Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Portugal - José Saramago deixa de ser leitura obrigatória no ensino português

De acordo com a proposta do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, actualmente em consulta pública até ao dia 28 do corrente mês, deixa de ser obrigatória a leitura de obras de José Saramago no ensino secundário. Hodiernamente, o programa prevê a leitura integral de Memorial do Convento ou de O Ano da Morte, de Ricardo Reis.

Em contrapartida, a proposta abre a possibilidade de escolha do romance Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho. Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a escolher uma obra de Saramago no 12.º ano, passando a poder optar pela obra de Mário de Carvalho. Refira-se que José Saramago é o único escritor português laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998… Dani Costa – Angola in “O País”

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Macau – Escritor Su Tong destaca influência mundial de José Saramago

O autor chinês Su Tong, pseudónimo de Tong Zhonggui, vencedor do prémio literário Man Asian, que recebeu um doutoramento ‘honoris causa’ em Macau, realçou à Lusa o impacto de José Saramago, “figura reverenciada por escritores”, em todo o mundo. “No mundo de língua portuguesa, há uma figura reverenciada e honrada por escritores em todo o mundo: José Saramago. A sua influência estende-se por todo o planeta”, disse Su Tong.


“Eu também estou entre os seus admiradores”, acrescentou o escritor de 62 anos, após uma palestra sobre a sua carreira literária, na Universidade da Cidade de Macau (UCM). A UCM distinguiu com um doutoramento ‘honoris causa’ Su Tong, autor de sete romances e mais de 200 contos, alguns dos quais traduzidos para português, como “A Minha Vida Enquanto Imperador” e “Esposas e Concubinas”. “Esposas e Concubinas” foi adaptado ao cinema pelo realizador Zhang Yimou em 1991 e chegou a estar proibido na China continental.

Durante a palestra, Su Tong observou que a sua jornada literária começou quando era jovem, ao ouvir contar histórias. “No início dos anos 70, quando a vida espiritual das pessoas era árida, o fascínio por contos tornava-se cada vez mais intenso”, recordou. Para dar continuidade a uma história que não tinha ouvido até ao final, Su Tong tentou escrever o desenlace da trama, embarcando, assim, na carreira de escritor.

O autor considera que foi precisamente a época que viveu que forjou a sua ligação à criação literária. A década de 1980 fez a China entrar numa era de fervor literário, o que acendeu ainda mais a sua paixão criativa, explicou.

Su Tong é um dos romancistas chineses contemporâneos mais conhecidos a residir na China e venceu em 2009 o Man Asian Literary Prize, versão asiática do Man Booker Prize, com o livro “O Barco para a Redenção”, um romance passado durante a Revolução Cultural.

Todos os escritores são porta-vozes do seu tempo, e a época, “como a Esfinge do Egipto, revela aspectos diferentes quando vista de diferentes tempos e ângulos”, referiu na palestra.

À Lusa, Su Tong afirmou que os escritores desta era partilham um sentimento de “ausência de peso”, “essa sensação de estar à deriva”. “Consequentemente, tornam-se mais sintonizados com a relação entre a humanidade e a realidade, e entre o escritor e o mundo”, explicou. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


terça-feira, 17 de junho de 2025

Portugal - 15 anos da morte de José Saramago no dia 18 de junho na Fundação José Saramago

No dia 18 de junho, quando passam 15 anos sobre o desaparecimento físico de José Saramago, a Fundação José Saramago preparou um dia cheio para recordar o escritor que disse que «a única defesa contra a morte é o amor».


Programa

Das 10 às 18h – Entrada livre durante todo o dia na Fundação José Saramago – Casa dos Bicos.

14h – Será exibido no auditório da FJS o documentário, inédito em Portugal, «José Saramago. O tempo de uma memória», da realizadora chilena Carmen Castillo.

18h – Auditório da FJS: Abertura da exposição «Mulheres Saramaguianas», com serigrafias e gravuras de artistas portugueses e textos de escritoras de língua portuguesa.

18h30 – Auditório da FJS: «As personagens Femininas de José Saramago», por Sara Grünhagen.

20 h – Espaço da Porto Editora na Feira do Livro de Lisboa: Performance teatral a partir de «Ensaio sobre a Cegueira» (primeira apresentação pública do espetáculo de teatro imersivo «Cegueira», com encenação de Miguel Thiré, a estrear em breve).

22h55 – Exibição, na RTP2, do documentário «José Saramago. O tempo de uma memória», de Carmen Castillo. Fundação José Saramago - Portugal


segunda-feira, 20 de março de 2023

Macau - Conto de Saramago inspira peça de teatro

A companhia de teatro de Macau Dirks Theatre apresentou a peça “Echoes in Dreams” (“Ecos em Sonhos”), inspirada no conto “Centauro”, do escritor português e Prémio Nobel da Literatura José Saramago (1922-2010)


O codirector artístico do Dirks Theatre, Ip Ka Man, disse à Lusa que, após ler o conto, incluído num dos primeiros livros de Saramago, “Objecto Quase” (1978), e durante a criação da peça, tinha “uma pergunta em mente: o que é a minha terra”. “O conceito de terra pode ser dividido em duas partes: uma é a física e a outra é a nossa história, os nossos sentimentos, a nossa experiência. E de alguma forma têm de estar juntas. Senão, é como o centauro, sempre metade humano, metade cavalo”, disse.

A personagem principal de “Ecos em Sonhos”, apesar de já ter deixado a sua terra natal há algum tempo, continua assombrada por uma voz interior que, em cantonês, “continua a perguntar-lhe por que não volta a casa”, revelou Ip. “Há muitas pessoas, em todo o lado no mundo, que têm de partir das suas terras, seja à força ou por vontade própria, sobretudo nesta altura”, disse à Lusa a codirectora artística do Dirks Theatre, Mable Wu May Bo, referindo-se à pandemia de covid-19.

De acordo com dados oficiais, Macau perdeu 24 200 pessoas durante a pandemia, devido à subida do desemprego e às restrições impostas para controlar o novo coronavírus. “Sentíamo-nos seguros, mas por outro lado sabíamos que havia tantas coisas que estavam fora do nosso controlo, que qualquer coisa podia a qualquer momento. Isso criou muita incerteza”, disse Mable.

Ip Ka Man admitiu que a pandemia levou também o duo a questionar o seu futuro artístico. “Durante estes três anos por vezes tivemos algumas dificuldades, sequer para formular planos”, explicou.

Macau abandonou a política ‘zero covid’ em meados de dezembro e Ip diz que o Dirks Theatre quer agora “ligar-se mais à comunidade local” e “inspirar a audiência a ter a imaginação para questionar a vida, o ambiente”.

Com o fim das restrições, numa cidade cuja economia depende do turismo, “toda a gente está sempre a falar da importância do crescimento económico, mas a verdade é que sacrificamos muito para conseguir isso”, sublinhou o codiretor.

No início de Dezembro, Kwok Wai Tak, chefe substituto dos Serviços de Psiquiatria do Centro Hospitalar Conde de São Januário, hospital público de Macau, admitiu que o aumento dos suicídios se devia às políticas anti-pandémicas.

“A relação entre as pessoas de Macau é tão íntima, tão complicada. Isso afecta e muito a capacidade das pessoas de se expressarem”, lamentou Ip Ka Man. “As pessoas de Macau não são tão francas sobre como se sentem”, acrescentou Mable Wu, que nasceu na vizinha Hong Kong. “Sinto que nos anos mais recentes elas têm vontade de se expressarem, mas talvez não saibam como se dirigirem a pessoas fora da sua zona de conforto”, disse a codiretora do Dirks Theatre.

“Ecos em Sonhos”, que mistura cenas teatrais e a projeção de vídeos, esteve em cena no Centro de Arte Contemporânea de Macau – Oficinas Navais N.º 2. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Israel – Recorda José Saramago

O universo literário de José Saramago vai ser tema de um ciclo de cinema que a Cinemateca de Jerusalém organiza já no início do próximo ano em Israel. A semana dedicada ao Nobel da Literatura 1998 começa a 28 de janeiro com a exibição de seis curtos filmes da série documental “Herdeiros de Saramago”, de Carlos Vaz Marques e Graça Castanheira, sobre escritores de língua portuguesa distinguidos com o Prémio José Saramago

Em documentários de meia hora, a série aborda o percurso e processos criativos de escritores como Paulo José Miranda, Ondjaki, Adriana Lisboa, João Tordo, Andréa del Fuego e Afonso Reis Cabral.

Até ao final do mês, aquele curto ciclo dedicado ao escritor português contará também com os filmes “Embargo”, “O ano da morte de Ricardo Reis” e “José & Pilar”.

“Embargo” (2010) é a segunda longa-metragem do realizador António Ferreira e é uma adaptação de um conto de José Saramago, que integrou a coletânea “Objecto Quase”.

“O ano da morte de Ricardo Reis” (2020) é assinado por João Botelho a partir de um romance homónimo de Saramago, cuja personagem central é um dos heterónimos de Fernando Pessoa.

“José & Pilar” (2010) é um documentário de Miguel Gonçalves Mendes que acompanha o quotidiano de José Saramago e da jornalista Pilar del Río desde 2006 até 2009, durante o processo de escrita e lançamento do romance “Viagem do elefante”.

O ciclo de Israel dedicado a José Saramago ainda se insere na extensa programação do centenário do escritor português, na qual participou, a nível internacional, a rede externa do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


terça-feira, 29 de novembro de 2022

Macau - Rota das Letras recorda Saramago, reflecte sobre o “Romance dos Três Reinos” e mostra autores locais

Está de regresso o Rota das Letras – Festival Literário de Macau. Desta vez, ao longo dos próximos dois fins-de-semana, a iniciativa divide-se entre a Livraria Portuguesa e o Art Garden. Na sua 11.ª edição, o festival acompanha as efemérides dos centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. A publicação integral do “Romance dos Três Reinos” comemora o 5.º centenário e, por isso, o Rota das Letras propõe uma reflexão sobre a obra. Por outro lado, o festival vai também dar a conhecer as obras mais recentes de vários autores locais


O Rota das Letras – Festival Literário de Macau está de volta. Desta vez, a iniciativa divide-se entre os primeiros dois fins-de-semana de Dezembro: Entre 2 e 4 de Dezembro, na Livraria Portuguesa; e entre 9 e 11 de Dezembro, no Art Garden. Saramago, Maria Ondina Braga, James Joyce, T. S. Eliot e Virginia Woolf são alguns dos nomes em foco.

Esta, que é a 11.ª edição do Festival Literário, começa então esta sexta-feira, na Livraria Portuguesa, com a apresentação, a partir das 18h30, dos mais recentes trabalhos dos autores chineses de Macau Lawrence Lei e Cheong Kin Han. As suas obras, “Rostos Mascarados” e “Ying”, respectivamente, foram distinguidos na 13.ª edição dos Prémios Literários de Macau. Ainda na sexta-feira, Wong Teng Chi apresenta uma performance onde explora temas como a observância social e questões de identidade e género.

Já sábado as primeiras sessões destinam-se ao público infantil e começam pelas 11h com a Livraria Júbilo a mostrar os trabalhos da ilustradora Yang Sio Maan. Logo depois, Tony Lam fará a apresentação de uma aventura para crianças que se passa em boa parte nos subterrâneos do Templo de A-Má.

Da parte da tarde, é proposta uma reflexão sobre o importante contributo da literatura para a História. A sessão – que terá como oradores os professores Wang Di e Wang Sihao, da Universidade de Macau, estando a moderação a cargo de Yao Jingming – vai centrar-se no 5.º centenário da primeira publicação integral do “Romance dos Três Reinos”.

Mais tarde, acontece um diálogo sobre a ficção gótica de Daniel Defoe, que escreveu o “Diário do Ano da Peste” há 300 anos. Nick Groom e William Hughes, académicos ligados à Universidade de Macau, vão explicar como a literatura de terror nos pode ajudar a compreender a pandemia do coronavírus.

Os centenários das publicações de “Ulisses”, de James Joyce, e de “A Terra Devastada”, de T. S. Eliot, também estarão em destaque numa sessão conduzida por Glenn Timmermans. O programa de sábado termina com o lançamento da segunda edição de “Macau – o Livro dos Nomes”, de Carlos Morais José. Nesta edição, são publicados 88 textos acompanhados de fotografias de Sara Augusto.

No domingo, dia 4, volta a literatura infantil, com a editora Mandarina a dar a conhecer o seu último título, “Em Casa”, que contará com a apresentação de Catarina Mesquita. A recém-criada editora Lits revela o seu primeiro livro infantil, “O Menino que Queria Ver o Mar”, um conto de António Correia que agora é publicado a título póstumo. Por fim, Andreia Martins mostra às crianças “Uma Casa com Asas”.

Na tarde de domingo é organizada uma sessão online com vários autores lusófonos – Krishna Monteiro, Manuel da Costa, Hélder Macedo, entre outros – sobre o seu contributo para uma nova antologia bilingue de contos lusófonos, traduzidos para chinês, “Viagens”.

Finalmente, serão celebrados os centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. No tributo a Saramago serão apresentados trabalhos de Miguel Real e José Luís Peixoto que têm como referência a vida e a obra do único escritor português até aqui distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. A sessão contará também com a participação da artista chinesa de Macau Kay Zhang, que, em conversa com Carlos Marreiros, falará sobre o seu projecto artístico inspirado no “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Maria Ondina Braga será recordada com a projecção do documentário “O que Vêem os Anjos”, de Tiago Fernandes. Haverá também uma evocação da autora, a cargo da Professora Vera Borges.

No fim-de-semana seguinte, entre 9 e 11 de Dezembro, o Rota das Letras muda-se então para o Art Garden, sede da associação Art for All (AFA), onde será apresentado o projecto plurianual “A Room of One’s Own”, que é baseado na obra de Virginia Woolf e que inclui uma série de sessões de debate, seminários, concertos e performances que vão explorar o tema da condição feminina. A primeira mesa-redonda acontece pelas 18h30 e junta Agnes Lam, Glenn Timmermans e a psicanalista Natalie Si num debate sobre o conceito de literatura feminina e as suas implicações psicológicas, a partir da obra de Virginia Woolf.

Virginia Woolf continuará como tema central no concerto do músico meditativo de Hong Kong Paul Yip, que se junta aos poetas locais M. Chow e Isaac Pereira e à bailarina Tina Kan, inspirando-se na escrita poética da autora britânica para criarem um espectáculo que combina a palavra, a música e o gesto.

De 10 a 11 de Dezembro, terão também lugar seminários subordinados ao mesmo tema. Agnes Lam e a psicoterapeuta Jojo Lam, vão dirigir uma série de workshops experimentais sobre a condição feminina com elementos literários e teatrais de experiências sociais e terapêuticas. Ainda no sábado haverá uma sessão de poesia onde poderão ouvir-se poemas de José Craveirinha, de T.S. Eliot e de outros poetas, de diferentes espaços e tempos.

No domingo, dia 11, a fechar esta edição do Festival Literário recordar-se-á o II Raid Macau-Lisboa, que é agora tema de um livro de banda desenhada; Shee Va irá fazer a apresentação de “Uma Breve História Cultural do Chá da China”, de Rui Rocha; João Rato e vários outros fotógrafos amadores do território mostram o trabalho conjunto recentemente lançado, intitulado “Macau: My Story”; e a revista Halftone dá a conhecer a sua 4.ª edição, que inclui trabalhos de João Nuno Ribeirinha, David Lopo, Dinamene, Sofia Mota, Alina Bong e Barry Tsang. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Portugal – Centenário de José Saramago


Assinala-se hoje, 16 de novembro de 2022, o centenário de José Saramago. Tal como em circunstâncias semelhantes acontece com outros grandes vultos, a efeméride constituirá uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro. E também para se prestar homenagem à sua figura como cidadão.

Aquela consolidação envolve a revisitação de uma atividade literária e cívica que marcou a cena portuguesa e internacional durante décadas, mas que vai além disso; inclui-se nela a afirmação de uma obra com uma vitalidade inquestionável, bem como a acentuação do pensamento social, político e ético de José Saramago. E também o que desse pensamento ressoa no nosso presente. A Carta dos Deveres e das Obrigações dos Seres Humanos sintetiza, pelo seu espírito e pelos seus efeitos, muito do legado saramaguiano.

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura confirmou uma consagração internacional que fez de José Saramago uma personalidade com grande significado, para além das fronteiras de Portugal. Assim, Saramago define-se hoje como um “escritor do mundo”, com presença expressiva em manifestações artísticas, educativas, políticas e sociais com vasta disseminação e efeitos variados. Incluem-se nesses efeitos os que decorrem da presença da obra saramaguiana no nosso sistema de ensino e na difusão da língua e da cultura portuguesas no mundo.

Em articulação com outras entidades, a Fundação José Saramago está a preparar um amplo programa de evocação do centenário, distribuído por quatro eixos: o eixo da biografia, dando atenção ao trajeto biográfico, formativo e cívico do escritor, em relação com a sua produção literária; o eixo da leitura, entendendo-se o centenário do escritor como momento adequado para se revigorar a leitura da sua obra e também para conquistar novos leitores, desejavelmente jovens; terceiro, o eixo das publicações, tanto no plano das obras evocativas, de divulgação ou de extensão transliterária, como no das edições ilustradas, com iconografia do escritor e da sua obra; o eixo das reuniões académicas, uma vez que José Saramago é um escritor com forte presença na academia, em Portugal e no estrangeiro, motivando reuniões científicas em diferentes locais.

Pode antecipar-se desde já que o centenário de José Saramago desencadeará iniciativas de entidades muito diversas, em Portugal e noutras partes do mundo. Nesse contexto, a Fundação José Saramago (FJS) assumirá o papel central que lhe cabe, respeitando, evidentemente, a autonomia dos atores e das instituições que venham a dar contributos próprios ao centenário.

Carlos Reis, Comissário para o Centenário de José Saramago. Fundação José Saramago


 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Portugal - Nova biografia no centenário de Saramago revela episódios inéditos do Nobel

No ano do centenário de José Saramago, chega às livrarias uma nova biografia do escritor, que revela episódios inéditos da vida do serralheiro que assumiu um compromisso com o ofício da escrita e chegou a Prémio Nobel da Literatura.

“As 7 vidas de José Saramago” é o título desta monumental biografia, de 752 páginas, escrita pelo ensaísta Miguel Real e a encenadora Filomena Oliveira, com trabalho feito sobre obras saramaguianas, que “mergulharam nos arquivos do escritor” para contar a sua história de vida, revela a editora Companhia das Letras.

O resultado é, nas palavras da editora, um relato empolgante, rigoroso e com muitas histórias inéditas, da vida íntima de um “homem universal”, que na juventude pediu um empréstimo de 300 escudos para comprar livros e, como não tinha estante em casa, guardou-os num armário da cozinha.

Este é um dos episódios pouco conhecidos da vida de José Saramago que são contados nesta biografia, que percorre as “7 vidas de José Saramago”, desde a infância na Azinhaga à consagração em Estocolmo, e descreve como o Nobel da Literatura português começou como um “menino pobre numa Lisboa hostil de que se sentia excluído em todos os aspetos”, e decidiu derrubar todas as suas muralhas, criando a “Josephville”, cidade ideal que o escritor descreveu numa crónica em 1968, por contraposição à cidade real.

Da sua infância fica também a saber-se que o nome Saramago, com que se consagraria, resulta de um engano do funcionário do Registo Civil (que o escritor retrataria como um bêbado), que o registou com o apelido pelo qual a família era conhecida na Golegã e na Azinhaga – os Saramago – em vez de Sousa.

Só quando foi matriculado na escola é que os pais descobriram, o que obrigou o pai a mudar o próprio nome para corresponder ao do filho.

Foi também na infância, após a morte do irmão Francisco, que viveu a experiência traumática de ser abusado sexualmente por um grupo de rapazes, um episódio relatado na biografia, através das próprias palavras do escritor.

Ancorados nessa Josephville criada por Saramago, Miguel Real e Filomena Oliveira contam simultaneamente a história de José Saramago e de um outro século XX português: torna-se serralheiro e autodidata, será escritor, encontrará formas de ocupar o espaço social, cultural e político que lhe permitirá operar a revolução que idealizou e em que crê obstinadamente, o que levará a criar obras como “Memorial do Convento”, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, e “Ensaio sobre a cegueira”.

De 1992 para 1998, ano em que foi distinguido pela academia sueca, Saramago vê a sua “almejada Josephville transformar-se num mundo que o celebra e ao seu trabalho”.

Em 1994 – este é outro dos episódios reproduzidos na biografia -, Saramago fez um pacto com o escritor brasileiro Jorge Amado: dos dois, o que ganhasse o Prémio Nobel convidaria o outro para a cerimónia oficial. O autor brasileiro escreveu a Saramago dizendo que tinha informação fidedigna de que António Lobo Antunes seria o vencedor nesse ano, mas, afinal, a distinção acabaria atribuída ao japonês Kenzaburō Ōe.

A miséria do campo, a migração para a capital, a sujeição social a que a pobreza obriga, o percurso profissional e ideológico, o compromisso com a escrita, o autodidatismo, a vida amorosa, o fracasso do primeiro romance, a direção do DN e o episódio do saneamento de jornalistas, a censura ao “Evangelho segundo Jesus Cristo”, a ida para Lanzarote e o Nobel são alguns dos momentos chave relatados nesta obra.

“As 7 vidas de José Saramago” está dividida em sete capítulos que descrevem as diferentes fases da vida do escritor, a primeira das quais centrada no “camponês urbano”, que veio para Lisboa aos dois anos, e cuja personalidade ficou mais marcada pelas memórias da infância e adolescência na Azinhaga e na casa dos avós maternos, com a lezíria, os animais e os pequenos hábitos domésticos, do que no ambiente citadino e mais rigoroso, com a severidade do pai, o pouco afeto da mãe e as casas repartidas.

A “segunda vida” é a de “pequeno burguês realizado e escritor falhado” e versa sobre a totalidade das décadas de 1940 e 1950, de aluno na Escola Industrial a serralheiro no Hospital de São José e empregado de escritório em duas Caixas de Previdência, buscando uma ascensão social (sai de casa dos pais, casa e tem uma filha) e estética (com a descoberta de Pessoa e a obsessão pela escrita). Este período é marcado pelos seus primeiros fracassos editoriais.

A “terceira vida” é a de editor, corresponde à década de 1960 e versa sobre o trabalho de Saramago como editor na Editorial Estúdios Cor, tornando o seu nome publicamente conhecido do meio intelectual, enquanto a “quarta vida” é a de “Saramago jornalista”, e abrange os primeiros anos de 1970, quando é convidado a escrever crónicas no jornal A Capital, se divorcia de Ilda Reis, se apaixona por Isabel da Nóbrega, despede-se conflitualmente da Estúdios Cor, prossegue as traduções e sente-se feliz, porque pela primeira vez na sua vida, com 50 anos, tem tempo para escrever.

A “quinta vida”, a de escritor português, aborda a década de 1980 e, no todo do seu percurso, corresponde à conquista da “cidade” – a realização plena como escritor português e o lançamento da sua obra ao nível internacional, o que conduz à sua “sexta vida”, a de escritor internacional, estatuto que assume a partir de 1991, abandonando as temáticas portuguesas e centrando-se na análise da natureza humana, numa altura em que já estava com Pilar del Rio e em que se muda para Lanzarote.

O último capítulo da biografia, correspondente à “sétima vida” do escritor, debruça-se sobre “Saramago, ele próprio” e acompanha a sua vida desde 1998, ano em que recebe o Nobel e em que se sente plenamente realizado como escritor e cidadão do mundo, até 2010, ano da sua morte.

José Saramago nasceu a 16 de novembro de 1922. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


sábado, 17 de setembro de 2022

Macau - Centenário de Saramago celebrado com exposição, conversas e filmes

Celebram-se em Novembro os 100 anos do nascimento de José Saramago. A vida e obra do escritor, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1998, vão ser comemoradas em Macau a partir do final deste mês. A programação arranca com a inauguração da exposição biobibliográfica “Voltar aos passos que foram dados 1922-2022”, seguida de uma mesa-redonda com a participação do professor Carlos Reis, comissário para o Centenário de José Saramago. Depois disso, e até 16 de Novembro, haverá conversas sobre o escritor e projecção de filmes e documentários, numa iniciativa que envolve o IPOR, a EPM e a USJ. Ao Jornal Tribuna de Macau, Sara Augusto, que está envolvida na organização, disse que é interessante assinalar a data em Macau “pelo apontamento da ‘excelência’ que pode alcançar a literatura portuguesa e a literatura escrita em português”


Assinalam-se a 16 de Novembro os 100 anos do nascimento de José Saramago, mas a comemoração desta data começa mais cedo em Macau, numa colaboração entre várias instituições locais e com o apoio da Fundação Saramago. O comissário para o Centenário de José Saramago, Carlos Reis, que vai ser orador numa mesa-redonda, em formato online, refere, numa mensagem publicada no website da Fundação, que “a efeméride constituirá uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro”, permitindo também prestar uma homenagem à figura do escritor “como cidadão”.

Sara Augusto, docente no Instituto Português do Oriente (IPOR) e que faz parte da organização da iniciativa, disse ao Jornal Tribuna de Macau que são “muitos” os motivos que contribuem para a importância de assinalar esta data. “Em primeiro lugar pela relevância da sua obra literária: os diferentes géneros literários que cultivou, da poesia à narrativa, do conto ao romance, chegando também à literatura para [e pela] renovação literária que levou a cabo, criando um estilo muito próprio que rompe com regras estabelecidas e que deixou marcas na obra de escritores que vieram depois. Vejam-se todos os vencedores do Prémio Literário José Saramago, atribuído desde 1999”, sublinhou.

Apontando que a leitura das obras de Saramago faz parte dos programas escolares e que o escritor “já foi absorvido pela memória colectiva, sendo reconhecido como um dos maiores escritores de Língua Portuguesa do século XX e início do século XXI”, Sara Augusto destacou também a importância, em particular, da iniciativa em Macau. “Em Macau estuda-se e lê-se e também se vê cinema. Estuda-se Saramago nas instituições de ensino e é interessante marcar a data pelo apontamento da ‘excelência’ que pode alcançar a literatura portuguesa e a literatura escrita em português. Além disso, Saramago, ao longo dos seus romances, revelou um cada vez mais apurado conhecimento da vivência e da sociedade humana, capaz de apontar contradições, situações de justiça e de opressão, e de expressar da forma mais impressiva emoções e estados de espírito”.

A programação arranca com a inauguração da exposição biobibliográfica “Voltar aos passos que foram dados 1922-2022”, no dia 29 de Setembro, às 18h30, nas instalações do IPOR, seguida da mesa redonda com a participação, à distância, do professor Carlos Reis. Em destaque estarão a Vida e Obra de Saramago, sendo que a sessão, que vai decorrer no Auditório Stanley Ho, é aberta à participação do público.

Segundo Sara Augusto, a mostra é composta por um conjunto de 15 painéis e conta com selecção e composição de textos de Carlos Reis e Fernanda Costa, e design de André Letria. “Com a exposição ‘Voltar aos passos que foram dados’ […] construímos uma mostra que faz uma ‘viagem’ pela biografia literária de José Saramago. Deduz-se daí uma ‘narrativa’ que nos leva a encontrar ou a reencontrar, em formato expositivo, as obras e o legado cultural e cívico de um grande escritor”, pode ler-se.

Documentários e conversas

Para os dias 30 de Setembro e 7 e 14 de Outubro está agendada a projecção de três filmes: “José e Pilar”, “Embargo” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, respectivamente. As sessões começam às 19h00 e a entrada é livre.

Com abertura marcada para dia 17 de Outubro, a exposição biobibliográfica passará para a Sala Kent Wong, na Universidade de São José (USJ). No mesmo dia e na mesma sala, serão exibidos três documentários da série Herdeiros de Saramago. Segundo a organização, os restantes serão projectados nos dias 18 a 21, com as sessões a começar às 19h00.

Já no dia 26 haverá uma mesa-redonda subordinada ao tema “Herdeiros de Saramago”. Sara Augusto disse a este jornal que esta sessão contará com a presença online de alguns dos escritores que venceram o Prémio José Saramago, no entanto, há ainda informações que não estão confirmadas, pelo que serão disponibilizadas na próxima semana.

E entre os dias 3 e 16 de Novembro, a exposição passará a estar presente na Escola Portuguesa de Macau (EPM). “Durante este período, a Escola tem programadas actividades complementares para os seus alunos, como oficinas de leitura e exibição de filmes, com programa a divulgar posteriormente”, indicou o IPOR.

No último dia, “e porque é no dia 16 de Novembro que se celebra o centenário do nascimento de José Saramago”, a EPM assinala a ocasião com a atribuição do seu prémio literário, o Prémio José Saramago.

A organização cabe ao Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, sendo que a iniciativa é desenvolvida pelo IPOR em colaboração com a USJ e a EPM, com o apoio da Fundação Saramago e do Instituto Camões.

A obra saramaguiana no mundo

Na mensagem que escreve no website sobre o Centenário do nascimento de Saramago, Carlos Reis refere ainda que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura confirmou uma consagração internacional que fez de José Saramago uma personalidade com grande significado, para além das fronteiras de Portugal.

“Assim, Saramago define-se hoje como um ‘escritor do mundo’, com presença expressiva em manifestações artísticas, educativas, políticas e sociais com vasta disseminação e efeitos variados. Incluem-se nesses efeitos os que decorrem da presença da obra saramaguiana no nosso sistema de ensino e na difusão da língua e da cultura portuguesas no mundo”, pode ler-se.

Autor de mais de 40 títulos, Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga. Em 1947 publicou o seu primeiro livro, que intitulou “A Viúva”, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título “Terra do Pecado”. Em 1995 publicou o romance “Ensaio sobre a Cegueira” e em 1997 “Todos os Nomes” e “O Conto da Ilha Desconhecida”. Nesse mesmo ano, foi-lhe atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o Prémio Nobel de Literatura.

As suas obras estão publicadas em mais de 60 países e regiões, incluindo na China Continental, Macau e Taiwan, e traduzidas em quase 50 línguas. Recorde-se que José Saramago morreu a 18 de Junho de 2010, em Espanha, país no qual se auto-exilou. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Peru – José Saramago será homenageado durante a Feira do Livro de Lima

O tema da presença portuguesa na Feira do Livro de Lima, no Peru, que tem Portugal como país convidado, vem de José Saramago, homenageado ao longo do certame, de 22 de julho a 07 de agosto


“O fim de uma viagem é apenas o início de outra”, frase de Saramago, foi “o mote escolhido para a participação de Portugal”, que terá um pavilhão de 160 metros quadrados, “localizado numa zona de destaque do Parque de los Proceres”, onde a 6.ª Feira Internacional do Livro de Lima se realiza, com um espaço de livraria, um auditório e uma exposição dedicada ao Nobel português da literatura, como indica o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua.

Doze autores de língua portuguesa, ou associados à sua divulgação e investigação, entre os quais Afonso Cruz, David Machado, Jerónimo Pizarro, José Luís Peixoto e Margarida Vale de Gato, constituem a comitiva já anunciada, aos quais se juntam o cineasta António-Pedro Vasconcelos e os músicos Marta Pereira da Costa e Pedro Jóia, conforme nova informação da representação portuguesa.

Adélia Carvalho, Ana Filomena Amaral, André Letria, Carla Maia de Almeida, Fernando Évora, Luis Novais e Lauren Mendinueta são os outros autores que fazem parte da comitiva.

A atribuição do doutoramento Honoris Causa da Universidade Nacional Mayor de San Marcos a António Lobo Antunes, conhecida há duas semanas, marcará o dia de abertura ao público da feira do livro, na próxima sexta-feira.

A primeira das três áreas do pavilhão português corresponde a uma livraria, gerida por um livreiro peruano com o apoio de Portugal, com obras traduzidas de autores portugueses e uma mostra de livros em português dos escritores da comitiva, que “serão posteriormente oferecidos a bibliotecas públicas no Peru”, indica o instituto Camões.

O auditório acolherá programação, composta por sessões com os autores convidados, exibição de vídeos sobre cultura e literatura portuguesas, assim como “Portugal enquanto destino turístico”.

A zona de exposições inclui uma mostra dedicada a José Saramago, alusiva ao centenário do seu nascimento, que se assinala este ano.

A participação de Portugal como “convidado de honra” remonta a 2020, ano em que a feira não se realizou, por causa da pandemia de covid-19, tendo sido o estatuto de país convidado transferido para este ano.

A Câmara Peruana do Livro, que organiza a feira internacional, indica que o certame vai contar com mais de 140 pavilhões, e apresenta uma programação que ultrapassa as 600 atividades, 204 das quais destinadas a crianças e jovens.

Haverá ainda 50 convidados estrangeiros, que incluem os 15 portugueses, 17 espetáculos de música, dança e teatro, mais de 30 eventos no âmbito das ciências, e a participação de nove embaixadas.

A presença portuguesa é coordenada pela Equipa Interministerial para as Feiras Internacionais do Livro, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, o Turismo de Portugal e a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), em colaboração com a Embaixada de Portugal no Peru.

Para a sessão inaugural da feira, nesta quinta-feira, é esperado o ministro português dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, que deverá participar igualmente na cerimónia de atribuição do doutoramento Honoris Causa a António Lobo Antunes, a poucos meses da publicação do novo romance do escritor, “O Tamanho do Mundo”, já anunciada para outubro.

A distinção ao autor português é dada pela Universidade Nacional Mayor de São Marcos, fundada em 1551, a principal universidade do Peru e a mais antiga do continente americano. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


terça-feira, 10 de maio de 2022

Brasil - São Paulo e Coimbra formalizam Pólo Europeu do Museu da Língua Portuguesa


O Museu da Língua Portuguesa de São Paulo vai ter um Pólo Europeu em Coimbra. O protocolo de cooperação foi formalizado no último dia 07 pelo presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva, o secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, e o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, João Alegria.

“Estimar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo é desiderato que, para a Câmara Municipal de Coimbra, representa um passo fundamental na afirmação de Coimbra como cidade do conhecimento e da cultura”, referiu José Manuel Silva, presente no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na sessão que decorreu em formato híbrido.

Na programação do Dia Mundial da Língua Portuguesa, o governador de SP, Rodrigo Garcia inaugurou no Museu da Língua Portuguesa a Instalação O Conto da Ilha Desconhecida, em homenagem ao escritor português José Saramago, e também assinalou a assinatura deste protocolo.

“Estamos celebrando a Semana da Língua Portuguesa com duas importantes iniciativas. Por meio de um protocolo de intenção assinado hoje vamos estabelecer um novo Polo do Museu da Língua Portuguesa para a comunidade europeia lá em Portugal, na cidade de Coimbra. E estamos celebrando, com a exposição de José Saramago, grande escritor da língua portuguesa, prêmio Nobel, e que nos inspira com a sua literatura instigante e questionadora”, afirmou Rodrigo.

Na sessão virtual com Coimbra, Sérgio Sá Leitão destacou que “o Museu da Língua Portuguesa não é apenas de São Paulo ou do Brasil, é de todo o mundo lusófono”. “Este acordo é o primeiro passo para a real e definitiva internacionalização da instituição, do seu conteúdo e da sua programação. Penso que, assim, iremos contribuir para uma valorização ainda maior do principal patrimônio cultural da lusofonia, a língua portuguesa”, sublinhou o secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

O secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, João Alegria, que também participou de forma virtual, salientou que “com essa parceria, teremos a oportunidade de ampliar ainda mais as vivências em língua portuguesa em um espaço como o Museu, onde todos os que falam português se encontram e se reconhecem na sua diversidade”.

Um dos objetivos é que o Polo Europeu do Museu da Língua Portuguesa compartilhe propostas de novos conteúdos com a instituição do Governo de São Paulo.

Além de “valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo”, e segundo a Câmara, “representa um passo fundamental na afirmação de Coimbra como cidade do conhecimento e da cultura”, de acordo com o protocolo agora formalizado. O projeto foi iniciado pelo Grupo de Trabalho no âmbito da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027.

O protocolo estabelece que a secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo se compromete a disponibilizar, dentro das suas possibilidades, o conteúdo do Museu da Língua Portuguesa, que esteja com direitos de autor disponíveis para uso em circuito internacional, para ser utilizado no Pólo Europeu do Museu da Língua Portuguesa.

A Fundação Roberto Marinho deve compartilhar o seu conhecimento técnico e know-how para colaborar nos estudos com vista à definição do modelo deste Pólo Europeu, a partir da sua experiência na implantação do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, nas diversas vertentes do projeto (arquitetura, museografia, curadoria, tecnologia, acessibilidade, educativo, comunicação, entre outras). A Fundação vai também divulgar esta iniciativa no seu canal de televisão – Canal Futura -, bem como compartilhar conhecimento técnico para formação de alianças com canais de televisão e outras iniciativas de comunicação com países de Língua Portuguesa.

Já o Município de Coimbra vai promover ações adequadas à prossecução dos objetivos propostos no protocolo, especialmente as relacionadas com o desenvolvimento e planejamento dos recursos necessários e à gestão do Pólo Europeu do Museu da Língua Portuguesa na cidade.

O presidente da Câmara José Manuel Silva também salientou que com a assinatura em Coimbra, no passado dia 21 de abril, do protocolo de cooperação internacional para comemorações oficiais do bicentenário da independência do Brasil, com o Senado Federal do Brasil, a Universidade de Coimbra e a Associação Portugal Brasil 200 anos (Apbra), relativo às ações do projeto internacional multidisciplinar “200 anos, 200 livros”, a cooperação bilateral ganha “uma dimensão mais ágil e reforçada”.

No Museu em São Paulo


Já em São Paulo, a Instalação O Conto da Ilha Desconhecida – aberta pelo governador e na presença do presidente da Assembleia da República de Portugal, Augusto Santos Silva – consiste em uma barca inflável, livremente inspirada na história do livro infantojuvenil de mesmo nome. O público poderá visitar gratuitamente a ocupação até 24 de julho, no Saguão B.

Todo o ambiente foi construído e desenvolvido pela companhia teatral Pia Fraus, que tem uma trajetória reconhecida de performances para o público infantil. Durante todo o período de exposição, será promovida uma série de oficinas e atividades, dialogando com a barca cênica e as temáticas abordadas no livro homenageado e outras obras de Saramago.

O projeto tem como foco as crianças e jovens, que não são considerados leitores assíduos da obra de Saramago, único autor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura. Ele é responsável por clássicos como A Caverna e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. A proposta é proporcionar uma experiência cenográfica imersiva, que poderá ser usufruída de forma lúdica pelo público, principalmente as crianças.

A Instalação O Conto da Ilha Desconhecida é uma parceria do Museu da Língua Portuguesa com a Companhia das Letras, editora de Saramago no Brasil, e a Fundação Saramago em Lisboa, que apoia as ações do centenário do autor em todo o mundo. In “Mundo Lusíada” - Brasil




 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Alemanha - Teo Ferrer de Mesquita, o baluarte da cultura portuguesa

Criada em Frankfurt em 1980, a TFM é a livraria portuguesa mais antiga na Alemanha. Já editou 110 obras lusófonas. O seu fundador, Teo Ferrer de Mesquita, privou com Saramago e Cardoso Pires, e encontrou nos livros a forma de fazer uma revolução sem se meter na política


O amigo de Saramago

Quando o sol nasceu na manhã de 8 de Outubro de 1998, Teo Ferrer de Mesquita ainda não sabia que iria experimentar um dos dias mais memoráveis da sua vida. Pelas 10h, foi levar José Saramago ao aeroporto de Frankfurt; o escritor português tinha sido a atracção da Feira do Livro, a maior do género Europa, e estava então de regresso a Lanzarote, em Espanha, onde a sua companheira Pilar del Rio o aguardava. “Ele disse-me que não precisava de o levar porque sabia que eu estava cheio de trabalho na feira”, recorda Teo Ferrer de Mesquita. “Mas eu já o conhecia há uns bons anos e tinha receio que se perdesse no aeroporto, que é enorme”.

Regressado ao evento, o livreiro português foi surpreendido com a comunicação da Academia Sueca: José Saramago, à época com 75 anos, acabara de vencer o Prémio Nobel da Literatura. Era meio-dia. Sabendo que o avião descolava para Madrid somente às 13h, Teo apressou-se a encontrar uma maneira de avisar o escritor, para que não embarcasse e regressasse ao certame. “Estava lá toda a comitiva portuguesa e a imprensa do mundo inteiro. Mas na altura não havia telemóveis para lhe ligar directamente”, lembra. “Consegui que uma representante do AICEP em Berlim telefonasse para a [companhia aérea] Iberia. Atendeu uma hospedeira que confirmou que Saramago estava na sala de espera, a ler um jornal.

Primeiro, disse que tinha muito para fazer e que não o podia chamar. Mas ele lá veio. Demos-lhe a notícia mas ele não queria voltar para a feira, dizia que a Pilar estava à espera dele e que tinha de ir para Espanha”. Só depois de falar com Pilar e com o seu editor, Zeferino Coelho, Saramago se convenceu a ficar.

Teo foi apanhá-lo ao aeroporto. Na messe (feira), editores, escritores e visitantes portugueses aguardavam à entrada para receber o autor de Ensaio sobre a Cegueira com cravos e ovações. “Mas, sem querer, fiz asneira”, recorda Teo. “Como tinha lugar de estacionamento no topo de um dos edifícios, descemos directamente para o pavilhão das editoras portuguesas sem passar pela entrada. Os primeiros a darem os parabéns a Saramago, depois de mim, foram os espanhóis que estavam lá ao lado”. Os patrícios acabaram por chegar e homenagearam o escritor cantando Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, e com uma chuva púrpura de flores de Abril. O Nobel acabaria por convidar Teo para a cerimónia de entrega do prémio, em Estocolmo, mas o livreiro de Frankfurt acabaria por recusar, para que o galardoado oferecesse a entrada – bastante exclusiva – a alguém mais próximo.

A amizade improvável entre o escritor comunista e Teo, filho de médico oftalmologista nascido na Beira, em Moçambique, em 1945, começou na entrada da década de 80 do século transacto. Nesses tempos, o português que fez de Frankfurt a sua casa era um engenheiro electrotécnico recém-licenciado, em busca de uma forma de dar a conhecer a até então incógnita cultura lusófona aos alemães. A 2 de Maio de 1980, foi a uma repartição de finanças para registar uma livraria que pudesse vender obras de autores portugueses, brasileiros e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Quando lhe perguntaram por um nome, pensou que a empresa era unipessoal, ele e mais ninguém. Então baptizou-a com as suas iniciais: TFM – Centro do Livro e do Disco de Língua Portuguesa. A sua primeira morada foi na Heiligkreuzgasse, bem no coração da capital do estado federado de Hessen. Mas até aí chegar Teo teve de perceber qual a sua forma de participar na revolução sem quebrar uma promessa que tinha feito ao pai.

Viva Portugal!

As guerras pela independência de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra o regime colonial português apanharam Teo a chegar à maioridade. Isso significava que teria de cumprir o serviço militar e, seguramente, ir para a guerra, algo que nem ele nem o pai queriam. O mais velho de cinco irmãos, dois deles doentes com poliomielite, foi aconselhado a seguir os estudos universitários na Europa: “A primeira opção foi Paris mas o meu pai sabia que era aí que estavam os exilados do Estado Novo e que, indo para lá, ia acabar por me meter na política. Receoso, fez-me prometer que não seguiria esse caminho”, conta o livreiro, hoje reformado e a viver no bairro de Benfica, em Lisboa. “Como tínhamos uns amigos alemães em Moçambique, eles sugeriram-nos que eu fosse para Frankfurt”.

Chegou à Alemanha em 1963 e foi para a universidade em Darmstadt, a uma hora de Frankfurt. Até 1969, não pôs os pés em Portugal e teve de se apresentar no consulado luso de seis em seis meses, de modo a mostrar que tinha boas notas para evitar a recruta. “As cartas que recebia da Beira vinham censuradas e os aerogramas abertos. Dava para perceber que a ditadura continuava apertada”, diz. Com a “primavera marcelista”, em 1969, teve a oportunidade de visitar pela primeira vez as suas origens em Lisboa. “Quando regressei à Alemanha, comecei a colaborar com a Amnistia para ajudar prisioneiros políticos”.

A curiosidade de Teo por Portugal era insaciável e a feira literária que se realizava anualmente em Frankfurt dava-lhe uma oportunidade única de privar com editores e intelectuais, cujas conversas eram bem mais politizadas do que as dos operários emigrados. No certame, já todos conheciam o jovem universitário. Na edição de 1968, conheceu Francisco Lyon de Castro, que era editor das publicações Europa – América. “Uma das primeiras coisas que ele me disse foi que eu devia ser um privilegiado porque estava a estudar na Alemanha sem fazer o serviço militar”, recorda. Ficaram a dar-se bem. “Era evidente a diferença da Europa – América, que já tinha editado Jorge Amado e outros autores forçados a passar pela comissão de censura, e da Verbo, por exemplo, que estava mais alinhada com o regime. Castro pertenceu ao PCP, esteve preso e dava-me uma visão do país que eu precisava de escutar”.

O 25 de Abril apanhou Teo já empregado. Como não havia muita gente fluente em português e alemão na cidade, os repórteres da televisão Hessischer Rundfunk convidaram-no logo no dia seguinte para integrar uma equipa de filmagens que ia cobrir os históricos acontecimentos em Portugal. Não hesitou. Solicitou as férias que tinha em atraso e, a 27 de Abril, já estava em Lisboa a actuar como intérprete, motorista e produtor da equipa alemã. Ao longo de mais de um mês, testemunhou a libertação dos presos políticos de Caxias e a entrada nos calabouços dos inspectores da PIDE, a ocupação das terras por parte dos camponeses do Ribatejo e do Alentejo, as primeiras campanhas de alfabetização, a primeira peregrinação a Fátima após a ditadura e a grande festa do primeiro 1º de Maio em liberdade. Pelo meio, contactou muitos jornalistas e artistas portugueses, como Zeca Afonso, Fausto e Sérgio Godinho. O resultado foi “Viva Portugal”, um documentário precioso sobre a infância da democracia no país. “Foi uma experiência tão fascinante que me mudou a vida”, comenta Teo.

De regresso a casa, quis fervorosamente contribuir para aquela importante etapa da vida do país. A sua primeira ideia: ter qualificação pedagógica para ajudar os jovens portugueses a obter cursos profissionais, que lhes permitia aceder a emprego técnico e a melhores salários. Esbarrou contra um muro: “Para tal, eles tinham de deixar de trabalhar durante um período e as famílias opunham-se porque ficavam temporariamente sem salário”, lamenta.

Assim, virou-se de novo para os livros: em Outubro tirava férias só para ir à feira. Ali, começou a pressionar os representantes portugueses: “Era necessário trazer editoras novas e que o objectivo não fosse apenas comprar direitos de obras estrangeiras, mas também vender direitos de títulos de autores nacionais. Havia muita falta de confiança”, afirma. Chegou ao Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB, hoje DGLAB), chefiado por Alçada Baptista, que o começou a ajudar a persuadir autores portugueses a deslocarem-se à Alemanha e a traduzir livros para a língua de Goethe.

Os primeiros passos da TFM foram dados com cautela: “Aluguei uma cave para guardar os livros e batia à máquina um boletim trimestral com as novidades da literatura lusófona”, diz Teo. “A minha intenção era tornar o português numa língua mundial e apostava muito na ideia de que tinha, na altura, 110 milhões de falantes. As ex-colónias eram agora independentes e havia curiosidade. Comecei a importar livros das Edições 70, do Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e do José Craveirinha”. Também disponibilizou manuais escolares de português aos professores, que “se sentiam muito isolados no ensino do idioma”.


Mas Teo também pensava em grande. Em 1982, alcançou a proeza de juntar à mesma mesa, na Biblioteca Central de Frankfurt, José Saramago, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, três dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Saramago e Lobo Antunes, que nunca se deram bem, ficaram em extremos opostos. No meio, estava ainda Ray-Güde Mertin, agente literária de vários autores de língua portuguesa e castelhana, entretanto falecida. “Depois de regressarem a Portugal, ela perguntou-me se eu achava que ela podia agenciar os direitos desses autores. Eu respondi-lhe que sim, porque era isso que faltava aos escritores portugueses”, conta Teo. Ray-Güde acabou por traduzir vários títulos de Saramago e de Lobo Antunes para o alemão. “Quando dei por mim, as coisas tinham mudado”, conclui Teo. “Já não era eu que tinha de escrever às editoras, elas é que me escreviam a mim”.

Livraria de Petra e cal

A nova proprietária da TFM, a alemã Petra Noack, nasceu na Saxónia em 1974, quando Teo andava a dissecar a revolução portuguesa, e estagiou na livraria em 1998, o ano em que Saramago soube em Frankfurt que era Nobel. O primeiro livro em português que leu foi "A Menina do Mar", de Sophia de Mello Breyner Andresen. “Entrei em línguas românicas e achei que havia demasiados alunos a estudarem espanhol. Escolhi português sem ter grande ligação, só para ser diferente, e cedo comecei a desenvolver um fascínio pelo idioma”, diz Petra.

O tempo em que passava as tardes a embrulhar encomendas na antiga loja, que tinha o aspecto caótico e fascinante de um alfarrabista, e tinha de ir ao aeroporto levantar 150kg de livros, já passou. Hoje os serviços de entrega depositam os pedidos no nº 47 da Grosse Seestrasse, em Bockenheim, na zona ocidental de Frankfurt, onde a TFM tem a sua nova casa. De um lado estão os livros de autores portugueses em alemão, do outro traduções de títulos internacionais em português. À entrada, um poster de Sebastião Salgado. Há um cantinho para discos, outro para livros infantis e uma mesa com vinhos portugueses. “O interesse sobre a literatura lusófona é muito de ondas”, refere. “Por exemplo, como Portugal é um destino turístico na moda, há muitos pensionistas a quererem estudar a língua para se mudarem para lá. Há casais a comprarem livros infantis para os filhos acompanharem o português. Este ano Portugal foi o país-tema da feira do livro de Leipzig e fizeram-se quase 50 traduções. E depois há coisas estranhas. Por exemplo, os alemães gostam de romances criminais em países estrangeiros, e um dos livros que temos vendido mais é este Lost in Fuseta – ein Portugal-Krimi [Perdido na Fuseta – um crime em Portugal], de um escritor alemão que assina com o pseudónimo Gil Ribeiro”.

Para além de ter influenciado a tradução de dezenas de manuscritos para alemão, a TFM também tem uma chancela própria com 110 títulos, entre eles edições bilingues de obras de Mário de Carvalho, Manuel Alegre ou José Saramago. O último foi "Sonhos Azuis pelas Esquinas", do angolano Ondjaki, que também já marcou presença na TFM para uma leitura. A liderar o top da editora está há muito tempo "Um Brasileiro em Berlim", de João Ubaldo Ribeiro, segundo Petra Noack “um livro com bastante humor que incide nas diferenças culturais entre a Alemanha e o Brasil”. Um clássico da TFM é também "O Conto da Ilha Desconhecida", de Saramago, cujos direitos o ribatejano ofereceu a Teo como prova do respeito pelo seu trabalho. Já de outras editoras, a tradução para alemão de "O Retorno", de Dulce Maria Cardoso, e "Essa Dama Bate Bué", de Yara Monteiro, têm tido bastante procura nos últimos meses.

A pandemia travou várias iniciativas da livraria, como as tertúlias, as sessões de leitura, concertos e provas de vinho que tinham vindo a ser realizadas com uma enóloga de Colónia: “Ter actualmente 25 pessoas neste espaço reduzido a provar vinho é capaz de não ser boa ideia”, comenta Petra, que ficou a gerir a TFM a partir de 2014, altura em que Teo requisitou o seu merecido descanso. No entanto, mesmo num período em que o encarecimento do papel promete fazer aumentar os preços dos livros, a TFM continua com vendas estáveis, de pedra e cal como o baluarte da cultura portuguesa no centro da Europa. A empresa fornece livrarias por toda a Alemanha, mas também na Suíça, na Áustria e fora do universo germânico, na Holanda, na Croácia, Luxemburgo e Reino Unido.

Petra espera agora o alívio das medidas sanitárias para voltar a organizar as sessões do grupo de leitura e também para involucrar a TFM nas apresentações agendadas para Frankfurt no próximo mês de Outubro, entre as quais a de Itamar Vieira Júnior, vencedor do último prémio Leya.

Mais do que uma livraria

O legado de Teo na divulgação da cultura portuguesa não se cingiu à literatura. Estendeu-se também à música e de uma forma muito peculiar. Vivendo diante da Alte Oper (Ópera Antiga) de Frankfurt, acompanhou e fez donativos para a reconstrução da sala de espectáculos, danificada na 2ª guerra mundial. Quando as obras terminaram, leu com estupefacção num jornal local o agradecimento da autarquia “a todos os alemães que tinha contribuído”. Teo não gostou e protestou junto dos responsáveis da Ópera: “Não foram só os alemães que ajudaram. Muitos estrangeiros residentes em Frankfurt, como eu, também contribuíram para a reconstrução”, disse. Eles foram sensíveis aos argumentos.

Desde 1981 até 2004, colaborou com a distinta sala de espectáculos como mentor cultural para a língua portuguesa no programa Cultura para as Minorias: Carlos Paredes, José Mário Branco, Vitorino, Tito Paris, Milton Nascimento e Amália foram alguns dos reputados músicos que o beirense trouxe à Ópera, sempre com grande sucesso. “O Carlos do Carmo foi o que veio mais vezes até porque falava alemão, fruto dos seus estudos na Suíça”, lembra. Num outro espectáculo, Viena encontra-se com Lisboa em Frankfurt, Teo desafiou o maestro António Vitorino de Almeida a compôr canções para a austríaca Erika Pluhar e para Carlos do Carmo. “Acabou com a Erika Pluhar a cantar fado em alemão”, diz.

O trabalho de Teo e de Petra foi distinguido em 2015 e em 2020 com o Prémio Alemão das Livrarias, para o melhor negócio livreiro do país. “O Teo meteu-se sempre nas sessões de leitura e nos concertos sem olhar para o retorno financeiro. A sua grande obsessão sempre foi a promoção da língua portuguesa e da cultura lusófona”, diz Michael Kegler, tradutor de várias obras lusófonas para alemão, incluindo de Gonçalo M. Tavares e de José Eduardo Agualusa. Gonçalo M. Tavares disse ao jornal I, em 2014: “Sempre que os livros e a cultura portuguesa estavam por perto, Teo estava por perto”. Até Saramago, em Cadernos de Lanzarote, imortalizou a faceta altruísta do fundador da TFM: “O Teo ajuda sempre, acha que nasceu para isso”.

Saramago não deixou de retribuir o apoio do livreiro de Frankfurt. Cinco anos depois do episódio do Nobel, aproveitando uma escala de uma viagem para os Países Baixos, ofereceu-se para realizar uma sessão de leitura na cidade do rio Main. “Fui logo pedir a sala do Volksbildungheim, de 500 lugares, no centro da cidade. Como eram um domingo ao fim da tarde tinha receio de que houvesse pouco público, pois os alemães aos domingos são muito caseiros”, explica Teo. Mas a sala encheu. “Estavam 600 pessoas. Foi um momento que nunca vou esquecer”. Tiago Carrasco – Portugal in “Contacto”