Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 28 de maio de 2025

A polonaise de Hugo Almeida no “Vale das ameixas”

Três linhas são elementos fortes no romance: a imigração dos poloneses, o erotismo e o dom de criar


Há um trecho no romance Vale das ameixas, de Hugo Almeida (Editora Sinete, 2024), em que o narrador adverte: “Um romance é um buraco negro que suga tudo. Mas ilumina a vida” (p. 245). Grande verdade. Iluminado fiquei após a leitura desse livro que, em muitos momentos, também nos dá a sensação de estar num buraco negro, de estar perdendo o fio da meada. Isso porque há um entrelaçar de narradores, embora predomine a voz do polaco Harley Tymozwski, apelidado de Timo, ex-alfaiate e ex-professor, que vive em Belo Horizonte. Figura complexa, às vezes me lembra o narrador de Migo, de Darcy Ribeiro, ou, também, o narrador de Morte em V., de Reinaldo Santos Neves.

O autor, que é um especialista em Osman Lins, aliás muito citado ao longo da obra, principalmente A rainha dos cárceres da Grécia, insere ironicamente esse jogo de alteração de narradores na p. 221, em que um personagem que detém o ponto de vista avisa: “Ah, eu sou o Túlio”. Túlio, Zacarias e algumas personagens femininas vão se alternando num livro repleto de referências a artistas poloneses, como escritores, poetas, pintores cineastas, escultores, prevalecendo a imagem de Chopin. Assim como há vários dados biográficos de Ziembinski, extraídos do livro de Yan Michalski e do de Silvia Czapski. Na p. 227, como se fosse um Avalovara ou Jogo da amarelinha, o personagem Zacarias, filho de Timo, explica a montagem do livro, do qual Túlio também participou. E, através de seu personagem, Hugo Almeida sintetiza: “A descoberta de quem fala é um dos prazeres da leitura de um romance. Surpresas a cada página” (p. 244).

Das várias epígrafes do romance, destaco a extraída do conto “Pentágono de Hahn”, de Nove, novena, de Osman: “Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.”  Daqui, aponto três linhas que vejo como elementos fortes da obra: a imigração dos poloneses, o erotismo e o dom de criar.

São vários os poloneses citados. Polônia, pátria ferida nas duas grandes guerras, tem seus filhos espalhados por outros países. Sua liberdade é golpeada, aliás, desde tempos mais remotos. Por exemplo, o cineasta Andrzej Wajda, em seu filme Danton, intercala Revolução Francesa e época contemporânea ao colocar na boca do personagem a frase: “Um homem sem pão não tem liberdade; nem justiça, não tem nada”. É o que vemos na p. 28, para, logo a seguir, nos surpreendemos pela inserção de versos de Machado de Assis, no poema “Polônia”, de Crisálidas, em que há este trecho: “A mãe via partir sem pranto os filhos [...] / Pobre nação! – é longo o teu martírio; a tua dor pede vingança e termo;/ Muito hás vertido em lágrimas e sangue [...] Não ama a liberdade / Quem não chora contigo as dores tuas”.

Com relação à questão da imigração, há duas passagens bem hilariantes: em uma delas, na p. 158, um polonês em Chicago, num exame oftalmológico, ao ver consoantes aleatórias na parede, afirma que não apenas reconhece as letras, mas conhece quem era aquele cara. E, na p. 219, há o diálogo do protagonista com agente da imigração em Lisboa: “Não podes perman’cer mais do que noventa dias. O quê?! Noventa dias!? Vocês ficaram no Brasil por mais de trezentos anos”. Porém, são pausas para respirar, pois a temática da diáspora é repleta de dor, como se lê na p. 120: “Sim, impossível fechar os olhos, ainda há guerras e guerras, famílias destroçadas, covas rasas e mutilados, crianças sem pais nem país, milhares sem chão nem identidade cultural ou psíquica. Ilegais aqui e acolá. Presos e deportados. O homem segue louco, vil, voraz, um sorvo”.

Contrastando com a guerra, há o núcleo amoroso do livro. As intertextualidades comparecem para sublinhar o tema: “[...] ‘diz que é homem do amor, ouvintes, e não homem da guerra’. Nessa passagem ‘radiofônica’ de A rainha dos cárceres da Grécia, vejo que Osman Lins fez paráfrase de uma fala de Antígona, de Sófocles: ‘Eu não nasci para partilhar de ódios, mas somente de amor!’. Ou, talvez, da frase original, que é de Homero, na Ilíada: Dione, com a filha Afrodite (ou Vênus) ferida no colo, lhe diz ter sido feita para combates de amor, não de guerra” (p. 111).

A temática amorosa aponta para os instantes mais líricos e eróticos do romance, em que Timo evoca suas várias amadas, como Laura: “Laura, Laura, Laura. Sim, sim. Luz, poema vivo. [...] voz que belisca a alma. Gotas de mel no lábio de abelha-beija-flor”. (p. 13). Na p. 95, na esteira de Baudelaire, o protagonista se pergunta: “O que é o amor? Sim, a necessidade de sair de si”. O título do livro, além de acenar metonimicamente para a Polônia, serve como metáfora para o corpo feminino, notadamente os seios, como se lê em algumas passagens, como esta, da p. 178: “[...] mergulha e chora na minha tua aljava, gruta enlouquecida, o teu vale de ameixas rosadas...”.

 As mulheres, ademais, como as passantes de Baudelaire, arrancam de Timo frases assim: “Deus é melhor do que Rodin. Basta olhar algumas moças que passam. Que passos! Que pássaras!” (p. 110). Na p. 122, enfileiram-se as evocações: “Laura, poema vivo, vulcão em repouso. Oh, Laís, meu sonho e meu pecado. Piedade, a fiel Alzira. Léa, Léa do meu devaneio. Éden, mestre que Túlio me trouxe. Núbia de meus sonhos fugazes, permanentes. Loren, Loren, minha febre”. Diga-se, de passagem, que a voz feminina também se ouve, tanto em contraponto erótico (“mergulha e chora na minha tua aljava, gruta enlouquecida, o teu vale de ameixas rosadas”, p. 178), como em reflexões antimachistas (“O homem é uma devastação para a mulher”, p. 129).  Lembro que, entre as mulheres citadas, há uma guerrilheira, assassinada no Araguaia, e que continua a fazer suas denúncias mesmo depois de morta. Na p. 193 há a informação de que “Mulheres que leem são mesmo perigosas”.

Finalizando, destaco o tema da criação, das reflexões sobre o escrever literatura.  Com ressonâncias de Mário de Andrade, lemos, na p. 120: “Quando sinto o impulso poético pulsar, deslizo a caneta sem medo e sai o que meu peito grita. Depois, bem depois, releio, penso e altero alguma coisa, corto ou troco palavras, reviro alguma frase”.  Na p. 123, esta frase, que é uma redenção: “Literatura, pássaro livre”. Das várias reflexões sobre o ato de criar, uma delas diz que “Uma narrativa não é detentora de significação, mas deflagradora de significação. O título de um romance – essa máquina complexa que não nasce de ovo nem útero – deve misturar as ideias, e não orientá-las. Escrever, triunfo da liberdade, solidão fraterna”. (p. 204)

Na p. 199, numa passagem que me lembra Graciliano Ramos estabelecendo analogia entre o fazer literário e o trabalho do sapateiro, o narrador faz relação entre escritor e alfaiate: “Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste das dobras e curvas, não exceder nas medidas”. Não é gratuita na obra uma citação de Julia Kristeva, pois o romance de Hugo Almeida, sendo um mosaico de citações, opera trazendo paráfrases, pastiches, alusões. Por exemplo, ao abordar Catatau, de Leminski, busca em Agora que são elas a frase “Vou lhe mostrar com quantos plágios se faz o original” (p. 113).  Quando Timo escreve que tem uma vida que poderia ter sido mas não foi, logo a seguir fala de sua bandeira, explicitando de quem é o célebre verso. Porém, ao descrever um enterro, na p. 215, parafraseia o poema “Momentos num café”, sem dar dica ao leitor incauto que aquilo era uma paráfrase. Das várias citações, há esta, na p. 88, Celso Adolfo, “E a porta continua proibida a quem precisa entrar”. Se, de um lado, o narrador cita explicitamente autores como Machado de Assis, Flaubert, Leopardi, Wislawa Szymborska, Otto Maria Carpeaux, Joseph Roth, Leminski, Mário de Andrade, W. J. Solha, por outro dá apenas pistas, como na p. 48, ao referir-se a um poeta chamado Vastafala, aluno do célebre Colégio Estadual dos anos 60. Quem conhece Antônio Barreto, sabe que é o título de um de seus livros. Porém, p. 209, cita versos nos quais vejo ressonâncias cabralinas: “Entras nessa sala/ e tudo inundas/ o mar começa/ em teus pés/ são de água/ esses seus passos”. Demorei a encontrar o autor: trata-se de Moacir Amâncio, no livro Câmara escuro, publicado pela editora Hedra.

A obra, enfim, é uma grande e prazerosa dança do espírito, uma polonaise, cuja chave de interpretação está nela própria, como se lê na p. 204: “Onde procurar as chaves de um romance? Nele mesmo. Um texto traz a memória da cultura em que se insere. [...] Concluído o romance, o escritor deveria morrer. Ou calar-se. O livro segue, livre, o seu caminho. Agora é com o leitor”. E, se “os mares nunca descansam” (p. 164), as leituras vêm em incessantes ondas, como o mar. Caio Maciel – Brasil

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Vale das ameixas, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 248 páginas, R$ 65,00, 2024. www.editorasinete.com.br O romance está disponível na Amazon.

Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br

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Caio Junqueira Maciel é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor dos livros de ensaios A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula. Como poeta, entre outros títulos, escreveu Pele de jabuticaba. Autor do romance Um estranho no Minho, fruto do período em que viveu em Portugal.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Inventário do sagrado em Osman Lins

Livro de ensaios do escritor Hugo Almeida estuda a obra do romancista e contista pernambucano 

           I

Exceto Clarice Lispector (1920-1977), nenhum outro romancista ou contista brasileiro contemporâneo talvez tenha tido sua obra tão analisada e discutida como o pernambucano Osman Lins (1924-1978), autor de clássicos como Nove, novena (1966), Avalovara (1973) e A rainha dos cárceres da Grécia (1976), entre outros. Mas, se muito já se escreveu e, especialmente, pesquisou-se no âmbito universitário a respeito de sua obra, nenhum estudioso, com certeza, foi tão a fundo como o jornalista, contista e romancista Hugo Almeida, que acaba de lançar A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins (São Paulo, Editora Sinete, 2024), seu décimo sexto livro e o primeiro de estudos literários. 

Nesse livro, que representa também uma espécie de homenagem à passagem do centenário do nascimento de Osman Lins, o autor analisa e interpreta a evolução de muitos aspectos na obra osmaniana, desde o seu livro de estreia, O visitante (1955), passando por Os gestos (1957) e O fiel e a pedra (1961), além daqueles citados acima, os mais conhecidos e estudados. 

Como observa no texto de apresentação o escritor e editor Harley Farias Dolzane, mestre e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Hugo Almeida oferece uma visão abrangente e meticulosa de toda a ficção de Osman Lins, “com análises claras e acessíveis, que proporcionam uma leitura prazerosa e iluminadora tanto para novos leitores quanto para especialistas da obra do autor”.

Já o editor do livro, o escritor Whisner Fraga, na contracapa, adianta aos leitores que, nesta obra, “os sinos badalam o espiritualismo de personagens e, em consequência, do escritor”. E “representam diferentes obsessões e portam significados intencionais, frutos de um meticuloso planejamento literário conduzido por toda uma vida”. E avisa que não é preciso ser um conhecedor da obra de Osman Lins para apreciar este ensaio livre de Hugo Almeida, “dada a perícia com que o texto foi produzido”.


           II

De fato, estamos diante de um profundo conhecedor da obra osmaniana, pois Hugo Almeida é autor da tese de doutoramento “Osman Lins: a chama grega do cárcere Brasil”, defendida em 2005 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação do professor doutor Valentim Aparecido Facioli (1942-2024), em que analisa aspectos até então pouco estudados de A rainha dos cárceres da Grécia, inclusive com descobertas como citações e intertextualidades com autores clássicos que o próprio autor nunca revelara em anotações, artigos ou entrevistas. Mas nos 12 ensaios que compõem este livro vai mais além, fazendo um levantamento sobre o sagrado em quase toda a obra osmaniana, com exceção do teatro e do ensaio.

Uma dessas argutas observações vê-se no extenso (15 páginas) ensaio “O visitante, mulher de fé e o enviado do mal”, em que o estudioso detecta em quatro passagens do primeiro romance de Osman Lins ecos de Crime e castigo (1866), do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), especialmente do personagem Raskolnikov, jovem ex-estudante que vive miseravelmente em São Petersburgo e mata a machadadas uma velha usurária com a intenção de usar o seu dinheiro para boas causas. 

Mas, seja como for, em todos os ensaios, o que predomina e justifica o título dado ao livro é a intenção do autor de mostrar que o sagrado na obra de Osman Lins não é tratado apenas como religião, fé ou cristianismo. Para tanto, trata de apontar também “paráfrases ou sutis citações bíblicas, aproximações paródicas e outros elementos ligados a questões extrafísicas”. 

Dentro dessa perspectiva, o ensaísta percebeu a obsessão de Osman Lins com o badalar dos sinos e sua ligação com o divino, “um dos mais ricos signos do sagrado”. E registra que os sinos surgem nos seus contos e romances “em momentos quase sempre de alegria, júbilo, de mudança positiva na situação de personagens e intensa felicidade do próprio autor”, pois “nunca dobram em episódios tristes, como no anúncio de morte, nem apenas marcam as horas”. E que até a ausência de sinos é assinalada pelo autor em sua obra, como no romance O fiel e a pedra, em que o narrador afirma que “a hora mais triste era o cair da tarde: não havia sinos”.

Hugo Almeida não deixa de lembrar, porém, que, entre as obras de ficção de Osman Lins, apenas no romance O visitante não há imagens com referências ao badalar de sinos. E acrescenta que O visitante, inicialmente, era um conto e que, se não tivesse crescido a ponto de se tornar um romance, estaria no volume Os gestos, em que há sinos em várias histórias e, portanto, “não haveria livro de ficção do escritor sem a presença de sinos”. Uma presença significativa, aliás, também nos textos de Marinheiro de primeira viagem (1963), que reúne narrativas que contam o périplo do autor por vários países da Europa, em 1961, à época em que permaneceu seis meses em Paris com bolsa de estudos da Aliança Francesa.


                   III  

Um dos ensaios que mais despertam a atenção pela erudição e argúcia do analista é exatamente “O som e a alma de Os gestos” em que destaca a preocupação de Osman Lins com o machismo, ou seja, a submissão da  mulher pelo marido, em quase todos os contos do volume, escritos nos anos 1950, antes, portanto, de uma época, os anos 60 e 70, em que as pessoas do sexo feminino começavam a lutar também pela entrada  no mercado de trabalho e a buscar sua independência econômica, como no romance A rainha dos cárceres da Grécia, mas sem deixar de lado os afazeres domésticos, cumprindo jornada dupla, o que, praticamente, persiste até hoje.

Já no ensaio “Quatro romances, quatro modos de amar”, Hugo Almeida analisa a questão amorosa entre casais e a ascensão das personagens femininas. De início, destaca no livro de estreia do autor, O visitante, uma passagem que narra o encontro entre Celina e Artur que mais parece a descrição de um estupro, já que não há nenhum gesto de afeto do parceiro. Já nas demais obras a experiência sexual envolve dois apaixonados. Mas o ápice, garante, dá-se em Avalovara, onde o erotismo é mais explícito. Seja como for, acrescenta, mesmo as cenas mais fortes nunca deixam de ser poéticas e sagradas – “os casais veem e sentem o corpo do parceiro e o da parceira como se fossem templos”.   

Por aqui se vê que o leitor que tiver a sorte de ter este livro em mãos não haverá de se arrepender, pois, ainda que já tenha tido contato com textos de Osman Lins, irá descobrir aspectos até agora pouco desvendados por críticos e estudiosos da obra de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

 

          IV


Mineiro radicado em São Paulo desde 1984, Hugo Almeida (1952), jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1976, é autor de outros quinze livros, entre eles O vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024), que tem elos com a obra osmaniana; Mil corações solitários (São Paulo, Editora Scipione, 1988), que conquistou o Prêmio Nestlé de 1988 e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 1987 com o título de Carta de navegação; e Certos casais, contos (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021).   

Filho de engenheiro e professora, ele baiano, ela mineira, Hugo Almeida nasceu em Nanuque, em Minas Gerais, mas deixou a cidade natal antes de completar dois meses. Passou a maior parte da infância em Jequié, na Bahia, cidade banhada pelo rio de Contas, que aparece em Viagem à lua de canoa (São Paulo, Nankin Editorial, 2009), reedição de Mais rápido do que a luz (São Paulo, Editora FTD, 1988), livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011. Depois, viveu um ano em Alagoinhas, também na Bahia, e, aos 9 anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte, onde viveu 22 anos e estreou na literatura com Globo da morte, contos (Edição Alternativa, 1975).

Também publicou Em teu seio Liberdade, contos (São Paulo, EMW Editores, 1985), a novela juvenil Porto Seguro, outra história (São Paulo, Nankin Editorial, 2005), os infantis Todo mundo é diferente (São Paulo, Lê Editora, 1996), Pare, olhe, siga: boa viagem (São Paulo, Editora Ícone, 2000), e Que dia será o dia? (São Paulo, Nankin Editorial, 2007), além da novela Meu nome é Fogo (Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2009), de Menino anjo capeta beija-flor (Ananindeua-PA, Edições 1/4, 2019) e dos infantojuvenis Cinquenta metros para esquecer, contos (São Paulo, Didática Paulista, 1996) e de Minha estreia no crime – Estação 111, romance (São Paulo, Lê Editora, 1997), inspirado do massacre do Carandiru, ocorrido a 2 de outubro de 1992, em São Paulo.

É um dos participantes da antologia Quando não estávamos distraídos (São Paulo, Editora Sinete, 2023). Organizou e prefaciou Osman Lins: o sopro na argila (2004), ensaios; e com Rosângela Felício dos Santos organizou Quero falar de sonhos, reunião de artigos do autor de Avalovara (São Paulo, Hucitec Editora, 2014).

Organizou as coletâneas de contos Nove, novena: variações (São Paulo, Olho d’Água, 2016), que reúne narrativas inspiradas na obra de Osman Lins, e Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), obra da romancista e contista Clarice Lispector, que foi incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Cultura, de 2021, para o ensino médio. Profissionalmente, sempre trabalhou como jornalista, com longa carreira na redação do jornal O Estado de S. Paulo. Mantém o site https://hugoalmeidaescritor.com.br/ - Adelto Gonçalves - Brasil

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A voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 204 páginas, R$ 60,00, 2024. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Brasil – Lançamento do livro A voz dos sinos de Hugo Almeida em Belo Horizonte

A voz dos sinos é o décimo sexto livro do ficcionista mineiro Hugo Almeida (1952) e o primeiro de estudo literário.

Jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (1976) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (2005), organizou o volume de ensaios Osman Lins: o sopro na argila (2004) e, com Rosângela Felício dos Santos, Quero falar de sonhos (2014), reunião de artigos do autor de Avalovara. Organizou a coletânea de contos Nove, novena: variações (2016). A Editora Sinete publicou o seu segundo romance para adultos, Vale das ameixas (2024), que tem elos com a obra osmaniana. 

Hugo Almeida vive em São Paulo desde 1984. Editora Sinete – Brasil

“Escutando, não a mim, mas ao logos, é sábio dizer, no sentido do logos: tudo é um.” Essa é uma tradução possível de um fragmento de Heráclito de Éfeso. O filósofo convoca-nos a escutar algo cujo sentido sempre escapa nesse “um” que se desdobra em “tudo” pela linguagem (logos). O pernambucano Osman Lins (1924-1978) levou a sério tal convocação. Sua obra é uma das maiores na literatura brasileira, sempre explorando os limites da expressão humana e as possibilidades do que nos excede.

A pesquisa de Hugo Almeida é também um gesto de se pôr à escuta do sentido que ressoa nas grandes obras de arte. Esta série de ensaios livres apresenta análises detalhadas de temas e atravessamentos intertextuais decisivos para a interpretação da ficção osmaniana: elementos do sagrado, construção de personagens femininas e a configuração do amor no texto literário.

Leitor dedicado e estudioso da obra de Osman Lins, exímio escritor de contos e romances, Almeida oferece uma visão abrangente e meticulosa de toda a ficção de Lins. As análises são claras e acessíveis, proporcionando uma leitura prazerosa e iluminadora tanto para novos leitores quanto para especialistas da obra do autor.

A voz dos sinos é uma contribuição valiosa para os estudos literários brasileiros, especialmente no ano do centenário de Osman Lins. Este livro celebra o talento do escritor e inspira uma nova geração a explorar a riqueza e a profundidade de sua obra. Assim como Heráclito nos convoca à escuta do logos, Hugo Almeida nos convida a ouvir os dobres da linguagem na ficção de Osman Lins, revelando camadas de significado que continuam a escapar, fascinar e propiciar novos percursos na inesgotável procura pelo sentido. Harley Dolzane


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Os sinos não dobraram em vão

Nos ensaios de “A Voz dos Sinos”, Hugo Almeida enaltece e traz à ribalta a voz do escritor Osman Lins, autor de “Avalovara” e “Nove, novena”

Osman Lins (Vitória do Santo Antão, Pernambuco, 1924-São Paulo, 1978) foi um dos mais notáveis, se não, o mais notável dos escritores de nosso pós-modernismo literário. Isto se deveu pela criatividade investida em seus contos, romances, ensaios e por seu espírito combativo, que o fez enfrentar com toda a coragem as mazelas de nossa miséria intelectual com o poder de sua pena e mesmo de sua voz, ainda mais quando teve a oportunidade de praticar o ensino, numa breve passagem pelo magistério superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, em São Paulo, onde lecionou Literatura Brasileira. 

Morto prematuramente aos 54 anos, mesmo assim, deixou-nos um sólido conjunto de obras-primas como O Fiel e a Pedra, Avalovara (romances) e Nove, Novena (contos), entre outras, em que procede a uma renovação sistemática da prosa brasileira. E o mais extraordinário nisso tudo é que soube, como nenhum escritor antes e depois dele, unir as pontas de nossa ficção mais tradicional – de modo específico, em O Fiel e a Pedra – com o que havia de mais revolucionário no plano romanesco – em Avalovara e Nove, Novena. Em ambos os casos, de um lado, soube como evitar as armadilhas de um regionalismo esgotado e entendido ao pé da letra e, de outro, os modismos vazios e inconsequentes do nouveau roman.

Osman Lins sempre levou muito a sério a questão do dever no comportamento do escritor, que, de seu ponto de vista, deveria ter um papel fundamental como ativista cultural, não só assumindo um espírito revolucionário, ao promover mudanças radicais na forma romanesca, mas também e, sobretudo, por fazer sua voz soar como a dos sinos, para despertar as consciências do letargo.

E, em sendo assim, nada de mais louvável que, nos seus 100 anos de nascimento, críticos literários, por meio de simpósios e livros, se proponham a estudar Osman, de modo a fazer que seu sino-voz continue a se fazer ouvir com toda intensidade.

Entre essas atividades ou obras, gostaria de chamar a atenção, aqui, nos limites desta resenha, para o livro de Hugo Almeida – recém-lançado pela editora Sinete (São Paulo, 2024) – A Voz do Sinos, toda ela dedicada ao genial escritor pernambucano.
A Voz dos Sinos – o sagrado, a mulher e o amor (200 p.) conta com doze ensaios, além da Apresentação “Elos sagrados, laços femininos e amorosos”, contemplando toda a obra de Osman Lins, excetuando o teatro e os livros de ensaios, e tem como núcleo da análise a compreensão dos temas viscerais do autor. 
Para levar a cabo tão ambiciosa tarefa, Hugo utiliza como metáfora recorrente – elo de ligação, a seu ver, entre as obras do autor e os ensaios críticos sobre o escritor – a do sino, um instrumento musical que, como se sabe, é e não é ligado ao sagrado. Quando não o é, esse instrumento de percussão é utilizado para dar sinais de alerta, conclamar a coletividade para alguma notícia (principalmente nas pequenas e mais antigas comunidades), servir como relógio e, quando o é, presta-se a anunciar festejos religiosos, chamar para a missa e demais atos religiosos, para marcar horas santas e, sobretudo, para dar o triste rebate para os finados.
Essa metáfora está presente não só no título do livro de Hugo, como também é perseguida ao longo da maioria dos ensaios. Isso porque nos remete para uma voz que – como um sino – procura se alçar acima dos homens, como espécie de nume sagrado e protetor, mas não só isso, pois, acima de tudo, terá como função acordar as consciências para tentar fazer que elas superem a força da tirania pelo amor pleno, tanto no plano do erótico, como no do sagrado.
E o curioso é que, como aponta o ensaísta, essa voz-sino, que se alteia com toda coragem e determinação, provocou, e muito, alguns luminares de nosso acanhado, medíocre, meio cultural, escandalizados que foram pela criatividade “insolente” de Osman. Afinal, o escritor pernambucano implodiu o convencionalismo, tanto do romance, quanto do conto, por meio de ousadias, entre elas, a de incorporar signos gráficos aos signos verbais (como em Nove, Novena), a de transformar os enredos em verdadeiros puzzles e a de subverter as dimensões de espaço e tempo (como em Avalovara e A Rainha dos Cárceres da Grécia). Contudo, como se pode observar, na ficção de Osman, tais experimentos não visavam tão-só a épater le bourgeois, como aconteceu com certa ficção novidadeira frequente até demais em nossas letras. Pelo contrário, todos os recursos estilísticos, utilizados com rara competência, visavam a fazer um hábil constructo, cuja finalidade era albergar epifanias, que eclodiam em momentos especiais, necessitando, pois, de revoluções tanto na forma, quanto na estrutura romanesca.
Assim, o caráter revolucionário do romance de Osman Lins, que Hugo Almeida ilustra à saciedade em seus ensaios, seria o produto da voz-sino, utilizada para despertar as consciências, fazer que elas igualmente pudessem participar dessa comunidade de iluminados. Isso não impediu, muito pelo contrário, que o escritor fosse vítima de críticas maldosas, entre elas, a de Wilson Martins, como Hugo demonstrou no ensaio “Infinito, eternidade e amor em Avalovara”, a que Osman deu resposta, com a ironia que lhe era peculiar. Mas o tempo, senhor da razão, acabou por esconder ou esquecer a mediocridade dos críticos e fazer que seus romances e contos inovadores se tornassem clássicos de nossa literatura.

O que também chama a atenção nesse conjunto de ensaios de Hugo Almeida, uma mais que justa homenagem ao autor de Avalovara, é a forma pela qual se fez a abordagem, em ordem cronológica, dos romances, livros de contos, experimentos ficcionais. A começar que o autor recusa o academicismo estéril, ao assumir um diálogo profícuo com as obras do autor contempladas no livro e, acima de tudo, com o grande número de críticos e ensaístas que consagraram seu tempo a examinar a ficção de Osman Lins. Assim, cada ensaio conjumina vozes que se alternam, para compor uma tessitura de análises, valorações, de modo a se evitar, por meio do enriquecedor pluralismo, a predominância da voz e opinião únicas, que teriam o condão de apontar apenas para um ponto de vista, em detrimento dos muitos que se intercalam nas páginas iluminadoras deste livro.
Com base nisso, pode-se dizer que, de certa forma, Hugo mimetiza, com esta sua generosa e peculiar abordagem da obra de Osman, o pluralismo narrativo do autor de Avalovara ou de Nove, Novena, deixando assim sua voz em segundo plano, para enaltecer e trazer à ribalta a voz do escritor que gerou sua fala. Parafraseando Vieira, Hugo Almeida seria um pregador exemplar pois, recusando os penduricalhos formais, que chamariam a atenção para si, para o seu brilho enquanto crítico, em detrimento da obra a ser analisada, humildemente escolhe como veículo de comunicação uma prosa límpida, direta, para fazer brilhar, acima de tudo, a aura de nosso escritor maior. Álvaro Gomes - Brasil
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A Voz dos Sinos, de Hugo Almeida. São Paulo: Editora Sinete, 200 páginas, R$ 60,00, 2024. Site: https://www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com
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Álvaro Cardoso Gomes, Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP), autor de romances: Os Rios Inumeráveis, Concerto Amazônico, Panarquia e de ensaios: O Simbolismo: uma revolução poética, A Poesia como Pintura.