O autor Mário Loff apresenta o livro “Oração dos Danados”, composto por nove contos, este sábado, 10, no Centro Cultural de Cabo Verde, em Portugal. A apresentação estará a cargo de Ana Zorrinho
Numa nota enviada, o autor explica que Oração dos
Danados reúne contos que respiram a terra, a memória e a coragem de Cabo
Verde, traçando vidas marcadas pela ausência, pelo exílio, pelo amor e pela
resistência.
No poema “Tarrafal” indica que a seca é mais do que falta
de água: é a urgência da esperança. Burunildo e Ovídio enfrentam a terra, o
tempo e a herança silenciosa de um pai que se foi, descobrindo que o verdadeiro
legado é o amor que atravessa gerações.
Na “colónia penal”, refere que os corpos e espíritos são
testados; quinze presos desafiam a ilha e a prisão, e o detento 41 mostra que a
liberdade sobrevive na palavra e na memória, mesmo sob tortura e sofrimento.
Em outros contos, amores impossíveis, como o de
Nastienka, ensinam que amar é um ofício e que a poesia é salvação para as
feridas da vida.
O exílio e a saudade de “A Praia das Putas Tristes” levam
o narrador a Kodje Bitxu, atravessando fronteiras e guerras, aprendendo que a
terra que amamos pulsa mesmo à distância, enquanto mulheres fortes revelam a
dignidade que resiste à violência e ao silêncio.
Joselino Armoginho, em “O Pote e o Espelho”, descobre que
a transformação verdadeira exige confrontar o passado e que o crescimento se
mede na profundidade da alma.
Já “Badia no Poder” apresenta Mirian Badia, mulher de
presença lendária, cuja força inspira jovens a desafiar o medo e a construir
novos destinos.
Com linguagem poética e crua, cada conto de Oração dos
Danados é uma viagem pelo impossível, onde a memória, a coragem e a
resistência definem a grandeza de quem enfrenta a vida sem se curvar. “É um
livro que provoca, emociona e revela que a força humana se mede nas histórias
que ousamos contar e nos passos que deixamos no mundo.”
Mário Loff é escritor, poeta, dramaturgo, activista
cultural e mediador literário cabo-verdiano, natural do Tarrafal de Santiago.
Nascido e formado no ambiente vibrante e desafiante da sua cidade natal, Loff
afirma a sua identidade de forma vigorosa e crítica.
Desde cedo, aproximou-se da leitura em contexto social e
comunitário, construindo uma relação intensa com as palavras e com a realidade
que observa.
Fez o ensino básico e secundário no Tarrafal e estudou
História e Património na Universidade de Cabo Verde, na Cidade da Praia. A sua
formação académica não se traduziu em coleccionar diplomas, mas em cultivar uma
visão crítica da sociedade e da história como matéria-prima da escrita.
Loff cresceu num ambiente em que a educação formal era
desafiada pelas exigências da vida quotidiana, mas transformou esse percurso
numa vantagem criativa, vendo as ruas, as pessoas e as memórias como elementos
essenciais do seu processo de escrita.
O seu primeiro livro, O Rapto da Primeira-Dama
(2020), é uma colectânea de contos centrados em mulheres fortes, amor, paixão e
sonhos. A obra tem sido apresentada em diferentes cidades de Cabo Verde,
incluindo o Tarrafal de Santiago e a Praia, com destaque mediado por figuras da
cultura local.
O escritor já participou em antologias de poesia
nacionais e internacionais e tem poemas e crónicas publicados em revistas e
colectâneas. Em 2019 foi vencedor do concurso “Poetas para o Ano Novo II” e tem
texto divulgado no Brasil por meio do canal Conta um Conto.
Loff é fundador e presidente da Associação Literária de
Tarrafal de Santiago (ALTAS), organização que promove a leitura, a formação
cultural e a produção literária local. Foi orientador do grupo teatral Komikus
de Tarrafal, com várias peças escritas e encenadas por si, demonstrando a sua
ligação às artes performativas.
O autor representou Cabo Verde em eventos internacionais,
como o Colóquio Internacional “A Glimmer of Freedom”, na Universidade do
Porto, apresentando reflexões sobre o antigo campo de concentração do Tarrafal
através da poesia e da crítica cultural.
Participou em festivais internacionais, incluindo o
Festival Internacional de Cinema e Arte (FICCA), no Porto, onde declamou poesia
e dialogou com outras expressões artísticas.
Em eventos literários recentes, Loff tem sido convidado
para moderar debates e intervir em mesas que cruzam escritores cabo-verdianos e
lusófonos, com destaque para a I edição de Leer África, no Tarrafal, reforçando
a sua presença no circuito literário lusófono.
A obra de Mário Loff é frequentemente descrita como
impactante, combativa e de forte presença sociocultural. Ele não “escreve por
escrever”: o seu trabalho é um ataque às convenções, um espaço para a voz dos
marginalizados e para a reconstrução poética do mundo vivido.
A sua escrita atravessa fronteiras literárias, partindo
da identidade insular para alcançar uma perspectiva de “arquipélago” plural,
diversa e móvel, que ultrapassa a geografia física de Cabo Verde. Como o
próprio afirma, a literatura não é apenas expressão, mas libertação, e Cabo
Verde não é apenas um local de nascimento, mas um ponto de partida para a
reinvenção do mundo. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso
das Ilhas”
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