de encontro ao sentimento de uma maioria. Por outro lado, um pedido para que não prevaleça o lema “dois pesos e duas medidas” não representa crime ou ofensa.

A Deutsche Welle perguntou: Seria justo condenar o escritor por algo que lhe é legítimo enquanto cidadão? Em resposta à DW, Jessenusse Cacinda relativiza esses direitos, porque, a seu ver, Mia Couto escolheu estar do lado da injustiça.

“A partir de momento em que um escritor fica em silêncio diante de repressão, assassinatos cometidos pela polícia e um regime contra cidadãos, torna-se problemático crer nesse escritor”, afirma.

Para Jessenusse, a carta de Mia Couto “mostra um posicionamento totalmente parcial, em que, por um lado, não condena a repressão, mas por outro condena o facto do Bastonário dos Advogados estar a exigir justiça eleitoral por mover procedimentos para defender cidadãos”. De acordo com Jessenusse, “definitivamente ele está a defender que haja denegação de justiça”.

Motivações financeiras

Numa entrevista recente ao jornal brasileiro “O Globo”, Mia Couto revelou que recebeu “ameaças veladas” e que foi pressionado a apoiar o candidato presidencial Venâncio Mondlane, algo que se recusa a fazer. No entanto, assegura na referida entrevista que não vai ser “censurado pelo medo”.

Porém, os críticos ouvidos pela DW desconfiam da existência de motivações financeiras por detrás dos posicionamentos do escritor moçambicano.

Zito Ossumane diz que Mia Couto é respeitado por representar “parte essencial da cultura” moçambicana. “Mas faz-me lembrar que Mia Couto tem interesses económicos muito assentes que ele tenta defender por conta deste regime”, sustenta. “A saída da FRELIMO não lhe favorece em nenhuma medida, porque tem empresas. Não é só a fundação da sua família, mas são empresas de consultoria para a área ambiental, etc.”, reforça Zito.

A Impacto, empresa de Mia Couto, presta serviços na área ambiental à Anadarko – multinacional do gás que opera no norte de Moçambique -, bem como a outros relevantes projectos económicos para o país. Jessemusse Cacinda recorre à história para mostrar que os escritores estiveram ligados ao poder político desde sempre e deixa claro que actuação persiste até hoje.

“Questões como estas, de certa forma, levantam a suspeita de que a pessoa esteja a cooperar com um regime extremamente repressivo”, elucida Cacinda, que lamenta o facto disto estar a acontecer este ano. “Estamos a assistir ao Mia Couto a fazer pronunciamentos apelando ao diálogo, mas chamando atenção para que os manifestantes não pilhem bens. Entretanto, há vídeos a circularem em que mostram a polícia a pilhar bens. Há jovens de joelhos e a polícia a atirar contra eles. Em nenhum momento no discurso deste escritor que no espaço internacional é visto como a voz de Moçambique, ele se insurge contra isso”, critica Cacinda.

Perante a dimensão da incredibilidade, o jornalista Ossumane lamenta “ver um monstro da literatura moçambicana, africana e lusófona nessa condição”, por lhe causar “problemas de interpretação”. Lembra que Mia Couto defendeu as liberdades no processo de descolonização de Moçambique. “E é-me difícil acreditar que neste momento se esteja a prestar a um papel tão ridículo como este”, afirma Ossumane.

Contactada pela DW, a Ordem dos Advogados de Moçambique disse que se irá pronunciar em breve “sobre este e outros aspectos ligados à situação política do país”.

“Que se procure a verdade nos consensos e no diálogo”. In “Jornal Tribuna de Macau – Macau com Nádia Issufo “Deutsche Welle”


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Brasil - Maranhão sedia encontro de escritores de língua portuguesa

Entre os dias 19 e 21 de novembro, São Luís do Maranhão será palco de um encontro inédito que reunirá quatro grandes escritores de língua portuguesa em atividade. Estarão na capital maranhense o moçambicano Mia Couto, os angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki e a historiadora brasileira Mary del Priore. O evento terá lugar no Convento das Mercês e faz parte do projeto Conversações de Além-Mar, que recentemente, em sua quarta edição, trouxe a São Luís o escritor cabo-verdiano Joaquim Arena.

Nas palavras do advogado e escritor Alexandre Lago, um dos idealizadores do projeto, o Conversações de Além-Mar tem como principal objetivo a aproximação das literaturas de língua portuguesa e sua maior disseminação pelos diversos países que falam o idioma, em especial o Brasil. “Nos incomodava e continua incomodando muito o fato de nós, brasileiros, desconhecermos escritores e escritoras dos demais países de língua portuguesa, como Timor-Leste, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e mesmo de Portugal, como também o fato de escritores desses países desconhecerem a literatura brasileira contemporânea”, observa Lago, um estudioso da literatura lusófona.

“Com exceção de nomes já celebrizados”, diz ele, “praticamente não conhecemos esses autores, sendo que eles também desconhecem a nossa produção literária atual”. Além de palestra e interação com o público, está prevista sessão de autógrafos e reuniões. Alexandre Lago faz questão de frisar, no entanto, um aspecto importante do Conversações de Além-Mar, que é o fato de o projeto não ficar limitado a encontros em auditórios e lançamento de obras.

“Em suas passagens por São Luís, os nossos convidados visitam instituições culturais, como bibliotecas e casas de cultura, trocam experiências com nossos escritores, conversam com gestores e visitam autoridades. Enfim, formam vínculos e pontes importantes para o crescimento da literatura lusófona, incluindo, bom que se diga, a produzida no Maranhão”, diz Lago, lembrando, por exemplo, que a partir da vinda desses escritores muitos são os trabalhos de dissertação de mestrado que surgem nas universidades, estudando suas obras.

O encontro é uma realização do Instituto Casa do Autor Maranhense e da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB) que tem como uma das missões institucionais a promoção e a divulgação do patrimônio histórico e cultural das culturas ibero-americanas e lusófonas, bem como a promoção da amizade e do intercâmbio cultural entre seus povos. Sendo assim, o evento coaduna com tal propósito que busca incentivar o diálogo entre as nações de língua portuguesa, reforçando os laços culturais que unem esses países e valorizando a riqueza literária e histórica que emerge dessas tradições.

Programação

Terça-feira (19), às 18h

Sessão Solene em homenagem aos 35 anos do Instituto Internacional da Língua Portuguesa

Homenageados:

José Sarney

Mário Soares (In Memoriam)

José Aparecido de Oliveira (In Memoriam)

Quarta-feira (20), às 19h

Diálogo com os escritores Mary Del Priore e Ondjaki

Mediação: Bruno Tomé (Academia Ludovicense de Letras) e Bruna Castelo Branco (jornalista)

Lançamento dos livros:

Segredos de uma Família Imperial (Mary Del Priore)

Bom dia, Camaradas (Ondjaki)

Quinta-feira (21), às 19h

Diálogo com os escritores Mia Couto e Agualusa

Mediação: Ceres Costa Fernandes (Academia Maranhense de Letras) e Adonay Moreira (escritor)

Lançamento dos livros: A cegueira do Rio (Mia Couto)

Mestre dos Batuques (Agualusa)

Biografia dos autores

MARY DEL PRIORE – Nascida no Rio de Janeiro em 1952, Mary Lucy Murray del Priore formou-se em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Continuando sua formação, concluiu seu Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo. Foi então que saiu do Brasil para defender o título de Pós-Doutorado pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, no ano de 1996. A historiadora lecionou História do Brasil Colonial na Universidade de São Paulo e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), em Niterói. Além disso, atua como colaboradora em periódicos nacionais e internacionais. Tem diversos livros publicados.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA – José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 13 de dezembro de 1960. Estudou Agronomia e Silvicultura. Viveu em Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Berlim. É romancista, contista, cronista e autor de literatura infantil. Os seus romances têm sido distinguidos com os mais prestigiados prêmios nacionais e estrangeiros, como, por exemplo, o Grande Prêmio de Literatura RTP (atribuído a Nação Crioula, 1998). Também os seus contos e livros infantis foram merecedores de prêmios, como o Grande Prêmio de Conto da APE e o Grande Prêmio de Literatura para Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian, respetivamente. O Vendedor de Passados ganhou o Independent Foreign Fiction Prize, em 2004, e, mais recentemente, o romance Teoria Geral do Esquecimento foi finalista do Man Booker Internacional, em 2016, e vencedor do International Dublin Literary Award (antigo IMPAC Dublin Award), em 2017.

MIA COUTO – Antônio Emílio Leite Couto é um escritor moçambicano, nascido em 5 de julho de 1955, na cidade de Beira. Trabalhou como jornalista durante quase 10 anos, porém ingressou na Faculdade de Biologia e, posteriormente, tornou-se professor universitário, profissão que concilia com a sua carreira de escritor. Assim, em 1983, publicou seu primeiro livro de poesias, Raiz de orvalho. Já seu primeiro romance — Terra sonâmbula — foi publicado, em 1992, com grande sucesso de público e crítica. Ganhador do Prêmio Camões em 2013, Mia Couto é um autor da literatura contemporânea, e suas obras são caracterizadas, principalmente, pelo resgate da tradição cultural moçambicana por meio de uma linguagem marcada por neologismos. Recentemente Mia Couto foi agraciado com o Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2024, destacando-se por sua inovação linguística e abordagem sobre a África.

ONDJAKI – O poeta e escritor africano Ndalu de Almeida, popularmente conhecido como Ondjaki, nasceu na cidade de Luanda, capital angolana, em 1977. Sua trajetória artística passa também pela atuação teatral e pela pintura. É também cineasta e autor de roteiros cinematográficos. Após realizar seus primeiros estudos na sua terra natal, obteve a licenciatura em Sociologia na capital portuguesa. Em 2000 o poeta conquistou a segunda posição no concurso literário angolano António Jacinto, e lançando seu primeiro volume de poesias, Actu Sanguíneu. Integra antologias publicadas no Brasil, no Uruguai e em Portugal.

Lançamentos e autógrafos

Segredos de uma Família Imperial – Mary Del Priore mergulha na trajetória íntima e pública dos Orléans e Bragança após a Proclamação da República nos anos de exílio na Europa. Mary Del Priore explora a história de perto, entre os relatos e registros oficiais, em busca da representação dessa família como realmente eram. O que os tornava humanos para além do que os tornava realeza ante os dilemas de uma Monarquia em declínio.

A cegueira do Rio – Moçambique, 1914. Às vésperas da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Alemanha e Portugal disputam o território à margem do rio Rovuma. Com o ataque germânico ao posto de Madziwa e a morte de dezenas de soldados africanos, a região se transforma em um verdadeiro campo de batalha. É a partir desse caso ― inspirado em um evento real ― que correm as águas desta história. Ameaçados pelo poderio alemão e subjugados pela colonização portuguesa, os povos de Moçambique encontram amparo naquilo que é impossível de se apagar: sua própria língua.

Mestre dos Batuques – Neste romance o escritor angolano José Eduardo Agualusa discute questões de identidade e de pertencimento, subvertendo estereótipos e ideias predefinidas, ao mesmo tempo em que expõe os crimes e contradições do processo colonial português no continente africano.

Bom dia, Camaradas – Uma Luanda dos anos 1980 com professores cubanos, escolas entoando hinos matinais e jovens de classe média é o cenário de Bom dia, camaradas. Do universo do romance também fazem parte as lembranças dos cartões de abastecimento, as desigualdades sociais e os conflitos entre modernidade e tradição. Através do olhar lírico de um garoto, o leitor é levado a uma Angola que acabou de se tornar independente e é obrigada a repensar as regras sociais e a questionar as causas da desigualdade. Ondjaki nos conduz aos pequenos acontecimentos do cotidiano que mostram como é preciso mais que um decreto para que as mudanças de fato aconteçam.

O encontro internacional de escritores de língua portuguesa, acontece às 19h nos dias 19 a 21 de novembro, no Convento das Mercês – Rua da Palma, 502, Desterro. In “Mundo Lusíada” - Brasil


terça-feira, 1 de outubro de 2024

Moçambique - Mia Couto lança novo romance esta quinta-feira, 03 de Outubro

Nesta quinta-feira, a partir das 18 horas, o Centro Cultural Moçambique-China, na Cidade de Maputo, vai receber a sessão de lançamento do novo romance de Mia Couto, intitulado “A cegueira do rio”.

No seu novo livro, Mia Couto escolhe uma aldeia no Norte de Moçambique como palco de um acontecimento que marca o início da Primeira Guerra Mundial no continente africano. O inesperado incidente militar abre espaço para uma série de misteriosos eventos que culminam com o desaparecimento da escrita no mundo. Livros, relatórios, documentos, fotografias, mapas surgem deslavados e ninguém mais parece ser capaz de dominar a arte da escrita. Os habitantes dessa aldeia são chamados a restabelecer a ordem no mundo, ensinando aos europeus o ofício da escrita e as artes da navegação.

De acordo com a nota de imprensa da Fundação Fernando Leite Couto, que edita o livro, “A cegueira do rio” será apresentado pelo escritor Daniel da Costa, num evento que terá momentos de leitura e performance com Negro, Rita Couto e Letícia Deozina.

A sinopse

Factos e personagens deste livro foram inspirados em eventos reais ocorridos numa e na outra margem do Rio Rovuma, que separa Moçambique da Tanzânia. O primeiro evento foi a insurreição popular que ficou conhecida como a «Revolta dos Maji-Maji» em protesto contra a cultura forçada do algodão. Encabeçada por um líder espiritual chamado Bokero, esta sublevação ocorreu entre 1905 e 1907 e a resposta das autoridades coloniais alemãs resultou num dos mais graves massacres da história de África. Pensa-se que entre 200 e 300 mil camponeses foram assassinados.

O segundo evento consistiu no assalto alemão ao posto militar português de Madziwa em agosto de 1914. Um sargento português e 11 sipaios africanos foram mortos nesse ataque.

No resto, tudo o que se relata neste livro tornou-se verdadeiro a partir do momento em que foi escrito. In “O País” - Moçambique


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Moçambique - Mia Couto diz que houve desleixo em relação aos raptos

Mia Couto sente que houve desleixo do Governo na resposta aos raptos. Em “Grande Entrevista” à STV, o escritor classifica como vergonhosas as promessas não cumpridas de apresentar publicamente os mandantes dos crimes. Considera, ainda, que se perdeu a vergonha de mostrar riqueza num país com muita pobreza.



Um dos gigantes da literatura de língua portuguesa, António Emílio Leite Couto, foi o convidado desta semana do programa Grande Entrevista, da STV.

Em 60 minutos, o escritor, vencedor da 25ª edição do Prémio Camões, em 2013, partilhou o seu pensamento sobre diferentes temas da actualidade, entre os quais os raptos. O fenómeno ganhou contornos alarmantes nos últimos anos, com alguns empresários a abandonarem o país por temerem ser raptados. Ademais, há relatos de vítimas que chegaram a morrer em cativeiros.

“Acho que houve um certo desleixo, exactamente porque parece que é uma coisa que está ali e está confinada a um certo tipo de comunidade, mas é uma vergonha, no sentido de como é que a reacção parece pouco displicente. Não há promessa de que se vai exibir os mandantes. Essa promessa vai como o resto: apanha-se aquilo que é peixe miúdo, mas o peixe graúdo não é visível”, disse Mia Couto.

A visão crítica de Mia Couto estende-se para a governação e os governantes em Moçambique.

“É preciso que a governação se faça pelo exemplo e que os dirigentes deste país, através da sua própria vida e vivência pública, mostrem que são servidores e que optaram por uma vida, não diria de sacrifício, mas se pedem sacrifício aos outros eles devem ser os primeiros.”

Couto fala ainda sobre pobreza e desigualdades e condena a sociedade que considera que tem cada vez menos empatia com aqueles que pouco ou nada tem. “Parece que se perdeu a vergonha de mostrar que eu sou muito rico num país de gente muito pobre e essa minha riqueza nem sempre terá vindo… Desde que me lembre, eu trabalho, e não tenho possibilidades dessa riqueza. Se a tivesse, eu gostaria de ter. Teria um certo pudor em exibir de maneira como se exibe. E criou-se a ideia de que só se é cidadão se for assim, se for rico”, criticou o autor de “Vozes Anoitecidas”, livro de contos com que se estreou na ficção, a que se sucedeu “Cada Homem é uma Raça”, “Estórias Abensonhadas”, “Contos do Nascer da Terra”, entre outras obras.

Homem da literatura, da escrita e das palavras, Mia Couto diz também, nesta entrevista, o que pensa sobre os problemas da educação.

Aliás, quando questionado sobre o que lhe vai na mente quando se fala da educação, o autor de uma vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade, não hesitou em dizer: “Vem-me a palavra deseducação, porque eu acho que o problema da educação não é só a falta de qualidade deste modelo que é patente e enorme, quer dizer, talvez o factor que mais compromete o nosso futuro é a má qualidade da educação”, frisou.

Finanças públicas, situação da oposição e a vida literária de Mia Couto foram outros temas abordados na entrevista.

Nascido na Beira (Moçambique) em 1955, Mia Couto também escreveu peças de teatro e é actualmente o autor mais lido dos países de língua oficial portuguesa em África. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 16 de julho de 2024

Portugal – Mia Couto distinguido com o Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca

Mia Couto foi distinguido, esta terça-feira, com o Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca, da Associação Portuguesa de Escritores, que reconheceu as qualidades da obra Compêndio para desenterrar nuvens.

Em Novembro do ano passado, Mia Couto lançou Compêndio para desenterrar nuvens, no Centro Cultural Moçambique-China, na Cidade de Maputo. Cerca de trezentas pessoas fizeram parte do evento e, muitas delas, adquiriram o mais recente livro do escritor. No entanto, nessa altura, nenhum dos que ganhou um autógrafo e, em alguns casos, acompanhado de uma fotografia, pôde prever que em mãos tinha uma obra literária que, oito meses depois, seria distinguida no Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca, da Associação Portuguesa de Escritores.

Hoje, 16 de Julho de 2024, a novidade foi anunciada e o escritor que já venceu de tudo um pouco alegra-se por mais uma distinção que reconhece a sua criatividade. “É um prémio que me dá uma grande alegria. Primeiro, porque é um prémio do conto. Como todos sabemos, o conto é uma espécie de género literário menos valorizado. O grande género tem sido sempre o romance. O conto surge quase sempre como parceiro menor”, disse, Mia Couto, que se encontra em Portugal a escrever mais um livro.

Compêndio para desenterrar nuvens é um livro composto por 22 histórias que, de alguma forma, se entrelaçam. Ao reunir os textos em livro, Mia Couto quis devolver a dignidade a quem não espera ajuda, a quem não precisa de ser salvo, porque se salva a si próprio, todos os dias. E o escritor reforça: “Eu acho que estes contos surgiram como crónicas. Portanto, esta viagem do texto original, que é feito para uma revista, como crónica, com o tratamento que dei para ser um conto, aparentemente, resultou, sobretudo como um apontamento de gente que vive numa situação de guerra, numa situação de miséria, numa situação de exclusão e que, por via da literatura, pode ganhar uma visibilidade no mundo. Digamos assim, eu sinto que este prémio não me distingue exactamente a mim, mas às pessoas que proporcionaram esse tipo de abordagem e de sensibilidade do mundo que ganhei”.

O Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca, segundo avança um comunicado sobre o concurso, foi instituído no ano passado, pela Associação Portuguesa de Escritores, e é patrocinado pela Câmara Municipal de Cascais e pela Fundação D. Luís I. O prémio destina-se a galardoar, anualmente, uma obra de contos em língua portuguesa.

Ainda de acordo com a nota de imprensa, convenceu o júri, constituído por Fernando Batista, Mário Avelar e Paula Mendes Coelho, a forma como Mia Couto consegue misturar sabiamente o código realista e o código imaginário sem nunca esquecer o registo lírico e as injustiças sociais. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


terça-feira, 16 de abril de 2024

Moçambique - Pensar o teatro a partir de “o embondeiro que sonhava pássaros”

A peça “O embondeiro que sonhava pássaros”, exibida na passada sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, teve em palco os astros do teatro nacional a contracenar as nossas esperanças e certezas. Uma obra escrita e encenada por Evaristo Abreu e inspirada num conto de Mia Couto. Esta peça fez mais do que dar teatro ao público, reabriu um drama da cultura moçambicana, o debate sempre adiado e o descortinar de um futuro cheio de incertezas. Muito tem se falado destes tempos como a grande dúvida, Lipovetsky (1983) chegou mesmo a escrever o ensaio “A era do vazio”, onde parecer é ser, tudo é efémero, passa tão rápido que sequer chegou a acontecer. Mas já lá vamos, primeiro, exaltemos o espectáculo que, de certeza, mostrou-nos que a alma do teatro moçambicano está em chamas e que todas as gerações dão-nos garantias.


Ver em palco Adelino Branquinho, Yolanda Fumo e Elliot Alex, a contracenar com Horácio Guiamba — que já não tem mais nada a provar —, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha, estes dois que já performaram em alguns espectáculos e a estudante Shércia Carolina que se mostrou à altura do desafio, é um acontecimento marcante. São actores de gerações diferentes, o que deixa à vista que o teatro vive, sobrevive e pode ganhar outras vidas, como por exemplo, o facto de as salas de teatro estarem em extinção ou a servir para outros fins, a falta do necessário apoio institucional e mecenas, tudo isto, curiosamente, quando já há um curso superior de teatro e muitos actores à disposição.

Em palco estava o passado que facilmente se confunde com o presente e, se não houver “vigilância” — os acontecimentos diários mostram isso — pode se repetir esse passado tenebroso: escravatura, exploração e segregação. O resto é actual, as personalidades feitas de ira – de fúria irracional —, a coisificação do outro, o racismo, a bajulação e o cumprimento de ordens sem questionar. Em meio a tudo isso há um belo que se não vê: o encanto na natureza, nas coisas simples como os pássaros de várias espécies a voar livremente e a cantar para os humanos tomados pela insanidade instalada, o tempo que nos falta para contemplar de forma desinteressada o belo, mas também a classificação dos seres. Como pode uma criança branca brincar com uma negra? Como se não bastasse, falarem a mesma língua, apreciarem a mesma natureza e ainda mergulharem nas realidades de cada sociedade. A partir do diálogo dessas duas personagens, a preta e cuidadora de pássaros — Yolanda Fumo — e a criança branca — Shércia Carolina — encontram-se dois mundos: no mundo dos brancos representado por Adelino Branquinho, sempre zangado, com o chicote e a esbracejar “igual a uma coruja”; e, por outro lado, estão os pretos, representados por Yolanda Fumo, que compreende o desejo e a essência dos humanos, igual aos pássaros, nascidos para serem livres.

É uma família dominante, branca, vive amargurada e na encruzilhada do racismo, sobretudo por se julgar uma classe superior, que tem o direito à terra, os recursos, incluindo as pessoas pretas que são objectos de uso, força bruta, sem sequer capacidade de raciocinar — Elliot Alex, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha —, que vai se ver desestruturada por uma criança que decidiu ignorar as diferenças, olhou com os olhos inocentes de uma criança o mundo à sua volta.

É possível ler-se os papéis de Elliot, Fernando e Lucrécia nas entrelinhas das personagens da vida real, capazes de aplaudir e executar tarefas sem questionar, por vezes, com danos sobre gente da mesma classe social que a sua. A ideia de estar com quem manda e que faz pensar que temos poder e por isso os outros seres humanos não valem nada, está muito bem representada.

O narrador Horácio Guiamba conseguiu ser o pivô da trama, sem deixar que ela se transformasse numa história contada, antes, um elemento para conectar os acontecimentos que ocorrem num ritmo frenético. Escusado é dizer que começa a ser moda o narrador Horácio Guiamba em palco (o actor cumpriu quase o mesmo papel em “Aqueles dias da rádio”, musical dirigido por Zé Pires). O acompanhamento musical de Cheny wa Gune e Xixel Langa foi certeira por torná-los presente no espectáculo, preencheu as cenas.

Foi, em suma, um trabalho ao nível do senhor de teatro que é Evaristo Abreu. O que nos leva à questão seguinte.

  • 1.  As condições em que a peça foi exibida foram as melhores possíveis, é verdade. Aliás, não é em vão que o CCFM é dos melhores espaços culturais da cidade. Porém a sala grande não foi capaz de dar as condições que o teatro precisa: a acústica necessária para a projecção das vozes, para que as palavras sejam ouvidas e compreendidas. Apesar de todo empenho e esforço até, muitas foram as palavras que coube ao espectador mais atento tirar as certezas se foi dito. As falas de Adelino Branquinho, por exemplo, e até do Elliot Alex, foram disso exemplo. O Horácio cuja presença era sobretudo em discurso, não sei se não lhe sobraram dores pelo esforço para se fazer ouvir. E, aliado a tudo isso, como havia a voz no microfone e os instrumentos musicais, o desnível foi evidente. Ao contrário do que se viu e se vê com os especáculos do género quando acontecem no auditório. Esse, sim, era o sítio indicado.
  • 2.    O cenário podia ser melhor, a sensação de um imenso vazio é inquietante. Sim, é a nossa realidade, fazer muito com pouco, mas foi notável o sofrimento dos actores naquele palco, ora à procura de preencher espaços ou a cuidarem para não se deixar derrubar nas poucas coisas ali presentes, porém de uma precariedade patente. Por outro lado, foi como se aqueles elementos fossem estranhos aos actores. Não será pelo tempo de ensaio com o cenário do espectáculo?
  • 3. Quando vai parar a sina de ver só uma vez os bons espectáculos de teatro, penso eu com os meus botões enquanto oiço os murmúrios dos espectadores. Compreendo as várias razões por detrás das instituições e do cenário artístico nacional, mas é um desperdício dos níveis de quem deixa uma torneira aberta com a água a escorrer pelas areias. Não é assim só com este espectáculo, foi assim com “Aqueles dias de rádio” (2023), por exemplo, uma das melhores obras de arte em palco que se produziu nos tempos actuais. Como é possível um elenco daquele nível, os ensaios de meses, a publicidade feita — a acrescer a que continua a ser feita por via de comentários positivos dos que viram o espectáculo — resultar em apenas uma apresentação? Será que o custo de uma repetição é maior que o de tudo o que se investiu para conceber o trabalho? Esta questão não é dirigida ao CCFM, é sobretudo uma reflexão que todo o sector cultural deve fazer. Um pouco por todos os centros culturais os espectáculos são exibidos só uma vez, nunca percebo as razões, mas se elas se prenderem com o factor “oportunidade para todos”, “cabimento orçamental” ou “público”, então é uma questão talvez mais fácil de resolver. Mas se a razão for do tipo fazer muito eventos e acolher a todos ou for por importar os hábitos da música para o teatro, então a situação é grave. Enquanto a música pode ser gravada e ouvida através de várias plataformas, a qualquer momento, o teatro precisa de palco para ser visto, e o bom teatro, ainda mais.

Quando a arte é exposta desta maneira, incorre-se ao risco de banalizar-se o talento, o trabalho árduo e comprometer o profissionalismo nas artes, como analisa Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2012).

Pensar em tudo isto, na esteira de “o embondeiro que sonhava pássaros”, que instiga a memória colectiva, revisita a história, reflecte a contemporaneidade dos comportamentos, das trivialidades e desperta-nos para uma sociedade em modo loop — as diferenças entre classes, o medo de sonhar, os limites às liberdades —, é no mínimo exercer o próprio papel do teatro, despertar-nos para o drama da vida, dos indivíduos, das sociedades, enfim, levar ao palco os nossos dilemas e contextos.

Um trabalho como o visto no dia 12 de Abril de 2024, deveria ser possível revisitá-lo, pelo menos, mais três vezes. Ao contrário disso, quando tudo é dado assim, aos bocados, honestamente, é fácil cair na banalidade, no vazio enfim, no esquecimento. Eduardo Quive – Moçambique in “O País”



terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Irlanda - Mia Couto nomeado para prémio de Dublin

O escritor moçambicano Mia Couto está entre os 70 nomeados para o Prémio Literário de Dublin, na Irlanda, um galardão internacional que anualmente distingue uma novela escrita em inglês ou traduzida para aquele idioma.

No certame, que visa promover a excelência na literatura mundial e patrocinado unicamente pela cidade de Dublin, Mia Couto entra na lista com a tradução de David Brookshaw para inglês de “O Bebedor de Horizontes”, terceiro livro da trilogia “As Areias do Imperador”, escreve o “Notícias”.

A versão inglesa de “O Bebedor de Horizontes” foi publicada em Fevereiro do ano passado pela editora norte-americana Farrar Strauss and Giroux. A obra de Mia Couto foi indicada pela Biblioteca Nacional de Moçambique.

O livro foi classificado entre os romances africanos mais notáveis publicados em língua inglesa durante 2023, pela “Brittle Paper”, uma revista “on-line” especializada na divulgação da literatura africana. Isto acontece depois de, em 2022, a mesma obra ter conquistado o prémio internacional Jan Michalski, refere a mesma fonte.

Na obra, o autor retrata a saga final do imperador Gungunhana, o derradeiro grande governante de um império na África no século XIX. Aqui, os prisioneiros do oficial Mouzinho de Albuquerque embarcam no cais de Zimakaze num barco que parte em direcção ao posto de Languene. De lá, seguem para o estuário do Limpopo e então iniciam a viagem marítima que conduz os africanos capturados para um distante e eterno exílio, numa das ilhas dos Açores, em Portugal. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 28 de novembro de 2023

Moçambique – Mia Couto lança “Compêndio para desenterrar nuvens”

Ao todo, o novo exercício literário de Mia Couto tem 142 páginas. Com o título “Compêndio para desenterrar nuvens”, a obra literária é uma viagem pelo universo do conto, onde o autor escreve, principalmente, sobre as relações humanas e sociais.

Editado pela Fundação Fernando Leite Couto, o livro “Compêndio para desenterrar nuvens” será lançado em cerimónia esta terça-feira, a partir das 18 horas, no recém-inaugurado Centro Cultural Moçambique-China, localizado no Campus Principal da Universidade Eduardo Mondlane, na Cidade de Maputo.

Segundo a nota da editora, antes dos textos de Mia Couto serem contos, foram crónicas publicadas na imprensa, o que se pode constatar na nota do editor do próprio livro; “Os contos recolhidos nesta colectânea foram publicados mensalmente na revista Visão [Portugal]. O autor aproveitou esta oportunidade para introduzir pequenas alterações”, que, ao longo das histórias, transportam o leitor a uma dimensão sustentada por diferentes crises e peripécias.

Neste livro, Mia Couto revive o ambiente social do seu país, coloca as personagens a personificarem sentimentos e emoções carregadas de acontecimentos quotidianos.

Na mesma nota de imprensa, a Fundação Fernando Leite Couto avança que “Estas estórias flutuam entre o real e o imaginário, territórios quase invisíveis se pensarmos no universo moçambicano, habitado por muitas histórias. Mia Couto traz personagens e cenários improváveis, com a poeticidade que lhe é característica, com uma narração que dá tempo ao leitor para levantar o seu próprio voo para um mundo em que todas as coisas tem vida própria”.

“Compêndio para desenterrar nuvens” é constituído por 22 contos, entre os quais “O culto dos pesarosos”, “O nome do pai”, “O eterno retorno”, “Viver de graça, morrer de raça”, “Lição de caligrafia” e “Desenterrar nuvens”. In “O País” - Moçambique