Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Moçambique - Escritor Mia Couto muito contestado no seu país

O escritor Mia Couto causou polémica ao solicitar ao Bastonário dos Advogados equilíbrio na actuação da Ordem dos Advogados no contexto da crise pós-eleitoral em Moçambique. Críticos desconfiam que Mia Couto esteja a “cooperar com um regime extremamente repressivo” em nome dos seus interesses empresariais, ao não mencionar numa carta a violência excessiva das autoridades policiais contra os cidadãos.

Face aos protestos intensos, o mais conhecido escritor moçambicano escreveu uma carta, publicada pelo jornal Carta de Moçambique, na qual parabeniza o Bastonário dos Advogados pela independência face ao poder político e pela defesa da Constituição e do Estado de Direito, na sequência da crise eleitoral que se instalou em Moçambique. Ao mesmo tempo, Mia Couto exige que a Ordem dos Advogados informe sobre “as regras que a lei define”. O escritor escreve: “Solicito que voltem a público para que, com o peso da vossa instituição, contribuam para a normalização da vida do nosso país”.

A reivindicação indignou alguns sectores da sociedade moçambicana que reagiram imediatamente ao teor da referida carta, como é o caso do escritor Jessemusse Cacinda. “A sua voz a nível internacional acaba dando a ideia de estar a transmitir uma voz que representa Moçambique. E, por via disso, é natural que, quando os moçambicanos não se sentirem representados nos seus pronunciamentos, mostrem indignação”, reage Cacinda.

Por sua vez, o jornalista e activista social Zito Ossumane considera “Mia Couto um colonizador disfarçado” por este não ser o primeiro posicionamento do escritor que indigna alguns sectores no país.

Ossumane aponta Mia de ter feito acusações graves aquando da organização de uma marcha em homenagem ao rapper Azagaia, em 2023. Mia Couto teria considerado os organizadores como “marionetes de partidos políticos e influências externas”.

Na sequência destas declarações, Ossumane diz que o escritor de renome internacional “está a tentar condicionar o pensamento dos cidadãos moçambicanos”.

Entretanto, a Constituição que prevê o direito à manifestação também consagra o direito à liberdade de expressão, mesmo que esta não vá de encontro ao sentimento de uma maioria. Por outro lado, um pedido para que não prevaleça o lema “dois pesos e duas medidas” não representa crime ou ofensa.

A Deutsche Welle perguntou: Seria justo condenar o escritor por algo que lhe é legítimo enquanto cidadão? Em resposta à DW, Jessenusse Cacinda relativiza esses direitos, porque, a seu ver, Mia Couto escolheu estar do lado da injustiça.

“A partir de momento em que um escritor fica em silêncio diante de repressão, assassinatos cometidos pela polícia e um regime contra cidadãos, torna-se problemático crer nesse escritor”, afirma.

Para Jessenusse, a carta de Mia Couto “mostra um posicionamento totalmente parcial, em que, por um lado, não condena a repressão, mas por outro condena o facto do Bastonário dos Advogados estar a exigir justiça eleitoral por mover procedimentos para defender cidadãos”. De acordo com Jessenusse, “definitivamente ele está a defender que haja denegação de justiça”.

Motivações financeiras

Numa entrevista recente ao jornal brasileiro “O Globo”, Mia Couto revelou que recebeu “ameaças veladas” e que foi pressionado a apoiar o candidato presidencial Venâncio Mondlane, algo que se recusa a fazer. No entanto, assegura na referida entrevista que não vai ser “censurado pelo medo”.

Porém, os críticos ouvidos pela DW desconfiam da existência de motivações financeiras por detrás dos posicionamentos do escritor moçambicano.

Zito Ossumane diz que Mia Couto é respeitado por representar “parte essencial da cultura” moçambicana. “Mas faz-me lembrar que Mia Couto tem interesses económicos muito assentes que ele tenta defender por conta deste regime”, sustenta. “A saída da FRELIMO não lhe favorece em nenhuma medida, porque tem empresas. Não é só a fundação da sua família, mas são empresas de consultoria para a área ambiental, etc.”, reforça Zito.

A Impacto, empresa de Mia Couto, presta serviços na área ambiental à Anadarko – multinacional do gás que opera no norte de Moçambique -, bem como a outros relevantes projectos económicos para o país. Jessemusse Cacinda recorre à história para mostrar que os escritores estiveram ligados ao poder político desde sempre e deixa claro que actuação persiste até hoje.

“Questões como estas, de certa forma, levantam a suspeita de que a pessoa esteja a cooperar com um regime extremamente repressivo”, elucida Cacinda, que lamenta o facto disto estar a acontecer este ano. “Estamos a assistir ao Mia Couto a fazer pronunciamentos apelando ao diálogo, mas chamando atenção para que os manifestantes não pilhem bens. Entretanto, há vídeos a circularem em que mostram a polícia a pilhar bens. Há jovens de joelhos e a polícia a atirar contra eles. Em nenhum momento no discurso deste escritor que no espaço internacional é visto como a voz de Moçambique, ele se insurge contra isso”, critica Cacinda.

Perante a dimensão da incredibilidade, o jornalista Ossumane lamenta “ver um monstro da literatura moçambicana, africana e lusófona nessa condição”, por lhe causar “problemas de interpretação”. Lembra que Mia Couto defendeu as liberdades no processo de descolonização de Moçambique. “E é-me difícil acreditar que neste momento se esteja a prestar a um papel tão ridículo como este”, afirma Ossumane.

Contactada pela DW, a Ordem dos Advogados de Moçambique disse que se irá pronunciar em breve “sobre este e outros aspectos ligados à situação política do país”.

“Que se procure a verdade nos consensos e no diálogo”. In “Jornal Tribuna de Macau – Macau com Nádia Issufo “Deutsche Welle”


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Moçambique - Jessemusse Cacinda lança em livro viagem nas vivências de Nampula

O jornalista e filósofo Jessemusse Cacinda estreia-se na prosa narrativa com o livro Kwashala Blues, lançado na passada segunda-feira na Galeria do Porto de Maputo, com a apresentação do Prof. Doutor Lourenço do Rosário e da Profa. Doutora Stélia Muianga.


Conforme avança a nota de imprensa sobre a cerimónia de lançamento, Jessemusse Cacinda já era um cultor da crónica que roçava o território ficcional, agora publica o seu primeiro livro, no qual os géneros se misturam e encontram uma outra via da escrita num realismo mágico com fortes inspirações na oralidade e cultura popular. “Kwashala Blues”, editado pela Ethale Publishing, junta a crónica, o conto e o romance num só livro.

A professora e ensaísta brasileira da Universidade Federal da Paraíba, Vanessa Pinheiro, após ter lido, entendeu que “Kwashala Blues revela camadas interpretativas que o leitor descobre aos poucos, embevecido. O leitmotiv é a morte do pai do protagonista, que desencadeia memórias afectivas narradas em curtos relatos. Estes relatos são sintetizados por Cacinda pela metáfora musical do ritmo popular moçambicano kwashala que, assim como a vida mimetizada na trama, tem oscilações e nuances.”

Já a prefaciadora do livro analisa que Kwashala Blues convida o leitor para uma viagem, desde Maputo até a Nampula, por sinal, onde nasce e cresce o autor da obra. E, a partir daí, indica, “se a capital moçambicana acaba sendo um contraponto vibrante de Nampula, essa cidade assume contornos mais definidos à medida em que viajamos pela vida dos seus habitantes, entre Muahivire e Namicopo. As marcas da ocupação colonial no Índico ainda assombram os dias tranquilos de um professor, dos estudantes e, também, a vida do jovem em luto pela morte do pai. Em Iapala, a história familiar entrecruza-se com a do caminho dos sacos de sal e açúcar em trânsito para o Malawi, tanto ouvido nas histórias dos mais velhos.” O prefácio é assinado por Noemi Alfieri, professora da Universidade Bayreuth da Alemanha.

Jessemusse Cacinda nasceu em Nampula, Moçambique. É fundador da editora Ethale Publishing, vocacionada na promoção da literatura e do pensamento africano.

Foi jornalista na Rádio Moçambique, onde venceu o prémio “Qualidade” nas categorias, “Melhor Crónica” (2012) e “Melhor Reportagem Temática” (2013) e Co-Director do Festival Fim do Caminho (Nampula, Moçambique).

Coordenou as antologias “O Hamburguer que matou Jorge” (Ethale Publishing, 2017) e “Nampula: Antologia de his-es-tórias de uma cidade vibrante” (Ethale Publishing, 2022). Participou na antologia “Contos e crónicas para ler em casa II” (Literatas, 2020). Publicou o livro de entrevistas “Pensar Africa” (Ethale Publishing/Literatas, 2021). Participou como autor de capítulos nos livros “Desafios da Comunicação no sec XXI” (Década de Palavras, 2018), “Moçambique Neoliberal” (Ethale Publishing/Editora Educar, 2019), “Do Quarto ao Quinto Homem” (Ethale Publishing, 2021) e “Caderno de Música Moçambicana” (Kuphaya, 2023), e coordenou o livro “Moçambique: Emergência, Reconstrução e Resiliência” (Ethale Publishing/AMEA, 2022). Tem textos publicados nas revistas Índico e Literatas, e na Doeck Literary Magazine. Trabalha como redactor de radionovelas, documentários, reportagens, relatórios e manuais.

Estudou Filosofia, Jornalismo, Sociologia do Desenvolvimento e Gestão de Projectos. In “O País” - Moçambique