Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Macau - Carlos Lemos lança novo livro com fotos do Grande Prémio

Quase uma centena de fotografias autografadas de pilotos de automóveis que passaram pelo Grande Prémio de Macau, entre 1954 e 1978, estão inseridas no segundo volume do livro dedicado ao evento automobilístico, da autoria de Carlos Lemos, que vai ser lançado no dia 6 de Novembro. O autor, que estará presente na sessão, disse ao Jornal Tribuna de Macau que a publicação tem como objectivo divulgar a vasta colecção de cerca de mais de 1900 fotografias, recortes dos jornais e cartazes guardados pelo seu pai Victor Lemos


Numa altura em que Macau vive o período de preparação para mais uma edição do Grande Prémio (GPM), o evento automobilístico internacional é tema de uma publicação da autoria de Carlos Lemos, que será lançada no próximo dia 6 de Novembro, pelas 15h00, na sede da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC).

O segundo volume do livro, com fotografias captadas entre 1967 e 1978, completa a história do GPM relatada no primeiro volume, entre 1954 e 1966. Trata-se de uma colecção pessoal de Victor H. de Lemos – já falecido, um entusiasta pelos desportos motorizados – que o seu filho Carlos Lemos decidiu editar em livro.

O segundo volume tem 356 páginas, mais 100 do que o primeiro. O conteúdo e a composição são muito idênticos, incluindo mais recortes de jornais chineses. Os principais destaques são o primeiro acidente fatal do GPM, a fracassada tentativa de criação do Circuito da Associação de Corridas Automóveis do Extremo Oriente, a primeira “Corrida da Guia”, a Corrida dos Gigantes e a evolução gradual do evento, desde as corridas amadoras até se tornar um acontecimento desportivo de classe mundial, reconhecido pela Federação Internacional do Automóvel (FIA) para as corridas de Fórmula Atlântico e Fórmula 3.

O livro contém cerca de 471 fotografias, bem como uma introdução à outra colecção de Victor H. de Lemos, “World of Motor Racing”, composta por mais de 1900 fotografias autografadas de pilotos, proprietários de carros e designers de renome internacional, como “II Commendatore” Enzo Ferrari, Stirling Moss, Michael Schumacher, Roy Salvadori, Dan Gurney, Jack Brabham, Juan Manuel Fangio, Helmut Marko, Colin Chapman, Jackie Stewart, Janet Guthrie, Sid Walkins, Tony e Mary Hulman (proprietários do circuito de Indianápolis), Frank Williams, Charlie Whiting, Louis Meyer, entre outros.

“Foi sempre vontade dele reunir todas as fotografias, muitas das quais contêm autógrafos de pilotos, dirigentes e outras pessoas directamente ligadas ao mundo automóvel, mas também recortes de jornais, cartazes, bilhetes de acesso ao circuito e outros elementos alusivos ao acontecimento”, revelou ao Jornal Tribuna de Macau o autor da publicação, que estará presente na sessão de lançamento.

Emigrado no Canadá, desde 1978, Carlos Lemos, de 77 anos de idade, diz que o espólio do pai é bastante valioso. “Se não fosse publicado seria perder um grande legado”, salienta, reconhecendo que “naquela altura, em 1978, quando ele terminou a sua colecção, era muito difícil compilar tudo em livro, mas agora, com as novas tecnologias, torna-se mais fácil”.

Numa nota de divulgação, a APOMAC frisa que Victor H. de Lemos “foi o maior entusiasta do desporto automobilístico que, durante anos sucessivos acompanhou, muito de perto, as corridas do circuito da Guia, tendo conseguido reunir uma vasta colecção de fotografias e autógrafos de grandes pilotos”.

Este livro “será uma relíquia para todos os amantes do desporto automóvel e particularmente para todos aqueles que participaram naquele evento e, bem assim, para os coleccionadores de registos iconográficos”, acrescenta o documento introdutório.

“O livro está muito bem organizado, com recortes de jornais portugueses, ingleses e chineses, sendo uma obra que completa a primeira”, adiantou o presidente da direcção da APOMAC, Francisco Manhão.

O preço de capa da publicação é de 400 patacas, com desconto para 350 no período de promoção. Parte do produto líquido proveniente da venda reverterá a favor da instituição Macau IC2 Association (I Can Too), que apoia pessoas com autismo e outras deficiências, sendo a outra parte destinada à APOMAC. O livro pode ser adquirido antecipadamente através do endereço de correio electrónico macau_cd8@yahoo.ca e a entrega será efectuada no dia do lançamento. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”



quinta-feira, 27 de julho de 2023

Moçambique - Espólio de Rui de Noronha doado à Biblioteca Municipal de Maputo

Os herdeiros do poeta e nacionalista Rui de Noronha – a sua filha, Elsa de Noronha, e seus netos, André de Noronha e Magda de Noronha – vão doar o espólio do poeta à Biblioteca Municipal Central de Maputo, uma oferta que será formalizada sexta-feira, com a entrega de um primeiro lote de documentos, entre os quais se contam os apontamentos e notas, revistas, jornais, poemas, correspondências, crónicas, cadernos e álbuns de música, que futuramente serão disponibilizados “online”.


O espólio do poeta Rui de Noronha vai ser doado no dia 28 à Biblioteca Municipal Central de Maputo, cumprindo-se uma vontade da família, revelou à coordenação da Feira do Livro de Maputo.

A coordenação da Feira do Livro de Maputo refere que esta será uma doação “sem contrapartidas”, ficando a Biblioteca Municipal Central de Maputo responsável pelo “tratamento, gestão, conservação e disponibilização do espólio literário para leitores, pesquisadores e munícipes”.

“Rui de Noronha possuiu, em alto grau, o desejo de perfeição formal, uma verdadeira consciência de artista e do seu ofício o que, aliado ao pendor esteticista, pode explicar algumas alterações que têm sido contestadas como autênticas traições aos originais”, afirmou Fátima Mendonça, professora de literatura moçambicana, pesquisadora e organizadora da obra completa de Rui de Noronha reunida em Os meus versos, publicada pela Textos Editores, 2006.

A sessão formal de doação acontece no dia 28, com as presenças do Presidente do Conselho Municipal de Maputo, Eneas Comiche, membros do Governo, corpo diplomático acreditado em Moçambique e a representante da família, Magda de Noronha, no ano em que se comemoram os 80 anos da morte do poeta Rui de Noronha.

“Ao examinar pela primeira vez o espólio, que me foi facultado em 1987 por Elsa Noronha, pude verificar a existência das alterações manuscritas, atribuídas ao Dr. Reis Costa, sobre os dactiloescritos, tendo grande parte dos sonetos ficado praticamente ilegível. À margem, e com a mesma caligrafia apareciam por vezes anotações do tipo Bom ou Fraco que confirmam o espírito classificativo que animaria o seleccionador e prefaciador dos poemas…”, sublinha a crítica literária Fátima Mendonça. In “O País” - Moçambique


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Portugal - Espólio de Eugénio de Andrade vai ter nova morada na Casa dos Livros

A assinatura do contrato de depósito da biblioteca do poeta portuense terá lugar a 14 de dezembro, na sede do Centro de Estudos da Cultura em Portugal da U.Porto (CECUP)


São mais de 17 mil livros, mas também manuscritos, desenhos, postais ou fotografias que ajudam a trilhar o percurso de um dos mais relevantes poetas portugueses do século XX. Juntos, perfazem a biblioteca de Eugénio de Andrade e vão passar a habitar a Casa dos Livros, sede do Centro de Estudos da Cultura em Portugal da Universidade do Porto (CECUP), ao abrigo do contrato de depósito que será assinalado no próximo dia 14 de fevereiro, quarta-feira, entre a Câmara Municipal do Porto e a Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP).

Com a cedência do acervo de Eugénio de Andrade ao CECUP, concretiza-se o anúncio feito pelo Presidente da CMP aquando da inauguração da Casa dos Livros, em abril de 2022. “A clarividência de colocar aqui neste belo palacete o acervo bibliográfico e os manuscritos pessoais de Eugénio de Andrade representa um simbólico regresso do poeta à cidade, garantindo-se, assim, a salvaguarda de um riquíssimo espólio, cuja relevância cultural espelha a vida e obra de uma figura incontornável da nossa literatura”, sublinhou então Rui Moreira.

Atualmente depositado na Biblioteca Municipal do Porto, a biblioteca de Eugénio de Andrade é composta por mais de 17 mil livros; 1400 manuscritos, dactiloscritos, tiposcritos com anotações e desenhos; 7400 cartas, telegramas, postais e fotografias. “Tudo será classificado, indexado pela FLUP, que é justamente uma das mais reputadas instituições no que diz respeito ao cruzamento destas duas áreas de conhecimento aqui representadas: a Literatura e a Ciência da Informação”, enalteceu o autarca.

Ao abrigo deste contrato, a FLUP assume então a obrigação de proceder ao tratamento técnico do acervo, proporcionar o acesso presencial e online, bem como promover atividades para toda a cidade. Cabe ainda à faculdade “assegurar as condições de tratamento físico e documental da coleção, incluindo a preservação física das espécies, acondicionamento e catalogação de todas as obras que passarão a integrar o catálogo bibliográfico da ‘Casa dos Livros’”.

Recorde-se que a Câmara Municipal do Porto prevê igualmente doar à Casa dos Livros um apoio de 60 mil euros – 20 mil anualmente nos próximo três anos – para apoiar o “tratamento e disponibilização ao público de todos os fundos documentais em formato físico e digital à sua guarda”. Em estudo está ainda o lançamento de um “prémio anual que potencie e promova a publicação de obras que estudem os poetas da cidade do Porto”.

Sobre Eugénio de Andrade

Natural do Fundão, onde nasceu a 19 de janeiro de 1923, Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, é um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, com uma extensa obra traduzida para mais de 20 línguas.

Autor de dezenas livros de poesia, mas também de diversas antologias poética, livros de prosa e livros infantis, é, depois de Fernando Pessoa, o poeta português mais traduzido – em quase todas as línguas românicas, mas também em inglês, alemão, checo, sueco, servo, croata, búlgaro, letão, japonês, ou  chinês. É, também, o poeta mais celebrado pela crítica e o mais editado.

Entre os inúmeros prémios e distinções que recebeu em vida, destacam-se o prémio da “Associação Internacional dos Críticos Literários” (1986), o “grande prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores” (1989), o prémio “APCA” (Brasil, 1991), o prémio “Vida Literária”, da Associação Portuguesa de Escritores (2000), ou o “prémio Camões” (2001). Foi ainda agraciado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988) e com o título de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1982).

A 22 de março de 2005, foi condecorado com o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto, juntamente com a também escritora Agustina Bessa-Luís. Faleceu três meses depois, a 13 de junho de 2005, aos 81 anos de idade. Universidade do Porto - Portugal

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Brasil - Diretor do Museu Nacional do Rio procura em Portugal doações de espólio


O diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro está em Portugal visitando diversas instituições museológicas para conseguir espólio para o futuro museu a reconstruir, após a destruição causada pelo incêndio de 2018.

“Estamos conscientes de que não vamos reconstruir o Museu Nacional, como tem de ser, sem a ajuda internacional, em especial de Portugal”, afirmou o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Alexander Kellner, aos jornalistas, frisando que o projeto de futuro museu não é uma questão financeira.

“O maior entrave e a maior preocupação de quem está no projeto não é a questão financeira, mas sim o acervo e é por isso que estou aqui”, sublinhou.

O diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro falava na Lourinhã, no distrito de Lisboa, onde nesta terça-feira visitou o museu do Grupo de Etnografia e Arqueologia da Lourinhã (GEAL) e o Dino Parque, onde estão expostos achados paleontológicos.

Nesta viagem a Portugal, o responsável pelo museu brasileiro desloca-se ainda a Coimbra, ao Porto e ao Museu de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa, em Lisboa.

“Espero que possa angariar bastante suporte com esta viagem que estou a fazer e, em 2022, desde que a pandemia o permita, pretendo intensificar estas viagens para outros países”, disse Kellner.

O responsável adiantou que já recebeu doações de espólio de instituições da Alemanha, Áustria, Inglaterra, Estados Unidos da América e França, sensibilizando as instituições portuguesas a seguir o mesmo caminho.

“Todos sabemos a história que nos une. No bicentenário da independência brasileira, é um momento propício para conversar”, afirmou Alexander Kellner, que admitiu que a parceria poderá passar por “ações de empréstimo de longa duração”.

“Os museus têm milhões de exemplares, muitos dos quais ficam nos porões. Em vez de ficarem no porão, podem ficar expostos no Brasil e eu acho que tanto o Brasil, como Portugal ficam mais bem servidos”, frisou.

A reconstrução do novo Museu Nacional do Rio de Janeiro é um investimento de 380 milhões de reais [cerca de 59 milhões de euros], dos quais já têm garantidos 65%, e deverá ficar concluída em 2026, estimou, depois de várias aberturas faseadas até lá, sendo a primeira a dos jardins do museu, em 2022.

Para Kellner, o Brasil quer demonstrar que “aprendeu, que [o incêndio] não vai acontecer de novo, porque este abandono da Cultura não foi bom para o país e deve servir de exemplo para todos os países do mundo”.

O projeto do novo museu está alicerçado nas “melhores normas de segurança para visitantes e técnicos e para o novo acervo”, como condição para o “Brasil merecer estas novas coleções”, acrescentou.

Na Lourinhã, as instituições locais, “desde o primeiro momento, disseram que estariam presentes e disponíveis para colaborar, dentro das disponibilidades do seu espólio”, afirmou Vital do Rosário, presidente do GEAL.

“Temos algum espólio que foi descoberto no Brasil e que está cá para ser preparado. Era uma oportunidade de devolvermos este patrimônio às origens, o que é muito bem visto na comunidade científica”, exemplificou o responsável.

Com mais de 200 anos, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, o mais antigo patrimônio do Brasil, foi reduzido a escombros no dia 02 de setembro de 2018 por um incêndio que destruiu grande parte de seu acervo de 20 milhões de peças.

O prédio histórico, que inicialmente serviu como palácio imperial do Brasil, abrigava o maior museu de história natural da América Latina e um dos cinco maiores do gênero, no mundo. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Brasil - Espólio de urbanista Lúcio Costa, criador de Brasília, doado à Casa da Arquitetura no Porto


O espólio do arquiteto e urbanista brasileiro Lúcio Costa, criador de Brasília, foi doado à Casa da Arquitetura – Centro Português de Arquitetura, em Matosinhos.

A instituição fez o anúncio nesta quarta-feira, que se compromete a divulgar o acervo numa plataforma em 2022.

O acervo, doado pela família do arquiteto, engloba cerca de 11 mil documentos de 1910 a 1998, incluindo cinco cadernos de anotações e esboços que atestam as viagens de Lúcio Costa a Portugal, em 1948 e 1952.

Lúcio Costa, que morreu em 1998, no Rio de Janeiro, aos 96 anos, é autor do Plano Piloto de Brasília, projeto que deu origem à cidade e capital brasileira, inaugurada em 1960.

“É uma honra e uma distinção para a Casa da Arquitetura acolher o patrimônio desta figura ímpar do modernismo”, expressou o seu presidente, José Manuel Dias da Fonseca, citado numa nota de imprensa pela instituição portuguesa.

Do espólio doado à Casa da Arquitetura constam textos, desenhos pré-concurso e outros elementos do Plano Piloto de Brasília, assim como documentos relativos aos projetos da Casa do Brasil em Paris, do Jockey Club do Rio de Janeiro, do Museu das Missões e do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova Iorque de 1939.

Há igualmente registos fotográficos e videográficos de caráter pessoal e familiar, troca de correspondência entre Lúcio Costa e os arquitetos Le Corbusier, incluindo desenhos originais deste, e Oscar Niemeyer, com os quais trabalhou.

O vasto acervo documental integra ainda artigos de jornais, revistas, cartazes, álbuns de família, postais, mapas, plantas, esboços, desenhos e apontamentos em envelopes, folhas de rascunho e cartões de visita.

A Casa da Arquitetura compromete-se a conservar o espólio e a divulgá-lo numa plataforma digital, com lançamento previsto para janeiro de 2022.

A documentação, que está a ser tratada e digitalizada, poderá, no entanto, ser consultada em suporte papel mediante marcação prévia, ficando a Casa da Arquitetura responsável pela gestão de empréstimos para fins diversos, como exposições ou publicações. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Cabo Verde – Espólio de Onésimo Silveira fica na Universidade do Mindelo

Mindelo – O reitor da Universidade do Mindelo (Uni-Mindelo) disse hoje que Onésimo Silveira deixou à universidade um espólio, com “uma bibliografia vasta”, que irá permitir a inauguração de uma biblioteca, dentro de 20 dias, com o nome do ex-autarca.

Segundo Albertino Graça, em declarações à Inforpress, poucas horas após o falecimento de Onésimo Silveira, ocorrido na manhã de hoje, 29 de Abril, no Mindelo, Silveira foi um dos promotores da ideia da criação da Uni-Mindelo e merece “todo o tipo de homenagem”, daí, adiantou, ter baptizado o auditório da instituição com o seu nome e ter-lhe atribuído o título ‘honoris causa’, que foi “uma grande honra”.

“Ele era um grande académico e merece um grande respeito, é um dos maiores políticos que apareceu em Cabo Verde e o que se faz de política hoje, no País, é fruto daquilo que Onésimo ensinou”, destacou.

Albertino Graça, que privou com Onésimo Silveira, revelou que a sua relação com o ex-presidente de câmara de São Vicente “era de pai para filho”. 

E, no âmbito dessa amizade, “praticamente uma relação familiar”, teve a oportunidade de lidar com Nelson Mandela e Joaquim Chissano, entre outras “grandes figuras históricas da humanidade”.

“Eu costumava dizer que eu era aquele filho que Onésimo Silveira gostaria de ter, pela forma carinhosa como ele me tratava e como me ajudava. Com ele tinha todas as portas abertas”, disse ainda o reitor da Uni-Mindelo.

A mesma fonte lembrou que o ex-autarca disse que “só sairia da política com a sua morte biológica e ele teve a oportunidade de fazer aquilo que gostava até à morte”, porque Onésimo Silveira, lembrou, esteve a apoiá-lo, “em toda a linha”, quando se candidatou nas autárquicas do passado dia 25 de Outubro.

Onésimo Silveira, 86 anos, nasceu em São Vicente e doutorou-se em Ciências Políticas, pela Universidade de Uppsala (Suécia), em 1976, ano em que começou a trabalhar na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Em 1977, transitou para a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) com o estatuto de diplomata, ali permanecendo até Dezembro de 1990, com passagens por países como Somália, Angola e Moçambique.

Em 1992, tornou-se o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de São Vicente, cargo em que permaneceu até 2001.

Em 2002, suspendeu o mandato de deputado à Assembleia Nacional e aceitou a nomeação para embaixador extraordinário e plenipotenciário de Cabo Verde em Portugal, Israel, Espanha e Marrocos.

A nível cultural, é considerado um dos mais proeminentes membros da elite literária cabo-verdiana, tendo muitos trabalhos publicados no campo da literatura (novela, poesia e romance) e do ensaio (política, sociologia e antropologia).

Onésimo Silveira também traduziu vários livros, entre os quais “Obras Completas de Mao Tsé Tung”, em parceria com Gentil Viana, e colaborava regularmente, com artigos de opinião, no jornal A Semana e em revistas de Cabo Verde, Portugal, França, Suécia e Noruega.

Fundou o Partido do Trabalho e Solidariedade (PTS), depois da ruptura com o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (ex-PAIGC) e nos últimos anos tornou-se uma das vozes mais activas pela regionalização do país.

Em 08 de Dezembro de 2012 foi distinguido com o doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Mindelo pelo “imenso contributo para a democratização” do País e pelo seu papel na “internacionalização do municipalismo cabo-verdiano”. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

sábado, 12 de setembro de 2020

Portugal - Lisboa recebe espólio do escritor argentino Alberto Manguel

Alberto Manguel vai doar à cidade de Lisboa a sua coleção pessoal de livros, constituída por cerca de 40 mil volumes. A assinatura do protocolo aconteceu hoje, 12 de Setembro, na Feira do Livro de Lisboa



O espólio pessoal do escritor, ensaísta, editor e tradutor argentino-canadiano, que inclui obras de literatura e não ficção nas áreas das artes e humanidades, vai integrar o futuro Centro de Estudos de História da Leitura, que nascerá na capital portuguesa, no Palacete dos Marqueses de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, reafirmando Lisboa como ponto de encontro de culturas e línguas, internacional e intercultural. De facto, o próprio Conselho Honorário do futuro Centro de Estudos de História da Leitura ilustra bem essa diversidade e universalidade. Entre os vários nomes, estão escritores como a Prémio Nobel 2018, Olga Tokarczuk, de nacionalidade polaca, Salman Rushdie, o autor britânico de origem indiana, a canadiana Margaret Atwood, o poeta e cardeal português Tolentino de Mendonça, atualmente Arquivista e Bibliotecário do Vaticano, e o Prémio Camões 2019, o brasileiro Chico Buarque.

Alberto Manguel (1948) trabalhava ainda jovem na livraria Pygmalion quando o escritor Jorge Luís Borges, já com uma cegueira progressiva, lhe pediu que lesse para si em casa. Manguel tornou-se assim leitor de Borges entre 1964 e 1968, ano em que se mudou para a Europa. Viveu em Espanha, França, Itália e Inglaterra, onde foi leitor e tradutor para várias editoras. Editou antologias de contos sobre vários temas. Ensaísta e romancista premiado, é autor de vários best-sellers internacionais. Recebeu, entre outros, o Prémio Formentor das Letras, o Prémio Gutenberg, o Prémio Alfonso Reyes, o Prémio Medicis Prize, o Prémio Roger Callois. Foi nomeado Officer of the Order of Canada e Commandeur de l’Ordre des Arts et des Lettres de France e entre 2016 e 2018, tal como Jorge Luís Borges, foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. In “Expresso do Oriente” – Portugal



Pode aceder à cerimónia de assinatura aqui.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Cabo Verde - Núcleo museológico Cesária Évora preserva a sua memória e o seu espólio


Cidade da Praia – O núcleo museológico Cesária Évora, na cidade do Mindelo, São Vicente, tem trabalhado, não só para preservar o espólio de Cesária Évora, como também na emancipação da mulher cabo-verdiana e na luta contra a violência baseada no género.

No dia (27) em que a “diva dos pés descalços” completaria 79 anos de idade, se estivesse viva, a Inforpress conversou com o coordenador do núcleo museológico Cesária Évora, Adilson Dias, sobre o trabalho que este núcleo tem estado a fazer durante os cinco anos para honrar o nome da Cize.

Criado em 2015, numa antiga residência que lhe foi ofertada pelo Estado de Cabo Verde, o Núcleo Museológico Cesária Évora, segundo Adilson Dias, tem preservado a memória desta em todas as vertentes, desde Cesária Évora como mulher cabo-verdiana e batalhadora, mas, sobretudo, enquanto artista de renome internacional.

“O museu tem estado a trabalhar em programas educativos para a classe estudantil, mas também programas para a sociedade, numa perspectiva de que fazer com que a sociedade mindelense se revê no espaço, e em visitas orientadas”, disse, apontando ainda que o museu tem trabalhado numa lógica de emancipação feminina e empoderamento familiar e na prevenção contra violência baseada no género.

É neste sentido que foi criado e implementado, desde 2017, o programa de sensibilização dos jovens sobre a violência baseada no género e a necessidade de elevar a autoestima dessa classe para se emanciparem e afirmarem na sociedade como pessoas capazes de tomar as rédeas do seu destino.

“O núcleo museológico por ter uma figura de mulher tem estado a trabalhar neste sentido. O espólio acaba por nos levar a isto, porque nos leva a um espólio de uma mulher, as roupas de uma mulher normal, mas também mostra a transformação dessa mulher comum numa mulher que soube conquistar o mundo com as qualidades próprias que ela tinha”, afirmou.

A solidariedade e ajuda mútua, acções muito praticadas pela artista, são igualmente, segundo Adilson Dias, “pontos âncoras” do núcleo museológico, especialmente no seu programa de trabalho junto da sociedade.

Este museu, segundo a mesma fonte, é um museu multifacetado, porque não é um lugar só de exposição, mas sim um espaço de aprendizagem, de lazer, e, sobretudo, um espaço de reflexão e de inspiração para a geração actual.

Sendo que os turistas estrangeiros continuam a ser os que mais visitam este espaço, o coordenador do núcleo informou que estão a trabalhar na redefinição de conteúdo museológico com perspectiva de melhorar o conteúdo, modernizar as exposições, modernizar o espaço para atrair mais nacionais.

“Queremos que os cabo-verdianos visitem mais os museus fora do contexto das actividades. (…) Acabamos por ter uma entrada mais dos turistas estrangeiros, mas há uma dinâmica interessante da entrada dos nacionais porque a temática Cesária Évora mexe muito com qualquer cabo-verdiano”, disse, assegurando que a essa temática e a música cabo-verdiana chamam muita atenção das pessoas.

Cesária Joana Évora nasceu a 27 de Agosto de 1941, na ilha de São Vicente, faleceu no dia 17 de Dezembro de 2011, no Hospital Baptista de Sousa, no Mindelo, onde se encontrava internada.

Foi a cantora de maior reconhecimento internacional de toda a história da música popular cabo-verdiana.  Apesar de ser sucedida em diversos outros géneros musicais, Cesária Évora foi maioritariamente relacionada com a morna, por isso também apelidada de “rainha da morna”. In “Inforpress” – Cabo Verde

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Portugal - Universo poético de Florbela Espanca atrai investigadores a Vila Viçosa



Na vila alentejana de Vila Viçosa, ergue-se o busto de Florbela Espanca (1894-1930), um dos mais reconhecidos ‘filhos da terra’. A poetiza dá também nome ao cineteatro e a biblioteca, assim como à rua onde está uma casa onde viveu.

É nessa casa, com sinais de degradação, que se projeta construir uma casa-museu para divulgar ao público o espólio de Florbela Espanca.

Na fachada há uma placa com o texto “Nesta casa viveu Florbela Espanca”, uma caricatura da poetisa e, abaixo dela, o conhecido verso “E é amar-te, assim, perdidamente…“

“Existe um carinho muito grande” por Florbela na sua “terra natal”, diz à agência Lusa Noémia Serrano, vice-presidente do Grupo Amigos de Vila Viçosa, que detém um “espólio valioso” com “cerca de 100 peças” da poetisa, legado pelo seu terceiro e último marido, Mário Lage.

No país, “penso que o nosso espólio é o segundo, em termos de riqueza”, destaca, indicando que “o primeiro está na Biblioteca Nacional, em Lisboa”, e que, em Matosinhos, onde Florbela viveu os seus últimos anos e onde morreu, “também existe alguma coisa”.

O nome da poetisa, que funciona como “chamariz” turístico local, “quebra” as “fronteiras” do concelho alentejano e mesmo do país e atrai investigadores vindos de longe.

“Florbela Espanca é uma grande poetisa nacional” e tem “um peso fundamental para a cultura nacional e também de Vila Viçosa”, assinala Luís Nascimento, vice-presidente da câmara municipal.

Interessados em consultar o espólio, chegam “muitos mestrandos e doutorandos” de universidades do Brasil, país onde “Florbela é mesmo muito importante”, conta Noémia Serrano.

E investigadores “de Oxford”, em Inglaterra, ou de “S. Francisco”, nos Estados Unidos, e “de várias universidades” nacionais também “rumam” à vila, acrescenta.

Peças do Grupo Amigos de Vila Viçosa e manuscritos do acervo da poetisa pertencentes à Fundação da Casa de Bragança, que foram adquiridos no tempo do então presidente do conselho administrativo e, agora, Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, estão expostos no Paço Ducal de Vila Viçosa, até ao próximo dia 12, numa mostra comemorativa da escritora.

“Temos manuscritos do ‘Dominó Preto’ que foram adquiridos” quando Marcelo Rebelo de Sousa foi “presidente do conselho administrativo da Fundação da Casa de Bragança”, a par de “manuscritos” e do próprio “berço de Florbela”, do Grupo Amigos de Vila Viçosa, conta Tiago Salgueiro, técnico superior do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança.



Espólio corre o risco de se perder

Num congresso recente sobre a escritora, investigadores brasileiros visitaram a mostra e “ficaram extremamente emocionados por verem estes materiais” escritos pelo “próprio punho” de Florbela Espanca, relata.

“Isto dá-nos uma ideia daquilo que poderia vir a ser o impacto da casa-museu num futuro próximo. Portanto, o que desejamos é que o projeto se possa vir a concretizar a curto prazo”, diz Tiago Salgueiro, que, como investigador e membro de um grupo de cidadãos, lançou, há uns anos, um abaixo-assinado em defesa da casa-museu e tem identificado coleções particulares com “objetos relacionados com Florbela Espanca”.

Em casas pela vila, descobriu manuscritos, pinturas de João Maria Espanca, pai da escritora, “a banheira onde a Florbela tomou banho” e respetiva “botija de gás” e até “uma escrivaninha que também terá pertencido à família e à própria Florbela”.

“Há um espólio muito considerável que corre o risco de se perder”, alerta, defendendo que a casa-museu “é fundamental” para proteger as peças e reuni-las num “espaço digno”, que permita “a fruição pública” e seja motivo de atração turística.

“Muitos dos proprietários estão disponíveis para fazer esse depósito a longo prazo”, reunindo “todas essas coleções num espaço que, efetivamente, sirva de homenagem à Florbela Espanca e à sua obra literária”, garante Tiago Salgueiro à Lusa, lamentando que o avanço do projeto tenha “sido complicado” porque “não tem existido vontade política”.

A criação da casa-museu “é uma batalha que já tem barbas”, marcada por “muitas dificuldades, tanto por parte da família” detentora da casa, “como por parte da edilidade, que umas vezes tem verba, outras vezes não tem”, afiança Noémia Serrano.

Mas, desta vez, a porta-voz do Grupo Amigos de Vila Viçosa acredita no sucesso das negociações: “Penso que está tudo a conseguir-se para que o objetivo seja atingido” e o grupo “terá todo o gosto em possibilitar a mostra do espólio”.

O vice-presidente da câmara lembrou que “já há alguns anos” que o município contacta com “os proprietários do edifício onde viveu” a poetisa: “Continuamos em conversações, temos em orçamento a rubrica para poder adquirir esse edifício, estamos a aguardar respostas para que essa aquisição possa ser feita”.

A autora do ‘Livro de Mágoas’, ‘Livro de Soror Saudade’, ‘Charneca em Flor’ ou ‘Juvenília’ é considerada uma das mais brilhantes poetisas de língua portuguesa de todos os tempos. Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 08 de dezembro de 1894, e faleceu em Matosinhos, de 07 para 08 de dezembro de 1930, com 36 anos. Foi sepultada naquela localidade, mas os seus restos mortais foram depois trasladados para o cemitério de Vila Viçosa. In “Mundo Português” – Portugal com “Lusa”

domingo, 17 de março de 2019

Macau - O “rastro literário” deixado pelo “guardião da memória de Macau”

As obras de Henrique de Senna Fernandes dão ênfase à voz do personagem macaense, demarcam a sua identidade e espelham os “contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau”. Bruno Tateishi é o autor de uma tese em que dá como provado o contributo do espólio literário de Senna Fernandes que ainda hoje ajuda a delinear os “principais contornos da identidade étnica macaense”



Analisar a forma como o romance de Henrique de Senna Fernandes “orquestra a diversidade social de linguagens representadas artisticamente, recuperando memórias para forjar uma identidade macaense”, foi o objectivo a que se propôs Bruno Tateishi, autor de uma tese de doutoramento em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“Assim, só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já havia se enfraquecido e a comunidade macaense já encontrara outros meios de sustentar a sua identidade”, sublinha Bruno Tateishi, no documento consultado pela Tribuna de Macau.

Henrique de Senna Fernandes é descrito pelo doutorando como um “guardião da memória de Macau”. Nascido em 1923, no seio de uma das “mais ilustres e tradicionais famílias macaenses”, o filho de Edmundo José e Maria Luíza ingressou no curso de Direito da Universidade de Coimbra onde terminou os estudos em 1952. Regressou a Macau para exercer advocacia e teve escritório próprio. Destacou-se também à docência, sendo professor e director da Escola Comercial Pedro Nolasco. Viria a falecer aos 86 anos, em Outubro de 2010, em Macau.

Senna Fernandes testemunhou “momentos de vital importância para a história de Macau”, como o impacto da Guerra do Pacífico na sociedade local e o período de transição, que culminaria na transferência de administração para a China. “Desse modo, acompanhou as mutações pelas quais passou o projecto étnico macaense, que aos poucos começava a se distanciar do ‘capital da portugalidade’”, observa o autor.

Assim, “tendo observado as metamorfoses identitárias sofridas pela sua comunidade, Senna Fernandes empenhou-se numa produção literária que retratasse o macaense”. Aliás, acrescenta, foi produtor de obra que “promovia o macaense de personagem secundário ao protagonista da acção discursiva”. “Neste sentido, o autor macaense, actuando como uma espécie de guardião da memória de Macau oferece um rastro literário cheio de cumplicidades e demarcações para a preservação e identificação da cultura macaense”, refere, citando Mónica Simas.

Do vasto espólio literário que deixou constam os romances “Amor e dedinhos de pé” (1986), “A trança feiticeira” (1993), “Os Dores” (2012) – este deixado incompleto -, e as colectâneas “Nam Van” (1978) e “Mong-Há” (1998) através dos quais “procura realizar uma intervenção que traga visibilidade ao macaense, nos seus processos de interculturalidade, tomando-o nuclearmente presente nos processos de significação que a literatura encerra”, acrescenta.

Colocando o foco nas duas primeiras obras, rapidamente se percebe que foram publicadas num espaço de tempo em que a administração de Macau estava prestes a ser assumida pela China. Os dois livros retratam períodos anteriores à época em que foram escritos pelo que “só poderemos fazer uma leitura precisa dos romances se os deslocarmos no tempo, visto que no seu tempo de publicação o projecto étnico macaense já se tinha enfraquecido e a comunidade macaense já tinha encontrado outros meios de sustentar a sua identidade”, observa o autor da tese.

Ademais, a “localização do macaense como protagonista da acção narrativa foi um dos factores decisivos” para ter seleccionado a “prosa literária de Henrique de Senna Fernandes para o estudo desta tese, podendo delinear, por meio dos discursos que emanam das obras, os principais contornos da identidade étnica macaense”.

Além disso, “podemos vislumbrar, através da sua escrita, todas as particularidades da sociedade que circunda os personagens”, muito embora esta exploração exaustiva da imagem do macaense não seja evidente no primeiro conto de Senna Fernandes, “A-chan, a tancareira” – vencedor do prémio Fialho de Almeida, dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950, da UC.

“O conto retrata […] os encontros e desencontros que se desenrolavam numa Macau imersa num complexo fluxo de culturas que surgia por meio dos movimentos de diáspora ocasionados em decorrência da eclosão da Guerra do Pacífico”, analisa Bruno Tateishi.

A história de “Amor e dedinhos de pé

Falar da escrita de Henrique de Senna Fernandes, é também recordar a história de Chico Frontaria e Vitorina Vidal, em “Amor e dedinhos de pé” – que foi também adaptado para filme.

Como explica o doutorando, apesar de ter sido escrita na década de 80, a obra está “ambientada na primeira metade do século XX, em 1905” e representa um “período da história de Macau em que a administração portuguesa ainda mantinha controlo sobre o território e a geração declinante empenhava-se na manutenção de uma capital de ‘portugalidade’, que lhe garantia um forte laço com o governo luso e, consequentemente, maiores oportunidades de ascensão social”.

A obra narra a história das duas personagens principais cujas trajectórias coincidem, a todo o momento, com a vida social existente em Macau. “O romance está estruturado em quatro partes, contando com dois pequenos textos escritos pelo autor, situados respectivamente antes e depois da narrativa”, refere.

Mas, realça Bruno Tateishi, o primeiro ponto a ser considerado nesta análise é o prefácio de Senna Fernandes: “Para ser mais conforme com o ambiente, eu devia, em certos diálogos, redigi-los em patuá, isto é, no dialecto local, hoje em vias de total desaparecimento. Não o fiz, porque escrevendo sobretudo para o leitor lusófono em geral, não familiarizado com o dialecto, a sua leitura tornar-se-ia difícil e exaustiva para a compreensão, além de dispersar e fatigar o interesse sobre a trama”.

Em todo o caso, “é bem certo que o patuá – uma maravilha linguística – é mais doce e sugestivo ouvido do que lido, dada a impossibilidade de traduzir, em linguagem escrita, todas as nuances e inflexões de sotaque, em pronúncia e entonação, de tão surpreendentes efeitos. […] No entanto, aqui e ali, cedi à atracção, repetindo frases em patuá e noutras introduzi construção gramatical do português falado pelo macaense”, acrescentou o escritor.

Para Bruno Tateishi, ao ter sido seguido esta opção linguística, Senna Fernandes “deixa implícita a existência de outras línguas, como o chinês, e outras variedades linguísticas, como o português de Macau, e outros dialectos, como o patuá. O patuá, dessa forma, pode ser visto de forma mínima, em algumas situações informais”, aponta. “A nosso ver, este procedimento de apagamento acaba remetendo, ainda que essa não seja a intenção do autor, ao pensamento característico do macaense da época. Nesta perspectiva, o domínio da Língua Portuguesa era factor imprescindível para sustentar o projecto étnico macaense”, vinca. Aliás, sendo um lugar que “se encontrava sob administração portuguesa, possuir o domínio da Língua Portuguesa atribuía status social e profissional”, acrescenta o autor.

No documento, é ainda analisado o romance “A trança feiticeira” que “aborda justamente a complicada relação de chineses e macaenses em Macau durante o período da administração portuguesa, por meio da união do personagem macaense, Adozindo, e a personagem chinesa, A-Leng”.

De um modo geral, vinca, “Henrique de Senna Fernandes orienta o seu romance, bem como as vozes sociais orquestradas por ele, para forjar uma identidade macaense que ainda possuía como sustentáculo um projecto étnico calcado no ‘capital da portugalidade’”.

“As memórias de Senna Fernandes acabam por se coadunar com o retrato histórico da sociedade de Macau na composição dos romances, recuperando as suas vivências como macaense que presenciou eventos importantes que se reflectiram na história do território […], bem como no percurso da identidade étnica macaense”, acrescenta.

Assim, “poderemos tomar os romances de Henrique de Senna Fernandes como um importante registo de traços culturais que permitiram estabelecer um diálogo entre Macau e outras localidades da chamada ‘rede lusófona’”.

“Por meio da leitura e análise dos romances pudemos reafirmar a hipótese sustentada ao longo da nossa tese, asseverando que Henrique de Senna Fernandes faz jus ao seu título de ‘guardião da memória de Macau’, retratando, através da sua escrita, os contrastes sócio-histórico-culturais que determinaram os rumos do povo de Macau e, particularmente, dando ‘voz’ ao personagem macaense e demarcando a sua identidade”, remata. Catarina Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

sábado, 28 de maio de 2016

Portugal - Espólio museológico ferroviário continua a degradar-se

Especialista diz que o Museu Ferroviário não tem meios para proteger património

O primeiro presidente da comissão executiva instaladora do Museu Nacional Ferroviário, António Pinto Pires, defende a intervenção no Estado para evitar a total degradação do espólio ferroviário nacional, com valor museológico, uma vez que a Fundação Museu Nacional Ferroviário tem revelado não ter capacidade para o fazer.

Num texto enviado à redacção de “O MIRANTE”, o especialista em questões museológicas faz uma lista de peças de valor incalculável, “que escrevem a história do caminho-de-ferro português que correm sérios riscos de conservação”.

António Pinto Pires diz ser preocupante o estado em que se encontram as locomotivas expostas nos jardins da Fernave no Entroncamento, que diz serem peças únicas; carruagens Schindler, B600, vagões, gruas e a automotora Nohab, depositadas nas proximidades do Museu Nacional Ferroviário que correm risco de desagregação a curto espaço; uma locomotiva BA 67, que se encontra abandonada em instalações degradadas na Pampilhosa e ainda diversos material espalhado por outras localidades como Figueira da Foz, Contumil, Vila Nova de Gaia, Valença, Lagos e Vila Real de Santo António.

“A preservação da colecção constitui uma mais valia futura, sendo que Portugal é um dos países da Europa que reúne um amplo espólio, que urge preservar nas devidas condições”, defende o autor que é doutorando em Museologia, acrescentando que cabe ao Estado Português, através dos ministérios do equipamento e da cultura, encontrar os meios para o solucionar o problema em conjunto com entidades e empresas relacionadas com a matéria.

“Tão importante questão não pode ser da exclusiva responsabilidade da Fundação Museu Nacional Ferroviário, uma vez que esta entidade não está dotada dos meios necessários para levar a cabo uma operação de tamanha envergadura, quer pelos meios logísticos que exige, quer pelos custos financeiros que a mesma poderá envolver”, afirma António Pinto Pires. In “O Mirante” - Portugal