Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de julho de 2026

Moçambique - Marracuene acolhe lançamento de “Coelhinho Enfeitiçado”, obra de Bora Chung traduzida por três criadoras moçambicanas

A primeira livraria do distrito de Marracuene, a Livroteca, recebe no próximo sábado, 18 de Julho, às 10h00, o lançamento da edição moçambicana de “Coelhinho Enfeitiçado”, da escritora sul-coreana Bora Chung. Publicada pela Editora Trinta Zero Nove, a obra ganha uma edição especial que destaca o trabalho de três mulheres moçambicanas responsáveis pela tradução, ilustração e narração do audiolivro, aproximando os leitores nacionais de uma das mais conceituadas vozes da literatura coreana contemporânea.


Finalista do prestigiado International Booker Prize, “Coelhinho Enfeitiçado” reúne dez contos que cruzam o terror, o realismo mágico, a ficção científica e o surrealismo para abordar temas como a solidão, a memória, o trauma, o amor e a condição humana. A edição moçambicana conta com tradução directa do coreano para português por Sandra Tamele, ilustração da capa assinada por Jesse Jane e narração do audiolivro por Camila “Kami” do Castelo, valorizando o talento nacional em diferentes áreas da criação artística.

O lançamento decorrerá em formato de conversa, reunindo as três criadoras para partilharem os bastidores do processo editorial e os desafios de transportar uma obra entre diferentes linguagens, da tradução à ilustração e da interpretação vocal. A sessão incluirá ainda a leitura de um excerto do livro e contará com a participação especial da Embaixada da Coreia em Maputo, que disponibilizou hanboks, trajes tradicionais coreanos, para a ocasião.

Com esta publicação, a Editora Trinta Zero Nove reforça o seu compromisso de promover a tradução literária, ampliar o acesso à literatura mundial e incentivar formatos como o audiolivro. O evento assinala igualmente mais um marco para a Livroteca, que continua a afirmar-se como um espaço de promoção da leitura, do diálogo intercultural e da valorização da criação literária em Moçambique. In “Moz Entretenimento” - Moçambique




sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livro de acordar o leitor: “A vizinha das sete cordas”

Todos os textos de Hugo Almeida, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral

O recente livro de Hugo Almeida, A vizinha das sete cordas (São Paulo: Sinete, 2026), é composto de 15 contos, distribuídos em três partes: Dentro de Casa, Fora de Casa e Além – Tributo a três eternos. Nessa última parte, o tributo é dedicado a três grandes escritores brasileiros: Osman Lins, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Em verdade, todos os textos de Hugo, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral. Há uma rede de epígrafes, começando com Lima Barreto, Lord Bulwer Lytton e Ivan Lins, abordando crimes, erros, desgraça e perdão, e se espalham praticamente em cada conto, ocorrendo, inclusive, uma epígrafe (ou hipógrafe?) no final do texto “Ponto cego”, com versos de Jorge de Lima: “surdo-mudo/ cegara. / Agora vê”.

Creio que esses versos e o título do conto indicam bem a sensação que uma primeira leitura vai despertar nos leitores dessa coletânea (que conta com o lúcido prefácio de Eltânia André). A obra é repleta de pontos cegos, assim como se o autor valesse de um palimpsexto sentido para captar movimentos, sensações, lugares, crueldades e afetos disseminados ao longo das narrativas.

Em termos de afeto, sinto-me honradamente contemplado, pois, em meio a tantas dedicatórias, Hugo Almeida lembra-se de meu humilde nome no final de “Assim de touca e máscara?”, conto que recebe epígrafe de belo verso do poema “Maçã”, de Manuel Bandeira e sua intricada trama joga com antiguidade romana, reminiscências bíblicas, Chopin, Mallarmé, Dalí, Lorca, Tasso e taça de vinho, sem omitir um pintor de origem espanhola, seria Carlos Alonso? O que gosto desse e de demais textos é a força poética que insufla as narrativas, pois o autor põe a poesia em bom lugar, daí “verso, poema, pedra preciosa” são elementos estruturantes, irrigando de lirismo, mas sem evitar os impactos desumanizantes que são denunciados. No conto alusivo a Manuel Bandeira, “O poeta e a estrela da manhã”, lê-se que, na esteira de Mallarmé, “escrever poesia é fazer música com a dor” (p.144).

O leitor não pode dormir de touca: há muitos toques intertextuais, paratextuais e outros que tais. Por exemplo, em “O casal do farol”, Hugo toca em tema que sempre me atraiu, desde que li “Os faroleiros”, conto de Urupês, de Monteiro Lobato. E não costumo perder filmes ambientados em faróis. No conto de Hugo, com epígrafe do recorrente Osman Lins, que empresta nomes de suas personagens para os protagonistas são designados por dois nomes: Alex (fora da lei) e Sóstrato (que remete ao arquiteto e engenheiro que projetou o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo). O casal é formado por ele e por Nancy, que também é chamada de Bárbara. Nomes tirados de textos de Osman, o mentor de Hugo. Nesse conto, em que o homem é ilha e mulher é arquipélago, dramatizam-se amor, isolamento, desencontro.

O número sete assinala a trama do conto que dá título ao livro, curiosa história das vizinhas Elvira e Mira, nomes que remetem ao olhar e ao comportamento humano, em sua ordem e desordem. A epígrafe de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos dá o tom irônico que pontuará o texto: “Sim, está tudo certo. / Está tudo perfeitamente certo”.

Uso de uma expressão de José Miguel Wisnik para afirmar que Hugo Almeida é dos escritores que dão “pérolas aos poucos”, uma vez que sua erudição e prodigalidade em saltos de longa distância de um texto para outros não dão vida fácil para leitores muito acomodados. E o leitor tem todo o direito de gostar mais de um conto do que de outro. Por exemplo, além dos já citados, entre os quinze contos impressionou-me “Nas nuvens”, primor de minimalismo, pegada para uma narrativa fantástica, simbologia bíblica com a Estrela de Belém, os nove meses da gravidez de Maria (as datas 22 de março e o Natal), o casal que sai da casa para um apartamento e é atraído pela maquete.

Em tempos de Copa do Mundo, é de se ler e de se rir de “Influxologia alemã”, neologismo criado para referir-se ao absurdo de um juiz que decide invalidar os impiedosos 7 x 1 que os alemães aplicaram no selecionado nacional, no Mineirão, em 2014. O humor também pontua “Dona Justina”, em que aparece pela segunda vez um personagem chamado Túlio, não sei se Hugo pensou num personagem de Avalovara, de Osman, ou se viu no seu significado de “o que cria ou dá origem às coisas”. Como sou chegado a um trocadilho, prefiro brincar com “entulho”, levando para uma metáfora dos fragmentos que povoam nossa memória, nosso inconsciente, que abruptamente surgem na criação ou na fruição da ficção.


Vale a pena acordar para os textos desse admirável escritor mineiro, nascido em Nanuque (nome de morador da serra) em 1952, mas saiu de lá ainda bebê, viveu nove anos na Bahia e 22 em Belo Horizonte. Mora em São Paulo desde 1984. A vizinha das sete cordas é o seu 17º livro e 5º de contos. Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações solitários (5ª edição) e Vale das ameixas (2ª), e do ensaio livre A voz dos sinoso sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, todos também publicados pela Editora Sinete.  Caio J. Maciel – Brasil

______________________

A vizinha das sete cordas (contos), de Hugo Almeida, Editora Sinete, 152 páginas, R$ 60,00. Disponível nos sites da editora e na Amazon.

https://link.amazon/B0gvagtCi

e www.editorasinete.com.br

E-mail: editorasinete@gmal.com. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

_________________________

Caio Junqueira Maciel, professor e escritor, é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor, entre outros, dos ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, dos poemas Pele de jabuticaba e do romance Um estranho no Minho, sobre o período em que viveu em Portugal.




terça-feira, 14 de abril de 2026

“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra permeia os 14 contos do quinto livro do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes

 

I

Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias, há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.

Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.

Conto não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores, imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos: “O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar [...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo”.

Autor multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B (antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado por bons leitores.

 

II

Acompanho a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida (1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada: “As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra em si”.

Vou tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados, eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante que o Brasil viveu há alguns anos.

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado, “Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet. Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso. Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A História acolhe a história.

Da questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz, na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara, de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

A arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história, embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e, sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.

 

III

Em várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos, como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador, que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para reencontrar a família.

Com o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua, avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil tentar prever o fim da história.

Depois de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida. Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.

Logo o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos, “simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça. “[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é real.

No sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria, uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos, lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias. Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa a lutar contra “as garras do desespero”.

A exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a “O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias (2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não ter  ficado em casa lendo-o. Na história, uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.

 

IV

O oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.

Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro, Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher soube. Não, não se trata de adultério.

“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do leitor.  Trata-se “uma história de amor e de amizade”.

O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre, os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia, com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”. Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.

O conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.

 

V

Em “Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”. História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira, ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).

Também a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua, Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte (“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto: “Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor, assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!

Numa noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa, talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro (“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair Rodrigues.

No último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador. Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses, possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.

Como vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios, entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?

O autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos, todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa, sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida - Brasil

____________________

A bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon. Site: editorasinete.com.br

___________________________

Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br



terça-feira, 31 de março de 2026

Moçambique - Whaskety Fernando lança o seu livro “Inventar o mundo na língua” na cidade da Beira

Inventar o mundo na língua é o título do quarto livro de Whaskety Fernando, do género conto, chancelado pela Mapeta Editora, lançado na cidade da Beira, no Centro Cultural Português. A apresentação esteve a cargo do académico Cristóvão Seneta.


Neste livro de contos, entre personagens condenadas, doentes, errantes ou simplesmente humanas, Whaskety Fernando inventa um mundo onde quase tudo é ficção, excepto a própria ficção, essa experiência íntima e reconhecível que cada leitor já viveu ou poderá viver. Os contos movem-se num território simbólico, filosófico e social, onde a realidade é questionada e o imaginário se transforma em reflexo.

Inventar o mundo na língua convida-nos à reflexão sobre os limites entre o real e o inventado, propondo uma leitura inquietante, lúcida e profundamente humana.

Saiba mais sobre Whaskety Fernando e Cristóvão Seneta

Whaskety Fernando nasceu na Munhava, cidade da Beira, onde vive. Começou a publicar os seus textos na página “Diálogo”, do jornal Diário de Moçambique. Foi finalista do Prémio Literário Fernando Leite Couto com a novela “Noites de desassossego” (não publicado). É autor dos livros Os últimos animais (2023), romance, O prazer ao chorar de dor (2024), poesia, e Tratado sobre noite (2025), poesia.

Cristóvão Seneta, Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Zambeze. Tem publicação científica dispersa, incluindo um livro baseado no estudo que desenvolveu para o mestrado, capítulos de livros, artigos e vários prefácios para livros literários e ensaísticos. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


segunda-feira, 23 de março de 2026

Contos que procuram entender a alma

Nova obra de Eltânia André reúne dez narrativas que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas

         

                                                              I

Com sensibilidade e argúcia para entender não só a alma feminina como a masculina, a romancista e contista Eltânia André, psicóloga de formação, premia o público-leitor com um novo livro de contos, Decomposição dos pássaros (Setúbal - Portugal / Cotia-SP, Editora Urutau, 2025), que reúne dez textos que confirmam a qualidade de uma prosa que se confirma e evolui a cada volume publicado.

Como observa o romancista Luiz Ruffato, um dos grandes nomes da ficção brasileira, no texto de apresentação, as personagens desta obra “são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção – pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos”.

De fato, alguns dos protagonistas destas histórias são pessoas que vivem na contramão da sociedade, excluídos da sociedade de consumo, que, sem alternativas, acabam por aceitar a probabilidade de sobrevivência que a contravenção oferece, como o personagem Siri, do conto “Márrio-Riomar: um nome todo água”, que tinha aquele apelido por andar “ziguezagueando sem rumo certo pelas ruas”, que sempre andava “com os bolsos cheios de droga ainda para distribuir”. E quem conta a história de Siri é uma mulher batalhadora, que, igualmente para sobreviver, não hesitou em “pegar pesado no volante” de um caminhão, ainda que tivesse de “ouvir brincadeirinhas ou piadas bestas, num tempo em que bullying era apenas uma palavra estrangeira”.

 

                                                              II

Um desses contos, que leva o extenso título “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho”, conta a história de Astrogildo (ou Walter) que saiu do triângulo das Minas Gerais para cumprir um trajeto até o famoso reino da Bulgária, depois de renunciar ao curso de Direito e especializar-se em Engenharia Nuclear. “Exausto de tanto cindir átomos e de fazer maracutaias, virou de cabeça para baixo a biblioteca de Assurbanípal da Babilônia, e ganhou fama de astrólogo-surrealista. Incluiu em sua biografia que traficou diamantes, atravessou mares nadando crawl, deflorou filhas de políticos, especializou-se no jogo de bisca e em soluções imaginárias para equações de complexidades múltiplas”, diz a autora.

Por aqui se tem uma ideia do estilo maduro de Eltânia André, que, no citado conto, faz uma homenagem ao escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), imitando com fidelidade o seu estilo, que se notabilizou por uma ficção associada ao surrealismo, ao absurdo (nonsense) e ao misticismo, entre outas qualificações

Já em “Decomposição dos pássaros”, um dos textos mais curtos e que dá título à obra, a autora se utiliza da metáfora de buscar pássaros para explorar as jornadas pessoais de personagens como o menino Josué, que “disfarçava, mas não controlava o rancor que sobrepunha ao amor pela mãe – que fez de tudo por ele, criando-o sozinha, após a morte precoce do marido”.

Outro conto em que a autora explora as angústias, as memórias, o trágico e o poético da vida humana é “Sob o som das matracas” em que a personagem rememora a história do avô, que havia participado da chamada Revolução de 32, “um fiasco nacional”, em que se viu “brasileiro matando brasileiro”, tudo em nome de interesses das elites regionais.

Outro conto que se destaca é aquele que encerra o volume e que tem por título “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira”, em que igualmente se vê uma homenagem a Campos de Carvalho. A narrativa conta a história de uma mulher que perdeu a visão às vésperas de completar doze anos, acutilada por um tio bêbado, que lhe arrancou os olhos “no auge do delírio persecutório”. E que teve um destino semelhante ao de Baba Vanga (1911-1996), uma búlgara cega, mística e fisioterapeuta, que se tornou muito conhecida na Europa Oriental por suas habilidades de clarividência e precognição, ou seja, por suas habilidades paranormais.

Se “Netanyahu, Putin, Trump... não frequentaram o seu radar premonitório”, como diz a autora, a Baba Vanga brasileira, mesmo vivendo num grotão próximo a Cataguases, no interior de Minas Gerais, também se notabilizou por suas previsões, chegando a ser capa da revista O Cruzeiro e veio a receber a visita da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). Até que “saiu de moda e seguiu esquecida. Morreu como viveu: na miséria”.

Como se vê, este livro guarda narrativas – na maior parte, curtas, mas densas – que atraem o leitor não só pelo lirismo e pelo estilo refinado como por situações que o leitor médio nem sempre percebe na vida cotidiana, mas que cativam pelo corte vertical das personagens, que são desvendadas pela psicologia, com finas observações sobre a alma humana. Esse fluxo dramático no interior das personagens é sempre marcado por um humor cético e uma ironia disfarçada, com desenlaces inesperados e enigmáticos, que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas.

 

                         III

Nascida em Cataguases, cidade-ícone da Literatura Brasileira, localizada no interior do Estado de Minas Gerais, Eltânia André (1966) fez, em sua terra natal, os estudos primário e secundário, tendo trabalhado na indústria têxtil. Tem graduação em Administração de Empresas e em Psicologia, com pós-graduação em Saúde Pública e Psicopatologia na Universidade de São Paulo (USP).

Morou em Belo Horizonte, onde trabalhou numa concessionária de veículos, e, em São Paulo, onde, como psicóloga concursada, atuou no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), da vizinha cidade de São Bernardo do Campo. Tem trabalhos e participações em diversos jornais, revistas e suplementos culturais e em várias antologias. Depois de viver experiências traumáticas com a violência urbana que marca a vida numa cidade grande como São Paulo, Eltânia André hoje mora em São Pedro do Estoril, aldeia da freguesia de Cascais e Estoril, perto de Lisboa. Vive em Portugal há nove anos.

É dona de uma obra que já se destaca entre os autores da Literatura Brasileira: Meu nome agora é Jaque (contos, Belo Horizonte, Editora Rona, 2007), seu livro de estreia; Manhãs adiadas (contos, São Paulo, Dobra Editorial, 2012); Duelos (contos, São Paulo, Editora Patuá, 2018); Para fugir dos vivos (romance, São Paulo, Editora Patuá, 2015); Diolindas (romance, São Paulo, Editora Penalux, 2016), escrito em parceria com Ronaldo Cagiano; Terra dividida (romance, São Paulo, Editora Laranja Original, 2020); Diário dos mundos (romance, Editora Laranja Original, 2020), escrito em parceria com Letícia Soares; e Corpos luminosos (contos, Editora Urutau, 2022). O projeto “Céu na Boca”, de sua autoria, foi um dos vencedores em 2022 do Prêmio Maria Carolina de Jesus de Literatura produzida por mulheres. E o “Mulheres de Gimonde” foi selecionado para a bolsa literária “Criar Lusofonia 2024”, romance que está sendo desenvolvido na aldeia de Gimonde, em Trás-os-Montes, com conclusão prevista para o último trimestre de 2026. Adelto Gonçalves – Brasil

__________________________

Decomposição dos pássaros, de Eltânia André, com texto de apresentação de Luiz Ruffato. Cotia-SP-Brasil/Barreiro-Setúbal-Portugal: Editora Urutau, 96 páginas, R$ 55,00, 2025. Site: contato@editoraurutau.com.br

_______________________________ 

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (São Paulo, Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Moçambique - Lançamento de “Novas Vozes, Novas Estórias” celebra vencedores do Prémio Literário Carlos Morgado 2025

Chega ao público a 3.ª edição da antologia Novas Vozes, Novas Estórias, que reúne os 10 melhores contos de novos autores moçambicanos distinguidos na edição 2025 do Prémio Literário Carlos Morgado (PLCM).


Organizado pela Fundação Carlos Morgado e pela Catalogus, o prémio recebeu, em 2025, um total de 203 contos provenientes de diferentes pontos do país, um número que confirma o seu alcance nacional e a crescente relevância no panorama literário moçambicano.

A cerimónia de lançamento da antologia terá lugar na terça-feira, 10 de Março, às 17h30, no Business Lounge by Nedbank, em Maputo. No mesmo evento será oficialmente lançada a edição 2026 do prémio, marcando a abertura de um novo ciclo de candidaturas, que decorrerá de Março a Maio de 2026.

Autores publicados na edição 2025

A antologia apresenta textos de:

  • Omar Mahando António
  • Arquilito Silambo
  • Solange Guambe
  • Zaida Abacar
  • Daniel dos Santos
  • Argentina Guirrugo
  • Atumane Taibo
  • Pedro Mucheu
  • Alex Gujamo
  • Delton Lisboa

A obra propõe um retrato plural do Moçambique contemporâneo, explorando diferentes contextos sociais, experiências individuais e perspectivas ficcionais. O objectivo mantém-se claro: incentivar a criação literária, descobrir novos talentos e fortalecer a cultura do livro no país.

O Prémio Literário Carlos Morgado é instituído pela Fundação Carlos Morgado, organizado pela Catalogus, com o suporte da MGC – Matola Gas Company.

Com esta iniciativa, os promotores consolidam o seu papel na dinamização do sector editorial e no incentivo ao surgimento de novas vozes na literatura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Decomposição dos “nós” de todos nós

O novo livro de Eltânia André cativa e encanta do primeiro ao último conto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, com alto apuro literário


Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, MG, 1966; vive em Portugal desde 2017), Decomposição dos pássaros. A exemplo de seus trabalhos anteriores, a experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis, explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas 96 páginas dessas 10 histórias recentes. Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O coração na alma, a razão na História.

O texto de Eltânia não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio próprio, rico, sinuoso, mas plausível e claro. Por isso Decomposição dos pássaros é original, cativa e encanta do primeiro ao último texto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, de casas desoladas, de tragédias, do cotidiano e dos bastidores doméstico e histórico, o mundo em permanente conflito, em decomposição. Uma ebulição de pessoas iguais a cada um de nós em momentos de aflição e desafio, tudo enriquecido por referências literárias, musicais, cinematográficas, em harmonia com a história narrada.

Diante de um livro de prosa, poemas ou ensaio, um leitor bem formado e de bom gosto percebe o embate tentativa versus êxito na fatura literária. Vê com nitidez a diferença entre os vacilos e defeitos e a segurança, o controle, o esmero estético de um texto literário, sem prejuízo das questões socioeconômicas e da experiência humana na Terra. O leitor dos contos de Eltânia André – que escreve sem a dor da pressa, na expressão de Fernando Pessoa, e sem cair no psicologismo – não terá dúvida de ter diante dos olhos histórias inesquecíveis. Temas e texto em tensão e harmonia. Um palimpsesto de deleite e inquietação, pontuado de humor e riso, às vezes apaziguadores. Pedagogia de fraterna sensibilidade. A razão é simples: quem nos traz os contos de Decomposição dos pássaros, narrados em primeira pessoa, seja voz masculina ou feminina, de jovem, adulto ou idoso, é autora singular, de estilo e enredos irmanados: sonho, pesadelo, realidade – arte.

Suas epígrafes compõem um elo forte, diálogo preciso, entre o título e o texto de cada conto, desde a primeira história, “Pluma e osso”, em que João Melo anuncia “um mundo puro e inocente” e “tempos das grandes labaredas e das fomes imensas”. Nessa narrativa de sabor clássico, conhecemos a sofrida vida de Ellen, acossada pelo criador de gansos para a produção de patê de fígado, o repugnante Breno Galvão, patrão do pai da moça. Depois ainda aparece o doutor Louçã, o mandachuva da Forceluz de Cataguases que emprega pai e filha. Mais não se pode dizer, que o leitor conheça as agruras da família e como a Guerra de Troia e Penélope entram na vida de Ellen.

“Tudo o que o mestre mandar”, o segundo conto, traz a história de Valtinho e Vando, que ganhou o apelido de Van Gogh depois que teve uma orelha decepada pela mordida do irmão. Na epígrafe, Ana Martins Marques afirma que na infância “cometemos nosso primeiro crime”. Com um inusitado método, Ilda, mãe dos garotos, consegue tornar os garotos amigos inseparáveis. Angústia e alegria. Obra-prima.

“Os relógios estão na eternidade”, avisa Orides Fontela na epígrafe de “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, belíssima e triste história de Antônio Relojoeiro, narrada pelo filho Beto, xará do Guedes, autor da instrumental “Belo Horizonte”, música evocada no título e fundamental no enredo. A intertextualidade surge no primeiro parágrafo do conto: “Vim porque aqui nasceu e viveu o meu pai”, frase que lembra o início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Antes de ser internado, na ausência do filho, o protagonista, “sócio de Cronos”, “guardião das horas”, silenciou todos os relógios da loja e disse algo tão singelo quanto comovente a um vizinho: “Acredito piamente nisto: foram os egípcios que inventaram o relógio do sol”. Adulto, “expectativa e espectador”, Beto recorda as coisas simples que teria construído com o pai: um remendo numa rede de pescaria, um pião talhado a canivete, uma aeronave ou um barco de papel. Roteiro para um belo curta-metragem.

Também bonito e poético, “Márrio-Riomar: um nome todo água”, história de temor e solidão, é precedido pelo conhecido trecho de Jorge Luis Borges que termina assim: “O rio me arrebata e eu sou esse rio”. Narrativa primorosa, de final tão admirável quanto o início e o percurso caudaloso, ao som de samba, pagode e Pink Floyd.

Em “Céu na boca”, de sentido duplo, a epígrafe de Brecht alerta para a luta, por vezes hipócrita, para se ganhar o pão de cada dia. No admirável primeiro parágrafo, já vemos que o megalomaníaco, mentiroso Edmundo Fontes, com sonhos de voar, encarna esse tipo. No meio da história, a narradora alerta o sujeito, já em desgraça na ambiciosa carreira, com um conselho de Churchill: “Se você vai passar pelo inferno, não pare de andar”. Do início ao último parágrafo, um lapidado texto, que poderia se chamar “O triste fim de Edmundo Fontes”, personagem tão diverso de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Na epígrafe do conto-título, outro de extração clássica e o mais curto do volume, Nuno Júdice mostra como ajustar os olhos que procuram pássaros, metáfora das buscas de Josué, homônimo do destemido personagem bíblico na conquista da Terra Prometida. Ainda que um pequeno pardal participe da história, o que lemos é uma paráfrase do êxodo. “Iria embora de casa ao completar a maioridade, abarrotaria a mala de lembranças (poço sem fundo) com as imagens que recolheria em suas andanças (ou exílio?).” Quando alguém, no início do terceiro milênio, organizar uma antologia de contos brasileiros do século 21, incluirá esse “Decomposição dos pássaros”.

“Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho” é a única história do livro sem epígrafe, dispensável pela evocação de seu guia no título. Curiosa e divertida trajetória do errático e picaresco Astrogildo (“ou Walter, como preferirem”) acompanhado de Dersu Uzala, do filme de Kurosawa. Ele pensou em escrever um livro com o diabo como protagonista, mas desistiu por não “encontrar humor” no demo, concordou com a historiador francês Georges Minois (“Deus foi sarcástico ao considerar o hipopótamo o ápice de sua criação”), não concluiu a leitura de Os miseráveis, de Victor Hugo, mas nunca se esqueceu do protagonista Jean Valjean, que a “salvou de poucas e boas [...] mas não da solidão”, e antes de terminar seus dias tocava “na gaita a trilha sonora” de O dólar furado. Não à toa, portanto, que seu enterro foi acompanhado ao som de Gianni Ferrio, autor da trilha sonora do faroeste. A frase final é um arremate de mestre, une Jesus, nome do motorista do carro fúnebre, e o despontar da lua na Ásia, de Campos de Carvalho. Conto também antológico.

O verso “Amei todas as perdas”, do espanhol Antonio Gamoneda, dá o tom de “Construção”. Entremeado dos ruídos de instrumentos em uma construção, é a história de perdas e danos, de decomposição, da família de uma anciã de memória surpreendente. “Era um tiquinho de gente, assim ó, mas não esqueço nada.” Deliciosas frases da oralidade, sobretudo mineira, marcam a fala da mulher. Uns exemplos: “Igual eu já te falei...”; “...foi embora caçar um lugar pra ficar”; “...ele fazia birra e tacava o pão duro longe”. No fim, esmerado parágrafo, nem na hora do almoço dos trabalhadores da construção há silêncio total: ao som de colheres rapando o fundo das marmitas somam-se o grito de um casal de maritacas no ar e outro ruído, trágico, do choque de uma cadeira de rodas “com o madeirame da porta roído por cupim”).

“Sob o som das matracas”, depois das maritacas e da matriarca, uma história terrível, versos de Hilda Hilst a nos alertar: “É crua a vida/ alça de tripa e metal”. Um homem conta a um primo detalhes cruéis, em versões ausentes dos livros, da participação do avô, herói anônimo e sem pensão da Revolução de 32, o “fiasco nacional, brasileiro matando brasileiro”. Também aqui Eltânia contrapõe a descrição sem filtro de corpos dilacerados (“toda guerra é um horror”) com expressões populares, como “cavoucou com a unha e cuspiu a bala” e “você é bobo de tão manso”. História pungente que não deixa nenhum coração de pedra insensível.

Campos de Carvalho, “terrivelmente bíblico”, liga o título de “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” ao conto, em que conhecemos semelhanças (ambas perderam a visão “às vésperas de completar doze anos”) entre a mística búlgara Vangelia Pandeva Surcheva (1911-1996) e a baiana Evangelina Augusta da Silva (1940-2021), que teve nascimento difícil (uma beleza a descrição do penoso e obstinado trabalho da parteira Hipólita). Há outras passagens pungentes: “A mãe, já recomposta, com a filha aconchegada ao peito, é imagem da qual Hipólita nunca se esquecerá. Sabia de antemão, pelos arrepios na nuca, do destino da menina”. Logo na frase depois dessa, uma de fino humor metalinguístico: “O barulho dos copos se quebrando e o cheio da aguardente deram sinais da volta da normalidade e a parteira não tinha mais o que fazer lá (nem aqui)”.

Eltânia conta assim um encontro entre a profetiza e a autora de A hora da estrela: “Acredita-se que no remanso da noite, Clarice Lispector [...] encontrou-se com Evangelina, a nossa Baba Vanga [...] A escritora entrou sozinha e saiu de braços dados com Macabeia”. No conto, Eltânia André homenageia outras mulheres, como Marielle Franco e Dandara dos Palmares, assassinadas, e Margarida Maria Alves, que preferiu a morte à escravidão. Mescla de realidade e ficção, o conto, antológico, é um cântico em defesa da fraternidade, da justiça social e da “divisão do pão, do peixe”.

Os dez contos de Decomposição dos pássaros, leitura de inquieto e por vezes assombroso arrebatamento, destilam esplendores e misérias da vida humana. Um livro que vai atravessar o século. Eltânia André precisa ser mais lida e divulgada. Hugo Almeida - Brasil

___________________________

Decomposição dos pássaros, contos, de Eltânia André, Editora Urutau, 2025, 96 páginas, R$ 55,00. https://editoraurutau.com/titulo/decomposicao-dos-passaros 

______________________________

Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor dos romances Vale das ameixas e Mil corações solitários e do ensaio A voz dos sinos (sobre a obra de Osman Lins), todos publicados pela Editora Sinete. https://editorasinete.com.br/ Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

 


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Cabo Verde - Mário Loff apresenta livro "Oração dos Danados" em Portugal

O autor Mário Loff apresenta o livro “Oração dos Danados”, composto por nove contos, este sábado, 10, no Centro Cultural de Cabo Verde, em Portugal. A apresentação estará a cargo de Ana Zorrinho


Numa nota enviada, o autor explica que Oração dos Danados reúne contos que respiram a terra, a memória e a coragem de Cabo Verde, traçando vidas marcadas pela ausência, pelo exílio, pelo amor e pela resistência.

No poema “Tarrafal” indica que a seca é mais do que falta de água: é a urgência da esperança. Burunildo e Ovídio enfrentam a terra, o tempo e a herança silenciosa de um pai que se foi, descobrindo que o verdadeiro legado é o amor que atravessa gerações.

Na “colónia penal”, refere que os corpos e espíritos são testados; quinze presos desafiam a ilha e a prisão, e o detento 41 mostra que a liberdade sobrevive na palavra e na memória, mesmo sob tortura e sofrimento.

Em outros contos, amores impossíveis, como o de Nastienka, ensinam que amar é um ofício e que a poesia é salvação para as feridas da vida.

O exílio e a saudade de “A Praia das Putas Tristes” levam o narrador a Kodje Bitxu, atravessando fronteiras e guerras, aprendendo que a terra que amamos pulsa mesmo à distância, enquanto mulheres fortes revelam a dignidade que resiste à violência e ao silêncio.

Joselino Armoginho, em “O Pote e o Espelho”, descobre que a transformação verdadeira exige confrontar o passado e que o crescimento se mede na profundidade da alma.

Já “Badia no Poder” apresenta Mirian Badia, mulher de presença lendária, cuja força inspira jovens a desafiar o medo e a construir novos destinos.

Com linguagem poética e crua, cada conto de Oração dos Danados é uma viagem pelo impossível, onde a memória, a coragem e a resistência definem a grandeza de quem enfrenta a vida sem se curvar. “É um livro que provoca, emociona e revela que a força humana se mede nas histórias que ousamos contar e nos passos que deixamos no mundo.”

Mário Loff é escritor, poeta, dramaturgo, activista cultural e mediador literário cabo-verdiano, natural do Tarrafal de Santiago. Nascido e formado no ambiente vibrante e desafiante da sua cidade natal, Loff afirma a sua identidade de forma vigorosa e crítica.

Desde cedo, aproximou-se da leitura em contexto social e comunitário, construindo uma relação intensa com as palavras e com a realidade que observa.

Fez o ensino básico e secundário no Tarrafal e estudou História e Património na Universidade de Cabo Verde, na Cidade da Praia. A sua formação académica não se traduziu em coleccionar diplomas, mas em cultivar uma visão crítica da sociedade e da história como matéria-prima da escrita.

Loff cresceu num ambiente em que a educação formal era desafiada pelas exigências da vida quotidiana, mas transformou esse percurso numa vantagem criativa, vendo as ruas, as pessoas e as memórias como elementos essenciais do seu processo de escrita.

O seu primeiro livro, O Rapto da Primeira-Dama (2020), é uma colectânea de contos centrados em mulheres fortes, amor, paixão e sonhos. A obra tem sido apresentada em diferentes cidades de Cabo Verde, incluindo o Tarrafal de Santiago e a Praia, com destaque mediado por figuras da cultura local.

O escritor já participou em antologias de poesia nacionais e internacionais e tem poemas e crónicas publicados em revistas e colectâneas. Em 2019 foi vencedor do concurso “Poetas para o Ano Novo II” e tem texto divulgado no Brasil por meio do canal Conta um Conto.

Loff é fundador e presidente da Associação Literária de Tarrafal de Santiago (ALTAS), organização que promove a leitura, a formação cultural e a produção literária local. Foi orientador do grupo teatral Komikus de Tarrafal, com várias peças escritas e encenadas por si, demonstrando a sua ligação às artes performativas.

O autor representou Cabo Verde em eventos internacionais, como o Colóquio Internacional “A Glimmer of Freedom”, na Universidade do Porto, apresentando reflexões sobre o antigo campo de concentração do Tarrafal através da poesia e da crítica cultural.

Participou em festivais internacionais, incluindo o Festival Internacional de Cinema e Arte (FICCA), no Porto, onde declamou poesia e dialogou com outras expressões artísticas.

Em eventos literários recentes, Loff tem sido convidado para moderar debates e intervir em mesas que cruzam escritores cabo-verdianos e lusófonos, com destaque para a I edição de Leer África, no Tarrafal, reforçando a sua presença no circuito literário lusófono.

A obra de Mário Loff é frequentemente descrita como impactante, combativa e de forte presença sociocultural. Ele não “escreve por escrever”: o seu trabalho é um ataque às convenções, um espaço para a voz dos marginalizados e para a reconstrução poética do mundo vivido.

A sua escrita atravessa fronteiras literárias, partindo da identidade insular para alcançar uma perspectiva de “arquipélago” plural, diversa e móvel, que ultrapassa a geografia física de Cabo Verde. Como o próprio afirma, a literatura não é apenas expressão, mas libertação, e Cabo Verde não é apenas um local de nascimento, mas um ponto de partida para a reinvenção do mundo. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”