Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

"Este silêncio que em relâmpagos se desfaz" - de Regina Correia

A obra agora dada à estampa compõe-se de 125 textos numerados, predominantemente concisos e despojados, que abraçam diversos eixos temáticos, os quais preenchem “este silêncio” melódico, que, como veremos ao longo do livro, “em relâmpagos se desfaz”. O livro abre com uma epígrafe de Octavio Paz:

Duma palavra à outra

o que digo desvanece-se.

Sei que estou vivo

entre dois parênteses.



Segue-se o prefácio de Ângela Almeida intitulado A dor oblíqua do poema no qual sublinha a morte e os sentimentos que lhe são associados - o luto, a dor, a perda, o abandono. E poderíamos ficar por aqui. Os tópicos que se seguem traduzem apenas a minha perceção do livro - seriam um descarnado rodapé para este texto basilar. Refira-se, antes disso, este excerto do posfácio de Isabel Mendes Ferreira (imf), “um livro grito que nos agita em bátegas de água puras intensas melancólicas doridas”, complemento fundamental para nos acercarmos à obra de Regina Correia: “devolve-nos a certeza sem equívocos. leva-nos ao centro de si mesma e faz das palavras a certeza de um vendaval aceso e sem pausas”, e, mais adiante, “poderoso e poético o verbo da tempestade axiomática que nos é vitalidade”.

Este é um livro para se abraçar, para se acolher, nos acolher. Uma montra de sobriedade e despojamento, que alude candidamente a uma infância remota, pensada e desconhecida. A obra é também um lugar privilegiado de afetos, amor vasto (porquanto ocupa grande parte dos cenários), mas sobretudo de dor, melancolia, e todas as faces da morte. A morte que é memória, consciência e futuro. Insistentemente referida, mesmo que vagamente, ela é também ritualizada ou anónima, em valas (in)comuns. Corporizada no horror das guerras, na banalização da barbárie envolvente, nos despojos e naufrágios, no corpo inerte. As narrativas poéticas escondem-se em labirintos, na noite e no silêncio: como a solidão, o sono, e a insónia se aliam ao manto esfumado da penumbra e das sombras, à treva.

Regina C. traz a evocação do passado, permanente e presente. É um passado aberto e interminável que se prolonga na expetativa do devir. O silêncio ao desvanecer-se é, afinal, voz luminosa. Dignifica a palavra e o poema, todos os poemas, sintéticos e cortantes, cerebrais, lustrosos ou polidos.

LIX

1.

“(…) Cada palavra que escrevo é um ferro em

brasa no labirinto gelado das vozes fora

do seu lugar só devastação dos sentidos (…)”.

 

Os textos livremente irmanados libertam-se do supérfluo, sendo embora indistintamente bucólicos, algo surrealistas e expurgados de quaisquer resíduos. Há nestes relâmpagos que redesenham o panorama, uma beleza inata, cerebral, digna e assoladora, descrevendo retas cintilantes que se cortam. Um luz clara definitiva e altiva. São poemas migrantes, como as aves, rudes e imprevisíveis: bichos e feras.

LXII

“(…) É o poema que desenha a paisagem.

As aves de rapina ignoram a falta de

chuva e buscam o eixo do futuro nas

vastas grossas areias entre terra e mar (…)”.


Regina C. transmuta-se em raízes, terra, mar brabo, rotas e margens, flores e baobás. Tem a cor e a fluidez dos desertos, a aridez estéril dos sítios mais ásperos e inóspitos. A poeta traz savanas e ventos devastadores, precipícios de palavras, a intensidade dos trovões. É moldada por vulcões e ilhas.

LIII

“(…) Não nasci numa ilha. Mas sou de

ilhas. Das ilhas. De muitas ilhas (…)”.

 

O livro é também um cartão identitário, que reafirma a noção de liberdade, com algumas referências bíblicas e laivos de espiritualidade. Regina explica-se e conta-se: apresenta-se. Discreta e secreta, através de uma narradora recolhida, questionando o mundo. Tu e Nós alternam-se em narrativas sincopadas, oníricas e partilhadas, fantásticas e interrogativas. O leitor menos avisado deixar-se-á armadilhar pela surpresa de passar abruptamente da maior sobriedade à exaltação, ao discurso febril: não há meio termo nem paisagens amenas. A poeta critica sem tréguas o discurso inflamado do ódio, a palavra-veneno, a mortal indiferença. Este silêncio que em relâmpagos se desfaz esclarece-nos, incessantemente: o amor chega no Tempo certo – é sempre um enigma – e o poema é sempre secreto. Luísa Fresta – Portugal

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Regina Correia, luso-angolana, é natural de Viseu. Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi professora do ensino secundário em Angola, Portugal e na Alemanha. Autora de prefácios e recensões públicas de livros, tem coordenado projetos culturais e recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas. Publicou sete obras literárias, duas de ficção – “Os Enteados de Deus” (Universitária Editora, 1990) e “Uma Borboleta na Cidade” (Universitária Editora, 2000; Editorial Novembro, 2023), e cinco de poesia – “Noite Andarilha” (Universitária Editora, 1999; Alphabetum Editora, 2012), “Sou Mercúrio, Já Fui Água” (Alphabetum Editora, 2012), “Conjugação de Mapas” (Editorial Novembro, 2020), “No Coração dos Desertos e outros Oásis” (Rosa de Porcelana Editora, 2023), “Este Silêncio que em Relâmpagos se desfaz” (Editorial Novembro, 2026). Venceu os prémios Clarice Lispector “Melhor Poeta do Ano de 2018” e “Melhor Livro de Poesia 2021”, pela Editora ZL (Brasil) e ainda o “Prémio Destaque Literário” (2019), pela Literarte (Brasil). É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE)

Ângela Almeida - Poeta e Investigadora (Ph.D).

 



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