Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 6 de junho de 2026

Lusofonia - A arte e a tecnologia em nove culturas unidas pela língua portuguesa

A língua portuguesa é o elemento de união entre comunidades e culturas espalhadas por quatro continentes – e também o fio conector de “Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas da Língua Portuguesa”, um livro que reúne investigações sobre arte, tecnologia e evoluções culturais em nove territórios lusófonos. O editor José Manuel Simões apresentou alguns dos destaques da obra ao Parágrafo e desvendou ainda dois projectos futuros, também centrados na lusofonia


Há uma ilha em Timor-Leste onde cada aldeia fala um crioulo próprio. Ataúro, conhecida pela paisagem idílica de recifes de coral, águas límpidas e a maior biodiversidade marinha do mundo, é também lar de uma pluralidade linguística muito própria. Mais do que língua oficial, a língua portuguesa é, sobretudo, o elemento que unifica e aproxima as diferentes comunidades que habitam o território.

A ideia de explorar o papel do português enquanto instrumento conector surgiu precisamente numa viagem a Ataúro, conta José Manuel Simões, coordenador do Departamento de Media, Arte e Tecnologia da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de São José (USJ), em entrevista ao Parágrafo. Da pequena ilha paradisíaca, nasceu uma ideia que ganhou raízes em muitos outros pontos do mundo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

O resultado é o livro Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa, uma colectânea de trabalhos de investigação sobre as práticas artísticas, as tecnologias digitais e as evoluções culturais que se manifestam nas múltiplas sociedades lusófonas. A obra, organizada e editada por José Manuel Simões e publicada pela USJ em Setembro do ano passado, conta com a colaboração de mais de uma dezena de académicos rigorosamente seleccionados pelo editor.

«São pessoas que tinham já trabalhos relevantes nestes países, ou nestas áreas de interesse, e pedi-lhes em concreto para criarem um trabalho original», explica o docente. Neste contexto, «original» não se refere apenas a «novo» – houve também a intenção de criar um livro «inovador», tanto nos temas retratados como na tecnologia incorporada nas páginas. Cada um dos capítulos vem acompanhado de um código QR, através do qual o respectivo autor faz um resumo em vídeo, «em quatro ou cinco minutos», do tema que explora no texto: da criptoarte no Brasil à crescente automatização dos textos jornalísticos em Cabo Verde.

Quanto ao capítulo de Macau, a temática explorada relaciona-se com uma prática comum mas pouco analisada no território – a filantropia – e a sua relação com os valores confucionistas que ainda moldam a sociedade contemporânea da região. A autora, Carmen Zita Monereo, apesar de residir em Portugal, foi convidada a integrar o projecto após concluir o pós-doutoramento em Comunicação e Media na USJ, sob a orientação de José Manuel Simões.

«Lancei-lhe o desafio de escrever sobre o impacto da filantropia corporativa em Macau porque vem na sequência de algo que ela já tinha feito ao nível do doutoramento, sobre o papel de alguns filantropos em Portugal», explica o editor. «Chega-se a conclusões bastante interessantes neste estudo: nomeadamente, que os filantropos de Macau têm uma postura muito mais “low profile”, mais discreta; não gostam de exibir os seus feitos, a sua solidariedade, os seus contributos para o desenvolvimento da cultura local».

Carmen Zita Monereo usa a Fundação Rui Cunha, a Fundação Macau e a Fundação Oriente como principais objectos de estudo, identificando os valores que sustentam estas organizações, os fluxos de comunicação que propiciam a actividade filantrópica e a forma como os três se relacionam entre si. «Acaba-se por concluir que são as características pessoais de cada filantropo – por exemplo, o doutor Rui Cunha, com uma forte ligação à arte e à inovação – que diferenciam as decisões estratégicas sobre o que fazer, o que apoiar, ou que áreas apoiar», adianta o académico.

Embora reconheça que esta é uma área «relativamente pouco estudada» e com poucos dados e fontes disponibilizados ao público, Monereo afirma, na conclusão do seu texto, que a cultura filantrópica está em ascensão em Macau, particularmente desde a Covid-19. «Considerando as questões da pesquisa, e com base nos resultados, a filantropia está a crescer e pode servir para ajudar artistas, novos media e projectos baseados em tecnologia», escreve, identificando a educação, a saúde e o meio ambiente como as principais áreas de interesse dos doadores.

As máquinas ao serviço dos humanos (e não o contrário)

O capítulo sobre Portugal aborda a literatura electrónica, uma arte experimental nascida por volta dos anos 50 e que continua a desdobrar-se em novas potencialidades à medida que as ferramentas tecnológicas evoluem. A partir do convite inicial a Rui Torres – professor catedrático na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e um dos grandes nomes de referência no estudo e na produção de literatura electrónica e poesia digital em Portugal – juntou-se ao projecto a co-autora Fernanda Bonacho, também estudiosa da relação entre a produção literária e a cultura digital.

A partir desta forma híbrida de expressão artística, conhecida também como “e-literature”, introduzem-se no texto temas igualmente oportunos como a literacia digital – «uma ferramenta decisiva na era pós-digital», sublinha José Manuel Simões. O trabalho de investigação faz-se por três prismas: o cronológico, que divide a “e-literatura” em três gerações e contextos históricos; o arqueológico, que levanta discussões sobre as estratégias de preservação e recontextualização das obras; e o simbólico, que traça um paralelismo entre a água nos seus diferentes estados e a preservação do ‘hardware’ e ‘software’ das obras (forma sólida), o seu dinamismo e a adaptabilidade (forma líquida) e a natureza efémera das obras criadas em redes sociais (forma gasosa).

A base teórica formada por estas três perspectivas «contribui não só para a preservação e compreensão da e-leitura, mas também assegura que essas obras permaneçam acessíveis e relevantes para futuras gerações», de acordo com os autores. «Assim, a e-literatura destaca-se como um campo dinâmico e essencial para a literacia digital, desempenhando um papel crucial na promoção de uma comunicação inclusiva e crítica na era digital», lê-se na conclusão do capítulo.

IA e livros futuros

O tema da inteligência artificial (IA) é contemplado nos capítulos de Angola e Cabo Verde – e é, de resto, um tema incontornável no actual panorama tecnológico (e até criativo) a nível global. Em Macau, território em que a língua portuguesa é minoritária, vários organismos e serviços já fazem uso de ferramentas de tradução automática do chinês para o português, o que resulta frequentemente em produções linguísticas incorrectas ou até mesmo incompreensíveis.

José Manuel Simões defende que a IA, como todas as tecnologias, tem as suas potencialidades e pontos fracos – cabe ao utilizador saber usá-la, pensando sempre nas implicações éticas e mantendo um diálogo crítico e intelectualmente dinâmico com a máquina. «Um aluno meu, finalista na cadeira de Ética que ensino, fez um trabalho onde concluiu que 90% dos estudantes em Macau usam inteligência artificial nos seus ensaios», conta ao Parágrafo. «Se os alunos se limitarem a fazer perguntas básicas e a copiarem as respostas, claro que isso é uma espécie de plágio».

Por outro lado, se o mesmo aluno «questionar com pertinência e inteligência, analisando e questionando as respostas», os resultados serão diferentes. «Aí, cria-se uma ligação que me parece interessante para o desenvolvimento da nossa capacidade de conhecimento, ao criar quase que um diálogo com a ferramenta de IA para chegar a conclusões mais abrangentes e mais capazes». O importante, frisa, é que «haja vigilância e controlo: temos de ser nós a controlar a IA, não o contrário».

Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa foi apresentado na Fundação Rui Cunha no dia 12 de Maio, com a presença do orientador e de alguns dos doze colaboradores que participaram na publicação: Wilson Caldeira (no capítulo de Angola), Daniel Farinha (Brasil), Silvino Évora (Cabo Verde), Camará Morto (Guiné-Bissau), Carmen Monereo (Macau), Vanessa Rodrigues (Moçambique), Rui Torres e Fernanda Bonacho (Portugal), José Manuel Simões (São Tomé e Príncipe) e Paulo Faustino e Rui Novais (Timor-Leste).

Ao Parágrafo, o investigador revela que está actualmente a preparar duas obras sucessoras a este trabalho: O Português nas Nove Culturas da Língua Portuguesa e As Indústrias Criativas nas Nove Culturas de Língua Portuguesa. Debruçando-se sobre o primeiro, com data de publicação prevista para 2027, José Manuel Simões revela que este será composto por uma selecção de textos assinados por especialistas provenientes de cada região, que se dedicarão a analisar o estado da língua portuguesa nos vários espaços culturais do mundo lusófono. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


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