Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 23 de março de 2026

Contos que procuram entender a alma

Nova obra de Eltânia André reúne dez narrativas que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas

         

                                                              I

Com sensibilidade e argúcia para entender não só a alma feminina como a masculina, a romancista e contista Eltânia André, psicóloga de formação, premia o público-leitor com um novo livro de contos, Decomposição dos pássaros (Setúbal - Portugal / Cotia-SP, Editora Urutau, 2025), que reúne dez textos que confirmam a qualidade de uma prosa que se confirma e evolui a cada volume publicado.

Como observa o romancista Luiz Ruffato, um dos grandes nomes da ficção brasileira, no texto de apresentação, as personagens desta obra “são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção – pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos”.

De fato, alguns dos protagonistas destas histórias são pessoas que vivem na contramão da sociedade, excluídos da sociedade de consumo, que, sem alternativas, acabam por aceitar a probabilidade de sobrevivência que a contravenção oferece, como o personagem Siri, do conto “Márrio-Riomar: um nome todo água”, que tinha aquele apelido por andar “ziguezagueando sem rumo certo pelas ruas”, que sempre andava “com os bolsos cheios de droga ainda para distribuir”. E quem conta a história de Siri é uma mulher batalhadora, que, igualmente para sobreviver, não hesitou em “pegar pesado no volante” de um caminhão, ainda que tivesse de “ouvir brincadeirinhas ou piadas bestas, num tempo em que bullying era apenas uma palavra estrangeira”.

 

                                                              II

Um desses contos, que leva o extenso título “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho”, conta a história de Astrogildo (ou Walter) que saiu do triângulo das Minas Gerais para cumprir um trajeto até o famoso reino da Bulgária, depois de renunciar ao curso de Direito e especializar-se em Engenharia Nuclear. “Exausto de tanto cindir átomos e de fazer maracutaias, virou de cabeça para baixo a biblioteca de Assurbanípal da Babilônia, e ganhou fama de astrólogo-surrealista. Incluiu em sua biografia que traficou diamantes, atravessou mares nadando crawl, deflorou filhas de políticos, especializou-se no jogo de bisca e em soluções imaginárias para equações de complexidades múltiplas”, diz a autora.

Por aqui se tem uma ideia do estilo maduro de Eltânia André, que, no citado conto, faz uma homenagem ao escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), imitando com fidelidade o seu estilo, que se notabilizou por uma ficção associada ao surrealismo, ao absurdo (nonsense) e ao misticismo, entre outas qualificações

Já em “Decomposição dos pássaros”, um dos textos mais curtos e que dá título à obra, a autora se utiliza da metáfora de buscar pássaros para explorar as jornadas pessoais de personagens como o menino Josué, que “disfarçava, mas não controlava o rancor que sobrepunha ao amor pela mãe – que fez de tudo por ele, criando-o sozinha, após a morte precoce do marido”.

Outro conto em que a autora explora as angústias, as memórias, o trágico e o poético da vida humana é “Sob o som das matracas” em que a personagem rememora a história do avô, que havia participado da chamada Revolução de 32, “um fiasco nacional”, em que se viu “brasileiro matando brasileiro”, tudo em nome de interesses das elites regionais.

Outro conto que se destaca é aquele que encerra o volume e que tem por título “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira”, em que igualmente se vê uma homenagem a Campos de Carvalho. A narrativa conta a história de uma mulher que perdeu a visão às vésperas de completar doze anos, acutilada por um tio bêbado, que lhe arrancou os olhos “no auge do delírio persecutório”. E que teve um destino semelhante ao de Baba Vanga (1911-1996), uma búlgara cega, mística e fisioterapeuta, que se tornou muito conhecida na Europa Oriental por suas habilidades de clarividência e precognição, ou seja, por suas habilidades paranormais.

Se “Netanyahu, Putin, Trump... não frequentaram o seu radar premonitório”, como diz a autora, a Baba Vanga brasileira, mesmo vivendo num grotão próximo a Cataguases, no interior de Minas Gerais, também se notabilizou por suas previsões, chegando a ser capa da revista O Cruzeiro e veio a receber a visita da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). Até que “saiu de moda e seguiu esquecida. Morreu como viveu: na miséria”.

Como se vê, este livro guarda narrativas – na maior parte, curtas, mas densas – que atraem o leitor não só pelo lirismo e pelo estilo refinado como por situações que o leitor médio nem sempre percebe na vida cotidiana, mas que cativam pelo corte vertical das personagens, que são desvendadas pela psicologia, com finas observações sobre a alma humana. Esse fluxo dramático no interior das personagens é sempre marcado por um humor cético e uma ironia disfarçada, com desenlaces inesperados e enigmáticos, que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas.

 

                         III

Nascida em Cataguases, cidade-ícone da Literatura Brasileira, localizada no interior do Estado de Minas Gerais, Eltânia André (1966) fez, em sua terra natal, os estudos primário e secundário, tendo trabalhado na indústria têxtil. Tem graduação em Administração de Empresas e em Psicologia, com pós-graduação em Saúde Pública e Psicopatologia na Universidade de São Paulo (USP).

Morou em Belo Horizonte, onde trabalhou numa concessionária de veículos, e, em São Paulo, onde, como psicóloga concursada, atuou no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), da vizinha cidade de São Bernardo do Campo. Tem trabalhos e participações em diversos jornais, revistas e suplementos culturais e em várias antologias. Depois de viver experiências traumáticas com a violência urbana que marca a vida numa cidade grande como São Paulo, Eltânia André hoje mora em São Pedro do Estoril, aldeia da freguesia de Cascais e Estoril, perto de Lisboa. Vive em Portugal há nove anos.

É dona de uma obra que já se destaca entre os autores da Literatura Brasileira: Meu nome agora é Jaque (contos, Belo Horizonte, Editora Rona, 2007), seu livro de estreia; Manhãs adiadas (contos, São Paulo, Dobra Editorial, 2012); Duelos (contos, São Paulo, Editora Patuá, 2018); Para fugir dos vivos (romance, São Paulo, Editora Patuá, 2015); Diolindas (romance, São Paulo, Editora Penalux, 2016), escrito em parceria com Ronaldo Cagiano; Terra dividida (romance, São Paulo, Editora Laranja Original, 2020); Diário dos mundos (romance, Editora Laranja Original, 2020), escrito em parceria com Letícia Soares; e Corpos luminosos (contos, Editora Urutau, 2022). O projeto “Céu na Boca”, de sua autoria, foi um dos vencedores em 2022 do Prêmio Maria Carolina de Jesus de Literatura produzida por mulheres. E o “Mulheres de Gimonde” foi selecionado para a bolsa literária “Criar Lusofonia 2024”, romance que está sendo desenvolvido na aldeia de Gimonde, em Trás-os-Montes, com conclusão prevista para o último trimestre de 2026. Adelto Gonçalves – Brasil

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Decomposição dos pássaros, de Eltânia André, com texto de apresentação de Luiz Ruffato. Cotia-SP-Brasil/Barreiro-Setúbal-Portugal: Editora Urutau, 96 páginas, R$ 55,00, 2025. Site: contato@editoraurutau.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (São Paulo, Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Decomposição dos “nós” de todos nós

O novo livro de Eltânia André cativa e encanta do primeiro ao último conto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, com alto apuro literário


Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, MG, 1966; vive em Portugal desde 2017), Decomposição dos pássaros. A exemplo de seus trabalhos anteriores, a experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis, explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas 96 páginas dessas 10 histórias recentes. Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O coração na alma, a razão na História.

O texto de Eltânia não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio próprio, rico, sinuoso, mas plausível e claro. Por isso Decomposição dos pássaros é original, cativa e encanta do primeiro ao último texto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, de casas desoladas, de tragédias, do cotidiano e dos bastidores doméstico e histórico, o mundo em permanente conflito, em decomposição. Uma ebulição de pessoas iguais a cada um de nós em momentos de aflição e desafio, tudo enriquecido por referências literárias, musicais, cinematográficas, em harmonia com a história narrada.

Diante de um livro de prosa, poemas ou ensaio, um leitor bem formado e de bom gosto percebe o embate tentativa versus êxito na fatura literária. Vê com nitidez a diferença entre os vacilos e defeitos e a segurança, o controle, o esmero estético de um texto literário, sem prejuízo das questões socioeconômicas e da experiência humana na Terra. O leitor dos contos de Eltânia André – que escreve sem a dor da pressa, na expressão de Fernando Pessoa, e sem cair no psicologismo – não terá dúvida de ter diante dos olhos histórias inesquecíveis. Temas e texto em tensão e harmonia. Um palimpsesto de deleite e inquietação, pontuado de humor e riso, às vezes apaziguadores. Pedagogia de fraterna sensibilidade. A razão é simples: quem nos traz os contos de Decomposição dos pássaros, narrados em primeira pessoa, seja voz masculina ou feminina, de jovem, adulto ou idoso, é autora singular, de estilo e enredos irmanados: sonho, pesadelo, realidade – arte.

Suas epígrafes compõem um elo forte, diálogo preciso, entre o título e o texto de cada conto, desde a primeira história, “Pluma e osso”, em que João Melo anuncia “um mundo puro e inocente” e “tempos das grandes labaredas e das fomes imensas”. Nessa narrativa de sabor clássico, conhecemos a sofrida vida de Ellen, acossada pelo criador de gansos para a produção de patê de fígado, o repugnante Breno Galvão, patrão do pai da moça. Depois ainda aparece o doutor Louçã, o mandachuva da Forceluz de Cataguases que emprega pai e filha. Mais não se pode dizer, que o leitor conheça as agruras da família e como a Guerra de Troia e Penélope entram na vida de Ellen.

“Tudo o que o mestre mandar”, o segundo conto, traz a história de Valtinho e Vando, que ganhou o apelido de Van Gogh depois que teve uma orelha decepada pela mordida do irmão. Na epígrafe, Ana Martins Marques afirma que na infância “cometemos nosso primeiro crime”. Com um inusitado método, Ilda, mãe dos garotos, consegue tornar os garotos amigos inseparáveis. Angústia e alegria. Obra-prima.

“Os relógios estão na eternidade”, avisa Orides Fontela na epígrafe de “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, belíssima e triste história de Antônio Relojoeiro, narrada pelo filho Beto, xará do Guedes, autor da instrumental “Belo Horizonte”, música evocada no título e fundamental no enredo. A intertextualidade surge no primeiro parágrafo do conto: “Vim porque aqui nasceu e viveu o meu pai”, frase que lembra o início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Antes de ser internado, na ausência do filho, o protagonista, “sócio de Cronos”, “guardião das horas”, silenciou todos os relógios da loja e disse algo tão singelo quanto comovente a um vizinho: “Acredito piamente nisto: foram os egípcios que inventaram o relógio do sol”. Adulto, “expectativa e espectador”, Beto recorda as coisas simples que teria construído com o pai: um remendo numa rede de pescaria, um pião talhado a canivete, uma aeronave ou um barco de papel. Roteiro para um belo curta-metragem.

Também bonito e poético, “Márrio-Riomar: um nome todo água”, história de temor e solidão, é precedido pelo conhecido trecho de Jorge Luis Borges que termina assim: “O rio me arrebata e eu sou esse rio”. Narrativa primorosa, de final tão admirável quanto o início e o percurso caudaloso, ao som de samba, pagode e Pink Floyd.

Em “Céu na boca”, de sentido duplo, a epígrafe de Brecht alerta para a luta, por vezes hipócrita, para se ganhar o pão de cada dia. No admirável primeiro parágrafo, já vemos que o megalomaníaco, mentiroso Edmundo Fontes, com sonhos de voar, encarna esse tipo. No meio da história, a narradora alerta o sujeito, já em desgraça na ambiciosa carreira, com um conselho de Churchill: “Se você vai passar pelo inferno, não pare de andar”. Do início ao último parágrafo, um lapidado texto, que poderia se chamar “O triste fim de Edmundo Fontes”, personagem tão diverso de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Na epígrafe do conto-título, outro de extração clássica e o mais curto do volume, Nuno Júdice mostra como ajustar os olhos que procuram pássaros, metáfora das buscas de Josué, homônimo do destemido personagem bíblico na conquista da Terra Prometida. Ainda que um pequeno pardal participe da história, o que lemos é uma paráfrase do êxodo. “Iria embora de casa ao completar a maioridade, abarrotaria a mala de lembranças (poço sem fundo) com as imagens que recolheria em suas andanças (ou exílio?).” Quando alguém, no início do terceiro milênio, organizar uma antologia de contos brasileiros do século 21, incluirá esse “Decomposição dos pássaros”.

“Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho” é a única história do livro sem epígrafe, dispensável pela evocação de seu guia no título. Curiosa e divertida trajetória do errático e picaresco Astrogildo (“ou Walter, como preferirem”) acompanhado de Dersu Uzala, do filme de Kurosawa. Ele pensou em escrever um livro com o diabo como protagonista, mas desistiu por não “encontrar humor” no demo, concordou com a historiador francês Georges Minois (“Deus foi sarcástico ao considerar o hipopótamo o ápice de sua criação”), não concluiu a leitura de Os miseráveis, de Victor Hugo, mas nunca se esqueceu do protagonista Jean Valjean, que a “salvou de poucas e boas [...] mas não da solidão”, e antes de terminar seus dias tocava “na gaita a trilha sonora” de O dólar furado. Não à toa, portanto, que seu enterro foi acompanhado ao som de Gianni Ferrio, autor da trilha sonora do faroeste. A frase final é um arremate de mestre, une Jesus, nome do motorista do carro fúnebre, e o despontar da lua na Ásia, de Campos de Carvalho. Conto também antológico.

O verso “Amei todas as perdas”, do espanhol Antonio Gamoneda, dá o tom de “Construção”. Entremeado dos ruídos de instrumentos em uma construção, é a história de perdas e danos, de decomposição, da família de uma anciã de memória surpreendente. “Era um tiquinho de gente, assim ó, mas não esqueço nada.” Deliciosas frases da oralidade, sobretudo mineira, marcam a fala da mulher. Uns exemplos: “Igual eu já te falei...”; “...foi embora caçar um lugar pra ficar”; “...ele fazia birra e tacava o pão duro longe”. No fim, esmerado parágrafo, nem na hora do almoço dos trabalhadores da construção há silêncio total: ao som de colheres rapando o fundo das marmitas somam-se o grito de um casal de maritacas no ar e outro ruído, trágico, do choque de uma cadeira de rodas “com o madeirame da porta roído por cupim”).

“Sob o som das matracas”, depois das maritacas e da matriarca, uma história terrível, versos de Hilda Hilst a nos alertar: “É crua a vida/ alça de tripa e metal”. Um homem conta a um primo detalhes cruéis, em versões ausentes dos livros, da participação do avô, herói anônimo e sem pensão da Revolução de 32, o “fiasco nacional, brasileiro matando brasileiro”. Também aqui Eltânia contrapõe a descrição sem filtro de corpos dilacerados (“toda guerra é um horror”) com expressões populares, como “cavoucou com a unha e cuspiu a bala” e “você é bobo de tão manso”. História pungente que não deixa nenhum coração de pedra insensível.

Campos de Carvalho, “terrivelmente bíblico”, liga o título de “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” ao conto, em que conhecemos semelhanças (ambas perderam a visão “às vésperas de completar doze anos”) entre a mística búlgara Vangelia Pandeva Surcheva (1911-1996) e a baiana Evangelina Augusta da Silva (1940-2021), que teve nascimento difícil (uma beleza a descrição do penoso e obstinado trabalho da parteira Hipólita). Há outras passagens pungentes: “A mãe, já recomposta, com a filha aconchegada ao peito, é imagem da qual Hipólita nunca se esquecerá. Sabia de antemão, pelos arrepios na nuca, do destino da menina”. Logo na frase depois dessa, uma de fino humor metalinguístico: “O barulho dos copos se quebrando e o cheio da aguardente deram sinais da volta da normalidade e a parteira não tinha mais o que fazer lá (nem aqui)”.

Eltânia conta assim um encontro entre a profetiza e a autora de A hora da estrela: “Acredita-se que no remanso da noite, Clarice Lispector [...] encontrou-se com Evangelina, a nossa Baba Vanga [...] A escritora entrou sozinha e saiu de braços dados com Macabeia”. No conto, Eltânia André homenageia outras mulheres, como Marielle Franco e Dandara dos Palmares, assassinadas, e Margarida Maria Alves, que preferiu a morte à escravidão. Mescla de realidade e ficção, o conto, antológico, é um cântico em defesa da fraternidade, da justiça social e da “divisão do pão, do peixe”.

Os dez contos de Decomposição dos pássaros, leitura de inquieto e por vezes assombroso arrebatamento, destilam esplendores e misérias da vida humana. Um livro que vai atravessar o século. Eltânia André precisa ser mais lida e divulgada. Hugo Almeida - Brasil

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Decomposição dos pássaros, contos, de Eltânia André, Editora Urutau, 2025, 96 páginas, R$ 55,00. https://editoraurutau.com/titulo/decomposicao-dos-passaros 

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor dos romances Vale das ameixas e Mil corações solitários e do ensaio A voz dos sinos (sobre a obra de Osman Lins), todos publicados pela Editora Sinete. https://editorasinete.com.br/ Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br