Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 12 de março de 2025

Península ibérica – Universidade de Coimbra recorre a tecnologias imersivas para promover ambientes de trabalho saudáveis e bem-estar laboral

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) integra projeto que utiliza tecnologias imersivas para promover ambientes de trabalho saudáveis e bem-estar laboral.


 

O “WinWORK: "Criação de Ambientes de Trabalho Saudáveis para a Promoção de Qualidade de Vida e Bem-estar nos Locais de Trabalho” é um projeto transfronteiriço inovador, cofinanciado pela União Europeia através do Programa de Cooperação Interreg VI-A Espanha-Portugal.  

«Este projeto tem como objetivo melhorar a saúde e o bem-estar no ambiente laboral, recorrendo a intervenções multidisciplinares e tecnologias imersivas, como a realidade virtual, com enfoque na cocriação e participação ativa das partes interessadas. A Universidade de Coimbra (UC) desempenha um papel central no projeto», afirma Ana Luísa Pinto, professora do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) e líder do projeto na UC.  

A equipa da UC, liderada por Ana Pinto, conta com a colaboração de Paulo Menezes e Hélder Araújo, professores do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores/ investigadores do Instituto de Sistemas e Robótica, Carla Carvalho e Lisete Mónico, professoras da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, e os investigadores José Pinto Gouveia, Bárbara Monteiro, Telma Alves e Nuno Moita.

De acordo com a professora da FCTUC, «a abordagem utilizada foca-se nas tecnologias imersivas de realidade virtual para criar cenários interativos que promovam o mindfulness, ajudando os trabalhadores a gerir o stress e a desenvolver competências de natureza socio-emocional. Estas experiências são implementadas com óculos de realidade virtual, proporcionando um ambiente seguro e eficaz para a aprendizagem e a redução dos riscos psicossociais», explica

O WinWORK inclui intervenções piloto em seis organizações de Portugal e Espanha, abrangendo três setores: indústria, serviços e saúde. Estas ações envolvem a aplicação de metodologias participativas e sessões de capacitação para trabalhadores e gestores. 

Além disso, o projeto realiza um levantamento inicial através de um questionário online da responsabilidade das redes da Associação Empresarial de Portugal, da Cámara de Comercio de Salamanca e da Cámara de Comercio de Badajoz. As organizações que preencherem este  questionário poderão ser selecionadas para participar no projeto WinWORK, beneficiando diretamente da intervenção.

Este estudo avalia aspetos como cultura organizacional, liderança e condições de trabalho, preparando o caminho para o desenho das intervenções colaborativas. «O projeto pretende transformar os ambientes de trabalho, promovendo segurança, saúde e inclusão. A expectativa é que os resultados obtidos beneficiem não apenas as organizações diretamente envolvidas, mas também toda a comunidade interessada na temática», conclui Ana Pinto.

O consórcio é liderado pelo Instituto Politécnico do Porto e conta com parceiros como a Associação Empresarial de Portugal, Cámara Oficial de Comercio, Industria y Servicios de Badajoz, Fundación Centro de Cirugía de Mínima Invasión, Instituto Politécnico da Guarda, Universidade Coimbra, Universidad de Salamanca - Vicerrectorado de Investigacion y Transferencia. 

Focado na inovação, colaboração e uso de tecnologia avançada, o WinWORK promete contribuir significativamente para a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida nos locais de trabalho, estabelecendo um novo paradigma para a saúde laboral em Portugal e Espanha. Universidade de Coimbra - Portugal


domingo, 26 de janeiro de 2025

Estados Unidos da América - Razões que levam os cidadãos a mudarem-se para Portugal

O regresso ao poder de Donald Trump, a polarização política e o aumento do custo de vida são algumas das razões que levam muitos norte-americanos a saírem do seu país para viverem em Portugal, um “país que deu certo”

“O meu marido diz que é um refugiado político em Portugal”, desabafa Lisa Hayes, 69 anos, que vive no centro de Tomar há alguns meses, depois de ter saído de Prescott, Arizona.

“Queríamos um sítio para sair da insanidade dos EUA” e Portugal é um “país que deu certo”, ao contrário do “absurdo político” norte-americano, afirma, fazendo uma lista do que mais a atraiu: “Custo de vida baixo, serviço de saúde excelente, as pessoas são hospitaleiras e muitas sabem inglês. E se não sabem, esforçam-se para nos compreender”.

Em Braga vive Thomas Brennan, que fugiu de Chicago também para “não ver mais notícias que causam revolta e angústia”.

“Sou democrata, fui votar e irei sempre votar contra ditadores. Mas não consigo mais gerir aquilo lá”, afirma o informático de 49 anos, que decidiu trabalhar remotamente, “mesmo perdendo dinheiro”.

Phyllis Brooks e o marido estão em Portugal desde agosto, tendo escolhido Setúbal, “a capital do choco frito”, como se referiu num português quase sem sotaque.

“Nós pensávamos há muito tempo em sair dos Estados Unidos e avaliámos bem as coisas. Não é por causa de uma administração que decidimos sair, mas até acabou por ser uma decisão que resultou em nosso benefício”, diz a mulher de 49 anos, que se reformou antecipadamente com o marido, de 51 anos.

“Ouvimos falar de Portugal e quando visitámos o país pela primeira vez, foi a combinação de tudo o que quisemos sempre. Fomos a vários sítios e em todos os locais sentimos sempre uma particularidade bonita”, refere.

E o centro de Setúbal foi também uma questão de sentimento. “Chegámos, vimos e pensámos os dois: é aqui”.

Benno Push vive perto da avenida Almirante Reis, em Lisboa, e olha para Portugal como um “porto seguro”.

“Descobri que Portugal é um dos melhores sítios para nos retirarmos no mundo”, afirma o viúvo de 62 anos, que perdeu a sua mulher numa luta contra o cancro, já em Lisboa.

A opção por Portugal também se deveu aos cuidados de saúde. “A Fundação Champalimaud foi incrível. Conseguimos ter tempo de qualidade”, recorda o filho de imigrantes alemães nos Estados Unidos.

“Talvez pelas minhas origens, sempre adorei o modo de vida europeu”, e em Portugal, mesmo nos dias de chuva, “é sempre possível ver um bocadinho de sol”.

De onde veio, Miami, o tempo é muito quente e as coisas são muito caras. “Aqui a vida é mais barata e mais calma, com um bom sistema de transportes e pessoas simpáticas”.

A viver em Portugal desde 2022, Benno é mais crítico em relação à segurança e à presença de outros imigrantes. 

“Acho muito complicado que eu tenha de mostrar condições financeiras para cá vir e depois vejo pessoas imigrantes nas ruas, sem condições”, fazendo com que “alguns sítios não pareçam seguros”.

Benno defende uma multiculturalidade que respeite o país. “Se alguém vem para Europa tem de se adaptar ao sítio para onde vão. Podem manter as suas crenças, mas mantenham-nas nas suas casas e não tentem mudar o sítio onde estão”, apela, lamentando que “existam ‘little Indias’ ou ‘little Chinas’ em Lisboa”.

Lisa Hayes e o marido sempre quiseram viajar mais pela Europa e a escolha por Portugal foi natural. “Portugal parecia mais intrigante que Espanha e parece que toda a gente vai para Espanha”, mas “nós queiramos outro ambiente”.

Sem filhos, os amigos e a família olharam para a decisão do casal, em junho de 2024, como algo expectável: “Os meus amigos estão todos um pouco com inveja, sempre fomos um casal excêntrico e a nossa família esperou sempre alguma coisa de diferente da nossa parte”.

A escolha pelo centro de Tomar fazia também sentido depois de terem visitado cidades como Caldas da Rainha, Porto ou Coimbra.

“Não somos pessoas de praia e nem jogamos golfe. Por isso olhamos para o interior, que nos parecia mais aceitável e mais barato”. E quando “vimos Tomar, ficou claro que era o sítio certo: adoramos o local e a sensação de que podemos fazer parte da sua história”.

Susan Young vive perto de Tomar, numa casa com um pequeno quintal na aldeia da Sabacheira. Susan, 62 anos, e o marido vieram de São Francisco e continuam a trabalhar, agora de modo remoto.

A diferença horária é o que mais lhe custa, reconhece, entre sorrisos. “Não há grande vida social de semana. Todas as noites estamos a trabalhar, com os horários de São Francisco”.

Inicialmente, a opção por Portugal deveu-se à simplificação do processo de entrada. “Sempre quisemos viver fora e aqui fazia sentido”, recorda a mãe de cinco filhos, todos a viverem nos Estados Unidos.

“São muitos e tinham opiniões diferentes sobre a nossa decisão. alguns ficaram entusiasmados por nós e outros sentiram que nós estávamos a fugir”, mas, “no final, todos compreenderam”.

A polarização nos EUA também ajudou. “Não foi o principal fator para nós sairmos, mas a paisagem política do país foi um fator e estamos muito felizes por não estarmos no meio daquele ódio”, afirma.

Hoje está grata por viver em Portugal e diz que os portugueses “devem valorizar o que construíram como país”.

“Tive uma emergência médica há uns dias e tive que ir para Lisboa, o processo foi muito bom e, no final, quando pedi para pagar a conta não devia nada. Isso seria impossível nos Estados Unidos”, recorda.

“Estamos muito agradecidos pela capacidade de um sistema”, em que “ninguém vai ficar em falência ou posto de parte, por causa de uma qualquer doença”, acrescenta, considerando que muitos dos seus amigos entenderam essa opção também porque sabem que há “países que oferecem melhor qualidade de vida”.

“Eles entendem que a América não é o único sítio para viver e nem sequer é o melhor sítio do mundo”, mas também “há muitos nos EUA que não entendem isso”, afirmou, elogiando os portugueses.

“Vocês são incríveis. Sei que há algum nacionalismo por aí, mas nunca encontrámos ninguém. Bem sei que há outros grupos que não mulheres brancas com 62 anos que são alvo de racismo”, mas “nunca senti qualquer negatividade” por parte das pessoas.

“E isso poderia acontecer, porque muitos expatriados são pessoas que trazem muito dinheiro, que compram casas e aumentam o preço do imobiliário, mas nunca sentimos nada de mal”, refere.

Sobre o seu país, Lisa Hayes fala com tristeza. “Não queremos ouvir notícias dos EUA depois do que se passou nas eleições. Nós já não vivemos lá e é demasiado perturbador o que lá se passa”.

Mas Trump tem também impacto global. “Sairmos da OMS [Organização Mundial de Saúde] e dos acordos climáticos [de Paris] é a loucura. Só espero que nós não contaminemos o resto do mundo com esta loucura e que o resto do mundo lute como fez o governo da Gronelândia” a “mandar calar a administração” em relação às suas ambições territoriais.

Sarah Young concorda com Lisa Hayes: “Espero que o resto do mundo olhe para os Estados Unidos e nunca ache que esta política é normal. Penso que a maioria dos países europeus não consegue acreditar que isto está a acontecer. Outra vez”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo 


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Portugal - A Constituição, a Habitação, o Urbanismo e o Direito a uma vida justa

Pelo preço que custaram e pelas rendas que por elas pedem os seus proprietários, parece evidente que muitas das habitações hoje construídas não se destinam, de facto, ao mercado normal da habitação

No último fim de semana, ocorreram, em diversas partes do nosso país, manifestações populares reivindicando do Estado e, através deste, de outras instituições por ele apoiadas - e, em alguns casos, mesmo, subsidiadas - a concretização de um direito constitucional: o direito à habitação.

Desde há vários anos, tem-se assistido a uma evolução do enquadramento político, económico e social do país que, neste como em outros aspetos necessários à construção de uma vida decente para os cidadãos, tem preterido, radicalmente, as mais importantes obrigações políticas do Estado, tal como a Constituição da República Portuguesa (CRP) as define.

Entre elas, evidenciam-se as que devem ser dirigidas à promoção da dignidade da pessoa humana e à construção de uma sociedade livre, justa e solidária (palavras do art.º 1.º da CRP).

No que, especificamente, diz respeito à habitação, a omissão de políticas eficazes de promoção, construção e disponibilização de habitação, por parte do Estado, aos cidadãos, conduziu, como se sabe, a uma crise grave.

Portugal é um dos países da União Europeia onde a habitação social detida pelo Estado (central e local) representa uma das mais baixas percentagens no número geral de habitações existentes.

Confrontamo-nos, agora, com uma crise que ameaça não só as classes populares como, neste momento, também, estratos sociais que, anteriormente, não conheciam problemas sérios no acesso à habitação.

Neste aspeto - como em outros - podemos até dizer que o nosso Estado estagnou e, em algumas áreas, regrediu mesmo nas políticas de promoção da dignidade e qualidade de vida dos cidadãos.

Isso é o resultado da preferência que o Estado vem, desde há muitos anos, dando a opções políticas fundadas, maioritariamente, em apoios pontuais e nunca em medidas projetadas sistematicamente ao futuro.

Políticas que não privilegiam, assim, a construção das condições para que a maioria dos cidadãos possa ter, hoje, esperança fundada de, amanhã, beneficiar de uma vida mais livre, justa e solidária.

Nos termos do seu artigo 65.º, que à habitação respeita, a CRP incumbiu, concreta e detalhadamente, o Estado de promover tais políticas nos seguintes termos:

«1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.

2. Para assegurar o direito à habitação, incumbe ao Estado:

a) Programar e executar uma política de habitação inserida em planos de ordenamento geral do território e apoiada em planos de urbanização que garantam a existência de uma rede adequada de transportes e de equipamento social;

b) Promover, em colaboração com as regiões autónomas e com as autarquias locais, a construção de habitações económicas e sociais;

c) Estimular a construção privada, com subordinação ao interesse geral, e o acesso à habitação própria ou arrendada;

d) Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e a autoconstrução.

3. O Estado adotará uma política tendente a estabelecer um sistema de renda compatível com o rendimento familiar e de acesso à habitação própria.

4. O Estado, as regiões autónomas e as autarquias locais definem as regras de ocupação, uso e transformação dos solos urbanos, designadamente através de instrumentos de planeamento, no quadro das leis respeitantes ao ordenamento do território e ao urbanismo, e procedem às expropriações dos solos que se revelem necessárias à satisfação de fins de utilidade pública urbanística.

5. É garantida a participação dos interessados na elaboração dos instrumentos de planeamento urbanístico e de quaisquer outros instrumentos de planeamento físico do território.»

Isso significa que - entre outros aspetos mais determinantes da política pública de habitação definida pela CRP - embora a sua concretização possa ser executada por intermédio das propostas e iniciativas do setor económico privado, a planificação urbanística, a sustentação e a definição dos objetivos da edificação de novas habitações deve ter sempre em conta os objetivos constitucionais prioritários, que compete ao Estado projetar, controlar e, se necessário, impor.

Ora, de acordo com tais objetivos, os planos de construção de habitação devem servir, em primeira mão, para colmatar as necessidades da maioria dos cidadãos e não apenas – como frequentemente acontece – uma minoria de privilegiados nacionais e estrangeiros.

Todavia, pelo preço que custaram e pelas rendas que por elas pedem os seus proprietários, parece evidente que muitas das habitações hoje construídas não se destinam, de facto, ao mercado livre e normal da habitação.

Muitos deles não habitam, nem se propõem habitar, as casas que adquiriram por valores milionários, nem, por outro lado, querem, verdadeiramente, pô-las no mercado a preços compatíveis com os rendimentos da esmagadora maioria dos portugueses.

Limitam-se a, nelas, empregar o dinheiro que têm, como quem, a título de investimento, compra barras de ouro.

Por tal motivo, na escolha e aprovação de propostas de edificação de habitações, o Estado (central e local) deveria, nos termos das prioridades definidas e detalhadas por aqueles preceitos constitucionais, privilegiar planos e projetos que visassem, de facto e em primeira mão, assegurar as necessidades de habitação dos cidadãos, de forma a contribuir, desse modo, para a sociedade justa que o artigo 1.º da CRP define e propõe como objetivo do Estado.

Como dizem Canotilho e Vital Moreira na sua «Constituição da República Anotada – 4.ª Edição», este direito tem uma dupla natureza.

«Por um lado, o direito a não ser arbitrariamente privado da habitação ou impedido de conseguir uma. Por outro lado, o direito à habitação consiste no direito a obtê-la por via de propriedade ou arrendamento, traduzindo-se na exigência das medidas e prestações estaduais adequadas a realizar tal objetivo.»

As políticas de apoio do Estado à concretização deste direito não podem, pois, limitar-se a colmatar, provisoriamente, as necessidades circunstanciais de alguns cidadãos na preservação da sua habitação, nem, tão pouco, ao apoio temporário à sua aquisição, por compra ou arrendamento.

Deve, também, e antes do mais, dirigir-se, ativamente, à programação e concretização de políticas públicas que permitam tornar efetivamente justa, hoje e amanhã, a vida de todos os cidadãos: privilegiando, por exemplo, a construção, pelo próprio Estado (central ou local) de habitação social.

O espaço político-institucional para melhor verificar se o Estado se vocaciona, ou não, para agir nesse sentido situa-se, não apenas na análise do programa político de medidas enunciadas para tal fim, mas, mais objetivamente, no exame e discussão da proposta do orçamento geral do Estado.

As manifestações realizadas em defesa do direito à habitação tiveram, por isso, a virtude de a todos alertar para a forma como o Estado se propõe, ou não, concretizar os princípios e objetivos constitucionais nos próximos tempos. António Cluny – Portugal in Jornal I online

 

António Cluny - Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Representante de Portugal na Eurojust - Unidade Europeia de Cooperação Judiciária- e na MEDEL - Associação de Magistrados Europeus pela Democracia e Liberdade.

Nomeado, por diversas vezes, Procurador da República em diferentes círculos judiciais.

Procurador-Geral Adjunto, colocado em substituição do Procurador-Geral da República nos Tribunais Supremos e no Tribunal de Contas em 22/6/98.

Perito do GRECO (Grupo de Estados Contra a Corrupção – comité especializado do Conselho da Europa), tendo participado nas equipas que avaliaram os sistemas públicos e de justiça do Mónaco e do Luxemburgo na perspetiva da luta contra a corrupção.

Em representação da Federação Internacional do Direitos Humanos (FIDH ) dirigiu no local uma missão na Amazónia (Belém do Pará) para investigar a morte de uma freira católica Norte-americana, cujo relatório apresentou em Genebra na Reunião Anual do Comité das Nações Unidas para defesa dos Direitos Humanos.

Participante em Washington e S. Francisco em conferências e iniciativas cívicas de luta contra Pena de Morte a convite da International Commission Against the Death Penalty e da Death Penalty Focus, tendo intervindo no Clube de Imprensa daquela primeira cidade.

Alguns livros e artigos:

Pensar o Ministério Público Hoje – Ed. Cosmos, Outubro de 1997.

Responsabilidade Financeira e Tribunal de Contas, Coimbra Editora, Dezembro de 2001.

O Ministério Público, o Estado de Direito Social e a Nova Criminalidade Organizada que reproduz uma intervenção num colóquio realizado em Bruxelas em 12, 13 Dezembro de 1997, pela MEDEL e a União Europeia subordinado ao tema «La Justice entravée – corruption et criminalité économique internationale» – RMP, n.º 72, 1997.

O Ministério Público e o princípio constitucional da igualdade – Caderno n.º 10 da RMP – Ed. Cosmos, Lisboa 2000.

Reflexões e Dúvidas no 25.º Aniversário do Estatuto do Ministério Público – RMP, n.º 95, 2003.

Démocratie et rôle de l’associationnisme judiciaire au Portugal – incluído na obra : La formation des magistrats en Europe et le role des syndicats et des associations profissionelles / Quelle formation, pour quelle Justice, dans quelle société - CEDAM, Padova, 1992.

Criminalidade em Tempo de Crise – O Cidadão (1995) III, 9-10: 23-28.


segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Portugal - Ministério da Saúde aplica instrumento desenvolvido por investigadores da Universidade de Coimbra para avaliar ganhos em saúde

Um instrumento de medição de resultados em saúde baseado em preferências da população portuguesa, desenvolvido por uma equipa de investigadores do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (CEISUC), foi adotado pelo Ministério da Saúde como instrumento de referência para avaliar a qualidade de vida relacionada com a saúde, no âmbito de medição e valoração dos efeitos em saúde.

Na prática, este instrumento - designado EQ-5D-5L em português -, referido (ponto 9) na Portaria nº 391/2019, de 30 de outubro, que define os princípios e a caracterização das Orientações Metodológicas para Estudos de Avaliação Económica de Tecnologias de Saúde, apoia a tomada de decisão nos processos de financiamento pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), designadamente nos processos de comparticipação, avaliação e reavaliação de tecnologias de saúde.

A equipa do CEISUC, liderada por Pedro Lopes Ferreira, desenvolveu um modelo econométrico que permite obter um sistema de valores para a realidade portuguesa a partir do EQ-5D-5L, um instrumento genérico de avaliação da qualidade de vida relacionada com a saúde, com regras definidas pelo Grupo EuroQol. Trata-se de uma metodologia construída com base nos chamados PROs (Patient-reported outcomes), isto é, resultados reportados diretamente pelos doentes, que tem vindo a ganhar terreno na investigação em saúde, considerada útil para apoiar decisões clínicas e de políticas de saúde.

De forma mais simples, o EQ-5D-5L com o sistema de valores da população portuguesa permite conhecer o valor que os cidadãos atribuem a determinados estados de saúde. Assenta num sistema de classificação que descreve a saúde em cinco dimensões: mobilidade, cuidados pessoais, atividades habituais, dor e ansiedade/depressão. 

Para produzir e validar o instrumento implementado pelo Ministério da Saúde, a equipa do CEISUC realizou um estudo junto de uma amostra representativa da população geral de Portugal continental e ilhas, constituída por 1451 pessoas, de ambos os sexos e de várias faixas etárias (18 a 29; 30 a 49; 50 a 69; ≥ 70), abrangendo áreas urbanas e rurais.

Os dados foram recolhidos através de entrevistas individuais efetuadas nas residências dos entrevistados, assistidas por computador, seguindo o rigoroso protocolo EuroQol Valuation Technology, por forma a garantir a fiabilidade dos dados. Cada entrevista compreendeu a avaliação de 10 estados de saúde, descritos com base nas 5 dimensões do EQ-5D-5L.

Segundo o coordenador do projeto, Pedro Lopes Ferreira, «estes instrumentos de medição de resultados em saúde baseados em preferências são essenciais para a gestão adequada dos dinheiros públicos, promovendo uma gestão mais equitativa e justa em termos sociais».

«O EQ-5D-5L é útil, por exemplo, para a avaliação de novos medicamentos ou de novos dispositivos médicos. No âmbito da portaria nº 391/2019, qualquer novo medicamento ou dispositivo médico tem, entre outros, de passar pelo crivo deste instrumento, para ser reconhecido pelo Estado português e poder ser comercializado em território nacional», ilustra.

O também docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) salienta que «as medidas baseadas em preferências são cada vez mais usadas nas avaliações económicas em saúde e fornecem uma solução válida para alcançar a maximização da saúde e reduzir as desigualdades», mas, prossegue, para isso «é necessário que cada país tenha o seu sistema de valores, uma vez que as características demográficas e os valores socioculturais de cada país influenciam a avaliação dos estados de saúde. O nosso trabalho consistiu precisamente em adaptar para a população geral portuguesa o valor definido pelo EQ-5D-5L».

Os resultados deste estudo evidenciam que, ao contrário do que se verifica noutros países, «a dor, o desconforto físico e a mobilidade são as dimensões mais relevantes do EQ-5D-5L, de acordo com as preferências da população portuguesa em geral. Atividades habituais e ansiedade/depressão são as dimensões menos relevantes», refere Pedro Lopes Ferreira.

O estudo, que contou com a colaboração de investigadores de Espanha, Alemanha e Holanda, fez parte de um projeto internacional do EuroQoL que visa obter conjuntos de valores EQ-5D-5L específicos de cada país e foi publicado na revista Quality of Life Research. Universidade de Coimbra “Centro de Estudos e Investigação em Saúde” - Portugal


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Noruega - País com maior qualidade de vida do planeta




A cidade de Oslo é tudo o que se pode esperar da capital do país com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo. O frio nórdico é acompanhado por um transporte com eficiência cronometrada, escolas que abrigam alunos de diferentes classes sociais e hospitais de qualidade gratuitos. Tudo público, gerido pelo Estado norueguês.

A prosperidade da Noruega, porém, não é fruto da exploração de colônias ou de desenvolvimento industrial pioneiro. Independente da Suécia apenas em 1905, a Noruega era o “primo pobre” entre os países nórdicos, tendo a situação agravada ainda mais com a Segunda Guerra Mundial, quando o território foi ocupado por forças da Alemanha nazista. A recuperação do país foi iniciada com o Plano Marshall, mas o atual estágio de desenvolvimento passou a ser uma realidade alcançável a partir da década de 1970.

O momento da virada norueguesa é 1969, quando foi encontrado petróleo pela primeira vez no mar do Norte. “O óleo é claramente fundamental para o desenvolvimento da sociedade norueguesa. Não dá para entender a situação da Noruega sem pensar na questão do óleo. Podemos pensar que a descoberta desse recurso natural foi uma sorte, mas, por outro lado, ele foi muito bem manejado pelo Estado”, afirma Axel West Pedersen, pesquisador do Instituto de Pesquisa Social, que já desenvolveu trabalhos para a União Europeia.

Como uma das características principais desse sucesso norueguês ao administrar o dinheiro oriundo do petróleo, pode-se citar a criação de um fundo, considerado o maior do mundo. Anualmente, o governo tem o direito de gastar em seu orçamento apenas 4% desse montante, de pouco menos de US$ 1 trilhão, com o objetivo de garantir que as novas gerações também se beneficiem do recurso mineral.

Para se ter uma ideia do valor recebido pela Noruega, dez anos depois do início da exploração de petróleo e gás, a atividade já representava um terço do lucro do país com exportações. Além disso, até o final de 2012, a exploração de petróleo já tinha rendido à Noruega cerca de R$ 1,14 trilhão, pouco mais que o dobro do PIB (Produto Interno Bruto) local.

Resistência à privatização

Nas últimas cinco décadas, durante o processo de melhoria da infraestrutura nacional, a Noruega teve que resistir a forte pressão pela privatização do setor. “Quando havia empresas estrangeiras explorando a nossa reserva, asseguramos que elas fossem obrigadas a treinar noruegueses, de forma que pudéssemos um dia consolidar uma indústria própria de extração de petróleo. Também obrigamos as companhias estrangeiras a pagar até 78% de impostos”, conta Heikki Holmås, parlamentar do Partido Socialista.

O alto valor dos impostos, por sinal, não é uma exclusividade desse setor da economia. Para financiar a qualidade de vida mais elevada do mundo, o Estado norueguês cobra 42% de Imposto de Renda.

“Nosso modelo de desenvolvimento é semelhante aos dos outros países nórdicos. Por meio do Estado do bem-estar social, garantimos uma série de direitos iguais para toda a população e esse modelo é acompanhado de altos impostos. A população aceita altas taxas tributárias porque recebe de volta do Estado um serviço de saúde gratuito, boas escolas, licença maternidade de até um ano, entre outros benefícios sociais”, explica a parlamentar do Partido Trabalhista Marit Nybakk.

























De acordo com Marit, esse modelo é bem-sucedido quando, antes do Estado do bem-estar social, são criados valores comuns na sociedade local. No caso da Noruega, entre esses valores está a busca pela igualdade de gênero, um dos motivos que garante o país no topo do IDH há cinco anos, quando comparamos os dados dos países que lideram a lista. 

A igualdade de gênero é parte de uma consciência ideológica própria dos noruegueses, é um ideal muito estimado aqui. Mesmo assim ainda temos algumas diferenças importantes entre os gêneros, temos que reconhecer isso. Se por um lado vemos alta participação de mulheres nas universidades, chegando a representar 70% dos formados na Universidade de Oslo em 2013, elas costumam optar por trabalhos de meio período e no setor público, enquanto os homens predominam na iniciativa privada”, analisa Pedersen.

Taxa de natalidade e educação

Além de salários e oportunidades semelhantes para homens e mulheres, o Estado ainda incentiva o aumento da taxa de natalidade, pagando os salários das mães por um ano, dando bolsas para os jovens até a maioridade e oferecendo educação gratuita de qualidade.

“Nunca me senti discriminada e acredito que sempre tive as mesmas oportunidades dadas aos homens. Agora tive o meu primeiro filho e pretendo ter outros. É muito bom poder ficar cuidando dele por um ano, com a certeza de que voltarei ao meu emprego depois”, diz a fisioterapeuta Christina Tanem, 33 anos.

A busca por aumentar o número de nascimentos no país se deve ao envelhecimento da população, fenômeno que afeta com gravidade diversos países da Europa. Especificamente na Noruega, a percentagem de pessoas com mais de 67 anos era de 8% em 1950. Em 2014, esse índice chegou a 13%.

Nas últimas décadas, como parte desse processo, o país alterou o perfil das mulheres que têm filhos. Na Noruega, as mulheres têm seus primeiros filhos, em média, com 28,6 anos, e mais da metade delas (54,9%) o faz sem estarem casadas.

Outro dado interessante é que, em 1970, 11% dos nascimentos vinham de mães adolescentes. Hoje, esse número caiu para menos de 2%. A mudança foi possível com a legalização do aborto, que faz parte das políticas de igualdade de gênero do país e, anualmente, é a escolha de 2% das mulheres entre 20 e 24 anos.

Além das licenças maternidade e paternidade, a educação pública e gratuita de qualidade é outro elemento central para incentivar os noruegueses a terem filhos.

“Os alunos vão para uma ou outra escola devido à proximidade de suas casas e o Estado faz testes anuais para acompanhar a qualidade de cada instituição. Os diretores têm bastante autonomia, pois há apenas um currículo básico e os métodos podem ser alterados, não existe uma regra sobre número de alunos por sala, por exemplo. Aqui também temos projetos em comum entre alunos de séries diferentes, pois fazemos com que os mais velhos desenvolvam habilidades como ensinar os mais novos”, conta Elin Brandsæter, diretora de uma escola que reúne 538 jovens de 38 nacionalidades diferentes, que cursam ensino primário e secundário.

O cientista social Pedersen concorda com a centralidade da educação no modelo nórdico de sociedade. “Um aspecto realmente importante da sociedade na Noruega é o modelo de educação pública, muito inclusivo. Ele propõe a interação entre crianças de diferentes classes sociais, o que gera inúmeras consequências positivas. Um dos nossos desafios é manter essa característica, mesmo quando os imigrantes passam a viver em locais mais segregados, por exemplo. De qualquer maneira, se o ensino fosse privado aqui esse desafio seria ainda maior. O modelo deu mais certo aqui porque os guetos são maiores na Suécia e na Dinamarca. Na Suécia, houve inclusive um movimento de privatização das escolas, mas acabou sendo muito mal sucedido.”

Monarquia

A aparência de modernização na Noruega é acompanhada de um traço curioso: o país ainda é uma monarquia. O rei Harald V tem poderes limitados, mas realiza reuniões semanais com o gabinete do primeiro-ministro.

Além das formalidades, Harald V também desfruta de alta popularidade. Segundo pesquisa divulgada em 2014, ele tinha 90% de aprovação da população, o que lhe dava o título de monarquia mais popular do mundo. As famílias reais de Dinamarca e Holanda apareciam na sequência do estudo, com 80% de aceitação. Vitor Sion – Noruega in “Opera Mundi”