O sabor dos pratos lusófonos nos restaurantes da Grande Lisboa transporta à terra natal os imigrantes, que chegam a chorar quando identificam certos temperos, os quais os colocam por momentos na cozinha da sua infância. A propósito dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinalados este ano, a Lusa percorreu restaurantes da Grande Lisboa para perceber como a gastronomia continua a ligar comunidades imigrantes às memórias dos países de origem.
Eleanora Carlota, proprietária do restaurante são-tomense
Cantinho da Nonô, na Amadora, recebe muitas vezes os comensais com as lágrimas
nos olhos. “Há pessoas que se levantam e perguntam-me se me podem dar um
abraço; e abraçam. E afirmam: Olha, tu fizeste-me voltar a 30 anos atrás, à
comida que a minha avó fazia”.
Para Nonô, 46 anos, o amor é o ingrediente especial
servido no seu Cantinho, que abriu em 2019. À mesa deste restaurante na Damaia
não falta o peixe andala, que é o “manjar da casa”, tamanha a variedade de
utilizações que tem na cozinha, do pastel à feijoada, passando pelo patê e o
calulu, o prato nacional são-tomense, que é sempre um sucesso neste espaço,
onde o pano africano se destaca na decoração das mesas.
A ementa cresceu à velocidade dos pedidos de clientes de
outros países lusófonos, que foram sugerindo a cachupa (Cabo Verde), moamba
(Angola), caril de amendoim (Moçambique), caldo de peixe (Moçambique), picanha
(Brasil) e pratos portugueses, como o bacalhau à minhota.
No restaurante Mana Gra as refeições não têm horário.
Todos e a qualquer hora são bem-vindos ao espaço que serve comida da
Guiné-Bissau, num centro comercial em Massamá, onde se procura comer, mas
também matar as saudades de casa.
A proprietária e cozinheira é a Graciete Kattar Madi, 52
anos, que sempre teve mão para a cozinha e que desde 1998, quando veio para
Portugal, trabalha na restauração. Sempre sonhou em ter um restaurante, que
servisse boa comida do seu país, e arriscou quando todos estavam a fechar as
portas na pandemia.
O espaço torna-se facilmente pequeno para os clientes que
serve e que vêm de várias latitudes. Mas também estudantes guineenses em
Portugal, que não têm oportunidade de comer estes pratos e aqui matam as
saudades.
“É um regresso a casa”, afirma Graciete, que gosta de ver
os seus clientes a usufruir do espaço, que decorou com coloridos panos
africanos, e dispensa publicidade, porque acha que “a melhor propaganda é feita
pelos clientes satisfeitos”.
Chama ao seu Mana Gra uma clínica da alimentação, onde se
encontra tudo do bom e do melhor. O caldo mancarra é o mais procurado neste
restaurante, com os clientes portugueses a preferirem outro prato guineense: O
chabéu.
Cachupa, grogue e ponche de mel são imprescindíveis no
restaurante cabo-verdiano O Coqueiro, na Cova da Moura, Amadora. Maria
Patriarca, 70 anos, está à frente da cozinha deste emblemático espaço, que
abriu em 1995 e, desde então, é paragem obrigatória de cabo-verdianos, outros
africanos, portugueses e estrangeiros. Mas também de chefes de Estado, de
Portugal e Cabo Verde, tendo a passagem de Marcelo Rebelo de Sousa colocado
este restaurante no itinerário de muitos comensais.
A cabo-verdiana, natural da ilha de Santo Antão, já
perdeu a conta às cachupas que cozinhou e que são seguramente largos milhares,
servindo no restaurante e a particulares, grupos e empresas. Todos apreciam,
mas este já não é o prato da sua preferência.
Os cabo-verdianos, aliás, optam por outros pratos, como
peixe grelhado, bife de atum à moda de Cabo Verde ou bitoque. A cachupa é mais
escolha de portugueses e estrangeiros.
Maria Patriarca garante que a receita da sua cachupa é
igual à primeira que confeccionou e que as medidas são “a olho”. O resultado
parece agradar, levando-a a estar ao fogão desde cedo, só parando para comer e
só quando os clientes estão já a lanchar.
No espaço gastronómico da associação Casa de Angola, em
Lisboa, há pratos que lembram as mães. Isso mesmo contou o cozinheiro Paulo
Soares, que há mais de 18 anos ali recebe os comensais. “Quando me dizem que a
minha comida transporta para Angola, isso é mais importante do que dizerem que
a minha comida está boa”, diz.
E são muitos os que, através de pratos como moamba,
calulu, carne seca, funge de peixe frito, são transportados para o país da
kizomba.
Paulo Soares, 55 anos, também prefere a moamba da sua
mãe, que elege como a melhor do mundo. E entende o gosto que os angolanos, e
não só, têm em partilhar a gastronomia e a música angolana, o que fazem com
grande frequência neste espaço gastronómico.
O brasileiro Juca Oliveira abriu em 1978 o Brasuca, ao
Bairro Alto, quando esta zona fervilhava de intelectualidade, oferecendo pratos
com produtos que nem sequer existiam em Portugal, como o feijão preto. Para
conseguir o ingrediente principal da feijoada, o prato nacional brasileiro,
plantou em Rio Maior cinco quilos, que renderam 200 quilos e com estes obteve
quatro toneladas, das quais três ficaram para a cooperativa que fez a
plantação.
Hoje, a feijoada brasileira continua na ementa do
restaurante e o seu proprietário, com 88 anos, não mostra intenção de alterar o
menu, que é igual desde a abertura.
Os ingredientes são, contudo, hoje mais fáceis de obter,
permitindo fazer especialidades como a moqueca de camarão, elogiada pelos
estrangeiros como melhor do que no Brasil e mais barata. Sandra Moutinho /
Cláudia Joaquim – Agência Lusa in “Jornal Tribuna de Macau”
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