Em Diálogos Inquietantes, Armindo Ferreira revisita
alguns dos episódios mais sensíveis da história contemporânea de Cabo Verde,
questionando narrativas consolidadas sobre a independência, o PAIGC, Amílcar
Cabral e os debates identitários no arquipélago. Publicado em edição de autor,
o livro reflecte a recusa do autor em submeter a escrita a critérios editoriais
e comerciais, assumindo a publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão
e prazer intelectual. Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance
provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala
também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica,
ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento.
Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que,
entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo
António, e Pedro Cardoso, na Fazenda
O livro está dividido em duas partes. Por que Diálogos Inquietantes dá título à obra?
Na verdade, o livro não está dividido
em duas partes. Só o está aparentemente. São na realidade dois livros numa
única brochura. O que chama segunda parte, é um livrinho que publiquei no ano
passado “domesticamente” – uma distribuição extremamente reduzida e quase
familiar ou muito pouco mais do que isso e que achei por bem agora incluir
nesta brochura cujo título é Diálogos Inquietantes. São temáticas
absolutamente autónomas, ambos diálogos inquietantes de natureza díspar, que
reflectem, de certa forma, um antes e um depois do mesmo período histórico,
abordados e expostos de forma bem diferentes.
Em que sentido estes 14 diálogos são inquietantes? Pelos
temas controversos que aborda?
Não, não são 14 diálogos, mas sim, 14 capítulos. Aceito a
sua conclusão com uma ligeira alteração: a controvérsia não é propriamente dos
temas, pois estes são velhos e batidos, mas sobretudo pela temeridade da
abordagem que deles faço: a dessacralização de determinados mitos e o
ajustamento, com uma visão bem diferente e devidamente fundamentada e
justificada, – obviamente do meu ponto de vista – de determinadas fantasiosas
narrativas históricas.
Por exemplo, pela voz de uma das personagens, afirma que
a independência de Cabo Verde resultou de uma cumplicidade entre o MFA
(Movimento das Forças Armadas) e o PAIGC. Em que fundamenta essa afirmação?”
Eu provo lá que é uma cumplicidade. Bom, não vou explicar
porque não vou falar do livro. O livro, o leitor chega lá mais tarde. Mas está
lá explicado porque é que é uma cumplicidade. Tenho os dados que levam qualquer
pessoa a chegar a esta conclusão, porque até há livros e ensaios publicados
nesse sentido, de autores portugueses, que mostram que houve uma enorme
cumplicidade entre o MFA e o PAIGC. E entregaram de bandeja a independência,
não ao povo cabo-verdiano que devia ser, mas ao PAIGC, porque a independência
foi entregue. Resultado: passamos 15 anos na continuação de um regime
ditatorial e totalitarista. Portanto, nós saímos do Estado Novo e entramos numa
ditadura que nada ficou a dever à outra: a censura, as torturas, as prisões
arbitrárias, tudo o que a outra senhora tinha, nós continuamos a ter. Portanto,
foi o MFA que entregou de bandeja... mas eu explico isso no livro de maneira
mais acabada, não como estou a falar aqui de forma atabalhoada, porque
infelizmente o MFA não escondeu isso. Pelo contrário, fez gala disso, no género
de afirmações: já deixei o PAIGC pronto para poder fazer isto e aquilo e não
sei quantos. Mas está tudo fundamentado no livro.
O livro refere também que o assassinato de Amílcar Cabral
era, desde o Congresso de Cassacá, uma “morte anunciada”. Em que assenta a sua
interpretação histórica?
Sim, as coisas do Congresso de Cassacá foram
violentíssimas. Ele cavou um fosso e criou inimigos para todo o percurso que
fez. E Amílcar Cabral, ao dogmatizar a unidade Guiné-Cabe Verde, ele estava a
defender Cabo Verde e não a Guiné. Eu tenho isto mais ou menos exposto no
livro. Note que Cabral dogmatizou a questão da unidade Guiné-Cabo Verde, não
foi uma aliança. Cabral impôs uma questão como prioritária. Quer dizer que ele
estava à frente da própria independência: é mais importante manter a unidade Guiné-Cabo
Verde do que criar situações para que essa unidade viesse a ser aceite pelos
povos dos dois países. Mas, como eu disse, eu tenho tudo isso escrito, não
quero entrar nos pormenores do livro.
Através da personagem Dr. Leonardo Gonçalo, aborda
criticamente certas manifestações contemporâneas do africanismo e questiona
possíveis tendências de negação da mestiçagem que marcou historicamente Cabo
Verde. Que reflexão pretende suscitar sobre os debates identitários
contemporâneos no país?
Compreendo a sua pergunta, mas a minha posição sobre o assunto é, ou seria neste caso, irrelevante. Mas mesmo assim, posso-lhe dizer, que, para mim é um não-assunto. Mas não o é, de todo, para o Dr. Leonardo Gonçalo, personagem do meu livro, que o aborda en passant, posta de uma forma muito breve, nas seguintes posições: os primeiros homens que chegaram a este território eram caucasianos europeus. Logo Cabo Verde deve ser a única colónia portuguesa cuja história começa com a chegada dos portugueses. Estes trouxeram – não vieram!... – do continente africano pessoas escravizadas de várias e diferentes etnias – mais de três dezenas! – cada uma com a sua língua, com os seus costumes, com as suas tradições, com a sua cultura, com a sua História. Isto é, as pessoas escravizadas, para além da sua situação ou circunstância, estavam “apenas” unidas entre si pela cor da pele. A homogeneização de tudo isto, incluindo os caucasianos, deu o cabo-verdiano. Um produto acabado e definido há já alguns séculos! Usando, grosseiramente, uma linguagem e configuração química: formou-se um composto e deixou de ser uma mistura. Isto é, as especificidades de cada elemento “desaparecem” no produto final, no todo. Como bem disse Gabriel Mariano: “Nós somos as nossas raízes!”
O livro abre com uma citação de Bertrand Russell: “Dos
infinitos desejos do homem, os principais são os desejos de poder e de glória.”
Que significado pretendeu atribuir a esta citação no contexto da obra?
Eu penso que ao longo do livro o leitor não terá qualquer
dúvida quanto ao alcance que dei a essa conclusão de Bertrand Russel. Deixo ao
leitor esta incumbência.
Há uma passagem no livro em que o doutor Leonardo entra
em cena no momento em que alguém afirma: “Temos de fazer como aquele camarada
que incentivava outros camaradas a suicidarem-se como classe social, a fim de
serem recebidos como ‘os melhores filhos’.” Como refere no livro, a expressão
“suicídio de classe” não é originalmente de Amílcar Cabral, mas sim é atribuída
a um médico maliano. Que reflexão pretende suscitar com esta referência?
Não, não pretendo suscitar qualquer reflexão. Apenas
alertar para o facto de muitas das expressões ou frases atribuídas de forma
grandiloquente a Amílcar Cabral não passam de lugares-comuns ou de adaptações
de expressões já utilizadas por outras personalidades. O problema não é Cabral
usá-las, mas os seus seguidores, por pura ignorância ou ostentação bacoca do
culto de personalidade, na ânsia de o exaltar, citarem-no como autor, o que, no
meu ponto de vista, até o menoriza.
Que enquadramento atribui ao conto O Divórcio
dentro da estrutura e do universo temático do livro?
Penso que já expliquei atrás o aparecimento de O
Divórcio bem como o seu enquadramento na estrutura da brochura.
À primeira vista, O Divórcio parece destoar um
pouco do ambiente político e social vivido em Cabo Verde no período pós-25 de
Abril. Considera que há um contraste deliberado ou entende que ambos os planos
acabam por se complementar?
O conto O Divórcio situa-se precisamente no
momento logo a seguir à Independência e passa-se no ambiente vivido pelos
protagonistas na sua abrangente intimidade… Não parece existir qualquer
contraste interno. Estarei de acordo consigo sim, que, de certa forma, poderá
existir uma complementaridade.
A temática do divórcio é pouco abordada na literatura
cabo-verdiana. O voo foi feito sobre as nuvens?
Talvez não. Note que o período logo a seguir à
independência, nós tínhamos um regime católico em que o divórcio era uma
espécie de um anatoma. As pessoas separavam às vezes e fingiam e continuavam a
viver juntas. E quando se deu a independência, não é o seu tempo, não é o meu,
foi uma explosão de divórcio por todo o lado, porque liberalizou-se. A
concordata que existia com a igreja depois caiu. E os tempos foram outros,
foram tempos de divórcio. Este é um elemento e por acaso até se justifica,
porque a minha ideia é que o casamento, quer dizer, o indivíduo que é
transportado para uma outra região, a senhora [personagem do conto O
Divórcio], não obstante ser uma mestiça, tinha outra cultura e não aceitou
a invasão familiar, que é normal em Cabo Verde, mas para ela não é normal, é
uma intromissão na sua vida. Por outro lado, ela não se sentia integrada. E à
essa falta de integração, de certa forma, culpou o marido. Mas deu uma chance
ao marido: ou vens comigo ou divorciamos. Mas não vou contar toda a história,
porque está no livro.
Considera adequado o timing escolhido para a venda do
livro?
Esta seria uma preocupação de uma edição comercial. A
edição do autor, normalmente, de reduzida tiragem, não deve ter essa
preocupação, a de exponenciar essa vertente, mas sim, a de priorizar a
divulgação. Neste caso específico, Diálogos Inquietantes, penso que a
sua leitura seria, sem qualquer presunção, uma possível oportunidade para
questionar, mesmo que apenas interiormente, certos posicionamentos!
Por que optou pela publicação do livro em edição do
autor?
Eu poderia muito simplesmente responder-lhe: E porque
não, edição do autor? Mas presumo que possa ter algum, não direi preconceito,
mas alguma reserva, sobre a edição do autor, porque senão não a questionava. No
meu caso específico, dir-lhe-ei que escrevo por prazer, para me divertir, não
sou escritor. É uma maneira como outra qualquer de ocupar, de passar o tempo:
registar as minhas reflexões, as minhas cogitações, os meus devaneios. E também
sou eu que me divirto a fazer a composição e a paginação dos meus livros. Só a
impressão não faço quando são muitas páginas. Indo directamente à sua questão:
não tenho paciência para me submeter às prioridades do editor nem aos seus
critérios, designadamente, comerciais. Bem me basta a “comissão de leitura”
doméstica que, para além da apertada avaliação técnica, tem em conta, – porque
também interessada, – a eventualidade de um fútil despesismo e que, normalmente
não se fica pelo simples “no objection” indo, bastas vezes, à
recomendação expressa e explícita de publicação ou não. António Monteiro –
Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”
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