Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Guiné-Bissau - CEDEAO anuncia referendo à nova Constituição do país

A nova Constituição da Guiné-Bissau, recentemente aprovada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), irá ser submetida a referendo popular, disse em Bissau, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa, Timothy Kabba, citando as autoridades guineenses

A nova Constituição da Guiné-Bissau, recentemente aprovada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), irá ser submetida a referendo popular, disse em Bissau, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa, Timothy Kabba, citando as autoridades guineenses.


O responsável serra-leonês liderou uma missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que incluiu também o ministro dos Negócios Estrangeiros do Senegal e o ministro da Defesa do mesmo país.

A delegação foi recebida pelas autoridades de transição da Guiné-Bissau, nomeadamente pelo Presidente, general Horta Inta-a, de quem receberam a informação de que as eleições legislativas e presidenciais estão marcadas para 06 de dezembro próximo e que a Constituição foi revista, disse Timothy Kabba.

Em declarações aos jornalistas, à saída da audiência com o presidente da transição guineense, divulgadas pela imprensa local, Timothy Kabba disse que foram informados por Horta Inta-a que a versão da Constituição aprovada pelo CNT, órgão que substituiu o parlamento desde o golpe de Estado de 26 de novembro, vai ser submetida a referendo, embora não tenha indicado em que data.

A nova Constituição guineense, revista em janeiro passado, na prática, reforça os poderes do Presidente da República, que passa a deter a maioria dos poderes do Estado, nomeadamente na nomeação e orientação da ação do primeiro-ministro.

O porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, explicou, em declarações aos jornalistas, que a nova Constituição manteve o sistema semi-presidencialista, mas reforçou os poderes do Presidente da República, a quem o Governo “terá de responder” bem como à Assembleia Nacional (parlamento).

Além do anúncio da realização do referendo sobre a nova Constituição, a missão da CEDEAO foi informada igualmente por Horta Inta-a de que a Lei Eleitoral do país foi revista.

O chefe da diplomacia da Serra Leoa afirmou que a delegação ficou satisfeita com as informações recebidas.

A missão política da CEDEAO esteve em Bissau dois dias após a partida de uma outra delegação de chefes do Estado-Maior das Forças Armadas de cinco países da mesma organização, que mantiveram encontros de trabalho com as autoridades de transição.

A Guiné-Bissau está suspensa da CEDEAO, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na sequência do golpe de Estado ocorrido em novembro de 2025, em vésperas da publicação dos resultados provisórios das eleições legislativas e presidenciais, então realizadas.

Os militares, sob o comando do general Horta Inta-a, anunciaram terem tomado o poder para “evitar um banho de sangue no país” em decorrência de disputas pelos resultados eleitorais. Na altura suspenderam o processo eleitoral e destituíram o então Presidente, Umaro Sissoco Embalo.

Horta Inta-a assumiu a presidência do país, Ilídio Vieira Té foi nomeado primeiro-ministro e um Conselho Nacional de Transição foi criado para fazer as funções do parlamento. InExecutive Digest” - Portugal


Portugal – Xanana Gusmão distinguido com o Prémio Jorge Miranda na Universidade de Lisboa

O primeiro-ministro timorense recebeu a distinção que destaca a defesa dos Direitos Humanos e da Constituição, dedicando o galardão ao povo de Timor-Leste


O primeiro-ministro de Timor-Leste, Kay Rula Xanana Gusmão, foi distinguido com o Prémio Professor Doutor Jorge Miranda - Constituição e Direitos Humanos, numa cerimónia que decorreu na Aula Magna da Universidade de Lisboa. Promovida pela Faculdade de Direito da ULisboa, a iniciativa reconhece personalidades que se destacam na defesa do Estado de Direito e dos valores constitucionais.

Durante o seu discurso, o líder timorense dedicou o prémio aos mártires da pátria e aos milhares de cidadãos que lutaram pela independência do país. Xanana Gusmão sublinhou que a homenagem não se centrava na sua figura individual, mas sim no percurso coletivo de um povo que lutou, sofreu e perseverou para alcançar a liberdade, a dignidade e a autodeterminação.

O governante manifestou ainda o seu orgulho por receber um galardão associado ao nome de Jorge Miranda, a quem considerou uma das maiores referências do constitucionalismo na língua portuguesa e um amigo de longa data de Timor-Leste. Na ocasião, destacou também o contributo fundamental do jurista para o debate constitucional e para o fortalecimento da cultura jurídica do país. Universidade de Lisboa - Portugal


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné-Bissau - Comando Militar que tomou o poder suspende a Constituição e ameaça fechar comunicação social que noticiar apelos à desobediência civil

O Alto Comando Militar que tomou o poder na Guiné-Bissau suspendeu a Constituição e ameaça fechar qualquer órgão de comunicação social no país que faça notícias sobre o apelo à desobediência civil que tem sido lançado por organizações da sociedade civil

Em comunicado entretanto divulgado nas redes sociais, o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública ordena a todos os órgãos de comunicação social - rádios, jornais, televisão, etc - que colaborem "para evitar a divulgação de informações ou mensagens que apelam à violência e desobediência civil, sob pena de serem fechados imediatamente", destaca-se no comunicado.


No documento, informa ainda que devido ao golpe de Estado algumas normas da Constituição da República estão suspensas e foram substituídas pela Carta de Transição Política que, entre outros, restringe certas manifestações dos cidadãos.

O órgão que dirige a Guiné-Bissau actualmente informa que "são categoricamente proibidas" acções que "incentivem a desordem e o vandalismo" no país durante os 12 meses de vigência da transição.

Três organizações da sociedade civil guineense, Frente Popular, Firkidja di Pubis e o Movimento Revolucionário Pó de Terra, têm lançado, nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, apelos aos funcionários públicos para uma desobediência civil como forma de protesto pelo golpe de Estado.

O Governo de Transição já avisou que serão tomadas medidas, nomeadamente descontos salariais e processos disciplinares, para o trabalhador público que aderir à desobediência, posição reforçada também no comunicado do Alto Comando Militar.

A candidatura de Fernando Dias, que reclama vitória nas presidenciais na Guiné-Bissau, exigiu na quarta-feira à Comissão Nacional de Eleições (CNE) a convocação da plenária do órgão para que os resultados eleitorais sejam declarados "o mais rápido possível".

Em comunicado consultado pela Lusa nas redes sociais, reagiu ao anúncio feito pela CNE, que se mostrou indisponível para dar continuidade ao processo eleitoral e divulgar os resultados das legislativas e presidenciais de 23 de Novembro, devido a alegados actos de vandalismo nas suas instalações.

Na voz do seu secretário executivo adjunto, o juiz Idriça Djaló, a CNE disse que os alegados actos teriam sido protagonizados por "homens armados e encapuzados" no dia 26 de Novembro, véspera do anúncio dos resultados provisórios. In “Novo Jornal” – Angola com “Lusa”


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Existe o perigo de um golpe nos EUA?

Diante da maneira como vem se comportando o presidente Donald Trump, muita gente começa a ficar com a pulga atrás da orelha nos Estados Unidos. A enxurrada de decretos sem consulta e aprovação do Congresso, as decisões tomadas ao arrepio da Constituição americana, as ameaças de demissão para quem se colocar na frente, tudo isso começa a preocupar jornalistas, analistas e políticos. 

Mesmo porque as decisões autoritárias de Trump, principalmente as de expulsões de imigrantes e cortes de funcionários na máquina governamental, estão sendo bem recebidas pela população e aumentando sua popularidade.

Embora Trump tenha jurado sobre a Bíblia que irá preservar, proteger e defender a Constituição, isso não parece garantia suficiente contra a tentação de ter plenos poderes e de ignorar as restrições e entraves judiciais destinados a proteger o funcionamento normal da Democracia.

Como senão bastasse sua presença egocêntrica no comando do governo, Trump tem ao seu lado uma espécie de primeiro-ministro, o multimilionário Elon Musk, decidido a enxugar a máquina burocrática do país, no que poderia ser um esforço de economia orçamentária, mas, na verdade, com o objetivo real e principal de debilitar a estrutura orgânica para não haver reações a uma intenção programada de assumir o controle autocrático do país.

Com o domínio das redes sociais e a utilização da Inteligência Artificial isso não será impossível. Prestes a completar um mês de governo, Trump, cujo comportamento já se assemelha ao de um ditador, não parece ter, até este momento, contra-poderes à altura. seja na justiça, na sociedade e na imprensa, baseando-se na união oligarca de uma forte elite econômica.

Fator importante, Trump não reconheceu e não reconhece até hoje sua derrota frente a Joe Biden, em 2020. Além disso, foi Trump quem incentivou o ataque ao Capitólio em janeiro de 2021 contra o resultado das eleições. E, bastante sintomático e preocupante, Trump anistiou a todos os envolvidos no ataque ao Capitólio, onde houve cinco mortes e dezenas de feridos.

Ou seja, para ele não houve ataque à democracia na tentativa de impedir a posse de Joe Biden e, por tabela, para Trump não havia culpados mesmo se foram presos e condenados. Durante os últimos quatro anos, Trump não só repetia ter havido fraude nas eleições como deixava entrever seu desejo de vingança, agora consumado neste seu segundo governo, com a tentativa de demitir e processar todos os funcionários da Justiça envolvidos nos processos contra os invasores do Capitólio.

É muito pessoal seu conceito de "preservar, proteger e defender a Constituição", jurado na primeira posse para desrespeitar, quatro anos depois, nos incentivos ao ataque do Capitólio. Com base nessa folha corrida de Trump - o primeiro presidente com uma condenação judicial - nos seus gestos autoritários e nas ameaças econômicas e mesmo de invasão a outros países desde sua posse, é difícil acreditar num Trump disposto a aceitar decisões judiciais anulando seus decretos ou do seu "primeiro-ministro" Elon Musk. E já surgem jornalistas perguntando se Trump vai querer mudar a Constituição para ter um terceiro mandato!

No momento, Trump procura saber até onde pode esticar seus poderes, sobre quem pode passar por cima, até onde pode assustar. No exterior, as reações variam do Hamas, países árabes, França, México, da Dinamarca e do Canadá ao Brasil.

Dentro dos Estados Unidos já existe alguma resistência por parte de alguns juízes federais. O presidente Trump parece tentado a ignorar as decisões judiciais tomadas por esses juízes e ameaça mesmo puni-los. Se isso realmente ocorrer, a democracia norte-americana  que, no passado, incentivou tantos golpes de Estado, inclusive no Brasil em 1964, poderá ver o feitiço virar contra o feiticeiro.

O sinal de alerta foi dado por um magistrado de Rhode Island que denunciou não ter sido respeitada pelo governo uma de suas decisões. Logo depois, um juiz federal, John McConnell, acionado por Estados democratas, bloqueou o corte pela administração Trump, pedido por Elon Musk, de bilhões de subvenções, sob o argumento de que tais pagamentos já haviam sido aprovados pelo Congresso. Houve reações contra esses cortes inclusive por deputados republicanos, Trump parecia ter cedido e anulado os cortes, mas uma parte dessas subvenções continua bloqueada. Assim como Trump parece querer fazer passar à força muitos decretos considerados ilegais.

A situação se complicou com uma declaração do vice-presidente J.D.Vance de que "os juízes não têm o poder de controlar o poder legítimo do executivo". E a palavra "golpe de Estado judiciário" acabou sendo utilizada por Elon Musk, o multimilionário nomeado por Trump para enxugar as despesas governamentais, como se fosse um ministro com plenos poderes. Qualquer coincidência com o ataque dos golpistas bolsonaristas de que no Brasil existe uma "ditadura judiciária exercida pelo STF" seria mera coincidência.

Contra o chamado trio Trump, Musk e Vance já se mobilizou o senador democrata Chris Murphy, afirmando numa entrevista à CNN, estar havendo o fim potencial da democracia nos Estados Unidos. "Se o presidente está acima das leis, quem respeitará as leis no país", disse ele.

Diversos professores de Direito estão alertando quanto ao risco de uma crise institucional nos EUA.. Entretanto, comenta o correspondente do jornal suíço Le Temps, "o país parece anestesiado".

Trump poderia evitar o confronto com os juízes recorrendo de suas decisões junto à Suprema Corte. Ao contrário do Brasil, onde o STF defendeu a Constituição e impediu a realização de um Golpe, a Suprema Corte dos EUA tem maioria com os três ministros conservadores nomeados por Trump, que lhe são sempre favoráveis. No caso de litígio com juízes federais, Trump sairia sempre vencedor, porém haveria um longo prazo para julgamento. Diante disso, na sua pressa, o mais provável é Trump passar seus decretos na força, sem se preocupar com as consequências para a democracia. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Portugal - Os desesperados

Encontrei um homem com cerca de 60 anos de idade a vender a revista ‘Cais’. Iniciámos uma conversa e fiquei abalado. O senhor foi toxicodependente e sem-abrigo a dormir nas ruas de Lisboa durante anos. Foi identificado e enviado para um centro de recuperação da toxicodependência. Recuperou e passou a vender a referida revista.



Transmitiu-me o absurdo que vos quero relatar: há 15 anos que requer à Câmara Municipal de Lisboa uma habitação, nem que fosse uma casinha com apenas um quarto. Há 15 anos que obtém uma resposta que não reúne as condições para a concessão de uma casa. Tem vivido estes 15 anos sem qualquer privacidade e condições mínimas de qualidade numa casa municipal com a sua irmã. Contactámos as autoridades municipais e obtivemos uma resposta de que existem milhares de “desesperados” a solicitar uma casa. Milhares? E todos estes portugueses são a prova de que a Constituição portuguesa não é cumprida há décadas, cuja legislação diz que todo o cidadão tem direito a uma casa.

Continuamos a ver pelas ruas de Lisboa um número crescente de sem-abrigo. Muitos não são toxicodependentes. Quando dobram os cobertores que lhes foram oferecidos por pessoas sensíveis a este drama, caminham para um trabalho. É no local de trabalho que ingerem algum alimento, que se lavam e que fazem as suas necessidades. Mas trabalham e acabado o horário de trabalho regressam ao local onde têm alguns cartões no chão e os cobertores a marcar o lugar. Isto, é chocante.

O Governo fala demagogicamente em resolver o problema da habitação, mas o que temos visto é a autorização para a construção de condomínios de luxo. Onde está o uso dos muitos milhares de milhões de euros do PRR vindos da União Europeia? Onde está a construção de bairros sociais com dignidade, onde existam centros de saúde, correios, creches, supermercados e jardins infantis? Onde está o anúncio governamental da construção de casas de renda acessível para cidadãos sem residência e de baixos recursos financeiros? O partido Bloco de Esquerda ainda na semana passada, no Parlamento, requereu ao Governo que informasse qual o plano de habitação futura, algo que já solicitou várias vezes. Possivelmente não obterá resposta porque a preocupação do Governo é o aeroporto de Alcochete, é as várias vias-férreas de TGV, é a cedência de terrenos baldios para a construção de condomínios de rendas impossíveis de serem pagas por gente pobre e é a privatização da TAP.

O país não pode continuar a fingir que não vê a realidade da falta de habitação para estudantes e para pobres. É urgente que tomemos conhecimento oficial da construção de quantas habitações com o fim de serem cedidas a arrendatários de baixos recursos. Viver na rua é doloroso, é chocante, é desumano, é injusto, é ilegal e é acima de tudo uma falta do cumprimento da Constituição. O Governo não pode continuar a aceitar que centenas de oportunistas explorem estudantes universitários e fujam ao fisco. Existem centenas de casos em que esses indivíduos têm uma casa de sete quartos, com duas casas de banho, e seis estão alugados a estudantes ao preço de 500 euros cada, ou seja, têm um rendimento mensal líquido de três mil euros sem passar recibo.

O Orçamento do Estado insere milhões de euros para acções supérfluas e isto não pode acontecer. Primeiramente está o nível de vida decente dos portugueses, muito antes de enviar milhões de euros para a Ucrânia. Os “desesperados” são aos milhares e aguardam que lhes seja dada uma casa há mais de uma década. Ministros e autarcas não têm vergonha desta situação? Não lhes dói o coração ao saberem que os seus semelhantes dormem na rua? As autoridades governamentais vivem com a consciência tranquila ao saberem que milhares de portugueses precisam de uma casa e nada fazem para resolver o problema? Muito recentemente num bairro de Lisboa foi inaugurado um edifício de quatro andares com várias fracções em cada piso. Uma construção de qualidade. Quando os alicerces tiveram o seu início nós próprios dirigimo-nos à edilidade lisboeta para nos inscrevermos e requerermos pertencer à possibilidade de obter nesse edifício uma fracção, já que tinha sido anunciado pela edilidade que o referido edifício seria para rendas acessíveis. Terminou a obra e o edifício está ocupado por moradores que entram na garagem do prédio com carros de topo de gama, como BMW, Tesla e Volvo. Os amigos leitores acham que as fracções foram concedidas a lisboetas com baixos rendimentos? Não. Segundo as nossas fontes, foram residir para o prédio em questão somente amigos de alguns directores da Câmara Municipal. Neste sentido, nunca os pobres irão ter uma casa minimamente digna.

Em Julho do ano passado, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, anunciou que Lisboa tinha 3378 pessoas em situação de sem-abrigo na cidade e que dessas, 594 não tinham tecto. E em seis meses que, entretanto, passaram, quantas casas foram construídas para todos esses cidadãos? Na altura, Moedas fez-nos rir de assombro quando adiantou que a edilidade iria “gastar cerca de 70 milhões de euros até 2030 com o aumento das vagas de acolhimento para sem-abrigo”. Até 2030? Isto, é gozar com o pagode. Sete anos para arranjar “vagas de acolhimento”? Uma média de 10 milhões de euros por ano? Sejamos sérios e realistas e indagamos o que é que se constrói com 10 milhões num ano? E é este mesmo edil que na semana passada teve a preocupação imediata de arrasar com Alexandra Leitão, assim que a mesma foi anunciada como candidate do Partido Socialista à Câmara Municipal de Lisboa, titulando-a como uma política radical muito próxima do Bloco de Esquerda. Obviamente, que enquanto um edil se comportar como apoiante de um Governo, não existirá a preocupação de construir casas para pobres. E os “desesperados” que continuem à espera que uma casa caia do céu… André Namora – Portugal in “Hoje Macau”


quinta-feira, 21 de março de 2024

Brasil - A origem e trajeto do papel com a minuta golpista

Ainda me lembro do jurista Yves Gandra, entrevistado pelo UOL, afirmando com todo peso de seu prestígio e conhecimento que "é um documento que não tem nenhuma validade jurídica. Até porque é um papel que cuida de uma situação absurdamente impossível".  Que papel era esse encontrado na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro Anderson Torres? Estávamos no dia 13 de janeiro de 2023, cinco dias depois dos ataques pelos fanáticos bolsonaristas na praça dos Três Poderes..

Ora, o papel não era uma folha solta, destinada a ser destruída na trituradora, mas algo bem elaborado com preâmbulo e artigos bem detalhados de um documento, era uma "minuta de decreto do golpe" (como assim passou a ser chamado) e estava bem protegido dentro de uma pasta azul de couro decorada, na capa, com o brasão da República, como mostrou o ex-ministro da Justiça Flávio Dino.

Entretanto, embora o jurista Yves Gandra minimizasse, naquele dia, a importância do achado pela Polícia Federal e demonstrasse desconhecimento do seu teor, diante dos jornalistas Fabíola Cidral, Tales Faria e Madeleine Lacsko, veio dele a inspiração para a criação original daquele papel ou minuta do golpe. Nasceu, portanto, de uma interpretação jurídica errônea, partidária ou comprometida (cada um interpreta como quiser) de Yves Gandra do artigo 142 da Constituição, o germe daquilo que seria capaz de justificar um golpe de Estado.

Na identificação do itinerário ou roteiro da tentativa de golpe ocorrida no Brasil, deve-se retornar ao seu ponto de partida e recorrer à interpretação de Yves Gandra do artigo 142, no Consultor Jurídico de 28 de maio de 2020, pela qual, no caso "de um Poder sentir-se atropelado por outro, poderá solicitar às Forças Armadas que ajam como Poder Moderador para repor, naquele ponto, a lei e a ordem, se esta, realmente, tiver sido ferida pelo Poder em conflito com o postulante". Esse o km zero, a justificativa inicial necessária à elaboração da "minuta do golpe".

Se nos dias de hoje, a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, tem sido criticada pela imprensa por seu silêncio, diante da confirmação por altas patentes do Exército e vídeo tornado público, confirmando as intenções golpistas do ex-presidente, é importante ressaltar a reação imediata da OAB, em 2020, apenas cinco dias (2 de junho) depois da publicação do parecer jurídico de Yves Gandra.

No seu longo parecer, amplamente divulgado, a OAB deixou claro que a "Constituição Federal não confere às Forças Armadas a atribuição de intervir nos conflitos entre os Poderes em suposta defesa dos valores constitucionais. Falar em um "Poder Moderador" exercido pelas Forças Armadas não apenas é demonstração de uma hermenêutica enviesada, como também é um argumento sem qualquer lastro histórico".

Nessa análise feita pela OAB do artigo 142, utilizado amplamente pelos bolsonaristas para justificar uma intervenção militar, aparecia um pormenor bastante revelador, também constante do noticiário da CNN Brasil sobre a questão. Do relato da OAB, constava uma citação feita pelo então presidente Bolsonaro, segundo a qual o artigo 142 permitia pedir uma intervenção militar para "restabelecer a ordem no Brasil". Ora, essa citação tinha uma data: foi pronunciada na reunião ministerial de 22 de abril de 2020.

Ou seja, quase um mês antes do parecer jurídico de Yves Gandra, publicado no Conjur. E surge, então, uma pergunta difícil de evitar: a interpretação jurídica do artigo 142 por Yves Gandra, propícia à justificação de uma intervenção militar, já era do conhecimento de Bolsonaro, antes de ser publicada?

E uma coincidência: nesse mesmo dia 2 de junho de 2020, no qual a OAB rejeitava sua interpretação, o jurista Yves Gandra (talvez ainda sem saber da reação da OAB) dava uma entrevista à CNN dizendo que a Constituição prevê o uso das Forças Armadas como medida "extrema e pontual para cumprir uma deficiência dos Poderes", embora afirmasse que, naquele momento, "não havia nenhum risco de ruptura". Nessa entrevista, Gandra ainda afirmava que, no caso do Executivo ou Legislativo se sentissem sufocados pelo Judiciário, não se poderia recorrer ao próprio Judiciário, fazendo-se necessária a moderação.

Ninguém ignora, já no começo do seu governo, Jair Bolsonaro, procurava criar junto às suas bases populistas, misto de neopentecostalismo fundamentalista com uma extrema direita negacionista, a possibilidade de uma ruptura constitucional.

Às vésperas do 7 de setembro de 2021, o cientista político Christian Lynch, professor de sociologia e doutor em ciência política, sintetizou, numa entrevista à BBC Brasil, essa situação: "ele (Bolsonaro) excita a base radical e, ao mesmo tempo, incute nos inimigos a crença de que ele é capaz de dar o golpe".

Nessa altura, a interpretação do artigo 142 por Yves Gandra já havia sido encampada pelos bolsonaristas e o recurso ao uso do artigo 142, com autorização ou não do jurista, já fazia seu caminho nas redes sociais, era um dos principais temas nas manifestações bolsonaristas pró-golpe e se tornou a palavra de ordem nos acampamentos junto aos quartéis. Diante da derrota eleitoral de Bolsonaro, seus seguidores, trajando as cores verde e amarela ou enrolados na bandeira nacional, pediam a intervenção das Forças Armadas, a pretexto de uma fraude eleitoral não comprovada, exigindo aos gritos a aplicação do artigo 142.

Gente simples, muitos facilmente influenciados por seus pastores locais, provavelmente nunca tinham lido e se lessem não entenderiam o texto do tão citado artigo 142, mas foi por fidelidade à interpretação enviesada desse artigo, no dizer da OAB em 2020, que alguns bolsonaristas mais ousados praticaram atos violentos no dia 12 de dezembro de 2022, outro, ainda mais fanatizado, tentou explodir uma bomba nos arredores do aeroporto de Brasília, e mais de um milhar depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Correio do Brasil.

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Lusofonia - Nova associação empenhada em inovar na área de Recursos Humanos junto dos países lusófonos

A Associação Lusofonia Digital é já uma realidade. No último dia 31 de janeiro, decorreu uma Assembleia Geral que elegeu os primeiros órgãos sociais desta Associação para o período de 2024 a 2026. Esta nova entidade, que nasceu em maio de 2023, e conta hoje com interesse público e funciona no modelo “sem fins lucrativos”, pretende “promover o desenvolvimento da sociedade, economia e educação dos países de língua portuguesa, com incentivo à inovação e transformação digital”.


Durante esta iniciativa, foram aprovados os estatutos oficiais e eleitos os órgãos sociais da Associação, compostos por Pedro Martins, presidente, representante de Portugal; Pedro Ramos, vice-presidente, representante de Portugal; Berta Montalvão, diretora, representante de Timor-Leste; Sázia Sousa, diretora tesoureira, representante de Moçambique; Ricardina Andrade, diretora, representante de Cabo Verde. Na Mesa da Assembleia Geral, Kiesse Canito é presidente, representante de Angola; Abdel Camará é secretário, representante da Guiné-Bissau; e Neusa Sousa é secretária, representante de São Tomé e Príncipe. O Conselho Fiscal é composto por André Ricardi, presidente, representante do Brasil; Isabel Moço, vogal, representante de Portugal; e Dirceu Mtheus Jr., vogal, representante do Brasil.

“Estamos focados no “next level” do desenvolvimento social, económico e educacional da lusofonia na era digital. Somos globais, rejeitamos qualquer tipo de chauvinismo e não partilhamos qualquer tipo de crença ideológica ou religiosa. Somos independentes, não privilegiamos qualquer tipo de relacionamento com governos ou governantes, empresas ou empresários, partidos ou políticos, forças armadas ou militares, igrejas ou religiosos. Somos globais e DEI (diversidade, equidade e inclusão)!”, defenderam os responsáveis pela Associação.

Os órgãos sociais são compostos por oito nacionalidades lusófonas, os 76 fundadores e os atuais 160 associados são originários de 17 países, dos quais oito são lusófonos, e 60% das diretoras e 44% das curadoras são mulheres.

“A Associação Lusofonia Digital, que acaba de ser formalizada e na qual fomos eleitos como primeira Direção, tem um objetivo sem fronteiras de desenvolver e agregar a nossa extraordinária comunidade Lusófona em torno da construção de um novo mundo na Gestão das Pessoas, da Liderança e das Organizações num mundo completamente digital”, explicou Pedro Ramos, vice-presidente da entidade, que comentou, ainda, que o grupo de trabalho reúne “investigadores, professores, profissionais, líderes e gestores que, para além de reunirem e partilharem as melhores praticas, vão ajudar a construir o futuro”.

Lideranças de renome

Os órgãos sociais contam com nomes de destaque no cenário lusófono da gestão de pessoas e das organizações, como Pedro Ramos, vice-presidente, que é conhecido pelos seus pares com “um exemplo de aproximação entre os países lusófonos na área de gestão de pessoas”. Até ao final do ano passado, presidiu à Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas (APG), cargo que deixou no início de 2024 para dedicar-se a novos projetos, como a empresa que lidera, a Keep Talent Portugal, uma organização focada na área de Recursos Humanos. Foi eleito recentemente para o Board da International Federation of Training and Development Organisations (IFTDO).

Toda esta movimentação tem rendido a Pedro Ramos distinções, como o prémio “Personalidade de Gestão de Pessoas no Mundo Lusófono” durante o “Fórum RH Cabo Verde”, realizado na Cidade da Praia, em 2021, um reconhecimento que “visa distinguir personalidades e entidades do espaço lusófono que contribuíram para a valorização da Gestão das Pessoas na Lusofonia”.

Outra distinção surgiu da Academia de Filosofia e Ciências Humanísticas Lucentina, com sede no Brasil, que atribuiu a Pedro Ramos uma “Moção de Honra ao Mérito” pelo trabalho desenvolvido em prol das conexões humanas, título outorgado por esta entidade que é signatária do Pacto Global das Nações Unidas. O diploma foi entregue durante a “54ª International People Conference”, evento anual organizado pela Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas (APG), considerado o maior encontro de recursos humanos já realizado em Portugal, em outubro de 2023.

Pedro Ramos é membro do Conselho Estratégico da Associação Brasileira de Recursos Humanos e tem várias obras publicadas sobre liderança e gestão de pessoas. Conta com mais de 30 anos de carreira ao serviço da Gestão de Pessoas e vive em Lisboa, Portugal. Ígor Lopes – Brasil in “Mundo Lusíada”


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Portugal - A Constituição, a Habitação, o Urbanismo e o Direito a uma vida justa

Pelo preço que custaram e pelas rendas que por elas pedem os seus proprietários, parece evidente que muitas das habitações hoje construídas não se destinam, de facto, ao mercado normal da habitação

No último fim de semana, ocorreram, em diversas partes do nosso país, manifestações populares reivindicando do Estado e, através deste, de outras instituições por ele apoiadas - e, em alguns casos, mesmo, subsidiadas - a concretização de um direito constitucional: o direito à habitação.

Desde há vários anos, tem-se assistido a uma evolução do enquadramento político, económico e social do país que, neste como em outros aspetos necessários à construção de uma vida decente para os cidadãos, tem preterido, radicalmente, as mais importantes obrigações políticas do Estado, tal como a Constituição da República Portuguesa (CRP) as define.

Entre elas, evidenciam-se as que devem ser dirigidas à promoção da dignidade da pessoa humana e à construção de uma sociedade livre, justa e solidária (palavras do art.º 1.º da CRP).

No que, especificamente, diz respeito à habitação, a omissão de políticas eficazes de promoção, construção e disponibilização de habitação, por parte do Estado, aos cidadãos, conduziu, como se sabe, a uma crise grave.

Portugal é um dos países da União Europeia onde a habitação social detida pelo Estado (central e local) representa uma das mais baixas percentagens no número geral de habitações existentes.

Confrontamo-nos, agora, com uma crise que ameaça não só as classes populares como, neste momento, também, estratos sociais que, anteriormente, não conheciam problemas sérios no acesso à habitação.

Neste aspeto - como em outros - podemos até dizer que o nosso Estado estagnou e, em algumas áreas, regrediu mesmo nas políticas de promoção da dignidade e qualidade de vida dos cidadãos.

Isso é o resultado da preferência que o Estado vem, desde há muitos anos, dando a opções políticas fundadas, maioritariamente, em apoios pontuais e nunca em medidas projetadas sistematicamente ao futuro.

Políticas que não privilegiam, assim, a construção das condições para que a maioria dos cidadãos possa ter, hoje, esperança fundada de, amanhã, beneficiar de uma vida mais livre, justa e solidária.

Nos termos do seu artigo 65.º, que à habitação respeita, a CRP incumbiu, concreta e detalhadamente, o Estado de promover tais políticas nos seguintes termos:

«1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

2. Para assegurar o direito à habitação, incumbe ao Estado:

a) Programar e executar uma política de habitação inserida em planos de ordenamento geral do território e apoiada em planos de urbanização que garantam a existência de uma rede adequada de transportes e de equipamento social;

b) Promover, em colaboração com as regiões autónomas e com as autarquias locais, a construção de habitações económicas e sociais;

c) Estimular a construção privada, com subordinação ao interesse geral, e o acesso à habitação própria ou arrendada;

d) Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e a autoconstrução.

3. O Estado adotará uma política tendente a estabelecer um sistema de renda compatível com o rendimento familiar e de acesso à habitação própria.

4. O Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais definem as regras de ocupação, uso e transformação dos solos urbanos, designadamente através de instrumentos de planeamento, no quadro das leis respeitantes ao ordenamento do território e ao urbanismo, e procedem às expropriações dos solos que se revelem necessárias à satisfação de fins de utilidade pública urbanística.

5. É garantida a participação dos interessados na elaboração dos instrumentos de planeamento urbanístico e de quaisquer outros instrumentos de planeamento físico do território.»

Isso significa que - entre outros aspetos mais determinantes da política pública de habitação definida pela CRP - embora a sua concretização possa ser executada por intermédio das propostas e iniciativas do setor económico privado, a planificação urbanística, a sustentação e a definição dos objetivos da edificação de novas habitações deve ter sempre em conta os objetivos constitucionais prioritários, que compete ao Estado projetar, controlar e, se necessário, impor.

Ora, de acordo com tais objetivos, os planos de construção de habitação devem servir, em primeira mão, para colmatar as necessidades da maioria dos cidadãos e não apenas – como frequentemente acontece – uma minoria de privilegiados nacionais e estrangeiros.

Todavia, pelo preço que custaram e pelas rendas que por elas pedem os seus proprietários, parece evidente que muitas das habitações hoje construídas não se destinam, de facto, ao mercado livre e normal da habitação.

Muitos deles não habitam, nem se propõem habitar, as casas que adquiriram por valores milionários, nem, por outro lado, querem, verdadeiramente, pô-las no mercado a preços compatíveis com os rendimentos da esmagadora maioria dos portugueses.

Limitam-se a, nelas, empregar o dinheiro que têm, como quem, a título de investimento, compra barras de ouro.

Por tal motivo, na escolha e aprovação de propostas de edificação de habitações, o Estado (central e local) deveria, nos termos das prioridades definidas e detalhadas por aqueles preceitos constitucionais, privilegiar planos e projetos que visassem, de facto e em primeira mão, assegurar as necessidades de habitação dos cidadãos, de forma a contribuir, desse modo, para a sociedade justa que o artigo 1.º da CRP define e propõe como objetivo do Estado.

Como dizem Canotilho e Vital Moreira na sua «Constituição da República Anotada – 4.ª Edição», este direito tem uma dupla natureza.

«Por um lado, o direito a não ser arbitrariamente privado da habitação ou impedido de conseguir uma. Por outro lado, o direito à habitação consiste no direito a obtê-la por via de propriedade ou arrendamento, traduzindo-se na exigência das medidas e prestações estaduais adequadas a realizar tal objetivo.»

As políticas de apoio do Estado à concretização deste direito não podem, pois, limitar-se a colmatar, provisoriamente, as necessidades circunstanciais de alguns cidadãos na preservação da sua habitação, nem, tão pouco, ao apoio temporário à sua aquisição, por compra ou arrendamento.

Deve, também, e antes do mais, dirigir-se, ativamente, à programação e concretização de políticas públicas que permitam tornar efetivamente justa, hoje e amanhã, a vida de todos os cidadãos: privilegiando, por exemplo, a construção, pelo próprio Estado (central ou local) de habitação social.

O espaço político-institucional para melhor verificar se o Estado se vocaciona, ou não, para agir nesse sentido situa-se, não apenas na análise do programa político de medidas enunciadas para tal fim, mas, mais objetivamente, no exame e discussão da proposta do orçamento geral do Estado.

As manifestações realizadas em defesa do direito à habitação tiveram, por isso, a virtude de a todos alertar para a forma como o Estado se propõe, ou não, concretizar os princípios e objetivos constitucionais nos próximos tempos. António Cluny – Portugal in Jornal I online

 

António Cluny - Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Representante de Portugal na Eurojust - Unidade Europeia de Cooperação Judiciária- e na MEDEL - Associação de Magistrados Europeus pela Democracia e Liberdade.

Nomeado, por diversas vezes, Procurador da República em diferentes círculos judiciais.

Procurador-Geral Adjunto, colocado em substituição do Procurador-Geral da República nos Tribunais Supremos e no Tribunal de Contas em 22/6/98.

Perito do GRECO (Grupo de Estados Contra a Corrupção – comité especializado do Conselho da Europa), tendo participado nas equipas que avaliaram os sistemas públicos e de justiça do Mónaco e do Luxemburgo na perspetiva da luta contra a corrupção.

Em representação da Federação Internacional do Direitos Humanos (FIDH ) dirigiu no local uma missão na Amazónia (Belém do Pará) para investigar a morte de uma freira católica Norte-americana, cujo relatório apresentou em Genebra na Reunião Anual do Comité das Nações Unidas para defesa dos Direitos Humanos.

Participante em Washington e S. Francisco em conferências e iniciativas cívicas de luta contra Pena de Morte a convite da International Commission Against the Death Penalty e da Death Penalty Focus, tendo intervindo no Clube de Imprensa daquela primeira cidade.

Alguns livros e artigos:

Pensar o Ministério Público Hoje – Ed. Cosmos, Outubro de 1997.

Responsabilidade Financeira e Tribunal de Contas, Coimbra Editora, Dezembro de 2001.

O Ministério Público, o Estado de Direito Social e a Nova Criminalidade Organizada que reproduz uma intervenção num colóquio realizado em Bruxelas em 12, 13 Dezembro de 1997, pela MEDEL e a União Europeia subordinado ao tema «La Justice entravée – corruption et criminalité économique internationale» – RMP, n.º 72, 1997.

O Ministério Público e o princípio constitucional da igualdade – Caderno n.º 10 da RMP – Ed. Cosmos, Lisboa 2000.

Reflexões e Dúvidas no 25.º Aniversário do Estatuto do Ministério Público – RMP, n.º 95, 2003.

Démocratie et rôle de l’associationnisme judiciaire au Portugal – incluído na obra : La formation des magistrats en Europe et le role des syndicats et des associations profissionelles / Quelle formation, pour quelle Justice, dans quelle société - CEDAM, Padova, 1992.

Criminalidade em Tempo de Crise – O Cidadão (1995) III, 9-10: 23-28.


sábado, 12 de novembro de 2022

Cabo Verde - Criada a ALMA-CV, Associação da Língua Materna que visa “impulsionar a mudança de política linguística”

A associação tem como membros linguistas, investigadores e profissionais de várias áreas, personalidades ligadas à promoção da língua cabo-verdiana, historiadores, artistas, entre outros


Aconteceu ontem, dia 11, na cidade da Praia a Assembleia constitutiva da Associação da Língua Materna Cabo-verdiana, (ALMA-CV). Segundo a linguista e docente universitária Karina Moreira, esta iniciativa surge na sequência da dinâmica suscitada pela Petição para a Mudança da Política Linguística Cabo-verdiana que em abril de 2021, foi entregue ao antigo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca.

Na altura, professores e investigadores de línguas crioulas, professores e investigadores de português enquanto língua segunda, português em África, historiadores, artistas, pessoas que trabalham com línguas, pessoas que já estão sensibilizadas para o tema, mais de 200 personalidades fizeram questão de assinar a petição.

Meses mais tarde, em novembro de 2021, o grupo dos promotores desta petição reuniu-se com o recém-eleito Presidente da República, José Maria Neves, onde voltaram a defender “a oficialização do crioulo e o ensino da língua cabo-verdiana e a sua padronização”.

“Os membros (da associação) são os signatários da petição”, explica Karina Moreira e acrescenta que a iniciativa visa “formalizar o grupo para ter voz legal e ativa” e promover a “mudança de política linguística no país”, bem como a criação de condições para a valorização da língua materna, sendo que além dos signatários mais algumas pessoas foram convidadas para integrar a associação que “estará aberta a todos”.

A Assembleia constitutiva, onde serão apresentados e debatidos os Estatutos e eleitos dos órgãos nacionais da associação, está marcada para as 17H00, no Salão de Banquetes da Assembleia Nacional e vai contar com “46 pessoas em linha e presencialmente”, conforme as exigências legais.

A ALMA-CV tem como membros linguistas, investigadores e profissionais de várias áreas, personalidades ligadas à promoção da língua cabo-verdiana, historiadores, artistas, entre outros.

Depois de eleger os órgãos nacionais, a associação “vai reunir-se para traçar o plano de atividades”, sendo que a missão da ALMA-CV é: “contribuir para a efetivação de uma política linguística, explícita, organizada e planificada, consentânea com a situação sociolinguística de Cabo Verde e com os direitos humanos de natureza linguística, da ciência linguística e da didática das línguas, da atual agenda educativa mundial e da prática linguística dos cidadãos cabo-verdianos.”

Sobre o arranque do ensino experimental da língua cabo-verdiana em algumas escolas do país, a docente da Universidade de Cabo Verde, diz que a equipa da Uni-CV tem estado em contacto com os professores que estão a lecionar esta disciplina e que já manifestaram a sua disponibilidade junto do ministério da Educação para acompanhar os mesmos, tendo em conta que já constaram na prática a “necessidade de capacitação dos professores e seguimento, tendo em conta que nem todos são formados na área da línguas. “O nosso papel tem sido esse, acompanhar os professores que têm tido algumas dificuldades”. In “Balai Cabo Verde” – Cabo Verde






 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Guiné-Bissau - Proposta de revisão constitucional reforça semipresidencialismo e baliza poderes

A proposta da comissão da Assembleia Nacional Popular para a revisão da Constituição da Guiné-Bissau, a ser debatida durante a actual sessão do hemiciclo, reforça o semipresidencialismo, de pendor parlamentar, e baliza os poderes dos órgãos de soberania.

O documento, a que a Lusa teve acesso, está dividido em quatro partes, nomeadamente princípios fundamentais, direitos e deveres fundamentais, organização económica e organização do poder político, e tem 317 artigos, contra os 133 da actual Constituição.

Na quarta parte, relativa à organização do poder político, no capítulo relativo ao Presidente da República, a revisão mantém que o chefe de Estado não se pode candidatar a um terceiro mandato, mas acrescenta que só pode presidir ao Conselho de Ministros quando convidado pelo primeiro-ministro. A Constituição actual autoriza o chefe de Estado a presidir ao Conselho de Ministros sempre que queira.

A revisão propõe que o Presidente da República só possa dissolver o parlamento devido a “bloqueio que impeça o funcionamento de duas sessões ordinárias consecutivas” ou “quatro sessões intercaladas na mesma legislatura”, a falta de recepção injustificada do Programa do Governo, Plano Nacional de Desenvolvimento e Orçamento Geral do Estado.

O chefe de Estado pode também dissolver o parlamento se houver uma “ruptura nos grupos parlamentares que sustentam o Governo”, por “rejeição de duas moções de confiança apresentadas pelo Governo” e “aprovação de quatro moções de censura contra o Governo”.

Actualmente, a Constituição autoriza o Presidente da República a dissolver o parlamento em “caso de grave crise política”, sem mais especificações. Para a demissão do Governo, a proposta de revisão passa a enumerar também as razões pelas quais o executivo pode ser demitido.

Além da rejeição de moções de confiança ou aprovação de moções de censura ou falta de apresentação justificada dos documentos de governação, o Governo pode ser demitido se não vir aprovado pela segunda vez o seu programa ou pela “contração de empréstimos não autorizados pela Assembleia Nacional Popular”.

A actual Constituição prevê que o Governo seja demitido na sequência da falta de aprovação de uma moção de confiança ou a aprovação de uma moção de censura por maioria absoluta e também por “grave crise política”, que desaparece na actual proposta de revisão.

Nos limites da revisão da Constituição, a proposta inclui que nenhum projecto de revisão constitucional pode modificar o limite de mandatos do Presidente da República, a autonomia do poder local e os direitos e regalias dos Combatentes da Liberdade da Pátria.

A revisão da Constituição da Guiné-Bissau tem provocado alguma polémica política, depois de o chefe de Estado ter, por sua iniciativa, apresentado uma proposta de revisão, que constitucionalmente cabe apenas à Assembleia Nacional Popular.

A proposta do Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, reforça os poderes do chefe de Estado, que passava a presidir ao Conselho de Ministros, ao Conselho Superior de Defesa e ao Conselho Superior de Segurança Nacional.

Nesta proposta, que não vai ser discutida no parlamento, determinava-se que o chefe do Governo poderia presidir ao Conselho de Ministros por delegação do Presidente, ao contrário da Constituição em vigor.

Ainda em relação ao Presidente da República, a proposta do chefe de Estado referia que só podia ser candidato ao cargo quem tivesse tido “residência permanente no território nacional nos cinco anos imediatamente anteriores à data de apresentação da candidatura”, limitando as candidaturas de cidadãos que não residissem no país.

Segundo a actual Constituição da Guiné-Bissau, as propostas de revisão têm de ser aprovadas por maioria de dois terços dos deputados que constituem a Assembleia Nacional Popular, ou seja, 68 dos 102 deputados.

Dos 102 deputados que constituem o parlamento guineense, 47 são do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), 27 do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), 21 do Partido da Renovação Social (PRS), cinco da Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), um do Partido da Nova Democracia e um da União para a Mudança. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”

 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Angola - 4º período de Estado de Emergência viola direitos inscritos na Constituição da República

O Decreto Presidencial que prorroga o estado de emergência e define as medidas concretas de excepção em vigor nos próximos 15 dias introduz, no artigo 4.º, referente à suspensão de direitos, uma novidade em relação ao diploma de 9 de Abril: Está interrompida a "inviolabilidade da correspondência e das comunicações"

No artigo 4º do Decreto Presidencial que prorroga o estado de emergência por mais 15 dias, a contar da meia-noite do dia 11 de Maio, e até às 23h59 do dia 25 de Maio, pode ler-se que "durante a vigência do estado de emergência são suspensos, no todo ou em parte, os direitos de Inviolabilidade do domicílio; o direito de propriedade; o direito à livre iniciativa económica; a liberdade de culto, na sua dimensão colectiva; a liberdade de residência, circulação e emigração; a Liberdade de reunião e de manifestação; a inviolabilidade da correspondência e das comunicações; e o direito à greve e direitos gerais dos trabalhadores", enquanto no decreto presidencial anterior, datado de 9 de Abril, estava apenas prevista a suspensão do direito de propriedade; do direito à livre iniciativa económica; a liberdade de culto; a liberdade de residência, circulação e emigração; a liberdade de reunião e de manifestação; e o direito à greve e direitos gerais dos trabalhadores.

Uma consulta à Constituição da República (CRA) feita pelo Novo Jornal permite perceber que no artigo 27, reservado ao regime dos direitos, liberdades e garantias, pode ler-se que "é inviolável o sigilo da correspondência e dos demais meios de comunicação privada, nomeadamente das comunicações postais, telegráficas, telefónicas e telemáticas".

O mesmo artigo deixa ainda claro que "apenas por decisão de autoridade judicial competente proferida nos termos da lei, é permitida a ingerência das autoridades públicas na correspondência e nos demais meios de comunicação privada".

No seu artigo 57, a CRA determina que a lei só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição, "devendo as restrições limitar-se ao necessário, proporcional e razoável numa sociedade livre e democrática, para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos".

E se o artigo 58 da Constituição prevê que o exercício dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos "apenas pode ser limitado ou suspenso em caso de estado de guerra, de estado de sítio ou de estado de emergência", também defende que "a opção pelo estado de guerra, estado de sítio ou estado de emergência, bem como a respectiva declaração e execução, devem sempre limitar-se às acções necessárias e adequadas à manutenção da ordem pública, à protecção do interesse geral, ao respeito do princípio da proporcionalidade e limitar-se, nomeadamente quanto à sua extensão, duração e meios utilizados, ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade constitucional". In “Novo Jornal” - Angola

sábado, 1 de dezembro de 2018

Lusofonia - Constituída em Braga Rede da GaliLusofonia



No passado sábado, 24 de Novembro, celebrou-se, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva de Braga, a reunião de constituição da Rede da GaliLusofonia.

O presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio, inaugurou esta reunião, quem viu “com bons olhos este estreitar de laços entre as populações dos dois lados da fronteira, reforçando a identidade comum e as tradições da região, de forma a potenciar o talento que a mesma contém”. Também encorajou os assistentes a participarem ativamente na programação de Braga Capital Cultural do Eixo Atlântico 2020 e anunciou a geminação, aprovada no dia anterior, com Santiago de Compostela.

Continuou a reunião com uma ronda de apresentações onde se introduziu um breve debate sobre a língua portuguesa e as diferentes expressões que serviu para clarificar que, ainda que alguns a escrevam de forma diferente, é a mesma e isso é o que nos une.

Houve, também, uma visita guiada, com a Diretora da Biblioteca, que nos explicou as características documentais e as diversas funções sociais e educativas que desenvolve. Destacou um nutrido apartado de livros galegos fruto de doações oficiais, e que não está inserido na seção de livros estrangeiros.

O almoço, oferecido pela Câmara de Braga, no restaurante taberna Migaitas, foi muito cultural no gastronómico e nas parcerias que ali começaram a construir-se.

Na parte da tarde discutiram-se os aspectos puramente organizativos, nomeando uma gestora para esclarecer algumas questões legais sobre a melhor forma jurídica e também para fazer a redação dos estatutos, e a possibilidade de constituir a rede como Associação Internacional más ficou a dúvida do reconhecimento jurídico pleno nos dois estados. A gestora vai falar com um par de deputados europeus para esclarecer algumas dúvidas.

Criaram-se já algumas comissões (Difusão e Parcerias; Subsídios; Comunicação; Publicações) para ir avançando na elaboração dum plano de ação e atividades a curto, médio e longo prazo.

O Concelho de Cedeira propus celebrar lá uma reunião com motivo do Festival ‘Traz outro amigo também’, no segundo fim de semana de junho de 2019, mas antes deve celebrar-se a Assembleia para constituir formalmente a Rede.

A Rede vai estar presente no Festival Culturgal numa banca compartilhada com algumas destas organizações.

A AGAL esteve representada no encontro de Ponte Vedra polo seu vice-presidente, Carlos Quiroga, e em Braga polo secretário, Eliseu Mera.

A Rede da Galilusofonia, tem como objetivo juntar esforços, coordenar-se e cooperar na difusão de iniciativas encaminhadas a fomentar a nossa língua e cultura comuns no seu espaço natural, a Lusofonia, com grande potencial noutros campos como o económico e o institucional.

O projeto nasceu em Ponte Vedra, em Outubro passado, e é impulsionado por diferentes entidades galegas e portuguesas que partilham o objetivo comum de difundir a música e as artes e aproximar a língua e a cultura galegas da Lusofonia.

A Rede pretende concretizar os objetivos gerais em ações como estabelecimento de parcerias, o trabalho no reconhecimento e autenticação da língua e cultura comuns de forma multidirecional em todos os territórios, a inclusão de conteúdos curriculares em todos os sistemas educativos dos países de língua comum que evidenciem a história, língua e cultura comuns ou a recuperação, difusão e promoção do património cultural comum.

Nesta iniciativa estão presentes entidades galegas como a Associaçom Galega da Língua (AGAL), Escola Oficial de Idiomas de Santiago, Academia Galega da Língua Portuguesa, A Mesa pola normalización lingüística, Concelho de Ponte Areias, Concelho de Cedeira, Ponte nas Ondas ou Cantos na Maré. Na parte portuguesa participam TIN.BRA-Academia de Teatro (Braga), Associação José Afonso Portugal, Freguesia de Nogeiró, Castro Galaico Festival de Nogueiró, Livraria Traga Mundos ou Cantos d’Aqui. In “Portal Galego da Língua” - Galiza