Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Borges, sob o olhar de Emir Rodríguez Monegal

A ausência de uma tradução em português desta biografia do escritor argentino é uma prova da indigência cultural brasileira                                

                                                                                    

                                                               I

Uma prova da assustadora indigência cultural que assola o País é o fato de a publicação de Borges: una biografía literaria (Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1987), do crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), nunca ter despertado o interesse de uma editora brasileira. Um processo de emburrecimento coletivo que, nos últimos tempos, só se tem acelerado com a invasão dos meios digitais, cujo exemplo dos mais representativos é o fato de a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), que sempre publicou obras importantes, ter sido extinta como editora de livros impressos em 2021.

Trata-se de uma obra que procura contar a história de vida do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), constituindo uma experiência das mais inauditas, pois foge a todos os padrões que se conhece. Foi lançada originalmente em inglês (Jorge Luis Borges: a literary biography), pela editora norte-americana E. P. Dutton, de Boston, em 1978, em tradução do jornalista uruguaio Homero Alsina Thevenet (1922-2005), realizada a pedido do autor, e ganhou em 1983 uma tradução em francês. Depois de lançada pela editora mexicana, a obra ainda recebeu segunda edição em 1990. E, hoje, constitui uma raridade que só se encontra à venda no site da empresa de tecnologia e comércio eletrônico Amazon, a um preço estratosférico.    

De fato, ao contrário das grandes biografias que geralmente abordam a vida e a obra de um escritor já falecido, este livro de Rodríguez Monegal foi escrito ao tempo em que o biografado estava vivo. Curiosamente, o biógrafo, mais jovem 22 anos, faleceu em 14 de novembro de 1985, antes do biografado, que morreu a 14 de junho de 1986. Por isso, em algumas partes do livro, fala-se de Borges como se ele estivesse vivo. Além de recuperar entrevistas que o escritor deu ao longo da vida, inclusive uma que concedeu ao grande jornalista brasileiro Leo Gilson Ribeiro (1920-2007), publicada pela revista Veja, em 26/7/1970, o biógrafo conversou pessoalmente com a mãe de Borges, em 1971. Sem contar que foi amigo pessoal de Borges, que, inclusive, citou-o em seu conto La otra muerte, que faz parte do livro El Aleph (1949).

 

                                                              II

A obra começa por mostrar os primeiros anos de Borges, que em criança era chamado de Georgie pelos familiares e amigos, sem deixar de fazer um retrospecto a respeito de seus antecedentes, entre os quais um bisavô materno, o coronel Manuel Isidoro Suárez (1799-1846), lembrado como “o herói da batalha de Junín” por ter comandado tropas de cavalaria peruanas e colombianas em suas guerras de independência, passando por seus genitores, o advogado e professor Jorge Guillermo Borges (1874-1938) e a tradutora Leonor Rita Acevedo Suárez (1876-1975), que ainda viviam com os pais quando Georgie nasceu. A preocupação dos pais de Georgie teria sido principalmente com os olhos do rebento, já que a cegueira era endêmica na família. De fato, essa debilidade acabaria por perseguir Borges, principalmente a partir dos 40 anos de idade.   

O pai de Borges se aposentara cedo devido a uma cegueira quase total e, em 1914, decide passar uma temporada com a família na Europa, instalando-se em Genebra, depois de fugazes passagens por Londres e Paris. Na Suíça, o futuro escritor descobre a literatura francesa, especialmente Victor Hugo (1802-1885), Émile Zola (1840-1902), Voltaire (1694-1778), Gustave Flaubert (1821-1880), Guy de Maupassant (1850-1893) e Charles Baudelaire (1821-1867), e a inglesa, além de aprender alemão e ler filósofos famosos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por meio de uma tradução em alemão, descobre também o poeta norte-americano Walt Whitman (1809-1892), que o haveria de impressionar sobremaneira, a ponto de passar a imitá-lo, como confessa em sua autobiografia.

Cinco anos depois, a família se radica em Mallorca, na Espanha, transferindo-se depois para Sevilha, onde ele começa sua vida literária, que haveria de se intensificar ao mudar-se para Madrid, onde conheceria muitos poetas, especialmente Rafael Cansinos Asséns (1883-1964), que seria seu mestre, e Guillermo de Torre (1900-1971), que haveria de se casar com sua irmã, a artista plástica e crítica de arte Norah Borges (1901-1998). Em 1921, retorna a Buenos Aires e passa a participar de um grupo de poetas sob a liderança do escritor Macedonio Fernández (1874-1952), companheiro de estudos de seu pai, Jorge Guillermo, que também tivera aspirações literárias.  A essa época, o pai começa a escrever uma novela, que não agradaria muito ao filho, que já passara a ter projetos literários próprios. Viviam numa casa localizada na rua Bulnes, não muito distante do bairro de Palermo, onde o futuro escritor passou a desenvolver o hábito de caminhar pelas ruas de Buenos Aires, só ou na companhia de amigos.

 

                                                        III

Em 1923, publica, em edição de autor, Fervor de Buenos Aires, reunindo poemas que escrevera nos dois anos anteriores, com capa de Norah Borges. A partir daí, sua carreira literária deslancha, com a publicação de outros livros, como Luna de enfrente (1925), poemas, e Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928), três livros de ensaios que excluirá de suas Obras completas (1952). Por essa época, abandona o estilo neobarroco de sua juventude para aproximar-se do classicismo que haverá de marcar a sua obra na maturidade. Mas ainda encontra ânimo para escrever uma biografia de Evaristo Carriego (1883-1912), poeta popular argentino que costumava visitar aos domingos a casa de seus pais quando ele era criança.

Nos anos 30, ainda produz outro livro de ensaios, Discusión (1932), e conhece o escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que seria seu discípulo e amigo fraterno. Já em 1933 a revista Megáfono dedica um número a sua obra, com artigos de escritores latino-americanos e espanhóis. Já consagrado como poeta e ensaísta, publica resenhas de livros, traduções e relatos supostamente autobiográficos. De 1935, é o seu livro Historia universal de la infamia, coletânea de narrativas que já haviam sido publicadas na revista Crítica, de Buenos Aires.

 

                                                     IV

Como observa Rodríguez Monegal, na véspera do Natal de 1938, já morto o pai em consequência de uma hemiplegia em função de um acidente vascular cerebral (AVC), o poeta, prejudicado por sua visão já falha, bate a cabeça numa janela, sofrendo um ferimento que infeccionou e produziu uma septicemia que quase lhe custaria a vida. A partir daí, segundo o biógrafo, começa a escrever narrativas francamente fantásticas. E passa a depender da ajuda de sua mãe, tal como fizera seu pai, já que se vai ficando gradualmente cego.

Em 1941, publica El jardín de los senderos que se bifurcan, narrativas fantásticas, e Antologia poetica argentina, com Bioy Casares e Silvina Ocampo (1903-1993), além de fazer traduções, nos quais se inclui a que fez de Las palmeras salvajes, do norte-americano William Faulkner. Em 1942, publica Seis problemas para don Isidro Parodi, contos policiais, com Bioy Casares, sob o pseudônimo H. Bustos Domecq, No ano seguinte, sai Poemas, que reúne sua obra poética até essa data.

Um episódio curioso da vida de Borges que Rodríguez Monegal recolhe é aquele em que, ao tempo do governo populista e autoritário de Juan Domingo Perón (1895-1974), o poeta é destituído de seu cargo na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, sendo “promovido” a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais, o que o levaria a pedir demissão do emprego público. Para sobreviver, passaria a fazer conferências e ditar cursos, sendo por isso vigiado por agentes da polícia política. Dá à luz outros livros em colaboração com Bioy Casares e, em 1947, publica, por sua própria conta, Nueva refutación del tiempo, ensaio fundamental em que argumenta que o tempo é uma ilusão e que seria recolhido em Otras inquisiciones (1952).

Com a queda de Perón em 1955, o novo governo nomeia Borges diretor da Biblioteca Nacional, atividade que divide com a função de professor de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, a partir de 1956. Escreve outros livros em colaboração com Bioy Casares, mas logo terá de abandonar a escritura, em razão de sua cegueira crescente.

Com isso, lentamente começará a aprender a compor textos de memória e a ditá-los para “familiares, amigos, colaboradores, entrevistadores, críticos e até inimigos”. Mesmo quase cego, começa a ficar conhecido em todo o mundo ocidental e é convidado a dar um curso na Universidade de Texas, em Austin, em 1962. No ano seguinte, aparecem nos Estados Unidos e Inglaterra dois livros seus em tradução: Ficciones e Labyrinths. Ainda em 1962, profere conferências em Inglaterra, Escócia, França, Espanha e Suíça. E continua a publicar livros, alguns em colaboração com Bioy Casares e María Esther Vázquez (1937-2017), que fora sua namorada no início dos anos 60 e que também publicou uma biografia do poeta dez anos depois de sua morte (Borges: esplendor y derrota).

 

                                                     V

A 21 de setembro de 1967, aos 68 anos, casa-se com a escritora Elsa Astete Millán (1910-2001), então viúva, que conhecera em sua juventude, quando ela tinha 17 anos, e que deixara de ver por mais de trinta anos. Aliás, apesar de solteirão, Borges, embora tímido, segundo o biógrafo, teria acumulado várias aventuras amorosas. Rodríguez Monegal ressalta que, na maior parte de sua obra, o sexo não aparece, ou melhor, “assim como o sexo está tecido na textura de seus sonhos, também está na textura das citações com que emascara sua voz privada”.   

Naquele ano viaja com sua mulher para os Estados Unidos, onde dá várias conferências. Em 1968, o casal vai até Israel, onde o poeta dita conferências em Tel Aviv. No retorno, em 1969, é homenageado por escritores argentinos pela passagem de seus 70 anos. Em 1970, publica El informe de Brodie, contos. Naquele ano, em outubro, divorcia-se de Elsa. Visita o Brasil para, em São Paulo, ganhar um prêmio oferecido pelo governo do Estado. Em enquete feita pelo jornal italiano Corriere della Sera obtém mais votos como candidato ao Prêmio Nobel do que o premiado escritor russo Alexander Solzhenitsyn (1928-2008). Aliás, a Academia Sueca nunca lhe distinguiria com o prêmio, o que só haveria de contribuir para o desprestígio da instituição.

Faria novas viagens aos Estados Unidos, Europa e Israel, onde receberia o Prêmio Jerusalém em 1971. Em 1975, publicaria três obras fundamentais: El libro de arena, contos fantásticos; La rosa profunda, poemas; e Prologos, que reúne textos de apresentação que escrevera para livros de outros autores. Nesse ano, morre aos 99 anos sua mãe, depois de uma agonia de dois anos.  Até então, ela “passara a ser os seus olhos”. Por essa época, o poeta teria conhecido a escritora Maria Kodama (1937-2023), que passaria a trabalhar como sua secretária. Com ela, viaja para visitar a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A partir daí, as viagens, as homenagens, os prêmios, os simpósios, os doutorados honoris causa e novos livros haveriam de se multiplicar.

A 27 de março de 1983, o jornal La Nación, de Buenos Aires, publica o relato “Agosto 25, 1983” em que profetiza o seu suicídio nessa data. Mas não cumpre o prometido, tendo respondido mais tarde a um jornalista que não o fizera “por covardia”. Nesse mesmo ano, visita a Espanha em companhia da secretária Maria Kodama e do biógrafo Emir Rodríguez Monegal para dar conferência na Universidad Internacional Menéndez Pelayo e receber a Gran Cruz de Alfonso El Sabio. Por fim, em 26 de abril de 1986, casa-se com Maria Kodama no Paraguai e o casal instala-se em Genebra, mas, pouco depois, em 14 de junho, o escritor morre de câncer hepático.  Maria Kodama seria a única titular de seus bens após a sua morte.

           

                                                              VI


Nascido na cidade de Melo, Emir Rodríguez Monegal, um dos mais influentes críticos literários do século XX, atuou a partir de 1969 como professor de literatura contemporânea latino-americana na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Em Montevidéu, foi professor de literatura no Instituto Artigas e no Instituto Alfredo Vázquez Acevedo. Recebeu bolsa de estudos na Universidade de Cambridge por parte do governo britânico. Além da biografia de Borges, publicou obras sobre figuras literárias fundamentais da literatura hispano-americana como os chilenos Andrés Bello (1781-1865) e Pablo Neruda (1904-1973) e os uruguaios Horacio Quiroga (1878-1937) e José Enrique Rodó (1871-1917).

Foi também jornalista profissional, tendo sido editor da seção literária da revista Marcha, de Montevidéu, de 1944 a 1959. Entre 1966 e 1968, foi fundador e editor de Mundo Nuevo, revista literária em espanhol publicada em Paris, que chamou a atenção internacional para os escritores que compuseram o que ficou conhecido como o "boom do romance latino-americano": Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos Fuentes (1928-2012), Mario Vargas Llosa (1936-2025), José Donoso (1924-1996) e outros. Também ajudou a lançar as carreiras de escritores como Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993) e Manuel Puig (1932-1990), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Borges, una biografía literaria, de Emir Rodríguez Monegal. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 477 páginas, R$ 2.398,00 (Amazon), 1987. 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br






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