Foi há precisamente 400 anos que Macau conseguiu derrotar a Holanda, uma superpotência mundial em ascensão, arruinando o sonho holandês de ter acesso ao mercado do interior da China. O 24 de Junho de 1622 foi um feito de Macau e que merece ser celebrado por toda a comunidade de Macau, defende José Luís Sales Marques
Foi
a 24 de Junho de 1622 que Macau conseguiu evitar uma invasão da Holanda. O dia
em que uma pequena potência comercial derrotou as forças de uma superpotência
mundial aconteceu há precisamente 400 anos. A história e o contexto histórico
foram recordados ao Ponto Final por José Luís Sales Marques, presidente do
Instituto de Estudos Europeus de Macau.
Salientando
que não é historiador, apenas um interessado pela história de Macau, Sales
Marques lembra que, no início do século XVII, Macau era uma pequena potência
comercial, com um papel relevante no comércio que se desenvolvia nesta região
do globo. “Macau era um ponto central, uma cidade portuária muito importante
nas redes de comércio asiático e não só, porque a partir daqui as rotas e
mercadorias e especiarias chegavam à Europa e outras partes do mundo”, diz,
ressalvando que, pelo contrário, as capacidades de defesa da cidade eram
relativamente fracas, havendo apenas um pequeno troço edificado da Fortaleza do
Monte.
A
Holanda, pelo contrário, começou a escalar o ranking das potências mundiais depois
de se ter rebelado contra Espanha. Os espanhóis começaram a cortar o acesso às
redes de especiarias que chegavam à Holanda e, em resposta, a República dos
Países Baixos foi à procura dessas fontes. Os holandeses fizeram-se ao mar
interessados nos produtos e riquezas do Oriente, mas desinteressados em
estabelecer territórios ou criar colónias. Pelo caminho, saquearam navios
espanhóis e portugueses até que encontraram Macau.
Macau
era vista como um ponto de acesso ao mercado do interior da China e, por isso,
passou a ser uma prioridade para os holandeses. A Holanda concentrou todos os
esforços na tomada de Macau e começaram a tentar entrar no território nos
primeiros anos do século XVII, em 1601, 1603, 1604 e 1607 – sempre sem sucesso.
Em
1622 fizeram então uma tentativa real de invasão, mas fracassaram. “Talvez
tenha havido uma sobreavaliação das suas próprias forças e uma certa
sobranceria relativamente àquilo que seriam as capacidades de defesa de Macau”,
nota Sales Marques.
Na
altura vivia-se um período de transição na China da Dinastia Ming para a
Dinastia Qing e, por isso, uma parte das forças de Macau estava no continente
ao serviço da Dinastia Ming. “Havia uma força relativamente pequena de europeus
e de locais. Havia poucas centenas de escravos e locais. Havia uma diferença de
força e de poder de fogo impossível de comparar”, comenta o antigo presidente
do Leal Senado.
A
sobranceria terá sido tal que os holandeses rejeitaram o apoio de Inglaterra,
com quem tinham uma aliança. Havia dois barcos ingleses acostados ao largo de
Macau cujo auxílio foi dispensado por parte das forças holandesas. “Não queriam
dividir o espólio do saque”, justifica Sales Marques.
“Havia
uma desproporção enorme de forças e apesar de tudo foram derrotados”, assinala,
frisando que “esta foi a maior derrota dos holandeses no extremo oriente”. A
derrota na batalha de Macau, contra todas as expectativas, teve o condão de
lhes tirar a possibilidade de entrarem no continente chinês.
O
sonho holandês de aceder ao mercado da China esbarrou em Macau. “Eles conseguiram depois instalarem-se na
Ilha Formosa, durante uns tempos, mas nunca conseguiram pôr os pés em Macau,
mesmo neste período de grande ascensão da Holanda como primeira potência
mundial”, frisa.
O 24 de junho, 400 anos depois
Este
foi, na opinião de José Luís Sales Marques, não apenas um feito dos
portugueses, mas sim um “feito de Macau”. Estará a comunidade chinesa alheada
deste feito? “Nós se calhar nunca nos preocupámos em explicar isso
devidamente”, diz Sales Marques, acrescentando que “as celebrações estiveram
sempre ligadas a uma presença institucional portuguesa”.
Questionado
sobre se as autoridades de Macau deveriam recordar com mais interesse a data, o
presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau diz não saber o que é que
as autoridades pensam. “Ou se calhar nem pensam porque para eles pode ser já
uma coisa do passado”, diz. No entanto, nota que tem havido um interesse
acrescido da parte de associações chinesas que se têm associado às celebrações
do 400.º aniversário da data: “Eles realmente estão a procurar divulgar a
verdadeira história e aquilo que se passou despido de preconceitos”.
O
Arraial de São João, que habitualmente serve também para comemorar o 24 de
Junho, não se realiza há três anos consecutivos. “O Arraial de São João começou
a ser uma coisa popular e uma parte da população chinesa frequentava com todo o
gosto. Este era um dia que era para ser celebrado pela cidade, por todas as
comunidades de Macau”, lembra.
Este
ano, as comemorações deste marco histórico também foram canceladas devido ao
surto de Covid-19 em Macau. Poderá a data vir a esquecer-se no seio da
comunidade? “Espero que não”, responde Sales Marques, concluindo: “Espero que,
com a adesão dos jovens chineses que estão ligados a associações que querem
conhecer melhor a história de Macau, se compreenda melhor as características e
importância dessa data”. André Vinagre – Macau in “Ponto
Final”
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