O ano de 2026 começou mal na Suíça,
piorou logo depois na Venezuela e continua tenso no Irão. A sequência pode ser
ainda mais terrível - uma invasão da Groenlândia, desta vez sem o pretexto do
narcotráfico.
O ato de pirataria do presidente Trump ao sequestrar, em
Caracas, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, rompe o equilíbrio mundial e
instaura a lei da selva. Foi essa a principal reação da imprensa internacional.
O desrespeito à soberania venezuelana, garantido pelo poderio militar dos EUA,
fragiliza o respeito e o equilíbrio entre os países e instaura o domínio da
força.
Isso não é nenhuma novidade, a maneira como Trump vem
agindo lembra a progressão da Alemanha nazi de Hitler. Não se pode também
esquecer que invasão e ataques já ocorreram e continuam na Ucrânia pela Rússia.
E a prometida invasão da Groenlândia lembra as ameaças da China de se apossar
de Taiwan.
Neste momento, ao se buscar uma visão na qual se consiga
distinguir quem são os melhores e os piores podem surgir algumas dificuldades.
Trump é um imperialista interessado em se apossar de um país e torná-lo um
protetorado para ter acesso ao petróleo, mas Maduro não deixa de ser um
ditador, tanto que o Brasil não reconheceu sua vitória nas eleições. Em todo o
caso, se os donos do mundo são ditadores, que talvez cheguem a um acordo de paz
repartindo entre si países e suas riquezas, a ONU deixará de ter qualquer
utilidade.
O terceiro fator, que tumultuou e tumultua este começo do
ano, é o Irão, vivendo um clima de revolta da população, capaz de derrubar a
ditadura teocrática islâmica e o aiatola Khamenei. E aqui, novamente, a
confusão: é a esquerda quem apoia o ditador islâmico.
Mas vamos retornar ao primeiro tema do ano - a tragédia
do incêndio no subsolo do bar-discoteca Le Constellation, onde tanta
insegurança e negligência nos fariam pensar, se fosse no Brasil, em corrupção.
Talvez nunca tenha havido uma passagem de ano tão
trabalhosa e tão dolorosa para os jornalistas suíços e europeus, na madrugada
do réveillon, no dramático incêndio no bar-discoteca Le Constellation, na
luxuosa estação de esqui de Crans Montana.
As chamas e a fumaça, ainda na primeira hora e meia de
2026, acabaram com os festejos e a alegria próprios da passagem do ano. Os
socorros foram rápidos, mas não puderam evitar 40 mortes e 119 pessoas
gravemente queimadas, a maioria jovens e, entre os mortos, a metade era de
menores.
Coube também aos jornalistas de diversas nacionalidades
denunciarem a responsabilidade das autoridades locais, de funcionários
encarregados do contrôle das instalações de casas de diversão e do casal
proprietário pelas irregularidades existentes no Le Constellation, causadoras
do incêndio e pelas dificuldades para sair rapidamente do local.
Ninguém poderia ter imaginado ser possível tal tragédia
na Suíça, onde existe uma real e constante preocupação com a segurança da
população. Muito menos numa estação de esqui e num bar-discoteca de luxo.
Entretanto, as negligências cometidas em matéria de
segurança levantam suspeitas de que a falta de controles ou de controles
malfeitos teriam sido voluntários. As investigações necessárias deverão mostrar
porque o estabelecimento funcionava sem as garantias normalmente exigidas. Numa
entrevista à televisão lo suíça, o embaixador italiano Gian Lorenzo Cornado
denunciou não haver sequer extintor ou mangueira de incêndio, nem saída de
emergência utilizável no bar Le Constellation. O incêndio começou com velas de
faíscas nas garrafas de champagne, cujas chamas chegaram ao teto protegido com
material inflamável amortecedor de som.
Nem numa boate de periferia no Brasil
existe uma tal insegurança e irresponsabilidade. A saída de emergência estava
fechada para evitar que frequentadores do bar saíssem sem pagar. Rui
Martins – Suíça
_______
Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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