A icónica Casa de Ferro, instalada em 1892 na transição da primeira capital moçambicana, no período colonial, procura reinventar-se com nova vida, prevendo a função museológica para retratar a história e memória de Maputo.
Na Avenida Samora Machel, onde o pulsar da cidade cruza
passado e presente entre edifícios que guardam memórias, a casa, em ferro como
o nome, ergue-se como marco incontornável, entre as estátuas de Samora Machel –
primeiro Presidente de Moçambique – e o fluxo constante da vida urbana,
afirmando-se como memória viva da história da cidade de Maputo.
“A Casa de Ferro foi fabricada na Bélgica e, sendo uma
casa pré-fabricada, foi trazida para esta cidade, chamada Lourenço Marques, em
1892”, começa por explicar à Lusa António Macandza, gestor da infra-estrutura,
diante do imponente edifício, hoje referência incontornável do património
arquitectónico da capital e que ao longo de quase 135 anos já conheceu
diferentes localizações e funções.
Organizada em vários compartimentos distribuídos por três
pisos, ligados por escadas e corredores estreitos, numa lógica funcional típica
das residências coloniais da época, foi idealizada para albergar o então
governador-geral de Moçambique, Rafael de Andrade, no contexto da transferência
da capital da Ilha de Moçambique, na actual província de Nampula, para a então
Lourenço Marques, hoje Maputo.
“No momento em que esta cidade era construída, toda ela
era de madeira e zinco, tinha que se trazer um palácio para albergar o
governador-geral de Moçambique e o governador não podia habitar numa casa
semelhante a um cidadão pacato. Daí que foi importada esta casa, para dizer que
a casa tem uma grande representação, um grande significado, porque não é uma
casa qualquer, é, acima de tudo, uma relíquia”, afirma Macandza.
Apesar da imponência do edifício, com divisões que,
embora simples, revelam uma adaptação engenhosa do ferro como elemento
estrutural e decorativo, o gestor sublinha que Rafael de Andrade nunca chegou a
habitá-lo, devido às condições climáticas de Lourenço Marques: “No Verão esta
casa é extremamente quente, no Inverno a casa é extremamente fria, razão pela
qual Rafael de Andrade, governador-geral de Moçambique, que estava a ser
transferido da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques, quando visitou a casa,
viu que esta representava um atentado à sua saúde”.
Décadas depois da sua chegada a Maputo e de usos diversos
ao longo do tempo, a Casa de Ferro seria reconhecida pelo seu valor simbólico e
histórico, classificada desde 1972. Consolidou-se a partir daí como um dos
principais marcos da memória urbana da capital, atravessando gerações como
testemunho vivo de uma época e das transformações da cidade.
Hoje ponto turístico, a Casa de Ferro, associado às
oficinas do francês Gustave Eiffel, atrai sobretudo visitantes estrangeiros
que, intrigados pela estrutura metálica no coração de Maputo, aproximam-se para
conhecer a história, num interesse partilhado por escolas, que recorrem ao
edifício para transmitir às novas gerações o passado da capital.
“É internacionalmente conhecida, mais conhecida fora na
Europa do que localmente. Então, o maior visitante turista tem sido o turista
estrangeiro – europeu, americano -. [entre] os nacionais, temos recebido muitas
escolas a visitar”, conta, lamentando, entretanto, que poucos “cidadãos
adultos” visitam o edifício, por não conhecer o seu significado.
“Mas não é só a Casa de Ferro, são os monumentos de
museus em Moçambique. Os nossos cidadãos não vão para esses sítios, apenas os
alunos é que vão, porque os professores lá nas suas disciplinas de história
percebem o impacto desses monumentos”, explica.
Após a última requalificação realizada em 2013, a Casa de
Ferro necessita agora de uma “manutenção profunda”, uma vez que alguns
compartimentos carecem de pintura para prevenir a ferrugem, enquanto o soalho
de madeira exige intervenções de restauro. Para o gestor, esta reabilitação
insere-se também no esforço de conferir uma nova vida e dinâmica ao edifício.
“De facto, a nossa maior luta neste momento é a
atribuição de uma nova funcionalidade à Casa de Ferro, em que deixará de ser
apenas um monumento protegido pela lei 10/88, passará também a albergar uma
exposição museológica que deve retratar a história da transferência da capital
da ilha de Moçambique para Lourenço Marques”, explica.
Além das exposições artísticas que a infra-estrutura
acolhe pontualmente, prevê-se, segundo Macandza, a criação de bancas para venda
de arte, “onde artesãos poderão expor e comercializar as suas obras”, bem como
a instalação de espaços de convívio, como um café, “para que os visitantes da
Casa de Ferro tenham um sítio de lazer”. Lina Cebola – Agência Lusa in “Jornal
Tribuna de Macau”
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