Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Ásia - Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas dá luz verde a criação de Associação das Comunidades Luso-Asiáticas

As comunidades asiáticas com raízes portuguesas encontraram-se em Díli para recordar o passado e projetar o futuro. Um futuro que contará com a Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, que recebeu luz verde com a assinatura da Declaração de Díli



A 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC, em inglês), em Díli, sob o tema ‘Unidos na Diversidade – Desafios e Oportunidades de um Legado Secular’, terminou com a assinatura da Declaração de Díli – Criação da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas – APCA, uma rede de pessoas e comunidades, em que a partilha e a diversidade servem um objetivo comum.

O evento de três dias, de 27 a 29 de junho, teve início na sexta-feira e foi projetado para ser um espaço de partilha e de preservação da língua, da história e da cultura de países asiáticos com rastos portugueses.

A APCC reúne comunidades de oito países – Malásia, Myanmar, Sri Lanka, Tailândia, Índia, Indonésia, China e Timor-Leste. A primeira conferência foi em 2016, em Malaca, na Malásia. O objetivo foi claro desde o início: estabelecer valores históricos, despertar as pessoas para o peso da herança cultural lusófona e iniciar uma cooperação económica entre comunidades.

Criar a associação, como explicou o presidente da República Democrática de Timor-Leste, José Ramos-Horta, é uma forma de reconhecer o valor de comunidades luso-asiáticas, geralmente ignoradas e desvalorizadas, e dar voz a possíveis diálogos com governos e instituições internacionais.

“É uma promessa e um compromisso de preservar, registar e capacitar. Apoiará [a associação] a investigação, a educação e a sustentabilidade económica. Ajudará a proteger as histórias e identidades de pessoas cujas culturas são mistas, complexas e orgulhosas”, salientou.

Acrescentou que a associação visa honrar o passado e projetar o futuro a partir de um legado comum. “Isso inclui documentar histórias orais, apoiar festivais culturais e fortalecer o desenvolvimento liderado pela comunidade.”

João Paulo Oliveira e Costa, professor da Universidade Nova de Lisboa, observou que cada comunidade apresenta uma realidade diferente: algumas são isoladas, outras são muito fortes e numerosas e algumas estão bem implantadas no seu território, como é o caso das Flores.

Mesmo que nem todos falem português, para o professor, a cultura é aquilo que une as comunidades na conferência, e aí há sempre aspetos em comum. “Há um conjunto de traços culturais, desde a culinária ao folclore, além de histórias semelhantes”, salientou, referindo também o cristianismo como um elemento que serviu para a consolidação e resistência destas comunidades em meios onde a maior parte das pessoas não é católica.

“A língua portuguesa não é praticada da mesma maneira em todos os grupos. De qualquer forma, é uma memória também e, em muitas comunidades, ainda faz parte do dia-a-dia, já que é fácil encontrar pessoas que falam fluentemente português em Goa ou aqui em Timor. No Sri Lanka, já não é bem assim”.

União na diversidade

Earl Barthelot, presidente do Grupo “Burgher Folks”, de Batticaloa, no Sri Lanka, falou no português crioulo, a versão antiga do português, que foi sofrendo alterações ao longo dos tempos. “Quando os portugueses conquistaram o Sri Lanka, não trouxeram mulheres de Portugal, casaram-se com locais e fizeram negócios, levando coisas do Sri Lanka para Portugal, através de Goa, na vizinha Índia”

A língua que era utilizada nos negócios foi sofrendo alterações, estruturais e gramáticas, até pelo contacto com as duas línguas principais do Sri Lanka: o cingalês e o tâmil. O português crioulo não é usado todos os dias, mas as pessoas conseguem dizer, por exemplo: ‘estou a tomar café’ – ‘eu avora teat boe”.

A descendência portuguesa no Sri Lanka é muito pequena e não há um número exato de pessoas. O chefe do grupo calcula que existam sete mil pessoas no seu distrito. Muitas delas mantêm-se em contacto através de eventos sociais, familiares ou na igreja.

Em Malaca, a história é diferente. Marina Linda Danker, dona do grupo cultural português de Malaca – DomMarina –, contou que são descendentes dos portugueses de 1511 e conservam a língua portuguesa de Malaca, dos séculos XVI e XVII.

Sem livros e limitados ao uso do inglês e do malaio na escola, conseguiram manter a língua portuguesa, praticando todos os dias em casa com os familiares. A proximidade das 118 famílias, na mesma localidade, também ajuda nessa comunicação em língua portuguesa. Quando cumprimentam alguém, dizem algo como, ‘que sorte, tá bom?’, equivalente a ‘estás bem?’; quando oferecem comida, ‘bem, comi’; ou convidam alguém para dançar, dizendo ‘bem juntado, bem nos balar’; ‘onde tu vai?’, quando perguntam a alguém para onde vai. Além disso, dizem ‘boa tarde, bom meio-dia, boa noite’ e ‘muito agradecida’. O português, curiosamente, acaba por ser uma língua secreta, falada entre os membros da comunidade naquela região.

“Vivemos numa aldeia onde todos são portugueses e católicos romanos. Praticamos todas as nossas tradições, incluindo as que estão ligadas à religião. Os números, um, dois, três, e até alimentos e temperos dizemos em português: cebola, gengibre”, explicou, acrescentando que há outras comunidades que podem já não falar português por viverem isoladas e não conseguirem usar a língua todos os dias.

Marina Danker mostrou-se feliz por participar na conferência. “Queremos unir o nosso povo para aprender a língua e a cultura. Queremos saber o que os outros têm de igual e quais são as diferenças. Portugal dominou Malaca por 130 anos e mantém-se a influência na cultura”, exemplificou.

O grupo DomMarina faz viver a cultura através das roupas tradicionais, da comida, de conversas, de exposições e de festivais anuais.

A comunidade em Jacarta, na Indonésia, já não fala português, uma vez que o Papia Tugu, a língua crioula falada pelos portugueses nos arredores de Jacarta, é considerada extinta. “O português crioulo que temos não é o português moderno, nem autêntico. Chama-se Papia Tugu”, explicou Guido Quiko, líder comunitário na aldeia portuguesa de Tugu e do grupo musical Tugu Keroncong. É o grupo musical que acaba por manter o legado do Papia Tugu, através de canções escritas naquele crioulo português-javanês.

Em Jacarta, dizem ‘yo kere bebe’ (eu quero beber) e ‘yo kere pasa’ (quero dar uma volta). Como não usam a língua todos os dias e por falta de vocabulário, os resquícios da língua portuguesa foram desaparecendo, misturando-se com línguas das regiões da Indonésia, desde meados do século XVIII.

“Temos apenas algumas canções compostas pelos nossos pais: Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo. Estas são as que ainda cantamos com frequência. Mas o nosso conhecimento da língua não é suficiente para manter uma conversa”. As canções – Kaprinyo, Gatumatu, Yankagaleti e Meninabobo – foram tocadas ao longo da conferência em Díli.

A comunidade foi formada por cerca de 800 pessoas de descendência portuguesa em Malaca, que foram capturadas pelos holandeses em 1641 e, dois anos depois, exiladas em Batávia (nome dado pelos holandeses à atual cidade de Jacarta), numa aldeia que se passou a chamar Tugu, cujo nome é retirado da palavra ‘português’.

“Em Batávia, em 1661, os holandeses impunham duas condições a quem quisesse viver na região: converter-se ao catolicismo ou ao protestantismo e substituir os apelidos portugueses por apelidos holandeses”, contou Guido Quiko.

Os 23 chefes de família concordaram e permaneceram no sudeste de Batávia, agora Kampung Tugu, acabando por casar com outros clãs daquela região. Existem seis clãs no local: Andris, Cornelis, Mihils, Abraham, Brone e Quiko. O último é o único clã de origem portuguesa, o resto é da Holanda.

A música Keroncong surgiu pela falta de divertimento naquele local, já que viviam isolados. Para ter entretenimento, tinham de caminhar 23 km, desde a vila Tugu, até à cidade de Atuwa.

Criaram um instrumento musical, de cordas, com a forma de um cavaquinho, que ficou conhecido como ‘macina’. “Tem o formato de uma pequena viola e, quando tocado, emite um som metálico ‘chong chong’ [tenta reproduzir o som], então chamaram-lhe keroncong”. Foi assim que surgiu a música keroncong na Indonésia, com a qual a comunidade se divertia depois do trabalho, ou durante o dia, a pescar ou a caçar.

Quando os holandeses ouviram que havia eventos musicais naquela aldeia isolada, foram lá, juntaram as pessoas, e levaram instrumentos musicais europeus. Mais tarde, foi instituída uma Orquestra em 1925: ‘Orkes Pusaka Keroncong Moresko Tugu’, que agora se chama Tugu Keroncong.

A comunidade luso-asiática em Jacarta não recebe apoio ou atenção por parte do Governo, pois são uma minoria, sem grande expressão num país/arquipélago tão grande como a Indonésia. Nesse sentido, nem as línguas crioulas, como o português, são reconhecidas. Guido Quiko não fala português crioulo, mas conta que o seu falecido avô falava um pouco.

Além da língua, há tradições culturais: a tradição de Rabu-Rabu (tradução literal de quartas-feiras) e a tradição de Mandi-Mandi (banhos). A Rabu-Rabu é celebrada a 1 de janeiro – os músicos tocam música pelas ruas da aldeia de Tugu para desejar um ‘Feliz Ano Novo’. A Mandi-Mandi acontece no primeiro domingo de janeiro e é o dia que as pessoas pedem desculpas umas às outras, ao som de músicas de keroncong. A música é reconhecida como património cultural imaterial da Indonésia.

Timor-Leste como ponto de encontro

A 4.ª Conferência da APCC serviu ainda para destacar o papel de Timor-Leste como a única nação asiática que tem o português como língua oficial. O facto de ser membro da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), de estar associado aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de estar já com um pé na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ainda dá mais peso ao papel de Timor-Leste na região.

Ter português como língua oficial faz de Timor-Leste “um farol para todas as comunidades de língua portuguesa que existem na Ásia”, além de ser uma marca de distinção que reforça a individualidade do povo timorense, segundo o professor João Paulo Oliveira e Costa.

O professor destacou ainda a importância de Timor-Leste como ponto de ligação entre as comunidades luso-asiáticas, por ser o único Estado de língua oficial portuguesa da Ásia. “Aquilo que temos todos em comum é partilharmos um passado e aspirarmos a um presente em que podemos estar juntos e apoiarmo-nos mutuamente.” Antónia Martins – Timor-Leste in Diligente


Ásia - Marca deixada pelos portugueses “não foi apagada”, diz Ramos-Horta

O Presidente de Timor-Leste considera que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”. O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem


O Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, afirmou que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”.

“A marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada pelo tempo. As nossas comunidades são a prova viva desta verdade incontornável. O resultado é algo que perdura: o nascimento de comunidades simultaneamente europeias e asiáticas”, disse José Ramos-Horta.

O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem, com a participação de comunidades do Sri Lanka, Malaca (Malásia), Myanmar, Macau, Tailândia, Goa (Índia) e das Flores e Jacarta (Indonésia).

De acordo com Ramos-Horta, aquelas comunidades não estão apenas “ligadas a Portugal”, mas também umas às outras, porque os “portugueses administraram os seus territórios asiáticos com um sentido de interligação”. “Laços culturais, administrativos e religiosos uniam Goa e Malaca, Flores e Sri Lanka. Durante um período, Timor chegou a ser administrado pelo Governador de Macau”, disse, explicando que a igreja também teve um papel central naquela ligação. A igreja, segundo o Presidente, trouxe a fé, mas também a “educação formal, escrita e disciplina espiritual”.

Lembrando que as comunidades descendentes de portugueses na Ásia são “frequentemente invisíveis nas narrativas nacionais” e “esquecidas pelos manuais escolares”, o Presidente salientou a importância de se juntarem para lembrar, mas [também] para reinventar”.

“Esta conferência dá-vos espaço para reflectir sobre o passado”, mas também, continuou o chefe de Estado, para uma “oportunidade de moldar o próximo capítulo da história”, que será discutido com a proposta da Declaração de Díli, que foi aprovada este domingo, e com a criação da Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia. “Esta associação será mais do que uma rede de pessoas e comunidades. É uma promessa e um compromisso: preservar, registar e capacitar. Reconhecer o valor das comunidades muitas vezes marginalizadas ou esquecidas”, disse José Ramos-Horta.

Segundo o Presidente, a Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia dará voz às comunidades lusófonas com governos e instituições internacionais, apoiará a investigação e a sustentabilidade económica, mas também ajudará a proteger as histórias e identidades dos povos.

Numa mensagem, lida pela embaixadora portuguesa em Díli, Manuela Bairos, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, manifestou o apoio do Governo português aos objetivos da conferência, a disponibilidade para acolher um encontro em Portugal, bem como “acompanhar os esforços de institucionalização do projecto que a conferência de Díli se propõe a promover”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


terça-feira, 22 de abril de 2025

Macau - “Há agora uma renovação da língua portuguesa”

Depois de um período menos favorável durante a pandemia, há agora um novo fôlego para a língua portuguesa em Macau, diz Joaquim Coelho Ramos. Em entrevista ao Ponto Final, o vogal do Conselho Directivo do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, que foi também director do Instituto Português do Oriente no território, afirma ainda que, na China Continental, continua a manter-se o crescimento do interesse pelo português, notando-se uma procura significativa pela aprendizagem da língua para fins específicos



Em que ponto é que se encontra o português na China Continental?

Joaquim Coelho Ramos - Tanto quanto me é dado perceber, a língua portuguesa continua em ascensão na China, em várias vertentes, quer na língua portuguesa enquanto dimensão filológica (nas áreas de estudo científico, estudos de linguística, de literatura), mas também para fins específicos, ou seja, há uma procura de português económico, para fins de investimento, português jurídico e português mais institucional. Em todas as suas dimensões, o português continua em crescimento e a procura também.

Nestes últimos anos, a estratégia do Camões tem também mudado para captar mais alunos de português?

JCR - Temos feito um investimento sistemático, ao nível da Ásia, no sentido de promover o desenvolvimento da língua portuguesa. Isso tem sido notado, quer através de presenças de elementos daqui do Conselho Directivo naquela região (na China, no Vietname, na Malásia e por aí fora), quer através do incentivo das presenças, que já existem no Instituto Camões na China, sobretudo na China Continental, para o desenvolvimento de novas actividades, nomeadamente no português para fins específicos. Aí trabalhamos com os leitores junto de universidades chinesas e também com os docentes que estão colocados, sobretudo no interior da China, ao abrigo de protocolos com as instituições de ensino superior.

No caso específico de Macau, fala-se, nestes últimos anos, de alguma instabilidade, no que diz respeito ao português. Diria que a língua está a perder força no território?

JCR - A indicação que temos é que, depois de uma fase menos boa, que coincidiu ali com a pandemia, que é natural, porque teve a ver com situações que ninguém podia controlar, há agora uma renovação da língua portuguesa em Macau. O Instituto Camões, em Macau, trabalha via Instituto Português do Oriente — o Instituto Camões é associado maioritário do IPOR — e partilhamos os interesses e as estratégias com o IPOR no trabalho em Macau. As informações que temos são de uma recuperação do português com algumas alterações de caracterização dos alunos, o que levou também a uma alteração da caracterização das próprias estratégias de ensino, mas, em geral, volta a crescer o interesse pelo português. Isso também se verifica quando olhamos para aquela que é a oferta transversal do português em Macau. Pelo que me é dado a entender, as universidades em Macau continuam a ter uma procura interessante para o português. Olhando para o panorama no geral, o indicador que temos é que o interesse pelo português permanece, está sólido e cresce em áreas diferentes, com uma procura significativa pelo português para fins específicos.

Falou de uma alteração dos alunos e de estratégia. Que mudanças foram essas?

JCR - Há aqui uma dimensão mais pragmática da procura da língua como instrumento de concretização de projectos (até pessoais) económicos, de empreendedorismo, de internacionalização de ideias, que se verificam em várias áreas. Estive, recentemente, em Macau e falei com algumas pessoas que estão a aprender português há algum tempo, que me diziam que queriam internacionalizar projectos que tinham ao nível das artes. Queriam explorar mercados nos países de língua portuguesa e, porque eram artistas, tinham esse interesse em conhecer melhor e em externalizar aquilo que produzem. Há aqui uma dimensão mais pragmática, que já não é só (embora essa permaneça com uma capacidade de atracção muito forte) olharem para a língua como uma dimensão puramente comunicativa ou uma dimensão filológica para se perceber aquilo que as pessoas falam e que dizem de uma maneira menos científica, como a engenharia da língua — como ela se constrói, como ela surge, como ela se manipula, como ela se utiliza. Mas, de facto, estamos a ver aqui um crescimento do português nesta dimensão pragmática, muito utilitária, sobretudo no português para negócios.

Há parcerias que têm sido feitas entre o Camões e universidades em Macau?

JCR - Em Macau especificamente não, mas, no interior da China, sim. Temos vindo a trabalhar, sempre que as universidades pedem apoio — e esse apoio pode ser ao nível bibliográfico ou ao nível da formação de professores. Uma coisa recente que temos observado é um aumento dos projectos de difusão científica, como a organização de congressos ou colóquios. As universidades têm trabalhado muito na consolidação daquilo que é a sua oferta e nota-se também que as pessoas formadas nessas universidades têm um currículo e conhecimentos cada vez mais aprofundados e sólidos.

Tem sido difícil encontrar professores para dar aulas em Macau e na China Continental?

JCR - Há dificuldades. Temos de ver isto segundo duas linhas de intervenção: a linha local, em que as universidades procuram, no próprio contexto, professores qualificados para leccionar, e isso eu não conheço bem o mercado para lhe dar uma resposta concreta, mas percebo que há gente formada e com uma formação sólida para preencher estes lugares. Da nossa parte, há uma dificuldade em enviar professores de português, especialmente portugueses, desde logo, porque, mesmo em Portugal, é difícil encontrar professores de português. Nós temos poucos professores, mesmo para responder às escolas em Portugal, e esta dificuldade é transversal para a colocação de professores externamente. Isto tem várias causas que vão desde a capacidade de atracção para este tipo de profissões até à própria realidade demográfica. Não há uma só razão, há um sistema de razões que vem aqui criar alguns obstáculos, mas, de facto, o esforço de tentar corresponder àquilo que são os pedidos que nos são feitos é permanente, mas depois depende um pouco da mobilização concreta que conseguimos fazer nestes recursos que são, ao fim e ao cabo, mão de obra altamente qualificada.

A China, enquanto país, é parceira nesta promoção da língua portuguesa?

JCR - Não fazemos nada na China sem a devida articulação com as autoridades locais, a vários níveis — desde logo, as autoridades académicas. Há uma articulação, como não podia deixar de ser, com as instituições locais, quer as que representam o Estado português lá, quer por esta via, muitas vezes até por via diplomática, com as próprias instituições chinesas. Esta articulação é permanente. Aliás, é isso que mandam as boas práticas das relações internacionais, não podia ser de outra maneira. Depois, a outro nível, mais micro, se quiser, a colaboração com as universidades em si é feita de modo ainda mais próximo, ou seja, conhecendo aquilo que são os pedidos ou os requisitos específicos de cada universidade, e é preciso termos em consideração que há quase seis dezenas de universidades chinesas ou de instituições de ensino superior chinesas a ensinar o português na China e cada uma tem as suas necessidades, os seus objectivos, as suas estratégias. É conhecendo essas linhas de intervenção concretas que nós depois vemos de que forma é que podemos colaborar. E isso exige uma articulação muito próxima, uma cumplicidade académica que permite ir ao encontro do que são os desejos das partes.

Essa parceria também se aplica a Macau, com o Governo local?

JCR - Penso que sim, embora essa via é mais operacionalizada através do Instituto Português do Oriente, mas nós, como associado maioritário, temos esse feedback constante. Há uma procura de consolidação de uma relação que já é muito forte com o Governo e com as autoridades da RAEM, e isso depois também traz os resultados que temos vindo a verificar — mais gente formada em português, mais gente com ideias e projectos de aplicação da língua portuguesa quer localmente, quer internacionalmente. Estive em Macau, há relativamente pouco tempo, e falei com muitos estudantes e ex-estudantes. Tive a oportunidade de encontrar muitos em várias ocasiões e ouvi, com muito agrado, que muitos estudantes que vêm do interior da China para estudar em Macau regressam depois ao interior da China para trabalhar com a língua portuguesa. Por exemplo, na área ali das dinâmicas da Grande Baía. Muitos deles com empresas muito consolidadas que pretendem agora internacionalizar, quer a sua produção, quer a exportação de produtos em países de língua portuguesa. Foi com grande alegria e interesse profissional que ouvi esses testemunhos. A língua portuguesa está a provar ser um caminho de internacionalização. As relações com Macau são muito sólidas, quer directamente através do Camões, quer por via do IPOR, e penso que há aqui uma correspondência de interesses e estratégias em que procuramos manter esta grande proximidade e capacidade de resposta junto das instituições de Macau.

Ainda há alunos em Macau que estão a aprender a língua para poder trabalhar no território?

JCR - Vê-se muita gente que procura aprender português para o aplicar depois na administração pública de Macau. Aí, o IPOR tem um papel fundamental a vários níveis da administração pública de Macau. Isso também continua a ser um mecanismo de atracção para as pessoas que aprendem português. Eu diria que esta transversalidade da língua portuguesa está a provar ser uma mais-valia em todas as dimensões do mercado — na dimensão económica, quer a nível interno, quer a nível de internacionalização, na busca de novos mercados, quer a nível da administração pública, das relações internacionais, na área jurídica. Há aqui um reforço da transversalidade da língua portuguesa em Macau e isso não tem de ser dito por nós, é dito pelos dados que nos chegam regularmente.

Mudou a presidência do Camões e com isso há também uma mudança de estratégia do Camões?

JCR - Sem dúvida. A linha que estamos aqui a tentar trilhar tem a ver com a presença do português numa plataforma muito sólida, que é Macau, e o interesse que se verifica pela língua portuguesa na Ásia em geral. O que nós temos aqui é dois elementos fundamentais que, quando conjugados, permitem um crescimento exponencial destes objectivos de promoção internacional da língua, ou seja, aproveitar a plataforma rotativa que é Macau, a capacidade que Macau tem de atrair várias nacionalidades para dentro de si e depois a capacidade de utilizar estes recursos formados em Macau para reforçar a oferta à procura que há neste grande bloco regional que é a Ásia, e que é uma área de intervenção prioritária para nós. Procuramos fazer, a partir de Macau, um investimento na formação de professores. Quer Macau, enquanto parte da República Popular da China, tem um papel absolutamente fundamental, desde logo o papel pivô de distribuição de conhecimento e, depois, de sustentação histórica daquilo que é a língua portuguesa ali. A nossa intenção é reforçar o apoio, a articulação do ensino da língua portuguesa com as instituições de Macau e a partir daí procurar dar um apoio complementar em países da região. Lembro-me de Timor-Leste, da Malásia, do Vietname, onde o crescimento da língua portuguesa, muitas vezes alicerçado no interesse pragmático, empresarial, investimento da língua enquanto veículo para outras áreas que têm interesse para o Governo do Vietname, esse crescimento tem sido também muito sólido. Mas eu gostava de deixar claro que esta visão mais pragmática, mais instrumental da língua portuguesa, não é o único caminho que tem sido reforçado na Ásia. Aquela dimensão mais filológica, científica, aquela dimensão que permite estudar a língua, para conhecer a língua, são também áreas que têm tido um crescimento muito significativo. As pessoas têm um genuíno e crescente interesse pela língua portuguesa, nas suas mais diversas dimensões, e nelas também se integra esta dimensão do prazer do conhecimento da língua, da língua como veículo para conhecer o outro.

Esta estratégia passa também por encontrar alternativas à falta de professores, por exemplo?

JCR - Nós contamos muito com esta dimensão de formação de professores localmente para nos ajudar à promoção da língua portuguesa. Este investimento na formação de professores na região tem a ver com a construção de capacidade instalada. O que se pretende é formar pessoas localmente para que essas pessoas depois possam ajudar neste trabalho de implementação da língua portuguesa a partir daquilo que são as suas próprias culturas, as suas próprias vivências geoculturalmente relacionadas. Não só a formação de professores na China, em Macau no contexto da RPC é algo muito importante, como é algo que temos de acarinhar, porque as pessoas formadas que são daquela região carregam consigo toda uma dimensão emocional e cultural que as coloca logo um passo à frente quando chega a altura de partilhar esse conhecimento numa região que é a sua. Luciana Leitão – Portugal in “Ponto Final”


terça-feira, 1 de abril de 2025

Ásia - Tóquio, Seul e Pequim aceleram acordo de comércio livre

O Japão, Coreia do Sul e China anunciaram que pretendem reforçar a cooperação e proporcionar um “ambiente previsível” às empresas e “acelerar” as negociações sobre um acordo de comércio livre, que responda às incertezas provocadas pelos EUA



Os ministros da Indústria e do Comércio dos três países realizaram uma reunião de emergência em Seul, destinada a acertar políticas de resposta à aceleração dos aumentos tarifários impostos por Washington – uma reunião tripartida de emergência e a primeira neste formato desde 2020.

O ministro sul-coreano da Indústria, Ahn Duk-geun, o seu homólogo japonês, Yoji Muto, e o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, concordaram em “prosseguir as discussões com vista a acelerar as negociações para um acordo de comércio livre trilateral abrangente” e “justo”, de acordo com uma declaração conjunta.

As discussões sobre esse acordo começaram em 2013 e continuaram até 2019, altura em que estagnaram. Foram relançadas em 2024, numa cimeira tripartida especial, que reuniu os líderes dos três países em Seul.

Por enquanto, “continuaremos a trabalhar para garantir condições de concorrência equitativas a nível mundial, a fim de promover um ambiente comercial e de investimento previsível, livre, aberto, justo, não discriminatório, transparente e inclusivo”, acrescenta a declaração conjunta.

Para os três países, o objetivo é “intensificar gradualmente a sua cooperação”, a fim de “criar um ambiente comercial previsível, estabilizar as cadeias de abastecimento e melhorar a comunicação sobre os controlos das exportações”, insistiu Seul numa declaração separada.

De uma forma mais geral, Seul, Pequim e Tóquio concordaram em “trabalhar em estreita colaboração” para promover a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e incentivar novos membros a aderir à vasta Parceria Económica Regional Abrangente (RCEP), que reúne a China e 14 países asiáticos. Entre eles, a China, o Japão e a Coreia do Sul representam cerca de 20% da população mundial, um quarto da economia mundial e 20% do comércio global.

A reunião tripartida surge após a imposição por parte da Administração norte-americana de Donald Trump, em meados de março, de direitos aduaneiros de 25% sobre o aço e o alumínio, poucos dias antes da imposição, a partir de 02 de abril, de sobretaxas aduaneiras de 25% sobre os automóveis importados pelos Estados Unidos.

O Japão e a Coreia do Sul representam, respetivamente, 16% e 15% do total das importações de automóveis dos Estados Unidos, um setor importante para as respetivas economias nacionais. A China, por seu lado, enfrenta uma sobretaxa aduaneira total de 20% sobre todas as suas exportações para os Estados Unidos. Há ainda o espectro dos direitos aduaneiros “recíprocos”, que Washington também ameaça impor a partir da próxima semana. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Macau - Chegou a nona edição do EPR2024, o evento de promoção do ensino da língua portuguesa na Ásia

O Instituto Português do Oriente irá sediar o Encontro de Pontos de Rede de Ensino de PLE da Ásia nos dias 22 e 23 de Novembro, um evento sobre o ensino de português como língua estrangeira na Ásia, enfocando este ano nos avanços tecnológicos e estratégias de ensino inovadoras. O evento pretende promover a colaboração e dotar os educadores das ferramentas necessárias para melhorar as suas práticas de ensino e melhorar os resultados dos alunos

O Instituto Português do Oriente (IPOR) vai receber a nona edição do Encontro de Pontos de Rede de Ensino de PLE da Ásia (EPR2024) nos dias 22 e 23 de Novembro. O evento terá lugar no Auditório Dr. Stanley Ho do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, com o apoio da Fundação Macau e da STDM.

O EPR2024 tem como objectivo fomentar discussões sobre o ensino da língua e da cultura através de workshops que privilegiam experiências concretas e diferentes contextos educativos. Esta iniciativa procura valorizar a investigação sobre a língua portuguesa e as culturas dos países lusófonos, reforçando simultaneamente o papel de Macau na dinâmica pedagógica e científica do ensino da lusofonia.

O tema deste ano, “Os Avanços Tecnológicos no Ensino-Aprendizagem de PLE: Estratégias, Desafios e Perspectivas Pedagógicas”, explorará o impacto das novas tecnologias de informação e comunicação, bem como os recentes desenvolvimentos da inteligência artificial, no ensino das línguas. O fórum abordará a forma como estes avanços influenciam as metodologias de ensino e contribuem para o desenvolvimento intelectual, linguístico e sociocultural dos alunos.

O professor António Branco, director geral da Infraestrutura de Investigação PORTULAN CLARIN e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, abrirá o painel de comunicações no primeiro dia do evento. O Instituto Internacional da Língua Portuguesa também participará no EPR2024, prestando apoio institucional e contando com a presença do seu director executivo, João Neves, na sessão plenária. No evento estarão ainda presentes a Embaixadora Florbela Paraíba, presidente do Camões I.P., e diversos professores de língua portuguesa das várias universidades da região Ásia-Pacífico. Estas instituições incluem a Universidade da Indonésia, a Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, a Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, a Universidade de Comunicações da China, a Universidade de Estudos Internacionais de Xangai (SISU), a Universidade de Hanói, a Universidade de Nova Deli, a Universidade de Goa e a Universidade de Chulalongkorn.

O EPR2024 representa assim mais um passo a caminho da integração da tecnologia no ensino das línguas, em particular, do português como língua estrangeira. Ao abordar os desafios actuais e explorar estratégias inovadoras, o evento visa dotar os educadores das ferramentas necessárias para melhorar as suas práticas de ensino e melhorar os resultados dos alunos. Guiomar Salema – Macau in “Ponto Final”



segunda-feira, 21 de outubro de 2024

“Macau tem uma grande possibilidade de se afirmar como centro de ensino de português na Ásia”

Macau tem “as infraestruturas, os profissionais e a vontade” para se afirmar como um centro de ensino português, não só na China, mas na Ásia, diz a atual coordenadora do Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de São José, Tânia Ribeiro Marques. A eleição de um novo Chefe do Executivo que fala português e que tem uma abordagem “simpática e respeitadora” para com a comunidade promete também uma aposta continuada no desenvolvimento da língua na RAEM


– O uso da língua portuguesa em Macau é satisfatório?

Tânia Marques – Acho que isto passa, principalmente, pelos falantes; além do trabalho do Governo, que tem aqui um papel preponderante. Acabamos de eleger um novo Chefe do Executivo, que fala português e que teve algumas abordagens bastante simpáticas e respeitadoras do ponto de vista da língua portuguesa, nomeadamente com uma das instituições de matriz portuguesa aqui em Macau. Teremos de aguardar quais serão as políticas que este novo Executivo vai também pôr em prática e as suas ações. Como pode ser mais e melhor? Depende se estamos a falar da própria cidade em si, ou se estamos a falar de profissionais do português. No caso dos profissionais do português, acho que podemos continuar a fazer formações. Talvez, da mesma forma que os professores fazem a formação ao longo da vida, na tradução ou na interpretação, seja necessário fazer um ‘refreshment’ ocasionalmente. Talvez ter alguns programas de imersão, com uma determinada periodicidade.

– Como vê o atual nível português nos serviços públicos?

T.M. – Acho que muitas vezes nos próprios serviços, existem mais recursos do que aqueles que estão imediatamente à vista. Houve uma situação que me chamou muita atenção, com um ex-aluno meu, num balcão de atendimento que me calhou. Quando olhei para as línguas que estavam disponíveis, o português não era uma delas. Perguntei porquê se ele é fluente em português, e respondeu-me que se disser que fala português, todas as pessoas que falam português vão ser encaminhadas para o balcão dele. Portanto, creio que existem mais recursos do que aqueles que às vezes nos dão a parecer, o que não significa que não precisem de ser reforçados e não precisem de ter esta formação ou este interesse em continuar a aprofundar os conhecimentos de língua ao longo do tempo.

– Que tipo de apoios pode o Governo de Macau oferecer ao ensino da língua à tradução?

T.M. – O Governo tem estado a trabalhar e tem havido algumas ações concretas para o ensino de língua portuguesa nas escolas. Sei que continua a dar incentivos e a criar oficinas para crianças, nos mais variados níveis. Do ponto de vista das universidades, estamos a trabalhar ainda com a Aliança para Formação de Quadros Bilingues Qualificados nas Línguas Chinesa e Portuguesa – da qual fazem parte cinco das instituições de ensino superior locais – e na preparação, justamente, da terceira edição do Fórum de Reitores das Instituições de Ensino Superior da China e dos PLP, que vai acontecer no final do mês. Isto é organizado pelo Governo, em parceria com as universidades.

– O discurso oficial continua a apoiar o ensino português e o uso do português. Isso realmente mostra que Macau tem potencial para ser a base do ensino na China?

T.M. – Creio que sim, porque temos as infraestruturas, os profissionais, e temos a vontade. Institucionalmente existem os recursos e os meios. Acho que, havendo também a um nível superior esse interesse, Macau tem uma grande possibilidade de se afirmar como centro de ensino de português na Ásia.

– Desde que começou o seu trabalho na USJ, em 2022, o que conseguiu implementar? Quais são os planos de futuro?

T.M. – Quando tomei posse, aquilo que era mais premente era fazer a revisão dos programas de licenciatura. Já submetemos o programa de tradução e foi aprovado. O passo seguinte é passar para o que ainda não temos, que é a acreditação do programa pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior. Estamos a trabalhar nisso agora e em princípio o pedido será submetido até ao final do ano. É uma avaliação muito completa sobre questões pedagógicas, o currículo, e as condições em que as aulas têm lugar.

– Como vê o interesse atual nas áreas do português e da tradução português-chinês?

T.M. – Os nossos cursos de português tinham registado um crescimento consistente até chegar ao período do Covid, que estragou não só os nossos planos, mas, possivelmente, também os de outras instituições. Depois de uma descida brusca, crescemos novamente de forma consistente. Neste momento temos cerca de 40 alunos para a licenciatura. A maioria dos nossos alunos são residentes de Macau, mas começamos a sentir algum interesse de Hong Kong.

– A dificuldade em ter alunos do interior da China obriga a USJ a ter uma abordagem mais internacional?

T.M. – Temos um ambiente bastante internacional. Um dos trabalhos que tentamos fazer é justamente pôr os nossos alunos dos PLP a fazer intercâmbio com os nossos alunos da licenciatura e com outros falantes de língua portuguesa, que não sejam apenas o português europeu ou o português do Brasil. Haver esta ligação entre alunos não só de outras nacionalidades e culturas, mas também que possam pôr em prática o seu português com pessoas de outras nacionalidades, permite uma troca cultural e um intercâmbio muito interessante. Nelson Moura – Macau in “Plataforma”


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Portugal - “Há muito mais gente do que se pensava a trabalhar em Estudos Asiáticos

Com limitações de recursos humanos e financeiros, é com um maior apoio dos mecenas e parceiros, a que está aliado um grande envolvimento dos cerca de 40 jovens doutorandos ali a trabalhar nos seus trabalhos de investigação e a flexibilidade da equipa residente, que o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, tem conseguido levar adiante várias iniciativas. Em entrevista ao Ponto Final, a sua dirigente, Cármen Amado Mendes, fala sobre o mapeamento, que tem levado a cabo, da comunidade científica que está a investigar a Ásia em Portugal, mas também sobre os vários projectos que ainda estão por vir, incluindo o lançamento de um catálogo do Museu do CCCM, até ao fim do ano, e uma grande exposição de figuras de terracota, que terá lugar em 2025

Que balanço faz deste período, desde que está à frente do CCCM?

Tomei posse numa fase um pouco complicada, que foi a altura da pandemia. Havia uma série de problemas pendentes aqui na instituição para resolver, nomeadamente questões ligadas às próprias infraestruturas, a relação com o mecenato, com os nossos parceiros, com o estabelecimento de protocolos, mas foi um período que nos permitiu projectar o que é que iríamos fazer nos cinco anos desta minha comissão de serviço à frente do Centro. Lançámos vários projectos. E foram organizados em várias esferas, que correspondem, no fundo, aos vários pilares desta casa, que é uma casa com características muito especiais, porque reúne no mesmo espaço um museu, uma biblioteca, um centro de investigação, um centro de formação, uma casa editorial e um espaço para eventos, que podem ser exposições, palestras, saraus literários e musicais, lançamento de livros. Acaba por haver uma grande variedade de iniciativas organizadas nos últimos anos e penso que isso é visível junto do público que nos segue, que é muito diversificado. Temos público especializado da área académica para eventos mais centrados nessa área, como simpósios e conferências internacionais, mas também um público infantil — temos organizado muitos eventos para crianças — e até um público sénior, porque temos colaboração regular com uma universidade sénior em Lisboa. Temos também pessoas da área da museologia, pessoas da área da biblioteca e arquivos e, claro, os próprios investigadores.

Quando assumiu a liderança do CCCM, lançou um plano estratégico, de 2020 a 2030, onde identificava várias dificuldades. Mantêm-se? Como conseguiu contorná-las?

Foi um plano muito ambicioso, que identificou as limitações existentes ao nível de recursos humanos, recursos financeiros, problemas pendentes que estavam por resolver na instituição, mas eu penso que, tendo em conta que muitas dessas limitações de recursos humanos e financeiros se têm mantido, ultrapassámos muito daquilo que era expectável que se conseguisse fazer com estes recursos e isso foi, sobretudo, devido à boa vontade da equipa, que tem feito muito para além daquilo que é a sua obrigação. Isso foi feito também graças ao mecenato. Gostaria de referir que a Fundação Jorge Álvares tem sido tradicionalmente (e continua a ser) o nosso principal mecenas e ajudou a desbloquear muitas questões que não estão tradicionalmente na área do mecenato, permitindo-nos inaugurar, por exemplo, as novas instalações da biblioteca — aliás, precisamente por isso, ficou a designar-se Biblioteca Fundação Jorge Álvares do Centro Científico e Cultural de Macau. Quero destacar também a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), que nos ofereceu um programa muitíssimo ambicioso, permitindo-nos tornar a instituição em Portugal que fomenta investigação sobre a Ásia — ao atribuir anualmente 10 bolsas de doutoramento a teses que se dediquem à Ásia, isso fez com que alunos que de outra forma escolheriam outros temas ou não avançariam para uma carreira de investigação, vissem essa possibilidade concretizar-se, e isso dinamizou muito os estudos sobre a Ásia em geral, mas em particular sobre a China, incluindo Macau. Isso trouxe também um grande dinamismo à casa, porque nós temos, neste momento, 40 doutorandos [com bolsa da FCT] a trabalhar connosco — obviamente isso também disfarça a falta de recursos humanos nessa área da investigação em muitas actividades até ligadas à área académica e outro tipo de eventos.

Que parcerias em Macau têm tido, para ajudar a levar adiante os projectos do CCCM?

Há mecenas em Macau que têm sido também determinantes para a vida deste Centro, nomeadamente a Universidade de Macau, com quem temos uma colaboração muito antiga, mais visível nas edições conjuntas. Nós criámos nestes últimos anos colecções em quatro áreas distintas, portanto, a nossa casa editorial que tradicionalmente sempre acolheu investigadores renomados e com grande destaque, começou a acolher também jovens investigadores, publicando trabalhos que tiveram origem em teses de doutoramento ou dissertações de mestrado de excelência e que organizámos em quatro colecções: história, fontes históricas, estudos contemporâneos, língua e cultura, com o apoio sobretudo da Universidade de Macau. Temos mantido também a colaboração com a Fundação Macau na área das edições e estamos agora com um projecto de publicar todas as teses de doutoramento transformadas em livro, com bolsas da Fundação Macau, passando pelo conselho editorial e pelo processo de revisão por pares, que é apanágio do Centro. Estamos a planear um projecto, com a Universidade de São José, que terá mais visibilidade a médio-longo prazo, mas que me parece que vai ter grande impacto, funcionando como incubadora de projectos na área académica, mas também científica e empresarial, e até na área das indústrias criativas aqui no Centro, ajudando-nos a dinamizar este que é o campus de Macau em Lisboa. Além disso, cá em Portugal, com a Fundação Casa de Macau e com a Casa de Macau temos dinamizado imensas iniciativas e têm-nos apoiado no Centro, em diversas situações. A Embaixada da China tem sido um parceiro importante na organização de eventos mais vocacionados para iniciativas da cultura chinesa ou aspectos relevantes da cultura chinesa. O Dia Internacional da Língua Chinesa, que é a 20 de Abril, nunca se tinha organizado em Portugal e começou a ser organizado aqui pelo Centro e para o ano será a quarta edição. Gostava também de referir o Instituto Internacional de Macau, que tem tido aqui um papel também muito importante na dinamização dos eventos, mas também de colaboração estreita até fisicamente no espaço do Centro. Queria referir também o Instituto de Estudos Europeus de Macau, que nos envia regularmente estagiários de altíssima qualidade e que, a par dos muitos doutorandos que temos, nos tem ajudado a dinamizar a instituição, que tem poucos funcionários, mas muitos investigadores a gravitar à volta da casa. Também temos um programa de voluntariado muitíssimo atraente. Não é fácil encontrar em Portugal um sítio com tanta ligação à Ásia onde as pessoas possam de facto fazer um trabalho importante ou que lhes interesse. Com o Instituto Cultural também temos tido frutuosas colaborações — talvez a mais visível tenha sido a inauguração de uma exposição de aguarelas com imagens de Macau, pertencentes ao Museu de Arte de Macau, cuja inauguração coincidiu com a vinda do Ho Iat Seng a Lisboa, em Abril do ano passado. Temos colaboração também, sob o chapéu do Instituto Cultural, com o Arquivo de Macau. Não devemos esquecer que o arquivo aqui do CCCM é o mais rico em Portugal com documentação sobre Macau, e temos procurado também mostrar a riqueza que aqui temos através até de exposições virtuais com a documentação e até com fotografias que temos no nosso espólio documental. Colaborámos também na organização de uma exposição sobre o grande tufão de Macau, que vai ser inaugurada na Universidade de São José, no dia 23 de Setembro.

É assim que se pretendem posicionar: um campus de Macau em Lisboa?

Temos tentado posicionar-nos como um espaço em Lisboa e até em Portugal, onde se juntam as instituições ligadas a Macau e as pessoas com interesse em Macau.

Um dos vossos obstáculos é o tamanho da equipa, que era reduzida e continua reduzida. Como tem conseguido contornar esta dificuldade?

Houve alterações da equipa, com a saída de algumas pessoas, até por reforma, e entrada de outras, mas o número continua igualmente reduzido. A única forma que encontrei para de alguma forma ultrapassar esta questão ou pelo menos conseguir que a casa tivesse dinamismo, não obstante essa grande limitação, foi recorrer à colaboração de pessoas que nos procuram, que estão próximas de nós, mas que não são funcionários da casa, como é o caso dos 40 doutorandos, que têm bolsa do CCCM e que, com todo o gosto, se empenham nas actividades que para eles são mais interessantes. É o caso também dos estagiários — em média, recebemos 10 estagiários por ano de instituições portuguesas e também de Macau, ligados a Macau ou que trabalham sobre a Ásia — ou até chineses que vêm cá aprender português, assim como os voluntários que demonstram interesse em trabalhar aqui na casa, apesar de não receberem qualquer ordenado. A par disto, a criação do portal académico, a criação das Conferências da Primavera, e esse trabalho em rede com vários investigadores portugueses que trabalham sobre a Ásia e que sentem esta casa como sua, isso tem-nos permitido fazer muita coisa, que era impossível fazer, se estivéssemos só a contar com a única investigadora que temos no quadro. Contamos ainda com investigadores estrangeiros que tinham já ligação a investigadores portugueses, que estão ligados ao Centro, que arranjam financiamento para poder participar nas nossas actividades. O terceiro factor é a flexibilidade da equipa.

Tem havido um fôlego enorme e um dinamismo que não se via antes, no CCCM, em Lisboa. O que é que mudou?

O que contribuiu para a mudança foi sobretudo a perspectiva do mecenato e parcerias, em relação ao Centro. O facto de a Fundação para a Ciência e Tecnologia nos permitir ter, nos últimos quatro anos, 40 bolseiros aqui a trabalhar e envolvidos nas actividades diárias e a propor iniciativas. Esses investigadores vêm das mais variadas áreas, não só do ponto de vista da nacionalidade, porque, para além de portugueses, temos chineses, japoneses, vietnamitas, espanhóis, italianos e brasileiros. Há uma variedade de nacionalidades e de interesses por áreas geográficas. É verdade que há uma grande percentagem que se concentra na China, mas há outros que trabalham sobre o Japão, Timor, Coreia, Nepal, várias áreas geográficas, mas também de diferentes áreas disciplinares — história, incluindo história de arte, relações internacionais, linguística, música, economia e gestão, portanto, esta interdisciplinaridade cria não só entre eles um ambiente de trabalho muito rico, como nos traz a possibilidade de organizar na instituição coisas que dantes não se faziam, porque não havia um público tão jovem e com ideias até para a própria dinamização da informação nas redes sociais, que é gerada pelos próprios doutorandos da casa. Uma coisa que temos tentado fazer é iniciativas que juntem seniores e juniores na academia — por exemplo, a primeira coisa foi identificá-los e essa foi uma das tarefas a que me dediquei ainda durante a pandemia, com a ajuda do resto da equipa e com os investigadores que conhecia. Quis criar uma rede e tornar essa rede visível. Criámos no sítio do CCCM o portal académico, que é de livre acesso e onde se consegue visualizar quem é quem nos estudos asiáticos em Portugal e até onde estão os portugueses que trabalham sobre a Ásia fora de portas, nomeadamente em Macau, onde estão os seniores, mas também onde estão estes jovens investigadores. Isto para eles tem um peso, uma importância grande e ajuda a clarificar, a fazer este mapeamento do que se passa na investigação sobre a Ásia a nível nacional.

Qual é a principal conclusão que retira desse mapeamento de quem é quem nos Estudos Asiáticos em Portugal?

Para nós, foi uma surpresa enorme perceber que há muito mais gente do que aquilo que se pensava a trabalhar em Estudos Asiáticos em Portugal. Diz-se muitas vezes que em Portugal os Estudos Asiáticos não estão muito desenvolvidos, porque não há realmente uma instituição que, como há tradição noutras escolas europeias, como é o caso da França, Inglaterra ou da Alemanha ou da Itália, onde as escolas estão organizadas em departamentos fortes sobre a Ásia. Isso aqui não acontece, mas as pessoas estão dispersas por áreas disciplinares que, muitas vezes, nada têm a ver com a Ásia, mas trabalham sobre a Ásia, e juntam-se aqui uma vez por ano nas Conferências da Primavera, que ocorrem em Março, todos os anos. As Conferências da Primavera começaram em plena pandemia — primeiro com um workshop online em que juntámos grupos de trabalho nas áreas da Ásia que tinham mais pessoas, como seja a China, Macau, mas também outras geografias asiáticas, como por exemplo o Japão. Dessa organização online durante a pandemia, surgiram as Conferências da Primavera e já estamos a organizar a quarta edição para Março de 2025.

Com limitações no que toca aos recursos financeiros, que fontes de financiamento novas têm surgido?

Um aspecto que contribuiu muito aqui para a dinamização destes últimos anos do Centro foi logo na altura da pandemia termo-nos concentrado a preparar a candidatura a financiamento do Horizonte Europa, em que o CCCM ficou a liderar um grupo de trabalho de um consórcio com universidades e think-tanks de topo da área de Estudos Asiáticos em toda a Europa e ganhámos essa candidatura. A partir desse momento temos estado a trabalhar nesse projecto, que se chama Reconnect China, que se foca sobretudo na área da diplomacia económica da Europa e da China, que se costuma até chamar um bocadinho a diplomacia de bastidores — quando as relações políticas estão em fases mais sensíveis, o trabalho dos académicos é particularmente interessante para manter estas pontes entre ambos os lados. Este projecto está no seu segundo ano e é até 2026.

Com o lançamento do portal académico e a organização das Conferências da Primavera, que acabam por juntar investigadores espalhados pelos diferentes países, e todas as vossas outras iniciativas, já se vêem resultados desse intercâmbio?

Sem dúvida. O aspecto mais visível para o público em geral são as publicações que resultam das Conferências da Primavera. O CCCM tem editado livros que resultam dessas conferências, das comunicações apresentadas, que depois são compiladas em capítulos de um livro, mas também tem promovido a edição de números especiais, de números temáticos em revistas nacionais e internacionais indexadas. E também procurámos que estas comunicações resultassem não apenas em publicações de cariz mais científico, mas também de leitura mais fácil para o público em geral, daí que tenhamos colaborado com alguns jornais. O que notamos muito é que, à margem das conferências, alguns investigadores foram-nos pedindo salas e espaços para se poderem reunir entre eles, aproveitando a deslocação a Lisboa de pessoas que não residem aqui, e acabaram por surgir algumas ideias de desenvolvimento de projectos. Uma coisa que nós notamos é que, à medida que os anos vão passando e que as edições das Conferências da Primavera vão avançando, os investigadores estrangeiros vêm presencialmente, porque nós temos continuado a dar a possibilidade de os portugueses que estão fora participarem por zoom, mas os estrangeiros têm de vir presencialmente.

 

O CCCM serve de instituição de acolhimento para um número impressionante de bolseiros. Como escolhem esses bolseiros?

A escolha é feita com base na meritocracia. Há um júri interno e externo, o júri tem elementos internos e externos ao CCCM, o critério é a análise do projecto de tese, do mérito do projecto de tese e a forma como o candidato o consegue apresentar na entrevista. Há critérios como na atribuição de qualquer bolsa da FCT, que têm em conta o percurso académico do candidato, a sua experiência profissional e tudo isso, mas, para além disso, o CCCM reserva-se o direito de estabelecer tópicos que são prioritários aqui para a casa, nomeadamente trabalhar em áreas de interesse para o museu, para a biblioteca, para o centro de documentação, para o próprio centro de formação.

Um dos objectivos também que apontou, quando assumiu a liderança do CCCM, era a criação de um Observatório para o Mundo Lusófono. Isso já está a acontecer?

Nós fazemos parte de uma série de iniciativas que promovem esta ligação entre a China e os países de língua portuguesa — por exemplo, somos uma das 20 instituições de língua portuguesa que integram a Aliança Bibliotecária Académica entre a RAEM e os países de língua portuguesa. É uma aliança que foi muito dinamizada pela Universidade de Macau, em particular pelo vice-reitor Rui Martins e da qual o CCCM faz parte. Para além disso, somos membros de uma rede lusófona de universidades brasileiras e dos países africanos de expressão portuguesa, a Associação Internacional de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa, e o CCCM dinamizou a criação de painéis que ligassem o estudo dos países de língua portuguesa à China, organizando uma série de conferências específicas. A ideia aqui no Centro tem sido promover, até junto dos jovens doutorandos, o estudo das relações entre a China e os países de língua portuguesa, porque nós em Lisboa temos um papel privilegiado para concentrar de alguma forma investigadores de países africanos e brasileiros neste estudo, e é isso que temos procurado fazer. Nunca formalizámos institucionalmente a criação de uma casa chamada Observatório, mas esse trabalho tem sido feito.

A curto/médio prazo, quais são os principais objetivos do CCCM?

Vamos ter um grande evento a 19 de Dezembro, que estamos a organizar em conjunto com a Fundação Jorge Álvares, que é o nosso principal mecenas, e que vai incluir uma série de actividades que vão ser do maior interesse, a propósito dos 25 anos da transferência e da criação do CCCM em Lisboa, que teve lugar em finais de 1999. Outro dos grandes objectivos que temos para 2025 é conseguir concretizar mais iniciativas e mais projectos com instituições de Macau — é com esse objectivo que vou estar em Macau uns dias em Dezembro. Vou a Macau, a convite da Universidade de Macau e também da Universidade de São José, para participar numa conferência que terá lugar no início de Dezembro e ficarei mais uns dias, também com o apoio da Universidade de São José, que me vai permitir reunir com instituições-chave para desenvolver determinados projectos ou possíveis projectos que se revelem iniciativas interessantes ao longo de 2025. A ideia era conseguirmos que as instituições de Macau continuassem a olhar para o CCCM como o local por excelência em Portugal onde podem organizar eventos. Luciana Leitão – Portugal in “Ponto Final”


terça-feira, 23 de abril de 2024

Ásia - Ensino de português na China pode ser exemplo para a Índia

O delegado da Fundação Oriente (FO) em Goa defende que a estratégia de ensino do português adoptada pela China, onde a aprendizagem da língua tem crescido nos últimos anos, pode servir de exemplo para a Índia


“Eu dou sempre esse exemplo da China (…), [onde] olham para o português como uma grande oportunidade, principalmente na área do negócio. Não só para Portugal, porque nós somos um território muito pequeno, mas para os PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] essencialmente, pelas oportunidades de negócio que existem”, disse em declarações à Lusa Paulo Gomes, mencionando ainda "naturalmente o Brasil".

A China (excluindo Macau), onde o ensino universitário do português arrancou nos anos 1960, conta com pelo menos 30 licenciaturas em língua portuguesa e 50 instituições de educação superior com programas de ensino de português.

Já na Índia, cursos de língua portuguesa ao nível da educação superior são oferecidos apenas na Universidade de Goa, confirmou à Lusa o responsável pelo Camões – Centro de Língua Portuguesa em Goa, Delfim Correia da Silva.

"É preciso fazer muito mais", alertou Paulo Gomes, referindo que, sendo o português uma das línguas "mais faladas do mundo", quem a domina "tem uma vantagem competitiva".

"Porque os indianos têm uma particularidade, os goeses, em particular pela história, são poliglotas por natureza. A Índia tem 28 línguas oficiais, mais de 400 dialetos", reforçou.

Mas além do aspeto comercial, o responsável alertou para outras "áreas de oportunidade", nomeadamente ao nível da formação académica.

"Nas universidades, quer em Portugal, quer no Brasil, há uma grande procura, principalmente pelos jovens goeses. O domínio do português a este nível é, sem sombra de dúvida, uma excelente oportunidade", considerou.

Paulo Gomes referiu ainda que, em Goa, existe "documentação antiga em português que carece de traduções" e fluentes na língua podem contribuir neste trabalho.

A Fundação Oriente, em Goa há cerca de três décadas, tem também apoiado a promoção do português, mas ao nível do ensino secundário, sendo esta "uma das rubricas que consome maior investimento" da instituição.

É responsável pelo pagamento dos honorários de todos os professores goeses que ensinam português nas escolas secundárias públicas de Goa - um total de 22 docentes a trabalhar em cerca de 20 estabelecimentos e responsáveis por 1123 alunos.

Um aumento do número de estudantes em comparação com o ano passado (cerca de 800), lembrou Paulo Gomes, indicando que, depois de uma queda durante a pandemia da covid-19, registou-se uma subida, resultado de um trabalho de proximidade da FO com os professores e alunos e a realização de atividades que acabam por atrair interessados.

A Fundação Oriente nasceu em 18 de março de 1988 como uma das contrapartidas impostas pela então administração portuguesa em Macau à concessão em regime de exclusividade da exploração do jogo no território.

Desenvolve ações culturais, educativas, artísticas, científicas, sociais e filantrópicas, com vista à valorização e à continuidade das relações históricas e culturais entre Portugal e o Oriente.

Depois da abertura da delegação da FO em Macau, em 1988, seguiu-se Goa, em 1995, e Timor-Leste, em 2002. In “MadreMedia” – Portugal com “Lusa”

quinta-feira, 28 de março de 2024

Malásia - É um dos homens mais influentes da Ásia e tem nome português

Anthony Francis Fernandes, empresário de 60 anos, é malaio, o seu pai de Goa, a sua mãe indo-asiático-portuguesa (do povo Kristang) e, tal como muitos dos seus conterrâneos, carrega no nome o peso da herança que Portugal deixou na Ásia. Neste momento é dono de um dos grupos mais influentes daquele continente que detém, por exemplo, uma das maiores companhias aéreas low-cost do mundo

Em 2001, Anthony Francis Fernandes – também conhecido por Tony Fernandes – fundou a Tune Aire, empresa ligada ao setor da aviação que, mais tarde, adquiriu a Air Asia e a transformou numa das mais prósperas companhias aéreas do continente asiático.

Mais tarde criou o Tune Group, consórcio com tentáculos nos setores de hotelaria, telecomunicações, serviços financeiros, desporto, indústria criativa e linhas aéreas.

Além disto, o milionário foi também acionista maioritário dos Queens Park Rangers, em Inglaterra, e entre 2010 e 2014 liderou a Team Lotus, equipa de Fórmula 1 que depois alterou o nome para Caterham F1 Team.

A nível académico, Fernandes estudou na The Alice Smith School, em Kuala Lumpur e entre 1976 e 1983 foi aluno do Epsom College, no Reino Unido, de onde saiu para a London School of Economics e se graduou em Contabilidade. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


sexta-feira, 22 de março de 2024

Portugal - Tecnológica de Coimbra quer conquistar mercado em Singapura

A Stratio, empresa sediada em Coimbra que assegura manutenção preditiva com recurso a inteligência artificial, está a colaborar com o maior operador de autocarros em Singapura e espera agora crescer no mercado asiático


A empresa, criada em 2017 e com sede no Instituto Pedro Nunes (IPN), em Coimbra, desenvolve tecnologia de manutenção preditiva a partir de modelos de inteligência artificial (IA), permitindo aos operadores de transportes coletivos de passageiros prever falhas antes que estas ocorram e, dessa forma, evitar interrupções de serviço.

Depois de ter estabelecido parcerias com as gigantes europeias Keolis, Arriva e Rapp, a Stratio iniciou recentemente a sua operação em Singapura, com uma colaboração com a empresa SBS Transit, operador que lidera o mercado daquele país do sudeste asiático, envolvendo mais de 3000 autocarros que vão passar a contar com a tecnologia desenvolvida pela empresa de Coimbra, foi anunciado, em nota de imprensa.

“Com Singapura, temos possibilidades interessantes. Temos os pés na terra, mas há um mercado grande”, disse à agência Lusa o presidente e cofundador da empresa, Rui Sales.

Segundo o responsável, o projeto de Singapura torna-se bastante relevante para a empresa por a SBS Transit ser “muito exigente”.

“Foi há dois anos que iniciámos com mil veículos. Com os resultados que tivemos, conseguimos expandir agora para toda a frota de 3000 veículos”, salientou.

De acordo com Rui Sales, Singapura, no que toca a transportes públicos coletivos, define “um pouco o estado da arte para o resto da Ásia”, considerando que a entrada naquele país poderá abrir portas para outras zonas, como Hong Kong ou Indonésia e outros países da região.

Para além de querer continuar a reforçar a sua presença na Europa, a empresa pretende expandir-se agora para a Ásia, assumiu.

As perspetivas para o curto prazo passam por continuar a ter “um crescimento rápido” e continuar a investir “em investigação e desenvolvimento”, afirmou Rui Sales.

Em 2021, a empresa fez uma ronda de investimento, tendo angariado 12 milhões de dólares, valor investido quase na totalidade em investigação e desenvolvimento.

Com mais de 50 pessoas e pouco investimento em marketing ou vendas, o crescimento tem acontecido de forma “natural”.

“Nós começámos com algo que ninguém oferecia e conseguimos logo dar retorno de investimento”, sublinhou, recordando que a manutenção preditiva, no caso de Singapura, diminuiu em 20% o tempo de veículos parados e, ao reparar a falha de forma precoce, permitiu reduzir custos na manutenção das frotas de autocarros.

A empresa regista mais de 85% da faturação de exportações e a sua tecnologia já está implementada na ordem das “dezenas de milhares” de autocarros, referiu.

Para além do trabalho com operadores de transportes públicos, a Stratio tem também já parcerias com construtores, nomeadamente de transporte de mercadorias.

No entanto, o foco da empresa continuará a ser no transporte público coletivo.

“No transporte de passageiros, há empresas com mil veículos agregados. É mais rápido prestar um serviço de excelência. Já o transporte de logística é caracterizado por pequenas empresas, mas estamos a pensar em trabalhar com distribuidores, porque aí permite agregar um grande número de veículos”, aclarou.

A Stratio instala dezenas a centenas de sensores em cada um dos veículos, conseguindo digitalizar “o veículo que está na estrada”, recolher uma grande quantidade de dados, lê-los e, através de modelos inteligência artificial, antecipar problemas e falhas que poderão acontecer em “dias, horas ou até semanas”.

“Isso muda a forma de manutenção dos veículos”, sublinhou.

Segundo Rui Sales, a empresa poderia avançar, neste momento, com mais uma ronda de investimento, mas não há esse interesse.

“Neste momento, queremos crescer com os nossos clientes”, sublinhou, referindo que a perspetiva é passar a ter um resultado operacional positivo a curto prazo. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo