Todos
os textos de Hugo Almeida, uns mais outros menos, são tributos a escritores, à
literatura em geral
O
recente livro de Hugo Almeida, A vizinha das sete cordas (São Paulo:
Sinete, 2026), é composto de 15 contos, distribuídos em três partes: Dentro de
Casa, Fora de Casa e Além – Tributo a três eternos. Nessa última parte, o
tributo é dedicado a três grandes escritores brasileiros: Osman Lins, Clarice
Lispector e Manuel Bandeira.
Em verdade, todos os textos de Hugo, uns
mais outros menos, são tributos a escritores, à literatura em geral. Há uma
rede de epígrafes, começando com Lima Barreto, Lord Bulwer Lytton e Ivan Lins,
abordando crimes, erros, desgraça e perdão, e se espalham praticamente em cada
conto, ocorrendo, inclusive, uma epígrafe (ou hipógrafe?) no final do texto
“Ponto cego”, com versos de Jorge de Lima: “surdo-mudo/ cegara. / Agora vê”.
Creio que esses versos e o título do conto
indicam bem a sensação que uma primeira leitura vai despertar nos leitores
dessa coletânea (que conta com o lúcido prefácio de Eltânia André). A obra é
repleta de pontos cegos, assim como se o autor valesse de um palimpsexto
sentido para captar movimentos, sensações, lugares, crueldades e afetos
disseminados ao longo das narrativas.
Em termos de afeto, sinto-me honradamente contemplado,
pois, em meio a tantas dedicatórias, Hugo Almeida lembra-se de meu humilde nome
no final de “Assim de touca e máscara?”, conto que recebe epígrafe de belo
verso do poema “Maçã”, de Manuel Bandeira e sua intricada trama joga com
antiguidade romana, reminiscências bíblicas, Chopin, Mallarmé, Dalí, Lorca,
Tasso e taça de vinho, sem omitir um pintor de origem espanhola, seria Carlos
Alonso? O que gosto desse e de demais textos é a força poética que insufla as
narrativas, pois o autor põe a poesia em bom lugar, daí “verso, poema, pedra
preciosa” são elementos estruturantes, irrigando de lirismo, mas sem evitar os
impactos desumanizantes que são denunciados. No conto alusivo a Manuel
Bandeira, “O poeta e a estrela da manhã”, lê-se que, na esteira de Mallarmé,
“escrever poesia é fazer música com a dor” (p.144).
O leitor não pode dormir de touca: há
muitos toques intertextuais, paratextuais e outros que tais. Por exemplo, em “O
casal do farol”, Hugo toca em tema que sempre me atraiu, desde que li “Os
faroleiros”, conto de Urupês, de Monteiro Lobato. E não costumo perder
filmes ambientados em faróis. No conto de Hugo, com epígrafe do recorrente
Osman Lins, que empresta nomes de suas personagens para os protagonistas são designados
por dois nomes: Alex (fora da lei) e Sóstrato (que remete ao arquiteto e
engenheiro que projetou o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do Mundo
Antigo). O casal é formado por ele e por Nancy, que também é chamada de
Bárbara. Nomes tirados de textos de Osman, o mentor de Hugo. Nesse conto, em
que o homem é ilha e mulher é arquipélago, dramatizam-se amor, isolamento,
desencontro.
O número sete assinala a trama do conto
que dá título ao livro, curiosa história das vizinhas Elvira e Mira, nomes que
remetem ao olhar e ao comportamento humano, em sua ordem e desordem. A epígrafe
de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos dá o tom irônico que pontuará o texto:
“Sim, está tudo certo. / Está tudo perfeitamente certo”.
Uso de uma expressão de José Miguel Wisnik
para afirmar que Hugo Almeida é dos escritores que dão “pérolas aos poucos”,
uma vez que sua erudição e prodigalidade em saltos de longa distância de um
texto para outros não dão vida fácil para leitores muito acomodados. E o leitor
tem todo o direito de gostar mais de um conto do que de outro. Por exemplo,
além dos já citados, entre os quinze contos impressionou-me “Nas nuvens”,
primor de minimalismo, pegada para uma narrativa fantástica, simbologia bíblica
com a Estrela de Belém, os nove meses da gravidez de Maria (as datas 22 de
março e o Natal), o casal que sai da casa para um apartamento e é atraído pela
maquete.
Em tempos de Copa do Mundo, é de se ler e
de se rir de “Influxologia alemã”, neologismo criado para referir-se ao absurdo
de um juiz que decide invalidar os impiedosos 7 x 1 que os alemães aplicaram no
selecionado nacional, no Mineirão, em 2014. O humor também pontua “Dona
Justina”, em que aparece pela segunda vez um personagem chamado Túlio, não sei
se Hugo pensou num personagem de Avalovara, de Osman, ou se viu no seu
significado de “o que cria ou dá origem às coisas”. Como sou chegado a um
trocadilho, prefiro brincar com “entulho”, levando para uma metáfora dos
fragmentos que povoam nossa memória, nosso inconsciente, que abruptamente surgem
na criação ou na fruição da ficção.
Vale a pena acordar para os textos desse
admirável escritor mineiro, nascido em Nanuque (nome de morador da serra) em
1952, mas saiu de lá ainda bebê, viveu nove anos na Bahia e 22 em Belo
Horizonte. Mora em São Paulo desde 1984. A vizinha das sete cordas é o
seu 17º livro e 5º de contos. Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações
solitários (5ª edição) e Vale das ameixas (2ª), e do ensaio livre A
voz dos sinos – o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins,
todos também publicados pela Editora Sinete. Caio J. Maciel – Brasil
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A
vizinha das sete cordas (contos), de Hugo Almeida, Editora Sinete, 152
páginas, R$ 60,00. Disponível nos sites da editora e na Amazon.
E-mail:
editorasinete@gmal.com. Site do
autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br
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Caio
Junqueira Maciel, professor e escritor, é mestre em Literatura pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor, entre outros, dos ensaios A
escritura do tempo na poesia de Dantas Mota e O sangue que rejuvenesce o
Conde Drácula, dos poemas Pele de jabuticaba e do romance Um
estranho no Minho, sobre o período em que viveu em Portugal.
É, Maciel, Hugo merece os excelentes elogios que você fez. Li, lerei, relerei, para aprender muito sobre a vida e sobre tudo. Um abração.
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