A China pode ajudar os países de
língua portuguesa no desenvolvimento da inteligência artificial (IA), uma
oportunidade para países em desenvolvimento, partilhando conhecimento de como
integrar energia, redes eléctricas e capacidade de computação, defendeu a
investigadora Dong Ting, do Centro de Segurança Internacional e Estratégia da
Universidade Tsinghua de Pequim.
“Nos últimos anos quando se fala em IA, chips,
algoritmos, muitos pensam nos EUA como líder, mas enfrentam limitações na
coordenação da rede eléctrica, fragmentada entre centenas de operadores. O
futuro da IA depende também da capacidade de planeamento e coordenação”, disse
Dong Ting, na sexta-feira.
Segundo a investigadora chinesa, nos EUA a construção de
uma linha de transmissão de energia entre estados “pode demorar mais de uma
década”, um “gargalo para o desenvolvimento da IA”. “A China conseguiu superar
a escassez energética das décadas de 1990 com redes de transmissão de
ultra-alta voltagem e planeamento integrado”, sublinhou.
No caso dos países lusófonos, Ting considerou que a
integração entre energia verde, capacidade de computação e redes de dados será
decisiva.
“O Brasil já está num nível avançado, Cabo Verde mostra
inovação em micro redes, Angola investe em cabos submarinos, e Guiné-Bissau
precisa de infra-estruturas básicas. Cada país terá um caminho próprio, mas
todos podem beneficiar de modelos de cooperação adaptados”, disse.
Ting fez os comentários durante um painel com
representantes governamentais do Brasil, Timor-Leste e Guiné-Bissau, realizado
durante o 17.º Fórum e Exposição Internacional sobre o Investimento e
Construção de Infra-estruturas (17º IIICF), organizado em Macau.
Segundo a investigadora, essa experiência pode ser
replicada em países em desenvolvimento, incluindo os lusófonos. “A IA pode ser
uma oportunidade de fazer o salto tecnológico para o mundo em desenvolvimento”,
afirmou.
Entre os exemplos citados, Dong Ting destacou o projeto
hidroeléctrico de Belo Monte, no norte do estado Pará no Brasil, onde a empresa
estatal chinesa de energia China State Grid, a maior empresa de transmissão e
distribuição de energia elétrica do mundo, construiu duas linhas de transmissão
de ultra-alta voltagem com “forte recurso a mão-de-obra local”.
“Os nossos amigos brasileiros sabem que 80% da
electricidade do país provém de energias renováveis, sobretudo hídrica. Isso é
muito positivo, porque todos procuram electricidade verde para alimentar
centros de dados”, disse.
Outro caso mencionado foi Cabo Verde, que apesar de não
ter petróleo, integrou energia eólica, armazenamento e redes inteligentes.
“Micro-redes podem garantir fornecimento estável a hospitais, escolas ou
pequenas cidades”, explicou.
Em Angola, Dong Ting recordou a construção do cabo
transatlântico ligando África e América do Sul, que reduziu custos de
transmissão de dados ao evitar a passagem por Miami. “Se um país tem capacidade
de construir, operar e utilizar infra-estruturas, é competitivo”, afirmou.
Já na Guiné-Bissau, a investigadora apontou carências
básicas: “Ainda precisa de electricidade, estradas, habitação e planeamento
urbano. O modelo de cooperação deve ser adaptado a cada realidade.”
Dong Ting concluiu que a cooperação China e Países de
Língua Portuguesa não terá “um modelo único”, mas sim soluções personalizadas.
“Projectos de geração de energia, redes eléctricas,
capacidade de computação e centros de dados deixam de ser isolados e tornam-se
partes de um mesmo sistema. Isso exige planeamento integrado e de longo prazo”,
afirmou. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”
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