O documentário “Elefantes e Esquilos” acompanha a artista cingalesa Deneth Veda Arachchige na sua procura por artefactos saqueados por suíços e hoje guardados num museu de Basileia, expondo o delicado debate sobre a Suíça e o seu passado colonial
Deneth Piumakshi Veda Arachchige,
artista nascida no Sri Lanka e radicada na França, tem uma missão: ela pretende
devolver à sua terra natal os valiosos artefactos culturais pertencentes aos
indígenas Wanniyala-Aetto. Os objetos saqueados encontram-se nos acervos do
Museu das Culturas e do Museu de História Natural, ambos na cidade de Basileia,
na Suíça.
Em “Elefantes
e Esquilos“, o seu documentário de estreia, o cineasta
suíço Gregor Brändli captura as meticulosas tentativas de Piumakshi Veda
Arachchige de iniciar um processo de restituição cultural envolvendo obras de
arte roubadas, máscaras cerimoniais, restos mortais humanos e até mesmo de
animais, de onde vem o inusitado título do filme.
A sua procura acaba revelando-se um imenso desafio,
recebido com desconfiança e ceticismo pelo circuito de arte na Suíça, onde
curadores e diretores de museus ainda não se posicionam de facto frente ao
secreto passado colonial do país.
Depois da premiação de “Elefantes e Esquilos” com a
“Pomba de Prata” de melhor documentário no recente Festival Internacional de
Documentários e Filmes de Animação de Leipzig (DOK Leipzig), Gregor Brändli e
Deneth Piumakshi Veda Arachchige conversaram com a Swissinfo sobre a sua
colaboração de longa data e a missão que compartilham.
Força espiritual
“Não são meros objetos”, diz a artista, referindo-se ao
inestimável património do Sri Lanka levado pelos primos suíços Paul e Fritz
Sarasin no final do século 19 e início do século 20 do que era então conhecido
como Ceilão.
“Esses objetos foram criados por mãos humanas, nascidos
do amor e da energia”, completa Piumakshi Veda Arachchige. “Por exemplo: nos
tempos antigos, as máscaras feitas à mão não serviam apenas para o uso, mas
tinham propósitos importantes para a cura, rituais e promoção da identidade
cultural. Era preciso ser primeiramente reconhecido pela tradição, para então
obter o direito de usar determinada máscara e de se apresentar. De forma que
esses artefactos são corpos energéticos em si mesmos”, explica a artista.
Numa das cenas mais impressionantes de “Elefantes e
Esquilos”, ela coloca uma das máscaras cerimoniais escondidas nos arquivos da
Basileia. É um momento forte: pela primeira vez em séculos, esse ato permite
que as dimensões espirituais da obra de arte sagrada fluam novamente através de
alguém cujas raízes estão no Sri Lanka.
Piumakshi Veda Arachchige argumenta que, mesmo quando uma
máscara como essa é cuidadosamente preservada num arquivo europeu, as suas
energias sagradas foram roubadas. “Essas qualidades são ignoradas quando um
cientista manuseia um artefacto”, diz a artista. “Eles simplesmente a veem como
uma peça decorativa e a colocam em um contexto completamente diferente. É como
remover o coração de uma pessoa e guardá-lo longe. Quando eu estava a usar
aquela máscara, senti as suas vibrações, porque ela finalmente havia cumprido o
seu propósito novamente”, relata.
A artista descreve a semelhança entre esse momento e a
sensação de segurar pela primeira vez um crânio ancestral nas mãos: “Era como
se uma pessoa estivesse a falar comigo noutra dimensão, em outra língua”,
conta.
Esses gestos simbólicos resumem perfeitamente o conflito
central da sua obra: como a reivindicação emocional por parte de uma artista,
em prol da restituição, choca com a postura marcadamente racional das
instituições, que querem continuar mantendo esses artefactos nos seus arquivos
em nome da ciência e da preservação.
Batendo contra a parede
Embora o mundo da arte esteja lentamente acompanhando os
debates pós-coloniais que enfatizam a necessidade de restituição cultural – um
assunto que Mati Diop explorou com veemência no seu documentário poético
“Dahomey” (2024) –, “Elefantes e Esquilos” mostra que o trabalho de verdade só
começa depois que essas primeiras conversas acontecerem. Já na década de 1970,
o Sri Lanka havia exigido a devolução de alguns desses objetos, mas a Suíça
nunca atendeu a esses pedidos.
No filme, Piumakshi Veda Arachchige participa de painéis
de discussão e debates para reiterar mais uma vez o mesmo ponto: conversar não
basta. “Na minha opinião, o debate em torno da descolonização e do
pós-colonialismo é marcado por muita conversa diplomática e académica”, diz
ela, lembrando que o aspeto emocional, que desempenha um papel fundamental no
seu trabalho como artista visual, é deixado com frequência de lado.
Esse conflito foi o que inspirou Brändli a realizar o
documentário, o seu primeiro em longa-metragem. Curioso para saber como e por
que todos esses artefactos se encontravam nos arquivos suíços, ele procurou
Bernhard C. Schär, historiador suíço e autor de um livro sobre os primos
Sarasin, que por sua vez incentivou o cineasta a entrar em contato com
Piumakshi Veda Arachchige.
Os esforços frustrados da artista na Suíça acabaram
tornando-se um material excepcional para um documentário. “Embora Deneth tenha
sido inicialmente bem recebida em Basileia, essa recepção calorosa diminuiu
quando ela começou a fazer perguntas mais críticas”, conta o diretor. “Em
determinado momento, tive até que conduzir sozinho as entrevistas na Suíça,
pois esbarramos numa parede e Deneth não tinha permissão para atravessá-la”,
revela.
De volta às origens
Gregor Brändli, por sua vez, viu-se perdido quando a
dupla se aventurou pelo Sri Lanka, onde Piumakshi Veda Arachchige foi quem
conseguiu abrir portas. Ele recorda: “Vimal, indígena e jornalista, nos
convidou para ir à aldeia de Dambana. E disse: ‘Não falem apenas sobre o
passado, mas também sobre as lutas que enfrentamos hoje’. Esse foi um momento
decisivo para mim, em que senti um forte desejo por parte dos outros de também
trabalhar nessa história”, relata o cineasta.
A mudança de locação amplia a perspectiva do filme, que,
de acordo com Piumakshi Veda Arachchige, “vai muito além da restituição”.
“A filosofia que nos guiou era: contexto e consenso”, diz
Brändli. Uruwarige Wannila Aththo, líder da comunidade indígena Vedda, em
Dambana, desempenhou um papel central neste sentido. Ele recebeu a equipa e
descreveu o valor pessoal desses artefactos que foram roubados dos seus
ancestrais.
Durante as filmagens no Sri Lanka, Piumakshi Veda
Arachchige mal podia acreditar que a aventura na qual estava envolvida com
Brändli resultaria realmente num filme. “Estávamos apenas documentando o que
acontecia”, reflete a artista. “E capturando a maneira como fazíamos a nossa
pesquisa, não apenas em arquivos, mas também na vida real. Pegámos comboios,
voos, tuk-tuks e autocarros, documentando constantemente o que estava a acontecer
ao nosso redor em tempo real. Quando vi o filme finalizado pela primeira vez,
enxerguei todas essas camadas, como nossas realidades no Ocidente contrastavam
com o que vivemos no Sri Lanka”, conta a artista.
Nesse sentido, “Elefantes e Esquilos” nasceu de uma
colaboração que, segundo Brändli, “surgiu organicamente e foi necessária ao
longo de toda a história. Como se as nossas capacidades juntas de fazer a ponte
entre o Sri Lanka e Basileia tivessem permitido que todas essas portas
diferentes se abrissem. Isso foi crucial, visto que a questão da restituição
está profundamente enredada em padrões culturais específicos”.
Gregor Brändli e Deneth Piumakshi Veda
Arachchige sentiram-se encorajados pela recepção calorosa no DOK Leipzig. “Vi
como a história ressoou no público”, diz a artista. “Após a exibição, um
artista queniano na plateia chegou a dizer que se sentiu inspirado pelo
longa-metragem e que está também no processo de produção de um filme sobre
restituição. Se o nosso documentário conversa com todas essas situações
semelhantes no mundo, acho que fizemos um bom trabalho”, conclui. Hugo
Emmerzael – Países Baixos in “Swissinfo”
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