Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Moçambique - Nwanalobi Oleru lança livro de estreia “Rapsódias dum Sol Peregrino” na cidade da Beira

A Casa do Artista, na cidade da Beira, recebe no próximo dia 11 de Dezembro, às 18 horas, o lançamento do livro Rapsódias dum Sol Peregrino, obra de estreia de Nwanalobi Malachy Oleru, M.Afr. A sessão contará com a apresentação do académico Nelson Moda.


Em nota de prefácio, o escritor Adelino Timóteo afirma que Rapsódias dum Sol Peregrino “não é obra de ocasião, mas de vocação”, destacando que o autor “inscreve não apenas os passos de um corpo errante, mas as feridas de uma alma visionária, entrelaçando o drama da negritude, a esperança da fé e o peso da história africana recente”. Timóteo descreve ainda o livro como “um mapa lírico de um espírito em trânsito entre guerras, terras santas e desertos interiores”.

Para a escritora Susana Espada, que assina a contracapa, a obra distingue-se por versos livres marcados por identidades e referências africanas. Com uma métrica ampla, associada ao Modernismo português, o livro propõe “repensar a África, o dualismo cultural, o desconhecido, a miscigenação racial e a alteridade das coisas”, constituindo uma reflexão profunda sobre o presente e o futuro do continente, referido como “Berço da Humanidade”.

Nwanalobi Malachy Oleru, M.Afr. é da etnia Igbo, da África Ocidental, nascido em 1960. É padre missionário católico, membro da Sociedade dos Missionários de África, também conhecida como os “Padres Brancos”. Tem exercido o seu ministério missionário no Zaire, Inglaterra, Irlanda, Gana, e encontra-se actualmente em Moçambique. Mestrado em Estudos de Desenvolvimento, fala fluentemente sete línguas e possui conhecimentos básicos  de outras duas.

Nelson Moda, nascido em 1984, no distrito de Nhamatanda, província de Sofala, é vice-presidente da Comunidade de Sant’Egídio, tradutor ajuramentado, docente e investigador na Universidade Católica de Moçambique (UCM). Publicou os livros Xirico – Vozes de paz em Moçambique (2022) e Xibalo – Quando Moçambique era província (2025). Também é colunista nos jornais Diário de Moçambique e Notícias. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


terça-feira, 29 de julho de 2025

Brasil - Editora Rua do Sabão recebe o escritor moçambicano Adelino Timóteo

O renomado escritor moçambicano Adelino Timóteo desembarca no Brasil para uma agenda literária que reafirma os laços históricos e culturais entre África e Brasil. O autor será o convidado de honra da Festa Literária de Irecê (Flirecê), no interior da Bahia, e também participará de uma mesa especial, dedicada à sua trajetória e obra, na Casa Motiva, em Salvador, na Flipelô (Festa Literária Internacional do Pelourinho).


Durante sua passagem pelo Brasil, o autor lançará "Nós, os do Macurungo", publicado pela Editora Rua do Sabão. O novo livro chega após o sucesso comercial de suas obras anteriores no país, "Os oito maridos de Dona Michaela da Cruz" e "A biblioteca debaixo da cidade", que conquistaram leitores e ampliaram o reconhecimento de sua literatura entre o público brasileiro. A obra que será lançada no Brasil é ambientada em um dos bairros da cidade da Beira, o Macurungo, mergulhando em memórias coletivas e individuais marcadas por afetos, perdas e resistências. Com uma prosa poética e intensa, Adelino Timóteo amplia o alcance da literatura moçambicana, oferecendo um retrato íntimo e profundo da vida em um bairro africano.

Segundo Heider de Assis, gerente de comunicação da Editora Rua do Sabão: “A visita de Adelino Timóteo reafirma o compromisso da Rua do Sabão com o intercâmbio cultural entre os países lusófonos e oferece ao público brasileiro a chance de se conectar com uma literatura marcada pela força da memória, da identidade e da linguagem. A presença do autor na Bahia — estado que é símbolo da herança afro-brasileira — representa um momento de celebração e reconexão.”

Nós, os do Macurungo

Em Nós, os do Macurungo, o moçambicano Adelino Timóteo compartilha suas memórias da infância vivida no bairro Macurungo, na cidade da Beira. A localidade aparece como esplendorosa síntese e amostra de todo o país, refletindo as mentalidades, os hábitos e os tipos humanos de uma época crucial na história de Moçambique. O livro é mais do que um relato pessoal; é uma tentativa de resgatar e preservar a memória coletiva de um período esquecido ou negligenciado pela sociedade contemporânea.

Editora: Editora Rua do Sabão

• Data da publicação: 8 agosto 2025

• Edição: Português

• Número de páginas: 200 páginas SERVIÇO: Festa Literária Internacional de Irecê (Flirecê) Data: [31 de julho até 3 de agosto] Local: Irecê/Bahia Mesa na Casa Motiva – Flipelô Data: 08 de Agosto Local: Salvador/Bahia

Mais informações e agendamento de entrevistas:

comunicacao@editoraruadosabao.com.br


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Moçambique - Centro Cultural Português na Beira presta homenagem a Adelino Timóteo

O Centro Cultural Português na Beira vai, no próximo dia 18 de Julho, prestar uma homenagem ao escritor e artista plástico Adelino Timóteo. O evento contará com familiares, amigos e seguidores do percurso extraordinário do artista.


Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira, em Moçambique. Formou-se em Língua Portuguesa, mas nunca foi professor. Mais tarde, licenciou-se em Direito. Em 1994, na Beira, ingressou na área do jornalismo, tendo passado pelo Diário de Moçambique, pelo semanário Savana e ainda pelo semanário Canal de Moçambique.

Ao longo dos últimos 30 anos, Adelino Timóteo tem construído e consolidado uma carreira notável, demarcando-se como escritor e artista plástico no panorama nacional e internacional.

Adelino Timóteo, o escritor, tem 26 obras publicadas, entre poesia, romances e biografias históricas. Começou com “Os segredos da arte de amar” (Maputo: AEMO, 1998). Ilustrativamente, destacamos “A Virgem da Babilónia” (Maputo: Texto, 2009), a tríade lançada em 2013 com a chancela da Alcance Editores “Não chora Carmen”, “Nós, os do Macurungo” e “Livro Mulher” e terminamos com os últimos três títulos, designadamente “A biblioteca debaixo da cidade” (2023), “Jorge Jardim: o ano do adeus ao ultramar” (2024) e “Regresso ao sagrado Macurungo” (2025).

Adelino Timóteo, o artista plástico, conta com 26 exposições, em várias cidades de Moçambique, tendo exposto, ainda, na Espanha e na Áustria. Começou, em 1994, com uma exposição coletiva com os artistas Ferrão, Silva e Sitoe, na Casa Provincial de Cultura de Sofala. Em 2001, expõe pela primeira vez a título individual no Clube Náutico da Beira. Em 2013, o artista apresenta a “Exposição Msiro”, na Galiza, na Espanha e, no mesmo ano, apresenta a exposição individual “Mussicanas do Macurungo” no Centro Cultural Português na Beira. Atualmente, por ocasião dos seus 30 anos de carreira, encontra-se em exibição a sua última exposição de pintura intitulada “As Meninas da Rua 6 e outras”, na Casa do Artista, na Beira.

Timóteo recebeu, em 1999, o prémio anual do Sindicato Nacional do Jornalismo, pela melhor Crónica Jornalística. Em 2021, foi galardoado com o Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos). Em 2011, recebeu o Prémio BCI/AEMO 2011 pela obra “Dos frutos do amor e desamores até à partida” e, em 2013, recebeu o “Melhor Escritor da Cidade da Beira”, Moçambique.

O escritor e artista plástico também foi distinguido pela “excelente e inquestionável qualidade de sua obra” (2015), pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD), Lisboa, Portugal. Adelino Timóteo foi homenageado pelo ISPO (2004), pelo Conselho Municipal da Beira (2007) e pelo Conselho Municipal de Quelimane (2015).

No passado dia 05 de Junho, o escritor e artista plástico celebrou os seus 30 anos de carreira na Casa do Artista e, no dia 18 de julho, às 18h, será homenageado no Centro Cultural Português na Beira. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Moçambique - Adelino Timóteo celebra 30 anos de carreira com exposição e lançamento de livro

O escritor e artista plástico Adelino Timóteo inaugurou, ontem, quinta-feira, na Casa do Artista, na Cidade da Beira, a sua nova individual de pintura, “As Meninas da Rua 6 e outras”. No mesmo evento, o autor também lançou o seu mais recente livro: “Regresso ao Sagrado Macurungo”


Há 30 anos, Adelino Timóteo iniciou o seu percurso artístico. Como poeta e escritor, o artista publicou vários livros. Entre os quais, “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique” (poesia), “Corpo de Cleópatra” (poesia), “A virgem de Babilónia” (romance), “Apocalipse dos predadores” (romance), “Cemitério dos pássaros” (romance) ou “Na aldeia dos crocodilos” (infanto-juvenil).

Para assinalar os 30 anos de carreira artística, com efeito, Adelino Timóteo inaugurou a sua mais recente exposição de pintura, intitulada “As Meninas da Rua 6 e outras”.

A cerimónia de abertura da mostra decorreu na Casa do Artista, na baixa da Cidade da Beira. No local, os apreciadores das artes tiveram a oportunidade de ver obras que, além do estético, atravessam a realidade moçambicana de forma transversal. Afinal, segundo o ensaísta e jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da mostra, “Adelino Timóteo é um artista da sensibilidade, da observação que se mescla com a intuição experimental no território dos afectos”. E o ensaísta acrescenta: “o artista transforma o pó num recurso além do intencional. Ora configurando esperança ao lusco-fusco, ora hipnotizando qualquer coração que possa estar amargurado”.

“As Meninas da Rua 6 e outras” é a 19.ª exposição individual do autor, e reúne dez obras recentes, evocando memórias femininas, infância, resistência e beleza no quotidiano moçambicano.

De acordo com o comunicado de imprensa, as telas, de grande expressividade visual e poética, recriam um universo sensível ancorado nas ruas do bairro onde o artista cresceu: Macurungo.

Adelino Timóteo, que já expôs na Áustria e em Espanha, é autor de uma vasta obra que transita entre as artes plásticas e a literatura, sendo reconhecido como uma das vozes mais activas da sua geração. Talvez, por isso, o artista vai celebrar os seus 30 anos de carreira artística tendo lançado, na mesma cerimónia, na Casa do Artista, o seu mais recente livro, o 24.º da conta pessoal: “Regresso ao Sagrado Macurungo”. Trata-se de uma obra que complementa um exercício anterior, “Nós, os do Macurungo” (2013).

Na nova obra, Adelino Timóteo retoma o fio narrativo das suas raízes, numa escrita que cruza memória, oralidade e devoção ao território emocional da infância.

Na Casa do Artista, o evento, aberto ao público, marcou um ponto alto na celebração da cultura moçambicana, homenageando a Cidade da Beira e o seu universo simbólico. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Portugal – Escritor Adelino Timóteo faz o lançamento em Lisboa do livro “Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” depois de várias apresentações em Moçambique


No próximo dia 02 de Dezembro, a partir das 15 horas, o escritor Adelino Timóteo lança o seu mais recente livro “Jorge Jardim – o ano do adeus ao ultramar” na Livraria Castro e Silva, na cidade de Lisboa, depois de ter apresentado no seu país, Moçambique, no passado mês de Abril.

Adelino Timóteo pretende fazer do livro “Jorge Jardim – o ano do adeus ao ultramar”, com material original, um raio de luz na procura de iluminar os acontecimentos do pós-25 de Abril de 1974 na antiga colónia portuguesa de Moçambique. Baía da Lusofonia


Sinopse

Esta obra pretende-se um farol, com material inédito, buscando iluminar os acontecimentos do pós-25 de Abril de 1974, assim como o episódio trágico de 7 de Setembro, em Lourenço Marques, do mesmo ano. Com enfoque no Engº Jorge Jardim, trata-se de um ângulo inédito e distinto de contar também sobre os derradeiros momentos da luta armada de libertação e os demais acontecimentos que lhe sucederam, vinculando-o a uma tentativa humana e de redenção de se acercar à FRELIMO, através do «Programa de Lusaka», com que buscava evitar a debandada de 250 mil brancos de Moçambique.  

Debaixo da lenda desta personalidade e com informação devidamente contextualizada, o autor esmiuça os factos, que marcaram o fim do Ultramar português e a emergência de um novo conflito, debaixo da consigna da guerra fria.  

Afamado como uma das mais ímpares e insignes personalidades da África Austral, purgado pela Junta de Salvação Nacional, dos capitães de Abril, Jorge Jardim, tratado como um monstro, esgrime os seus argumentos, mas não consegue impor o seu plano em cima da mesa, no tratado de Lusaka. Daí resvala-se para um plano secundário e assiste desencantado o processo dramático e trágico da descolonização desde a periferia. 

Cinquenta anos depois, olhando para o pensamento de Jorge Jardim, é possível depreender que, mais do que votar-lhe ao ostracismo e ao tabu, Jorge Jardim foi um nacionalista, que pretendeu contribuir com o seu pensar particular, que mantivesse a dignidade da maioria e dos derrotados, numa harmonia comum, sem se ferirem uns aos outros.  

Ao desenterrar o perfil deste homem complexo, raro, pretensamente antirracista, com as suas contradições e partes encantadoras, como todos os seres humanos comuns, o autor oferece a oportunidade de se esgravatar sobre a documentação e testemunhos interessantes de uma figura enigmática, esclarecendo sobre os momentos que mediaram a morte de Eduardo Mondlane, com isto demonstrando que a história é um processo dinâmico, em permanente construção.  

A relevância de documentar com intensidade esse período de ouro da história contemporânea é um serviço à Nação. 

Biografia do autor

Adelino Timóteo nasceu a 3 de fevereiro de 1970, na Beira, em Moçambique. É formado na área de docência em Língua Portuguesa, mas não exerceu a profissão. Ingressou no Jornalismo em 1994, na cidade da Beira, no Diário de Moçambique, e, mais tarde, tornou-se correspondente do semanário Savana, na mesma cidade. É licenciado em Direito e exerce a função de jornalista no semanário Canal de Moçambique. Além disso, é artista plástico e já realizou várias exposições individuais de artes, em Moçambique e no estrangeiro. Obras publicadas, entre poesia, romances e biografias: Os segredos da arte de amar. Maputo: AEMO, 1998. Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique. Maputo: Ndjira, 2002. A fronteira do sublime. Maputo: AEMO, 2006. Mulungu. Maputo: Texto, 2007. A Virgem da Babilónia. Maputo: Texto, 2009. Nação pária. Maputo: Alcance, 2010. Na aldeia dos crocodilos. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique - Centro de Ensino e Língua Portuguesa; Barcelona: Fundació Privada Contes pel Món, 2011. Dos frutos do amor e desamores até à partida. Maputo: Alcance, 2011. Não chora Cármen. Maputo: Alcance, 2013. Nós, os do Macurungo. Maputo: Alcance, 2013. Livro Mulher. Maputo: Alcance, 2013. Apocalipse dos predadores. Lisboa: Chiado, 2014. Corpo de Cleópatra. Maputo: Alcance, 2016. Os oito maridos de Dona Luíza Michaela da Cruz. Maputo: Alcance, 2017. Os últimos dias de Uria Simango. Maputo, 2018. Na aldeia dos crocodilos. Contos de Moçambique, v. 7. São Paulo: Kapulana, 2018. Volúpia da pedra. Maputo, 2018. Afonso Dhlakama - a longa luta em defesa da democracia. 2019. O Feiticeiro Branco, 2020. A Luz diáfana do amor, 2021. O voo das fagulhas, 2021. Daviz Simango: A difícil transição à democracia, 2022. A biblioteca debaixo da cidade, 2023 PRÉMIOS · 1999 - Prémio anual do Sindicato Nacional do Jornalismo, pela melhor Crónica Jornalística. 2001 - Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos). 2011 - Prémio BCI/AEMO 2011 pela obra Dos frutos do amor e desamores até à partida. 2013 - “Melhor Escritor da Cidade da Beira”, Moçambique. 2015 - Distinguido pela “excelente e inquestionável qualidade da sua obra”, pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD), Lisboa, Portugal.


quarta-feira, 10 de abril de 2024

Moçambique - Adelino Timóteo lança “Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” na cidade de Maputo

O escritor Adelino Timóteo vai lançar, quinta-feira, às 17:00 horas, na Universidade Pedagógica-sede, em Maputo, o livro “Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar”.

Com apresentação de Hélder Nhamaze, trata-se do seu vigésimo quinto livro. Trata-se uma obra que pretende ser um farol, com material inédito, procurando iluminar os acontecimentos do pós-25 de Abril de 1974, assim como o episódio trágico de 7 de Setembro, em Lourenço Marques, do mesmo ano.

Focando-se no Engº Jorge Jardim, o livro oferece um ângulo inédito e distinto de contar também sobre os derradeiros momentos da luta armada de libertação e os demais acontecimentos que lhe sucederam, vinculando-o a uma tentativa humana e de redenção de se acercar à FRELIMO, através do «Programa de Lusaka», com que procurava evitar a debandada de 250 mil brancos de Moçambique.

Debaixo da lenda desta personalidade e com informação devidamente contextualizada, o autor esmiúça os factos, que marcaram o fim do Ultramar português e a emergência de um novo conflito, debaixo da consigna da guerra fria.

Afamado como uma das mais ímpares e insignes personalidades da África Austral, purgado pela Junta de Salvação Nacional, dos capitães de Abril, Jorge Jardim, tratado como um monstro, esgrime os seus argumentos, mas não consegue impor o seu plano em cima da mesa, no tratado de Lusaka. Daí resvala-se para um plano secundário e assiste desencantado o processo dramático e trágico da descolonização desde a periferia.

“Cinquenta anos depois, olhando para o pensamento de Jorge Jardim, é possível depreender que, mais do que votar-lhe ao ostracismo e ao tabu, Jorge Jardim foi um nacionalista, que pretendeu contribuir com o seu pensar particular, que mantivesse a dignidade da maioria nativa e dos derrotados, numa harmonia comum, sem se ferirem uns aos outros”, lê-se ainda na nota de imprensa: “Ao desenterrar o perfil deste homem complexo, raro, pretensamente anti-racista, com as suas contradições e partes encantadoras, como todos os seres humanos comuns, o autor oferece a oportunidade de se esgravatar sobre a documentação e testemunhos interessantes de uma figura enigmática, esclarecendo sobre os momentos que mediaram a morte de Eduardo Mondlane, com isto demonstrando que a história é um processo dinâmico, em permanente construção”.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” é um eixo em que gravitam as sombras de muitos factos ocorridos há sensivelmente 50 anos. “A relevância de documentar com intensidade esse período de ouro da história contemporânea é um serviço à Nação”, cita-se a sinopse da obra.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” também será lançado no dia 18 de Abril corrente, às 17:30, no Centro Cultural Português, na Beira, ainda no dia 20 deste mês, em Quelimane. In “O País” - Moçambique


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Moçambique - Adelino Timóteo lança novo romance na Livraria Fundza

O escritor e poeta Adelino Timóteo lançou, esta quinta-feira, o seu mais recente romance. Intitulado A biblioteca por debaixo da cidade, a nova proposta do autor é, fundamentalmente, uma balada de amor aos livros e à leitura.

Foto: Kulemba

Segundo uma nota de imprensa sobre o evento, o mais recente romance de Adelino Timóteo é constituído por 30 capítulos que perfazem 379 páginas. O livro foi construído ao longo de sete anos, tempo necessário para a história amadurecer com cortes de várias páginas.

Além de ser uma balada de amor aos livros, A biblioteca debaixo da cidade é um romance sobre a relevância do amor à terra, à cidade natal e ao desconhecido, o que se tece com alguma aproximação erótica entre uma personagem que vive à margem da sociedade, Laurentino Carambola, e uma mulher de boa família, Suzana Castelo Branco. “Através dessa personagem misteriosa, deste vagabundo, vamos nos deleitar de uma história que se passa na Cidade da Beira de 1936 até 1975. O vagabundo serve de estudo para se perceber o que se passou na sociedade colonial: negra e branca”, disse Adelino Timóteo, citado na nota de imprensa.

No seu A biblioteca debaixo da cidade, igualmente, Adelino Timóteo pretende suscitar o que está escondido numa sociedade que considera conservadora e repressiva, sob um totalitarismo colonial. O livro foi escrito entre Moçambique e Portugal. Começou em Lisboa, escrevendo com um certo olhar distante sobre os factos. A partir da capital portuguesa, o escritor começou a olhar a Beira, o seu berço. “Dediquei-me sete anos ao livro e, nos últimos dois anos, finalmente, encontrei todos os pressupostos para a versão actual”, disse Adelino Timóteo, lê-se na mesma nota de imprensa.

De acordo com o escritor, A biblioteca debaixo da cidade foi um livro complexo de escrever. Em Lisboa, por exemplo, teve de frequentar a Biblioteca Nacional para conhecer uma personagem. Com o livro, primeiro, a pretensão é recriar os lugares emblemáticos da cidade da Beira. Segundo, com isso, suscitar memórias de uma Beira passada. “A fase de ouro da cidade, que atraia pessoas de diferentes origens, inclusive com forte influência inglesa”.

Na Cidade da Beira, o romance A biblioteca debaixo da cidade será apresentado pelo professor universitário e crítico literário Cristóvão Seneta. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 26 de abril de 2022

Moçambique – Livraria Mabuko junta autores para promover o livro na Matola


A Livraria Mabuko promoveu um encontro entre autores e leitores, na Cidade da Matola. A sessão serviu para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor e inaugurar um novo espaço dedicado ao livro naquele ponto do país.

O país não se encontra num bom momento, no que à promoção do livro diz respeito. Por isso, e partindo de uma boa experiência de feira do livro realizada no ano passado, a Livraria Mabuko organizou um encontro entre escritores e leitores, na Cidade da Matola.

De acordo com Cisa Ponta Vida, da Mabuko, o centro comercial Novare passa a contar com a venda de livros porque o objecto literário é essencial para educação e cultura de toda a humanidade. “Nós tivemos um momento muito difícil, na altura em que a COVID-19 estava em alta. Muita gente estava a fechar as portas. Então, decidimos que tínhamos de inovar, porque a leitura é um assunto importante para todos nós”, acrescentou Cisa Ponta Vida, como que a justificar porque a Mabuko não se contentou com a livraria localizada na zona nobre da Cidade de Maputo: “Depois da adesão que registámos em Dezembro, quando cá viemos fazer uma feira do livro, decidimos ceder à vontade dos leitores em ter-nos cá”.

Além de só inaugurar um novo espaço de venda de livros, num contexto em que as livrarias estão encerradas em várias cidades nacionais, a Mabuko convidou autores como Ungulani ba ka Khosa, Juvenal Bucuane e Adelino Timóteo para uma confraternização, igualmente, como forma de celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, assinalado no passado dia 23 deste mês. A Mabuko procedeu assim porque percebeu que muitos dos que compram os livros nunca tiveram a oportunidade de estar com o escritor moçambicano que lêem.

Para Adelino Timóteo, que veio da Cidade da Beira precisamente para participar no evento, a iniciativa da Mabuko é importante porque tira o livro do centro urbano para outros locais, contribuindo, dessa forma, para divulgar as obras literárias em locais alternativos, onde as pessoas estão. “Deste modo, ganha a literatura, porque o livro fica mais próximo do destinatário. De igual maneira, ganham também os autores porque passamos a ter maior comunicação entre escritores e leitores”.

Concordando com Timóteo, a escritora Stela Manhiça Langa considerou que a divulgação do livro em espaços como o centro comercial Novare, na Matola, é fundamental porque, em geral, os moçambicanos ainda estão a aprender a ler obras literárias, se se pensar em termos quantitativos. “Esta é uma forma de estimular a leitura. É um exercício que pode e deve ser feito a partir da base e da pré-escola, de modo que as crianças possam crescer com hábitos de leitura. Com um Plano Nacional de Leitura, que envolve educadores de infância e a família, passaríamos a ter no país adultos que gostam de ler”.

Já para o escritor Albert Dalela, o encontro promovido pela Mabuko foi marcante porque teve a oportunidade de estar com autores que lê desde criança. “Para além de que assim os leitores têm a possibilidade de nos conhecer e, entre nós, conversamos sobre a complexa indústria do livro. Para que as pessoas leiam, precisamos que o Governo se envolva em campanhas a favor do consumo da literatura”. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Lançamento do livro “Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz” de Adelino Timóteo

Primeiro romance histórico do escritor

Lançamento em Lisboa, no próximo Domingo, 15 de Outubro, pelas 18H 30M, na FNAC do Chiado



Imagine-se uma mulher com oito maridos, quantos mimos teria a dar e a receber, neste dia? No plano real, eventualmente não se encontre nenhuma, mas, na ficção, tudo pode acontecer. Que o diga Adelino Timóteo, autor que, como se pretendesse questionar o padrão dos casais, aventura-se num livro que, à partida, inquieta: “Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz”.

A nova obra de Timóteo traz a história que acontece no início do terceiro quartel do século XIX, época em que o missionário inglês Livingstone propõe-se a tarefa de evangelizar e combater o tráfico de escravos nas terras do Rio Zambeze. Nessa altura, Livingstone desembarca no Prazo do Goengue, onde irá encontrar a voluptuosa mulata, de olhos vivos, que se chama, nem mais, Dona Luíza Michaela Rita da Cruz. O encontro inesperado arrasta o missionário até ao extremo da ansiedade, de acordo com o escrito, como quem se põe a descascar o fruto para chegar à polpa da mulher. E nisso vai saciando a curiosidade sobre a natureza e a vida dela, até a dar-se com os seus oito maridos”.

As peripécias da narrativa consagram o personagem estrangeiro como biógrafo de dona Luíza e da "sagrada" família Cruz, do Estado de Massangano, que dificulta a colonização portuguesa.

Não obstante, o título da nova obra de Timóteo lembra uma outra, de Jorge Amado, “Dona Flor e seus dois maridos”, mas a inspiração do autor moçambicano não partiu daí. Adelino Timóteo conta que, antes de começar a escrever, quando passava por um alfarrabista junto à Brasileira, em Lisboa, caiu-lhe às mãos o livro “História das guerras de Zambeze, Chicoa e Massangano (1954), de Filipe Gastão de Almeida Eça. Nisso, um capítulo chamou-lhe atenção, o destaque que o autor fazia à Dona Luiza, na sua percepção, tratada como uma figura digna de romance, num tema “Dona Luíza da Cruz e os seus quatro maridos”. “Recordei-me de que “Dona Flor e os seus dois maridos” escreveu o Jorge Amado em 1966. Disse cá para os meus botões, esse título é bem moçambicano. Talvez tenha sido essa a fonte de inspiração do Jorge Amado. Glosei o meu romance muito consciente de que ao nível da ficção há um vasto filão que a Zambézia daquele tempo oferece, sem ter que emprestar nada ao Jorge Amado. Podia ter escolhido outro título, mas saber que o título é muito moçambicano como a história que conto deu-me gozo de fazer um trocadilho”, afirmou Adelino Timóteo.

“Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz” recupera áurea mística e misteriosa das donas dos prazos da Zambézia. E, para o escrever, o escritor teve que investigar. Passou pelo Arquivo Histórico de Moçambique, em Maputo, lendo páginas da “Tempo” e amadurecendo ideias.

Timóteo começou a conceber o romance em Lisboa (Portugal), levando-o a San Sebastian (Espanha), depois Beira, Linz (Áustria), Amsterdão (Holanda) e Colónia (Alemanha). “Como é normal nos meus livros, fecundam num lugar e gestam em outros. Mas esta obra, em particular, rodou muito”, mas a maternidade escolhida para o parto é Moçambique, com a chancela da Alcance editores.

Adelino Timóteo assume que esta é a sua primeira experiência no romance histórico. “Respirei uma grande pulsão do Zambeze até aqui pouco referenciado, até Quelimane. Penso que descobri neste livro uma áurea misteriosa que me obrigará a escrever mais um ou dois livros sobre o lugar. Penso no Jorge Amado que escreveu cinco livros sobre o cacau. E sobre donas dos prazos até poder-se-á escrever mais”. In “O País” - Moçambique

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Moçambique – Lançamento do livro “Os Oito Maridos de Dona Luíza Michaela da Cruz”



No início do terceiro quartel do século XIX, o missionário inglês Livingstone propõe-se evangelizar e combater o tráfico de escravos nas terras do Rio Zambeze. Desembarca no Prazo do Goengue, onde irá encontrar a voluptuosa mulata, de olhos vivos, que se chama Dona Luíza Michaela Rita da Cruz. Algo diz que a carnalidade dos sentimentos em relação a ela o vai tornar num homem comum, levando-o a descambar numa avassaladora paixão, que o leva a transmutar-se, numa luta interpessoal, mas talvez não resolvida, que o faz perder-se nas trevas. O encontro arrasta-o até ao extremo da ansiedade, como quem se põe a descascar o fruto para chegar à polpa da mulher. E nisso vai saciando a curiosidade sobre a natureza e a vida dela, até dar-se com os seus oito maridos. Esse exercício vai consagrá-lo no biógrafo dela e da "sagrada" família Cruz, do Estado de Massangano, que dificulta a colonização portuguesa. O leitor será levado a viajar como se fizesse parte da fauna acompanhante do missionário ou como se testemunhasse com olhos de ver as diferentes intrigas, dramas e tragédias da Casa‑grande. Olga Nhacarize – Moçambique in “Camões | Centro Cultural Português - Pólo da Beira”


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Adelino Timóteo nasce a 3 de fevereiro de 1970, na cidade da Beira. Formado em docência de língua portuguesa, não chega a exercer a profissão. É licenciado em direito. Exerce o jornalismo paralelamente com as artes plásticas. O Instituto Superior Politécnico e Universitário (ISPU) homenageia-o em 2004 e o Conselho Municipal da Beira (2007), respetivamente pela sua poesia, e pelo seu contributo cultural para a urbe. É cidadão honorário de Quelimane, desde 2015. É Prémio Anual do SNJ para a melhor Crónica Jornalística (1999). Galardoado Melhor Escritor da Cidade da Beira (2013). Em 2015, a CEMD galardoa-o, em Lisboa, pela “excelente e inquestionável qualidade da sua obra...” Tem poemas traduzidos em italiano (Dis Uguaglianze). Na poesia, tem as seguintes publicações: Os Segredos da Arte de Amar (1999); Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique (2002) - Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO, em 2001; A Fronteira do Sublime (2006); Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida (2011) - Prémio BCI 2011; Livro Mulher (2013); e Corpo de Cleópatra(2016). Na ficção narrativa: Mulungu (2007); A Virgem da Babilónia (2009); Nação Pária (2010); Não Chora, Carmen (2013); Nós, os do Macurungo (2013);Na Aldeia dos Crocodilos (2014); Apocalipse dos Predadores (2014) e Os Oito Maridos de Dona Luíza Michaela da Cruz (2017). Consta da Antologia da Poesia Moçambicana Nunca mais é Sábado (Dom Quixote, Lisboa), Colectânea Breve da Literatura Moçambicana (Identidades), Poesia sempre (2006 - Biblioteca Nacional do Brasil), entre outras. 

domingo, 12 de julho de 2015

Galiza - Entrevista ao escritor moçambicano Adelino Timóteo

"Eu venho notando já desde a muitos anos que a Galiza é o nono país de língua Portuguesa. Falta é só uma fórmula mágica. Ao nível político ou administrativo. Português e Galego são uma língua comum. Estive a participar num festival de poesia em Salvaterra e fiquei impressionado com a ressonância do português que ali se fala."

- Palavra Comum: Que supõe para ti a poesia/literatura?

- Adelino Timóteo: A poesia/literatura para mim é tudo aquilo que procuro revelar, com esplendor, com beleza. A poesia é o patamar de uma casa inserida neste amplo edifício que é a literatura. E quando olho para a poesia suponho-me como alguém que olha desde fora deste edifício sedutor, procurando escalar cada parte desse patamar, em cuja configuração há ressonância da matéria intensa, matéria solar que a compõe e a monumentaliza. E nesse olhar errante, furtivo, digamos, passa-se algo subjectivo que varia de pessoa a pessoa. Há diferentes dimensões do sentir que, desde muito novo, me converteu num apaixonado pela poesia. Eu diria, foi a primeira mulher por quem me apaixonei e a primeira casa para onde passei a viver, depois que escalei a dimensão da cosmogonia, se bem que olhando-a, pelas suas janelas, consigo abarcar o universo em que vivo. Há uma porta acessível, diria sagrada, que é a poesia. Onde estão os deuses que me apaziguam a alma, as tormentas, me reconcilia com os fantasmas e me permite olhar-me por dentro na perspectiva de ser justo, primeiro comigo mesmo, depois solidário com os outros, redimido de toda a vaidade. Apesar da poesia decorrer numa esfera egocêntrica, intimista, eu a procuro produzir como quem faz pão para alimentar a alma daqueles que necessitam de um paliativo que espante a dor. A poesia nunca morrerá por isso. Traz consigo toda a carga de antídotos que compartimentam as diferentes dimensões de existência e ansiedade.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Adelino Timóteo: O processo de criação artística é ardiloso. A criação artística exige comprometimento do seu artífice. Ela emerge de estímulos, sensações. No meu caso o ponto de partida tem a ver com estímulos exteriores, tudo aquilo que vejo, leio, vivo. O processo de criação artística encontra armas na vida. Na emergência e necessidade de construir o que supomos original, sendo a tal construção sinédoque de destruição. Como diria Jorge Luis Borges, somos anotadores de realidades pré-textuais e essa é a matriz de tudo o que criamos, sabido que desde o século XVIII a arte entrou na exaustão. Às vezes sem termos em conta, estamos a fazer algo que outros já plasmaram. É verdade que criação artística configura essa dimensão de cumplicidade, e desde logo somos anotadores e repetidores de arquétipos literários pré-existentes. Escrevemos ou pintamos de maneira X ou Y porque essas formas têm raízes no que diria a essência da vida e do mundo, considerando a nossa condição de homo sapiens, a tradição das cavernas, da Ilíada. Os livros mais belos que ressoam na nossa alma, como uma música: As mil e uma noites. Os livros recentes que nos iluminam aos pilares da Grécia antiga.

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre a literatura e outras artes (audiovisual, artes plásticas, música, etc.)?

- Adelino Timóteo: Na criação não deve existir o deve ser. O único lugar de liberdade no mundo é a criação, a arte, em geral. A mim já me aborreceram quando se impunha, no meu país, que a poesia devia ser escrita seguindo um vector da propaganda, de circunstância. Tenho uma lâmina muito bem afiada e cáustica, capaz de oxidar as ideologias e ortodoxias e vários ismos que se nos vão ditando. Eu posso entender o seu deve-ser na perspectiva de inovação e diálogo entre as diferentes formas de criação e representação. Penso que a relação se inscreve no domínio da imagética. O encanto que me dá ler poemas cheios de imagens, simbolismos, rios, mar, expressões, diria, da linguagem e do corpo erótico, fruindo, com gozo, acasalados numa pátina que transforme a imaginação em realidade. Tenho para mim que a literatura é essa realidade abissal: a alquimia. Alquimia de cores, de pessoas, homens e mulheres, alquimia de sentidos. Dos cinco sentidos. Ou de seis. Os odores e cheiros. Onde há uma boa pintura ou um texto literário não raramente me passa isso que aprisiona os sentidos. O que me leva a ter preferência a um ou outro fazedor de arte.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)? Deles, quais reivindicarias por não serem suficientemente conhecidos (ainda)?

- Adelino Timóteo: Os meus referentes criativos são Luís Carlos Patraquim, Rui Knopfli. Já são muito bem conhecidos em Portugal.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária e cultural hoje?

- Adelino Timóteo: Acho que as redes sociais e a internet rebentaram a escala. Quando comecei a escrever, era tudo muito romântico. Lia um livro e depois o trocava com outros amigos. Depois conversávamos à volta do tal livro. Hoje não. Vejo nas redes sociais alguém pedir aos amigos que enumere dez livros que acharia mais belos. Muitos vão ao google, copeiam os títulos e os colam. Não se conversa em torno do livro com aquele romantismo com que me apaixonara na adolescência. Mas eu defendo que há necessidade de se promoverem tertúlias, círculos de interesses, para que não sejamos uma sociedade acomodada na hipocrisia e a aparência fundada na ilusão de produzir aduladores e admiradores. Tenho cada vez maior felicidade de frequentar os Book Cafes. As revistas literárias electrónicas são também um estímulo inovador.

- Palavra Comum: Fala-nos da tua experiência como escritor moçambicano e africano. Que influências tem sobre a tua escrita?

- Adelino Timóteo: Como escritor, felizmente, eu tenho duas costelas. Uma mais universalizante, outra africana, moçambicana. Por causa da minha educação. Nasci num país mestiço. O meio era um pequeno bairro. Onde o respeito pelo outro, a convivência, a aproximação, me deram as balizas que me permitem estar bem comigo mesmo, no sentido de quem sou eu, donde venho e para onde vou. Eu me vejo mestiço. A mestiçagem a que me refiro não tem sustentáculo na cor. A minha matiz é bantu, fascinado pela Ilha de Moçambique, desde logo ponto da mitonímia em relação a esta nação crioula. A província da Zambézia, o vale do Rio Zambeze, tem os condimentos de uma riqueza crioula, mestiça, um baú, um manancial, não sendo apenas uma riqueza, é um grande filão para oferecer ao mundo. A minha escrita, naturalmente, não é isenta deste mosaico lindo. Não é isenta deste imaginário onde se cruzam portugueses, goeses, índios, galegos, árabes, fenícios, brasileiros e bantus. É isso que augurei oferecer àqueles que gostam de ler-me: um cruzamento de povos e religiões. Do antigo colonizador herdei a língua, na qual escrevo como Caliban que se apropriou da língua como uma ferramenta, um instrumento/arma de arremesso, não para se prostrar ante a ninguém, mas sobretudo para me libertar de todos os Prósperos, que ainda há por diante e à volta. Português é a minha língua materna. Das línguas bantas não consigo formar uma única frase, mas entendo o ndau, sena e pouco de changane.

- Palavra Comum: Que é o que desconhecemos, desde Europa, sobre Moçambique, e consideras que seria relevante dar a conhecer?

- Adelino Timóteo: Não gosto de ser amargo, pois isso dá azo a interpretações com que me podem tomar por angustiado. Daí a razão de me preocupar pouco com entrevistas. A verdade dói. Vamos lá: não sei e muito menos acredito que a Europa nos conheça. O marketing e razões fundadas no passado, infelizmente ainda preso, um pesadelo de que muitos tardam a se libertar, não ajuda, daí toda a propaganda é artificial e manejada por aquelas vozes astutas, os que se parecem com a geada. Em sessenta anos não cabem pelos dedos das mãos e dos pés as vozes que pertençam ao substracto que fez parte do Caliban. A reconciliação tarda. As vozes audíveis são aquelas descendentes do Próspero. A roda do tempo gira em nosso favor. Não é de entristecer. O paternalismo e o factor pigmentação sempre foi uma característica na forma de agir da Europa, mesmo durante os quinhentos anos de ocupação. Se a Europa quiser conhecer África terá que sair do pedestral, e se tiver calçada, terá que descalçar, com a mesma reverência que fazemos aos nossos velhos, para penetrar nas furnas desta cultura, civilização, e de tudo aquilo que desconhece. Quando leio alguns livros que tentam caracterizar os nativos só rio-me. A nossa poeta Noémia de Sousa é premonitória e melhor explica: “… se quiseres compreender-me/ vem debruçar-te sobre minha alma de África,/ nos gemidos dos negros no cais/ nos batuques frenéticos dos muchopes/ na rebeldia dos machanganas/ na estranha melancolia se evolando/ duma canção nativa, noite dentro…// e nada mais me perguntes,/ se é que me queres conhecer…/ Que não sou mais que um búzio de carne,/ onde a revolta de África congelou/ seu grito inchado de esperança”.

- Palavra Comum: Que perspectiva tens sobre a Galiza (e também sobre a sua relação com a Lusofonia)?

- Adelino Timóteo: Eu venho notando já desde a muitos anos que a Galiza é o nono país de língua Portuguesa. Falta é só uma fórmula mágica. Ao nível político ou administrativo. Português e Galego são uma língua comum. Estive a participar num festival de poesia em Salvaterra e fiquei impressionado com a ressonância do português que ali se fala. E não me senti estranho aí, de maneira nenhuma. Mesmo quando estive entre os estudantes na Universidade de Filologia de Compostela. Apenas difere na grafia. Heráclito diz que tudo flui. Camões textualiza: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Penso que o resto ficará entregue ao tempo.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Adelino Timóteo: O meu ofício é a caneta e o papel. A tinta e a tela. Durante os últimos seis/sete anos trabalhei doze horas por dia. Tenho três romances por publicar. Dois livros de poesia, um deles está no prelo. Tenho pronto um livro explosivo, de âmbito biográfico. Andei muito tempo na Torre do Tombo a investigar a história recente do meu país e a confrontar com outras fontes. Caberá ao meu editor lançar-se em mangas de camisas. Se há projectos, penso, devo sair de férias. E prolongadas. Mar do Índico. Sol e areia branca.

- Palavra Comum: O que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Adelino Timóteo: Acho que a Palavra Comum, como um projecto que nasce na Galiza, transmite-me a respiração e a porosidade no que tange aos sentires dos galegos, neste mundo da lusofonia. E ainda bem. Os galegos devem avançar e não ficarem à margem, o non facere tem seus riscos; transforma os espectadores em seres amargos. Vejo beleza até na amargura, mas quando a dose é elevada ela torna-se indigesta. A Palavra Comum, do pouco que já li, proporciona-me essa leveza, como se os fantasmas estivessem a apartar, reconciliando-me com algo elementar e importante: nunca ter medo do futuro. O futuro, para quem sonha, é uma doença que contagia as mentes liberais e ilumina os fracos. Vejo na Palavra Comum, matizando com Octávio Paz, uma arma carregada de esperança. Ramiro Torres – Galiza in “Palavra Comum”


Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".


Adelino Timóteo - Nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na cidade da Beira. Formado em docência de língua portuguesa, não chega a exercer a sua profissão. É licenciado em direito. Exerce o jornalismo paralelamente com as artes plásticas. Em 2004 e 2007 foi respectivamente homenageado pelo Instituto Superior Politécnico e Universitário (ISPU) e Conselho Municipal da Beira, no primeiro caso pela sua poesia, no segundo por seu contributo cultural para a urbe. Em 1999 venceu o Prémio Anual do SNJ para a melhor Crónica Jornalística. Em 2001 venceu o Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO, em 2013 foi premiado Melhor Escritor da Cidade da Beira. Um excerto de seus poemas traduzidos em Italiano consta da revista "Dis Uguaglianze". São as seguintes publicações deste autor em poesia: “Os segredos da arte de amar“ (1999, AEMO), “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique“ (2002, NDJIRA), “A Fronteira do Sublime” (AEMO), “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida” (2011, Alcance Editores) - Prémio BCI 2011, “Livro Mulher (Alcance Editores 2013). Na ficção narrativa destacam-se lhe: “Mulungu" (2007, Texto Editores), "A Virgem da Babilónia" (2009, Texto Editores), "Nação Pária" (2010), “Não Chora, Carmen” (2013), “Nós, os do Macurungo” (2013), todos pela chancela da Alcance Editores, “Na Aldeia dos Crocodilos” (Contos para o Mundo), “Apocalipse dos Predadores” (Chiado Editora). Está antologiado na Antologia da Poesia Moçambicana “Nunca mais é Sábado“ (Dom Quixote, Lisboa), "Colectânea Breve da Literatura Moçambicana" (Identidades), "Poesia sempre", (2006, Biblioteca Nacional do Brasil).

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Lusofonia – V Bienal de Culturas Lusófonas


Realiza-se a partir do próximo dia 04 de Maio de 2015 em Odivelas, Portugal, a V Bienal de Culturas Lusófonas, uma organização da Câmara Municipal de Odivelas, com o Alto Patrocínio da Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e da Fundação Portugal África e a parceria do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA). É um evento de relevo que enaltece a produção artística de autores oriundos dos países lusófonos, nos domínios das artes plásticas, dança, cinema, teatro, música e literatura. Aceda aqui ao Programa.

Preservar, divulgar e promover as culturas lusófonas, de forma a mantê-las vivas e dinâmicas, são os grandes objectivos que sustentam um sonho, que pela quinta edição se torna numa realidade.

Com o empenho e dinamismo de todos aqueles que têm na língua portuguesa o seu meio de comunicação privilegiado, cada comunidade lusófona terá a oportunidade de projectar as suas idiossincrasias culturais próprias, partilhando o que de melhor tem para dar a conhecer.

O escritor moçambicano Adelino Timóteo é um entre vários autores de língua portuguesa convidados para o Encontro de Escritores Lusófonos, previsto para os dias 19 (Centro Cultural Malaposta), 20 (Mosteiro de Odivelas e Biblioteca Municipal D. Dinis) e 21 de Maio de 2015 (Centro de Exposições de Odivelas).

No dia 20 de Maio, Adelino Timóteo apresentará o romance "Apocalipse dos Predadores", lançado no passado mês de Julho de 2014 em Lisboa, uma edição da Chiado Editora.

Refira-se que em 25 de Junho próximo, Adelino Timóteo será galardoado pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) na Categoria de literatura, pela excelente e inquestionável qualidade literária das suas obras e por ser um exemplo de coragem e compromisso do escritor e criador com o povo e o país que o viram nascer, no VIII Encontro Anual de Escritores Moçambicanos na Diáspora que decorrerá em Lisboa em Junho deste ano no âmbito dos 40 anos da Independência da República de Moçambique, segundo um comunicado da CEMD recentemente divulgado. Baía da Lusofonia


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Adelino Timóteo - Nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na cidade da Beira. Formado em docência de língua portuguesa, não chega a exercer a sua profissão. É licenciado em direito. Exerce o jornalismo paralelamente com as artes plásticas. Em 2004 e 2007 foi respectivamente homenageado pelo Instituto Superior Politécnico e Universitário (ISPU) e Conselho Municipal da Beira, no primeiro caso pela sua poesia, no segundo por seu contributo cultural para a urbe. Em 1999 venceu o Prémio Anual do SNJ para a melhor Crónica Jornalística. Em 2001 venceu o Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO, em 2013 foi premiado Melhor Escritor da Cidade da Beira. Um excerto de seus poemas traduzidos em Italiano consta da revista "Dis Uguaglianze". São as seguintes publicações deste autor em poesia: “Os segredos da arte de amar“ (1999, AEMO), “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique“ (2002, NDJIRA), “A Fronteira do Sublime” (AEMO), “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida” (2011, Alcance Editores) - Prémio BCI 2011, “Livro Mulher (Alcance Editores 2013). Na ficção narrativa destacam-se lhe: “Mulungu" (2007, Texto Editores), "A Virgem da Babilónia" (2009, Texto Editores), "Nação Pária" (2010), “Não Chora, Carmen” (2013), “Nós, os do Macurungo” (2013), todos pela chancela da Alcance Editores, “Na Aldeia dos Crocodilos” (Contos para o Mundo), “Apocalipse dos Predadores” (Chiado Editora). Está antologiado na Antologia da Poesia Moçambicana “Nunca mais é Sábado“ (Dom Quixote, Lisboa), "Colectânea Breve da Literatura Moçambicana" (Identidades), "Poesia sempre", (2006, Biblioteca Nacional do Brasil).



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Moçambique – Escritor Adelino Timóteo lança livro em Lisboa

No próximo dia 31 de Julho de 2014 o escritor moçambicano apresenta em Lisboa a sua mais recente obra “Apocalipse dos Predadores” na Livraria, Bar, Galeria, Clube Literário desassossego, na Rua de São Bento, nº 34 pelas 20 horas.



Escritor e artista plástico, Adelino Timóteo nasceu na cidade da Beira em Moçambique no ano de 1970. É formado em docência da língua portuguesa e actualmente é jornalista no Canal de Moçambique. Foi homenageado pelo Instituto Superior Politécnico Universitário e pelo Conselho Municipal da Beira em 2004, pela sua obra poética, e em 2007, pelo seu contributo cultural para a cidade da Beira, como escritor e artista plástico.

Adelino Timóteo venceu o Prémio do SNJ para a Melhor Crónica Jornalística em 1999. Em 2001 venceu o Prémio Nacional Revelação de Poesia na AEMO. Publicou os seguintes títulos: Os Segredos da Arte de Amar (1999), Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique (2002) (Prémio Nacional ANEM), A Fronteira do Sublime (2006), Mulungu (2007), A Viagem da Babilónia (2009), Nação Pária (2010), Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida (2011), (Prémio BCI 2011), Nós, os do Macurungo (2013), Não chora, Carmen (2013), Livro Mulher (2014) e Na Aldeia dos Crocodilos (2014).

Algumas das exposições como pintor:

Colectivas: Com Ferrão, Silva y Sito em Beira. Workshop com artistas de Zimbabwé e Mozambique. Com Paulo Jorge, Casa de Cultura, Beira.

Individuais: “O Muipiti”, Nampula. "Ilhoas Macuas", Maputo e Beira, "Crossing Cultures", Linz, Áustria, "Deixa passar meu povo", Beira. “Zwischenwelten Frauenwelten" Viena. Baía da Lusofonia

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Singela

Homenagem do Baía da Lusofonia ao escritor e pintor Adelino Timóteo no dia do seu 43º aniversário, publicando um poema da sua autoria.


O que sabem recordar as minhas mãos
senão algumas facetas do teu corpo,
neste artifício vivido
eu já não sei se te amo quando te escrevo
ou se te escrevo quando te amo.
Mas o melhor seria esculpir-te!
Eu gostaria de esculpir-te
agora nesta página tão aberta ao relento,
mais vil metal fazer-te
ao coração o amor tão puramente gravado
para que permaneças sempre viva
e acesa às gerações,
essa vaidade sintam os outros
e gozes do privilégio de quem soube amar a felicidade.

Adelino Timóteo - Moçambique
 
Adelino Timóteo,  03 de Fevereiro de 1970, cidade da Beira.  Publicou: “Os segredos da arte de amar“ (Poesia, 1999, edição AEMO,  2002), “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique“ ( Poesia , edição da Ndjira, do Grupo Leya -Prémio Nacional Revelação AEMO), Antologiado em “Poesia Sempre” (Biblioteca Nacional do Brasil – Departamento do Livro, 2006 ) e Antologia da Nova Poesia Moçambicana (2001, Dom Quixote), “A Fronteira do Sublime” (Poesia, AEMO, 2005),“Mulungu” (Romance, 2008, Texto Editores), “A Virgem da Babilónia” (Romance, 2009, Texto Editores), “Nação Pária” (Romance, 2010, Alcance Editores), “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida” (Poesia, 2011, Alcance Editores) - Prémio BCI de literatura