Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Cartografando a melancolia

O caso d´O corpo a pender-lhe uma solidão, de Maria Joana Almeida



Autora de Estamos todos em fila de espera para a morte (2022) e Histórias de Amor (2023), Maria Joana Almeida dá-nos a ler agora O corpo a pender-lhe uma solidão (2026).

A escritora entra no mundo literário com uma obra impulsionada pela transição física de dois dos seus propínquos e fortalece a sua presença poética com a publicação de um segundo livro no qual explora as dinâmicas do amor.

No seu mais recente trabalho literário, o terceiro livro com a casa Elefante editores, O corpo a pender-lhe uma solidão, Maria Joana Almeida mantém a forma prosopoética de escrever, mas há uma outra leveza nas linhas que tecem as estrofes deste poemário, assemelhando-as, em muitos casos, aos poemas escritos em versos.  Em nosso entender, no que diz respeito à forma, a autora está num processo de lapidar e de dissecar a palavra como exige a grande poesia.

Quanto à substância, O corpo a pender-lhe uma solidão é um livro literário que nos leva a mapearmos as ausências e as memórias de pessoas e de lugares que conhecemos ao longo do exercício de viver: “tenho nomes/ colados de forma frágil/ e que quebram/ estrondosamente/ a cada memória” (p.17).

Nos 15 poemas do livro (“desabitada”, “Sim”, “casa”, “desnorte”, “sorriso”, “noite escura”, “melancolia”, “falta”, “peso”, “tu”, “travessia”, “casa”, “nítida luz”, “leme” e “dialecto”), a autora trabalha com três sentimentos caros aos bons poetas: saudade, melancolia e amor: “abre-me o peito de jeito brando/ como quem descobre uma nova casa/ não fales em esperança” (p.25).

A soma da saudade e do  amor, neste livro literário, levá-nos ao campo da apreciação da melancolia: “com o inverno por entre os dedos/ resgatando as minhas mortes/ para que me declare viva numa outra voz” (p.28).

Num mundo em constante mudança, os textos que compõem O corpo a pender-lhe uma solidão revelam a incerteza permanente do estado das coisas durante a vida e surpreendem o leitor pela fruição: “ruma a vida ao leme/ só por breves dias” (p.27).

Maria Joana Almeida convoca a palavra neste livro para, portanto, representar o “que foi e o que vem” (p.3), “fixando a ausência e o movimento” (p.11), “sem som nem sombra” (p.13), “num apocalipse” (p.13), “para que o silêncio se torne mais cúmplice do coração” (p.17).

Mutatis mutandis, O corpo a pender-lhe uma solidão, de Maria Joana Almeida, é um poemário cujo objectivo é mesclar o texto escrito com o texto pictórico e fazer uma cartografia do que consome os humanos na modernidade líquida: a melancolia diante da realidade de que nada é sólido para sempre. Lendo este livro, reforça-se a ideia segundo a qual as pessoas queridas, os amores e até  mesmo o genius loci [o espírito dos lugares] não duram para sempre, porque, como alerta a sabedoria dos homens que se perderam nas noites dos tempos, tudo passa. João André – Angola

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Maria Joana Soares de Almeida – Nasceu a 04 de outubro de 1982, portuguesa, reside na cidade de Lisboa, é professora de Educação Especial e formadora na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Tem artigos publicados, na área da educação, no blogue Pedimos Gomas Como Resgate de sua autoria e artigos de opinião no jornal Público.

Na literatura, destaca-se na poesia e na prosa poética. Publicou: Estamos Todos em Fila de Espera para a Morte, 2022, Elefante editores, romance / ficção contemporânea; Histórias de Amor, 2023, Elefante editores, poesia e O corpo a pender-lhe uma solidão, 2026, Elefante editores, prosa e poesia.

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João Fernando André (Kalunga) – nasceu em Cahama, Angola, a 14 de junho de 1995. É professor, investigador, ensaísta, escritor e consultor cultural angolano. Associado ao Institute for Humanities in Africa at the University of Cape Town, à Universidade de Lisboa, ao Projecto ECO-África e à Alliance Française. Doutorando em Literaturas, Artes e Culturas Modernas. Publicou Evangelho Bantu; O dia em que uma pedra virou lua; LumbuA alquimia das palavras, e COnVIDem o Vírus. Participou em várias antologias. Actua nos seguintes campos do saber:  Literaturas, Artes e Culturas Modernas; Português/Inglês Língua Estrangeira; Cultura Angolana, História da Língua Portuguesa; Técnicas de expressão oral e escrita; Literatura Angolana; Poesia moderna e contemporânea de Angola; Historiografia das literaturas em língua portuguesa; Análise de discurso; Neologia; Dicionarística; Filosofia.

Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/João_Fernando_André

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