Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 14 de maio de 2024

C. R. Boxer, um historiador como poucos

Obra de Kenneth Maxwell reconstitui a saga do estudioso inglês que desvendou  a vida colonial no Brasil e foi acusado de traidor em seu país

                                                                      

                                                         I

O livro Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world (Kenneth Maxwell sobre tendências globais: um historiador do século 18 olha para o mundo contemporâneo), publicado em 2023, em  Londres, por Robbin Laird, editor (Second Line of Defense), acaba de ganhar edição em capa dura (hardcover) acrescida de prefácio deste articulista, de um artigo de dezembro de 2023 (“The new historical era seen from space: the case of the Middle East”) e de mais dois instigantes ensaios de 2001 (“Trap and blank check: a cautionary note about Bush and Afghanistan” e “The C. R. Boxer affair: heroes, traitors, and the Manchester Guardian”.

Dentro do limitado espaço que oferece uma resenha e por sua inegável importância para os estudos da História do Brasil, vai-se destacar aqui apenas o ensaio dedicado ao historiador britânico Charles Ralph Boxer (1904-2000), grande conhecedor da história colonial de Portugal e Holanda. Em linhas gerais, o que se pode adiantar é que Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst, tendo sido tenente no regimento do Lincolnshire de 1923 a 1947.

Serviu na Irlanda do Norte e, de 1930 a 1933, foi tradutor no Japão alocado ao Regimento de Infantaria nº 38 com base em Nara. Em 1933, formou-se como intérprete oficial da língua japonesa. Removido em 1936 para Hong Kong, que à época era colônia britânica, serviu como oficial nas tropas britânicas na China, em serviços de inteligência. Ferido em ação durante o ataque japonês a Hong Kong, em 8 de dezembro de 1941, foi levado pelos japoneses como prisioneiro de guerra e mantido em cativeiro até 1945, tendo sido torturado.

Mesmo assim, quando libertado, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), retornou ao Japão como membro da Comissão Britânica no Extremo Oriente em 1946-1947. Durante sua carreira militar, publicou mais de 80 livros e opúsculos sobre a história do Oriente, sobretudo dos séculos XVI e XVII. Como major do Exército, aposentou-se em 1947, quando o King's College, de Londres, ofereceu-lhe a cadeira Camões de Português, cargo em que permaneceu até 1967. Nesse período, a Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres o nomeou seu primeiro professor de História do Extremo Oriente, tendo servido no cargo de 1951 a 1953.           

Ao se aposentar em 1967 da Universidade de Londres, aceitou o posto de professor visitante na Universidade de Indiana, onde serviu ainda como conselheiro na Lilly Library. De 1969 a 1972, foi responsável pela cadeira de História da Expansão Europeia no Ultramar na Universidade de Yale. Era um poliglota, pois, além do inglês, falava com fluência os idiomas japonês, chinês, português, espanhol e holandês.

 

                                                         II

Definido por Américo Jacobina Lacombe (1909-1993) como “o maior representante da cultura inglesa interessada pelo mundo de língua portuguesa”, Boxer é autor do notável Salvador de e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686 (São Paulo, Companhia Editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo-Edusp, 1973, tradução de Olivério de Oliveira Pinto), publicado em 1952 em Londres. Essa obra, como anteviu Lacombe, tem servido como modelo de construção para muitos historiadores brasileiros, “pelo método, pela exatidão e pela arte que lhe dá um tom de leitura palpitante”.

É de se lembrar que Salvador Correia de Sá e Benevides (1602-1686) foi um militar do império ultramarino português que, durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a serviço do reino de Portugal, destacou-se no comando da frota que, em 1647, reconquistou Angola e São Tomé e Príncipe, terminando a ocupação holandesa. Foi por três vezes governador da capitania do Rio de Janeiro.

Além dessa, há pelo menos mais duas obras de sua autoria fundamentais para a compreensão da construção do Brasil: Os holandeses no Brasil, 1624-1654 (Companhia Editora Nacional, 1961)  e A idade de ouro do Brasilas dores do crescimento de uma sociedade colonial  (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1963).

O que poucos sabem é da vida desdita que Boxer levou e que Maxwell levanta em seu instigante ensaio, começando por chamá-lo de herói, no seu melhor sentido, definição que passa longe das celebridades do esporte e do cinema ou da TV. E que, segundo o historiador, teria sido vítima de “antigos ressentimentos, fofocas e ciúmes de um mundo pós-colonial que agora trabalha para violar a reputação de um indivíduo verdadeiramente complexo e notável”.

Faz Maxwell essa observação a propósto de um artigo assinado pelo professor Hywel Williams (1953), membro do Parlamento britânico, e publicado a 24 de fevereiro de 2001 no jornal The Guardian, de Londres, em que o articulista reconhece Boxer como “um bom soldado e brilhante historiador”, que, no entanto, “pode ter sido um traidor que entregou seus antigos companheiros num campo de prisioneiros administrado por japoneses em Hong Kong, de uma forma que minou todo o sistema de inteligência britânico no Sudeste Asiático”. 

Para Williams, Boxer teria pertencido a uma geração de intelectuais britânicos que “haviam abraçado o comunismo marxista de modelo soviético”. E por isso teria sido “um exemplo espetacular de tentação em tempo de guerra”. Enfim, um intelectual que, por sua formação marxista, teria funcionado como espião contra os interesses ocidentais.

No mesmo The Guardian, tradicional jornal fundado em 1821 e considerado a mais forte voz liberal  da Grã-Bretanha, observa Maxwell, deu-se em 10 de março de 2001 a publicação de um artigo em que o historiador  norte-americano Dauril Alden (1926) refutava as insinuações e acusações de Williams, observando que, longe de ser o responsável pelo prolongamento da Segunda Guerra, Boxer foi quem disse que não poderia haver erro maior do que considerar que os militares japoneses não estavam profundamente enraizados na China. “Foram o Ministério da Guerra e o Ministério das Relações Exteriores britânicos que ignoraram e subestimaram o risco”, garantiu.

Coincidentemente, Alden acabara de escrever uma biografia de Boxer que logo seria publicada pela Fundação Oriente, em Lisboa, com o título Charles R. BoxerUma vida incomum, soldado, historiador, professor, colecionador, viajante. Segundo Maxwell, o professor Alden é um “meticuloso estudioso da velha escola para a qual uma documentação sólida é o núcleo dos estudos históricos”.

Levando isso em conta, o jornal, segundo Maxwell, teria até removido o artigo de Williams de seu site, tornando-o inacessível, uma forma de reconhecer que não deveria ter publicado aquele texto com difamações e acusações infundadas ou sem comprovação documental contra a honra “do mais honrado dos homens”, um estudioso que, para gerações de historiadores de países de língua portuguesa, era considerado “um verdadeiro colosso”.

 

                                                        III

De fato, como lembra Maxwell, Boxer escreveu, em mais de 350 publicações, textos da mais alta erudição sobre as guerras navais no Golfo Pérsico no século XVI, as tribulações das rotas marítimas entre Europa e Ásia, traçou um brilhante panorama do Brasil à época das descobertas do ouro e da expansão das fronteiras no século XVII, “magnífica síntese da história colonial de Portugal e Holanda, bem como estudos comparativos sobre instituições municipais e sobre raça e relações sociais na Ásia, África e América do Sul”. Para o historiador, o trabalho de Boxer sobre a vida e obra de Salvador Correia de Sá e Benevides é um de seus melhores livros, pois conta “o papel decisivo que ele teve na titânica luta entre os poderes ibéricos e os holandeses pela hegemonia no Atlântico Sul no século XVII”.

Maxwell lembra ainda que, quando das guerras coloniais de Portugal na África, Boxer contestou a propaganda “luso-tropicalista” difundida pela ditadura de António de Oliveira Salazar (1889-1970), com base nas ideias do pensador brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987), para quem “o colonizador português não tinha preconceitos raciais”. Por isso, Boxer foi também sistematicamente difamado pelo regime salazarista.

 

                                                        IV

Da vida privada de Boxer, Maxwell lembra que ele teve em Hong Kong, em 1940, um affair com a jornalista norte-americana Emily Hahn (1905-1997) que se tornou um dos romances mais conhecidos do século XX. A essa época, porém, Boxer já era casado, desde 1939, com Ursula Tulloch (1910-1996). Divorciaram-se em 1947. Emily Hahn foi por 70 anos uma das mais produtivas colaboradoras do jornal The NewYorker e publicou 52 livros e centenas de artigos, reportagens e poemas. Seu affair com Boxer está contado em seu livro China to me: a partial autobiography (1944).  

Segundo Williams, o casal teria “colaborado” com os japoneses, o que para Maxwell “não passaria de um esforço de imaginação”. Para Williams, Emily Hahn teria sido “uma feminista e simpatizante do comunismo”, o que reforçaria a acusação de que Boxer poderia ter atuado como agente duplo soviético dentro do governo britânico. Com Emily Hahn, o historiador teve um casamento duradouro e duas filhas.

Maxwell lembra que Boxer sempre se recusou a escrever a sua autobiografia, apesar dos obstáculos e lances curiosos que teve de superar em sua existência, especialmentre como prisioneiro de guerra. Recusou também várias homenagens e condecorações, embora nunca tenha deixado de atender a convites para conferências. Em 1989, a convite de Maxwell, concedeu entrevista aos alunos do Camões Center na Universidade de Colúmbia, quando afirmou que amava o Japão, apesar da vida perigosa que levara e dos percalços que tivera de enfrentar com os japoneses em Hong Kong: “Quando você é jovem, tem dinheiro e busca a luxúria como uma águia, você sempre o faz”, acrescentou.

Para Maxwell, Boxer, que enfrentou três anos de cativeiro, tortura e solidão, não foi traidor nem herói, mas uma “pessoa com uma integridade feita de granito”. E que poderia ser definido com uma palavra: stickler, termo que pode ser entendido como aplicável a “uma pessoa tenaz e persistente, que sempre esteve em busca da verdade”. E que Boxer atribui a Salvador de Sá na abertura de seu livro sobre o navegador, a quem chama de “um velho e notável stickler”.

 

                                                         V


Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos, da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho de Relações Exteriores, em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Colúmbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa na Universidade de Colúmbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da revista New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S.Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

É autor do clássico A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1977), lançado em 1973 na Inglaterra com o título Conflicts and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750-1808 (Cambridge University Press), seu primeiro livro. Publicou também Marquês de Pombal - Paradoxo do Iluminismo (1996), A Construção da Democracia em Portugal (1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Editora Paz e Terra, 1999) e Mais malandros e outros - ensaios tropicais (Editora Paz e Terra, 2005), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world, de Kenneth Maxwell, edição em inglês (hardcover), com prefácio (foreword) de Adelto Gonçalves. Londres: Robbin Laird, editor/Second Line of Defense, 443 páginas, US$ 24,95 (Amazon), 2023. E-mail do autor: krobertmaxwell@gmail.com 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos-SP, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Suíça – Une-se a seis países para produzir eletricidade sem CO2

O Ministro da Energia da Suíça, Albert Rösti, e seus colegas de seis países da União Europeia comprometeram-se a obter toda a sua eletricidade de fontes livres de carbono até 2035


A produção de eletricidade na Suíça já é quase isenta de CO2. Apenas 2% da eletricidade produzida na Suíça no ano passado foi proveniente de combustíveis fósseis. O facto de que a Alemanha, a França, a Áustria, a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo agora também querem mudar para a geração de eletricidade livre de CO2 até 2035 trará vantagens para a Suíça, disse o Ministro da Energia Albert Rösti.

Uma proporção significativa da eletricidade consumida na Suíça vem do exterior. "A eliminação gradual dos combustíveis fósseis só faz diferença se a eletricidade importada também for livre de combustíveis fósseis", disse Rösti. "Nesse aspecto, é importante para a Suíça."

Em médio prazo, a meta de produção de eletricidade livre de CO2 até 2035 nos sete países significará que mais eletricidade virá de centrais nucleares novamente. "Novas centrais nucleares estão sendo planeadas em muitos países", disse Rösti. Essa é uma forma importante de energia para a descarbonização, acrescentou.

A Suíça decidiu eliminar gradualmente a energia nuclear e isso precisa de ser respeitado por enquanto, disse Rösti. Mas o acordo de Bruxelas significa que a energia nuclear continuará sendo importante para a Suíça por um longo tempo.

"Presumimos que as centrais nucleares existentes funcionarão por mais tempo do que os 50 anos planeados. Agora estamos assumindo pelo menos 60 anos", disse ele. Não será possível atingir a meta de eletricidade livre de emissões de carbono sem centrais nucleares. "Não conseguiremos adicionar energias renováveis com rapidez suficiente. Isso leva tempo."

O acordo conjunto tem outro ponto positivo para o Ministro da Energia. Os sete estados comprometem-se a planear redes de energia em conjunto e apoiar uns aos outros no armazenamento de eletricidade. A Suíça pode contar com os seus países vizinhos - mesmo que não se chegue a um acordo sobre eletricidade com a União Europeia.

"A disposição de trabalhar com a Suíça é um dado adquirido", disse Rösti. Após a reunião em Bruxelas, ele está convencido de que a Suíça continuará sendo importante como um centro de eletricidade e com as suas grandes capacidades de armazenamento para os outros seis países. In “Swissinfo” - Suíça


quarta-feira, 21 de junho de 2023

Macau - Instituto Internacional de Macau assinala o 24 de Junho com palestra que pretende ser mais inclusiva da comunidade chinesa e gerações mais jovens

Foi a 24 de Junho de 1622 que forças militares e civis conseguiram impedir que os holandeses ocupassem Macau, data que é celebrada no território anualmente como o Dia da Cidade. O Instituto Internacional de Macau (IIM) assinala a data com uma palestra que junta Agnes Lam, André Ritchie, mas também Sit Kai Sin, director do Museu Marítimo de Macau, e Matias Lao Hon Pong, presidente da Associação dos Embaixadores do Património de Macau, numa mesa-redonda onde se pretende ajudar a comunidade chinesa e gerações mais novas a compreender melhor o acontecimento histórico


Este sábado, 24 de Junho, Dia da Cidade de Macau, o Instituto Internacional de Macau (IIM) está a organizar uma palestra em torno do “significado do dia”, e do acontecimento histórico de 1622, em que Macau conseguiu repelir as invasões holandesas. A partir das 14h30, o auditório do IIM vai contar com a presença de Agnes Lam, directora do Centro de Estudos da Universidade de Macau, Sit Kai Sin, director do Museu Marítimo de Macau, Matias Lao Hon Pong, presidente da Associação dos Embaixadores do Património de Macau e ainda de André Ritchie, director de Halftone – Macao Photographic Association.  Este partilhou com o Ponto Final a sua visão sobre a importância da ocasião: “Para um cidadão de Macau, nós não podemos ignorar esse acontecimento histórico, porque teria repercussões completamente diferentes no nosso presente”.

Já António Monteiro, moderador da palestra, e Presidente da Comissão Organizadora da Associação dos Jovens Macaenses, esclareceu que “a intenção é de não deixar que a data do 24 de Junho seja esquecida”, já que esta “sempre foi valorizada como parte da identidade histórica e cultural de Macau”. Enquadrando o contexto histórico da data, António Monteiro mencionou que “para além de ter sido um acontecimento histórico que envolveu portugueses e chineses”, actualmente “a investigação vai mais longe, e diz que os escravos estiveram envolvidos na batalha contra os holandeses, ajudando a expulsá-los na altura”. Destacando que este dia é também o Dia de São João Baptista, que se “tornou o santo padroeiro de Macau”, o responsável indicou que o dia da Cidade foi celebrado anualmente até 1999, e “em 2007, com a vontade de muitas associações principalmente de matriz portuguesa, foi retomado o arraial de São João na Calçada de São Lázaro, e também na escola portuguesa”.

Apesar de acolher portugueses e macaenses, a palestra é dirigida principalmente à comunidade chinesa, e também à geração mais nova, que pode obter mais conhecimentos sobre a importância deste acontecimento. “Há a toponímia de Macau, com monumentos como o da Vitória, e é importante as pessoas compreenderem o contexto histórico”, vincou o organizador.

Na palestra, serão projectados logo no início “dois vídeos para explicar melhor o significado do dia 24 de Junho”. Alguns palestrantes também terão uma apresentação de powerpoints, “mas de uma forma mais relaxada, e não tão académica, porque no fundo a ideia é de interagir com o público presente para eles poderem trocar impressões”, assegurou António Monteiro, acrescentando que “um dos vídeos é da autoria de José Bastos da Silva”, e o outro, do instituto, “contém testemunhos do presidente do IIM, o Dr. Jorge Rangel, e de três pessoas ligadas a diáspora macaense”.

Será, portanto, em português e cantonense que se dará a conhecer a componente histórica do acontecimento que deu vitória a Macau, numa batalha em 1622, mas também haverá perspectivas inconvencionais.

O futuro que poderia não ter acontecido

A ideia de André Ritchie é justamente de ir “por uma via um pouco diferente”. Pegando na frase do historiador militar americano Robert Cowley, que diz que “nós somos o produto de um futuro que poderia não ter existido”, André Ritchie indaga sobre esses cenários hipotéticos. “O que seria de Macau se os holandeses tivessem conquistado Macau? Será que haveria RAEM, será que haveria Lei Básica?”, questiona.

Garantido que a intenção é de “abordar o tema de uma forma relaxada”, e sem conotações políticas, a sua intervenção pretende também dar uma perspectiva diferente a um acontecimento que “independentemente do interesse que se possa ter pela história ou presença portuguesa”,  na sua opinião “este acontecimento não pode ser ignorado porque  se os holandeses tivessem conseguido conquistar Macau tal como conseguiram conquistar Malaca, o Macau de hoje seria uma coisa completamente diferente,  e só pensar nisso é engraçado”, refere.

Quando questionado sobre o peso do colonialismo e uma possível carga pesada que a data possa ter para quem não está ligado à comunidade portuguesa, o director da associação Halftone relembra que é preciso ver “o enquadramento geopolítico daqueles tempos”. O facto de o dia 24 de Junho ser mais associado aos portugueses, e ser menos conhecido da comunidade chinesa, é a seu ver algo que acontece não por falta de vontade da comunidade portuguesa de incluir a população chinesa, mas mais por coincidência com a festividade dos arraiais. “Nós portugueses tivemos sempre uma narrativa de este ser um dia da cidade. A forma como nós contamos a história, é a de que a população se juntou e defendemos a cidade independentemente das cores e etnias”, numa perspectiva “de uma forma algo romântica”, brinca. “O certo é que este dia, por ser depois associado ao São João, um santo popular, e aos arraiais,” fez com que a data passasse “a ser uma coisa muito portuguesa, e a população chinesa talvez por causa disso tenha tido alguma dificuldade em fazer parte”, confessa.

É justamente para criar novos espaços de diálogo e interactividade entre chineses, portugueses e macaenses que o IIM tem organizado palestras e eventos como este, referiu também António Monteiro, que recordou que este ano, “em forma de colaboração”, há um encontro de motas promovido pela Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Circuito da Guia de Macau, e uma missa de acção de graças na igreja de São Domingos. “Tivemos o cuidado de, caso o arraial na zona de São Lázaro não acontecesse, de dar a opção a quem quisesse de fazer algo relacionado com a data”, e foi nesse sentido que o arraial de São João Baptista este ano se associou aos restaurantes Mariazinha e Tromba Rija, “que fizeram um menu especial de comida portuguesa nos seus restaurantes em torno da festa”, esclareceu ainda o responsável.

Para António Monteiro, “é importante não deixar de organizar o arraial” e garantir a iniciativa, mesmo que não seja em São Lázaro: “o importante aqui é que todos se juntam numa festa, e é sempre mais dignificante, juntar a comunidade portuguesa, chinesa e a macaense numa festa, até porque essa festa não é uma festa só portuguesa, é uma festa que faz parte de Macau. Faz todo o sentido continuar”. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 7 de julho de 2022

Macau - Revisitar o trilho percorrido pelos invasores holandeses há 400 anos

Um documentário narrado pela historiadora Beatriz Basto da Silva e produzido por José Basto da Silva encontra-se já disponível ‘online’ no sentido de comemorar o aniversário dos 400 anos da vitória de Macau sobre os holandeses. Tendo identificado o mais fielmente possível qual o trilho que os invasores holandeses percorreram, tornou-se possível reconstruir as memórias e revisitar a verdadeira história. O projecto pretende, através de uma apresentação audiovisual, lembrar à comunidade local e às novas gerações a relevância desta efeméride histórica


Este ano marca o quadricentenário de Macau ter conseguido derrotar a Holanda e conquistar uma vitória milagrosa. Para assinalar este dia de grande valor histórico, um pequeno documentário intitulado ‘Interpelando a História: O ataque holandês a Macau há 400 anos’, narrado pela historiadora e investigadora Beatriz Basto da Silva e produzido pelo seu filho, José Basto da Silva, deveria ter sido apresentado a 23 de Junho no âmbito do evento ‘Serões com Histórias’, organizado pela Fundação Rui Cunha e pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco (AAAEC). No entanto, o lançamento da curta-metragem sofreu uma baixa de última hora devido ao surgimento da nova ronda de crise de saúde pública no território.

O realizador da obra, José Basto da Silva, revelou ao Ponto Final que teve a intenção de criar um documentário “diferente do que tem sido feito até agora”, que “é muito baseado em fotografias ou desenhos, pouco visual e, sobretudo, sem uma compreensão física, sensorial, do que os intervenientes, na altura, terão vivenciado,” referiu o actual presidente da AAAEC. “Para já não conseguimos viajar no tempo, não é possível mostrar o que se passou de facto, mas tentei simular os acontecimentos e mostrar, em filme, o melhor possível, embora com todas as limitações,” acrescentou.

Recorrendo à produção de um documentário de 11 minutos, o realizador macaense tentou abrir a possibilidade de reconstruir as memórias e revisitar a verdadeira história da batalha de Macau de Junho de 1622. “Procurei identificar o mais fielmente possível qual o trilho que percorreram, o que terão visto e sentido, as circunstâncias em que tudo se desenrolou, de modo a perceber melhor a situação,” referiu.

Na semana anterior à data da efeméride, Basto da Silva fez algumas das filmagens e seguiu o percurso a pé durante duas horas, sob um intenso calor. Para o realizador, este trabalho preparatório é considerado significativo já que “só assim se percebem as distâncias, o porquê do caminho percorrido, ou a razão que levou os holandeses a irem à fonte da Flora”, mesmo sabendo que o pano da fortaleza do Monte não estava muito longe, mas a uma distância “ameaçadora”.

Porém, mesmo os melhores planos nem sempre funcionam conforme pretendido. O evento “Serões com Histórias” que estava programado para o dia 23 de Junho, data do primeiro ataque há quatro séculos, acabou por ser cancelado num momento derradeiro.

Segundo afirmou o coorganizador, a sessão tinha três momentos planeados: O Antes; O Durante; e O Depois. O documentário era suposto ser apresentado na parte do “Durante”. Infelizmente, Macau foi atingida de surpresa com um surto da Covid-19 menos de uma semana antes da ocasião, e a Fundação Rui Cunha viu-se obrigada a adiar a sessão.

Com o passar de quase duas semanas, a situação epidemiológica em Macau não parece recuperar, e Basto da Silva decidiu lançar nas redes sociais esta obra audiovisual. “Não prevíamos que isto durasse tanto tempo e, receando que o documentário perdesse o ‘momentum’, decidimos lançar agora. Avançaremos mais tarde, assim que estiverem reunidas as condições. Nessa altura, o vídeo será passado, acompanhado de comentários da minha mãe, e meus também”, lamentou o filho da investigadora da História de Macau.

Macau teria tido uma história muito diferente

No que diz respeito ao ataque dos holandeses a Macau no ano de 1622, Basto da Silva considera que foi “um erro crasso” e “uma vergonha indelével” para os holandeses “gananciosos” e “imprudentes” que, em quase todas as outras investidas nesta região geográfica, tiveram sucesso. “Os holandeses fizeram muito mal aos portugueses e a outros povos nesta região. Tanto quanto sei, não deixaram saudades em nenhuma das ex-colónias, ao contrário dos portugueses. Veja-se, por exemplo, o caso de Malaca”, comentou.

Apesar de tudo, o presidente da AAAEC ressalvou a importância histórica desta batalha para Macau na medida em que os chineses passaram a olhar para os portugueses como aliados, com maior confiança e proximidade. A própria China foi beneficiada com a amizade que se forjou, por exemplo, tirando proveito do poder bélico português em confronto com os Tártaros.

A nossa história define quem somos. “Creio que se a Holanda tivesse sido bem-sucedida, Macau colonial teria tido uma história muito diferente e não se teria desenvolvido uma comunidade e cultura híbrida tão rica como a macaense. Seria, porventura, uma cidade protestante com alguns monumentos históricos em ruínas, e pouco mais”, comentou Basto da Silva, dizendo acreditar mesmo que a própria China seria outra se a invasão dos “corsários” tivesse tido outro desfecho, tendo em conta “os holandeses, ao contrário dos portugueses, conquistavam por via da força, não do comércio nem da diplomacia”.

Importância ainda válida

Ao ser questionado sobre a relevância de assinalar o dia 24 de Julho nos dias de hoje, Basto da Silva argumentou que: “Faz todo o sentido celebrar a efeméride, não só para portugueses ou macaenses, mas eu diria também para os chineses, pela singularidade que esta terra é, não só na China, mas em todo o mundo”, defendendo que esta data não só simboliza o aniversário da cidade, o Dia de São João (padroeiro de Macau), mas também a amizade e coexistência secular entre dois povos.

Na observação do macaense, as novas gerações, entretanto, tendem a desvalorizar esta data especial onde os macaenses sentem e celebram as suas raízes, fruto de vários factores, nomeadamente porque deixou de ser feriado após a transferência de soberania de Macau de Portugal para a República Popular da China. “É de apontar que, infelizmente, o Governo local não tem dado a devida relevância que, na minha opinião, esta data merecia”, criticou.

Basto da Silva frisou que é importante continuar a comemorar este momento da história, não só como uma festa gastronómica ou religiosa, mas também para lembrar à comunidade chinesa e às novas gerações em Macau e lá fora. “Não nos podemos esquecer dos jovens macaenses espalhados pela diáspora e fornecer-lhes bases históricas consistentes”, salientou. Dinis Chan – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 24 de junho de 2022

O dia em que Macau derrotou uma superpotência mundial foi há 400 anos

Foi há precisamente 400 anos que Macau conseguiu derrotar a Holanda, uma superpotência mundial em ascensão, arruinando o sonho holandês de ter acesso ao mercado do interior da China. O 24 de Junho de 1622 foi um feito de Macau e que merece ser celebrado por toda a comunidade de Macau, defende José Luís Sales Marques


Foi a 24 de Junho de 1622 que Macau conseguiu evitar uma invasão da Holanda. O dia em que uma pequena potência comercial derrotou as forças de uma superpotência mundial aconteceu há precisamente 400 anos. A história e o contexto histórico foram recordados ao Ponto Final por José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.

Salientando que não é historiador, apenas um interessado pela história de Macau, Sales Marques lembra que, no início do século XVII, Macau era uma pequena potência comercial, com um papel relevante no comércio que se desenvolvia nesta região do globo. “Macau era um ponto central, uma cidade portuária muito importante nas redes de comércio asiático e não só, porque a partir daqui as rotas e mercadorias e especiarias chegavam à Europa e outras partes do mundo”, diz, ressalvando que, pelo contrário, as capacidades de defesa da cidade eram relativamente fracas, havendo apenas um pequeno troço edificado da Fortaleza do Monte.

A Holanda, pelo contrário, começou a escalar o ranking das potências mundiais depois de se ter rebelado contra Espanha. Os espanhóis começaram a cortar o acesso às redes de especiarias que chegavam à Holanda e, em resposta, a República dos Países Baixos foi à procura dessas fontes. Os holandeses fizeram-se ao mar interessados nos produtos e riquezas do Oriente, mas desinteressados em estabelecer territórios ou criar colónias. Pelo caminho, saquearam navios espanhóis e portugueses até que encontraram Macau.

Macau era vista como um ponto de acesso ao mercado do interior da China e, por isso, passou a ser uma prioridade para os holandeses. A Holanda concentrou todos os esforços na tomada de Macau e começaram a tentar entrar no território nos primeiros anos do século XVII, em 1601, 1603, 1604 e 1607 – sempre sem sucesso.

Em 1622 fizeram então uma tentativa real de invasão, mas fracassaram. “Talvez tenha havido uma sobreavaliação das suas próprias forças e uma certa sobranceria relativamente àquilo que seriam as capacidades de defesa de Macau”, nota Sales Marques.

Na altura vivia-se um período de transição na China da Dinastia Ming para a Dinastia Qing e, por isso, uma parte das forças de Macau estava no continente ao serviço da Dinastia Ming. “Havia uma força relativamente pequena de europeus e de locais. Havia poucas centenas de escravos e locais. Havia uma diferença de força e de poder de fogo impossível de comparar”, comenta o antigo presidente do Leal Senado.

A sobranceria terá sido tal que os holandeses rejeitaram o apoio de Inglaterra, com quem tinham uma aliança. Havia dois barcos ingleses acostados ao largo de Macau cujo auxílio foi dispensado por parte das forças holandesas. “Não queriam dividir o espólio do saque”, justifica Sales Marques.

“Havia uma desproporção enorme de forças e apesar de tudo foram derrotados”, assinala, frisando que “esta foi a maior derrota dos holandeses no extremo oriente”. A derrota na batalha de Macau, contra todas as expectativas, teve o condão de lhes tirar a possibilidade de entrarem no continente chinês.

O sonho holandês de aceder ao mercado da China esbarrou em Macau.  “Eles conseguiram depois instalarem-se na Ilha Formosa, durante uns tempos, mas nunca conseguiram pôr os pés em Macau, mesmo neste período de grande ascensão da Holanda como primeira potência mundial”, frisa.

O 24 de junho, 400 anos depois

Este foi, na opinião de José Luís Sales Marques, não apenas um feito dos portugueses, mas sim um “feito de Macau”. Estará a comunidade chinesa alheada deste feito? “Nós se calhar nunca nos preocupámos em explicar isso devidamente”, diz Sales Marques, acrescentando que “as celebrações estiveram sempre ligadas a uma presença institucional portuguesa”.

Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam recordar com mais interesse a data, o presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau diz não saber o que é que as autoridades pensam. “Ou se calhar nem pensam porque para eles pode ser já uma coisa do passado”, diz. No entanto, nota que tem havido um interesse acrescido da parte de associações chinesas que se têm associado às celebrações do 400.º aniversário da data: “Eles realmente estão a procurar divulgar a verdadeira história e aquilo que se passou despido de preconceitos”.

O Arraial de São João, que habitualmente serve também para comemorar o 24 de Junho, não se realiza há três anos consecutivos. “O Arraial de São João começou a ser uma coisa popular e uma parte da população chinesa frequentava com todo o gosto. Este era um dia que era para ser celebrado pela cidade, por todas as comunidades de Macau”, lembra.

Este ano, as comemorações deste marco histórico também foram canceladas devido ao surto de Covid-19 em Macau. Poderá a data vir a esquecer-se no seio da comunidade? “Espero que não”, responde Sales Marques, concluindo: “Espero que, com a adesão dos jovens chineses que estão ligados a associações que querem conhecer melhor a história de Macau, se compreenda melhor as características e importância dessa data”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Jorge Rangel dá palestra na Sociedade Histórica da Independência de Portugal

O presidente do Instituto Internacional de Macau falará dos 400 anos da Batalha de Macau e o significado da derrota holandesa, um acontecimento determinante para a permanência de Portugal no Extremo Oriente. No mesmo dia, é entregue o Prémio Aboim Sande Lemos – Identidade Portuguesa ao historiador Rui Ramos. Entretanto, a SHIP esteve presente em Olivença, cidade cuja demarcação é, ainda hoje, objecto de litígio entre Portugal e Espanha, para as celebrações do Dia de Portugal, de Camões e também das Comunidades Portuguesas


O presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM) e ex-presidente da Direcção Central e do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), Jorge Rangel, vai dar uma conferência, no próximo dia 23 de Junho, quinta-feira, pelas 17h (hora em Lisboa) na sede da SHIP, no Palácio da Independência, Largo de São Domingos, na capital portuguesa, sobre os 400 anos da Batalha de Macau contra os holandeses, um acontecimento determinante para a permanência de Portugal no Extremo Oriente.

O macaense vai relatar o que se passou em Junho de 1622, conforme as versões do historiador militar Carlos Gomes Bessa e do historiador macaense Luís Gonzaga Gomes. “Farei um relato sucinto deste acontecimento histórico, acompanhado da projecção de algumas imagens da Fortaleza do Monte e do Monumento da Vitória e de algumas gravuras e mapas antigos da cidade de Macau, referindo também os antecedentes, as várias investidas holandesas e tentativas de tomarem a cidade, as consequências e o significado da sua derrota e a proclamação do dia 24 de Junho, Dia de S. João Baptista, como Dia da Cidade de Macau”, explicou ao Ponto Final.

Jorge Rangel aproveitará ainda a oportunidade para citar “os incontornáveis Charles Boxer e Pe. Manuel Teixeira”, bem como algumas fontes históricas, dedicando especial atenção ao trabalho de Carlos Gomes Bessa e do escritor e historiador macaense Luís Gonzaga Gomes. “Também conheci muito bem o Coronel Carlos Gomes Bessa, cujo centenário será por nós assinalado brevemente. Nessa altura (provavelmente em Setembro), recordarei, numa outra comunicação, os seus trabalhos dedicados a Macau, alguns dos quais publicados pela SHIP e um pelo IIM. Quando presidi à direcção central da SHIP, sucedendo ao General Manuel Freire Themudo Barata, era presidente do Conselho Supremo o Coronel Carlos Bessa, a quem me ligaram relações de grande consideração, colaboração e amizade”, referiu.

Para além da palestra dada por Jorge Rangel, no mesmo dia haverá lugar à entrega do Prémio Aboim Sande Lemos – Identidade Portuguesa ao historiador Rui Ramos, colaborador do “Observador”, seguida de intervenção do contemplado. “Oferecerei, na ocasião, ao historiador Rui Ramos um exemplar do livro ‘Páginas da História de Macau’, de Luís Gonzaga Gomes, edição do IIM, de Setembro de 2010. A primeira edição é do jornal Notícias de Macau, de 1966. Cerca de 30 páginas deste livro são dedicadas à Batalha de Macau de Junho de 1622”, revelou o presidente do IIM ao nosso jornal

O Prémio Aboim Sande Lemos – Identidade Portuguesa foi criado pelo Coronel Aboim Sande Lemos, primeiro presidente do Conselho Supremo da SHIP, que contribuiu para o estabelecimento de um fundo de apoio ao prémio.

A entrada é livre e a sessão decorrerá igualmente online com transmissão em directo no canal Youtube da SHIP em https://bit.ly/3NDcytJ e ainda na sua página oficial no Facebook na ligação: 

https://www.facebook.com/sociedadehistorica

“O IIM anunciou recentemente, em conferência de imprensa realizada na sua sede, em Macau, um programa comemorativo do 4.º centenário da Batalha de Macau, mobilizando, para o efeito, diversas instituições da sociedade civil de Macau. Em Lisboa, além desta sessão na SHIP, haverá uma outra, no Centro Científico e Cultural de Macau, no dia 24, em que serão oradores o professor Rui Loureiro e a investigadora macaense Mariana Leitão Pereira, doutoranda em Cambridge e colaboradora do IIM, que mantém um sítio em funcionamento sobre este tema”, disse ainda o mesmo responsável.

A Sociedade Histórica da Independência de Portugal é uma associação sem fins lucrativos de direito privado, com o estatuto de pessoa colectiva de utilidade pública, que visa a defesa da identidade e da independência de Portugal, actuando essencialmente através das áreas da defesa e promoção da educação e da cultura patriótica portuguesa. Trata-se da mais antiga e condecorada instituição cultural em Portugal, e é presidida, actualmente, pelo advogado José Ribeiro e Castro, político e figura destacada do CDS-PP, também coordenador do Movimento 2014 – 800 anos da Língua Portuguesa.

10 de junho comemorado em Olivença

A título de exemplo do que são as actividades da SHIP, no passado dia 10 de Junho, para celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a instituição visitou Olivença, localidade cuja demarcação é, ainda hoje, objecto de litígio entre Portugal e Espanha. Em 1297, o Tratado de Alcanizes definiu Olivença como parte de Portugal.  Em 1801, o território foi anexado a Espanha através do tratado de Badajoz assinado por Portugal, e sob coacção, na sequência da Guerra das Laranjas. Portugal denunciou este Tratado em 1808, e em 1817 Espanha reconhece a soberania portuguesa, subscrevendo o Congresso de Viena de 1815 e comprometendo-se a devolver a administração de Olivença a Portugal o mais prontamente possível. No entanto, até hoje, tal não aconteceu.

Para além da presença do presidente da SHIP, o dia comemorativo começou às 12h (hora em Espanha), no Parque dos Pintassilgos, com um acto institucional que foi apresentado por Eduardo Naharro-Macías Machado, professor da Aula de Língua e Cultura Portuguesa da Universidade Popular de Olivença, e no qual participaram ainda o presidente do município de Olivença, Manuel J. González; o secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Vítor Ramalho; e o presidente da ATLA – Associação Transfronteiriça do Lago Alqueva, José Manuel Grilo. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”



segunda-feira, 21 de março de 2022

Macau - Livro da vitória contra os holandeses vai ser traduzido para chinês

O livro do prof. Manuel Basílio intitulado “A maior derrota dos holandeses no Oriente”, lançado no Clube Militar na sexta-feira vai ser traduzido para chinês, para ser apresentado em 24 de Junho, o Dia da Cidade. A decisão foi tomada por Jorge Fão, presidente da Assembleia Geral da APOMAC, após o interesse despertado pela minúcia do detalhe investigativo da obra, durante a cerimónia de lançamento da versão em português


Com a sala composta, o actual presidente dos Estudos Europeus de Macau e ex-presidente do Leal Senado, José Luís Sales Marques salientou a importância da batalha de 24 de Junho de 1624, para a sobrevivência de Macau, já que, em tempos da dominação filipina, o território ainda sem fortificações, parecia presa fácil para a expansão holandesa a partir da Indonésia.

Sales Marques destacou que, após essa surpreendente vitória, o Leal Senado fez um voto solene, pelo qual foi instituída uma festa em honra de São João Baptista, o Santo Protector da Cidade, com missa e procissão, a celebrar anualmente. Há desconhecimento se sempre assim foi, mas no século 19 e 20 essa celebração está documentada e a partir de época mais recente o 24 de Junho passou a ser feriado, considerado como “Dia da Cidade”, o que terminou a partir de 1999.

A sessão iniciou com a apresentação do autor feita pelo administrador do Jornal Tribuna de Macau, que realçou que o lançamento da obra de Manuel Basílio se enquadra no início das comemorações da entrada no quadragésimo ano de publicação do jornal, que vão decorrer durante este ano e que terão o seu momento mais alto em 1 de Novembro de 2022.

De acordo com os historiadores, o Tribuna de Macau já bateu o recorde de longevidade de todas as publicações regulares de Macau em língua portuguesa, desde que em 1822, o jornal “Abelha da China” foi o primeiro jornal local em língua portuguesa, tipo ocidental, publicado na Região.

José Rocha Diniz enalteceu o árduo e desinteressado trabalho de investigação do autor (o livro foi edição do autor) que já tem várias outras obras publicadas sobre Macau, onde nasceu, e manifestou-lhe a continuidade do apoio da Tribuna e da Sociedade Editorial que a edita, em novos trabalhos. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

Extracto da intervenção de Manuel Basílio

Uma história que dava um filme

A história da “Batalha de Macau” em Junho de 1624 ainda está cheia de hiatos, pois são poucas as fontes em primeira mão, e mesmo elas apresentam contradições. Neste livro o Prof Manuel Basílio apresenta a versão mais credível desta fantástica história que dava um grande filme.

Eis um extracto da sua intervenção no lançamento do livro:

“As primeiras tentativas dos holandeses para tomarem a cidade de Macau ocorreram logo no virar do século XVII, em 1601. Depois voltaram em 1603 e em 1604, mas sem sucesso. Houve ainda uma nova tentativa dos holandeses em 1607, mas as suas embarcações foram atacadas por seis navios portugueses, que os puseram em fuga.

Naquela altura, a cidade de Macau não estava fortificada, porque até então, as autoridades chinesas nunca permitiram a fortificação da cidade, com receio de os portugueses servirem-se dela como defesa contra os chineses.

A fortificação da cidade fora uma constante preocupação dos jesuítas e, por isso, em 1606, construíram à volta do Colégio e da igreja de S. Paulo (inaugurada em 1603), uma cerca muralhada, para a protecção das suas propriedades. (Existe ainda um troço no Beco do Craveiro), na Rua do Monte (Faca, Missó, Craveiro, Porco).

Depois daquelas primeiras tentativas dos holandeses, seguiu-se um período de acalmia, devido à Trégua dos Doze Anos, firmada em 1609 entre a Espanha e as Províncias Unidas (lideradas pela Holanda e Zelândia), e Macau beneficiou dessa trégua. O período da trégua terminou em 1621, e logo no ano seguinte, os holandeses voltaram com uma poderosa esquadra para invadir a cidade de Macau. Os holandeses tinham informações de que a cidade não estava devidamente fortificada e, portanto, poderia ser conquistada com relativa facilidade, com uma força militar de 800 a 1000 homens.

De facto, durante mais de meio século, a cidade de Macau esteve desprotegida, devido às restrições impostas pelas autoridades chinesas. Só em 1613, é que foi obtida autorização das autoridades chinesas para construção de três baluartes, somente para a defesa costeira. Além disso, os jesuítas conseguiram, também, autorização para a edificação de uma fortaleza no alto da colina de S. Paulo do Monte, e essa obra iniciou-se em 1616 e só ficou concluída em 1626, portanto, já depois da invasão dos holandeses.

Portanto, aquele receio de um ataque dos holandeses veio a confirmar-se quando, no dia 22 de Junho de 1622, apareceu ao largo de Macau, uma esquadra composta por 14 navios, além de duas embarcações inglesas.

O ataque foi estudado e planeado in loco. Na noite de 22 de Junho, o Almirante Cornelius Reijersen enviou três homens, acompanhados de um guia chinês, para fazerem o reconhecimento das imediações da cidade e, também, para sondar se os chineses que habitavam nas aldeias chinesas se manteriam neutros, em caso de um ataque dos holandeses. Passaram por aldeias chineses e verificaram que os chineses já tinham abandonado as suas casas, com receio de ataque dos holandeses.

Na manhã seguinte, o Almirante Cornelius embarcou numa lancha com alguns oficiais para fazer o reconhecimento do local mais apropriado para o desembarque das suas tropas.

Entretanto, para desviar a atenção dos portugueses, no dia 23 à tarde, três navios holandeses surgiram ao largo do baluarte de S. Francisco e dispararam alternadamente na direcção do baluarte, e só ao pôr-do-sol é que se retiraram. Como os navios holandeses se encontravam relativamente afastados, os tiros que deram não causaram dano ao baluarte. Foi apenas uma demonstração de força.

Repetiram a mesma cena na manhã seguinte, voltando a dispersar a atenção dos portugueses, para não dar indicações sobre o local do desembarque. Desta vez, aproximaram-se mais do baluarte de S. Francisco e como este baluarte estava equipado com um canhão de longo alcance (uma columbrina), fizeram fogo contra um dos navios – o Gallias, que foi atingido com vários tiros e ficou inutilizado para o combate.

Essas manobras realizadas por navios holandeses eram apenas uma simulação, pois o Almirante Cornelius já tinha decidido que o ataque seria feito por terra.

O local escolhido para o desembarque de 800 soldados foi a Praia de Cacilhas, o qual se realizou na manhã do dia 24 de Junho de 1622, cerca de 2 horas depois do nascer do sol.

Os primeiros invasores conseguiram chegaram à praia, transportados por botes. Em seguida, queimaram um barril de pólvora molhada para fazer uma cortina de fumo, cobrindo, assim, o desembarque dos restantes soldados.

Este ataque deu-se numa altura em que a maioria dos moradores se encontrava em Cantão. Foram lá fazer compras para a próxima viagem para o Japão.

Possivelmente, o Almirante Cornelius sabia disso. Sabia que, além de a cidade não estar fortificada, havia poucos homens capazes de combater. Como estava muito confiante em conseguir, facilmente, tomar a cidade, por isso, não permitiu o embarque dos ingleses, para não partilharem o espólio de guerra.

Para demonstrar alguma resistência aos invasores, um grupo de moradores, liderado por António Cavalinho, entrincheirou-se num banco de areia junto à praia.

Como os defensores não podiam ver o desembarque dos inimigos, devido àquela cortina de fumo, começaram a disparar, ao acaso, e dispararam vários tiros de mosquete contra a cortina de fumo e, por sorte, um dos tiros atingiu no ventre do almirante Cornelius, que caiu ferido, e foi levado de imediato para o seu navio.

Nestas circunstâncias, o veterano capitão Hans Ruffijn assumiu o comando da força atacante, organizou a formação da tropa e preparou 600 homens para invadir a Cidade, deixando duas companhias, ou seja, 200 homens, na rectaguarda, junto à praia, para cobrir a retirada, caso o ataque falhasse.

Como não era possível deter o avanço dos inimigos, António Cavalinho deu ordem de retirada aos seus homens e retrocederam até a um sítio, onde havia uns penhascos e puseram-se de emboscada à espera dos inimigos.

Assim que souberam que o ataque dos holandeses era por terra e não por mar, solicitaram logo o envio de reforços, tendo sido despachados 50 mosqueteiros sob as ordens do capitão João Soares Vivas.

Naquela altura não havia governador de Macau, encarregado da defesa da Cidade. Quem governava era o Capitão-mor da Viagem do Japão, Lopo Sarmento de Carvalho, que levou consigo um punhado de homens para defender a via de acesso à Cidade. Naquele local, não havia sequer muralha ou porta da Cidade. Havia apenas um bambual, onde podiam armar uma emboscada. (O bambual foi destruído pelo então proprietário Filipe Lourenço Matos, em 1791 e transformou-o numa horta. Mais tarde, esta horta foi adquirida por Rita Begman, passando a ser conhecida por Horta Begman. No século XIX, Caetano Gomes da Silva passou a ser o proprietário da Horta e, por fim, foi adquirida por Francisco Volong, que ainda hoje tem nome de rua).

Depois de todos os preparativos, o capitão Ruffijn deu ordens para iniciar a marcha em direcção à Cidade. Enquanto marchavam ao ritmo de tambores e entre gritos e cânticos, às tantas, estavam surpreendidos por não ver gente, nem a mínima resistência à frente deles.

Assim, sem oposição, aceleraram a marcha. Quando o exército holandês chegou ao sítio conhecido por Fontinha, deu-se então o momento decisivo da invasão. No alto da fortaleza do Monte, ainda em construção, estava um padre jesuíta, de nome Giacomo Rho (ou Jerónimo Rho), um grande matemático e astrónomo, que, ao ver o exército inimigo ali concentrado, já dentro do alcance de um tiro de canhão, disparou uns tiros em direcção àquele sítio, um dos quais acertou em cheio num vagão carregado de barris de pólvora.

Deu-se então uma grande explosão, matando mais de uma centena de soldados e ferindo outros tantos. Foi um golpe fatal, que liquidou todas as esperanças dos holandeses. O exército inimigo ficou completamente desorientado. O capitão Ruffijn ainda exortou os seus compatriotas a combaterem. Mas como a desgraça não vinha só, o capitão Ruffijn foi atingido por um tiro e caiu morto.

Naquele momento, as tropas holandesas estavam apavoradas e até desnorteadas, porque estavam sem comando. Vários mercenários desertaram e um dos quais era um japonês, que veio informar aos portugueses que os invasores estavam em desespero, por falta de munições. Devido à escassez de pólvora, os invasores não estavam em condições de continuar a combater.

Vendo-os em pânico, Lopo Sarmento de Carvalho fez sinal para o contra-ataque. Aos gritos de guerra, moradores, filhos da terra e escravos negros juntaram-se às tropas portuguesas e lançaram-se em força contra o inimigo. (Moradores incluíam comerciantes portugueses, espanhóis, filipinos, malaios, frades, padres jesuítas, etc. Portanto, os defensores eram, por assim dizer, uma força das “Nações Unidas”).

Consta que surgiram uns escravos negros bêbados, que se lançaram contra os inimigos, matando todos os que viam à sua frente.

A debandada foi geral. Enquanto os holandeses retrocediam, as duas companhias de rectaguarda, que deveriam proteger a retirada dos seus companheiros, fugiram em pânico para os seus navios, sem disparar um tiro.

Os que conseguiram chegar à praia de Cacilhas, fugiram em botes, um dos quais, muito superlotado, até se afundou. Os que não conseguiram fugir, incluindo os feridos, renderam-se, ficando prisioneiros.

Os holandeses sofreram nesta batalha, conhecida por Batalha de Macau, a sua maior derrota contra os portugueses no Oriente, porquanto, segundo uma estimativa mais fiável, o número de mortos teria sido por volta de 300 soldados, incluindo mercenários japoneses e bandaneses.

Sabe-se que Jan Pieterszoon Coen, Governador-geral das Índias Orientais Neerlandesas, em Batávia (hoje Jacarta), quando recebeu a notícia da derrota, ficou extremamente irritado e amargurado, tendo dito que “desta maneira vergonhosa, perdemos a maioria de nossos melhores homens, juntamente com a maior parte das armas”, visto que morreram na batalha entre oficiais holandeses, sete capitães, quatro tenentes, sete alferes e sete sargentos.”

in “A maior derrota dos holandeses no Oriente” do Prof. Manuel Basílio (edição do autor, Fevereiro de 2022)

Proposta que Festa da Cidade seja na Praça do Tap Seac

Este livro foi escrito para recordar o grande feito de armas alcançado por portugueses contra a invasão dos holandeses, que ocorreu em 24 de Junho de 1622 e que este ano completa 400 anos. Foi uma batalha decisiva para a sobrevivência da cidade de Macau, que ficou conhecida por Batalha de Macau. Caso os holandeses tivessem vencido a batalha, então o rumo da história seria outro e decerto não estaríamos cá. O Dia da Cidade deixou de ser celebrado depois de 1999. No entanto, a partir do ano de 2007, várias associações de matriz portuguesa uniram esforços e organizaram uma festa, designada Arraial de S. João, para reavivar as Festas de S. João, que outrora se realizavam em Macau. Foi uma iniciativa digna de todos os louvores. Agora, como o Dia da Cidade deixou de ser celebrado, proponho que o Arraial de S. João, caso este ano volte a ser realizado, seja designado Festa da Cidade e Arraial de S. João, e que esta Festa da Cidade (em vez de festa do Dia da Cidade) tenha a participação das principais comunidades de Macau, não só portuguesa, como também chinesa, filipina, malaia, tailandesa, indonésia, japonesa, etc. pois todas essas comunidades estiveram ligadas a Macau desde os primórdios da sua fundação. Penso que foi com este espírito que a comunidade chinesa foi convidada a integrar nas Festas de S. João, realizadas nos anos de 1954, 1955 e 1956, no terraço do Mercado de S. Domingos, (inaugurado em 31 de Janeiro de 1950). O sítio que proponho para esta Festa da Cidade é a Praça do Tap Seac, que mais espaçosa e com mais significado, pois está localizada mesmo junto do sítio onde se decidiu a vitória dos portugueses.

Manuel Basílio