A língua portuguesa é o elemento de união entre comunidades e culturas espalhadas por quatro continentes – e também o fio conector de “Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas da Língua Portuguesa”, um livro que reúne investigações sobre arte, tecnologia e evoluções culturais em nove territórios lusófonos. O editor José Manuel Simões apresentou alguns dos destaques da obra ao Parágrafo e desvendou ainda dois projectos futuros, também centrados na lusofonia
Há uma ilha em Timor-Leste onde cada
aldeia fala um crioulo próprio. Ataúro, conhecida pela paisagem idílica de
recifes de coral, águas límpidas e a maior biodiversidade marinha do mundo, é
também lar de uma pluralidade linguística muito própria. Mais do que língua
oficial, a língua portuguesa é, sobretudo, o elemento que unifica e aproxima as
diferentes comunidades que habitam o território.
A ideia de explorar o papel do português enquanto
instrumento conector surgiu precisamente numa viagem a Ataúro, conta José
Manuel Simões, coordenador do Departamento de Media, Arte e Tecnologia da
Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de São José (USJ), em
entrevista ao Parágrafo. Da pequena ilha paradisíaca, nasceu uma ideia
que ganhou raízes em muitos outros pontos do mundo: Angola, Brasil, Cabo Verde,
Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
O resultado é o livro Media, Arte e Tecnologia nas
Nove Culturas de Língua Portuguesa, uma colectânea de trabalhos de
investigação sobre as práticas artísticas, as tecnologias digitais e as
evoluções culturais que se manifestam nas múltiplas sociedades lusófonas. A
obra, organizada e editada por José Manuel Simões e publicada pela USJ em
Setembro do ano passado, conta com a colaboração de mais de uma dezena de
académicos rigorosamente seleccionados pelo editor.
«São pessoas que tinham já trabalhos relevantes nestes
países, ou nestas áreas de interesse, e pedi-lhes em concreto para criarem um
trabalho original», explica o docente. Neste contexto, «original» não se refere
apenas a «novo» – houve também a intenção de criar um livro «inovador», tanto
nos temas retratados como na tecnologia incorporada nas páginas. Cada um dos
capítulos vem acompanhado de um código QR, através do qual o respectivo autor
faz um resumo em vídeo, «em quatro ou cinco minutos», do tema que explora no
texto: da criptoarte no Brasil à crescente automatização dos textos
jornalísticos em Cabo Verde.
Quanto ao capítulo de Macau, a temática explorada
relaciona-se com uma prática comum mas pouco analisada no território – a
filantropia – e a sua relação com os valores confucionistas que ainda moldam a
sociedade contemporânea da região. A autora, Carmen Zita Monereo, apesar de
residir em Portugal, foi convidada a integrar o projecto após concluir o
pós-doutoramento em Comunicação e Media na USJ, sob a orientação de José Manuel
Simões.
«Lancei-lhe o desafio de escrever sobre o impacto da
filantropia corporativa em Macau porque vem na sequência de algo que ela já
tinha feito ao nível do doutoramento, sobre o papel de alguns filantropos em
Portugal», explica o editor. «Chega-se a conclusões bastante interessantes
neste estudo: nomeadamente, que os filantropos de Macau têm uma postura muito
mais “low profile”, mais discreta; não gostam de exibir os seus feitos,
a sua solidariedade, os seus contributos para o desenvolvimento da cultura
local».
Carmen Zita Monereo usa a Fundação Rui Cunha, a Fundação
Macau e a Fundação Oriente como principais objectos de estudo, identificando os
valores que sustentam estas organizações, os fluxos de comunicação que
propiciam a actividade filantrópica e a forma como os três se relacionam entre
si. «Acaba-se por concluir que são as características pessoais de cada
filantropo – por exemplo, o doutor Rui Cunha, com uma forte ligação à arte e à
inovação – que diferenciam as decisões estratégicas sobre o que fazer, o que
apoiar, ou que áreas apoiar», adianta o académico.
Embora reconheça que esta é uma área «relativamente pouco
estudada» e com poucos dados e fontes disponibilizados ao público, Monereo
afirma, na conclusão do seu texto, que a cultura filantrópica está em ascensão
em Macau, particularmente desde a Covid-19. «Considerando as questões da
pesquisa, e com base nos resultados, a filantropia está a crescer e pode servir
para ajudar artistas, novos media e projectos baseados em tecnologia», escreve,
identificando a educação, a saúde e o meio ambiente como as principais áreas de
interesse dos doadores.
As máquinas ao serviço dos humanos (e não o contrário)
O capítulo sobre Portugal aborda a literatura
electrónica, uma arte experimental nascida por volta dos anos 50 e que continua
a desdobrar-se em novas potencialidades à medida que as ferramentas
tecnológicas evoluem. A partir do convite inicial a Rui Torres – professor
catedrático na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando
Pessoa, no Porto, e um dos grandes nomes de referência no estudo e na produção
de literatura electrónica e poesia digital em Portugal – juntou-se ao projecto
a co-autora Fernanda Bonacho, também estudiosa da relação entre a produção
literária e a cultura digital.
A partir desta forma híbrida de expressão artística,
conhecida também como “e-literature”, introduzem-se no texto temas
igualmente oportunos como a literacia digital – «uma ferramenta decisiva na era
pós-digital», sublinha José Manuel Simões. O trabalho de investigação faz-se
por três prismas: o cronológico, que divide a “e-literatura” em três gerações e
contextos históricos; o arqueológico, que levanta discussões sobre as
estratégias de preservação e recontextualização das obras; e o simbólico, que
traça um paralelismo entre a água nos seus diferentes estados e a preservação
do ‘hardware’ e ‘software’ das obras (forma sólida), o seu
dinamismo e a adaptabilidade (forma líquida) e a natureza efémera das obras
criadas em redes sociais (forma gasosa).
A base teórica formada por estas três perspectivas «contribui não só para a preservação e compreensão da e-leitura, mas também assegura que essas obras permaneçam acessíveis e relevantes para futuras gerações», de acordo com os autores. «Assim, a e-literatura destaca-se como um campo dinâmico e essencial para a literacia digital, desempenhando um papel crucial na promoção de uma comunicação inclusiva e crítica na era digital», lê-se na conclusão do capítulo.
IA e livros futuros
O tema da inteligência artificial (IA) é contemplado nos
capítulos de Angola e Cabo Verde – e é, de resto, um tema incontornável no
actual panorama tecnológico (e até criativo) a nível global. Em Macau,
território em que a língua portuguesa é minoritária, vários organismos e
serviços já fazem uso de ferramentas de tradução automática do chinês para o
português, o que resulta frequentemente em produções linguísticas incorrectas
ou até mesmo incompreensíveis.
José Manuel Simões defende que a IA, como todas as
tecnologias, tem as suas potencialidades e pontos fracos – cabe ao utilizador
saber usá-la, pensando sempre nas implicações éticas e mantendo um diálogo
crítico e intelectualmente dinâmico com a máquina. «Um aluno meu, finalista na
cadeira de Ética que ensino, fez um trabalho onde concluiu que 90% dos
estudantes em Macau usam inteligência artificial nos seus ensaios», conta ao
Parágrafo. «Se os alunos se limitarem a fazer perguntas básicas e a copiarem as
respostas, claro que isso é uma espécie de plágio».
Por outro lado, se o mesmo aluno «questionar com
pertinência e inteligência, analisando e questionando as respostas», os
resultados serão diferentes. «Aí, cria-se uma ligação que me parece
interessante para o desenvolvimento da nossa capacidade de conhecimento, ao
criar quase que um diálogo com a ferramenta de IA para chegar a conclusões mais
abrangentes e mais capazes». O importante, frisa, é que «haja vigilância e
controlo: temos de ser nós a controlar a IA, não o contrário».
Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua
Portuguesa foi apresentado na
Fundação Rui Cunha no dia 12 de Maio, com a presença do orientador e de alguns
dos doze colaboradores que participaram na publicação: Wilson Caldeira (no
capítulo de Angola), Daniel Farinha (Brasil), Silvino Évora (Cabo Verde),
Camará Morto (Guiné-Bissau), Carmen Monereo (Macau), Vanessa Rodrigues
(Moçambique), Rui Torres e Fernanda Bonacho (Portugal), José Manuel Simões (São
Tomé e Príncipe) e Paulo Faustino e Rui Novais (Timor-Leste).
Ao Parágrafo, o investigador revela que está
actualmente a preparar duas obras sucessoras a este trabalho: O Português
nas Nove Culturas da Língua Portuguesa e As Indústrias Criativas nas
Nove Culturas de Língua Portuguesa. Debruçando-se sobre o primeiro, com
data de publicação prevista para 2027, José Manuel Simões revela que este será
composto por uma selecção de textos assinados por especialistas provenientes de
cada região, que se dedicarão a analisar o estado da língua portuguesa nos
vários espaços culturais do mundo lusófono. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto
Final”
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