Professores de português destacados na Ásia manifestaram preocupação com a proposta de revisão do Regime Jurídico do Ensino do Português no Estrangeiro (RJEPE), considerando que introduz precariedade e compromete papel da língua portuguesa como “instrumento de diplomacia cultural”
Delfim Correia da Silva, leitor do
instituto Camões e coordenador do Programa de Português e de Estudos Lusófonos
da Universidade de Goa, sublinha que os artigos 50.º e 51.º da proposta
representam “um retrocesso” ao suspender o vínculo dos docentes à função
pública e limitar as comissões de serviço.
“A instabilidade e precariedade alarga-se a todos os
docentes, quer estejam vinculados ou contratados”, afirma, lembrando que
durante mais de uma década vigorou um modelo que favorecia a estabilidade
profissional e familiar.
Correia da Silva alertou ainda para a ausência de
carreiras estruturadas e progressão, que afeta a motivação e a retenção de
professores.
“A não renovação das comissões significa o desemprego”,
observou à Lusa, acrescentando que as novas tabelas salariais ignoram
diuturnidades, currículo e condicionalismos geográficos, traduzindo-se em
perdas financeiras significativas.
Para o docente, a precarização compromete também a
diplomacia cultural: “Somos pequenos diplomatas da língua e da cultura
portuguesas, mas trabalhamos como trapezistas, sem rede de proteção”.
O Instituto Camões assegura o ensino da língua e cultura
portuguesas, ao nível do ensino superior, em diversos países, através da sua
rede de leitorados, em cooperação com instituições de ensino superior e
organizações internacionais.
Na Ásia, tem atualmente leitorados e docentes de
português no interior da China, Macau, Vietname, Índia, Coreia do Sul,
Indonésia, Japão, Tailândia e Timor-Leste.
No Vietname, o leitor de português da Universidade de
Hanói, Márcio Santos, indicou à Lusa que considera que o modelo proposto não
promove verdadeira rotatividade, mas sim precariedade.
“Os nossos contratos cessariam sem possibilidade de
renovação e sem termos um novo posto à vista”, critica, apontando para a
exigência de repetir exames e entrevistas, apesar das avaliações periódicas já
existentes.
O leitor destaca que a ausência de carreiras estruturadas
agrava a dificuldade em preencher vagas e compromete a motivação. “A promoção
da língua portuguesa depende de relações de confiança construídas ao longo do
tempo. Uma rede precária fragiliza esse trabalho”, afirma.
Quanto às condições de trabalho, Santos refere a
desadequação das remunerações face às qualificações e ao custo de vida, bem
como a acumulação de responsabilidades que vão muito além da atividade letiva.
“Os salários atuais não refletem o escopo das nossas funções e, por vezes, nem
permitem uma vida condigna”, lamenta.
Ambos os docentes defendem soluções equilibradas que
conciliem estabilidade com renovação da rede EPE.
Correia da Silva apela a uma “análise estratégica” que
valorize a importância das relações históricas e culturais de Portugal com o
subcontinente indiano, enquanto Santos sugere eliminar a exigência de novos
exames para mudança de posto e rever condições remuneratórias.
A proposta de revisão do RJEPE, apresentada pelo Governo,
está a provocar forte contestação entre docentes e coordenadores da rede EPE.
Além de duas cartas abertas divulgadas este mês, foi
lançada uma petição que já reúne mais de oito mil assinaturas e que será
entregue na Assembleia da República.
No documento alerta-se para o risco de precarização e
eventual desmantelamento da rede, pedindo ao Governo que coloque no centro das
prioridades a estabilidade laboral e financeira dos 381 docentes destacados em
48 países.
Entre as críticas mais recorrentes está a limitação das
comissões de serviço, atualmente renováveis mediante avaliação positiva, mas
que passariam a ter apenas duas renovações possíveis.
Os profissionais denunciam que esta alteração forçaria a
substituição de docentes experientes e competentes, mesmo com avaliações
positivas, e poderia traduzir‑se num “despedimento
coletivo” de cerca de 350 professores e leitores.
As negociações com o Governo arrancaram em 28 de maio,
com novas reuniões planeadas a 29 de junho e 13 de julho, nas quais deverá ser
discutido o tema das carreiras. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”
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