A obra agora dada à estampa compõe-se
de 125 textos numerados, predominantemente concisos e despojados, que abraçam
diversos eixos temáticos, os quais preenchem “este silêncio” melódico, que,
como veremos ao longo do livro, “em relâmpagos se desfaz”. O livro abre com uma
epígrafe de Octavio Paz:
Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.
Segue-se o prefácio de Ângela Almeida intitulado A dor
oblíqua do poema no qual sublinha a morte e os sentimentos que lhe são
associados - o luto, a dor, a perda, o abandono. E poderíamos ficar por aqui.
Os tópicos que se seguem traduzem apenas a minha perceção do livro - seriam um
descarnado rodapé para este texto basilar. Refira-se, antes disso, este excerto
do posfácio de Isabel Mendes Ferreira (imf), “um livro grito que nos agita
em bátegas de água puras intensas melancólicas doridas”, complemento
fundamental para nos acercarmos à obra de Regina Correia: “devolve-nos a
certeza sem equívocos. leva-nos ao centro de si mesma e faz das palavras a
certeza de um vendaval aceso e sem pausas”, e, mais adiante, “poderoso e
poético o verbo da tempestade axiomática que nos é vitalidade”.
Este é um livro para se abraçar, para se acolher, nos
acolher. Uma montra de sobriedade e despojamento, que alude candidamente a uma
infância remota, pensada e desconhecida. A obra é também um lugar privilegiado
de afetos, amor vasto (porquanto ocupa grande parte dos cenários), mas
sobretudo de dor, melancolia, e todas as faces da morte. A morte que é memória,
consciência e futuro. Insistentemente referida, mesmo que vagamente, ela é
também ritualizada ou anónima, em valas (in)comuns. Corporizada no horror das
guerras, na banalização da barbárie envolvente, nos despojos e naufrágios, no
corpo inerte. As narrativas poéticas escondem-se em labirintos, na noite e no
silêncio: como a solidão, o sono, e a insónia se aliam ao manto esfumado da
penumbra e das sombras, à treva.
Regina C. traz a evocação do passado, permanente e
presente. É um passado aberto e interminável que se prolonga na expetativa do
devir. O silêncio ao desvanecer-se é, afinal, voz luminosa. Dignifica a palavra
e o poema, todos os poemas, sintéticos e cortantes, cerebrais, lustrosos ou
polidos.
LIX
1.
“(…)
Cada palavra que escrevo é um ferro em
brasa
no labirinto gelado das vozes fora
do
seu lugar só devastação dos sentidos (…)”.
Os textos livremente irmanados libertam-se do supérfluo,
sendo embora indistintamente bucólicos, algo surrealistas e expurgados de
quaisquer resíduos. Há nestes relâmpagos que redesenham o panorama, uma beleza
inata, cerebral, digna e assoladora, descrevendo retas cintilantes que se
cortam. Um luz clara definitiva e altiva. São poemas migrantes, como as aves,
rudes e imprevisíveis: bichos e feras.
LXII
“(…)
É o poema que desenha a paisagem.
As
aves de rapina ignoram a falta de
chuva
e buscam o eixo do futuro nas
vastas
grossas areias entre terra e mar (…)”.
Regina C. transmuta-se em raízes, terra, mar brabo, rotas
e margens, flores e baobás. Tem a cor e a fluidez dos desertos, a aridez
estéril dos sítios mais ásperos e inóspitos. A poeta traz savanas e ventos
devastadores, precipícios de palavras, a intensidade dos trovões. É moldada por
vulcões e ilhas.
LIII
“(…)
Não nasci numa ilha. Mas sou de
ilhas.
Das ilhas. De muitas ilhas (…)”.
O livro é também um cartão identitário, que reafirma a
noção de liberdade, com algumas referências bíblicas e laivos de
espiritualidade. Regina explica-se e conta-se: apresenta-se. Discreta e
secreta, através de uma narradora recolhida, questionando o mundo. Tu e Nós
alternam-se em narrativas sincopadas, oníricas e partilhadas, fantásticas e
interrogativas. O leitor menos avisado deixar-se-á armadilhar pela surpresa de
passar abruptamente da maior sobriedade à exaltação, ao discurso febril: não há
meio termo nem paisagens amenas. A poeta critica sem tréguas o discurso
inflamado do ódio, a palavra-veneno, a mortal indiferença. Este silêncio que
em relâmpagos se desfaz esclarece-nos, incessantemente: o amor chega no
Tempo certo – é sempre um enigma – e o poema é sempre secreto. Luísa Fresta –
Portugal
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Regina Correia, luso-angolana, é natural de Viseu. Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora do ensino secundário em Angola, Portugal e na Alemanha. Autora de prefácios e recensões públicas de livros, tem coordenado projetos culturais e recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas. Publicou sete obras literárias, duas de ficção – “Os Enteados de Deus” (Universitária Editora, 1990) e “Uma Borboleta na Cidade” (Universitária Editora, 2000; Editorial Novembro, 2023), e cinco de poesia – “Noite Andarilha” (Universitária Editora, 1999; Alphabetum Editora, 2012), “Sou Mercúrio, Já Fui Água” (Alphabetum Editora, 2012), “Conjugação de Mapas” (Editorial Novembro, 2020), “No Coração dos Desertos e outros Oásis” (Rosa de Porcelana Editora, 2023), “Este Silêncio que em Relâmpagos se desfaz” (Editorial Novembro, 2026). Venceu os prémios Clarice Lispector “Melhor Poeta do Ano de 2018” e “Melhor Livro de Poesia 2021”, pela Editora ZL (Brasil) e ainda o “Prémio Destaque Literário” (2019), pela Literarte (Brasil). É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE)
Ângela Almeida -
Poeta e Investigadora (Ph.D).
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