Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Editora. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Editora. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de abril de 2026

França – Extrema-direita quer controlar Edições Grasset

Hoje, quando qualquer um pode editar, publicar e vender seu livro pela Amazon, alguém pode perguntar se as editoras são ainda importantes. Sim, são importantes porque sem elas, sem a seleção dos originais, sem a impressão desses originais para serem vendidos nas livrarias, muitos autores de valor ficariam desconhecidos.

Por coincidência, relembra-se nesta semana (23 de abril) a morte de dois monumentos da literatura mundial, há 410 anos, William Shakespeare e Miguel Cervantes. Ambos se tornaram lidos e conhecidos por terem seus originais publicados depois da criação da imprensa por Gutenberg.

Os primeiros livros impressos, surgidos na segunda metade do século XV, marcaram o fim do monopólio da cópia manual de livros em pergaminhos feita nos mosteiros, pela qual a Igreja controlava a escassa produção de livros.

O surgimento das primeiras gráficas de Gutenberg, de custo bem mais barato, permitiu a produção em série de livros, tornou a Bíblia acessível a todos, criando a livre interpretação de seus textos e provocando uma fratura no cristianismo com a Reforma de Lutero. Ao mesmo tempo, abriu caminho para a literatura com o surgimento da indústria editorial e permitiu a livre expressão das ideias.

Mas, logo depois, como contrapeso, surgiram a censura e a proibição da leitura dos livros proibidos. Resumindo, a edição de livros abriu o caminho para a modernidade e foi o germe das revoluções sociais com o acesso facilitado ao mundo das ideias. Outras invenções vieram e depois do livro se chegou aos jornais, ao rádio, à tevê e agora à internet com suas redes sociais e à expansão das mídias.

E chegamos aqui ao tema desta semana - quem detém a produção de livros, pode controlar o pensamento dos intelectuais e do público melhor informado, assim como a TV e as redes sociais podem controlar o pensamento e o comportamento do povo, bem como dirigir suas opções políticas.

Toda imprensa francesa tem noticiado com destaque, nestes dias, a decisão de mais de 300 autores de romperem com a Editora Grasset, pela qual seus livros são editados. Grasset vinha sendo desde 1907, ano de sua criação, uma prestigiosa editora de literatura francesa e estrangeira, ensaios, romances, ciências humanas, etc.

Agora, importantes jornais franceses prevêem mesmo o risco de Grasset fechar pela recusa dos bons autores a ela entregarem seus originais para publicação. Nem sempre autores militantes de extrema-direita têm o talento de Louis-Ferdinand Céline, notório militante pró-nazistas durante a Ocupação francesa. Isso limita o acesso da editora aos bons e inovadores originais.

Até agora, o prestígio da Grasset provinha de sua independência na seleção e publicação de bons originais, sem procurar favorecer este ou aquele conteúdo político. 

O responsável pela crise é o milionário Vincent Bolloré, proprietário de Editions Grasset, mas igualmente do Canal+, Europe1, CNews, Le Journal du Dimanche, hoje transformados em órgãos de propaganda política.

Diante da proximidade das eleições francesas, com o fim do mandato de Emmanuel Macron, o milionário Bolloré deseja utilizar a penetração do seu aparelho mediático para a eleição do candidato Jordan Bardella, da extrema-direita francesa, Rassemblement National, caso a atual presidenta do partido seja declarada inelegível em julho, pela Justiça francesa.

Sua intervenção na Grasset, da qual é proprietário, consistiu em demitir Olivier Nora, o respeitado responsável pela seleção dos originais e pela publicação dos livros Grasset há 26 anos.

Antes de demitir Olivier Nora para intervir na seleção de autores e originais da Grasset, Vincent Bolloré já havia provocado a mobilização dos estudantes de jornalismo ao liderar um grupo de investidores na compra da Escola Superior de Jornalismo de Paris. Rui Martins – Suíça

__________

Rui Martins - Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

domingo, 10 de setembro de 2023

Cem anos de Natália Correia: a criação literária e a intervenção política de uma mulher única

A expressão de Natália Correia (1923-1993) constituiu sempre um espetáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo. Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria. No centenário de seu nascimento, que se assinala na próxima quarta-feira, recordamo-la. (Texto publicado originalmente na revista do Expresso nº 2654, vol. 2, Lisboa, edição de 9 de Setembro, 2023)


Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O país mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da Igreja Católica — ferida pelas leis da República — e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários sectores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. “Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias — recordou Natália — quis preparar-nos.” Entendia que “o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social”. “A permanência em São Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver.” (...) era “um meio muito exíguo.” Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que “não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar”. A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de “ave migratória”. O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

Primeiras asas

Natália tornou-se, aos 22 anos — no esplendor da juventude —, uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase — dos anos 40 aos anos 50 — conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou no Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do “Portugal Futurista” e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da “Gazeta dos Caminhos de Ferro” e da revista “Viagem”; e o padre Diniz da Luz (1915-1988), antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal “A Voz”, um dos diários monárquicos, católicos, ultraconservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, e introduzir , depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário “Portugal Madeira e Açores”, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas “ilhas adjacentes”. Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do “Correio dos Açores”, o memorialista do livro “A Paz Cinzenta” (1979).

Colaborou, depois, no semanário “O Sol”, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949), antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação de “O Sol” era assegurada por Alves Morgado (1901-1980), um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos.

Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer, que deram visibilidade mediática a “O Sol”. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.


O veneno da política

Herdou também da mãe — opositora declarada do salazarismo — o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente, a Ponte de Lima, para entrevistar o general, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao “Diário Ilustrado”. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio “Santa Maria”, comandado por Henrique Galvão, para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcello Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados “católicos progressistas”.

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, Natália Correia criou as “Cantigas de Risadilha”, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: “Já não sei se é país se é orfanato/ pois nem vela, nem reza, nem sabá/impede que em berreiro ou desacato/ ande tudo à procura do Papá”. (...) “Tinha o PS pai. Mas o Marocas/ mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas,/ já não consegue ser o pai inteiro”. (...) “nesta lusa farronca sem vintém,/ neste muda que muda sem mudança,/ venha o que venha, há de lixar-se quem/ do salsifré tiver a governança”.

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: “muito a preceito dos cristãos fervores/ do CDS, o Lucas é o retrato/ De um menino Jesus entre os doutores/ A meter mestre Freitas num sapato”. Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o “picareta falante”: “o Marcelo neste mapa/ a brincar aos cowboys não há nenhum./ passa rasteira: o mais subtil derrapa;/ dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.” Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro, ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS João Morgado, por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que “o ato sexual é para fazer filhos”. Natália não se conteve e escreveu, de jato, um poema que circulou, em todo o país, até porque sairia, no dia seguinte, no “Diário de Lisboa”: “Já que o coito — diz Morgado — /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/ fazer menina ou menino;/ e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca,/ temos na procriação/ prova de que houve truca-truca./ Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/ de que o viril instrumento/ só usou — parca ração! — / uma vez. E se a função/ faz o órgão — diz o ditado —/ consumada essa exceção,/ ficou capado o Morgado!”

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS — à frente do qual estava Jorge Sampaio — aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo, entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O percurso literário

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: “Se pus ‘Anoiteceu no Bairro’ (romance da sua autoria, de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.” Era da opinião que, entre nós, “se fizera neorrealismo de empréstimo, de segunda mão” (...) “não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo”(...) “Houve o medo” — concluiu — “de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório”. Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: “Não podemos competir — insistiu — com os mestres do neorrealismo americano e europeu, que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra.”

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão-Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: “Dimensão Encontrada” (1957), “Passaporte” (1958), “Comunicação” (1959) e, mesmo, “O Canto do País Emerso” (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: “Se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro.”

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos, verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e subtis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

O último salão de Lisboa

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da Rua Rodrigues Sampaio, entre a Rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim. O lendário diretor do “Diário de Notícias” Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o “último salão literário de Lisboa” fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX, a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava-se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu receções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal “República”); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance “O Quinto Império”; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

Visceralmente açoriana

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoriana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume-se nestes versos: “Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./Recém-vinda de ficada/ em morosa maravilha,/ sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha”.

Num dos seus livros mais emblemáticos, “Não Percas a Rosa”, encontramos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: “Cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias.” Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria ilha.

O Botequim

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão — o seu palco doméstico — para receções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no Largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um bar restaurante que lhe permitiu um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espetáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente, O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na Rua do Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contrarrevolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o país. Desencadeara no consulado de Salazar e na “primavera marcelista” duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica” (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das “Novas Cartas Portuguesas” (1972), da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta “O Botequim da Liberdade” (Lisboa, 2013). Na “Fotobiografia de Natália Correia”, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins “O Dever de Deslumbrar” (2024). Um facto, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália, o Botequim ficou morto e enterrado.

Ela e só ela

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o título genérico “O Sol das Noites e o Luar dos Dias” (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: “O retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e, livre, resiste, se transforma e transforma.”

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no repertório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: “Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte./ Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai-se a cópia sideral/ e isso não é estar morto.”

As comemorações centenárias — a realizar de 2023 a 2024 — em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez, demonstrar que está viva.

Recuperado o espólio de Natália Correia

O património familiar de Natália resumia-se aos bens de um tio, irmão do pai, o padre Francisco Oliveira Correia, muitos anos pároco da freguesia da Achadinha, na costa norte da ilha de São Miguel. Acumulou bens patrimoniais e depósitos bancários. Era extremamente conservador. Como poderia aceitar a separação da mãe do pai, a rebeldia literária e política de Natália e, ainda por cima, três casamentos civis consecutivos? — com Dias Ferreira, em 1949; com William Hylen, e com Alfredo Machado, um homem muito mais velho (e a partir de 17 de março de 1990 viria ainda a casar com um amigo íntimo de longos anos, o poeta e realizador Dórdio Guimarães). O resultado foi óbvio. O advogado José de Medeiros Tavares (1899-1986), da Ribeira Grande, a meu pedido, sem levar quaisquer honorários, consultou as possíveis disposições testamentárias. Obviamente, Natália e a irmã ficaram sem hipótese de se habilitar aos bens móveis e imóveis. No início do livro “Não Percas a Rosa” (1978), Natália aludiu ao tio com o maior desdém.

Pertenciam ao colecionador Manuel Cardoso Martha — a quem Natália, na casa da Rodrigues Sampaio deu acolhimento no final da vida — a biblioteca, os quadros, óleos, guaches, desenhos, esculturas e objetos raros de arte decorativa. Era amigo de sua mãe e também o professor de Natália que, durante anos, contribuiu para que ficasse com uma sólida cultura intelectual. Apurou-lhe os conhecimentos de língua portuguesa. Desenvolveu-lhe os rudimentos de francês e inglês, que passou a falar e a escrever corretamente.

O viúvo de Natália, o poeta e realizador Dórdio Guimarães, viria a ser o herdeiro natural de todos os bens de Natália que eram de Cardoso Martha. Após a morte de Dórdio Guimarães, que fizera 16 testamentos, Luís Fagundes Duarte, na altura diretor regional da Cultura, decidiu avaliar a importância da biblioteca. Como solução de emergência mandou fotografar cada uma das prateleiras das numerosas estantes. Incumbiu o advogado Álvaro Monjardino de clarificar este processo. Por tudo isto o espólio distribuiu-se por São Miguel, para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; pela Biblioteca Nacional de Lisboa e pela Sociedade Portuguesa de Autores. Evitou-se o roubo e a dispersão. Manuel Cardoso Martha (1882-1958) figueirense dos quatro costados, lecionava em Lisboa na Escola Fonseca Benevides. Antigo seminarista, com profundo conhecimento das humanidades clássicas da literatura portuguesa e das várias literaturas europeias, Cardoso Martha era um notável erudito, bibliógrafo, bibliófilo, colecionador de manuscritos e de livros raros e antigos.

Entre numerosos manuscritos encontrou-se uma coleção de poesias — cuja capa reproduzimos — com o título “O Purgatório dos Poetas: Poesias Eróticas d’Alguns Escritores Portugueses dos Séculos XV a XIX / Coligidas por Cardoso Martha — 1935”. Revista e acrescentada com autores contemporâneos, viria a constituir a polémia “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia e editada por Fernando Ribeiro de Melo. A herança de Cardoso Martha — que organizou em 1912 e 1913 no Grémio Literário o I e II Salão dos Humoristas — possuía desenhos, aguarelas e guaches de Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Christiano Cruz, Jorge Barradas e outros participantes no primeiro modernismo.

O então presidente e vereadores da Câmara da Figueira da Foz fizeram diligências para que todo esse acervo literário e artístico ficasse depositado no Museu Santos Rocha, na altura a cargo de Vítor Guerra. Consultados os advogados Manuel João da Palma Carlos e Luís Francisco Rebello, amigos de Natália e do marido Alfredo Machado, apenas terão sido entregues à Figueira da Foz livros e opúsculos relacionados com a cidade e o seu concelho. Um tema ainda a investigar. António Valdemar – Portugal in “Blog de São João del-Rei”

António Valdemar - Jornalista e investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3.




quinta-feira, 2 de julho de 2020

Macau - Mandarina “desbrava” mercado da literatura infantil

Liderada por Catarina Mesquita, a “Mandarina books” lançou o terceiro livro infantil bilingue, reforçando a aposta num mercado que, apesar das “muitas possibilidades”, estava inexplorado em Macau. À Tribuna de Macau, a responsável da editora faz um balanço muito positivo do caminho “cimentado” desde o lançamento da primeira obra, em Setembro



Mandarina, segundo a tradição, é símbolo de felicidade e prosperidade, mas é também o nome da editora de livros infantis local. O nome rima com o da promotora da iniciativa, Catarina Mesquita, que à Tribuna de Macau resumiu um pouco da jornada que arrancou em Setembro com o lançamento da primeira obra da editora.

Quando chegou a Macau há cerca de sete anos, a madeirense já trazia uma experiência de cinco anos de trabalho numa editora infantil em Portugal.

“Em Macau, trabalhei enquanto jornalista e editora e percebi sempre que faltava alguma coisa. Mas, fui fazendo outras coisas por sobrevivência também, e fui-me envolvendo noutros projectos. Entretanto, tive um filho, e parei”, contou, ao confessar que foi nessa altura que surgiu a oportunidade de avançar com um projecto relacionado com os livros infantis.

Apesar de alguns “medos” e “períodos longos de dúvidas”, arriscou e, por conta própria, resolveu perseguir o sonho guardado na gaveta há, pelo menos, seis anos.

“Quis que a Mandarina books fosse um projecto pessoal. Por isso, nos primeiros livros não pedi nenhum subsídio e, nesta terra de apoios, isso é um risco”, afirmou, acrescentando que até agora entre “todos os cenários e mais alguns, tinha criado não sei quantos problemas e dramas que nunca surgiram”. “Tem tudo corrido de uma forma muito positiva”.

As obras infantis são todas bilingues e têm em comum Macau e as suas “particularidades”.

“Estou super entusiasmada e, às vezes, tenho um discurso um bocadinho ingénuo e muito apaixonado porque gosto muito do que estou a fazer”. Catarina Mesquita explicou que além dessa vontade, conta com a experiência profissional de saber, em termos práticos, o que exige a publicação de uma obra.

“Já estava a fazer isso em Macau, mas destinado a adultos. A Mandarina acaba por ser um reflexo da minha personalidade que é o espírito de comunidade. Acho que Macau é um sítio pequeno e de oportunidades se as pessoas tiverem os olhos e o coração abertos. Foi essa questão de pensar como posso juntar o que eu gosto, com o que sei e quero fazer no meu dia a dia”, explicou.

A autora lamenta que actualmente não seja possível viver da venda de livros em Macau, mas espera que isso se trate de uma fase.

“Queremos começar a fazer livros sem ser sobre Macau, para podermos abrir um bocadinho mais o horizonte. Nós somos de Macau e estamos no mundo, não são só as editoras dos outros sítios. É preciso mudar esta ideia, que parece que só produz para dentro e que é só a cidade dos casinos”.

“O desafio foi fazer livros 100% de Macau. Tudo é feito em Macau, com a excepção da impressão que é feita na China Continental porque os preços são muito mais competitivos”, disse ao explicar que os cinco profissionais da equipa estão, de alguma forma, ligados ao território, incluindo “um ilustrador de Macau, que vive no Brasil, a tradutora chinesa com hábitos portugueses, um escritor chinês que se considera de Macau”.

A editora lançou na semana passada a terceira obra intitulada “Na Rua”. “Atrevo-me a dizer que a ideia para este livro surgiu na minha primeira semana em Macau, quando andava nas ruas e pensava: ‘isto é o cenário perfeito para um livro infantil’”, recordou ao revelar que o título está relacionado com a actual situação pandémica.

“Estamos em Macau numa altura em quase nos esquecemos que o mundo inteiro está fechado e que nós podemos andar na rua. O livro serve para preservar a memória daquilo que são e vão voltar a ser as ruas de Macau”, mencionou, referindo-se às habituais multidões.

“Este livro veio cimentar a nossa posição. Nós precisávamos de um livro de histórias, mas também de algum reconhecimento por parte da comunidade”, afirmou.

“Tivemos um processo evolutivo desde o primeiro livro. [O “Little Explores of Macau”] não foi um livro muito profundo ao nível de conhecimentos, mas também não era só um livro de autocolantes. Todas as páginas têm um texto que explicam o património de Macau, que é acompanhado de uma actividade ou um jogo” que desenvolve várias áreas cognitivas, salientou.

“Depois lançámos o “Como se diz?”, porque achei que as línguas são muito importantes, até porque são uma realidade em Macau. Faltava-nos um livro de histórias”.

O turbilhão de ideias

Segundo Catarina Mesquita, a editora foi feita um pouco à sua imagem, por isso, não estabelece prazos para futuros projectos. “Sinto que é preciso fazer e quero fazer. Sou um turbilhão e tenho milhares de ideias a cada microssegundo e o projecto da Mandarina é pequenino. Somos uma equipa muito pequena, está muito centrado em mim. Tenho as ideias, algumas são antigas, e depois ganham forma. No fundo, é pôr em prática aquilo que me vai na cabeça. Só não ilustro. De resto, edito e escrevo, além de todas as questões práticas”, contou.

Apesar de todos os aspectos positivos, não deixou de notar algumas dificuldades que tem vindo a sentir neste projecto que conta já com três obras publicadas antes do primeiro ano. “Há um problema logístico em Macau. Além disso, também há os ‘óculos’ que nós pomos de que não há livrarias infantis em Macau, quando há imensas. Por isso, quando há um volume de negócio um bocadinho maior não há canais de distribuição organizados”, notou.

Catarina Mesquita referiu ainda alguns entraves por parte das escolas, particularmente de língua chinesa. Em questão estará a barreira linguística e alguma resistência em receber livros que não conhecem.

Sobre a editora, a autora refere que sente que está a “desbravar” um território por explorar em Macau. “As pessoas não têm muito a cultura de livros infantis. Os pais não ofereciam livros às crianças, até uma dada geração. O que acontece agora é que os pais são pessoas que viajam e que também querem usar os livros infantis para ensinar outras línguas às crianças”, destacou.

“As coisas estão a mudar, mas Macau é muito particular. Nem sequer podemos comparar com a China, porque em termos de livros infantis está a crescer brutalmente. Macau é muito particular em termos de tudo, até nesta questão”.

O sentido de pertença

Tendo como cenário Macau, Catarina Mesquita pretende que, através destas obras, os mais pequenos conheçam de forma mais aprofundada a cidade onde nasceram, despertando assim o sentido de pertença numa comunidade.

“Queria chegar às escolas para que as crianças pudessem manusear os livros e que depois cheguem a casa e digam ‘Mãe, aprendi isto sobre Macau porque li num livro’ e se for num livro da Mandarina, excelente”, disse, convicta de que os mais pequenos “não sabem nada sobre Macau”.

Por isso, “se cada criança de Macau tiver um livro eu dou-me por muito contente, não pelo número de exemplares, mas porque significa que chegamos a elas”.

Por agora, Catarina Mesquita está muito satisfeita com os resultados, apesar de não serem suficientes para a subsistência financeira da editora. “Quando eu digo que já atingi 1000 crianças em Macau, para o número de crianças não é tão significativo, mas para nós já é bastante, até porque conheci quase todas as pessoas que compraram os livros. Consegui entregá-los em mão. Isso também é das coisas mais importantes”, acrescentou. Sofia Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

domingo, 7 de junho de 2020

França - Editora francesa Heavenly Sweetness lança projeto que celebra a música de Cabo Verde e Guiné-Bissau



O projeto Bandé-Gamboa, que junta duas bandas intergeracionais da Guiné-Bissau e Cabo Verde, lança este mês o seu disco de estreia, à procura de conquistar jovens em África e no Ocidente, sem paternalismo nem filtros estéticos presos nos anos 70.

Com a chancela da editora francesa Heavenly Sweetness, o projeto criou dois grupos “all-star” – um de Cabo Verde, outro da Guiné-Bissau – com músicos novos e velhos que recriaram canções antigas, navegando na contracorrente da maioria dos trabalhos hoje feitos no Ocidente, com editoras fixadas na sonoridade dos anos 70 do continente africano, contou à Lusa o produtor do projeto Bandé-Gamboa, Francisco “Fininho” Sousa.

No livro que acompanha o álbum, o também DJ português explica que, após 20 anos de uma “procura obsessiva” por vinis e CD africanos, encontrou “três aspetos cruciais” nas edições contemporâneas e “revivalistas” da música de África: os discos raramente são comprados por africanos ou afrodescendentes; a dimensão da cultura africana fica reduzida a géneros como reggae, soul, funk ou rock psicadélico; e os compradores focam-se numa “determinada estética ‘old school’ que transformou uma fase musical arbitrária no padrão atual da música africana no Ocidente”.

Tendo isso em conta, quando Francisco Sousa foi abordado pelo responsável da Heavenly Sweetness, o produtor francês Guts, para fazer uma compilação, propôs-lhe fazer algo que fosse contra a norma: “um projeto que fosse um murro na mesa”.

Depois da luz verde da editora, decidiu avançar com a criação de duas bandas, uma de músicos cabo-verdianos e outra de músicos guineenses a viver em Lisboa, para recriarem canções antigas dos dois países, com objetivos distintos.

No caso da Guiné-Bissau, procurou fazer-se “versões frescas e contemporâneas” do gumbé, estilo pouco conhecido fora do país e que foi sendo gravado “por muitos artistas e com ideias bastantes diferentes do que ele deve ser”.

Já em Cabo Verde, decidiu testar-se a versatilidade do funaná e os seus limites, que não tem os problemas de identidade nem falta de reconhecimento internacional do gumbé.

Chegando ao estúdio, Francisco Sousa fez algo “que os produtores na Europa têm muita dificuldade em fazer: transferir muito mais o poder para os músicos e mudar de uma postura quase hierárquica para uma postura muito mais de observador”.

“Trabalhar num contexto pós-colonial, numa antiga capital de um império colonial, com a diáspora dos países que foram colonizados é complicado e obriga a ler para não trocar os pés pelas mãos. A mim, só me restou criar um ambiente convidativo para os músicos trazerem as suas ideias para estúdio e, depois, de uma forma suave, escolher ou direcionar”, contou à Lusa Francisco Sousa.

Apesar de reconhecer o serviço positivo que editoras ocidentais tiveram na redescoberta de música dos anos 60, 70 e 80, de África, Francisco Sousa realça que, por vezes, algumas dessas compilações têm um olhar algo paternalista, pintado por “um imaginário tropical exótico que é tóxico”.

O consumo da música africana no ocidente está tão enraizado nos anos 70 que, até a mostrar o projeto Bandé-Gamboa a conhecidos, algumas pessoas não conseguiram ultrapassar o facto de as canções não terem o “grão” e o filtro estético daquele tempo. “Dizem que está limpinho demais”, recordou.

Para o produtor do projeto, as editoras, ao focarem-se nas franjas com influências ocidentais, perdem uma oportunidade de “trazer novos fragmentos de cultura cá para fora”. Além disso, Francisco Sousa considera que as editoras devem pensar sobretudo “que não estão a salvar ninguém”.

“Estas bandas tiveram o seu público, venderam os seus discos, muitas delas fizeram muito dinheiro, outras nem por isso. Mas a lógica do ‘white savior’ [salvador branco] é muito perigosa”, acrescentou.

Nesse sentido, o projeto Bandé-Gamboa não surge dessa ideia de salvar uma banda ou de a revelar ao mundo, mas antes numa ética de partilha – “não mais do que isso”.

Ao mesmo tempo, há o desafio de tentar agradar ao público dos dois continentes, até porque reeditar bandas antigas africanas não interessa aos jovens desses países.

Hoje, reeditar na Guiné-Bissau os Super Mama Djombo, banda de discos raros e muito procurados no Ocidente, seria como reeditar os Pink Floyd para uma geração americana jovem: “É lindo, mas estão a ouvir outras coisas”.

“É de louvar essa ideia do Francisco”, disse à Lusa Juvenal Cabral, dos Tabanka Djazz e Diretor artístico da banda guineense do Bandé-Gamboa.

O baixista compreende “a ideia das editoras ocidentais em pegar nas coisas gravadas nos anos 70”, porque para o público europeu e americano “é algo novo”. “Mas para nós, africanos, é algo que estamos cansados de ouvir. Não há novidade nenhuma”, notou, frisando que, com este projeto, mesmo repescando músicas antigas, há “uma lufada de ar fresco”.

Na parte do disco dedicado à Guiné-Bissau, aproveitou-se para recuperar também algumas músicas gravadas na Rádio Nacional deste país, em gravações “muito rudimentares” e retrabalhá-las, com novos arranjos.

“Foi um processo muito gratificante. Deu-me muito prazer fazer este trabalho”, afirmou Juvenal Cabral, esperando que o projeto permita também um maior reconhecimento internacional do gumbé, o estilo que reflete o mosaico de um país com menos de dois milhões de habitantes, mas com mais de 30 etnias.

O Diretor musical da banda cabo-verdiana do projeto, Lúcio Vieira, também se congratulou com a ideia, tendo aceitado o convite de Francisco Sousa sem hesitar, ainda para mais quando a proposta era testar os limites do funaná.

“Eu cheguei em 1984 a Portugal e já ouvia muita fusão. Vinha com uma ideia muito avançada e, quando cheguei, se fizesse uma malha ‘fora da caixa’ levava logo na cabeça”, recorda, salientando que o disco foi uma oportunidade de mostrar o que gosta mesmo de fazer: experimentar e inovar.

“É uma ideia refrescante. É uma forma também desse projeto abrir a cabeça de outras pessoas que vão ouvir e saberem que há inovação para além da tradição, podemos fazer outras coisas, sem magoar o que já é feito pelos nossos mais velhos”, vincou Lúcio Vieira.

O disco, que é lançado a 12 de junho em formato físico e digital, conta com seis temas para cada país, sendo também uma homenagem a Amílcar Cabral, cofundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde e um dos maiores símbolos da luta pela independência dos dois países.

A banda da Guiné-Bissau, dirigida por Juvenal Cabral, é composta por Eric Daró, Iragrett Tavares e Micas Cabral, nas vozes, Calú Ferreira (teclas), Eliseu Imbana e Sidia Baio, nas guitarras, Toni Bat (bateria), Ernesto da Silva (percussão) e Elmano Coelho (saxofone).

Da formação cabo-verdiana, dirigida por baixista Lúcio Vieira, fazem parte Celso Évora, Débora Paris e Kinha Andrade, nas vozes, Daya Neves (teclas), Ivan Gomes (guitarra), Cau Paris (bateria), Djair de Pina (percussão) e Elmano Coelho (saxofone). João Gaspar – “Agência Lusa” in “LusoJornal”

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Portugal - Camões Instituto da Cooperação e da Língua apoia candidaturas de editoras estrangeiras à edição de autores de língua portuguesa

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., no âmbito do seu Programa de Apoio à Edição 2019, vai apoiar 52 candidaturas de editoras estrangeiras que pretendem editar obras de autores de língua portuguesa traduzidas noutros idiomas. Este número representa um aumento de 71% face às 31 candidaturas aprovadas em 2018, a par de um reforço substantivo de candidaturas de fora da Europa, que representam, em 2019, 41,5% do total de projetos apoiados, contra 9,7% em 2018.

Este programa irá beneficiar editoras de 24 países (Alemanha, Arménia Bielorrússia, Bulgária, Chile, Colômbia, Croácia, Dinamarca, Egito, Eslováquia, Espanha, França, Grécia, Hungria, Índia, Itália, Macedónia, Países Baixos, Polónia, República Popular da China, Roménia, Rússia, Sérvia, Ucrânia), representando um aumento de 50% face aos 16 países de 2018.

40 Autores terão a edição das suas obras traduzidas apoiada pelo programa, dos quais 6 de outros países de língua portuguesa, nomeadamente de Angola (José Eduardo Agualusa e Ondjaki), Brasil (Milton Hatoum e Clarice Lispector), Cabo Verde (Germano de Almeida) e Guiné-Bissau (Gisela Casimiro).

A lista completa dos autores abrange: Afonso Cruz, António Lobo Antunes, Camilo Castelo Branco, Clarice Lispector, Dulce Maria Cardoso, Ernesto Rodrigues, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Filipe Andrade, Germano de Almeida, Gisela Casimiro, Golgona Anghel, Gonçalo M. Tavares, Hélder Macedo, Isabel Minhós Martins, Isabela Figueiredo, Jerónimo Pizarro, João Luís Barreto Guimarães, Johny Tércio, Jorge de Sena, Jorge Reis-Sá, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, José Saramago, Júlio Dinis, Lídia Jorge, Manuel de Freitas, Maria Inês de Almeida, Marta Teives, Milton Hatoum, Nuno Saraiva, Ondjaki, Ricardo Cabral, Rui Cardoso Martins, Rui Zink, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teresa Martins Marques, Teresa Veiga, Tiago Rodrigues, Valter Hugo Mãe.

Relativamente a 2018, verifica-se, também, um aumento de 38% no número de autores abrangidos. Quanto à área dos projetos apoiados, o maior número situa-se na área do Romance, estando também representados outros géneros, nomeadamente, Banda Desenhada, Biografia, Conto, Crónica, Dramaturgia, Ensaio, Ilustração, Novela, Poesia.

O programa de apoio à edição teve, em 2019, um financiamento global do Camões, I.P. de 40 000€, sendo que a edição dos 2 autores clássicos (Camilo Castelo Branco // Júlio Dinis) e dos 38 autores contemporâneos representa um investimento global das editoras envolvidas na ordem dos 440 000€. Camões Instituto da Cooperação e da Língua - Portugal

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Nelson Urt: do jornalismo à ficção

                                                        


                                                          I
Depois de uma carreira de três décadas em grandes veículos de comunicação de São Paulo, como O Estado de S.Paulo, revista Placar (Editora Abril),  Diário Popular e ESPN Brasil, entre outros, o jornalista Nelson Urt, 65 anos, voltou em 2004 para a sua Ladário natal, antigo distrito e hoje cidade vizinha a Corumbá, no Pantanal do Estado do Mato Grosso do Sul, onde continuou a exercer sua profissão nas redações do Diário Corumbaense e do Correio de Corumbá e como autônomo, além de dedicar-se aos estudos acadêmicos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

A par disso, em fevereiro de 2019, decidiu criar uma editora, a Maria Preta Cartonera, pela qual acaba de lançar Amor e Morte em Tempos de Chumbo, que reúne um conto inédito e crônicas, além de poesias e artigos escritos ao longo dos últimos dez anos. Juntamente com o livro de Urt, a Maria Preta Cartonera lançou Paixão e Morte no Bordel, com contos dos jornalistas e historiadores Luiz Fernando Licetti, Silas de Almeida e Nelson Urt.

O mergulho de Urt na ficção, porém, não deixa de ser um retrato bem acabado de uma realidade vivida por jornalistas e outros intelectuais, de modo geral, na cidade de São Paulo nos anos 60 e 70, durante os tempos de chumbo provocados pelo regime militar (1964-1985). Com um texto enxuto e pacientemente elaborado de quem dedicou os seus melhores anos à escrita de reportagens na área esportiva, o jornalista, agora ficcionista, reconstitui no conto que dá título ao livro as peripécias de Marcus, uma espécie de alter ego, fotógrafo do Diário da Noite, periódico do empresário Assis Chateaubriand (1892-1968), dono do conglomerado Diários Associados, magnata das comunicações entre o final de 1930 e o começo da década de 1960.

À época da história recuperada por Urt, Chateaubriand, advogado e membro da Academia Brasileira de Letras, já havia desaparecido e seu império jornalístico começava a desabar para dar lugar a outro, o do empresário Roberto Marinho (1904-2003), dono do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, e da Rede Globo de Televisão. Nas ruas, o que respirava eram tempos de angústia, com perseguição aos inimigos do regime, como o jornalista Juca, chefe de reportagem da revista Placar, formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), que fora detido, pois acusado de pertencer a um movimento de esquerda. Juca, o amigo de Marcus, por pouco não teria tido o destino do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), diretor de jornalismo da TV Cultura, emissora estatal do governo de São Paulo, que seria torturado até à morte nas dependências do órgão de repressão.

“Outros suspeitos de subversão sentiram na pele os horrores dos métodos dos torturadores, que aplicavam choque elétrico, queimavam o corpo com ponta de cigarro, davam bofetões no rosto e expunham a vítima aos limites da resistência afogando-a em baldes d´água”, descreve o autor, reconstituindo os passos do fotógrafo Marcus, agora também preocupado com a sua amiga Rosana, igualmente jornalista e perseguida política, com quem costumava dançar na pista do Bar Avenida, no centro da capital paulista, ao som de blues e jazz. Descendente de ucranianos, RosaYushchenko, porém, teria melhor sorte: conseguiria embarcar para Londres, onde reconstituiria a vida longe de Marcus, mas com uma lembrança inesquecível e palpável, o filho que nasceria daquela relação fortuita.

                                                           II
Entre as crônicas, uma que se destaca é “Na solidão das ruas, o Natal de Rosinha”, em que Urt reconstitui a vida de uma moradora de rua, que sobrevive do lixo que sobra da sociedade de consumo, o que mostra a preocupação do autor com os excluídos. Aliás, o próprio autor confessa sua fixação “em perseguir incansavelmente a contestação, a controvérsia e a reconstrução da história, tentando quebrar paradigmas, tabus e preconceitos”, como observa na crônica que encerra o livro, “Dez anos de jornalismo, história e literatura”. Por isso, para definir o autor e suas peças literárias, nada melhor que as suas próprias palavras: “(...) Busco publicar aquilo que eleve a alma e defenda a dignidade do ser humano, e que possa contribuir para um mundo melhor e mais justo”.

Essa preocupação se vê no olhar terno e, ao mesmo tempo, revoltado com que o jornalista e agora ficcionista dirige aos poucos indígenas que não foram dizimados pela civilização ocidental e ainda habitam as terras do Pantanal, dos quais procura recuperar suas histórias. “Fico feliz quando converso com Dona Dalva, o cacique Severo e outros guatós que, vindos da aldeia Uberaba, ancoram o barco no porto de Corumbá”, confessa, lembrando ainda que os bairros negros de Corumbá, como Saroba, ainda escondem verdades sobre a escravidão na região, mas que “aos poucos vão saindo da escuridão e ganhando as páginas dos livros”, graças à leitura das poesias de Lobivar Matos (1915-1947) e de Benedito C. G. Lima (1949), “poeta da resistência”, jornalista, historiador, trovador e fundador do movimento negro em Corumbá, autores que hoje são objeto de estudo do jornalista/acadêmico.

                                               III
Criada por Nelson Urt em Ladário, a Maria Preta Cartonera Editora foi inspirada nos projetos de livros artesanais com capa de papelão (daí a origem  castelhana do nome cartón), criados a partir de 2002 como uma saída para a grave crise editorial na Argentina e que se propagaram mundialmente como literatura underground (ou subterrânea), especialmente na Espanha, México, Bolívia, Chile e Peru.

Segundo o material de divulgação preparado por Jota Etcheverria, da Navepress, em Mato Grosso do Sul, o maior representante desse tipo de literatura autônoma, que sobrevive fora dos grandes mercados livreiros, é Douglas Diegues, autor de poesias escritas em “portunhol selvagem” e criador de Yiyi Jabo Cartonera, em Ponta Porã-MS. No Brasil, segundo Etcheverria, a Vento Norte Cartonero, de Santa Maria-RS, é uma das referências nesta linha literária que tem por objetivo despertar o gosto pelo livro e pela leitura entre as grandes massas, facilitando o acesso às obras literárias por meio de oficinas e rodas de conversa nas escolas. 

Como conta Urt na apresentação que fez para o seu livro, a fonte inspiradora para o nome da editora artesanal foi uma catadora de lixo que vive nas ruas de Corumbá com um lenço branco na cabeça, sem documento, sem nome e sobrenome. É conhecida como Maria Preta. Ao tentar entrevistá-la, Urt diz que recebeu apenas um sorriso doce e silencioso, como o de uma criança, que nunca mais conseguiu esquecer. Diz que, certa vez, o dono de uma empresa de lixo reciclável lhe contou que nunca havia comprado nada de Maria Preta, mesmo porque o que ela colhe não seria para vender. Lembra ainda que nunca os funcionários especializados em população de rua conseguiram atraí-la para passar uma noite no centro de acolhimento e que, por isso, seu cadastro continua incompleto.

Segundo Urt, Maria Preta gosta mesmo é da solidão das ruas, “onde seu corpo curvado espalha a ternura dos que nada devem, nada temem, nada perdem”. E conclui: “É o eterno caminhar para o nada, que podemos interpretar como um caminho espiritual. Ou pura poesia”. Por isso, o jornalista resolveu dar o nome pelo qual aquela figura popular é conhecida à editora cartonera que fundou, que segue o exemplo da congênere Dulcineia Catadora, criada em 2007 em São Paulo e que funciona dentro de uma cooperativa de reciclagem, aliando a literatura à ação social, pois possibilita aos próprios catadores de lixo a elaboração de seus livros. A capa do livro é sempre moldada com sobras de caixas de papelão atirados ao lixo.  Os livros da Maria Preta Cartonera estão à venda por R$ 18 aos sábados, das 9 às 11 horas, dentro do projeto Passa na Praça que a Arte te Abraça, na Praça Independência, em Corumbá, mas podem ser obtidos também por via postal.

Em Santos-SP,  em 2012, por iniciativa do poeta Ademir Demarchi, editor da conceituada Revista Babel, foi lançada a Sereia Ca(n)tadora, que já editou vários livros, como A morte de Herberto Helder e outros poemas, de Marcelo Ariel, Hi-Kretos, de Paulo de Toledo, Olho por olho, de Regina Alonso, e O amor é lindo, do próprio Demarchi, entre outros, todos feitos de forma artesanal, com capas pintadas uma a uma em papelão reciclado.

                                               IV
Nelson Urt cursou Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Libero, em São Paulo, e graduou-se em História na UFMS, campus Pantanal, em Corumbá. Em 2018, começou a fazer o mestrado de Estudos Fronteiriços da UFMS, com um projeto de pesquisa sobre os dois livros e influências deixados pelo poeta corumbaense Lobivar Matos.

Urt é ainda autor do livro Estação das Mariposas (e-book no site da Amazon) e redator do blog Nave Pantanal (nelsonurt.blogspot.com.br), que, desde 2008, reúne crônicas e notas de seu dia a dia no jornalismo. Desenhista e letrista de origem, escreve e ilustra manualmente títulos usando guache e nanquim. Adelto Gonçalves - Brasil

___________________________________ 

Amor e Morte em Tempos de Chumbo, de Nelson Urt. Ladário-MS: Maria Preta Cartonera, 72  páginas, R$ 22 (preço já acrescido do frete, com depósito no Banco Brasil, agência 0014, c/c 42.113-8), 2019. E-mail: nelsonurt@gmail.com
­­­­­­­­­­­­


___________________________________________________

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br