Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Moçambique - Mélio Tinga lança romance “Névoa na Sala” em Portugal

O escritor moçambicano Mélio Tinga lançou a sua mais recente obra literária, intitulada Névoa na Sala, em Portugal, sob a chancela da The Poets and Dragons Society.

O romance foi apresentado no dia 27 de Maio, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto; no dia 28 de Maio, na Cena Lusófona, em Coimbra; e no dia 31 de Maio, na Feira do Livro de Lisboa. Está ainda previsto um Book Talk, hoje, 04 de Junho, em Lisboa, onde o autor estará acompanhado por nomes como António Cabrita, Teresa Noronha, Luís Cardoso e José Luiz Tavares.

Conhecido pelo seu percurso na ficção moçambicana contemporânea, Mélio Tinga volta a abordar temas ligados à memória, violência, trauma e relações humanas. Em Névoa na Sala, o autor conduz os leitores à história de um homem que, de forma acidental, acaba envolvido na guerra no Norte de Moçambique, passando a enfrentar os fantasmas do conflito, traumas emocionais e experiências marcadas pela dor, amor e desilusão.

A narrativa desenvolve-se a partir de três vozes distintas, cruzando elementos do fantástico, da morte e da fragilidade humana. A obra foi descrita pelo jornalista moçambicano Leonel Matusse como “um espectáculo perturbador vivido em três actos”.

Vencedor do Prémio Mia Couto 2025, na categoria de Melhor Livro do Ano, e do Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda/Eugénio de Lisboa 2020, Mélio Tinga é considerado uma das 100 Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia pela Revista Bantumen, além de integrar actualmente a lista de finalistas do Prémio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil 2026.

Segundo o autor, o lançamento pretende criar momentos de partilha afectiva e aproximação entre o público e a literatura, valorizando o colectivo acima do individualismo. A mobilidade internacional de Mélio Tinga conta com o apoio do programa Cultiv’Arte. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Cabo Verde – Ministério da Cultura lança cinco prémios literários

O Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas (MCIC), na pessoa do ministro Augusto Veiga, através do Instituto da Biblioteca Nacional de Cabo Verde (BNCV), vai lançar, em breve, cinco Prémios Literários, sendo três deles novos

Entre as novidades estão o Prémio Literário Baltazar Lopes, na categoria Romance, com um valor de 500 mil escudos cabo-verdianos, o Prémio Literário Eugénio Tavares, na categoria Conto, e o Prémio Literário Jorge Barbosa, na categoria Poesia, ambos no valor de 400 mil escudos cabo-verdianos.

Além dos novos galardões, serão também atribuídos dois prémios que já contam com edições anteriores: o Prémio Infantojuvenil Orlanda Amarílis, no valor de 200 mil escudos, e o Prémio Literário Mário Fonseca, no valor de 400 mil escudos, destinado a obras inéditas publicadas por editoras.

“Com as instituições destes prémios, o Governo assume firme compromisso com a promoção da cultura literária nacional”, afirmou o Ministro da Cultura na apresentação.

Ainda segundo este, a criação destes prémios pretende estimular a produção literária, valorizar autores nacionais e consolidar o setor editorial no país.

Quem pode concorrer

Podem candidatar-se aos prémios cidadãos cabo-verdianos residentes no país e na diáspora, bem como estrangeiros residentes em Cabo Verde, maiores de 18 anos, sendo, que a exceção é o Prémio Literário Mário Fonseca, direcionado especificamente a obras inéditas editadas por editoras.

No âmbito da promoção da leitura e do acesso ao livro, o MCIC, através da BNCV, adquiriu recentemente uma Biblioteca Móvel, a estrutura irá percorrer vários municípios e ilhas, permitindo levar livros e atividades literárias a diferentes comunidades. Adelise Coelho – Cabo Verde in “A Nação”


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

UCCLA - Lançamento do livro “Úlcera, Útero”

Vai ter lugar no dia 23 de janeiro, às 17 horas, o lançamento do romance “Úlcera, Útero” da autoria de Brassalano Graça, no auditório da UCCLA.

Com a chancela da Mercador Editorial, a apresentação do livro estará a cargo de Solange Salvaterra.

 

Sinopse do livro:

Talvez seja a negação de «Em Busca do Tempo Perdido», de Proust. Ou talvez seja a hipótese da sua apoteose. E se nos devolvessem o Tempo ardido. Se nos devolvessem anos de vida. Por exemplo, dez anos. O que diríamos, o que sentiríamos, o que faríamos? Aqui não há respostas, há perguntas, porque o tempo ensina-nos a fazer perguntas. É esse o princípio da experiência e da sabedoria, conhecer os Homens pelas perguntas que fazem. Como voltar ao princípio do olhar, ao fundo de nós próprios, como escrever o silêncio que nos habita pelo renascimento dos nossos passos. Talvez escrever. Escrever a memória do futuro. Encontrar-nos lá onde estivemos sem saber que voltaríamos como habitantes do vento. Com o ruído dos erros pacificados. Voltar atrás no tempo, e escrever sobre o futuro que se viveu – com tanto de Ficção Científica como de Ficção Poética. O presente é já futuro. Onde a Política arde como uma ferida rente ao vento.

Biografia do autor:

Brassalano Graça é português, natural de São Tomé. Licenciado em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (com especialização em Televisão e Cinema), laborou seguidamente na Rádio Paris-Lisboa / Radio France Internationale durante oito anos, onde para além do trabalho jornalístico teve um programa de Jazz intitulado ‘Até Jazz’. Colaborou com reportagens para o jornal Público, e com crónicas para o jornal Diário de Notícias, a título cívico. Fez um mestrado na FCSH e ocupou a função de Gestor de Informação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Tem publicado um livro de poesia intitulado Súbito e é um entusiasta da fotografia. É autor do programa de rádio «Paixões Privadas».


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

“Mil Corações Solitários”: O Silêncio que Respira

O título do romance de Hugo Almeida não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas


Comecei a ler Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida, como quem se aproxima de uma casa antiga – uma casa feita de ecos e memória, onde o ar carrega vozes que nunca deixaram de falar. Antes mesmo da primeira página, senti que havia um ritmo próprio: algo na linguagem respirava. Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a pele; livros cuja matéria é silêncio e cuja vibração se sustenta nas pausas. O romance de Hugo Almeida pertence a essa linhagem rara: obras que escutam. 

Desde as primeiras linhas, percebe-se que há um subterrâneo sustentando cada gesto do enredo. Não se trata apenas de personagens, mas de pulsações. Hugo escreve com o ar entre os verbos, confiando na força das suspensões, dos intervalos em que o sentido se forma antes de ser dito. Sua escrita entende que o silêncio não é ausência, mas presença que excede a palavra; e que, às vezes, é o silêncio que conduz o leitor.

Níobe, a figura central, encarna esse modo de existir. Suas cartas à mãe não são confissões, nem busca de explicação – são respiração. Escrever, para ela, é um modo de impedir que o tempo a dissolva. Há uma coragem particular na forma como tenta sustentar a própria vida através da linguagem; como transforma o gesto da escrita em contenção e sobrevivência. A carta, para Níobe, é abrigo e limite: o mesmo movimento que a ampara é o que a aprisiona dentro de si. Hugo captura essa ambivalência com precisão sutil, sem dramatização: apenas deixando que a dor se mova na página sem ser violentada pelo excesso.

À volta dela, Gamaliel – personagem construído com uma delicadeza ética rara. Seu silêncio não é indiferença, mas impossibilidade. Um silêncio que pesa, que guarda uma densidade própria, que devolve a Níobe uma sombra de si mesma. Entre os dois há um amor suspenso, feito de gestos que quase se completam, de presenças que se roçam sem se fundir. Hugo trata essa relação com pudor narrativo: não invade, não explica demais, apenas observa com compaixão.

A estrutura epistolar cumpre, no romance, uma função dupla e profunda. Ao mesmo tempo em que cria um espaço íntimo, expõe aquilo que só a solidão pode formular. As cartas de Níobe ecoam tradições distintas – Flaubert, Clarice Lispector, Raduan Nassar – mas Hugo desvia desses modelos ao não usar a carta como descoberta interior. Aqui, a carta é o próprio lugar onde o sujeito continua existindo. Níobe não escreve para compreender o que sente, mas para continuar sentindo; sua escrita é o gesto que impede o apagamento. 

Existe, em todo o romance, uma contenção formal que o dignifica. Hugo não desperdiça sílabas: escolhe cada palavra como quem escolhe uma pedra para não romper o silêncio da água. Seu texto se aproxima de uma música de câmara: pausas calculadas, nuances mínimas, ecos que se entrelaçam. Essa contenção é estética, mas também ética – não invadir o interior dos personagens é tratá-los com respeito.

O título – Mil Corações Solitários – não funciona como metáfora exagerada, mas como diagnóstico sensível. Há, de fato, muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio. Cada personagem carrega uma possibilidade interrompida, um rumor de vida que poderia ter sido outra. E é nesse rumor que reside a beleza do romance: a melancolia que se sustenta não na dor explícita, mas naquilo que resta. 

Níobe atravessa a narrativa como tempo encarnado. Sua escrita percorre o passado e o presente, tentando recompor uma memória ameaçada pela ausência. Há nela uma sabedoria antiga: a de quem compreende que o amor, para durar, precisa aprender a existir mesmo quando não há reciprocidade imediata. Suas cartas são mapas íntimos, tentativa de manter viva a chama de uma existência muitas vezes invisível. 

E é justamente essa invisibilidade que o romance ilumina: a solidão como condição de escuta. Hugo propõe que só quem aprendeu a estar só consegue ouvir verdadeiramente. Seu livro aposta na lentidão, na presença, na atenção – e essa aposta é política, no melhor sentido. Em tempos de cacofonia, escrever com silêncio é um gesto de resistência.

Há uma dimensão corpórea na leitura. Em certo ponto, percebi que não lia mais com os olhos: lia com a pele. O texto altera a respiração do leitor, desacelera o olhar, reorganiza o espaço interno. Poucas obras conseguem produzir esse efeito – o de transformar o estado de consciência de quem lê. Neste romance, o silêncio não é apenas tema: é método, é atmosfera, é corpo. 

Quando a narrativa chega ao fim, o silêncio que permanece não é vazio. É um silêncio pleno, como o que fica após uma confidência verdadeira. O leitor sai do livro não com respostas, mas com uma companhia. O romance continua respirando depois de fechado; permanece como uma presença que não se impõe, mas que não se retira. 

Mil Corações Solitários é um livro raro: delicado sem ser frágil, rigoroso sem ser árido, emocional sem ser sentimentalista. Acredita no amor como forma de lucidez – e talvez seja essa a sua grande revelação. Quando o amor se torna lucidez, o silêncio se torna luz. Lara Vaz-Tostes - Brasil

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida. 4ª edição. São Paulo: Editora Sinete, 228 páginas, R$ 65,00, 2025. Site: https://www.editorasinete.com.br ; E-mail: editorasinete@gmail.com

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Lara Passini Vaz-Tostes – Natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, onde nasceu a 04 de Maio de 1998, é escritora, advogada pela UFMG (2022) e pesquisadora. Autora de O Lugar que Não Existe (mas sou eu) (Minimalismos, 2025) e Por dentro, onde os nomes nascem (Terra da Garoa, 2025) e outros livros. Desenvolve pesquisas nas interseções entre literatura, ética e escuta, com ênfase em Dostoiévski e filosofia da linguagem. Publica poesia, contos e ensaios críticos em revistas e portais literários.


sábado, 8 de novembro de 2025

UCCLA - Lançamento do livro “Hotel Timor”

Vai ter lugar, no dia 15 de novembro, às 15 horas, o lançamento do romance “Hotel Timor” de Luís Cardoso, no auditório da UCCLA.

O livro tem a chancela da editora The Poets and Dragons Society.

O evento contará com a leitura de alguns excertos do livro, música e algumas surpresas!

Sinopse:

No coração de Díli, debruçado sobre um mar que guarda mais silêncios do que ondas, ergue-se o Hotel Timor. O edifício é mais do que um lugar de passagem: é testemunha de uma história que resiste ao tempo. Entre Lisboa e Timor, entre a partida e o regresso impossível, este romance habita a fronteira do exílio. As personagens movem-se como viajantes perdidos, estrangeiros na sua própria terra, seres que procuram redenção na lembrança e tropeçam na ferida ainda aberta da História. Amores interrompidos, destinos fragmentados, cartas nunca enviadas, vozes que regressam na madrugada: tudo converge na atmosfera rarefeita do hotel, metáfora de um país e de uma identidade suspensa entre a ruína e a esperança. Com uma escrita densa, melódica e por vezes cruel, o autor ergue uma narrativa que é ao mesmo tempo íntima e coletiva. Hotel Timor fala da dor e da resistência, do esquecimento e da memória, do peso das ausências e da obstinação em continuar a viver, mesmo quando tudo em redor ameaça desaparecer. Ler este livro é entrar num espaço onde a literatura se torna morada de sombras, mas também de claridade inesperada - um lugar onde a palavra resiste, como último refúgio contra a perda.

Biografia:

Luís Cardoso nasceu em Kailako, uma vila no interior de Timor-Leste. Estudou na ilha de Ataúro e nos colégios missionários de Soibada e de Fuiloro, no seminário dos jesuítas em Dare e no Liceu Dr. Francisco Machado, em Díli. Mais tarde, já em Portugal, licenciou-se em Silvicultura no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e realizou uma Pós-Graduação em Direito e Política do Ambiente, na Universidade Lusófona.

Desempenhou as funções de Representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere, em Portugal.

É autor dos romances: Crónica de Uma Travessia (1997); Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo (2002); A Última Morte do Coronel Santiago (2003); Requiem para o Navegador Solitário (2007); O Ano em que Pigafetta completou a circum-navegação (2013); Para onde vão os gatos quando morrem? (2017); e O Plantador de Abóboras (2020). Este último romance foi galardoado com o Prémio Oceanos 2021.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Macau – Escritor Su Tong destaca influência mundial de José Saramago

O autor chinês Su Tong, pseudónimo de Tong Zhonggui, vencedor do prémio literário Man Asian, que recebeu um doutoramento ‘honoris causa’ em Macau, realçou à Lusa o impacto de José Saramago, “figura reverenciada por escritores”, em todo o mundo. “No mundo de língua portuguesa, há uma figura reverenciada e honrada por escritores em todo o mundo: José Saramago. A sua influência estende-se por todo o planeta”, disse Su Tong.


“Eu também estou entre os seus admiradores”, acrescentou o escritor de 62 anos, após uma palestra sobre a sua carreira literária, na Universidade da Cidade de Macau (UCM). A UCM distinguiu com um doutoramento ‘honoris causa’ Su Tong, autor de sete romances e mais de 200 contos, alguns dos quais traduzidos para português, como “A Minha Vida Enquanto Imperador” e “Esposas e Concubinas”. “Esposas e Concubinas” foi adaptado ao cinema pelo realizador Zhang Yimou em 1991 e chegou a estar proibido na China continental.

Durante a palestra, Su Tong observou que a sua jornada literária começou quando era jovem, ao ouvir contar histórias. “No início dos anos 70, quando a vida espiritual das pessoas era árida, o fascínio por contos tornava-se cada vez mais intenso”, recordou. Para dar continuidade a uma história que não tinha ouvido até ao final, Su Tong tentou escrever o desenlace da trama, embarcando, assim, na carreira de escritor.

O autor considera que foi precisamente a época que viveu que forjou a sua ligação à criação literária. A década de 1980 fez a China entrar numa era de fervor literário, o que acendeu ainda mais a sua paixão criativa, explicou.

Su Tong é um dos romancistas chineses contemporâneos mais conhecidos a residir na China e venceu em 2009 o Man Asian Literary Prize, versão asiática do Man Booker Prize, com o livro “O Barco para a Redenção”, um romance passado durante a Revolução Cultural.

Todos os escritores são porta-vozes do seu tempo, e a época, “como a Esfinge do Egipto, revela aspectos diferentes quando vista de diferentes tempos e ângulos”, referiu na palestra.

À Lusa, Su Tong afirmou que os escritores desta era partilham um sentimento de “ausência de peso”, “essa sensação de estar à deriva”. “Consequentemente, tornam-se mais sintonizados com a relação entre a humanidade e a realidade, e entre o escritor e o mundo”, explicou. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 28 de maio de 2025

A polonaise de Hugo Almeida no “Vale das ameixas”

Três linhas são elementos fortes no romance: a imigração dos poloneses, o erotismo e o dom de criar


Há um trecho no romance Vale das ameixas, de Hugo Almeida (Editora Sinete, 2024), em que o narrador adverte: “Um romance é um buraco negro que suga tudo. Mas ilumina a vida” (p. 245). Grande verdade. Iluminado fiquei após a leitura desse livro que, em muitos momentos, também nos dá a sensação de estar num buraco negro, de estar perdendo o fio da meada. Isso porque há um entrelaçar de narradores, embora predomine a voz do polaco Harley Tymozwski, apelidado de Timo, ex-alfaiate e ex-professor, que vive em Belo Horizonte. Figura complexa, às vezes me lembra o narrador de Migo, de Darcy Ribeiro, ou, também, o narrador de Morte em V., de Reinaldo Santos Neves.

O autor, que é um especialista em Osman Lins, aliás muito citado ao longo da obra, principalmente A rainha dos cárceres da Grécia, insere ironicamente esse jogo de alteração de narradores na p. 221, em que um personagem que detém o ponto de vista avisa: “Ah, eu sou o Túlio”. Túlio, Zacarias e algumas personagens femininas vão se alternando num livro repleto de referências a artistas poloneses, como escritores, poetas, pintores cineastas, escultores, prevalecendo a imagem de Chopin. Assim como há vários dados biográficos de Ziembinski, extraídos do livro de Yan Michalski e do de Silvia Czapski. Na p. 227, como se fosse um Avalovara ou Jogo da amarelinha, o personagem Zacarias, filho de Timo, explica a montagem do livro, do qual Túlio também participou. E, através de seu personagem, Hugo Almeida sintetiza: “A descoberta de quem fala é um dos prazeres da leitura de um romance. Surpresas a cada página” (p. 244).

Das várias epígrafes do romance, destaco a extraída do conto “Pentágono de Hahn”, de Nove, novena, de Osman: “Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.”  Daqui, aponto três linhas que vejo como elementos fortes da obra: a imigração dos poloneses, o erotismo e o dom de criar.

São vários os poloneses citados. Polônia, pátria ferida nas duas grandes guerras, tem seus filhos espalhados por outros países. Sua liberdade é golpeada, aliás, desde tempos mais remotos. Por exemplo, o cineasta Andrzej Wajda, em seu filme Danton, intercala Revolução Francesa e época contemporânea ao colocar na boca do personagem a frase: “Um homem sem pão não tem liberdade; nem justiça, não tem nada”. É o que vemos na p. 28, para, logo a seguir, nos surpreendemos pela inserção de versos de Machado de Assis, no poema “Polônia”, de Crisálidas, em que há este trecho: “A mãe via partir sem pranto os filhos [...] / Pobre nação! – é longo o teu martírio; a tua dor pede vingança e termo;/ Muito hás vertido em lágrimas e sangue [...] Não ama a liberdade / Quem não chora contigo as dores tuas”.

Com relação à questão da imigração, há duas passagens bem hilariantes: em uma delas, na p. 158, um polonês em Chicago, num exame oftalmológico, ao ver consoantes aleatórias na parede, afirma que não apenas reconhece as letras, mas conhece quem era aquele cara. E, na p. 219, há o diálogo do protagonista com agente da imigração em Lisboa: “Não podes perman’cer mais do que noventa dias. O quê?! Noventa dias!? Vocês ficaram no Brasil por mais de trezentos anos”. Porém, são pausas para respirar, pois a temática da diáspora é repleta de dor, como se lê na p. 120: “Sim, impossível fechar os olhos, ainda há guerras e guerras, famílias destroçadas, covas rasas e mutilados, crianças sem pais nem país, milhares sem chão nem identidade cultural ou psíquica. Ilegais aqui e acolá. Presos e deportados. O homem segue louco, vil, voraz, um sorvo”.

Contrastando com a guerra, há o núcleo amoroso do livro. As intertextualidades comparecem para sublinhar o tema: “[...] ‘diz que é homem do amor, ouvintes, e não homem da guerra’. Nessa passagem ‘radiofônica’ de A rainha dos cárceres da Grécia, vejo que Osman Lins fez paráfrase de uma fala de Antígona, de Sófocles: ‘Eu não nasci para partilhar de ódios, mas somente de amor!’. Ou, talvez, da frase original, que é de Homero, na Ilíada: Dione, com a filha Afrodite (ou Vênus) ferida no colo, lhe diz ter sido feita para combates de amor, não de guerra” (p. 111).

A temática amorosa aponta para os instantes mais líricos e eróticos do romance, em que Timo evoca suas várias amadas, como Laura: “Laura, Laura, Laura. Sim, sim. Luz, poema vivo. [...] voz que belisca a alma. Gotas de mel no lábio de abelha-beija-flor”. (p. 13). Na p. 95, na esteira de Baudelaire, o protagonista se pergunta: “O que é o amor? Sim, a necessidade de sair de si”. O título do livro, além de acenar metonimicamente para a Polônia, serve como metáfora para o corpo feminino, notadamente os seios, como se lê em algumas passagens, como esta, da p. 178: “[...] mergulha e chora na minha tua aljava, gruta enlouquecida, o teu vale de ameixas rosadas...”.

 As mulheres, ademais, como as passantes de Baudelaire, arrancam de Timo frases assim: “Deus é melhor do que Rodin. Basta olhar algumas moças que passam. Que passos! Que pássaras!” (p. 110). Na p. 122, enfileiram-se as evocações: “Laura, poema vivo, vulcão em repouso. Oh, Laís, meu sonho e meu pecado. Piedade, a fiel Alzira. Léa, Léa do meu devaneio. Éden, mestre que Túlio me trouxe. Núbia de meus sonhos fugazes, permanentes. Loren, Loren, minha febre”. Diga-se, de passagem, que a voz feminina também se ouve, tanto em contraponto erótico (“mergulha e chora na minha tua aljava, gruta enlouquecida, o teu vale de ameixas rosadas”, p. 178), como em reflexões antimachistas (“O homem é uma devastação para a mulher”, p. 129).  Lembro que, entre as mulheres citadas, há uma guerrilheira, assassinada no Araguaia, e que continua a fazer suas denúncias mesmo depois de morta. Na p. 193 há a informação de que “Mulheres que leem são mesmo perigosas”.

Finalizando, destaco o tema da criação, das reflexões sobre o escrever literatura.  Com ressonâncias de Mário de Andrade, lemos, na p. 120: “Quando sinto o impulso poético pulsar, deslizo a caneta sem medo e sai o que meu peito grita. Depois, bem depois, releio, penso e altero alguma coisa, corto ou troco palavras, reviro alguma frase”.  Na p. 123, esta frase, que é uma redenção: “Literatura, pássaro livre”. Das várias reflexões sobre o ato de criar, uma delas diz que “Uma narrativa não é detentora de significação, mas deflagradora de significação. O título de um romance – essa máquina complexa que não nasce de ovo nem útero – deve misturar as ideias, e não orientá-las. Escrever, triunfo da liberdade, solidão fraterna”. (p. 204)

Na p. 199, numa passagem que me lembra Graciliano Ramos estabelecendo analogia entre o fazer literário e o trabalho do sapateiro, o narrador faz relação entre escritor e alfaiate: “Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste das dobras e curvas, não exceder nas medidas”. Não é gratuita na obra uma citação de Julia Kristeva, pois o romance de Hugo Almeida, sendo um mosaico de citações, opera trazendo paráfrases, pastiches, alusões. Por exemplo, ao abordar Catatau, de Leminski, busca em Agora que são elas a frase “Vou lhe mostrar com quantos plágios se faz o original” (p. 113).  Quando Timo escreve que tem uma vida que poderia ter sido mas não foi, logo a seguir fala de sua bandeira, explicitando de quem é o célebre verso. Porém, ao descrever um enterro, na p. 215, parafraseia o poema “Momentos num café”, sem dar dica ao leitor incauto que aquilo era uma paráfrase. Das várias citações, há esta, na p. 88, Celso Adolfo, “E a porta continua proibida a quem precisa entrar”. Se, de um lado, o narrador cita explicitamente autores como Machado de Assis, Flaubert, Leopardi, Wislawa Szymborska, Otto Maria Carpeaux, Joseph Roth, Leminski, Mário de Andrade, W. J. Solha, por outro dá apenas pistas, como na p. 48, ao referir-se a um poeta chamado Vastafala, aluno do célebre Colégio Estadual dos anos 60. Quem conhece Antônio Barreto, sabe que é o título de um de seus livros. Porém, p. 209, cita versos nos quais vejo ressonâncias cabralinas: “Entras nessa sala/ e tudo inundas/ o mar começa/ em teus pés/ são de água/ esses seus passos”. Demorei a encontrar o autor: trata-se de Moacir Amâncio, no livro Câmara escuro, publicado pela editora Hedra.

A obra, enfim, é uma grande e prazerosa dança do espírito, uma polonaise, cuja chave de interpretação está nela própria, como se lê na p. 204: “Onde procurar as chaves de um romance? Nele mesmo. Um texto traz a memória da cultura em que se insere. [...] Concluído o romance, o escritor deveria morrer. Ou calar-se. O livro segue, livre, o seu caminho. Agora é com o leitor”. E, se “os mares nunca descansam” (p. 164), as leituras vêm em incessantes ondas, como o mar. Caio Maciel – Brasil

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Vale das ameixas, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 248 páginas, R$ 65,00, 2024. www.editorasinete.com.br O romance está disponível na Amazon.

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Caio Junqueira Maciel é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor dos livros de ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula. Como poeta, entre outros títulos, escreveu Pele de jabuticaba. Autor do romance Um estranho no Minho, fruto do período em que viveu em Portugal.



terça-feira, 27 de maio de 2025

Moçambique - Carlos Paradona apresenta livros em São Tomé e Príncipe e Angola

Nas comemorações dos cinquenta anos da Independência Nacional de Moçambique, de São Tomé e Príncipe e de Angola, o escritor Carlos Paradona Rufino Roque apresenta, em São Tomé, na próxima sexta-feira, e em Luanda, dia 04 de Junho, os seus romances Pita Kufa, o Leito da Morte e Mueda, Nos Labirintos dos Ritos de Iniciação.



“Os livros, em circulação restrita naqueles países, têm despertado um interesse inusitado entre as comunidades literária e académica locais, o que motivou a intenção do autor. É o seu tributo e homenagem à luta dos Povos desses países e dos restantes de Língua Oficial Portuguesa em África”, adianta um comunicado de imprensa. 

Em São Tomé, a cerimónia de apresentação vai ter lugar na Biblioteca Nacional e, em Luanda, na Sede  da União dos Escritores Angolanos.

Moçambique, São Tomé e Príncipe  e Angola conquistaram as suas independências em 1975 e partilham fortes laços de história comum na sua luta pela emancipação e autodeterminação.

Na qualidade de Secretário–geral, Carlos Paradona Rufino Roque vai aproveitar o ensejo para estreitar os laços de cooperação existentes entre a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), a União Nacional de Escritores e Artistas de São Tomé (UNEAS) e a União dos Escritores Angolanos (UEA). In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Moçambique - Lucílio Manjate lança “Última Memória: Entrevista com Sthoe”

O escritor moçambicano Lucílio Manjate lança “Última Memória: Entrevista com Sthoe”, no dia 21 de Maio, no Centro Cultural Português em Maputo, Camões. O livro será apresentado por Gilberto Matusse.



É um novo romance de Lucílio Manjate, no qual o autor regressa com Sthoe, o agente policial que Manjate cria na novela A Legítima Dor da Dona Sebastião (2013) e volta a dar vida no romance Rabhia (2017). Entretanto, diferente dos livros anteriores, em Última Memória: Entrevista com Sthoe, a personagem reaparece com a idade já bastante avançada, debilitada e profundamente solitária.

Sem poder usar as mãos, o velho polícia contrata os serviços de Dezassete, um taxista que no passado o agente suspeitou ter cometido um crime, para o ajudar a redigir cartas destinadas ao seu antigo estagiário, Bernardo Bastante Sozinho. As cartas surgem alegadamente porque Sthoe deseja partilhar com Bernardo casos antigos, na esperança de que a correspondência leve o antigo discípulo a aplicar-se em processos de investigação policial. Porém, esta não será a única razão para o surgimento das cartas e ela pode, inclusive, revelar-se para o leitor ilusória.

Lucílio Manjate conta já com mais de uma dezena de livros publicados em Moçambique, Portugal e Brasil, alguns dos quais premiados, como Rabhia, e com contos traduzidos para o inglês e espanhol. O autor, que também é professor de Literatura na Universidade Eduardo Mondlane, publicou também ensaios e antologias sobre literatura moçambicana e tem participado em eventos culturais e literários dentro e fora do país. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 13 de maio de 2025

Brasil - Prêmio literário Candango de Literatura aberto aos países de língua portuguesa

2.º Prêmio Candango de Literatura- inscrições abertas e gratuitas



Criado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, o prêmio receberá inscrições até 25 de junho e distribuirá R$ 195 mil em sete categorias, contemplando obras publicadas em língua portuguesa e iniciativas de fomento à leitura

A partir de projeto desenvolvido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF), a capital do Brasil se prepara para reconhecer e celebrar a produção literária em língua portuguesa com o 2.º Prêmio Candango de Literatura. O certame abrange livros publicados em 2024 e projetos de incentivo que estejam em curso há, pelo menos, dois anos. A iniciativa, realizada em parceria com o Instituto Casa de Autores (ICA), busca valorizar autores, editoras, designers e agentes de leitura do Brasil e de outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reforçando o compromisso com a diversidade e a circulação de obras que ecoam em português, idioma que une continentes, culturas e vozes. Com inscrições gratuitas abertas entre 10 de maio e 25 de junho de 2025, o 2.º Prêmio Candango de Literatura revelará os vencedores em 31 de outubro, em grande evento que será realizado na Sala Martins Pena do Teatro Nacional, em Brasília.

Desde o lançamento do prêmio em 2022, sua visibilidade só cresce - e, com ela, a expectativa de ampliar ainda mais o número de participantes, superando as quase duas mil inscrições da primeira edição. A parceria com embaixadas dos países lusófonos fortalece essa iniciativa, promovendo o intercâmbio cultural, incentivando a leitura e valorizando a escrita como parte essencial do nosso patrimônio comum”, afirmou o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Claudio Abrantes.

Serão R$ 195 mil distribuídos entre os vencedores, com sete categorias divididas entre três pilares principais. São eles:

Obras de caráter literário

  • Melhor Romance de 2024 (R$35 mil)
  • Melhor Livro de Contos de 2024 (R$35 mil)
  • Melhor Livro de Poesia de 2024 (R$35 mil)
  • Prêmio Brasília de Literatura – voltado a autores nascidos e/ou residentes no Distrito Federal do Brasil (R$35 mil)

Obras de caráter editorial

  • Melhor Capa de 2024 (R$20 mil)
  • Melhor Projeto Gráfico de 2024 (R$20 mil)

Projeto de caráter pedagógico

  • Melhor Projeto de Incentivo à Leitura. Podem concorrer pessoas físicas ou jurídicas com iniciativas em andamento há pelo menos dois anos (R$15 mil)

Quem pode participar

Livros de romance, contos ou poesia escritos, originalmente, em português e publicados pela primeira vez em 2024 em qualquer país de língua portuguesa e disponíveis em formato impresso, com ISBN (International Standard Book Number) emitido por entidades reconhecidas no Brasil ou em outros países da Comunidade Lusófona. Cada obra pode ser inscrita apenas em uma das categorias literárias, com exceção de “Melhor Capa” e “Melhor Projeto Gráfico”, que aceitam inscrições simultâneas. É permitida a inscrição de autores com coautoria, desde que a obra não seja uma compilação.

Para o “Prêmio Brasília”, o autor deve comprovar nascimento ou residir no DF desde 2023, pelo menos. Já o “Prêmio de incentivo à leitura” exige documentação que comprove a atuação do projeto por, pelo menos, dois anos.

Inscrições e documentação

As inscrições serão realizadas, exclusivamente, pelo site, com envio de documentos em PDF, como documento de identificação do autor, cópia da obra completa (ou capa, conforme a categoria), declarações obrigatórias e, no caso de projetos de incentivo à leitura, um portfólio detalhado da ação.

Coordenação, deliberação e compartilhamento

A Coordenação Geral do certame estará a cargo de quatro profissionais de reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura, entre eles o curador João Carrascoza. Escritor, professor e redator publicitário. Considerado uma das revelações da ficção brasileira e um dos maiores contistas contemporâneos, Carrascoza foi o vencedor na categoria “Contos” na primeira edição do Prêmio Candango de Literatura.

A seleção das obras será conduzida por um corpo técnico formado por 45 profissionais renomados da literatura - 30 na primeira etapa e 15 na final. Os nomes dos jurados serão divulgados após a premiação, garantindo transparência e isenção.

Como forma de ampliar o acesso às obras vencedoras e fortalecer o compromisso com a democratização da leitura, os premiados nas categorias literárias e editoriais deverão doar 20 exemplares dos livros para bibliotecas públicas do Distrito Federal. Já os vencedores na categoria de incentivo à leitura vão oferecer uma atividade de formação online, com no mínimo 4 horas de duração, como contrapartida educativa.

Memória

Realizado pela primeira vez em 2022, o Prêmio Candango de Literatura distribuiu R$174 mil entre oito categorias. Foram os vencedores Marcílio Godoi, com a obra Etelvina (Melhor Romance); Alexei Bueno, com O Sono dos Humildes (Melhor Livro de Poesia); João Anzanello Carrascoza, com Tramas de Meninos (Melhor livro de Contos); Alexandre Pilati, com Tangente do cobre (Prêmio Brasília); Gláucio Ramos Gomes, com o projeto Leitura na Esquina (Incentivo à leitura); Gisela Maria de Castro Teixeira, com O Livro das Capitais (Incentivo à Leitura para Pessoas com Deficiência); Design Estúdio Beatriz Mom, pelo livro Poesia é um Saco, de Nicolas Behr (Projeto Gráfico) e Jéssica Iancoski, pelo trabalho no livro As Laranjas de Alice Mazela, de Géssica Menino (Capa). Donna Mídia Comunicação - Brasil

Serviço:

2.º Prêmio Candango de Literatura

Categorias: Melhor livro de Romance, Melhor livro de Contos, Melhor livro de Poesia, Prêmio Brasília, Melhor Capa, Melhor Projeto Gráfico e Melhor Projeto de Incentivo à Leitura (incluindo PCD)

Valor total distribuído: R$ 195 mil

Premiação: 31 de outubro de 2025

Local: Sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro

Regulamento e inscrições: 

Inscrições: até 25 de junho de 2025

https://premiocandangodeliteratura.com.br/


sábado, 19 de abril de 2025

Moçambique – Escritor Carlos Paradona lança livro na Guiné Equatorial

Carlos Paradona vai celebrar o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor em Malabo. Na capital da Guiné Equatorial, próxima quarta-feira, o escritor vai lançar o seu último romance, intitulado “Pita kufa, o leito da morte”.



De acordo com uma nota de imprensa da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), o romance “Pita kufa, o leito da morte”, apesar de circulação restrita, tem despertado um interesse inusitado entre a comunidade literária e académica daquele país da CPLP, daí o convite formado para o autor lançar o livro em Malabo.

Na ida à Guiné Equatorial, o escritor e Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos vai procurar aprofundar relações com a associação dos escritores daquele país.

Para Carlos Paradona, o lançamento de “Pita Kufa”, em Malabo, “vai ter um grande impacto visto tratar-se do primeiro autor moçambicano a fazer este tipo de evento. Ademais, tratando-se de um país que recentemente adoptou o Português como língua oficial, esta obra vai contribuir para o aumento de materiais escritos em Português para o público leitor neste país da CPLP”, afirmou.

Não obstante, com a sessão de lançamento do livro, em Malabo, pretende-se abrir espaço para autores nacionais apresentarem as suas obras naquele país, com o fim último de internacionalizar a literatura moçambicana. Também, portanto, pretende-se criar bases para intercâmbio de autores dos dois países e as suas obras, com laços de cooperação constantes. In “O País” - Moçambique

Sobre o autor:

Carlos Paradona Rufino Roque, nascido em Inhaminga, Província de Sofala, concluiu a 4ª classe na Escola Primária Oficial do Dondo, em 1973. Posteriormente, frequentou os então Ciclo Preparatório Dr. Baltazar Rebelo de Sousa e Liceu Pêro de Anaia, na Cidade da Beira e foi estudante moçambicano na República de Cuba. Carlos Paradona Rufino Roque, é membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), desde a sua fundação, e representa Moçambique, desde 2009, no Corpo de Jurado do Grande Prémio SONANGOL de Literatura, República de Angola. Ele é licenciado em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane- UEM, possui curso de Mestrado em Sociologia pela Universidade de Pretoria, e é Doutorando em Administração e Políticas Públicas, pela Universidade de Lisboa.

Em 1980 publica os seus primeiros poemas na página Diálogo, do extinto jornal Notícias da Beira. Colaborou ainda com poesia, contos e ensaios nas páginas Diálogo do Diário de Moçambique, Letras e Artes do Jornal Domingo, nas Revistas Tempo, Charrua, Forja e Eco ao longo das décadas de oitenta e de noventa. Em 1992 publica o seu livro de poemas A Gestação do Luar e, mais tarde, os romances Tchanaze, a Donzela de Sena (2009), N’tsai Tchassassa, A virgem de Missangas (2013) e Carota N’tchakatcha, Feitiços e Mitos (2019).  N’Tsai Tchassassa – A virgem das Missangas   (2020, 2ª edição) . Mueda – Nos labirintos dos Ritos de Iniciação (2024, 2ª edição). Pita Kufa – O leito da Morte (2024, 1ª edição). O escritor tem obras publicadas em Portugal, na Espanha, Reino Unido e China (Macau).



quarta-feira, 9 de abril de 2025

Angola - Escritor Jorge Arrimar satisfeito pelo reconhecimento à criação

O escritor Jorge Arrimar considerou, na segunda-feira, no Centro Cultural Português, em Luanda, ser um incentivo e privilégio receber o VI Prémio de Literatura Dstangola/Camões, em que concorreu com o romance “Cuéle – O pássaro troçador”, publicado pela editora portuguesa “Guerra e Paz”



O prémio, promovido pelo Dstgroup em parceria com o Instituto Camões, dedicou-se nesta edição a obras de prosa de autores angolanos, publicadas em 2022 e 2023. O prémio, no valor de 15.000 euros, foi entregue ao vencedor, na quantia correspondente em kwanzas.

Em declarações ao Jornal de Angola, Jorge Arrimar, explicou que ao ver reconhecido o trabalho, serve como um incentivo à continuidade, embora não esteja habituado a receber prémios.

Questionado sobre a ausência nos grandes concursos de literatura, o poeta e romancista disse que nunca se sentiu injustiçado, por estar consciente da complexidade da sua escrita que requer algum rigor na elaboração temática, por não escrever para um público vasto, assim como para as editoras, que muitas vezes são reguladas pela sua componente comercial. “Trabalho muito o texto, faço muita pesquisa e tento sempre escolher, detalhadamente as palavras. Isso leva muito tempo. Há muita exigência da minha parte. Isso, provavelmente, torna a leitura, também, mais complicada”, reconheceu.  

Além da presença de escritores e membros de direcção da empresa promotora na concorrida cerimónia, a entrega do prémio foi prestigiada pela secretária de Estado da Cultura, Maria da Piedade Jesus, que felicitou o escritor pelo prémio, bem como, a organização e o júri, por todo o trabalho desenvolvido em mais uma edição que tem privilegiado a excelência e criatividade na literatura angolana. “Essa distinção só vem enaltecer o trabalho que tem sido desenvolvido ao longo dos anos pelos escritores angolanos”, sublinhou.

Argumentos do júri

O júri, foi constituído por José Mena Abrantes (presidente), David Capelenguela e Amélia Dalomba “constatou com satisfação a qualidade de grande parte das obras apresentadas este ano a concurso”, o que tornou mais difícil a decisão final. “Depois de uma profunda e cuidada análise e do cruzamento das suas opiniões, o júri decidiu, por unanimidade, outorgar o prémio deste ano à obra “Cuéle - O pássaro troçador', de Jorge Arrimar, um fresco grandioso e muito bem documentado sobre uma região de Angola raramente presente na nossa literatura”, explicou o júri.

“O autor tem perfeito domínio da sua expressão, tanto na escrita e na definição das diferentes personagens, quanto no rigor como caracteriza modos de ser, tradições e comportamentos dos vários estratos sociais, quer do lado africano quer do lado europeu, num momento decisivo do desenvolvimento do Sul de Angola, na transição do século XIX para o século XX”, acrescentou ainda o júri, em comunicado.

Jorge Arrimar concilia, assim, na opinião dos jurados, “com naturalidade, num estilo simples e fluido, reminiscências de figuras relevantes da época e da sua própria história familiar e factos históricos profusamente documentados, que revelam tanto o esboço de uma harmonia possível no contacto entre duas culturas diferentes quanto a violentação de uma pela outra na concretização da ocupação colonial”.

O vencedor foi conhecido em Novembro do ano passado, em que o júri considerou “Cuéle – O pássaro troçador” como “um fresco grandioso e muito bem documentado sobre uma região de Angola raramente presente na literatura”.

Ao longo destas edições, o concurso já distinguiu Zetho Cunha Gonçalves, em 2019, Pepetela, em 2020, Benjamim M’Bakassy, em 2021, Boaventura Cardoso, em 2022, e João Melo, no ano passado. Katiana Silva – Angola in “Jornal de Angola”


sexta-feira, 7 de março de 2025

“Iberê Camargo: um homem valente”, romance-pintura

A escritora Nilma Lacerda inova na biografia romanceada, 

“fricção”entre arte e fatos, do pintor brasileiro


Na entrevista-diálogo com Iberê Camargo (1914-1994), publicada na revista Manchete em janeiro de 1969, incluída no livro Entrevistas (org. de Claire Williams, Rocco, 2007), Clarice Lispector (1920-1977) perguntou ao pintor qual o processo criador de um pintor versus o processo criador de um escritor. A resposta do artista foi simples, cristalina, tranquila: “Suponho, Clarice, que a diferença que existe esteja apenas na diferença de elementos. O pintor usa cor, a tinta, a linha. O escritor usa a frase. Mas o impulso criador deve ser o mesmo. O que você acha? Que é de natureza diversa?”. Clarice concordou com Iberê: “Acho que não: a fonte é a mesma”. 

Em seguida ela disse ter ficado “impressionada com Lúcio Cardoso [1912-1968] que, depois da doença [um AVC paralisou seu lado direito], não conseguia escrever nem falar, mas pintava com a mão esquerda. Perguntei a um médico por que ele não escrevia com a mão esquerda. O médico explicou-me, se é que entendi bem, que no cérebro existe uma parte de onde sai a escritura, e outra de onde sai a pintura”.

Iberê, então, perguntou e respondeu: “Mas ele pintava como escrevia? Não. Pintar é um artesanato, é saber usar os instrumentos. Assim como o escritor luta por criar com a palavra. Não há um caso de um pintor que tenha feito uma obra definitiva na primeira tentativa. Na literatura há?”. Resposta de Clarice: “Não sei, mas talvez Rimbaud”. Mais adiante, a escritora perguntou: “Qual o conselho que você daria aos novos pintores?”. A resposta seguiu a da outra pergunta: “Não se persuadirem de que inventaram a pintura. E você, que conselho daria a novos escritores?”. Clarice: “Trabalhar, trabalhar e trabalhar”. 

Essa introdução de três parágrafos é para começar a tratar de um romance precioso, Iberê Camargo: um homem valente, mescla de pintura e texto, ou texto feito pintura, fruto de longo, paciente e árduo trabalho de uma grande e experiente escritora, Nilma Lacerda (1948, Rio, onde vive), autora de obra consistente e bonita várias vezes premiada, doutora em Letras, professora aposentada na Universidade Federal Fluminense. A editora Mínimo Múltiplo, de Porto Alegre, publicou Um homem valente em 2022, mas nunca é tarde para resenhar um grande livro. A avalanche de publicações dos últimos anos no Brasil, nem sempre de qualidade, tem deixado esquecidas obras raras, valiosas, que não brotam do cotidiano imediato nem abordam (ou abortam) temas do momento, livros quase sempre com linguagem trivial, sem apuro literário, pouco mais do que o estilo apressado do jornalismo. 

O trabalho de Nilma Lacerda é de outra natureza. Ela produz arte. A escritora pintou o livro, lapidada prosa poética. A alma e a obra do pintor flutuam ali, vivas, transfiguradas, um deleite para o leitor. Nilma não teve o privilégio de se encontrar com Iberê Camargo em vida. No entanto, o conheceu a fundo. Visitou e conversou longamente com a viúva dele, Maria Coussirat Camargo (1915-2014), considerada pelo curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff (1949) “sombra e luz”, “esteio seguro e sereno” do marido. Nilma Lacerda contou com a bolsa Vitae de Arte em Literatura, concedida em 1998, para conceber Um homem valente. Leu o que de melhor havia sobre ele, pesquisou profundamente sua vida e obra. Mas não se ateve a fatos para escrever o livro. Foi audaciosa, como em todos seus textos. Há muita imaginação, criação, na “fricção” entre arte e vida no romance, que deve ter surpreendido e talvez incomodado muita gente apreciadora de biografias tradicionais. Foi uma mulher valente e talentosa que escreveu e reescreveu, sem pressa, mesmo após o fim da bolsa, esse belo livro desde a capa, pintura de Theo Felizzola com base em fotos de Iberê Camargo feitas por Luiz Eduardo Achutti. 

A exemplo do pintor, tão original que não tinha filiação definida com alguma corrente estética, Nilma Lacerda é uma escritora inovadora, cada livro seu tem linguagem e estrutura diferentes. Ela captou e transformou em alta literatura a personalidade inquieta do pintor e de suas telas que “assustam e encantam”, como diz Ronaldo Brito em Iberê Camargo (DBA, Dórea  Books and Art, 1994). Da mesma forma, as páginas de Nilma Lacerda encantam e assustam. No livro dividido em 14 capítulos, como a Via-Sacra, e um 15º extra, além do pintor transitam outros personagens fortes (Euclédio, Goretti, Jimena, Luigi, Silveira etc.) que gravitam em torno de Iberê, recriação de pessoas reais ou da imaginação da escritora, em situações-limite, angustiantes, outras de plenitude. 

O resultado é de uma beleza prodigiosa, pura literatura, forte, original, encantadora, por vezes bem-humorada. “O vermelho ruge, dizia Lhote. Ríamos sempre com esse trocadilho do mestre. O vermelho é uma língua da pimenta beijando o olho, dizia Matisse. Para Matisse toda cor era o corpo da amante, o preto era para ele o maior dos luxos, cheio de todas as cores dentro, cheio de vermelho, mais que tudo. O vermelho.” Aulas de pintura e arte. Quadros fulgurantes flutuam nas páginas de Um homem valente, tal “um Manifesto do romance pós-moderno”, nas palavras de Silviano Santiago nas orelhas da obra. 

O prefácio é da cantora e compositora Adriana Calcanhotto, que conheceu o pintor e, num êxtase ao ver o carnaval na Marquês de Sapucaí, pensou em Iberê Camargo, “na coisa viva, gestual, urgente, da pintura dele”; e o posfácio (“Apêndice: Iberê, independente”), do editor Lucas Colombo, que relatou episódios marcantes da vida do pintor. “Feito outro grande artista brasileiro que contrariou o senso comum, Machado de Assis, Iberê atingiu o ápice na maturidade”, escreveu Colombo. “E isso se deu com uma nova mudança de rumo [na volta de um período na Itália, tinha deixado o figurativismo e passado a adotar o abstracionismo], talvez potencializada por uma tragédia pessoal. Em 1980, no Rio, ele, que então andava armado, matou um homem ao intervir numa briga de rua. Absolvido no julgamento, retornou a Porto Alegre – e à figuração.” E em tons mais sombrios. O livro traz QR codes de quadros dele, a tecnologia a serviço da arte.

O romance de “fricção” de Nilma Lacerda abre a coleção Tipos Raros da editora Mínimo Múltiplo, que promete obras sobre o cineasta Walter Hugo Khouri (1929-2003), o jornalista Daniel Piza (1970-2011) e o romancista Osman Lins (1924-1978), “figuras incomuns no cenário cultural brasileiro: artistas e intelectuais [...] de espíritos livres”. A exemplo de Iberê Camargo e Nilma Lacerda. Hugo Almeida – Brasil

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Iberê Camargo: Um homem valente, de Nilma Lacerda. Porto Alegre: Mínimo Múltiplo, 2022; 192 páginas, R$ 49,50. https://www.minimomultiplo.com/

Livro disponível na Amazon: https://www.amazon.com.br/Iber%C3%AA-Camargo-Um-homem-valente/dp/6599856004

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Hugo Almeida (1952), jornalista e escritor mineiro residente em São Paulo, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor de 16 livros, entre eles o romance Vale das ameixas e o ensaio livre A voz dos sinos, sobre o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, ambos publicados em 2024 pela Sinete. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Percorrendo e sorvendo as delícias do “Vale” das paixões

Vale das ameixas, de Hugo Almeida. Impressionante como o Autor consegue criar uma perturbação (saudável!) em nossas sensações. Justamente quando o inevitável (e doloroso?) toma conta de nós 

Destaco, inicialmente, a originalidade na estrutura do novo romance de Hugo Almeida, Vale das ameixas (Editora Sinete, 2004), composto de 300 capítulos ou fragmentos numerados, alguns mais longos, outros em que figura apenas uma frase. São flashes de um olhar que gira de modo caleidoscópico para flagrar momentos, espaços e situações diversas que não obedecem rigorosamente a uma cronologia, permitindo nosso trânsito livre para acompanhar o jogo móvel entre passado e presente.

Hugo Almeida nos oferece um romance e, de modo algum, se autodefine como um “aprendiz de empinador de prosa”, conforme suas palavras generosas colocadas no autógrafo concedido a mim (em tempo, sou autora de um livro intitulado O empinador de poemas). “Empinador” sim, porque nos eleva, assim como sua escrita, a uma esfera acima do previsível, que nos possibilita rever nossas condições reais em relação ao mundo, a nós mesmos e à escrita ficcional. Mas, aprendiz jamais!! Sua escrita revela, ao contrário, uma maturidade que se manifesta em muitos procedimentos estéticos. 

O grande trunfo dessa escrita é a coexistência da seriedade intelectual com uma leveza de espírito para manifestar o bom humor e reflexões que desarmam a previsibilidade.  Impressionante como o Autor consegue criar uma perturbação (saudável!) em nossas sensações. Justamente quando o inevitável (e doloroso?) toma conta de nós, como o envelhecimento, por exemplo, no fragmento 45. A consciência da passagem do tempo e a percepção do próprio corpo como resistente aos danos físicos acionam afirmações do narrador-protagonista Harley Tymozwski (Timo), polonês naturalizado brasileiro, como: “O corpo que me abriga hoje não é mais o mesmo de poucos – uns sete ou dez – anos atrás. [...] Vejo calhas e ruas envelhecidas pela chuva e pelo tráfego. Não sei como o corpo suporta quase cem anos de tanto movimento, de tantos líquidos. [...] Sei lá quantas piscinas de sangue o coração já bombeou. Quantos quilômetros cúbicos de ar e fumaça circularam pelos pulmões. Noite e dia, anos e anos sem nenhum descanso.” (p. 57)

Na verdade, o que sustenta esse corpo são suas ações generosas voltadas ao meio em que o narrador sobrevive, assim como a prática de uma consciência intelectual que não descansa, ao contrário, coloca em movimento na escrita uma diversidade de referências relacionadas à filosofia, à literatura, à religião, à história política, social, econômica. Isso sem contar o emprego de um vocabulário erudito, em português e línguas estrangeiras, numa saudável convivência com termos e expressões coloquiais, familiares que dão vida aos diálogos cotidianos. A propósito, a moderna estratégia para mostrar os discursos diretos despidos dos sinais convencionais confere vivacidade à narrativa, enfim, exibindo uma performance dinâmica que nos permite visualizar as cenas.

O romance se inicia de maneira original, com o fragmento ou capítulo Zero aberto com a palavra Disgreta, colocando em cena a personagem Benedita, cuidadora da casa e do narrador-protagonista, revelando aos leitores o desejo do ancião, doente e nas últimas, de que após sua morte ela cuidasse dos papéis que lhe entrega, “a senhora não vai ter muito trabalho. Está tudo pronto e pago”, conforme diz.  Interessante essa estratégia narrativa, porque pode nos dá conta não somente da origem do texto que nos oferece a seguir, como também dos laços afetivos entre o narrador e a criada (a ela estaria legando a casa em que viveram durante décadas ou teria deixado os trâmites do funeral resolvidos e pagos), com quem trocou aprendizagens em muitos momentos sobre objetos e atitudes simples, porém profundas em seu sentido humano.

Um dos eixos isotópicos da montagem ficcional de Hugo Almeida é, sem dúvida, a memória, como agenciadora de elementos múltiplos e enriquecedores da percepção perspicaz desse sujeito às voltas e a prestar contas com o passado... autobiográfico? Sim e não, porque a veracidade e intensidade na maneira como o narrador nos leva a penetrar em sua interioridade subjetiva e nos acolhe fazem com que nos tornemos cúmplices de suas experiências pessoais, mas, ao mesmo tempo, sabemos tratar-se de um pacto tramado pelos fios da ficcionalidade, pela qual as relações entre Eu e Outro são sempre mediadas, filtradas pela linguagem. O que lemos é (são) o (s) relato (s) de quem exatamente? Um “eu” em diálogo com outros “eus” que vão mostrando suas identidades de maneira fluida e incompleta, cabendo ao leitor complementar os diálogos por meio de seu imaginário, ou não, deixando que os vazios e cortes no tempo permaneçam assim, sem serem preenchidos. Em alguns momentos, a evocação do outro pelo sujeito narrador fica suspensa, através de perguntas que não são respondidas: “É forte o meu cada dia menor organismo. Sei, bem sei, poucos, muito poucos têm a minha saúde. A quem devo isso, minha mãe?” (p. 57). O fragmento se fecha com a interrogação no ar, como que se dissipando na narrativa, porque não precisa ser respondida, e o fragmento seguinte (46) inicia-se de modo a romper totalmente com alguma expectativa nesse sentido: “O que aconteceu com esse cachorro, que ficou assim careca, perguntou dona Benedita, quando Bóris chegou.” (p.58). 

Ah, as mulheres! São muitas, Laura, Biela, Laís, Léa, Alzira, Amanda, Núbia... o ser feminino é a inesgotável fonte de prazer para o corpo, para a alma e para a própria escrita do personagem narrador. A sensualidade, mais do que a sexualidade, aflora na narrativa como “a encenação de um aparecimento-desaparecimento”, lembro-me de Roland Barthes ao falar sobre o texto de fruição: é a intermitência que se torna erótica, pois o que seduz o leitor é a cintilação e não a exposição total (O prazer do texto, 1987, p. 16).

Não é demais dizer que Vale das ameixas parece resgatar uma fonte literária, o romance de aprendizagem (bildungsroman), gênero ficcional de origem alemã, cuja narrativa focaliza o processo de formação ou trajetória de amadurecimento de um personagem.(1)  No entanto, distante dois séculos do modelo original, o romance de Hugo Almeida alimenta-se de novas configurações, deslocando-o para a contemporaneidade, o que confere um trato singular à escrita ficcional do Autor. O percurso existencial do protagonista vai nos revelando situações que mesclam seriedade ou gravidade com a leveza de um espírito lúdico, ou seja, amargura e gracejo convivem ao longo da focalização das numerosas aprendizagens vividas por Timo. Nesse caso, o jogo intertextual por meio de alusões a escritores é uma arma eficaz para retratar episódios corriqueiros. Por exemplo, o aparecimento da neta de Benedita desorienta o narrador e o leva a evocar versos de Fernando Pessoa, “Se eu me casasse com a Kelly Dayse talvez fosse feliz [...] Não há tabacaria na minha rua. Nem Esteves ou metafísica. Sou gente? Pessoa? Sou um ninguenzinho, um ramo de capim que gosta de sombra e às vezes tem sede. O que há de ser de mim?” (p. 63).

Também nesse contexto destaco as recordações ligadas à sua atuação como professor (fragmentos/capítulos 66, 68 e 69), em que conceitos poéticos e trechos de poesias vão despontando em meio a cenas didáticas nos diálogos entre professor e alunos. Comentários curiosos e descobertas literárias amenizam o caráter sério ou maçante do universo teórico. Entre mestre e discípulos a aprendizagem se traça como uma troca sensível de apelos.

Como elemento essencial ao processo de formação recuperado pelo narrador em suas memórias, a religiosidade merece destaque. Mas claro que sua presença no romance não se dá como forma dogmática ou sistema doutrinário, nem seria possível numa escrita que estilhaça a lógica e imposição de sistemas opressores, instituídos. Por isso, o que figura ao longo da narrativa são reflexões iluminadas por um espírito cristão, revelando sentidos voltados (e votados?) à humanidade, à escuta do Outro, à consideração das diferenças sociais, à humildade, ao respeito para com os desejos individuais, ao Amor. Maiúsculo, porque ele parece adquirir estatuto de personagem, atuando de maneira múltipla nesse romance. 

Primordialmente, o sentimento que envolve as relações amorosas entre o narrador e as mulheres inesquecíveis de sua vida, mas também o amor pelas origens familiares, pela superação de tragédias históricas, pela cultura, pelos lugares estrangeiros visitados, pelas cidades em que residiu e reside, pela paisagem da natureza, pelos animais. Irrompem pelo romance, como verdadeiras epifanias da linguagem, frases extraídas da Bíblia, literais ou modificadas, em meio a comentários do narrador. Contudo, o respeito às fontes, seja teórica ou religiosa, coexiste com o propósito de diluir o peso sagrado ou absoluto da tradição, através do deslocamento do elevado para um plano mais plausível, compreensível e atual. 

Ao se referir à intertextualidade, por exemplo – “Imagino que já tenham ouvido falar em J. K., Julia Kristeva. Muito antes dela, antes de Cristo, já era assim: um texto é sopro ou seiva de outro. O verbo não se fez carne?” (p.131). A seguir exemplifica com o romance machadiano Memórias póstumas de Brás Cubas, cujo final remete a outro texto, de uma carta de Flaubert a Louise Colet, semelhante ao texto de Machado. Acontece que não há desmitificação da fonte e sim o intuito de movê-la para outra temporalidade – aquela em as leituras posteriores vão recriando o saber já consagrado. Como? Por meio de reflexões conceituais, como as que o narrador apresenta, nas perspectivas de João Alexandre Barbosa, Kristeva e Umberto Eco. Ou seja, a ficção se tinge pelas tintas do ensaio crítico.

Entretanto, pode-se dizer que a maturidade da percepção do narrador em sua trajetória (de vida e de escrita) atinge seu ápice em momentos nos quais aflora a consciência de suas imperfeições como ser humano. O tom confessional de certas fraquezas ou travessuras, sobretudo na esfera sexual, aparece sem subterfúgios. Uma delas, logo no início do romance, revela a atração por uma garota moradora na Rua do Cisne, numa casinha à beira de um barranco. Uma mistura de visão real e fantástica toma conta do narrador, mas não o afasta da atração pela menina, “Lulu, ela disse – mais sopro que palavra, Une âme simple”, da qual se arrepende e se questiona, “hoje estou aqui, neste cubículo, tentando recordar se houve o que não houve, o que me trouxe para este quarto escuro, silencioso e frio” (p. 11). Bem mais adiante no romance (fragmento 104) outra revelação: a atração física pela empregada da casa na infância, Valeriana, com quem se deleitava em abraços e afagos em seus seios macios: “Taradinho gostoso, dizia baixinho, e me afogava em seu corpo” (p. 105). No mesmo fragmento outro relato, mas relativo à escola, em uma briga feia com um colega – “Sangrei o nariz do garoto (era judeu? eu o xinguei? não sei, não me recordo)”. Foi tomado de extremo pavor pelas consequências de seu ato, pesadelos o assombravam – o castigo, a vingança dos amigos do garoto, a expulsão do colégio? –, mas nada lhe aconteceu. E mais um momento que confessa para o leitor: “Outra travessura, outro pecado, sussurra no meu ouvido, quer sair, ganhar tintas no caderno.”: o roubo de dinheiro de sua mãe para comprar balas, deixando pelo chão marcas de bosta de cachorro e o mau cheiro a se espalhar pela casa toda: “Rastros do crime. As balas mais amargas que engoli” (p. 105).

Como podemos ver, as paixões, que funcionam como sinônimo de ameixas, o termo presente no título do romance, movem não somente o narrador como também o leitor, ambos tomados pela volúpia com que os fatos se inscrevem na linguagem. Penetramos nesse “vale” (também figura no título), talvez uma metáfora da escavação profunda que fazemos em nós mesmos, à procura... de quê? ou de quem? Não importa, o que conta é a entrega apaixonada com que damos vida a nossas interrogações, ajudados pelas mãos do escritor Hugo Almeida.

Termino com uma passagem primorosa (fragmento 268), em que uma espécie de monólogo interior exemplifica a postura indagadora do narrador: 

Ouço minha mãe, eu osso ouço osso, do osso fazer um colosso, onde estou agora ao seu lado?, ela mais jovem que eu, como saída de uma foto colegial, sabe quem a cada lápide, eles nos ouvem, eu a ouço com meu peito órfão, andamos juntos, leves, dilúvio a ferro e fogo, quem está longe volta, o relógio sou eu [...] (p. 213). Heloísa Dias – Brasil

(1)  Lembremos o famoso romance de Johann Wolfgang von Goethe, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1795), protótipo desse gênero romanesco.

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Vale das ameixas, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 248 páginas, R$ 65,00, 2024. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmal.com Site do autor: https//hugoalmeidaescritor.com.br

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Maria Heloísa Martins Dias é doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), professora aposentada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), autora de O empinador de poemas, As distintas margens da escrita literária, O pacto primordial entre mulher e escrita (sobre a obra ficcional de Teolinda Gersão), Fernando Pessoa: um interlúdio intertextual, (Des)focagens da Literatura e outros livros.