Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Literário de Macau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Literário de Macau. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Macau - Rota das Letras regressa à Casa Garden para celebrar a 15.ª edição

Tal como já acontece há dois anos, o Festival Literário de Macau – Rota das Letras volta a ter lugar na Primavera. O evento – um dos mais relevantes ao nível das artes no território – vai ocupar a Casa Garden entre os dias 5 e 15 de Março, apresentando uma programação diversa que vai para além das letras e explora expressões artísticas como o cinema, o teatro e a música. A lista de convidados é extensa e inclui desde poetas locais a argumentistas de filmes de Hollywood


O Festival Literário de Macau – Rota das Letras está de regresso. A 15.ª edição do evento decorre de 5 a 15 de Março na Casa Garden, voltando a plantar no coração da Península uma celebração primaveril da arte nas suas múltiplas vertentes. Da literatura ao cinema, passando pela música e pelo teatro, a Rota das Letras oferece uma palete diversificada de manifestações artísticas produzidas por autores de diferentes culturas, em diferentes línguas, para o público igualmente heterogéneo de Macau.

O propósito da iniciativa mantém-se inalterado desde 2012, aquando da primeira edição: materializar “um ponto de encontro fundamental entre culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente”. A morada principal é a Casa Garden, onde decorrerão as habituais sessões de discussão e de lançamento de livros que caracterizam o festival, mas a programação contempla ainda a exibição de filmes, representações teatrais e concertos em vários espaços culturais da cidade.

A “celebração” e o “diálogo intercultural” são as forças motoras da presente edição, segundo adianta a organização em comunicado de imprensa. Celebra-se, sobretudo, os 15 anos de realização ininterrupta da Rota das Letras, que manteve a sua função enquanto ágora artística e cultural mesmo em plena pandemia de Covid-19 e que continua a ser uma referência incontornável na aproximação dos polos ocidental e oriental.

Será também assinalado o centenário do falecimento de Camilo Pessanha, poeta português que viveu, morreu e garantiu um lugar perene no território ao ser sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo. “A sua ligação profunda a Macau e o seu legado literário serão revisitados através de diversas iniciativas, sublinhando o papel da cidade como ponte entre mundos”, indica o comunicado, que desvenda ainda três nomes envolvidos na celebração. São eles António Carlos Cortez, poeta e professor de Português e Literatura; Carlos Morais José, escritor e jornalista radicado em Macau; e Christopher Chu, escritor e jornalista que já publicou um livro sobre os trinta anos em que Pessanha viveu na cidade.

Embora a programação completa ainda não tenha sido divulgada ao público, já é possível saber qual o foco do dia de abertura do festival, a 5 de Março. Nesse dia, estará em destaque a exposição “Territórios Humanos: Fotografia, Pertença e Memória”, que reunirá imagens captadas pela óptica do português Alfredo Cunha e do chinês Liu Zheng e explorará as suas “identidades” particulares, bem como as “narrativas” comuns que se cruzam nos respectivos acervos fotográficos. A mostra será acompanhada pelo lançamento de dois livros de fotografia.

Nomes sonantes da literatura

O painel completo de convidados será divulgado em comunicado posterior, mas já se conhecem alguns dos nomes locais e internacionais que integrarão as sessões desta edição da Rota das Letras.

O panorama literário local divide-se entre os poetas Yao Feng, Cheung Wai Man, Kam Un Loi e Nick Groom, no lado masculino, e Rai Matsu e Zita Si Tou Chi U, no lado feminino. A lista de convidados radicados em Macau inclui também o pintor Konstantin Bessmertny e o maestro Veiga Jardim. Por sua vez, Rui Leão e Maria José de Freitas e “outros autores locais” vão homenagear a obra do arquitecto macaense José Maneiras, falecido em Novembro do ano passado.

As sessões dedicadas ao mundo lusófono contarão ainda com a presença de dois jornalistas e escritores que no ano passado publicaram, individualmente, livros sobre personalidades portuguesas de diferentes espectros políticos. Falamos de João Miguel Tavares, autor de José Sócrates – Ascensão (1957-2005), e de Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal. Destaque ainda para a jornalista Andreia Sofia da Silva com O lápis vermelho, livro que se debruça sobre os efeitos da censura do Estado Novo nos territórios ultramarinos, com especial foco na imprensa de Macau.

No que respeita à literatura em língua chinesa, a lista de convidados é composta por nomes bastante sonantes e reconhecidos tanto pelo público como pela crítica especializada. O comunicado começa por mencionar Bi Feiyu, vencedor de prémios como o Man Asian Literary Prize, o Lu Xun Literary Prize e o Mao Dun Prize – provavelmente, o mais prestigioso prémio literário chinês.

Seguem-se escritores como Xiao Bai, autor de Xangai que também venceu o prémio Lu Xun; Gu Shi, detentora dos prémios Nebula e Locus pelas suas histórias de ficção científica; e Lu Jian, poeta da geração “pós-anos 80s” galardoado com o Prémio de Poesia Zhang Qiang. Importa ainda mencionar o nome de Xie Youshun, que se destaca dos demais por se dedicar à análise e crítica da literatura contemporânea chinesa – responsabilidade que lhe mereceu, aliás, a atribuição do Prémio Feng Um de Crítica Literária.

Por seu turno, a categoria das letras internacionais é representada por personalidades de múltiplas línguas e continentes. No continente asiático, incluem-se o escritor indiano Amitav Ghosh – considerado um dos grandes vultos da literatura mundial graças à sua “Trilogia Ibis” e à forma como retrata temas como colonialismo, ambiente e identidade humana – e Elisa Shua Dusapin, romancista franco-suíça com raízes sul-coreanas cuja obra de estreia, Inverno em Sokcho, se situa precisamente na cidade turística da Coreia do Sul.

Viajando até às Américas, encontramos Hernán Diáz, escritor argentino-americano que venceu o prémio Pulitzer em 2023; Carlos Andrés Gomez, colombiano-americano que escreve e declama poesia ‘spoken word’; e Guy Delisle, cartoonista canadiano conhecido pelos seus livros de viagem sobre destinos pelo mundo fora – incluindo a China, que explorou no livro de 2000 Shenzhen: A Travelogue from China.

A Europa é representada pelo britânico Adam Sisman, autor de biografias aprofundadas sobre figuras como A. J. P. Taylor ou Hugh Trevor-Roper, e pelo trio envolvido na concepção do filme “Ballad of a Small Player”, lançado na Netflix no final do ano passado: Lawrence Osborne, o autor do livro homónimo de 2014, e Mike Goodridge, o produtor da longa-metragem. Este filme, recorde-se, foi gravado em Macau no Verão de 2024 e catapultou cenários bem conhecidos da região, como templos e casinos, para os ecrãs dos utilizadores da Netflix.

Para além das letras

Enveredando pela área do cinema, a programação tem espaço para uma homenagem à sétima-arte portuguesa com a apresentação de “Salatinas”, um documentário assinado pela jornalista Filipa Queiroz que aborda a expulsão de cerca de três mil residentes da Alta de Coimbra para dar lugar à Cidade Universitária.

O cinema português vai também estar representado por Tiago Guedes, com os seus filmes “A Herdade”, de 2019, e “Restos do Vento”, de 2022. Para além de realizador de cinema, é também encenador da peça de teatro “À Primeira Vista”, que terá assim a sua estreia em Macau. A ocasião marca o regresso da actriz Margarida Vila-Nova ao território, onde já residiu e inclusive fundou projectos como a Mercearia Portuguesa ou a Futura Clássica.

“À Primeira Vista” é a versão portuguesa do monólogo de 2019 “Prima Facie”, que a produtora Força de Produção descreve na sua página oficial como “uma das mais reconhecidas pelas de teatro dos últimos anos”. Com assinatura de Suzie Miller, o espectáculo promete um “thriller jurídico de cortar a respiração” sobre temas fortes como “poder, consentimento e lei”.

Quanto ao calendário musical, o único nome até agora confirmado é o de Rodrigo Leão. O músico e compositor, figura essencial do género ‘new age’ em Portugal e membro das bandas Sétima Legião e Madredeus, tem actuação marcada para a noite de 11 de Março no Centro Cultural de Macau.

O comunicado de imprensa sublinha que serão “brevemente” acrescentados “nomes adicionais” a esta primeira lista de convidados. A 15.ª edição do Festival Literário de Macau é organizada com o apoio do Governo de Macau e de representações diplomáticas, associações locais, empresas (sobretudo as do sector hoteleiro) e órgãos de comunicação social. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 21 de março de 2025

Macau - Começa o XIV Festival Literário, uma convergência cultural de dez dias

Macau recebe a edição de 2025 do Festival Literário, um festival multidisciplinar que mistura literatura, fotografia, cinema e música, com artistas internacionais e um programa diversificado de eventos que se estende até ao dia 30 de Março



Arrancou hoje às 17h a décima quarta edição do Festival Literário de Macau, um festival de dez dias que reúne literatura, fotografia, cinema e música, até ao dia 30 de Março. O evento pretende envolver o público através de uma variedade de formatos, incluindo painéis de discussão, exposições de arte e fotografia, projecções de filmes e documentários e espectáculos ao vivo.

O festival teve início com um evento de pré-abertura ontem, marcado pela inauguração de “O Vento Sopra na Pradaria”, uma exposição de fotografia de Wang Zhengping. Hoje, a abertura oficial apresentará “Novas Independências”, uma exposição de fotografia de Alfredo Cunha, juntamente com um debate sobre a escrita de poesia na era da inteligência artificial, com a participação de Jia Wei, Xu Jinjin, Zang Di, Chan Ka Long e Shanshan Wang. Os eventos do dia de abertura encerram com um concerto de Peace Wong.

O programa inclui uma série de novos lançamentos, painéis literários e projecções de filmes no dia 22 de Março. Jessie Rao Yongxia conduzirá um workshop de fotografia, “Novo Tempo Nómada. Observação Singular”, enquanto André Letria apresentará a palestra, “Desenhar Palavras, Escrever Imagens”. O lançamento de livros inclui “A Rapariga que Sonhava”, de Sonia Leung, e “O Teu Rosto Será o Último”, de João Ricardo Pedro e Luís Filipe Rocha, que também será apresentado como filme posteriormente no festival. Entre os eventos adicionais contam-se um workshop de ilustração por André Letria, uma ‘masterclass’ de escrita criativa por Sonia Leung, e debates sobre a literatura de Hong Kong e Macau, bem como sobre a Rota Marítima da Seda.

Já no dia 23 de Março, haverá uma visita guiada a Macau, conduzida por Jason Wordie, uma palestra de Xu Jinjin sobre a escrita para uma poética de testemunho e o lançamento da revista “halftone#11 – Fabula Orientis & Other Stories”. Será também lançado o livro “Mais Uma Desilusão” de Valério Romão, seguido de um recital de poesia, “Voar Para Além de Novas Formas de Ignorância”. O dia contará ainda com um workshop de fotografia por Jessie Rao Yongxia, uma sessão de cinema e debate sobre habitação económica de Portugal a Macau e a projecção do filme “Cinzento e Negro”, de Luís Filipe Rocha.

A aposta na literatura e no património cultural prossegue no dia 24 com exposições de fotografia e sessões de cinema, mantendo a diversidade da programação ao reunir vozes de diferentes origens para debater os temas apresentados.

De 25 a 27 de Março, o festival promove sessões de cinema e debates, incluindo “Amor e Dedinhos de Pé” e “Sinais de Fogo”, de Luís Filipe Rocha, e documentários como “À Medida que Fomos Recuperando a Mãe” e “A Mulher que Morreu de Pé”.

Os eventos de encerramento do festival, nos dias 29 e 30 de Março, incluem debates sobre a escrita feminina de romances, as mudanças sociais em 2025 e a relação entre poesia e música. Também as palestras abordarão temas que vão desde a história de Angola, às alterações climáticas e à literatura lusófona. O lançamento de livros contará com obras de Marina Pacheco, Lin-Tchi-Fá, Tony Banham, Paul French e Thomas DuBois, a par de uma sessão de ilustração e contos com a participação de Catarina Mesquita, Lydia Ieong e Rodrigo de Matos, e um concerto da Lisbon Poetry Orchestra. O festival termina com “Um Banquete de Histórias – Sete Pratos, Sete Tradições”, uma experiência sensorial que combina narração de histórias e gastronomia.

Os locais da edição de 2025 do Festival Literário de Macau incluem o histórico Antigo Matadouro Municipal, o Teatro Capitol, o Teatro D. Pedro V, o Albergue SCM, o Artyzen Grand Lapa Macau e o Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. Guiomar Salema – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 6 de março de 2025

Macau - Festival Literário leva poesia ao Porto Interior entre os dias 21 e 30 de Março

A 14.ª edição do Rota das Letras – Festival Literário de Macau vai acontecer entre os dias 21 e 30 de Março. O festival regressa este ano à zona da Barra e volta a ter como tema principal a poesia. Os 50 anos do fim da guerra colonial e os 100 anos da publicação de Lin-Tchi-Fá, Flor de Lótus, também vão estar em foco. Lisbon Poetry Orchestra, Xana, Xu Jinjin, Valério Romão e António Costa Silva, entre outros, vão estar presentes



O 14.º Rota das Letras – Festival Literário de Macau vai acontecer entre os dias 21 e 30 de Março, anunciou a organização. Nesta edição, o evento volta à zona da Barra e terá como tema a poesia, como aconteceu em 2019.

A programação do festival conta com duas dezenas de palestras, três exposições, um ciclo de cinema, um concerto, visitas a escolas e oficinas de fotografia e de escrita criativa. A programação detalhada será divulgada em breve pela organização.

A habitual parte musical, que acontece no dia 29 de Março, vai estar a cargo da Lisbon Poetry Orchestra, que faz a sua estreia em Macau. A banda vai apresentar um espectáculo intitulado “Os Surrealistas”, trazendo como convidada especial Xana, a vocalista dos Rádio Macau. Os Poetry & Music, do antigo responsável pela organização do Festival Literário de Pequim, Anthony Tao, farão a primeira parte do concerto, com uma actuação que terá como tema “O Mito da Escrita”.

Uma vez que o ponto focal desta edição é a poesia, o Rota das Letras traz a Macau vários poetas chineses, como por exemplo Xu Jinjin, artista interdisciplinar que divide o seu tempo entre Xangai e Nova Iorque, expondo os seus trabalhos com regularidade em museus de ambas as cidades. Xu Jinjin foi recentemente premiada pela Sociedade Americana de Poesia. A Xu Jinjin juntam-se, entre outros poetas, Valério Romão, de Portugal, Zang Di e Jia Wei, de Pequim, Chan Ka Long e Wang Shanshan, de Macau. As récitas de poesia, apresentações de novos livros, palestras e workshops vão decorrer no edifício do Antigo Matadouro Municipal.

A ocasião vai servir para assinalar o 100.º aniversário da publicação de Lin-Tchi-Fá, Flor de Lótus, um livro de poemas de Maria Anna Acciaioli Tamagnini. No festival, serão lançadas traduções inéditas da obra para chinês e inglês.

O Rota das Letras também vai assinalar os 50 anos do fim da guerra colonial e da independência dos Países Africanos de Língua Portuguesa através de uma exposição do fotojornalista português Alfredo Cunha, que fez a cobertura desses acontecimentos históricos. Além disso, o realizador Luís Filipe Rocha, que adaptou para o cinema o romance “O Teu Rosto Será o Último”, de João Ricardo Pedro e que também aborda o tema da descolonização, regressa a Macau, depois de, no final da década de 1980 ter dirigido no território a programação da TDM e filmado “Amor e Dedinhos de Pé”, uma adaptação do romance de Henrique de Senna Fernandes.

Ainda dentro da temática da descolonização, virá a Macau António Costa Silva, escritor, poeta, ensaísta e antigo ministro português da Economia e do Mar. António Costa Silva vai apresentar no território o romance “Desconseguiram Angola”, sobre um período vivido há já meio século, “quando no meio de uma guerra fratricida se procurava construir a nação angolana”.

Chen Jiming, vice-presidente da Associação de Escritores de Guangdong, também vai estar presente. Ao longo da sua carreira tem coleccionado distinções literárias, incluindo o Prémio Anual da Literatura Chinesa para o Melhor Novelista, o Prémio Literário do Povo e o China Good Book Award, entre outros. “Cidade dos Sete Passos” e “Monólogo em Voz Alta” são dois dos romances mais premiados do autor.

Vão também fazer parte desta edição do Rota das Letras autores de língua inglesa. O escritor britânico Paul French traz ao festival os seus dois últimos trabalhos: “Her Lotus Year”, biografia de Wallis Spencer, “Duquesa de Winsor”, sobre o período que viveu na China durante os anos 20 do século passado; e “Destination Macao”, uma colecção de histórias sobre algumas das mais fascinantes figuras do território dos séculos XIX e XX. Tony Banham, de Hong Kong, apresenta o resultado da sua investigação sobre o afundamento do navio Lisbon Maru. Thomas DuBois, autor sediado em Pequim, dá a conhecer a China em “Sete Banquetes”, um estudo profundo da história da gastronomia chinesa.

Os livros para os mais novos serão levados às escolas por Chen Shige, o primeiro escritor pós-anos 80 a ganhar a mais alta distinção da literatura infantil na China, e por André Letria, ilustrador e editor português que tem já várias das suas obras publicadas em língua chinesa. Sophia Hotung, ilustradora de Hong Kong, vem ao festival partilhar a sua arte com o público de Macau.

Na véspera da abertura do festival, Wang Zhengping, considerado um dos grandes mestres da fotografia chinesa, inaugura na Galeria do Tap Seac, a exposição “O Vento Sopra na Pradaria”, um olhar poético sobre os campos de pastagens da Mongólia Interior e quem os habita. Rao Yongxia, discípula de Wang, seguiu-lhe os passos e mostra o seu trabalho dias mais tarde, na Galeria do Albergue da Santa Casa da Misericórdia.

O evento, organizado pela Sociedade de Artes e Letras e pela Praiagrande Edições, é patrocinado pela MGM Macau, contando também com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura e de outras entidades. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Macau - Festival Literário avança detalhes do programa completo

Para além do programa já anunciado, com a vinda dos autores portugueses Francisco José Viegas e Valério Romão, o Festival Literário de Macau revelou mais nomes e detalhes do programa da sua 12.ª edição que junta escritores da Grande Baía e da Lusofonia em Macau entre os dias 6 e 15 de Outubro. A par da literatura contemporânea, prestar-se-á tributo a nomes grandes do passado: Camões, Shakespeare, W.H. Auden e J.R.R. Tolkien


Depois de três edições em que o Festival Literário de Macau, devido à pandemia, apenas pôde contar com a presença de autores locais, o evento deste ano marca o regresso de convidados vindos de fora. Segundo um comunicado enviado ontem às redacções pela organização, de Portugal chegam Valério Romão e Patrícia Portela, dois jovens escritores que têm em comum a originalidade das suas obras e passagens anteriores por Macau. Já António Caeiro, outro dos convidados, é um veterano do jornalismo com largos anos de trabalho na China. No festival vai apresentar o seu último trabalho, “Os Retornados de Xangai”. Francisco José Viegas, nome já anunciado, é o único dos participantes do exterior que já antes esteve no Rota das Letras, em 2015. Vem agora para falar das suas mais recentes novelas policiais, “Melancholia” e “Luz em Pequim”, e também para apresentar duas obras da editora Quetzal, que dirige: “O Jogo das Escondidas”, romance póstumo de Fernando Sobral antes publicado em fascículos pelo jornal Hoje Macau; e “Jornadas pelo Mundo”, do Conde de Arnoso, que retrata Macau e a China de finais do séc. XIX.

O centenário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes abre o festival a 6 de Outubro, com o lançamento do primeiro livro de ensaios sobre a produção literária do escritor macaense, trabalho dirigido e coordenado por Lola Xavier e Pedro d’Alte, ambos professores da Universidade Politécnica de Macau. Na mesa deste primeiro painel vai estar ainda Miguel de Senna Fernandes, também autor e filho do homenageado. Antes desta sessão, e logo após a cerimónia de abertura do 12.º Festival Literário de Macau, vai ser inaugurada na galeria da Livraria Portuguesa a primeira exposição individual de pintura do artista norte-americano Benjamin Hodges, académico que reside em Macau há vários anos.

Este ano, o Rota das Letras vai ter a sua base, numa primeira fase, na Livraria Portuguesa, de 6 a 8 de Outubro, e depois na Casa Garden, sede da Fundação Oriente, no fim de semana de 13 a 15 do mesmo mês. Por ambos os espaços vão também passar vários autores de Macau ou aqui baseados: Joe Tang, Erica Lei, Yang Sio Mann, Isaac Pereira, Rui Rasquinho, Rui Farinha Simões, Paulo Cardinal, José Basto da Silva, Marisa C. Gaspar, Andrew Pearson, Tim Simpson, Joshua Ehrlich. Este último, historiador, vai apresentar a obra que recentemente publicou sobre a Companhia Britânica das Índia Orientais, justamente num espaço que outrora lhe serviu de sede, a Casa Garden.

A Grande Baía vai estar representada por nomes importantes das letras chinesas. Deng Yiguang, escritor de etnia mongol nascido em Chongqing, mas hoje baseado em Shenzhen, é um autor já galardoado com o Prémio Literário Lu Xun, um dos mais importantes da China.

Os seus romances estão traduzidos em várias línguas estrangeiras e têm sido, frequentemente, adaptados ao cinema. Fu Zhen, natural de Nanchang, em Jiangxi, agora radicada em Hong Kong, é uma das escritoras mais influentes da nova geração. Vem a Macau falar do seu primeiro romance, “Zebra”, e também dos vários livros de viagens que já publicou. Wang Weilian é outro dos jovens autores chineses de maior talento. Sinal disso, o ter sido distinguido com o Prémio Literário Mao Dun para Novos Autores e com a medalha de ouro na mais importante competição literária da China para obras de ficção científica.

Vem de Cantão, como vem também Zhu Shanbo, autor de vários romances históricos e colecções de contos. Xiao Hai, hoje a viver em Pequim, é um representante da chamada poesia operária chinesa, um género literário que está a ressurgir na China. No Festival Rota das Letras, vai partilhar a mesa de uma sessão com Valério Romão, que recentemente tem vindo a trabalhar este tema de forma performativa.

Sara Ferreira Costa, poeta, escritora e tradutora portuguesa, já esteve antes envolvida na organização do Rota das Letras, e volta agora como convidada. Vai apresentar a sua poesia e dirigir uma oficina sobre a tradução de poemas chineses, coordenando uma sessão livre de poesia, a ter lugar no bar Vasco’s, no hotel Artyzen-Grand Lapa.

Com o quinto centenário do nascimento do grande poeta português Luís Vaz de Camões a aproximar-se a passos largos – é já em 2024 –, o escritor e jornalista Carlos Morais José, director do Hoje Macau, vai entrevistar na Livraria Portuguesa Edward Wilson-Lee, professor da Universidade de Cambridge e autor de “A History of Water” – uma biografia de Camões que narra também, em paralelo, a vida de Damião de Góis. O autor britânico é especialista em literatura do Renascimento e vai juntar-se aos professores da Universidade de Macau, Glenn Timmermans e Nick Groom, seus compatriotas, na celebração de um outro marco importante da história da literatura: a publicação, há 400 anos, do primeiro livro inteiramente dedicado à dramaturgia de William Shakespeare – o “First Folio”. Noutras sessões do evento, Timmermans vai ainda evocar a figura do poeta britânico W.H. Auden, e Groom vai apresentar a edição mais recente do seu ensaio sobre a obra de J.R.R. Tolkien.

Quanto à fotografia, outra arte com lugar já reservado em cada edição do Festival Literário, vai estar novamente presente através do lançamento de obras da autoria de Rusty Fox e Francisco Ricarte, e do lançamento do sexto número da revista Halftone. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”





sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Macau - 12.º Festival Literário

Vem aí o 12.º Festival Literário de Macau: entre os dias 6 e 15 de Outubro, Macau vai acolher os autores Francisco José Viegas, Valério Romão e Yara Monteiro, depois de três anos sem um programa internacional. No dia 14 de Outubro, a ópera samba “Samba de Guerrilha”, de Luca Argel, vai ser apresentada no Teatro Broadway, e o festival contará ainda com as habituais apresentações de livros de autores locais, exposições, projecções de filmes, e ainda com homenagens póstumas a Luís de Camões, Henrique de Senna Fernandes, Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien


Entre os dias 6 e 15 de Outubro, a cidade volta a abraçar a literatura lusófona e não só, com mais um Festival Literário de Macau. Na sua 12ª edição, há três anos que o Rota das Letras não acolhia artistas internacionais. A ópera samba do brasileiro Luca Argel é o espectáculo de destaque: “Samba de Guerrilha – História do Brasil em três actos” subirá ao palco do Teatro Broadway a 14 de Outubro, com legendas em chinês e inglês. Os bilhetes já se encontram à venda.

A organização do festival revelou os primeiros nomes de escritores lusófonos que vêm a Macau:  Francisco José Viegas, Valério Romão e Yara Monteiro. Estes e outros escritores vão participar em diversas palestras que este ano irão decorrer maioritariamente na Casa Garden e na Livraria Portuguesa. A programação do Festival Literário incluirá ainda diversos eventos de lançamento de livros de autores locais, projecções de filmes, e exposições, num programa que será divulgado nos próximos meses, indicou a organização.

Como habitualmente, o festival também vai celebrar escritores conceituados do passado:  Luís de Camões, Henrique de Senna Fernandes, Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien são os autores de relevo na edição deste ano. O festival vai celebrar o 500.º aniversário do nascimento do maior poeta português, Luís de Camões, o autor da obra épica ‘Os Lusíadas’, que foi parcialmente escrita em Macau. Henrique de Senna Fernandes, respeitado escritor macaense e contador de histórias do Macau antigo, como na célebre obra “A Trança Feiticeira”, completaria 100 anos de idade no dia 15 de Outubro, data em que o festival também encerra. O legado de Pablo Neruda, W’H Auden e J.R.R. Tolkien, três escritores e poetas que coincidentemente faleceram há 50 anos, também será assinalado no Rota das Letras.

Ópera samba

Música, história e imagem irão conjugar-se em cena para contar a História do Brasil, e a luta das populações negras e periféricas em busca de reconhecimento, direitos e dignidade. O espectáculo conta com a narração de Nádia Yracema, cenografia multimédia desenhada em tempo real por António Jorge Gonçalves, e música a cargo de Luca Argel e a sua banda, que estarão no palco do Teatro Broadway no próximo dia 14 de Outubro. Com bilhetes já à venda, e com descontos “early-bird”, “Samba de Guerrilha – História do Brasil em três actos”, de Luca Argel, funde música e literatura.

O espectáculo criado pelo artista carioca radicado no Porto,  é “uma ópera-samba” dividida em três actos: composto por versões de clássicos do samba, que se revelam um “interessante instrumento de pesquisa histórica”, “Samba de Guerrilha” parte da premissa de demonstrar como “as velhas questões dos tempos coloniais e dos primeiros anos do Brasil enquanto nação, em especial a escravatura, continuam, ainda hoje, a condicionar a vida de milhões de pessoas, sob a forma de racismo, pobreza e todo o tipo de discriminação social”, indicou a organização em nota.

O primeiro acto começa com o “Samba do Operário, tema escrito pelo mítico Cartola em parceria com um português de Alfama, chamado Alfredo, que se estabeleceu no morro da Mangueira em fuga à ditadura de Salazar”.  Cada canção é antecedida por uma narração que faz a contextualização histórica e social de cada momento. “O contraste entre a voz que canta, de um homem branco e brasileiro, e a que conta, de uma mulher negra e africana, é bastante simbólico”, destacou a organização. O segundo acto recorda a abolição da escravatura, mas os dois “jongos” (estilo musical anterior ao samba) que se seguem demonstram “como tudo ficou quase igual, ou pior, levando ao êxodo para as grandes cidades, onde a marginalização continuou, como se percebe ao ouvir ‘Direito de Sambar’ ou ‘Agoniza mas Não Morre’”. No terceiro acto, os espectadores são introduzidos a João Cândido, marinheiro negro que, em 1910, liderou a Revolta da Chibata contra os castigos físicos ainda em vigência na armada. O “almirante negro” ficaria imortalizado no samba com o mesmo nome, samba proibido na altura pela censura, por a patente de almirante não poder ser associada à palavra negro.

Luca Argel nasceu em 1988 no Rio de Janeiro, Brasil, e é licenciado em música pela UNIRIO e mestre em Literatura pela Universidade do Porto. Tem livros de poesia publicados no Brasil, Espanha e Portugal, um dos quais foi semi-finalista do Prémio Oceanos 2017. Entre o trabalho como vocalista e compositor, seja em projectos colectivos ou bandas sonoras para cinema e dança, e a assinatura de programas de rádio dedicados à música brasileira, tem vindo a desenvolver a sua carreira a solo a um ritmo consistente e crescente, com êxitos como “Samba de Guerrilha” e “Anos Doze”.

António Jorge Gonçalves é um autor português de banda desenhada, cartoonista, performer visual, ilustrador, cenógrafo e professor. É autor de várias obras de desenho gráfico, e tem colaborado com vários escritores como Rui Zink, Ondjaki ou Mário de Carvalho na criação de livros onde texto e imagem se relacionam de forma exploratória. Recebeu em 2013 o Prémio Nacional de Ilustração em Portugal pelo livro “Uma escuridão bonita”, com Ondjaki. Fez cenografia e figurinos para várias peças de teatro. Através do método de Desenho Digital em Tempo Real e da manipulação de objectos em Transparency Overhead Projetor, tem criado espectáculos com músicos, actores e bailarinos. Recentemente, escreveu e realizou o filme/espectáculo “Lisboa quem és tu?” para ser projectado nas paredes do Castelo de São Jorge em Lisboa.

Nádia Yracema nasceu em Luanda, Angola. Começou a aprender e a representar com o Teatro Universitário de Coimbra, concluindo a sua formação no ano lectivo de 2007/2008, enquanto frequentava a licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra. Ingressou no curso de representação da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa em 2012. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”




sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Macau - A cultura que regressa à cidade

Depois de mais de seis meses de confinamento, a cultura está a regressar, gradualmente, aos espaços de Macau. Em moldes diferentes dos habituais e em circunstâncias especiais, há exposições a inaugurar, um festival literário já com datas e documentários a estrear



O Festival Literário de Macau – Rota das Letras já tem data e tema. A Babel vai apresentar um ciclo de documentários sobre artistas de Macau. Rui Rasquinho tem desenhos para mostrar. A Orquestra Sinfónica Jovem de Macau tem Beethoven para tocar. O Festival da Lusofonia quer arrancar. Há cultura a regressar, aos poucos, ao dia-a-dia da cidade. Há também incerteza quanto à edição deste ano do festival This Is My City.

Este ano, o Festival Literário de Macau será mais curto do que as anteriores edições. Arranca no dia 2 de Outubro e termina no dia 4. “O festival deste ano decorre em apenas três dias. É significativamente mais pequeno, porque a escala não se pode comparar com o que aconteceu em anos anteriores, sem a pandemia”, justificou ao Ponto Final Alice Kok, directora executiva do festival. Assim, o tema do festival será a pandemia e o confinamento, adiantou.

A organização do festival ainda está a negociar com o Governo quais os espaços disponíveis para receber as sessões do festival, “porque, como toda a agenda foi alterada e muitas actividades foram adiadas para a segunda metade do ano, alguns locais já estão ocupados”. Como nos anos anteriores, os locais preferidos pela organização são o Edifício do Antigo Tribunal e as Oficinas Navais.

Alice Kok revelou também que existe a ideia de, no dia 4 de Outubro, assinalar o 10.º aniversário da morte de Henrique de Senna Fernandes com a publicação inédita de “Nam Van – Contos de Macau”, em língua inglesa e chinesa. Além disso, será também recordado Camilo Pessanha, a propósito do centenário da publicação de Clepsidra. Já que o tema é confinamento, está ainda a ser planeada uma exposição fotográfica com base no concurso organizado pela revista Macau Closer.

Para já, não há autores confirmados. Alice Kok não quis revelar detalhes sobre a programação: “Ainda estamos a perceber qual é a disponibilidade dos autores”. As conferências, essas, vão ser todas presenciais, sendo também online quando haja autores convidados que se encontrem no exterior, casos em que falarão através de uma plataforma de ‘streaming’ para o público em Macau.



O desenho e o documentário

Margarida Saraiva, directora artística da Babel, contou que a organização cultural vai dar início ao projecto anual daqui a uma semana, com a exposição “Tanto limpei a caneta no papel que parece um desenho”, de Rui Rasquinho, que é inaugurada a 20 de Agosto, na Fundação Oriente, e que se prolonga até 21 de Setembro.

O artista explica o conceito ao Ponto Final: “É uma exposição sobre o desenho, nas suas várias manifestações”. A disciplina do desenho é dada a entender através de “formas mais tradicionais, como as marcas num suporte, tinta, grafite, papel, em madeira”, até aos conceitos “um pouco mais livres”. E, neste âmbito, dá o exemplo de uma instalação, uma “máquina de desenhar”. “É uma espécie de uma garrafa que pinga, é uma coisa que provoca um desenho, não autoral e acidental”, explica, acrescentando que, “depois, o som do pingo a cair é gravado e amplificado por um amplificador, o som do amplificador é captado por um sismógrafo, que depois leva o som para um monitor e o monitor mostra a representação gráfica do sismógrafo, do som da pinga a cair”. A Babel vai, depois, publicar o livro resultante da exposição de Rui Rasquinho.

Margarida Saraiva contou que a organização cultural vai, até ao final deste ano, exibir uma série de documentários sobre a arte contemporânea de Macau. São “documentários ficcionados”, que “fogem inteiramente ao registo tradicional a que estamos habituados de documentários sobre a obra de artistas”, descreveu Margarida Saraiva.

Os artistas de Macau retratados pelos documentários são Rui Rasquinho, Yo Yo, Kostantin Bessmertny, Bianca Lei, Candy Kuok, Eric Fok, João Ó e Rita Machado, e Ung Vai Meng. Os filmes serão realizados por António Faria, Maxim Bessmertny e Tracy Choi.

Questionada sobre as dificuldades de organizar eventos culturais durante os meses de pandemia, a directora artística comentou: “Eu acho que nós vivemos tempos sem precedentes na história da humanidade com consequências brutais para a produção cultural. Isso tem a ver com uma restrição progressiva daquilo que são as liberdades e garantias individuais e essas consequências não são locais, são globais”. Margarida Saraiva acrescentou apenas que “em função desta pandemia, tem havido um conjunto de restrições às liberdades fundamentais”, ressalvando que “a Babel não foi directamente afectada por nenhuma destas restrições”.



A ARTFEM 2020 – 2ª Bienal Internacional de Macau – Mulheres Artistas também já tem datas: começa a 30 de Setembro e termina no início de Dezembro, adiantou ao Ponto Final Alice Kok, que é uma das curadoras do evento. Para já, foram reunidas 106 artistas, em que cerca de 40 são de Macau. A China e todos os países lusófonos estarão também representados. “Houve algumas artistas que deviam apresentar o seu trabalho aqui, mas não tenho a certeza de que poderão vir”, notou Alice Kok, explicando que a bienal deverá incorporar palestras, conferências e ‘workshops’.

O tema é “Natura” – incluindo “o conceito de mãe natureza na tradição folclórica e etnográfica” e “as questões climáticas para a preservação da natureza”, adiantou entretanto à Lusa o presidente da comissão organizadora.

Carlos Marreiros sublinhou que “a pandemia adiou a bienal e estragou a vida a todos nós”. Mas manter a sua realização este ano foi ponto de honra. “Temos algumas confirmações e algumas desistências, e temos muitas interrogações, porque as pessoas querem vir ao extremo oriente, mas as restrições [às viagens] são terríveis”, explicou, antes de garantir que se encontra, apesar de tudo, optimista. “Neste momento, devido à pandemia, há obras que provavelmente não chegarão, (mas) temos já obras connosco para assegurar uma exposição com muita qualidade”.

Além de Carlos Marreiros e Alice Kok, são também curadores do evento Leonor Veiga, em Lisboa, James Chu, de Macau, e Angela Li, da China.

Lusofonia deverá realizar-se entre 16 e 18 de Outubro

O Festival da Lusofonia ainda tem quase tudo por revelar. Ainda não há detalhes, mas fonte próxima da organização do festival disse ao Ponto Final que o evento vai acontecer no fim-de-semana entre 16 e 18 de Outubro.

As dúvidas existem também em relação ao festival This is My City. Manuel Correia da Silva contou ao Ponto Final que ainda não há datas para o festival, nem sequer há a certeza de que este se venha a realizar este ano. “Ainda estamos a ver exactamente como é que vamos conseguir, dadas as circunstâncias deste ano, viabilizá-lo ou não. Ainda é cedo para saber”, afirmou Manuel Correia da Silva.

A principal dificuldade tem a ver com o financiamento por parte do Governo de Macau, que, segundo o responsável pelo festival, “ainda não está garantido”. “Estamos neste momento a tentar perceber quando é que conseguimos ter ou não apoio do Governo”, disse, notando que, nos últimos dois anos, os apoios do Governo têm sido dados “em cima do acontecimento” e “este ano deve ser a mesma coisa”.

“Eu continuo a achar que este ano vamos conseguir, sendo que este ano temos a acrescentar a questão do vírus, que torna tudo um bocadinho diferente”, assinalou Manuel Correia da Silva. Para o festival, a questão das fronteiras é também fatal: “A nossa programação tem uma forte presença de gente que vem de fora e este ano provavelmente não vamos poder contar com isso”. A realizar-se, será a 14.ª edição do festival.

Alice Kok é também curadora do Salão de Outono e confirmou que a exposição é inaugurada a 31 de Outubro na Casa Garden. O Salão de Outono vai apresentar propostas de artistas, que podem ser apresentadas até ao final deste mês. Em Setembro, a organização faz a selecção. “Este ano há artistas que querem fazer performances e eu acho que é boa ideia incluir diferentes formas”, indicou Alice Kok.

O cinema e a música

A organização do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau (IFFAM, na sigla em inglês) também já confirmou que este ano o festival se realizará entre os dias 3 e 8 de Dezembro, com um programa de longas e curtas metragens sob o tema “Uma Celebração da Vida & Do Grande Ecrã”. Para assinalar o contexto de combate à Covid-19 a nível global, a organização vai preparar uma secção com uma selecção de filmes em torno da experiência da saída do confinamento e regresso ao grande ecrã.

Já este domingo, a Orquestra Sinfónica Jovem de Macau está a preparar um concerto totalmente dedicado às obras de Ludwig van Beethoven, de modo a assinalar os 250 anos do nascimento do compositor alemão. No Centro Cultural de Macau, a orquestra dirigida pelo maestro Veiga Jardim vai começar por tocar a peça “Egmont”, de Goethe, composta por Beethoven em 1809.

Foi anunciado na quarta-feira que o instituto Cultural (IC) iria adicionar concertos ao festival Hush!!, que tinha decorrido entre os dias 21 de Junho e 2 de Agosto. “Devido à resposta esmagadora”, o IC decidiu organizar mais dois concertos, nos dias 22 e 23 de Agosto, no Centro de Arte Contemporânea de Macau – Oficinas Navais n.º 2, entre as 20 e as 22 horas. Vão actuar os grupos FIDA, Amulets, Catalyser e Rebel Rabbit, no dia 22 e, no dia seguinte, actuam Asura, Worktone String Quartet, Single Path e B_Gei3.

O IC informou também ontem que a recolha de obras para a Exposição Colectiva das Artes Visuais de Macau de 2020 encerra hoje. Esta exposição é dedicada à pintura, fotografia, gravura, cerâmica, escultura, instalações, vídeos ou criações em interdisciplinaridade. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

quinta-feira, 8 de março de 2018

Albertino Bragança: O escritor contestatário na linha da frente da democratização de São Tomé e Príncipe

Na sua obra, o escritor e político são-tomense Albertino Bragança deixa transparecer a crítica a realidades pré e pós-independência e revela as preocupações de quem contestava o regime de partido único, estabelecido em 1975. Em entrevista ao Ponto Final, o autor convidado do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, opositor do regime colonial, que esteve na linha da frente da democratização de São Tomé e Príncipe, descreve-se como sendo, sobretudo, um “homem de consensos”. Recentemente pediu a demissão do cargo de Embaixador de Boa Vontade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que ocupava desde 2006


Com “Rosa do Riboque e Outros Contos”, de 1985, Albertino Bragança dá início a um percurso pioneiro na literatura são-tomense que se foca em relatos ficcionais sobre a realidade do arquipélago formado por duas ilhas principais, São Tomé e Príncipe, no período anterior e posterior à sua independência, em 1975. Nos seus contos e romances o autor aborda temas ‘tabu’, preconceitos e estigmas sociais, entretanto esbatidos na realidade actual, mas não necessariamente resolvidos. Um dos seus contos, “Preconceito”, trata a questão da discriminação entre descendentes de escravos alforriados e os trabalhadores contratados para as roças de cacau e café, vindos de Cabo Verde, Moçambique, Angola, que chegavam a São Tomé e Príncipe para trabalharem “em regime de escravatura mascarada de contrato”, descrevem os historiadores. Os contratados viviam em condições precárias e eram marginalizados, tanto por colonizadores como por nativos. Estas condições laborais, defendem alguns investigadores, estiveram na origem do massacre de Batepá, em 1953, que opuseram trabalhadores contratados e nativos instrumentalizados pelo poder colonial.

Rosa do Riboque”, a heroína ficcionada que organiza o apoio aos estivadores em greve e é presa e torturada pelas autoridades coloniais portuguesas, teve grande impacto no país, tornou-se leitura obrigatória, alguns dos textos entraram nos manuais escolares. “Hoje, quando se fala em literatura de São Tomé e Príncipe, é esta a obra de referência”, refere o autor em entrevista ao Ponto Final. Com “Um Clarão sobre a Baía”, de 2005, Albertino Bragança publica aquele que, na altura, foi considerado “o mais importante romance são-tomense”, por “quebrar a regra do silêncio” sobre o regime de partido único que dominou os primeiros anos de independência do país. Nesta obra, o autor faz uma crítica ao Governo, que terá perseguido e encarcerado os chamados “contra-revolucionários”, numa repetição da história, antes protagonizada pela polícia política do regime colonial português. A “Rosa do Riboque e Outros Contos” e a “Um Clarão sobre a Baía”, de 2005, seguiram-se “Aurélia de Vento”, de 2011, “Preconceito e Outros Contos”, de 2014, sendo a última obra publicada “Ao Cair da Noite”, de 2017.

Albertino Homem dos Santos Sequeira Bragança nasceu em 1944, estudou em Portugal, onde frequentou o Curso de Engenharia Electrotécnica da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Considerado pelos seus pares como “um homem com margem para consensos”, Albertino Bragança acaba quase inevitavelmente por integrar a vida política do seu país, pouco depois de regressar, em 1976, altura em que começa por exercer funções no ensino. Desempenha vários cargos partidários, governamentais e parlamentares. Foi um dos fundadores do movimento de oposição que deu origem ao Partido da Convergência Democrática – Grupo de Reflexão, colocando-se na linha da frente da democratização do país, que permitiu a mudança política no país, de um regime de partido único para o multipartidarismo, com o seu partido a vencer as primeiras eleições democráticas realizadas no país, em 1991, derrotando o partido que estava no poder desde a independência, o MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe).

O escritor e político visitou a China pela primeira vez em 1978, com a selecção são-tomense de futebol. Regressou em 1993, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, integrado na comitiva do Presidente são-tomense da altura, Miguel Trovoada. A presença do autor no Festival Literário de Macau – Rota das Letras marca o regresso ao território de Albertino Bragança, que aqui esteve no contexto daquela viagem oficial à China. Na altura, a comitiva foi recebida pelo governador Rocha Vieira.

– O Albertino Bragança fez a sua formação universitária em Portugal, antes da independência em São Tomé e Príncipe, em 1975. Conte um pouco sobre essa vivência de um são-tomense num Portugal pré-25 de Abril.

Albertino Bragança – Fiz a minha formação escolar em São Tomé e Príncipe, em São Tomé neste caso [a capital], parti para Portugal em 1964. Segui para fazer medicina, mas depois mudei para engenharia electrotécnica, na Faculdade de Ciências. Naquele tempo em Coimbra só se estudava até ao terceiro ano, eram as bases para depois irmos estudar no Porto ou em Lisboa. Estive em Portugal até 1976. Foram 12 anos em que fui estudante, praticava futebol, na Académica, depois fui para a União de Coimbra, estudava e jogava futebol, na altura. Isto para dizer que, em Coimbra, tive uma orientação, cheguei através de um colega mais velho, um são-tomense, o doutor Celestino Costa, hoje já desaparecido [Celestino Costa foi primeiro ministro de São Tomé e Príncipe, entre 1988 e 1991]. Ele levou-me para a casa onde vivia, que era a Real República Kimbo dos Sobas, na rua Antero de Quental, em Coimbra, e que tinha defronte a República dos Milionários. Era uma residência de africanos, negros, brancos, angolanos, moçambicanos. Nós éramos os dois são-tomenses que estávamos na Kimbo dos Sobas. Nessas duas repúblicas havia uma orientação anti-regime, notória, inculcada, e consagrada ao nível de algumas repúblicas e de estudantes que não estavam de acordo com o regime da época, o regime fascista. Portanto, eu segui esse caminho, que se fazia através de muita leitura, encontros e conversas.

– Essa convivência com os estudantes de Coimbra despertou-o para a forma como Portugal era então visto no mundo?

A.B. – Foi graças à ida ao Kimbo dos Sobas que comecei a aperceber-me de outras coisas que não me apercebia antes. Aperceber-me com mais fundamento, com elementos teóricos extremamente importantes para a compreensão, não só do que se passava em Portugal, mas do que se passava no mundo. Estive na República Kimbo dos Sobas durante uns anos até ser chamado para o serviço militar. Acabei o terceiro ano do curso e de imediato fui chamado para Mafra, onde estive durante um tempo. Depois estive em Vendas Novas e finalmente em Torres Novas, onde estive durante três anos como alferes miliciano. Depois, regressei a Lisboa e claro que vivi intensamente o 25 de Abril, na medida em que vínhamos contestando o regime colonial implantado nos nossos países. Nós estávamos muito ligados às Forças Armadas e às forças revolucionárias da época até se conseguir as negociações entre o MLSTP [Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe] e o Governo português, que terminaram a 26 de Novembro e que, depois, conduziriam ao 21 de Dezembro, que foi a data da entrada de São Tomé e Príncipe no Governo de transição. Aí foi marcada a data da independência para 12 de Julho do ano seguinte, de 1975.

– Onde é que se encontrava exactamente quando se dá o 25 de Abril?

A.B. – Já tinha saído da tropa, saí da tropa em Janeiro de 1972, estive lá desde 1968 a 1972. Já me encontrava em Lisboa, como civil, estava a estudar no Técnico e trabalhava no ministério, cujo ministro era o pai do actual Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. Estava a trabalhar na direcção de estatística do Ministério do Trabalho [que, na altura, tinha a designação de Ministério da Saúde e Assistência, das Corporações e Previdência Social], que era no Campo Pequeno e estudava no Técnico. Em Julho vim para assistir à independência, esse era o meu projecto, mas estava em Portugal e só consegui chegar na semana seguinte.

– Que país encontrou no seu regresso?

A.B. – Em São Tomé, os dirigentes da época, do MLSTP começaram a fazer pressão no sentido de que deveríamos regressar, porque o país estava sem quadros. Os portugueses tinham partido. Em Janeiro de 1976 regressei a São Tomé e Príncipe definitivamente.

– Qual é o seu percurso quando regressa a São Tomé e Príncipe, em 1976?

A.B. – Chego a São Tomé e havia poucos professores, por isso, fui orientado para dar aulas de português, foi uma grande sobrecarga, porque eram muitas turmas, éramos muito poucos, os quadros nacionais na altura. Depois disso fui director de uma série de instituições que foram criadas na altura. Estive sete anos como director do Gabinete de Estudos de Pesquisas Pedagógicas do Ministério da Educação. Com a doutora Lígia Costa, hoje em Portugal, reestruturamos o ministério, estive lá de 1984 a 1991. Em 1991, entretanto, um grupo de cidadãos criou um grupo de reflexão, que era uma associação política que, na altura, pressionou muito o regime e conseguiu que se orientasse para o multipartidarismo. Fizemos muitas actividades e, mais tarde, conseguimos, através de um referendo, que a visão multipartidária fosse consagrada em São Tomé e Príncipe. A partir daí vieram as primeiras eleições democráticas, a 20 de Janeiro de 1991. As eleições foram ganhas pelo nosso partido, o grupo de reflexão transformado no Partido de Convergência Democrática/Grupo de Reflexão, que ganhou as primeiras eleições democráticas. Fui designado Ministro da Defesa num contexto, como calcula, de muita pressão e muita tensão no ar, na medida em que era uma mudança política muito profunda, passar de um sistema de partido único para o multipartidarismo e as forças militares, a polícia, estavam muito emanadas com o regime que tinha estado no poder 16 anos. Depois, caiu o Governo, em 1992. Eu deixei a Defesa e fui indigitado ministro dos Negócios Estrangeiros, onde estive dois anos e meio. O Governo caiu novamente, em 1994. Voltei à Assembleia, como deputado (…). Mais tarde, em Dezembro de 1996, fui indigitado ministro da Educação, Cultura e Desporto, foi o meu último cargo governativo.

– Esta carreira política era incontornável, estava em circunstâncias em que não tinha opção?

A.B. – Eu tinha opção, poderia ter recusado. Mas no primeiro cargo contou muito o facto de eu ter sido militar, depois contou também o facto de, no país, considerarem-me, e sou considerado, como uma pessoa que está em todos os núcleos sociais, que se envolve muito com as pessoas, isso dá-me uma certa margem de consenso e foi isso que levou os meus companheiros a indicar-me como ministro da Defesa num contexto que era muito complicado. Depois deixei a Defesa e fui para os Negócios Estrangeiros, não foi nenhuma imposição aceitei porque achei que estava em condições de exercer o cargo, depois regressei à Assembleia por três vezes, como deputado. Entretanto ia escrevendo livros.

– O que é que o fez divergir das ciências e das engenharias para a literatura?

A.B. – Vou lhe dizer, quando era aluno no liceu aqui em São Tomé e Príncipe, desde o princípio, eu estava no lote dos alunos um pouco mais credenciados na língua portuguesa. Tinha as suas causas, porque o meu avô materno era um literato, o meu avô Albertino, de quem eu herdei o nome. Ele era um homem que viajava muito por São Tomé e Príncipe, Portugal, nos princípios do século passado. E era um homem que gostava muito de ler, era um amante da leitura, era um amante de Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, aqueles grandes nomes da literatura portuguesa daquele tempo e de hoje. Eu gostava muito de futebol, ia jogar com os miúdos da minha idade no campo do Riboque que era um bairro onde vivi e onde me apercebi de coisas de que não me tinha apercebido noutras ocasiões. (…) também tinha lições e estudava por capítulos, que ia explicar ao meu avô e ia conversando com ele, sobre aquilo que eu entendia. Com essa convivência, eu, aos 13, 14 anos, tinha lido grande parte de Eça de Queirós, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco. Quando fui para o liceu já tinha todo esse contacto e, claro que, na disciplina de português, fui considerado, naquele tempo, um dos melhores alunos do liceu. Entretanto, só em 1984 é que começo a escrever, “Rosa do Riboque” [“Rosa do Riboque e Outros Contos”].

– Precisou de atingir um certo ponto de maturação para escrever?

A.B. – Cheguei aos 40 anos e comecei a pensar em tudo o que significou para mim ter ido viver para o [bairro do] Riboque. Vivemos durante nove anos no Riboque. Tive contactos com a garotada do sítio, os meus companheiros faziam coisas que eu não fazia, iam pescar no cais, iam ao cinema à noite sempre que quisessem, eu só podia sair com os meus pais, era um filho da classe média. Tinha as regalias, mas não tinha a liberdade. A liberdade entre aspas, talvez, que eles me vinham contar e que eu gostava de ter um dia. Lembrei-me, também, do sacrifício das mães, das pessoas mais pobres e das camadas menos literatas. Inventei uma mulher que não existiu, mas que era uma homenagem que eu fazia às mulheres do Riboque, inventei a Rosa, uma ficção, pura ficção, e começo o livro pelo funeral da Rosa. E esse funeral é grandioso, no aspecto em que o povo mais simples, os amigos, familiares, os acompanhantes, claro que não eram da classe média, eram trabalhadores, camponeses, era uma massa enorme que seguia o funeral da Rosa. Depois de tanta grandeza no funeral, tanta virtude, depois de escrever o primeiro capítulo, comecei a pensar comigo: “o que é que esta Rosa teria feito em vida para merecer tanta consideração e tanta amizade por parte das pessoas”. E claro que tinha que inventar e inventei. Claro que ela, enquanto mulher, naquela época não poderia estar à frente da greve, mas poderia angariar fundos para a greve dos estivadores, que iam descarregar os barcos. E, nisso, a Rosa foi perita, conseguiu grandes apoios para a greve de estivadores. Tanto que assim criou-se uma heroína que ao nível da população foi a que mais marcou, que é estudada no liceu, nas universidades. Esta obra situa-se nos anos de 1950. “A Rosa do Riboque” ficou muito ligada a Albertino Bragança e fez com que eu escrevesse o segundo livro. Foi um livro muito lido, alguns textos entraram nos manuais escolares, é assim que, quando se fala em literatura em São Tomé e Príncipe fala-se de “Rosa do Riboque”, o meu primeiro livro.

– O Albertino foi testemunha de situações que depois descreve nas suas obras?

A.B. – Não observei. Algumas situações são fictícias. Em São Tomé e Príncipe não se faziam greves, podia haver protestos, mas greves não havia. Eu inventei para representar a Rosa enquanto angariadora de meios para a concretização dos objectivos dos trabalhadores. Depois escrevi “Um Clarão sobre a Baía”, um clarão que se reflecte sobre a baía de Ana Chaves, que é a baía mais importante de São Tomé e Príncipe, esse clarão era uma crítica directa ao regime de partido único, que fiz através de uma série de personagens que foram presas. Aí, houve um morto, na época do regime que torturou, de 1975 a 1991, fiz uma crítica àquilo que se passou. Houve várias edições do livro, uma em São Tomé e duas em Portugal, pela editora Caminho.

– “Rosa do Riboque” inclui outros contos.

A.B. – Há outros três contos, um dos quais foi publicado no Brasil, chamado “Solidão”, em que criei uma personagem muito viva e extrovertida, trabalhadora, que aparentava muita alegria, mas que vivia sozinho. O conto é triste, falo da solidão. Esse conto é baseado numa figura real, verídica (…). Considero que “Solidão” é das melhores coisas que escrevi até hoje (…). Foi uma forma que aproveitei para trazer o mito para a literatura são-tomense.

– Escreveu também “Preconceito e Outros Contos”, editado em 2014

A.B. – É sobre as relações que existiam, o preconceito que havia em relação aos trabalhadores contratados por parte da população são-tomense, tentei explicar as razões de fundo desse fenómeno, que hoje está um tanto ou quanto esbatido em São Tomé e Príncipe. Há uma maior aproximação entre as pessoas, os trabalhadores contratados das roças do cacau e do café são muito retratados, são apresentados como tal, se bem que o preconceito hoje é diminuto.

– De que preconceito é que se trata?

A.B. – Isso é uma questão importante. Em São Tomé e Príncipe, em 1953, 3 de Fevereiro, houve o massacre de Batepá, em que um governador Carlos Gorgulho procedeu à matança de muita gente. É um evento assinalado todo os anos, fala-se com os jovens, as razões do massacre, as remotas e as próximas, para dizer o seguinte: o porquê dessa discriminação que havia entre os são-tomenses e os contratados. Os contratados são pessoas que vieram de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Sabe que nas colónias portuguesas, pelo menos em São Tomé e Príncipe, a escravatura encontrou os seus últimos dias, o seu fim, em 1875. Quando acaba a escravatura, os escravos deveriam continuar a trabalhar nas roças como homens livres durante nove anos para não fazerem cair os preços da produção de cacau e café, mas eles recusaram-se e abandonaram as roças. Eram forros que dependiam de uma carta de alforria de libertação. Para salvar a produção, o Governo português teve de recorrer a contratados. Aparentemente eles assinavam o contrato com o Governo, que lhes dava garantias no papel mas, na prática, continuavam a ser escravos. Os contratados eram chicoteados como escravos. Eles vinham de Angola, Moçambique, porque os são-tomenses foram sendo considerados homens livres (…) e havia uma classe política muito forte, tanto em Portugal como em São Tomé, de nativos são-tomenses, e isso fazia de São Tomé e Príncipe uma colónia muito especial. (…) Gorgulho veio de Portugal com a convicção de que ia resolver o problema de mão-de-obra em São Tomé, mas os são-tomenses mantiveram-se firmes perante os propósitos de Gorgulho e, por isso, vinham os contratados trabalhar na rudeza das roças, (…) Por essa razão se criou esse complexo social, nós somos homens livres, aqueles são contratados, por isso, naquele tempo havia essa separação que eu tentei apresentar no conto “Preconceito”, que retrata essa discriminação entre os chamados nativos de São Tomé e os contratados de Angola e Moçambique e Cabo Verde.

– A origem do seu nome vem do seu avô, quem era o seu avô?

A.B. – O meu avô pertencia à classe dos “moradores da cidade”, à classe dos literatos. Albertino dos Santos era uma figura conhecida dos meios citadinos. Era o pai da minha mãe e de uma figura que foi ilustre, que ficou célebre, muito renomeada na libertação de São Tomé e Príncipe do regime colonial, que era o camarada Oné. Um homem muito culto, António Barreto Pires dos Santos, vulgo “Oné”.

– Em relação à retoma das relações diplomáticas de São Tomé e Príncipe com a República Popular da China, em Dezembro de 2016, esteve ligado a este processo?

A.B. – Fui durante muitos anos, desde 2006 até à semana passada, Embaixador da Boa Vontade da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Pedi a demissão há dias. Claro que durante a fase em que ocupei o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros estive na China e em Taiwan. O corte de relações com Taiwan e a retoma de relações com a China apanhou algumas pessoas desprevenidas, se bem que soubéssemos dos contactos que têm vindo a ser feitos com a China Popular e no regresso deste país a São Tomé e Príncipe. Ora, eu não quero estar a falar muito sobre isso sem estar por dentro, não sabendo quais os interesses para São Tomé e Príncipe nesta retoma de relações com a China. Politicamente ainda estou no activo e não quero pronunciar-me sobre o fundo da questão. Queria dizer-lhe que em São Tomé e Príncipe, no princípio da independência, a China foi um grande parceiro, porque patrocinou os projectos mais importantes daquele tempo. Em 1997 rompe-se a relação, foi algo que pressenti anos antes quando visitei a China como ministro dos Negócios Estrangeiros e vi a reação dos chineses. Mas, o certo é que em 1997 cortou-se relação com Pequim e estabeleceu-se a relação com Taiwan, que também foi um grande parceiro de São Tomé e Príncipe, sobretudo na área da saúde e da agricultura. Estou em crer, acho que a forma quase deprimente como se fez o corte foi algo muito chocante certamente tanto para taiwaneses como para alguns são-tomenses, grupo no qual me incluo, porque as coisas poderiam ter sido feitas de outra maneira, de forma mais civilizada e pensando em tudo o que de bom fizeram os taiwaneses em São Tomé e Príncipe.

– Era algo de incontornável para São Tomé e Príncipe esta retoma das relações diplomáticas com a República Popular da China?

A.B. – Havia grupos chefiados por personalidades, embora São Tomé e Príncipe estivesse em parceria com Taiwan, havia grupos e personalidades que agiam no sentido da retoma de relações com a China Popular, porque a China é, sem qualquer dúvida, uma potência mundial, que tende a rivalizar com os Estados Unidos. Por isso mesmo há pessoas que viam nessa retoma possíveis grandes vantagens para São Tomé e Príncipe. Possivelmente, e sobretudo, nos grandes projectos, que podiam relançar a economia nacional, como a construção do porto de águas profundas e a reabilitação e restruturação do aeroporto nacional, projectos, portanto, de grande vulto que Taiwan certamente não iria patrocinar. Ainda não estamos em condições de saber se houve vantagens ou não. Mas, aparentemente, parece que o regresso às relações com a China poderia ser algo de muito positivo para São Tomé e Príncipe, a ver vamos. Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”