Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Centenário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Centenário. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2026

Catalunha - Lança concurso de escrita em português

O consulado de Portugal em Barcelona convida os interessados a participar na III edição do Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha, iniciativa que este ano assinala o nascimento da escritora portuguesa Fernanda Botelho


Promovido pelo Instituto Camões, pelo Centro de Língua Portuguesa em Barcelona, pelo consulado de Portugal em Barcelona e pela Universitat Autònoma de Barcelona, o concurso pretende promover a língua portuguesa e divulgar o universo literário em português.

O prazo para a apresentação dos trabalhos decorre entre 27 de maio e 31 de outubro, estando a divulgação da decisão do júri prevista para o final de novembro.

Podem participar estudantes e antigos estudantes do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Barcelona, estudantes de português na Universitat de Barcelona, Universitat Autònoma de Barcelona, Instituto Guimarães Rosa de Barcelona e Escola Oficial d’Idiomes – Drassanes, independentemente da nacionalidade. O concurso está igualmente aberto a qualquer pessoa residente na Catalunha com conhecimentos de língua portuguesa.

Fernanda Botelho, homenageada nesta edição, é considerada uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Depois de se estrear na poesia, destacou-se como romancista pela originalidade da sua escrita, abordando temas como a condição feminina, a identidade, as relações humanas e as transformações da sociedade portuguesa do pós-guerra.

Criado em março de 2022, o Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha procura incentivar a criação literária e reforçar a promoção da língua portuguesa junto da comunidade residente na região.

Leia o regulamento completo aqui. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




quarta-feira, 22 de julho de 2026

Portugal - Autocarro em Coimbra homenageia Camilo Pessanha

No centenário da morte de Camilo Pessanha (01/03/1926), a Câmara Municipal de Coimbra e os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos decidiram homenagear o poeta, que nasceu naquela cidade portuguesa, mas passou parte da vida em Macau, onde acabou por morrer. Assim, o autocarro 501 exibe um retrato do poeta, com a sua assinatura, acompanhado do verso que abre Clepsidra


O autocarro 501, que circula desde o início da semana em Coimbra, homenageia Camilo Pessanha, no ano em que se assinala o centenário da sua morte. A iniciativa partiu da Câmara Municipal de Coimbra e dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), que decidiram decorar a viatura com uma imagem evocativa do poeta, assinalando a sua vida e obra, segundo se pode ler numa nota publicada na página dos SMTUC.

O autocarro exibe um retrato de Camilo Pessanha, uma reprodução da sua assinatura e o verso que abre Clepsidra: “Eu vi a luz em um país perdido”. Camilo Pessanha (1867-1926) é considerado a principal figura do Simbolismo em Portugal e um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa.

Nascido em Coimbra, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, cidade onde iniciou a sua actividade literária. Em 1894, partiu para Macau, onde exerceu funções como professor de Filosofia e desempenhou diversos cargos na administração pública. Acabou por morrer no território, sendo que a sua campa se localiza no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

A iniciativa da Câmara Municipal de Coimbra e dos SMTUC integra “uma estratégia de valorização de figuras maiores da cultura portuguesa com ligação a Coimbra”, segundo acrescenta o comunicado. Neste âmbito, no mês passado e a propósito da 37.ª edição da Feira do Livro de Coimbra, que teve como mote o livro A árvore das Palavras, foi dedicada uma outra viatura à escritora Teolinda Gersão.

Também no âmbito do centenário da morte de Pessanha, a Biblioteca Municipal de Coimbra associa-se às comemorações com duas iniciativas. Na Casa Municipal da Cultura, a exposição “Imagens de Coimbra na época de Camilo Pessanha (1867-1926)” estará patente até 28 de Setembro, com curadoria de Alexandre Ramires.

A exposição é organizada pela Divisão de Bibliotecas e Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Coimbra, em colaboração com o Centro de Literatura Portuguesa e com o Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, entidades promotoras das comemorações do centenário, às quais se associam igualmente a autarquia e a Universidade de Coimbra.

Além disso, realizou-se um recital performativo intitulado “Miragens do Nada – um olhar sobre a poesia de Camilo Pessanha”, apresentado pela Cooperativa Bonifrates. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sábado, 4 de julho de 2026

São Tomé e Príncipe – Anunciada a criação da Fundação Alda Espírito Santo no centenário da matriarca santomense

Personalidades nacionais e internacionais dos meios académico, cultural e institucional reúnem-se, durante dois dias, na capital santomense, para a Conferência Internacional que celebra o centenário de Alda Espírito Santo, figura incontornável da história, da cultura e da literatura de São Tomé e Príncipe.


“Alda do Espírito Santo não foi apenas uma nacionalista, não foi apenas uma poetisa, não foi apenas uma ativista cultural, não foi apenas uma pessoa generosa”, afirmou Inocência Mata, curadora da conferência.

“Alda do Espírito Santo afirmou-se como uma das vozes mais firmes da geração que sonhou, lutou e edificou a independência do nosso país”, destacou o Primeiro-Ministro, Américo Ramos.

Este encontro constitui um momento singular de valorização da vida, da obra e do legado da matriarca santomense, estando já em preparação a criação da Fundação Alda Espírito Santo.

“Uma fundação que funcionaria na Chácara, espero que ainda este ano isso seja possível, enquanto espaço permanente de investigação, preservação documental, promoção cultural e divulgação da sua obra, tornando-a acessível às gerações presentes e futuras”, anunciou Inocência Mata.

“Ao revisitarmos a vida e a obra de Alda Espírito Santo, somos chamados a reconhecer a força transformadora da palavra, o papel estruturante da educação e o valor da cultura como expressão profunda da nossa identidade”, sublinhou Américo Ramos.

Para o Chefe do Governo, a realização desta conferência representa um compromisso renovado com os valores que nortearam a vida de Alda Espírito Santo: a dignidade humana, a justiça social, a igualdade de oportunidades e a confiança num futuro melhor. José Bouças – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Portugal - Celebrações dos 100 anos de Zeca Afonso respeitam cunho popular do artista

A apresentação de um manifesto abre simbolicamente a celebração do centenário do nascimento do músico José Afonso, marcado para 2029, antevendo-se uma comemoração com “um cunho popular forte”, revelou a Associação José Afonso (AJA)


“Queremos que as comemorações sejam com um cunho popular forte, com capacidade de suscitar a iniciativa das diferentes escalas do mundo associativo, independentemente de podermos fazer articulações a nível institucional. (…) É o carácter popular de que José Afonso tanto gostava, de se movimentar nesses meios populares”, explicou à agência Lusa o historiador João Madeira, da AJA.

O “Manifesto 100 anos de José Afonso”, a apresentar esta quarta-feira, em Lisboa, é assinado por mais de uma centena de personalidades portuguesas, da música, cinema, teatro, jornalismo, investigação e sociedade civil e continua aberto para mais subscrições.

Luís Cília, Garota Não, Sérgio Godinho, Capicua, Luca Argel, Manuela Azevedo – todos da área da música – assim como os jornalistas Adelino Gomes e Joaquim Furtado, os capitães de abril Vasco Lourenço e Jorge Aires, a investigadora Irene Flunser Pimentel e o musicólogo Rui Vieira Nery estão entre os primeiros signatários.

No manifesto pode ler-se que existe vontade não só de celebrar “a criatividade e o impacto duradouro” da obra de José Afonso, como também “o exemplo cívico, feito de coerência, modéstia e persistência, e a sua busca de uma sociedade mais livre, mais justa e mais solidária”.

“É um momento simbólico, uma primeira iniciativa no âmbito das comemorações e o manifesto é uma declaração de intenções, do que pode ser feito”, explicou João Madeira.

No âmbito da celebração do centenário, a AJA quer iniciar um novo processo de classificação da obra fonográfica de José Afonso, uma vez que o anterior foi arquivado em 2025 pela Museus e Monumentos de Portugal, por falta de “acesso físico aos bens a classificar”.

“Não recebemos uma resposta à contestação. O que nos move é enfatizar a obra do Zeca Afonso”, sublinhou João Madeira.

Entre outras iniciativas a desenvolver, depois de estabelecidas parcerias, estão concertos, exposições, tertúlias, a publicação ou reedição de projetos editoriais e recolha e preservação de documentação e testemunhos relacionados com José Afonso.

“A obra de José Afonso constitui um património cultural fundamental, parte viva do nosso imaginário coletivo, pertença popular, cuja valorização e reconhecimento pelos poderes públicos consideramos essenciais”, afirma a associação.

“Cantor, poeta e cidadão profundamente atento ao seu tempo”, José Afonso nasceu em Aveiro, a 02 de agosto de 1929.

Começou a cantar enquanto estudante em Coimbra, tendo gravado os primeiros discos no início dos anos 1950 com fados de Coimbra, mas ao longo da carreira ficou conhecido, sobretudo, pelas canções de intervenção cívica, contra o regime ditatorial.

A obra completa de José Afonso começou a ser reeditada em 2021, numa iniciativa da família com a editora Mais 5, disponibilizando em novos formatos álbuns como “Cantigas do Maio” (1971), “Venham Mais Cinco” (1973) e “Coro dos Tribunais” (1974), assim como o concerto “Ao Vivo no Coliseu”, de 1983.

Autor de “Grândola, Vila Morena”, uma das canções escolhidas para senha do avanço das tropas, na Revolução de 25 de Abril de 1974, José Afonso morreu a 23 de fevereiro de 1987, em Setúbal, de esclerose lateral amiotrófica.

Quase 40 anos depois da morte de José Afonso, João Madeira sublinha a atualidade do pensamento e da obra musical do cantautor, que se colocou “no plano da intervenção cultural, intervenção cívica face aos grandes problemas do mundo contemporâneo”.

“São problemas que têm a mesma raiz, de um certo posicionamento contra a prepotência, as desigualdades, em defesa da paz do mundo e que fazem todo o sentido nos dias de hoje. As expressões de natureza cultural hoje podem ser diferentes, mas também percebemos que há um legado que estabelece um fio de continuidade entre o que era a realidade em tempos antigos e a realidade que é hoje”, disse.

O “Manifesto 100 anos de José Afonso” vai ser apresentado hoje na Casa Capitão, em Lisboa, e contará com atuações de Ana Lua Caiano e Couple Coffee.

A Associação José Afonso, que se apresenta como uma “associação cultural e cívica, não confessional”, foi formalizada em novembro de 1987, poucos meses depois da morte do cantautor, com o objetivo de preservar “a memória e o exemplo” de José Afonso. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




domingo, 1 de março de 2026

Canção da Partida









Canção da Partida

 

Ao meu coração um peso de ferro

Eu hei de prender na volta do mar.

Ao meu coração um peso de ferro... Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar...

Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.

E hei de mercar um fecho de prata.

O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta...

_ A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, _ a carta encantada!

E um lenço bordado... Esse hei de o levar,

Que é para o molhar na água salgada

No dia em que enfim deixar de chorar.

 

Camilo Pessanha – Portugal / Macau

In Clepsidra, (1920, Lisboa, Lusitânia Editora)

______________

Há alguns meses que o Blogue Baía da Lusofonia apresenta aos domingos um poeta e a sua poesia. Associamo-nos às diversas homenagens do centenário da morte de Camilo de Almeida Pessanha, que nasceu em Coimbra a 07 de setembro de 1867 e faleceu em Macau a 01 de março de 1926, há precisamente 100 anos, que estão a realizar-se nesta última cidade.

Uma das Entidades de Macau que vai assinalar o centenário da morte de Camilo Pessanha é o Instituto Português do Oriente (IPOR) que dinamizará um conjunto de atividades ao longo do ano de 2026.

A primeira será um Clube de Leitura onde se irá falar da vida e obra do autor que viveu em Macau. Acontece já no dia 3 de março de 2026, na Biblioteca do IPOR, batizada com o nome do escritor.

Esta é uma organização do IPOR, em parceria com o Clube de Leitura de Macau, o Festival Rota das Letras e que conta com o apoio do Camões, I.P.

 


 

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Macau - Trisneto gostaria que a cidade tivesse “feito mais” pelo poeta Camilo Pessanha

Dos descendentes de Camilo Pessanha estão apenas vivos os nove trisnetos, filhos da neta Ana Maria Jorge, falecida em 2018. O mais velho admitiu ao Jornal Tribuna de Macau conhecer pouco sobre o percurso do seu trisavô como poeta, apenas sabendo que “viajava muito” entre Macau e Portugal. Victor Jorge gostaria que “se tivesse feito mais no território para assinalar a carreira dele”. Sobre a aventada hipótese de trasladar os restos mortais para o Panteão Nacional, em Lisboa, confessa que “seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muita supersticiosa e recusou o pedido”


Como o primogénito dos nove irmãos, todos trisnetos de Camilo Pessanha, Victor Jorge, de 76 anos, reconheceu ao Jornal Tribuna de Macau que não conhece muito sobre o percurso do trisavô como escritor. Apenas soube, pela boca da sua avó, Ana Maria Jorge, falecida em 2018, que o poeta “viajava muito” entre Macau e Portugal.

“O meu trisavô tinha uma neta (minha avó) e um neto que também tinha o mesmo nome do avô, ambos falecidos, e que eu saiba não há mais descendentes, apenas resta a minha família”, começou por referir.

Mesmo com a existência de alguns sinais da sua passagem pelo território, como por exemplo a estátua no Jardim das Artes e a rua com o seu nome, “Macau [as autoridades] devia ter feito mais sobre a carreira dele”, lamenta, ainda que se congratule com algumas iniciativas organizadas aquando da passagem dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha.

Lembra-se, no entanto, de algumas histórias que foi ouvindo na família, que o trisavô sempre sustentou a neta. “Depois da morte do poeta, houve disputa das heranças que ele deixou, uma vez que tinha muitas antiguidades, e a madrasta não quis dividir para a minha avó invocando que ela não fazia parte da família por não ser filha legítima de Camilo Pessanha”, contou.

O caso foi para tribunal, que “deu razão à minha avó, após ter lido uma carta escrita pelo pai dela que a identificava como filha”, recorda.

No próximo mês de Maio, completam-se 10 anos desde que, em Portugal, foi aventada a possibilidade de trasladação dos restos mortais de Camilo Pessanha para o Panteão Nacional, onde se encontram túmulos de outros nomes do panorama literário, como por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus. A oposição dos familiares de Camilo Pessanha, acompanhada pela também não concordância do Instituto Cultural, foi decisiva para que a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República encerrasse o caso.

Victor Jorge comenta essa intenção de Portugal. “Isso seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muito supersticiosa e recusou o pedido”.

Mesmo depois da morte de Ana Maria Jorge, os seus filhos querem respeitar a opinião da família. “Julgo que é difícil voltar atrás a propósito da trasladação dos restos mortais para Portugal, uma vez que os familiares não querem que se mexa no túmulo, por entenderem que ele escolheu ficar em Macau”, destacou.

Para marcar a efeméride da morte do poeta, a família não tem nada de especial programado. “No dia 1 de Março vamos fazer a limpeza e colocar flores na campa instalada no Cemitério de São Miguel Arcanjo”, adiantou, ressalvando que “fazemos isso anualmente, para além de pagarmos a um operário para tratar do jazigo”.

Lembra também que o filho do Camilo Pessanha tinha um afilhado que residia em Hong Kong e que foi ele que mandou fazer a lápide da sepultura com caracteres em cantonense. “Não sei se ainda está vivo, perdi o contacto dele”, esclareceu.


Victor Jorge, que acedeu prontamente a tirar uma fotografia junto à estátua do trisavô no Jardim das Artes, a qual integra ainda um pedestal com o cão do poeta, Arminho, confessou a este jornal que o interesse pela vida e obra de Camilo começou na sua juventude. “Quando eu era ainda jovem, um colega mostrou-me uma nota de 100 patacas com a gravura do poeta e perguntou-me quem era, mas na altura eu não sabia que era o meu trisavô. Depois disso, comecei a inteirar-me sobre a história dele”, afirma.

Questionado sobre documentos que possivelmente se encontrem na posse dos familiares, o trisneto disse ter apenas um livro que fala de Camilo Pessanha e da sua família. “Tem alguns poemas ilustrados e também um documento oficial que relata a identidade da minha avó como filha ilegítima, por os pais não terem sido casados”, revela.

O poeta, recorde-se, era também filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, um aristocrata estudante de Direito e de Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua empregada.Tirou o curso de direito em Coimbra, foi procurador régio em Mirandela (1892), advogado em Óbidos, em 1894, e depois de se mudar para Macau foi, durante três anos professor de Filosofia Elementar no Liceu.

Entre 1894 e 1915, voltou a Portugal algumas vezes, para tratamentos de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa, que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia.

Morreu devido ao uso excessivo de ópio e a tuberculose pulmonar. Nos relatos sobre a sua morte, extraídos do livro Camilo Pessanha de António Dias Miguel, é referido que na manhã de 1 de Março de 1926 “falece Camilo Pessanha, depois de prolongado sofrimento”. O funeral realizou-se no dia seguinte, a meio da tarde.

O seu enterro, “singelo e civil”, foi muito concorrido. Transportado, a seu pedido, num armão militar, coberto pela bandeira nacional, o poeta foi conduzido por sargentos, cabos e soldados e ladeado pelos estudantes do Liceu e outras escolas.

No cemitério, a oração fúnebre foi pronunciada pelo reitor Borges Delgado, com estas palavras: “Espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar tudo e todos”.

Os jornais de Lisboa deram grande relevo à morte de Camilo Pessanha. Em 1949, a Câmara Municipal da capital portuguesa homenageou o escritor dando o nome dele a uma rua junto à Avenida da Igreja, em Alvalade.

Estátua terá nova placa informativa

A escultura em bronze, de corpo inteiro, do poeta Camilo Pessanha, acompanhada pelo seu cão Arminho, no Jardim das Artes, vai ser alvo de colocação de uma placa informativa, uma vez que a “concepção original é de difícil leitura”, segundo referiu o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM). Em resposta ao Jornal Tribuna de Macau, o organismo indicou que a escultura, da autoria do arquitecto Carlos Marreiros, foi erguida no local há mais de 10 anos, e na coluna de pedra atrás da mesma, encontra-se gravado o texto de apresentação do poeta. “Com vista a melhorar a situação, inicia-se, nesta fase, a recolha das respectivas informações”, complementou o IAM. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau” 





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Macau - Um século depois da sua morte, Camilo Pessanha é homenageado

O centenário da morte de Camilo Pessanha vai ser assinalado com dois eventos no início de Março, que pretendem resgatar a memória e o legado de um dos maiores poetas da língua portuguesa. As celebrações começam no dia exacto em que se completam cem anos desde o seu desaparecimento, no domingo, com uma mesa-redonda na Casa Garden. No dia 3, é a vez de o IPOR receber uma discussão sobre as várias dimensões de um homem que, mais do que poeta, foi professor, jurista e até tradutor de chinês-português. Faleceu em Macau a 1 de Março de 1926


Camilo Pessanha é um poeta tão grande que Macau inteiro não chega para seu túmulo, disse Eugénio de Andrade. Não basta, portanto, que o centenário do seu falecimento seja assinalado uma única vez. A vida e a obra do poeta – um dos vultos de maior dimensão na literatura de língua portuguesa – serão homenageadas ao longo do corrente ano de 2026, começando com duas sessões no início de Março.

A primeira mesa-redonda está agendada para domingo, dia 1, quando terá decorrido exactamente um século desde o desaparecimento de Pessanha. O painel de convidados vai reunir-se na Casa Garden, pelas 16h, para uma conversa distribuída por seis oradores e moderada por Sérgio Sousa, professor catedrático no Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM).

Os nomes convidados para esta sessão são o poeta, professor e ensaísta António Carlos Cortez, os escritores e jornalistas Carlos Morais José e Christopher Chu, os professores da UM Diego Giménez, Maggie Hoi e Yao Feng e o arquitecto Carlos Marreiros. Importa sublinhar que todos estes oradores possuem um conhecimento aprofundado da obra de Camilo Pessanha, sendo responsáveis por ensaios, recensões críticas, documentários cinematográficos (no caso de Carlos Morais José) e até traduções oficiais do seu único livro de poemas, “Clepsidra” (no caso de Yao Feng).

O evento tem como título “Ir assim, a bordo de um navio, sem destino”, em alusão às palavras que Camilo Pessanha dirigiu ao amigo Carlos Amaro numa carta escrita em 1909, embalado pelas ondas que o levavam de regresso a Macau. É um reflexo da identidade muito própria do poeta e do homem, ambos eternamente seduzidos pela ideia do vaguear sem rumo (e da ameaça constante do naufrágio libertador), e também uma reflexão directa sobre o caminho desbravado entre Lisboa e Macau.

A relação com o território asiático é densa, complexa e ambígua, revista em tempos contemporâneos como cravada de orientalismos e preconceitos. Chegar a Macau não era avistar um farol depois de uma temporada em alto-mar: era regressar ao “chão antipático do exílio”, como lhe chamou. Num texto escrito em 1924 para o jornal A Pátria, extinto dois anos depois, a descrição geral que Pessanha fazia sobre os poetas expatriados parecia conter um carácter auto-biográfico. “Os poucos [poetas] que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escreverem um verso, é sempre para cantar a pátria ausente”.

Diz-se que o poeta se exilou voluntariamente em Macau após um desgosto amoroso, quando Ana de Castro Osório recusou o seu pedido de casamento. Sugere-o o poema “Canção da Partida”, em que o poeta alude ao noivado da escritora e activista com Paulino de Oliveira, também homem de letras. Um ano depois, cruzava os oceanos rumo a Macau.

Homem de várias facetas

A versão trágico-romântica da história insiste no coração partido, mas a verdade é que a partida para Macau surgiu também amparada pela necessidade de encontrar oportunidades profissionais. É assim que vai parar ao recém-criado Liceu de Macau, onde leccionou diferentes disciplinas: Filosofia, Língua Portuguesa, História, Geografia, Economia Política, Direito Comercial e História da China.

A mundividência de Camilo Pessanha reflectiu-se também nos diferentes ofícios que ocupou até à data da morte. Para além de docente, foi conservador, advogado, juiz, auditor e, à excepção da última década de vida, sempre poeta – talvez a mais desconhecida das suas ocupações para a população local, que o interpretava como excêntrico e de aparência peculiar (percepção exacerbada pelo vício de ópio).

O escritor e investigador Danilo Barreiros, que chegou a ser contemporâneo do poeta, descreveu-o do seguinte modo na obra “O Testamento de Camilo Pessanha”: “Magro esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à testa, seminu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projetava a sombra desfigurada nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos opiómanos”.

O reconhecimento literário foi póstumo e possível graças aos esforços de Ana de Castro Osório, com quem manteve uma estreita amizade apesar do romance gorado. “Clepsidra” – obra única no repertório de Camilo Pessanha, obra máxima na literatura portuguesa – reúne as composições que o poeta criava ao longo da sua vida e mantinha vivas apenas na sua memória, sem as passar para papel. Em edições posteriores, a obra viria a ser ampliada com poemas entretanto descobertos.

O evento de 3 de Março no IPOR – Instituto Português do Oriente, marcado para as 18h30, vem pôr em foco as várias facetas do poeta. O médico e escritor Shee Vá, responsável pela moderação, conta ao Ponto Final que a escolha de cada um dos três oradores convidados foi intencional.

José Basto da Silva, membro do conselho de administração da Fundação da Escola Portuguesa, vai debruçar-se sobre a actividade professoral do poeta, enquanto Frederico Rato, advogado e notário de Macau, vai explorar o seu percurso como advogado e jurista. Por fim, António Carlos Cortez – que também estará presente na sessão de dia 1 na Casa Garden – vai focar-se no domínio da poesia.

“Vou dar-lhe dois temas para desenvolver”, conta Shee Vá. “O primeiro, para saber se Camilo teria tantas saudades de Portugal como se diz habitualmente. E se isto se reflectiu ou não na sua poesia, porque, como sabemos, a maior parte da sua obra foi escrita antes de vir para Macau – e em Macau corrigiu, corrigiu, corrigiu”.

Uma segunda área de discussão incide sobre os contactos que mantinha com Portugal. “Camilo manteve correspondência com os jornais e as revistas portugueses, que eram lá publicados. Também mandava muitas crónicas. Portanto, vamos também questionar se a faceta de prosador se reflectia nos seus poemas”.

Depois da intervenção do trio de oradores, haverá espaço para um “clube de leitura” em que serão declamados poemas, alguns deles já mencionados no decorrer da conversa. “Aliás, a introdução que vou fazer em relação à vida de Camilo até vir para Macau já vai introduzindo alguma da obra poética”, explica Shee Vá. E desvenda ainda alguns dos outros temas que poderão ser mencionados ao longo da conversa: a faceta de Camilo Pessanha enquanto coleccionador (“foram enviadas muitas obras de arte para Portugal, e seria interessante saber se têm ou não muito valor”) e os seus anos tardios, marcados pelo vício de ópio e uma degradação lenta que culminou na sua morte aos 58 anos.

Recuperar um legado empoeirado

Nas últimas décadas de vida, Pessanha fez viagens sucessivas a Portugal para tratamentos médicos, onde conheceu – e influenciou directamente – os membros da geração da revista “Orpheu”. Regressou sempre a Macau. Macau, esse território que descreveu em 1916, numa carta endereçada a Ana de Castro Osório, como um “meio acanhadíssimo – mexeriqueiro e boçal – a todos os respeitos misérrimo”.

Mas Pessanha era um homem de contradições e paradoxos, e centrarmo-nos nas suas (sucessivas) críticas ao território seria ignorar o respeito que demonstrou sentir pela cultura local. Aprendeu cantonês, leu poesia chinesa, coleccionou antiguidades. Dedicou-se também a um importante trabalho de tradução que incluiu as “Oito Elegias Chinesas” da dinastia Ming, conferindo-lhes visibilidade e relevância no mundo lusófono.

A sua visão de Macau parecia, acima de tudo, enevoada pelo saudosismo umbilical de uma pátria à distância de meio mundo. Descrevia-o assim o poeta, no seu ensaio sobre a gruta de Camões: “Em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas (…) e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa”.

Hoje, Camilo Pessanha faz parte dessa mesma portugalidade de Macau. A sua imagem está inscrita num mural no jardim do Consulado de Portugal, assinado pelo artista Vhils, ou na estátua que o representa apoiado na bengala, no Jardim das Artes. De resto, num território em que apenas 2,3% da população diz ser fluente em português, os seus versos circulam entre um grupo restrito de apreciadores de poesia. Macau inteiro não chega para túmulo de Pessanha, dizia Eugénio de Andrade, mas o seu legado vai sendo empoeirado pelos anos – que formam agora um século. A sua campa singela passa despercebida a quem passeia, desatento ou com outros destinos, no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

As iniciativas marcadas para este ano ajudam a recuperar a memória de um poeta irrepetível, que elevou o Simbolismo em Portugal à sua máxima expressão. Para além das duas sessões já mencionadas, o IPOR pretende organizar uma série de actividades relacionadas com o poeta ao longo de todo o ano de 2026.

Em declarações ao Ponto Final, Patrícia Quaresma confirma que os futuros eventos “estão planeados, mas ainda não confirmados, portanto não podemos falar muito sobre eles”. Adianta, porém, que o IPOR está “a tentar estudar a possibilidade de trazer uma exposição bibliográfica, em conjunto com o Instituto Camões”, assim como a realização de “outras actividades sobre o poeta, ou na biblioteca [pertinentemente chamada de Biblioteca Camilo Pessanha] ou no Café Oriente”. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Macau - Sun Yat-sen “revisitado” no Museu de Macau

Cerca de 100 peças e colecções de imagens, documentos e relíquias históricas preenchem uma exposição patente até 12 de Outubro no Museu de Macau para assinalar o centenário da morte de Sun Yat-sen


O Museu de Macau inaugurou na sexta-feira uma exposição comemorativa do centenário da morte de Sun Yat-sen, primeiro presidente da China pós-imperial e considerado o “pai” da era moderna do país, por forma a prestar homenagem ao seu “espírito nobre” na “busca pela revitalização da nação”. Organizada em conjunto pelo Instituto Cultural de Macau IC), Departamento de Serviços Culturais e de Lazer de Hong Kong e Departamento de Cultura, Rádio, Televisão e Turismo de Zhongshan, a exposição “Da Cura de Doentes à Salvação de uma Nação – Dr. Sun Yat-sen em Guangdong, Hong Kong e Macau” está patente ao público até 12 de Outubro deste ano.

A exposição apresenta cerca de 100 peças/colecções de imagens históricas, documentos e valiosas relíquias históricas de Guangdong, Hong Kong e Macau, divididas em quatro secções: “O berço do pensamento sobre a salvação da nação”, “O berço da revolução”, “As regiões natais da família” e “Memoriais para o grande espírito”. Segundo o IC, a mostra destaca de “forma sistemática as ligações profundas do Dr. Sun Yat-sen e dos membros da sua família com Guangdong, Hong Kong e Macau, bem como o seu espírito lutador e indomável e a sua carreira revolucionária, revelando o processo do rejuvenescimento da nação chinesa na era moderna e a importância da reunificação nacional e do progresso”.

Com base no tema desta mostra, o Museu de Macau também irá lançar uma exposição online de realidade virtual, através da sua página electrónica.

No seu sítio, o Museu de Macau sublinha que Sun Yat-sen foi “um grande herói nacional, um grande patriota e um grande pioneiro da revolução democrática” da China, “determinado a salvar o seu país e o seu povo”. Guangdong, onde Sun nasceu e iniciou os estudos, Hong Kong, onde fez estudos secundários e cursou medicina, e Macau, onde começou a exercer medicina, “foram as bases principais para as suas actividades revolucionárias”, acentua o texto, acrescentando que “foi nestes locais que o Dr. Sun utilizou a prática médica como ‘forma de entrada ao mundo’”.

“A maioria das revoltas armadas que planeou foram organizadas e dirigidas a partir de Cantão e Hong Kong e, depois de fundada a República da China, foi para o Sul e estabeleceu governos revolucionários em Cantão em três ocasiões, para proteger a recém-nascida República e procurar a reunificação nacional”, refere ainda.

Recorde-se que a família de Sun Yat-Sen residiu até 1952 num edifício na Rua de Silva Mendes, que integra a lista de bens imóveis classificados como património cultural de Macau. Em 1958 a moradia foi transformada num espaço de exposição, que se mantém em funcionamento.

O Museu de Macau está aberto diariamente das 10:00 às 18:00 horas, encerrando à segunda-feira. A entrada é livre para os portadores do BIR de Macau e, às terça-feira e no dia 15 de cada mês, para o público em geral. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Portugal - Espectáculo com 200 cantores e músicos celebra Carlos Paredes em Coimbra

Um concerto com 200 cantores e músicos, desenhado em redor da guitarra portuguesa, celebra os 100 anos do nascimento de Carlos Paredes, em Coimbra, numa homenagem que nasceu da vontade de dois amigos, Bruno Costa e André Varandas.

Agendado para dia 15, o concerto inaugural do projecto “100 Paredes” (que é também um documentário com acervo audiovisual de Carlos Paredes, concebido pelo director artístico André Varandas), terá em palco, no convento São Francisco, para além da guitarra portuguesa do director musical e guitarrista Bruno Costa, um coro e orquestra comunitária, num total de 200 participantes.

Em declarações à agência Lusa, Bruno Costa notou que a homenagem nasceu da vontade dos dois amigos em celebrarem os 100 anos de Carlos Paredes.

À ideia original de lançamento de um disco, um LP que já está gravado, a homenagem concebida pelos dois amigos “estendeu-se a um programa multidisciplinar concebido na cidade natal do mestre”, acrescentou André Varandas, sobre uma iniciativa que acabou por reunir a Universidade e o município de Coimbra, para além de 15 autarquias parceiras a nível nacional e outras entidades.

“É um programa alargado que vai ter cerca de 80 eventos e iniciativas, no circuito nacional e internacional em 2025”, revelou.

André Varandas destacou a “obra e legado incrível” do mestre da guitarra portuguesa e a sua vocação multidisciplinar, já que, para além da música, Carlos Paredes trabalhou com teatro, cinema ou dança e com várias influências, da música clássica à música popular.

O programador, especializado em projectos de intervenção artística sociocomunitária, frisou que “100 Paredes” foi concebido em Coimbra, destacando esta particularidade: “O Carlos Paredes foi o primeiro dos primeiros a conseguir e universalizar a escola de Coimbra da guitarra. Levou esta linguagem para fora, e para Lisboa, mas nitidamente é Coimbra que está na sua música”.

Especializado em criar espectáculos muito focados na identidade do território e no património material e imaterial, André Varandas reconheceu estar ‘na sua praia’ ao trabalhar na vida e na obra de Paredes.

“O que faço é criar os espectáculos em termos de direcção artística, ou seja, agregar as linguagens de outras pessoas e dar-lhes um sentido estético e uma história”.

Segundo os responsáveis pela direcção artística e musical do “100 Paredes”, o espectáculo reúne, sob a liderança do maestro Artur Pinho Maria, um grande coro comunitário e grande orquestra, nascidos da colaboração e integração com colectivos artísticos de cada município, desde associações culturais a bandas filarmónicas, passando por escolas de música e grupos de teatro.

“O projecto assume-se como uma ferramenta para a inclusão das comunidades locais, criando novos e diversos públicos. Este foi o ponto primordial”, observou André Varandas.

Contando também com novos arranjos exclusivos do compositor brasileiro Rodrigo Morte, o programador artístico frisou que no espectáculo a obra de Carlos Paredes “vai ganhar uma grande contemporaneidade, empurrando a todos a pensar o futuro, sem a cristalizar”.

Questionado pela Lusa sobre se isso significa que se pode ter um Carlos Paredes electrónico, Bruno Costa negou esse cenário: “A obra de Carlos Paredes será integralmente respeitada, sendo que, obviamente, até pelas orquestrações e pela dinâmica do próprio espectáculo, possa haver algumas alterações, não da peça, mas da forma como ela é levada ao público”.

“O espectáculo vai ser muito dinâmico, muito rico, e as pessoas vão ouvir e perceber que é uma coisa grandiosa, mas que respeita, na íntegra, aquilo que foi a obra do mestre”.

O projecto “100 Paredes” integra a programação nacional “Variações para Carlos Paredes”, criada para assinalar os 100 anos do nascimento do músico que nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925 e morreu em Lisboa, a 23 de Julho de 2004. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Portugal – Macau: mau tempo, avarias e troca de avião, o relato da viagem em 1924

Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia, partiram de Portugal, em 1924, num pequeno monomotor biplano, o Breguet 16 Bn2, chamado Pátria, e chegaram a Macau, a 20 de Junho. No ano do centenário desta viagem, o Ponto Final foi saber o que se escrevia num dos jornais locais


“Descolámos com mau tempo. Esperámos que o tempo melhorasse além-fronteira de Portugal. Tal não aconteceu. E a ameaça de tempestade em Vila Nova de Milfontes tornou-se tempestade desfeita no Sul de Espanha”, relatava Brito Paes, que comandou a missão, numa conferência no Clube de Macau, conforme noticiado no já extinto jornal do território, A Pátria, na edição de 19 de Julho de 1924.

Em 1924, Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia, na senda do que Gago Coutinho e Sacadura Cabral tinham feito em 1922, na viagem área de Portugal ao Brasil, juntaram-se num pequeno monomotor biplano e rumaram de Portugal a Macau.

Começaram por partir da Amadora, a 2 de Abril, até Vila Nova de Milfontes, para de lá descolar, a 7 de Abril, com destino ao território.

Depois do mau tempo no início, a aventura continuou com algumas peripécias e várias escalas pelo meio. “A viagem para Oran fez-se em boas condições, não obstante o ter mau começo”, relatava o comandante da missão. “Foi o caso que, cinco minutos depois de descolar, a bomba de gasolina deixou de funcionar, reduzindo-nos o raio de acção a metade”, dizia. O motor chegou até a “deixar de funcionar”, assustando o trio de aviadores. “Nós, que víamos o fim da viagem o despedaçar-se o avião na serrania, retomámos caminho e, seguindo os métodos aconselhados por Gago Coutinho, fizemos rumo, deixámos a ilha de Alboran uma milha por bombordo, atingindo a costa africana pela altura do Cabo das Três Forças, fomos aterrar em Oran […].”

Entretanto, a viagem continuou a desenrolar-se, até que os aviadores se depararam, pela primeira vez, com o deserto. “Duas horas depois de partir, apareciam-nos os primeiros turbilhões de areia. Um vento fortíssimo da proa na primeira metade da viagem retardou-nos muito e aterrámos em Tripoli depois de gastarmos seis horas e cinquenta e cinco minutos para percorrer os 700 quilómetros Tunis-Tripoli”, conta o comandante da viagem. “Um episódio singelíssimo que define, e eu bem a conhecia já, a alma lealíssima do meu mecânico”, diz Brito Paes, referindo-se a Manuel Gouveia.

Passando pelo deserto e apanhando ventos e chuva, passaram então pela “Palestina linda” e pelos “picos do Líbano cobertos de neve”. A partida de Rayak foi “um tanto difícil”, já que os aviadores estavam perante “um vale longuíssimo e aprazível entre duas cordilheiras de 3000 metros da altura”, que “fica ele mesmo a 900 metros”, com Sarmento de Beires a “puxar” pelo Pátria, que estava “pesado”. Já em Bushehr, tiveram um contratempo, com “um alferes manhoso e bem-posto” a pedir para ver o passaporte, percebendo que os aviadores não tinham vistos. Esse mesmo oficial veio a pedir dinheiro para que a situação ficasse resolvida.

Entretanto, com as peripécias superadas e a viagem a continuar, o comandante continua a relatar outros episódios, conforme citado no jornal A Pátria. ”De Chahbar para Karachi foi a etapa mais tormentosa de toda a viagem”, afirmava. “Aparece nas cartas uma pequena península Ormarah, uma espécie de Itália pequenina. O nosso avião atingira 1200 metros e voava bem. De repente, a terra escurece, o avião desce procurando manter a ligação com o solo. Vem para 1000, para 500, para 200, para 50 metros!!! O calor sufoca.”

Já em Jodhpur, na Índia, o avião perdia altura. “O motor metido a toda a força trabalhava como um relógio, mas o ar não tinha sustentação. “Era preciso aterrar depressa”, dizia Brito Paes. “Não era possível atingir Agra, nosso destino, nem Nezirabat, campo de recurso. Aterrou-se. O vento com uma crueldade de bandido atirou contra o chão o aparelho e partiu-o”, recorda.

O segundo avião

Com o Breguet 16 Bn2 destruído, o trio de aviadores regressa a Karachi para negociar com o Governo da Índia a compra de outro aparelho. Adquirido o avião por 4700 libras, um De Havilland 9 A, era tempo de seguir viagem, agora com o Pátria II.

Chegados ao Vietname, a partida para Macau “iniciou-se sob os melhores auspícios”, com “bom tempo e óptimo vento”. Acabaram, porém, por se debater com tempestades, que “queimaram o gerador”, e levaram a equipa a hesitar no destino. Com o “forte vento que soprava”, a viagem foi bem difícil.

Sabia-se que a costa estava “infestada de piratas” e que “para a frente não se via nada”. Tentaram “por três vezes” descer a menos de 100 metros rumo a Macau, apesar das chuvas. O vento teimava em soprar, atirando-os para as “serranias” da “ilha da Lapa”.

Com a bateria do aparelho a gastar-se, apesar de Macau estar perto, a equipa tinha de salvar o avião e a vida, subindo rumo a Cantão, alcançando o caminho de ferro Kowloon-Cantão. “Dois minutos sobre o caminho de ferro e o motor enfraquece e pára”, recorda. Acabaram por ter de escolher campo para aterrar, “debaixo de uma chuva terrível”. A aventura terminou ali, na aldeia de Shum-Chum, a poucos quilómetros de Hong Kong.

A recepção calorosa em Macau e a indiferença do Governo de Portugal

Por toda a parte, os aviadores foram bem recebidos pelas comunidades portuguesas, com “jantares, banquetes, bailes, récitas”, uma série de “manifestações festivas que quase deram razão aos que em Portugal julgavam que só faríamos uma viagem cheia de divertimentos e prazeres”.

Pelo contrário, recordando o início da viagem, diz Brito Paes, na Amadora “nada de representantes de entidades oficiais, a não ser o ajudante do Exmo. Comandante da Divisão”. E, para além dos aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho, apenas uma dúzia de amigos.

Em jeito de balanço, nesse discurso no Clube de Macau, relatado em A Pátria, Brito Paes referia que nos Estados Unidos da América, em Inglaterra, França e Japão havia os melhores pilotos e aviões, com “recursos ilimitados”, ao passo que, quando o trio sugeriu fazer o mesmo em Portugal houve risos. “Pode lá ser? Não há motores nem aviões a experimentar… loucura […]”

No fim, com “a esmola da subscrição” do povo, que financiou a empreitada, os aviadores puderam partir, mas sem o devido apoio do Governo de então. “Quando nas vésperas de o fazer quisemos apresentar os nossos cumprimentos ao Sr. Presidente da República, S. Ex.ª não pôde receber-nos; o Sr. Ministro de Guerra, quando o procurámos para o mesmo fim, tinha saído; o mesmo o Sr. Ministro das Colónias.”

Com o objectivo de chegar a Macau e “de não deixar a aviação portuguesa estagnar-se e ficar quieta”, Brito Paes considera a missão cumprida.

No fim da conferência, conforme relatado em A Pátria, lia-se: “O público que se manifestara nalgumas passagens ergue-se como uma mola no final e faz aos aviadores a mais estrondosa manifestação que é possível.”

A aviação militar em choque com o Governo

Enquanto os aviadores portugueses, Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia, concluíam a sua viagem histórica, em 1924, a aviação militar entrava em colisão com o Governo de Portugal da altura.

“A Aviação Militar recusa-se a aceitar o decreto que demitiu o major sr. Cifka Duarte”, lia-se no jornal A Pátria, a 19 de Julho. A partir daí, estava gerada uma crise que haveria de dominar a imprensa da altura, mas que se procurou esconder dos aviadores portugueses, Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia.

A 3 de Junho de 1924, dia em que deveria tomar posse o novo comandante, Júlio Morais Sarmento, vários militares dirigiram-se à Aeronáutica Militar para expressar o seu desagrado. Entre eles encontrava-se o pai de Brito Paes, que manifestava o desejo de que o trio de aviadores, que se encontrava em plena viagem aérea até Macau, desconhecesse o que se passava em Portugal, além de querer saber mais informações sobre o filho.

“Foi publicado um decreto determinando que o director da Aeronáutica seja um coronel de qualquer arma ou em serviço ao Estado Maior. Imediatamente foi nomeado para director da Aeronáutica Militar o coronel sr. Morais Sarmento, e exonerado o major sr. Cifka Duarte”, lê-se no comunicado enviado pelos aviadores e publicado na edição de 19 de Julho de 1924.

Alegando que se trata de um “decreto inconstitucional e afrontoso para o seu brio e honra de homens e de oficiais do exército”, os aviadores rejeitam aceitar outro nome que não o de Cifka Duarte naquele cargo.

Geraram-se então debates no Parlamento, que culminaram com declarações do ministro da Guerra contrárias aos interesses destes aviadores. Dispostos a resistir, um grupo concentrou-se no Campo da Amadora e ali ficou retido, cercado por um aparato militar. “Os aviadores declararam que se entregariam ao Chefe de Estado depois da demissão do sr. ministro da Guerra”, lê-se. Neste impasse que se gerou, entretanto, alguns oficiais acabariam por ser presos, enquanto outros permaneceram em campo, resistindo.

A questão da viagem Portugal-Macau

No meio deste turbilhão, encontrava-se também o pai de Brito Paes, que se dirigiu ao Campo da Amadora para se encontrar com Cifka Duarte, para tratar de alguns assuntos. “Sabemos que se tratou da viagem Lisboa-Macau e das dificuldades económicas para a sua conclusão”, conforme relatado no jornal.

Entretanto, para a solução do conflito entra em cena o almirante Gago Coutinho e o comandante Cerqueira, responsáveis por apresentar a plataforma do Governo e negociar com os aviadores.

A 26 de Julho de 1924, no jornal A Pátria continuam a surgir notícias do conflito entre a Aviação Militar e o Governo de Portugal, ao mesmo tempo em que os nomes do trio de aviadores, que se encontrava a concluir a viagem aérea Portugal-Macau, continuavam a surgir. “Sabemos de fonte segura que o sr. ministro de Guerra porá à disposição dos intrépidos aviadores, Sarmento de Beires e Brito Paes, todos os recursos necessários para a conclusão da sua viagem.”

Com o cerco da Amadora a intensificar-se, a mediação do almirante Gago Coutinho acabou por se tornar infrutífera. Os aviadores renderam-se e foram detidos, mas Gago Coutinho propôs que fossem amnistiados.

Citando o Diário de Lisboa, na edição de 2 de Agosto de 1924 do jornal A Pátria, os jornalistas interpelaram Gago Coutinho sobre este processo e a viagem do trio de aviadores portugueses a Oriente. O almirante aproveitou então para deixar umas palavras de louvor para Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia: “Saíram daqui três dias depois de mim. Chegaram três dias depois de mim e, ao mesmo tempo, andaram o dobro do que andei.”

Uma viagem paga pelo povo português

A viagem aérea entre Portugal e Macau, que agora faz o seu centenário, foi pioneira até no modo de financiamento. Sem apoio do Governo de então, contou com subscrições públicas, além do dinheiro da família de Brito Paes.

“A viagem só foi possível graças ao povo português”, dizia Sarmento de Beires, numa entrevista ao Jornal de Notícias, publicada no dia 7 de Abril de 1974, dois meses antes da sua morte.

Na viagem de Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia, tanto o avião como as restantes despesas foram suportados por subscrições públicas. Organizaram-se iniciativas para angariação de fundos, como corridas de touros no Campo Pequeno, leiloou-se um vitelo para angariar fundos e rifou-se um terreno na Amadora para a subscrição aérea. “O povo foi o produtor que tornou possível a obra, que nós apenas realizámos”, lia-se no jornal.

Foi este acompanhamento pelo povo, que levou a que Sarmento de Beires tivesse “tido o cuidado de manter viva a chama desta viagem” nos escritos que foi fazendo dos diferentes jornais, ao longo dos anos, diz o sobrinho-neto, Nuno Beires, realçando que a viagem foi sempre acompanhada pela imprensa da época.

No ano em que se realizou este trajecto aéreo, Portugal vivia uma altura muito conturbada. “Estamos nos anos finais da primeira República e, com toda a confusão, com toda a carestia, a dificuldade de vida que havia no país e a confusão política económica que se vivia, por isso é que esta viagem, durante uns meses, ajudou a levantar o moral da população, que sentiu que fazia parte de algo maior e que, naquela altura, era mesmo algo maior”, recorda.

No que toca à aeronáutica, era também uma altura em que as diferentes potências procuravam destacar-se e competiam. E, ainda que Portugal não dispusesse dos mesmos recursos que França, Inglaterra ou os Estados Unidos, “encontrava-se ao mesmo nível na ousadia do empreendimento”.

Motivações patrióticas ou espírito de missão?

Contrariamente ao que muitos dizem, Nuno Beires não considera que este raid aéreo tenha tido o “ímpeto nacionalista ou de divulgação da dimensão patriótica”, porque, se assim fosse, o Governo teria tido um envolvimento mais forte. “O que há nestes homens é que vivem num momento único e desafiador”, revela. “A aviação, depois da Primeira Guerra Mundial, está num momento de afirmação e de procura de novas oportunidades e eles, que são aviadores de paixão, são militares, mas, em vez de irem para a artilharia, preferiram ir para a aviação militar”, acrescenta. Naquela época, na década de 20, o desafio era o de “ir longe, ligar povos e conhecer o diferente”.

A 17 de Junho de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral já tinham provado essa “valentia”, ligando Portugal ao Brasil, concluindo a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia decidiram fazer uma viagem “comparável” na dimensão e no arrojo, mas na direcção do Oriente. “O desafio não era um oceano, não era a capacidade de sobreviver atravessando um mar imenso, mas era sobreviver a dificuldade de atravessar terrenos completamente diferentes daquilo que eles conheciam”, assinala.

Mas o desafio era também o do financiamento deste empreendimento, que começou com a fortuna pessoal de Brito Paes, mas avançou com subscrições públicas.

“De Portugal a Macau”, uma crónica de viagem para o mundo

Escrita pelo piloto José Manuel Sarmento de Beires, “De Portugal a Macau” é um relato da viagem pioneira de 1924, feita com o objectivo de chegar ao ponto mais distante do antigo império. Mas quem é o seu autor?

Figura alta, magra, seca, mas com os olhos vivos e uma voz muito própria. É assim que Nuno Beires se recorda do tio-avô José Manuel Sarmento de Beires, um dos três protagonistas do raid aéreo de 1924 e autor do livro “De Portugal e Macau”, uma crónica da viagem de então.

Sem filhos biológicos, era casado, tinha um enteado e 11 sobrinhos-netos, todos filhos do seu único irmão. “Cresci a ouvir falar desta epopeia aérea efetuada pelo tio José”, recorda Nuno.

Mas foi ao ler, por volta dos 9 ou 10 anos, os livros “De Portugal a Macau” e “Asas que naufragam”, que o sobrinho-neto “ficou verdadeiramente empolgado” com “o que era viajar de avião naquela altura”, tão diferente da experiência dos dias de hoje. “Lembro-me de, em miúdo, ter sido uma coisa que me levou a interessar pelos aviões e a acompanhar a questão da aeronáutica”, conta.

Não se viam com frequência. A família era numerosa, os encontros eram animados e “barulhentos” e, suspeita o sobrinho-neto, talvez fosse por isso que o tio-avô “não era presença assídua” nessas reuniões. Em alternativa, a família deslocava-se a Gaia, onde morou nos últimos anos de vida, para vê-lo.

A festa dos 80

Em 1972, por ocasião do seu 80.º aniversário, a família juntou-se para celebrar Sarmento de Beires, já Nuno era adolescente. Como presente, o sobrinho-neto montou e pintou um modelo de um avião SPAR, que muito entusiasmou o antigo militar. É uma das memórias mais bonitas que preserva desta figura, que olhava com um misto de amor e admiração. Quando entregou o presente, o aviador exclamou, muito entusiasmado: “Ah, eu pilotei tanta vez um avião deste!”. Seguiu-se depois uma conversa sobre aviões, com direito a explicações sobre a arte de pilotar. “Foi o momento mais fantástico de interacção que tive com ele: um pioneiro da aviação a mostrar como funcionava aquilo que eu só estava habituado a ver em kits e em brinquedos”, destaca.

Engenheiro de formação, Nuno acabou por nunca seguir profissionalmente nada ligado à aviação, apesar de sempre ter sentido uma curiosidade muito grande pela área. Também nunca conseguiu “descortinar melhor o homem por detrás do herói”, que era o seu tio-avô. Afinal, Sarmento de Beires morreu, em 1974, quando Nuno era apenas um adolescente de 16 anos.

Talvez seja por isso mesmo que, ao longo da sua vida, se tem dedicado também a perpetuar a memória do tio, envolvendo-se nos vários projectos que visam assinalar a sua memória. “A minha mulher [a investigadora Isabel Maria Morujão] trabalha há vários anos na reedição dos livros das viagens aéreas de Sarmento de Beires e agora, quando se deu a comemoração do centenário da viagem, fiquei como representante da família junto da comissão do centenário”, assinala.

Militar, aviador, escritor e político

Olhando para os livros “De Portugal a Macau” e de “Asas que naufragam”, onde Sarmento de Beires relata as suas viagens aéreas, Nuno considera também que o tio-avô foi pioneiro numa literatura de viagens aéreas, em Portugal. “O meu pai uma vez disse à minha mulher: como estás ligada à universidade, pega nos livros do tio e vê o que achas daquilo. Ela interessou-se e percebeu haver ali um recorte literário, que não é nada habitual em tudo o que sejam os relatos das viagens aéreas daquele tempo”, diz. Provavelmente, especula Nuno, será também fruto do seu passado enquanto escritor, já que colaborou com várias publicações, incluindo a revista Seara Nova e o Diário de Lisboa.

Conhecido opositor do regime que vigorava então, Sarmento de Beires, em pleno Estado Novo, participou activamente na revolta de 26 de Agosto de 1931, cujo mentor era Utra Machado. Foi, por isso, preso e julgado em 1933, acabando por ser condenado a sete anos de desterro e à perda dos direitos cívicos durante dez anos. Nuno julga que esse é um dos motivos por que a viagem Portugal-Macau acabou por ser “esquecida no país”, mas também há outros. “O facto de Brito Paes ter morrido precocemente em 1934 pode também ter levado a que isso acontecesse”, diz.

Na família, porém, Sarmento de Beires nunca foi esquecido. “A aventura e a narrativa de viagem sempre foram bastante faladas na família, a parte política nem tanto, conforme os tempos”, recorda. Em 1950, Sarmento de Beires, ao abrigo da Lei da Amnistia, regressou do exílio, sendo reintegrado no Exército com o posto de Major e promovido a Coronel, em 1972.

Um trio de aviadores unidos

Imbuídos de espírito de missão, como bons militares que eram, o trio de aviadores tinha diferentes competências que se completavam. Manuel Gouveia era um “excelente mecânico”, diz o investigador Henrique Henriques-Mateus, juntando-se, assim, ao piloto Sarmento de Beires e a Brito Paes, que iria comandar a missão. “Eram homens que se davam bem, que corriam todos para o mesmo lado e com espírito de sacrifício”, destaca.

Nascido em 1884, em Colos, Vila Nova de Milfontes, António Jacinto da Silva Brito Paes foi um navegador condecorado pelas aviações portuguesa e francesa, que morreu cedo, aos 49 anos, depois de dois aviões de instrução colidirem. Já José Manuel Sarmento de Beires era natural de Lisboa, nascido em 1892. Militar, aviador, escritor e político, além da viagem de 1924, em 1927 comandou o aparelho que fez a primeira aérea nocturna do Atlântico Sul. Foi depois dessa data que se opôs ao regime do Estado Novo, que vigorava então, acabando por ser preso e forçado ao exílio. Morreu em 1974. Por seu turno, o mecânico Manuel António Gouveia nasceu no Porto em 1890 e foi atropelado em 1966, acabando por morrer.

Mais de metade da viagem tem lugar no Breguet 16 Bn2, um biplano monomotor de 300 cavalos, a que se chamou Pátria, o que, para o investigador, é surpreendente. “Um avião de duas pessoas, que leva três — a dada altura da viagem, o piloto diz a Manuel Gouveia que os comandos estão presos e a responder mal”, diz Henriques-Mateus, que remata: “Ele examina aquilo e diz que prendia os cabos dos comandos com as pernas.”

Com um avião chamado Pátria, em homenagem ao povo português, os aviadores perpetuavam a ideia de “por ares nunca dantes navegados”, que culminaria com um “abraço” a uma comunidade que se encontrava muito longe de Portugal. Ainda assim, recorda, como ninguém sabia que eles estariam a chegar, quando chegaram ao território, ficaram “desiludidos”, pois não eram muitos os que se encontravam à sua espera. Mas durou pouco, já que rapidamente começaram a organizar-se encontros e celebrações pela sua chegada.

Manuel Gardete e Mário Correia lançam documentário durante o centenário

Com um livro já escrito sobre os pioneiros da aviação, o historiador Mário Correia foi desafiado por Manuel Gardete a empreender numa série de três documentários: um sobre o voo de Sacadura Cabral e Gago Coutinho até ao Brasil, em 1922, outro sobre a viagem de 1927, que ligou Guiné ao Brasil e, finalmente, um sobre a viagem de Portugal a Macau, em 1924. “O pioneirismo, seja onde for, é sempre alguém à frente, é como se tivesse uma espécie de angústia: isto vai ser assim, mas vai ter de ser. Essa é a pulsão do pioneiro”, explica o guionista.

“Asas no Oriente – Viagem a Macau em 2024” é um documentário sobre esta viagem histórica de 1924, escrito com base no diário de viagem de Sarmento de Beires, “De Portugal a Macau”. Centrando-se numa conversa entre Mário Correia e o historiador Henriques-Mateus, visa mostrar o que aconteceu na viagem, as principais peripécias e os desafios superados.

Um feito extraordinário, com peripécias

O investigador Henriques-Mateus, actualmente consultor do Museu do Ar, destaca alguns pontos da viagem. “Acho que as principais peripécias — e, às vezes, as pessoas não se apercebem disso — foram a travessia aérea do norte de África, porque é a primeira vez que é feita”, recorda. Além disso, destaca a longevidade do primeiro avião em que viajavam os três aviadores. “Quando ele vai cair lá perto, na aterragem, já tinha excedido em muito os prognósticos dos aviadores franceses”, recorda, acrescentando que “é um trabalho extraordinário, passar por cima de montanhas e a voar alto, num avião aberto, sem máscaras de oxigénio”. No fim, o resultado foi “chegar a Macau naquele abraço português”. O objectivo seria, contrariamente ao que costuma ser veiculado, “chegar mais longe com o avião que tinham” e não fruto de um ímpeto imperialista.

Depois, deu-se a queda do segundo avião, com o clima a dificultar a aterragem no território. “De qualquer maneira, a viagem fez-se, porque eles passaram por cima de Macau, mas não conseguiram aterrar em Macau, eles foram já aterrar em território chinês, passaram por cima de Macau”, afirma. Chegou-se, por isso, a pensar em comprar um terceiro avião para aterrar no território, acabando por se afastar a ideia. “No fim, aquelas recepções em Macau, as ruas cheias de gente é uma coisa extraordinária.”

A importância para a história

Enquanto conceito que temos hoje, a aviação moderna nasce verdadeiramente no fim da Primeira Guerra Mundial. “Sobram muitos aviões, mecânicos, pilotos desempregados e começa a pensar-se que, se deu para andar ali às voltas na Guerra, dá para transportar pessoas”, diz Mário Correia. Com grandes potências como os Estados Unidos, França e Inglaterra em busca de “demonstrar a sua superioridade”, Portugal concorreu em ousadia nesta viagem aérea.

A percorrer quase 17 mil quilómetros durante 115 horas de voo, os aviadores sobrevoaram África, Médio Oriente e Ásia, numa das mais longas viagens aéreas da história, em 1924. “A importância foi participar nesse ganhar de confiança para dar dimensão da aviação.”

O documentário “Asas no Oriente – Viagem a Macau em 2024” está disponível no sítio do Centro Científico e Cultural de Macau, em Portugal.

Diogo Vilhena irá apresentar documentário sobre o raid aéreo em 2025

Intitulado “Milfontes-Macau: Um retrato de 100 anos de histórias inspiradas por uma viagem”, o documentário da autoria de Diogo Vilhena visa contar a história da viagem aérea que ligou Portugal a Macau, feita por Sarmento de Beires, Brito Paes e Manuel Gouveia. O realizador preparou uma pequena apresentação, no dia 21 de Setembro, em Vila Nova de Milfontes, por ocasião do centenário da viagem, mas o projecto final deverá ser apresentado, simultaneamente, em Macau e em Portugal, no dia 10 de Junho de 2025.

Diogo Vilhena é natural de Vila Nova de Milfontes, terra de onde partiu o Breguet e Brito Paes, um dos três aviadores a bordo do Pátria, era do concelho de Odemira. “Quando eu era bem pequenino, as pessoas contavam aquela história como se fosse a história do Indiana Jones e eu sempre perguntava às pessoas onde era Macau”, recorda o realizador. As pessoas respondiam-lhe: “Diziam-me que tinha de fazer um buraco no chão e do outro lado do mundo era Macau. Mas, como é que, fazendo um buraco no chão, estes homens chegaram lá com um avião?”

Curioso, Diogo Vilhena nunca se esqueceu daquela história. Quando a viagem comemorou os seus 80 anos, durante uma celebração organizada pela Câmara Municipal de Odemira, depois de ouvir a comunicação do historiador da terra, António Quaresma, a explicar aos jovens a viagem, o realizador decidiu que iria fazer um documentário sobre o trajecto. Viria então a associar-se ao investigador, mais tarde, já com formação na área de Audiovisuais, para desenvolver este projecto.

Os intervenientes

Neste, constam entrevistas a pessoas com memória local, como jornalistas, investigadores, assim como os diferentes ramos familiares ligados aos aviadores, como o sobrinho-neto de Manuel Gouveia, que é engenheiro da Airbus e desenvolve asas de avião, pessoas da aviação e conhecedoras da aeronáutica. ”Tenho a neta de Brito Paes, que nos conta que o seu bisavô entrega o anel de família ao Brito Paes para fazer a viagem, quase como significado de todo o apoio familiar daquela família e, quando regressam a Lisboa, Brito Paes devolve o anel ao pai, mas inscrevendo Milfontes Macau e com o número de quilómetros que fizeram nessa distância”, revela.

E há alguns pontos inovadores neste documentário. “Consegui, em Macau, recuperar poemas escritos há 100 anos aos aviadores”, diz, assinalando que pediu ainda a alunos do colégio que declamassem um pequeno texto escrito pelo escritor Camilo Pessanha sobre a recepção dos pilotos há 100 anos.

Para cada uma das pessoas presentes no documentário, o realizador preparou um desafio. “Tenho um artista plástico, chamado Pedro Soares, de Odemira, dando corpo à narrativa que Sarmento de Beires escreveu [no livro “De Portugal a Macau”], que descreve aquilo como se fosse um artista plástico a pintar uma tela em delírio, e eu peguei num artista plástico com essas características e desenvolvi uma narrativa em que mostro como seria essa visão”, revela.

No trabalho, conta ainda com a colaboração de uma harpista [Maria Sá Silva], do Porto, que preparou a banda sonora original para a partida destes pilotos. “Foi uma ligação muito feliz, porque consegui transparecer a força e a vontade que aquela gente tinha naquela altura”, salienta.

Contando com inúmeras entrevistas, filmadas em diferentes locais como Porto, Aveiro, Macau, Sintra, Lisboa, Hong Kong, Odemira e Colos, Diogo Vilhena pretende fazer uma apresentação dupla, ao mesmo tempo, em Macau e em Portugal, do documentário, a 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Documentários, conversas, exposições e muitos outros eventos, em Lisboa e Vila Nova de Milfontes, acabaram por marcar as comemorações do centenário do voo que ligou Portugal e Macau. No território, a efeméride foi celebrada com uma exposição itinerante, a apresentação do livro “De Portugal a Macau, a Viagem do Pátria”, além de conferências e uma placa comemorativa. Luciana Leitão in “Ponto Final” - Macau