Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 14 de abril de 2026

“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra permeia os 14 contos do quinto livro do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes

 

I

Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias, há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.

Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.

Conto não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores, imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos: “O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar [...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo”.

Autor multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B (antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado por bons leitores.

 

II

Acompanho a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida (1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada: “As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra em si”.

Vou tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados, eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante que o Brasil viveu há alguns anos.

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado, “Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet. Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso. Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A História acolhe a história.

Da questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz, na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara, de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

A arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história, embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e, sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.

 

III

Em várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos, como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador, que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para reencontrar a família.

Com o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua, avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil tentar prever o fim da história.

Depois de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida. Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.

Logo o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos, “simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça. “[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é real.

No sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria, uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos, lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias. Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa a lutar contra “as garras do desespero”.

A exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a “O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias (2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não ter  ficado em casa lendo-o. Na história, uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.

 

IV

O oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.

Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro, Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher soube. Não, não se trata de adultério.

“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do leitor.  Trata-se “uma história de amor e de amizade”.

O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre, os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia, com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”. Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.

O conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.

 

V

Em “Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”. História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira, ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).

Também a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua, Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte (“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto: “Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor, assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!

Numa noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa, talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro (“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair Rodrigues.

No último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador. Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses, possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.

Como vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios, entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?

O autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos, todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa, sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida - Brasil

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A bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon. Site: editorasinete.com.br

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br



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