Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Sri Lanka. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sri Lanka. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sri Lanka - Filme revela resistência da Suíça em devolver artefactos coloniais

O documentário “Elefantes e Esquilos” acompanha a artista cingalesa Deneth Veda Arachchige na sua procura por artefactos saqueados por suíços e hoje guardados num museu de Basileia, expondo o delicado debate sobre a Suíça e o seu passado colonial


Deneth Piumakshi Veda Arachchige, artista nascida no Sri Lanka e radicada na França, tem uma missão: ela pretende devolver à sua terra natal os valiosos artefactos culturais pertencentes aos indígenas Wanniyala-Aetto. Os objetos saqueados encontram-se nos acervos do Museu das Culturas e do Museu de História Natural, ambos na cidade de Basileia, na Suíça.

Em “Elefantes e Esquilos“, o seu documentário de estreia, o cineasta suíço Gregor Brändli captura as meticulosas tentativas de Piumakshi Veda Arachchige de iniciar um processo de restituição cultural envolvendo obras de arte roubadas, máscaras cerimoniais, restos mortais humanos e até mesmo de animais, de onde vem o inusitado título do filme.

A sua procura acaba revelando-se um imenso desafio, recebido com desconfiança e ceticismo pelo circuito de arte na Suíça, onde curadores e diretores de museus ainda não se posicionam de facto frente ao secreto passado colonial do país.

Depois da premiação de “Elefantes e Esquilos” com a “Pomba de Prata” de melhor documentário no recente Festival Internacional de Documentários e Filmes de Animação de Leipzig (DOK Leipzig), Gregor Brändli e Deneth Piumakshi Veda Arachchige conversaram com a Swissinfo sobre a sua colaboração de longa data e a missão que compartilham.

Força espiritual

“Não são meros objetos”, diz a artista, referindo-se ao inestimável património do Sri Lanka levado pelos primos suíços Paul e Fritz Sarasin no final do século 19 e início do século 20 do que era então conhecido como Ceilão.

“Esses objetos foram criados por mãos humanas, nascidos do amor e da energia”, completa Piumakshi Veda Arachchige. “Por exemplo: nos tempos antigos, as máscaras feitas à mão não serviam apenas para o uso, mas tinham propósitos importantes para a cura, rituais e promoção da identidade cultural. Era preciso ser primeiramente reconhecido pela tradição, para então obter o direito de usar determinada máscara e de se apresentar. De forma que esses artefactos são corpos energéticos em si mesmos”, explica a artista.

Numa das cenas mais impressionantes de “Elefantes e Esquilos”, ela coloca uma das máscaras cerimoniais escondidas nos arquivos da Basileia. É um momento forte: pela primeira vez em séculos, esse ato permite que as dimensões espirituais da obra de arte sagrada fluam novamente através de alguém cujas raízes estão no Sri Lanka.

Piumakshi Veda Arachchige argumenta que, mesmo quando uma máscara como essa é cuidadosamente preservada num arquivo europeu, as suas energias sagradas foram roubadas. “Essas qualidades são ignoradas quando um cientista manuseia um artefacto”, diz a artista. “Eles simplesmente a veem como uma peça decorativa e a colocam em um contexto completamente diferente. É como remover o coração de uma pessoa e guardá-lo longe. Quando eu estava a usar aquela máscara, senti as suas vibrações, porque ela finalmente havia cumprido o seu propósito novamente”, relata.

A artista descreve a semelhança entre esse momento e a sensação de segurar pela primeira vez um crânio ancestral nas mãos: “Era como se uma pessoa estivesse a falar comigo noutra dimensão, em outra língua”, conta.

Esses gestos simbólicos resumem perfeitamente o conflito central da sua obra: como a reivindicação emocional por parte de uma artista, em prol da restituição, choca com a postura marcadamente racional das instituições, que querem continuar mantendo esses artefactos nos seus arquivos em nome da ciência e da preservação.

Batendo contra a parede

Embora o mundo da arte esteja lentamente acompanhando os debates pós-coloniais que enfatizam a necessidade de restituição cultural – um assunto que Mati Diop explorou com veemência no seu documentário poético “Dahomey” (2024) –, “Elefantes e Esquilos” mostra que o trabalho de verdade só começa depois que essas primeiras conversas acontecerem. Já na década de 1970, o Sri Lanka havia exigido a devolução de alguns desses objetos, mas a Suíça nunca atendeu a esses pedidos.

No filme, Piumakshi Veda Arachchige participa de painéis de discussão e debates para reiterar mais uma vez o mesmo ponto: conversar não basta. “Na minha opinião, o debate em torno da descolonização e do pós-colonialismo é marcado por muita conversa diplomática e académica”, diz ela, lembrando que o aspeto emocional, que desempenha um papel fundamental no seu trabalho como artista visual, é deixado com frequência de lado.

Esse conflito foi o que inspirou Brändli a realizar o documentário, o seu primeiro em longa-metragem. Curioso para saber como e por que todos esses artefactos se encontravam nos arquivos suíços, ele procurou Bernhard C. Schär, historiador suíço e autor de um livro sobre os primos Sarasin, que por sua vez incentivou o cineasta a entrar em contato com Piumakshi Veda Arachchige.

Os esforços frustrados da artista na Suíça acabaram tornando-se um material excepcional para um documentário. “Embora Deneth tenha sido inicialmente bem recebida em Basileia, essa recepção calorosa diminuiu quando ela começou a fazer perguntas mais críticas”, conta o diretor. “Em determinado momento, tive até que conduzir sozinho as entrevistas na Suíça, pois esbarramos numa parede e Deneth não tinha permissão para atravessá-la”, revela.

De volta às origens

Gregor Brändli, por sua vez, viu-se perdido quando a dupla se aventurou pelo Sri Lanka, onde Piumakshi Veda Arachchige foi quem conseguiu abrir portas. Ele recorda: “Vimal, indígena e jornalista, nos convidou para ir à aldeia de Dambana. E disse: ‘Não falem apenas sobre o passado, mas também sobre as lutas que enfrentamos hoje’. Esse foi um momento decisivo para mim, em que senti um forte desejo por parte dos outros de também trabalhar nessa história”, relata o cineasta.

A mudança de locação amplia a perspectiva do filme, que, de acordo com Piumakshi Veda Arachchige, “vai muito além da restituição”.

“A filosofia que nos guiou era: contexto e consenso”, diz Brändli. Uruwarige Wannila Aththo, líder da comunidade indígena Vedda, em Dambana, desempenhou um papel central neste sentido. Ele recebeu a equipa e descreveu o valor pessoal desses artefactos que foram roubados dos seus ancestrais.

Durante as filmagens no Sri Lanka, Piumakshi Veda Arachchige mal podia acreditar que a aventura na qual estava envolvida com Brändli resultaria realmente num filme. “Estávamos apenas documentando o que acontecia”, reflete a artista. “E capturando a maneira como fazíamos a nossa pesquisa, não apenas em arquivos, mas também na vida real. Pegámos comboios, voos, tuk-tuks e autocarros, documentando constantemente o que estava a acontecer ao nosso redor em tempo real. Quando vi o filme finalizado pela primeira vez, enxerguei todas essas camadas, como nossas realidades no Ocidente contrastavam com o que vivemos no Sri Lanka”, conta a artista.

Nesse sentido, “Elefantes e Esquilos” nasceu de uma colaboração que, segundo Brändli, “surgiu organicamente e foi necessária ao longo de toda a história. Como se as nossas capacidades juntas de fazer a ponte entre o Sri Lanka e Basileia tivessem permitido que todas essas portas diferentes se abrissem. Isso foi crucial, visto que a questão da restituição está profundamente enredada em padrões culturais específicos”.

Gregor Brändli e Deneth Piumakshi Veda Arachchige sentiram-se encorajados pela recepção calorosa no DOK Leipzig. “Vi como a história ressoou no público”, diz a artista. “Após a exibição, um artista queniano na plateia chegou a dizer que se sentiu inspirado pelo longa-metragem e que está também no processo de produção de um filme sobre restituição. Se o nosso documentário conversa com todas essas situações semelhantes no mundo, acho que fizemos um bom trabalho”, conclui. Hugo Emmerzael – Países Baixos in “Swissinfo”



segunda-feira, 30 de junho de 2025

Ásia - Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas dá luz verde a criação de Associação das Comunidades Luso-Asiáticas

As comunidades asiáticas com raízes portuguesas encontraram-se em Díli para recordar o passado e projetar o futuro. Um futuro que contará com a Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, que recebeu luz verde com a assinatura da Declaração de Díli



A 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC, em inglês), em Díli, sob o tema ‘Unidos na Diversidade – Desafios e Oportunidades de um Legado Secular’, terminou com a assinatura da Declaração de Díli – Criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, uma rede de pessoas e comunidades, em que a partilha e a diversidade servem um objetivo comum.

O evento de três dias, de 27 a 29 de junho, teve início na sexta-feira e foi projetado para ser um espaço de partilha e de preservação da língua, da história e da cultura de países asiáticos com rastos portugueses.

A APCC reúne comunidades de oito países – Malásia, Myanmar, Sri Lanka, Tailândia, Índia, Indonésia, China e Timor-Leste. A primeira conferência foi em 2016, em Malaca, na Malásia. O objetivo foi claro desde o início: estabelecer valores históricos, despertar as pessoas para o peso da herança cultural lusófona e iniciar uma cooperação económica entre comunidades.

Criar a associação, como explicou o presidente da República Democrática de Timor-Leste, José Ramos-Horta, é uma forma de reconhecer o valor de comunidades luso-asiáticas, geralmente ignoradas e desvalorizadas, e dar voz a possíveis diálogos com governos e instituições internacionais.

“É uma promessa e um compromisso de preservar, registar e capacitar. Apoiará [a associação] a investigação, a educação e a sustentabilidade económica. Ajudará a proteger as histórias e identidades de pessoas cujas culturas são mistas, complexas e orgulhosas”, salientou.

Acrescentou que a associação visa honrar o passado e projetar o futuro a partir de um legado comum. “Isso inclui documentar histórias orais, apoiar festivais culturais e fortalecer o desenvolvimento liderado pela comunidade.”

João Paulo Oliveira e Costa, professor da Universidade Nova de Lisboa, observou que cada comunidade apresenta uma realidade diferente: algumas são isoladas, outras são muito fortes e numerosas e algumas estão bem implantadas no seu território, como é o caso das Flores.

Mesmo que nem todos falem português, para o professor, a cultura é aquilo que une as comunidades na conferência, e aí há sempre aspetos em comum. “Há um conjunto de traços culturais, desde a culinária ao folclore, além de histórias semelhantes”, salientou, referindo também o cristianismo como um elemento que serviu para a consolidação e resistência destas comunidades em meios onde a maior parte das pessoas não é católica.

“A língua portuguesa não é praticada da mesma maneira em todos os grupos. De qualquer forma, é uma memória também e, em muitas comunidades, ainda faz parte do dia-a-dia, já que é fácil encontrar pessoas que falam fluentemente português em Goa ou aqui em Timor. No Sri Lanka, já não é bem assim”.

União na diversidade

Earl Barthelot, presidente do Grupo “Burgher Folks”, de Batticaloa, no Sri Lanka, falou no português crioulo, a versão antiga do português, que foi sofrendo alterações ao longo dos tempos. “Quando os portugueses conquistaram o Sri Lanka, não trouxeram mulheres de Portugal, casaram-se com locais e fizeram negócios, levando coisas do Sri Lanka para Portugal, através de Goa, na vizinha Índia”

A língua que era utilizada nos negócios foi sofrendo alterações, estruturais e gramáticas, até pelo contacto com as duas línguas principais do Sri Lanka: o cingalês e o tâmil. O português crioulo não é usado todos os dias, mas as pessoas conseguem dizer, por exemplo: ‘estou a tomar café’ – ‘eu avora teat boe”.

A descendência portuguesa no Sri Lanka é muito pequena e não há um número exato de pessoas. O chefe do grupo calcula que existam sete mil pessoas no seu distrito. Muitas delas mantêm-se em contacto através de eventos sociais, familiares ou na igreja.

Em Malaca, a história é diferente. Marina Linda Danker, dona do grupo cultural português de Malaca – DomMarina –, contou que são descendentes dos portugueses de 1511 e conservam a língua portuguesa de Malaca, dos séculos XVI e XVII.

Sem livros e limitados ao uso do inglês e do malaio na escola, conseguiram manter a língua portuguesa, praticando todos os dias em casa com os familiares. A proximidade das 118 famílias, na mesma localidade, também ajuda nessa comunicação em língua portuguesa. Quando cumprimentam alguém, dizem algo como, ‘que sorte, tá bom?’, equivalente a ‘estás bem?’; quando oferecem comida, ‘bem, comi’; ou convidam alguém para dançar, dizendo ‘bem juntado, bem nos balar’; ‘onde tu vai?’, quando perguntam a alguém para onde vai. Além disso, dizem ‘boa tarde, bom meio-dia, boa noite’ e ‘muito agradecida’. O português, curiosamente, acaba por ser uma língua secreta, falada entre os membros da comunidade naquela região.

“Vivemos numa aldeia onde todos são portugueses e católicos romanos. Praticamos todas as nossas tradições, incluindo as que estão ligadas à religião. Os números, um, dois, três, e até alimentos e temperos dizemos em português: cebola, gengibre”, explicou, acrescentando que há outras comunidades que podem já não falar português por viverem isoladas e não conseguirem usar a língua todos os dias.

Marina Danker mostrou-se feliz por participar na conferência. “Queremos unir o nosso povo para aprender a língua e a cultura. Queremos saber o que os outros têm de igual e quais são as diferenças. Portugal dominou Malaca por 130 anos e mantém-se a influência na cultura”, exemplificou.

O grupo DomMarina faz viver a cultura através das roupas tradicionais, da comida, de conversas, de exposições e de festivais anuais.

A comunidade em Jacarta, na Indonésia, já não fala português, uma vez que o Papia Tugu, a língua crioula falada pelos portugueses nos arredores de Jacarta, é considerada extinta. “O português crioulo que temos não é o português moderno, nem autêntico. Chama-se Papia Tugu”, explicou Guido Quiko, líder comunitário na aldeia portuguesa de Tugu e do grupo musical Tugu Keroncong. É o grupo musical que acaba por manter o legado do Papia Tugu, através de canções escritas naquele crioulo português-javanês.

Em Jacarta, dizem ‘yo kere bebe’ (eu quero beber) e ‘yo kere pasa’ (quero dar uma volta). Como não usam a língua todos os dias e por falta de vocabulário, os resquícios da língua portuguesa foram desaparecendo, misturando-se com línguas das regiões da Indonésia, desde meados do século XVIII.

“Temos apenas algumas canções compostas pelos nossos pais: Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo. Estas são as que ainda cantamos com frequência. Mas o nosso conhecimento da língua não é suficiente para manter uma conversa”. As canções – Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo – foram tocadas ao longo da conferência em Díli.

A comunidade foi formada por cerca de 800 pessoas de descendência portuguesa em Malaca, que foram capturadas pelos holandeses em 1641 e, dois anos depois, exiladas em Batávia (nome dado pelos holandeses à atual cidade de Jacarta), numa aldeia que se passou a chamar Tugu, cujo nome é retirado da palavra ‘português’.

“Em Batávia, em 1661, os holandeses impunham duas condições a quem quisesse viver na região: converter-se ao catolicismo ou ao protestantismo e substituir os apelidos portugueses por apelidos holandeses”, contou Guido Quiko.

Os 23 chefes de família concordaram e permaneceram no sudeste de Batávia, agora Kampung Tugu, acabando por casar com outros clãs daquela região. Existem seis clãs no local: Andris, Cornelis, Mihils, Abraham, Brone e Quiko. O último é o único clã de origem portuguesa, o resto é da Holanda.

A música Keroncong surgiu pela falta de divertimento naquele local, já que viviam isolados. Para ter entretenimento, tinham de caminhar 23 km, desde a vila Tugu, até à cidade de Atuwa.

Criaram um instrumento musical, de cordas, com a forma de um cavaquinho, que ficou conhecido como ‘macina’. “Tem o formato de uma pequena viola e, quando tocado, emite um som metálico ‘chong chong’ [tenta reproduzir o som], então chamaram-lhe keroncong”. Foi assim que surgiu a música keroncong na Indonésia, com a qual a comunidade se divertia depois do trabalho, ou durante o dia, a pescar ou a caçar.

Quando os holandeses ouviram que havia eventos musicais naquela aldeia isolada, foram lá, juntaram as pessoas, e levaram instrumentos musicais europeus. Mais tarde, foi instituída uma Orquestra em 1925: ‘Orkes Pusaka Keroncong Moresko Tugu’, que agora se chama Tugu Keroncong.

A comunidade luso-asiática em Jacarta não recebe apoio ou atenção por parte do Governo, pois são uma minoria, sem grande expressão num país/arquipélago tão grande como a Indonésia. Nesse sentido, nem as línguas crioulas, como o português, são reconhecidas. Guido Quiko não fala português crioulo, mas conta que o seu falecido avô falava um pouco.

Além da língua, há tradições culturais: a tradição de Rabu-Rabu (tradução literal de quartas-feiras) e a tradição de Mandi-Mandi (banhos). A Rabu-Rabu é celebrada a 1 de janeiro – os músicos tocam música pelas ruas da aldeia de Tugu para desejar um ‘Feliz Ano Novo’. A Mandi-Mandi acontece no primeiro domingo de janeiro e é o dia que as pessoas pedem desculpas umas às outras, ao som de músicas de keroncong. A música é reconhecida como património cultural imaterial da Indonésia.

Timor-Leste como ponto de encontro

A 4.ª Conferência da APCC serviu ainda para destacar o papel de Timor-Leste como a única nação asiática que tem o português como língua oficial. O facto de ser membro da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), de estar associado aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de estar já com um pé na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ainda dá mais peso ao papel de Timor-Leste na região.

Ter português como língua oficial faz de Timor-Leste “um farol para todas as comunidades de língua portuguesa que existem na Ásia”, além de ser uma marca de distinção que reforça a individualidade do povo timorense, segundo o professor João Paulo Oliveira e Costa.

O professor destacou ainda a importância de Timor-Leste como ponto de ligação entre as comunidades luso-asiáticas, por ser o único Estado de língua oficial portuguesa da Ásia. “Aquilo que temos todos em comum é partilharmos um passado e aspirarmos a um presente em que podemos estar juntos e apoiarmo-nos mutuamente.” Antónia Martins – Timor-Leste in Diligente


segunda-feira, 8 de maio de 2023

Sri Lanka - Lusodescendentes com “interesse crescente” em salvar o crioulo

A investigadora Patrícia Costa lançou um projecto para divulgar o crioulo de base portuguesa do Sri Lanka nas redes sociais porque considera que há “um interesse crescente” nas comunidades lusodescendentes em preservar a língua. “Há agora um conjunto de jovens que lançou, justamente em Abril deste ano, aulas [de crioulo português] para jovens e crianças”, sublinhou Patrícia Costa, investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.


O mesmo grupo tem também procurado dinamizar ações para promover a língua no Sri Lanka, onde “a maior parte da população desconhece totalmente que existe esta comunidade de euro-asiáticos e desconhece que há uma língua totalmente diferente”, referiu Costa.

Um desses jovens, Derrick Keil, lançou em fevereiro uma versão moderna de uma canção tradicional em crioulo português, Minha Amor, após ter participado no programa de talentos The Voice Sri Lanka. “É um marco importante na história da comunidade, porque pela primeira vez temos uma música dirigida a audiências várias que tem o crioulo como língua”, disse Patrícia Costa.

Curiosamente foi a comunidade de falantes do crioulo português que introduziu no Sri Lanka a “baila”, que pode ser considerada actualmente o género de música mais popular no país.

Patrícia Costa e uma jovem falante da língua, Vyvonne Joseph, lançaram também, em 2020, o projecto Preserving Sri Lanka Portuguese, nas redes sociais Instagram e Facebook. A investigadora disse que a iniciativa pretende, por um lado, “dar a conhecer a audiências mais gerais, também fora do Sri Lanka a existência desta língua, porque mesmo em Portugal não há uma grande consciência de que estas comunidades crioulófonas existem”. Por outro lado, acrescentou Costa, o projecto quer “auxiliar, com materiais didáticos simples, aqueles que são membros da comunidade e que procuram aprender a língua”.

O crioulo português do Sri Lanka “neste momento é uma língua definitivamente ameaçada. O número absoluto de falantes é bastante reduzido”, por volta de 1300, sendo que a maioria são “pessoas mais velhas”, lamentou a académica.

Para os jovens, “aprender o crioulo português não tem o valor instrumental” que as línguas oficiais do Sri Lanka, o cingalês e o tâmil, têm, no acesso à educação e ao emprego, referiu Costa.

Além disso, disse a investigadora, alguns membros da comunidade “sentem que é uma língua obsoleta” ou têm “algumas conceções erradas” de que aprender o crioulo português em casa pode prejudicar a aprendizagem de outras línguas na escola. Mas Costa sublinhou que o eventual desaparecimento do crioulo português do Sri Lanka “não é uma fatalidade inescapável”. “É possível minimizar este perigo, com algumas ações e com a concertação de investigadores, ativistas e os próprios membros da comunidade”, acrescentou. In “Ponto Final” - Macau


terça-feira, 18 de outubro de 2022

Reino Unido - "The seven moons of Maali Almeida" do escritor cingalês vence The Booker Prize

"The seven moons of Maali Almeida", do escritor cingalês Shehan Karunatilaka, é o vencedor do The Booker Prize 2022, anunciou a organização do prémio


O presidente do júri do prémio, Neil MacGregor, descreve o livro como “um ´afterlife noir` que dissolve os limites não só de géneros diferentes, mas também de vida e morte, corpo e espírito, leste e oeste”.

Na obra “As sete luas de Maali Almeida” (numa tradução livre), os leitores descobrirão “a ternura e a beleza, o amor e a lealdade, e a busca de um ideal que justifique toda a vida humana”.

Shehan Karunatilaka é o segundo autor nascido no Sri Lanka a ganhar o Booker Prize depois de Michael Ondaatje, que venceu em 1992.

Shehan Karunatilaka emergiu na cena literária mundial em 2011 quando ganhou o Prémio da Commonwealth com o romance de estreia “Chinaman”. O autor, que também escreveu canções de rock, guiões e histórias de viagem, venceu agora, com o segundo romance, o Booker Prize.

Numa entrevista para o sítio da internet do galardão, o autor diz que começou a pensar neste livro em 2009, após o fim da guerra civil no Sri Lanka, “quando houve um debate feroz sobre quantos civis morreram e de quem foi a culpa”, acrescentando que decidiu escrever “uma história de fantasmas em que os mortos pudessem oferecer a sua perspetiva”.

O prémio foi atribuído pela rainha consorte, numa cerimónia realizada na Roundhouse, com um discurso de abertura da cantora-compositora Dua Lipa e apresentado pela comediante Sophie Duker.

“The Seven Moons of Maali Almeida, que está publicado pela editora independente Sort of Books, explora a vida após a morte, numa investigação negra, no meio do caos assassino de um Sri Lanka assolado pela guerra civil.

Em Colombo, 1990, o fotógrafo de guerra Maali Almeida está morto, e não faz ideia de quem o matou. O fotógrafo tem sete luas para tentar contactar o homem e a mulher que mais ama e levá-los a um conjunto escondido de fotos que irão abalar o Sri Lanka.

O autor, que com o primeiro romance venceu prémios como o Prémio Gratiaen e que foi selecionado para a BBC e para o Grande Jubileu de Leitura da Agência de Leitura, em 2021, nasceu em Galle, Sri Lanka, em 1975, e cresceu em Colombo.

Para o presidente do júri, qualquer um dos seis livros “préseleccionados teria sido um vencedor digno”.

“O que os juízes particularmente admiraram e apreciaram em ´The seven moons of Maali Almeida` foi a ambição do seu alcance, e a audácia hilariante das suas técnicas narrativas. Este é um thriller metafísico, um ´afterlife noir` que dissolve os limites não só de géneros diferentes, mas também de vida e morte, corpo e espírito, leste e oeste”.

“É uma brincadeira filosófica inteiramente séria que leva o leitor ao ´coração negro do mundo` – os horrores assassinos da guerra civil no Sri Lanka. E uma vez lá, o leitor descobre também a ternura e a beleza, o amor e a lealdade, e a busca de um ideal que justifique cada vida humana”, frisou Neil MacGregor. In “Sapo 24” – Portugal com “MadreMedia / Lusa”

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Sri Lanka - Pede doações urgentes para combater desnutrição infantil

O Sri Lanka pediu doações urgentes para combater o rápido aumento da desnutrição infantil no país, que está falido e onde nove em cada dez pessoas dependem de ajuda estatal.

O ministério da Mulher e da Criança lançou um apelo à comunidade internacional a pedir doações privadas para ajudar centenas de milhares de crianças subnutridas, uma vez que o Estado não tem condições de manter a assistência social.

“No auge da pandemia de covid-19, o problema ficou grave, mas a crise económica piorou a situação”, disse à imprensa o secretário do ministério, Neil Bandara Hapuhinne.

Segundo um inquérito realizado em meados de 2021, entre 570 mil crianças com menos de cinco anos de idade, cerca de 127 mil apresentavam um estado de subnutrição.

Com o aumento recorde dos níveis de inflação e a escassez crónica de alimentos e bens essenciais a que se assistiu de 2021 para 2022, Hapuhinne receia que o número de crianças subnutridas se agrave ainda mais.

De acordo com o secretário, mais de 90 por cento da população, incluindo 1,6 milhões de funcionários públicos, estavam dependentes de ajuda estatal directa, uma taxa que duplicou num ano.

A UNICEF pediu também ajuda financeira para o país, argumentando que as crianças daquela ilha do sul da Ásia são desproporcionalmente mais afectadas pela crise económica e que 2,3 milhões de menores do Sri Lanka poderão necessitar de assistência humanitária.

Com uma inflação a atingir os 60,8 por cento em Julho e a ultrapassar, segundo alguns economistas independentes, os 100 por cento, o país falhou também no pagamento da sua dívida externa de 51 mil milhões de dólares em Abril.

Insegurança geral

A nível político regista-se também instabilidade, tendo em conta que, no início de Julho, vários protestos levados a cabo por cingaleses provocaram a fuga do presidente Gotabaya Rajapaksa para Singapura, antes de se demitir.

Em resposta à situação económica precária, o país já está em conversações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para uma possível ajuda de emergência, mas o Governo teme que o processo se arraste durante meses.

Segundo o Programa Alimentar Mundial, quase um quarto dos 22 milhões de habitantes da ilha necessita de ajuda alimentar e mais de cinco em cada seis famílias não têm comida suficiente.

As Nações Unidas já apelaram à comunidade internacional para angariar 47,2 milhões de dólares para evitar mortes nesta fase. In “Hoje Macau” - Macau

 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Lusofonia - 9 Povos de Origem Portuguesa que talvez não conheça

Portugal teve uma grande influência em algumas populações fora do nosso território. Estes são alguns povos de origem portuguesa que provavelmente não conhecia


Que os portugueses descobriram vários territórios espalhados pelo mundo não é surpresa para ninguém. Todavia, o que muitos não sabem, nem desconfiam, é que ainda estão espalhados pelo mundo muitos povos que têm origem nos portugueses, conservando alguns dos seus hábitos e costumes, como a língua, a religião, entre outras tradições típicas.

Não, não falamos do povo brasileiro, por exemplo. Mas sim de outros, cuja existência provavelmente desconhece. Contudo, há que notar que algumas destas influências não sobreviveram à passagem do tempo. Já outras mantêm-se e há comunidades que ainda preservam essas marcas deixadas pelos portugueses no passado. Desvende de que povos se tratam e em que geografia se localizam e partilhe estas curiosidades com todos os amantes da história de Portugal e dos portugueses.

Mardicas, Indonésia

Este povo descende de escravos portugueses. A própria palavra “mardica” significa escravos libertos. Este povo era cristão e falava crioulo.

Apesar de já não existirem, ainda há quem carregue apelidos portugueses no seu nome e saiba cantar canções em crioulo antigo.

Kristang, Malaca, Malásia

A comunidade Kristang foi formada por cristãos portugueses, no século XVI. Eles falam papiá kristang.

Portugueses no Suriname

Na segunda metade de 1800, os portugueses chegaram ao Suriname. Muitos eram madeirenses escravos, que tinham como destino a Guiana.

Porém, este meio milhar de portugueses ficou no Suriname, tornando-se mais tarde em homens livres.

Assim, neste destino, é ainda hoje possível encontrar habitantes com apelidos como Gouveia, Dos Ramos, Vasconcellos, Miranda, Correia, Gonsalves, Teixeira, Rodrigues, De Faria, Figueira, de Gama ou Moniz.

Aceh, Lamno, Indonésia

O grupo “mata biru” ou “olhos azuis” refere-se, precisamente, aos descendentes de portugueses. Atualmente, restam apenas algumas dezenas

de sobreviventes desta comunidade. Embora conservem algumas tradições portuguesas, acabaram por se converter ao islamismo.

Ziguinchor, Senegal

Em Ziguinchor, encontra-se uma comunidade com dezenas de milhares de pessoas com apelidos portugueses e que se expressam em crioulo português. Ali existe um Centro da Língua Portuguesa e serviços públicos, onde a língua oficial é o português.

Bayingyi, Birmânia

Mercenários portugueses chegaram à antiga Birmânia, nos séculos XVI e XVII. Destacavam-se por serem católicos e caucasianos. Bayingyi deriva de “fheringi” que significa europeu. Este povo continua a existir, preservando uma religião e cultura de influência portuguesa.

Mardicas de Tugu, Indonésia

Na vila de Tugu, na ilha de Java, havia canções portuguesas que se continuam a ouvir. A explicação para isso estava no facto de haver um povo com origem portuguesa e holandesa. Os portugueses e os seus descendentes (mardicas) foram levados para Tugu como escravos, tendo aí permanecido.

Contudo, há 40 anos, morreu o último falante de crioulo. Atualmente, algumas influências permanecem, sobretudo na língua, nos costumes, nos instrumentos, nos nomes e na música.

Burghers Portugueses, Sri Lanka

No antigo Ceilão, existe um povo que fala crioulo português, os Burghers Portugueses. Trata-se de um grupo étnico de ascendência portuguesa, cingalesa e holandesa. Muitos dos seus membros têm apelidos portugueses nomeadamente: Pereira, Abreu, Salgado, Fonseca, Fernando, Rodrigo e Silva.

Korlai, Índia

Nesta pequena vila, o grupo Kristi (Cristo) continua a falar crioulo de origem portuguesa. Para eles, é a Nou Ling (“a nossa língua”). Em Korlai, há ainda ruínas de um forte português.

Curioso com esta lista de povos que ainda conservam influências dos portugueses de outros tempos? Com efeito, Portugal é um país de descobridores e os Descobrimentos são a prova máxima disso.

Mas além dos territórios conhecidos, que sabemos que os portugueses colonizaram, são diversos os espaços por onde os portugueses passaram e deixaram a sua influência e marca.

Histórias curiosas, embora o tempo vá apagando este passado e, por isso, alguns destes povos já tenham poucos membros capazes de exemplificarem essas heranças culturais de outros tempos. Márcio Magalhães – Portugal in Ncultura

 


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Tanzânia - Investigador conta 'pegada' portuguesa através da diáspora

Um projeto de investigação que vai resultar num documentário pretende contar a 'pegada' portuguesa na Tanzânia, através da diáspora goesa, sobretudo em Dar es Salaam e Zanzibar, disse à Lusa o investigador Pedro Pombo



"Por um lado, queremos centrarmo-nos nas celebrações do centenário do clube de Dar es Salaam, que vai reunir grande parte da diáspora goesa que tem uma relação forte com a Tanzânia e é muito importante para a África oriental, e, por outro, mostrar como esta comunidade se espalhou naquele território depois das independências" africanas e indianas, explicou o docente português à margem de uma palestra em Macau.

"Interessa-nos muito essa memória, essa geração que viveu períodos históricos marcantes e cujas memórias não estão registadas, na sua maioria", sublinhou o professor na Universidade de Goa, cujo trabalho cobre as áreas de arte e linguística antropológica, no que concerne as influências cruzadas entre Moçambique, Tanzânia, a costa ocidental da Índia (especialmente Goa e Diu) e a Ásia Oriental.

O trabalho de campo está agendado para final de dezembro, prevê-se que demore três semanas, e vai resultar num documentário para a RTP, um projeto conjunto com a realizadora Nalini Elvino de Sousa, portuguesa de origem goesa que é também diretora de uma organização não-governamental que se dedica ao intercâmbio cultural e linguístico.

Os vestígios da 'pegada' portuguesa, em especial a partir do final do século XIX, não deixa dúvidas, frisou Pedro Pombo de que os goeses "tinham uma grande facilidade de se moverem entre os territórios portugueses e britânicos", muito pelo facto de dominarem as línguas dos dois países e pela sua qualificação cultural, pelo acesso ao ensino superior.

"Muitos trabalhavam na administração, muitos eram advogados, em empresas de construção de estradas ou do caminho de ferro, muitas famílias dedicavam-se ao comércio e há casos também muito interessantes de músicos, arquitetos e fotógrafos", acrescentou.

As declarações foram prestadas numa palestra promovida pela Fundação Rui Cunha, em parceria com a Universidade de Macau - Centro de Investigação e Estudos Luso-Asiáticos (CIELA) do Departamento de Português.

A iniciativa intitulada de Diálogos Interculturais - Goa, Diu e Sri Lanka consistiu em duas apresentações que se centraram no diálogo entre influências culturais múltiplas no Índico, especificamente em Goa, Diu e no Sri Lanka, desde o património imaterial (sistemas sociais, canção e dança), e património material (arquitetura, arte e artesanato).

Mahesh Radhakrishnan, etnomusicólogo e antropólogo linguístico, professor da Faculdade de Arqueologia e Antropologia da Universidade Nacional da Austrália, a equipa de pesquisa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi outro dos convidados, tendo abordado o tema dos vestígios da tradição luso-asiática nos domínios da dança, música e letras ainda mantidas pelas comunidades descendentes de portugueses na costa leste do Sri Lanka.

A palestra conjunta fez parte da promoção do CIELA de temas relacionados com a língua portuguesa e as culturas influenciadas por uma matriz portuguesa na Ásia. In “Notícias ao Minuto” – Portugal com “Lusa”

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Sri Lanka - A herança portuguesa

A presença pioneira dos portugueses na Ásia no séc. XVI e XVII, catalisadora dos primeiros contactos entre a Europa e o Oriente, apresenta ainda nos dias de hoje marcas vivas dessa Era dos Descobrimentos



É o caso do Sri Lanka, antigo Ceilão, ou a afamada “Taprobana de Camões”, uma nação insular situada ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano, que preserva desde a centúria quinhentista, época em que os portugueses foram os primeiros europeus a desembarcar neste território asiático, um singular legado luso.

Essa herança histórica remanesce na atualidade, desde logo, nos apelidos de mais de metade da população, estimada em cerca de 22 milhões de habitantes, como Perera, Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca.

Os elementos da cultura da Pátria de Camões no Sri Lanka estendem-se ainda à existência de uma comunidade de ascendência portuguesa, os “burghers”. Um grupo étnico que professa o cristianismo e fala um crioulo de raiz portuguesa, e que se encontra essencialmente concentrado nas cidades de Batticaloa e Trincomalee, na Província Oriental.

Ainda que esta comunidade não corresponda sequer a 1% da população total deste país asiático onde predomina a religião budista, hinduísta e islâmica, as raízes portuguesas encontram-se também presentes nas tradições musicais destes grupos étnicos, como a “Baila”, um estilo de música muito popular no antigo Ceilão.

A notável herança portuguesa na afamada “Taprobana de Camões” tem sido ao longo dos últimos anos metodicamente estudada pelo Professor Auxiliar da Universidade de Lisboa, Hugo Cardoso, investigador responsável do projeto “Documentation of Sri Lanka Portuguese”, financiado pela “Endangedered Languages Documentation Programme” da School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres. Um trabalho de enorme alcance cultural sobre a presença pioneira dos portugueses na Ásia, que tem como principal objetivo criar um corpus anotado da língua, música e danças portuguesas no antigo Ceilão, que inclui inclusive materiais primários recolhidos em diversos arquivos e bibliotecas. Daniel Bastos – Canadá in “Milénio Stadium”

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Malaca - Lusodescendente do Sri Lanka descontente com a falta de apoio das autoridades portuguesas

O representante da comunidade de descendentes de portugueses do Sri Lanka, um legado com mais de 500 anos, queixou-se da falta de apoio de Portugal em arranjar vistos para o seu grupo tradicional atuar num festival em Cantanhede



“Estou muito triste" com Portugal, disse Earl Barthelot, em entrevista à Lusa à margem da 2.ª Conferência das Comunidades Portuguesas na Ásia, que juntou no Bairro Português de Malaca, Malásia, representantes das comunidades asiáticas descendentes de portugueses, numa iniciativa de partilha das raízes culturais, com cerca de 300 luso-asiáticos, de várias comunidades do continente.

"No dia 6 de julho há um festival em Cantanhede e o meu grupo foi convidado, dançarinos e músicos, 17 no total, tínhamos de voar para Portugal no dia 3 de julho", afirmou o descendente luso, referindo-se ao festival "Culturas do Mundo", que decorre até dia 14 de julho e cujo um dos altos patrocínios é o Governo português.

O grupo canta e dança o estilo Kaffringha que, segundo Earl Barthelot, é proveniente do sul de Portugal, vem desde 1506 quando o capitão e líder da expedição Portuguesa, Lourenço de Almeida chegou ao Ceilão (agora Sri Lanka) em 1505. Todos os membros do grupo são Burghers Portugueses, grupo étnico do Sri Lanka descendentes de portugueses, que falam português antigo e são católicos, explicou.

"A intenção de irmos era sensibilizar os portugueses que há descendentes de portugueses a viverem no Sri Lanka e que dão vida às tradições, à língua e à cultura", apontou o responsável. No cartaz do festival pode ler-se que o Sri Lanka é um dos convidados para atuar.

"Pedimos visto através da Embaixada francesa porque a Embaixada de Portugal em Nova Deli disse que a Embaixada francesa representa a Embaixada portuguesa no Sri Lanka, mas estamos a ter muita dificuldade em arranjar o visto ou mesmo em conseguir uma marcação para pedir o visto", denunciou.

Earl Barthelot afirmou que tem escrito para as embaixadas portuguesas e francesas e que "a francesa nunca respondeu e a portuguesa disse, que apesar de serem os representantes legais, não podem influenciar e fazer recomendações à embaixada francesa".

Não existe representação diplomática portuguesa permanente, os assuntos relacionados com este país são acompanhados pela Embaixada de Portugal em Nova Deli, apesar disso existe uma cônsul honorária, Preenie Kariyawasan Pinto.

"Ela nunca comunica connosco, tenho tentado comunicar com ela nos últimos seis anos e nada", afirmou. In “Expresso” – Portugal com “Lusa”

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Lusofonia - Uma língua à portuguesa no Sri Lanka?

O ataque terrorista contra cristãos e turistas no Sri Lanka deixou-nos o amargo na boca que todo o terror deixa. Talvez poucas vezes pensemos naquela ilha — e, no entanto, há muito de português por lá…



A terra dos Fonsekas e Fernandos

Hoje, chamamos «Sri Lanka» àquele país. É dos poucos países sem um nome próprio em português (as formas aportuguesadas «Sri Lanca» ou «Seri Lanca» são praticamente desconhecidas). É um país estrangeiro como poucos.

E, no entanto, se aterramos nessa ilha em forma de lágrima e folhearmos uma lista telefónica, encontramos apelidos como: Silva, Fernando, Pereira, Almeida, Costa, Fonseka…

São nomes relativamente comuns. O actual governo do Sri Lanka tem um ministro de apelido Fernando e outro de apelido «Perera» (uma variante de «Pereira»).

Esta ilha distante tem por lá mais de português do que pensamos à primeira vista. Não nos esqueçamos: logo na primeira estrofe d’Os Lusíadas, há uma referência à Taprobana, que serve para apontar quão longe chegaram os Portugueses. A Taprobana, como aprendemos na escola, é a ilha onde está esse país a que hoje chamamos Sri Lanka. Também não convém esquecer que há um antigo nome para a ilha, de sonoridade bem mais portuguesa: Ceilão.

Portugueses na Taprobana

Portugal já lá esteve metido até aos cabelos. O nosso reino governou parte da ilha, andou metido em guerras internas, levou para lá muita gente e deixou por alguns vestígios — a começar pelos tais nomes. Mas não foram só os nomes. Saímos de Ceilão no século XVII e, no entanto, algumas famílias ainda usam, em casa, um crioulo português.

O crioulo português do Sri Lanka já quase desapareceu, sob o peso das duas línguas oficiais — cingalês e tâmil — e do inglês. Já ninguém o escreve, mas ainda há umas dezenas de pessoas que o falam. (Esta página descreve um pouco a língua e os esforços para a preservar.)

Reparemos na frase «Vosse quanto vez ja caza?» — significa «Quantas vezes já se casou?».

A sensação é de português malfalado, mas o que temos é, na verdade, um sistema gramatical completo e sistemático.

Por exemplo, o tempo e o modo do verbo, em vez de serem assinalados pela flexão verbal, são indicados por partículas próprias. O passado é apontado pela partícula «ja» (como na frase acima), o presente pela partícula «te» e o futuro pela partícula «lo». Assim, «ja olha» significa «olhei», «te folga» significa «folgam» e «lo leva» significa «levarei» (os exemplos que usei estão nesta página).

O que é um crioulo?

Este é um dos muitos crioulos de base portuguesa espalhados pelo mundo. Os crioulos são línguas interessantíssimas — registam em forma de gramática e léxico o contacto entre povos.

A palavra «contacto» talvez seja um pouco limpa de mais para designar tudo o que esconde. Falamos de comércio, guerras, tratados, escravos… No caso do crioulo português do Sri Lanka, a língua surgiu não só no seio das famílias mistas, como também das conversas entre as crianças e os escravos que para lá levámos.

Quando pessoas com línguas diferentes entram em contacto, o resultado raramente é a incompreensão mútua. Ou melhor, é habitual que haja essa barreira inicial, mas não dura muito: rapidamente, os dois lados aprendem pedaços da língua do outro lado, criando — se o contacto for continuado — aquilo que os linguistas chamam de pidgin, ou seja, uma língua de contacto. Não é a língua materna de ninguém: serve apenas para as situações de comunicação entre pessoas de línguas diferentes.

Pois, se em determinado território esse pidgin se torna tão importante que as famílias começam a falá-lo com os filhos, haverá uma geração que aprende esse falar como língua materna. É aí que surge uma nova língua — que chamamos, habitualmente, «crioulo». Ou seja, a palavra «crioulo» não designa uma língua em particular, mas antes um tipo de língua.

Quando o cérebro das crianças aprende o crioulo, aprende-o como qualquer outra língua humana — para um falante dum crioulo, a sua língua é tão completa e útil como qualquer outra língua para os seus falantes. É uma língua que permite dizer tudo o que quisermos, com gramática bem definida, léxico e tudo o mais de que se faz um idioma.

O crioulo mais falado e conhecido no mundo é o cabo-verdiano, que deverá, mais cedo do que tarde, tornar-se numa das línguas oficiais de Cabo Verde. Há, aliás, um crioulo de base portuguesa que já é oficial nalgumas ilhas das Caraíbas: o papiamento.

Não devemos cair no erro de achar que um crioulo é uma língua menor. Afinal, há quem diga que o inglês passou por fases de crioulização — muito do que é hoje a língua dos ingleses nasceu do contacto entre anglo-saxões e viquingues e, séculos depois, entre anglo-saxões e normandos.

A teoria da origem crioula do inglês é controversa. No entanto, pensemos na nossa língua. Antes do latim de onde veio o português, tivemos o itálico; antes do itálico, o indo-europeu; antes do indo-europeu, outras línguas, que não conhecemos, numa sucessão que vem do fundo dos muitos milénios desde a origem da linguagem humana. É bem provável que, num qualquer momento da história das línguas que vieram a dar ao português, tenha havido um crioulo metido ao barulho, um povo que entrou em contacto com outro povo, nascendo daí uma outra língua, diferente das duas línguas-mãe…

Palavras portuguesas além da Taprobana

Pois nós, que andámos pelo mundo inteiro, fomos grandes criadores de crioulos — o que não implica um talento especial, apenas a vontade de falar com quem encontramos, por boas e más razões. Seja como for, as palavras que designam os crioulos em muitas línguas europeias nasceram da nossa palavra «crioulo», com origem na palavra «cria» — o que talvez se ligue às crianças da casa que aprendiam a língua ou aos criados que a falavam… Crias, crianças, criados, crioulos…

Uma língua de crianças e criados, falada por portugueses e cingaleses, com séculos de História. Está, no entanto, e ao contrário de outros crioulos, a desaparecer.

Ora, mesmo a língua mais falada na ilha — o cingalês — tem mais de uma centena de palavras portuguesas. Quando olhamos para a língua escrita a sensação é, claro, de estranheza. As letras são muito diferentes das nossas. A palavra para escola é, por exemplo, «ඉස්කෝලය». E, no entanto, se ouvirmos a palavra, temos «iskōlaya», que teve origem no português. Há palavras de origem portuguesa muito comuns, como «sumānaya» («semana»), «avuelā» (avó paterna) e «baila» — que é o nome de um estilo musical típico do Sri Lanka, muito influenciado pela música portuguesa.

Na ilha, há de facto muitos outros vestígios portugueses: a música, os apelidos, algumas tradições e a religião de uma minoria, que se viu agora atacada. Marco Neves – Portugal in "Certas Palavras"

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Sri Lanka – Crioulos portugueses sem meios para visitar Portugal

A falta de financiamento impede as deslocações das comunidades burghers portuguesas no Sri Lanka



Burghers, em holandês, significa cidadãos e passou a designar todas as pessoas com ascendência euro-asiática, incluindo holandeses e portugueses, no Sri Lanka. A comunidade de «milhares de pessoas» falantes de crioulo é originária da presença portuguesa no Ceilão no século XVII.

Hugo Cardoso, autor de uma investigação sobre falantes do crioulo português, afirmou à agência Lusa que estas comunidades manifestam o desejo de participar em festivais de folclore portugueses «por exemplo, no festival de Cantanhede (Semana Internacional de Folclore) e estes festivais estão abertos a este tipo de participação, mas é difícil conseguir o financiamento para as viagens; teriam de vir os músicos e os dançarinos; a outra opção seria trazer apenas os músicos, mas as comunidades gostariam de enviar a “performance” completa».

De acordo com o linguista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, «há dois grupos particularmente ativos na preservação da música e da dança: um deles é constituído por pessoas mais idosas, que ainda falam bem o crioulo e depois há um grupo que forma pessoas mais novas, entre as quais alguns já não falam a língua; usam a língua nas canções, mas isso não é suficiente para preservar a língua nas suas famílias».

O material da investigação sobre as comunidades burgher portuguesas começa a estar disponível através do Arquivo das Línguas Ameaçadas (Endengered Languages Arquive), gerido pela SOAS (Universidade de Londres), em na cidade inglesa.

Segundo o investigador, a ideia que se tem vindo a desenvolver é que, quando o português desaparece de alguma sociedade, a língua inicia um processo de convergência com as outras línguas locais e, como a saída dos portugueses ocorreu em meados do século XVII, houve mais tempo para este crioulo se aproximar, em termos gramaticais, das línguas da região, o que resulta num perfil linguístico muito diferente. «Em vez de proposições, têm proposições, que vêm depois dos nomes. Os verbos vêm no final das frases e tudo isto está relacionado com o perfil linguístico das línguas dravídicas da Ásia Meridional».

A investigação de Hugo Cardoso concluiu que, apesar de existirem milhares de falantes, a transmissão da língua às gerações mais recentes está ameaçada. A solução passaria por incluir especialistas do próprio crioulo, no sentido de manter a identidade da língua, caso seja essa a vontade da comunidade.

«Faz sentido se a comunidade sentir ajuda e interesse de ajuda das instituições de Portugal, mas isso deve ser feito com muito cuidado. O meu receio nestas situações é que não seja feito com cuidado porque, se a intervenção for feita sem se saber como conservar essa língua e introduzir o português europeu, isso pode ter como resultado substituir o crioulo pelo português, que é negativo a meu ver porque este processo deve ser aditivo e não subtrativo e, por isso, tem de ser feita uma intervenção muito responsável, ou então, no limite, pode dar mais força à ideia de que aquelas línguas são incorretas e devem ser abandonadas, sem que nem o português se consiga implementar nessas regiões».

O investigador pretende estudar o português de Goa, Damão e Diu, que «não está devidamente estudado e documentado». In “Revista Port. Com” - Portugal