Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Moçambique – Presidência garante que nenhuma vila de Cabo Delgado está ocupada por terroristas

O Presidente da Frelimo, Daniel Chapo, garantiu que actualmente não existe nenhuma vila conquistada por grupos terroristas na província de Cabo Delgado, destacando avanços significativos no combate à insurgência. A declaração foi feita durante a abertura da 2.ª Sessão Ordinária do Conselho Nacional da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), onde o dirigente sublinhou o papel das Forças de Defesa e Segurança, com o apoio de parceiros regionais e internacionais, na recuperação de áreas anteriormente afectadas.

“Hoje, nenhuma vila de Cabo Delgado está ocupada por estes inimigos do povo moçambicano”, afirmou.

Segundo Chapo, os grupos terroristas encontram-se em constante fuga devido à pressão militar, embora ainda realizem ataques esporádicos que continuam a gerar insegurança nas comunidades.

Chapo acrescentou que, apesar do terrorismo ainda não ter sido totalmente eliminado, os progressos registados já permitem o regresso gradual dos deslocados às suas zonas de origem.

As melhorias no cenário de segurança também estão a contribuir para a retoma das actividades económicas na região, incluindo grandes projectos, contribuindo para a criação de empregos e dinamização da economia local. In “O País” - Moçambique

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Moçambique – Mina de Balama vai fornecer grafite para carros eléctricos do Japão

A mina moçambicana de Balama vai fornecer até 68 mil toneladas de grafite, utilizado nas baterias de carros eléctricos, para o mercado japonês nos próximos sete anos, anunciou a mineradora australiana Syrah


“O acordo reforça a importância crítica do grafite natural de Balama para a cadeia de suprimentos de ânodos e baterias fora da China”, explica a Syrah, concessionária daquela mina em Cabo Delgado, norte de Moçambique, numa informação aos mercados em que dá conta da assinatura de um contrato plurianual para fornecimento de grafite natural com a NextSource.

O contrato com a NextSource prevê a entrega de 34 mil a 68 mil toneladas de grafite ao longo dos próximos sete anos, a partir de Junho, tendo como destino a unidade de ânodos de baterias que está a instalar em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, para depois abastecer um “cliente japonês do sector downstream”. “O contrato de fornecimento destaca a posição única de Balama como um importante fornecedor de grafite natural de alta qualidade e em grande volume fora da China”, sublinha ainda a Syrah.

A mina de Balama produziu 26 mil toneladas de grafite no terceiro trimestre de 2025, recuperando após seis meses de paragem provocada pela agitação social no país, fornecendo o mercado de baterias de viaturas eléctricas norte-americano e indonésio, noticiou a Lusa no final de Outubro.

De acordo com informação sobre o desempenho do terceiro trimestre de 2025 enviada aos mercados pela Syrah, a mina registou ainda, no mesmo período, um total de 24 mil toneladas de grafite vendido e enviado para clientes a um preço médio por toneladas de 625 dólares. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Moçambique - Unicef precisa de US$ 5 milhões para salvar milhares de crianças

A Agência diz que 15 mil crianças estão em risco de morte, 100 mil vão precisar de tratamento, mas há apenas capacidade para apoiar 20% dos casos. As províncias de Cabo Delgado, Nampula e Niassa são as mais afetadas pela desnutrição


O Fundo das Nações Unidas para Infância, Unicef, em Moçambique afirma que se não for garantido o novo financiamento, 15 mil crianças no país, poderão ficar sem tratamento para a desnutrição grave e a vida dessas crianças estará em risco.

A região norte é a mais afetada. São as províncias de Niassa, Nampula e Cabo Delgado devido ao conflito. O somatório dos casos das três províncias contribui para 40% de todas as ocorrências de desnutrição em Moçambique.

Apoio adicional urgente

Os suprimentos nutricionais escasseiam devido a cortes no financiamento. Sem apoio adicional urgente a vida das crianças estará em risco, segundo explica a gestora de nutrição do Unicef em Moçambique, Fanceni Baldé.

“Precisamos de pelo menos US$ 5 milhões até março deste ano para permitir-nos comprar 20 mil caixas de suplementos nutricionais que salvam vidas. Eles poderão ser distribuídos para 120 unidades de saúde em Moçambique. Com esse valor poderemos também apoiar as unidades sanitárias a realizar brigadas móveis, levar serviços de imunização, tratamento da desnutrição, atendimento a grávidas, tratamento de doenças diarreicas e malária, a nível de comunidades que mais necessitam.”

Dados do inquérito demográfico de saúde, IDS 2022, indicam que o atraso de crescimento é o problema de nutrição mais significativo, afetando mais de 2 milhões de crianças moçambicanas anualmente.

Estima-se que 100 mil crianças com menos de cinco anos necessitam de tratamento para a desnutrição aguda grave. Em 2025, as províncias de Niassa, Nampula e Cabo Delgado registaram 47 mil casos de desnutrição nos últimos 12 meses.

Zonas prioritárias

A especialista em Nutrição da Unicef Moçambique destaca as zonas prioritárias face ao plano de contingência.

“Nós temos 15 mil crianças em risco de morte, mas sabemos que pelo menos 100 mil vão precisar de tratamento. O plano de contingência é a repriorização dos nossos recursos, estão muito escassos. Nós só temos capacidade neste momento para apoiar 20% dos casos que precisam de tratamento. Vamos priorizar as zonas mais afetadas. Em Cabo Delgado sete distritos, Nampula seriam quatro e Niassa apenas três. Mas sabemos que outras partes de cada uma destas províncias vão precisar desse apoio.”

Baldé afirma que investir no combate à desnutrição contribui para não deixar ninguém para trás, assim como, garante que Moçambique alcance as metas do desenvolvimento sustentável, ODS.

“Estimativas do Banco Mundial indicam que cada dólar que Moçambique investe no combate na desnutrição vai gerar pelo menos US$ 23 de retorno ao investimento. E é por isso que nos achamos que combater a desnutrição, prevenir mortes infantis evitáveis devido a desnutrição é uma das principais estratégias que podem garantir que Moçambique alcance as metas do desenvolvimento sustentável.”

Pobreza, insegurança alimentar e choques climáticos

Moçambique enfrenta um dos mais graves casos de desnutrição na África Subsaariana.  A pobreza, a insegurança alimentar, os choques climáticos, o acesso limitado aos serviços de saúde e saneamento são algumas das causas consideradas profundas.

Para Fanceni Baldé, a desnutrição contribui também para o aumento da mortalidade infantil no país.

“A desnutrição contribui com um terço de todas as mortes em Moçambique. Quer dizer uma criança com malária, por exemplo, se tiver desnutrição tem muito mais risco de morrer por causa dessa condição que está em baixo.

No ano passado morreram cerca de 300 crianças nas unidades de saúde por desnutrição, mas estimamos que este número não seja a realidade, tendo em conta que muitas das crianças que morrem por causas evitáveis como é o caso da malária, o sarampo ou até da cólera. O que lhe está a causar esse aumento da mortalidade é mesmo a desnutrição, a falta de alimentos.”

A Unicef trabalha em parceria com governo e outras entidades para fortalecer a resiliência de crianças e jovens diante dos desafios climáticos e hídricos.

A acão envolve a proteção das crianças por meio da melhoria de serviços essenciais, do desenvolvimento de habilidades para adaptação e a garantia de que elas sejam priorizadas na alocação de recursos financeiros e materiais relacionados a iniciativas climáticas. Ouri Pota – Moçambique ONU News


sábado, 3 de janeiro de 2026

Moçambique - Mais ataques no norte do país agravam acesso humanitário

Estatísticas indicam que recentemente 107 mil pessoas foram deslocadas na província de Nampula; cerca de 92 civis foram mortos e outras 87 pessoas foram raptadas e mais tarde libertas após alegados pagamentos de resgate


As províncias moçambicanas de Cabo Delgado, Niassa e Nampula são alvo de ataques por grupos armados não estatais causando o aumento do medo e de violência contínua ligada a operações militares.

Entre 11 e 26 de novembro uma série de incursões provocou um deslocamento de 107 mil pessoas no distrito de Memba. A maioria procurou refúgio nos distritos Mecúfi, na província de Cabo Delgado, e em Eráti e Nacala, na província de Nampula.

Morte e rapto de civis

Ataques repetidos e a ameaça de violência agravam as necessidades por auxílio humanitário. Pelo menos 92 civis foram mortos, dos quais 56 nos distritos de Memba e Eráti, na província de Nampula.

De acordo com dados do Escritório da ONU de Assistência Humanitária, Ocha, em novembro foram reportados 101 incidentes de segurança no norte de Moçambique.

Os casos incluem 77 registos de violência e ameaças contra civis que resultaram em mortes, raptos e novas ondas de deslocamento.

Cerca de 87 pessoas foram raptadas, incluindo 19 crianças e 18 mulheres, muitas delas libertadas após alegados pagamentos de resgate.

Os raptos tornaram-se uma tática deliberada usada pelos grupos para financiar operações, criando um clima de medo e insegurança que mina a resiliência comunitária.

Insegurança e restrições de acesso

O Ocha revela que o aumento súbito de ataques exerce enorme pressão sobre comunidades e parceiros, tendo em conta que os atuais canais de abastecimento não chegam para responder à escala das necessidades.

Há relatos de que os serviços sobrecarregados e os recursos limitados pioram a coesão social entre deslocados internos e populações anfitriãs, pois a assistência não chega a todos de forma equitativa.

A agência cita que as restrições de acesso dificultaram de forma significativa a entrega de assistência humanitários a pelo menos 22 mil deslocados internos no distrito de Memba.

Operações militares e a presença desses grupos levaram a restrições temporárias de movimento nas grandes rodovias. Limitações nas estradas R705 e R706, que ligam Eráti e Nacala a Memba, deixam em situação de fragilidade àqueles que não conseguiram deslocar-se por falta de recursos.

A comunidade humanitária aponta um ambiente operacional ainda volátil, com riscos de segurança elevados, e os entraves burocráticos como fatores que comprometem a entrega de ajuda e a segurança das equipas.

Desinformação e violência

No distrito de Chiúre, na província de Cabo Delgado, uma distribuição de alimentos por uma agência da ONU tornou-se violenta quando a polícia interveio para evitar saques, resultando em duas mortes e dois feridos.

Várias ações a nível governamental e exigências de apoio logístico levaram à suspensão de operações em Mecúfi.

A desinformação sobre a cólera desencadeou violência contra profissionais de saúde em Nampula. Membros da comunidade em Memba agrediram uma enfermeira e ameaçaram um líder local acusado de espalhar a doença.

Comunicação de riscos

Os ataques colocam em risco os esforços de saúde pública e destacam a necessidade urgente de reforçar a comunicação de riscos, o envolvimento comunitário e a proteção dos profissionais de saúde.

Os atos de violência no norte de Moçambique começaram na província de Cabo Delgado em 2017 e já deslocaram mais de 1,3 milhão de pessoas. Ouri Pota – Moçambique ONU News


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Moçambique - Memba: Pobreza e desigualdade estão por trás da insurgência?

Em Moçambique, o distrito de Memba, em Nampula, voltou a ser palco de ataques de grupos armados. Um investigador liga a nova vaga de violência à pobreza extrema e às desigualdades sociais numa zona que já era apontada como corredor de recrutamento para a insurgência de Cabo Delgado. A crise humanitária cresce, enquanto o governo diz estar a reforçar meios militares e prepara o regresso gradual das famílias.


Os primeiros ataques em Memba, no posto administrativo de Chipene, aconteceram em Setembro de 2022, com mortos e destruição. Depois de um período de relativa calma, a violência reapareceu de forma esporádica e intensificou-se nas últimas semanas, empurrando populações inteiras para fora das suas aldeias.

O académico Wilson Nicaquela diz que há sinais de criação de células armadas na fronteira com Cabo Delgado: “Memba foi um dos centros de recrutamento de terroristas que engrossaram as fileiras lá do lado de Cabo Delgado. E é do conhecimento de todos que muitos dos terroristas que foram pressionados de Cabo Delgado preferiram mudar-se de lá e/ou simularam o abandono das suas fileiras. Depois regressaram às zonas de origem”, disse.

Memba tem potencial turístico e recursos naturais, com destaque para reservas de petróleo. Em 2017, segundo noticiou a VOA, a Petrona, uma empresa da Malásia, era apontada como a empresa que iniciaria a prospecção e a exploração de uma área entre Pemba e Memba. Sobre isso, não há informações mais actualizadas. Ainda assim, falta quase um pouco de tudo. A precariedade e falta de infra-estruturas associadas aos difíceis acessos rodoviários são alguns dos maiores problemas que tiram o sossego às populações.

Wilson Nicaquela entende que além dos recursos naturais, com destaque para a provável ocorrência dos hidrocarbonetos, a pobreza extrema e as desigualdades sociais são uma das causas do terrorismo na região.

Mas também há um outro elemento a considerar; uma mensagem política. “Embora o modo de actuação seja similar, no caso de Memba eu acho que tem outras mensagens; uma é a de vincular à pessoa da Presidente da Assembleia da República [Margarida Talapa, nascida na região] e outra de chamar atenção de que se o poder político acha que eles estão confinados, têm condições de alastrar a guerra e ir ao encontro de outros espaços geográficos. Acham que a Presidente da Assembleia tem essa competência necessária para decidir resolver os problemas por iniciativa própria”, disse.

Os recentes ataques já causaram pelo menos uma dezena de mortes e forçaram o deslocamento de mais de 80 mil pessoas, de acordo com dados recentes. Muitos dos deslocados internos foram acolhidos em Alua.

Mariano Saíde Salimo é uma das vítimas deslocadas da região de Mazua, distrito de Memba, acolhido em Alua. Lamenta a situação que se vive na região. Mas a dor aumenta com a fome e as precárias condições que passam para sobreviver diante das incertezas.

“Somos muitos, outros estão nas aldeias. Mesmo se trouxessem três camiões de produtos, podem não resolver. Assim estamos espalhados, numa casa pode encontrar 60 a 70 pessoas”.

Messias Cassimo é um outro deslocado. Saiu de Namajuba junto com a família à procura de abrigo seguro. “Queimaram todas as casas que estão lá, infelizmente ninguém ficou. Estamos a pedir ajuda em alimentação e construção de casas”, pediu.

Apesar disso, a população que foge dos terroristas quer voltar para dar continuidade à sua vida e Mariano Saíde Salimo reforça apelos.

“Nós estamos a pedir ao governo que nos ajude, queremos voltar a casa. Mas aqui [em Alua] receberam-nos bem e agradecemos”, exortou.

As autoridades governamentais continuam a mobilizar apoio para os deslocados nos centros transitórios de deslocados. Na semana passada, um grupo de deputados liderados pela respectiva presidente foi entregar em Alua mais de 60 toneladas de produtos alimentares.

O governador de Nampula, Eduardo Abdula, garantiu que as forças de defesa e segurança trabalham para perseguir e tirar fora de combate os terroristas e que, nesta semana, a região poderá acolher os primeiros regressados.

“Durante a primeira semana de Dezembro, começam a regressar e os primeiros a voltar sou eu e os jornalistas. Vamos entrar lá e vamos trabalhar lá. Eu não vos levaria se não houvesse condições”, assegurou.

Na passada quinta-feira, o governador de Nampula ofereceu às forças armadas de Moçambique drones para uso na perseguição e combate ao terrorismo, nas regiões afectadas na província de Nampula.

“Há traidores dentro das comunidades”, diz governador

No decurso de uma visita a zonas afectadas pelo terrorismo, o governador de Nampula Eduardo Abdula chamou a atenção para possíveis infiltrados entre os residentes. “Há traidores dentro das comunidades, por isso precisamos de maior vigilância”, comentou. Mais de 10 mil pessoas fugiram em dois dias de Memba, Nampula, devido a ataques de grupos terroristas, elevando a 82 mil deslocados desde 11 de Novembro, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Até 23 de Novembro, o total de deslocados ascendia a 14.172 famílias (71.983 pessoas), segundo o relatório anterior da OIM. A província de Cabo Delgado, também no norte de Moçambique, rica em gás, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 5 de Outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Deutsche Welle”


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Moçambique - Número de deslocados dispara após novos ataques no norte do país

A Acnur precisa de US$ 38,2 milhões para atender às necessidades dos deslocados internos em 2026, cerca 100 mil pessoas foram deslocadas nas últimas semanas devido à propagação da violência na região


A Agência da ONU para Refugiados, Acnur, está preocupada com a intensificação dos ataques a aldeias do norte de Moçambique e a rápida deterioração do conflito para distritos anteriormente seguros.

Quase 100 mil pessoas foram forçadas a fugir nas últimas duas semanas, segundo uma atualizaçao publicada nesta segunda-feira.

Grupos armados

Pessoas que conseguiram chegar em segurança contaram que fugiram com medo, enquanto grupos armados invadiam as suas aldeias, muitas vezes à noite. Eles incendiaram casas, atacando civis e forçando famílias a fugir sem nada.

À medida que as necessidades aumentam, os esforços coletivos, dos agentes humanitários e governamentais, continuam insuficientes para atender à escala de proteção e assistência necessária no terreno.

Muitos descreveram um cenário caótico de fuga, com pais perdendo os seus filhos de vista e parentes idosos ficando para trás em meio ao pânico.

Para uma boa parte deles, esta é a segunda ou terceira vez que são deslocados somente este ano, com os ataques a alcançar novas áreas.

Insegurança

Muitos deixam as suas áreas de origem sem qualquer documento civil e nem acesso a serviços essenciais, caminhando durante dias em extremo medo. A falta de rotas seguras e de apoio básico deixa as famílias, especialmente mulheres e meninas, em maior risco de exploração e abuso.

Elas são as maiores vítimas da falta de iluminação e privacidade nesses abrigos comunitários, que já enfrentaram jornadas perigosas na procura de segurança.

Os ataques expõem o grupo a novos riscos de violência sexual e de género, enquanto idosos e pessoas com deficiência enfrentam dificuldades em locais que não são acessíveis ou equipados para atender as suas necessidades.

Apoio humanitário

Isadora Zoni é oficial de comunicação do Acnur em Moçambique. Ela cita alguns dos momentos tristes.

“São mães que fugiram à noite com os filhos no colo. Eu mesma conheci uma senhora chamada Filomena e teve um bebé e ela fugiu algumas horas depois desse bebé ter nascido ainda com dores de parto. Então, essa realidade e realmente muito complexa e muito triste. Pessoas com deficiência algumas delas são deixadas para trás, crianças desacompanhadas. A realidade que nós percebemos, inclusive nesses centros de acolhimento, é de uma maioria de crianças."

Para a oficial de comunicação do Acnur em Moçambique, o apoio é urgente.

Apoio urgente

“Para 2026, o Acnur vai precisar de US$ 38,2 milhões. Essa é a estimativa com base nas necessidades de proteção que são observadas no terreno. E essas necessidades elas aumentam agora num momento bastante sensível uma vez que em 2025 nós recebemos apenas 50% daquele que foi o orçamento para responder às necessidades no norte de Moçambique. Então é bastante preocupante o cenário.”

Em parceria com as autoridades locais foram criados postos de atendimento para oferecer aconselhamento e apoio em saúde mental, distribuir kits de dignidade e dispositivos de mobilidade para pessoas com deficiência e auxiliar as famílias na substituição de documentos civis perdidos.

Os atos de violência, que começaram na província de Cabo Delgado em 2017, já deslocaram mais de 1,3 milhão de pessoas.

Em 2025, os ataques espalharam-se para além da área habitual atingindo a província de Nampula e ameaçando comunidades que antes acolhiam famílias deslocadas. Ouri Pota – Moçambique ONU News


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Moçambique - Reino Unido retira-se de projeto petrolífero em Cabo Delgado

O Governo do Reino Unido comunicou ao parlamento britânico a saída do país do financiamento ao megaprojeto de Gás Natural Liquefeito (GNL) Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies em Cabo Delgado, norte de Moçambique



Em causa está um financiamento de 1150 milhões de dólares (988 milhões de euros) pelo Fundo de Financiamento de Exportações do Reino Unido (UKEF), confirmado em 2020 pelo Governo britânico, um ano antes dos ataques terroristas em Palma que levaram a TotalEnergies e invocar ‘força maior’ e a suspender o projeto, de 20 mil milhões de dólares (17,2 mil milhões de euros), entretanto levantada, em outubro passado.

“Na preparação para a retoma do projeto, o UKEF recebeu uma proposta para alterar os termos de financiamento originalmente acordados (…). Após uma análise detalhada, o Governo do Reino Unido decidiu encerrar a participação do UKEF no projeto”, disse, numa declaração no parlamento, o secretário de Estado de Negócios, Comércio e Trabalho, Peter Kyle, acrescentando que após avaliação o executivo considera que os “riscos aumentaram desde 2020”.

“Esta opinião baseia-se numa avaliação abrangente do projeto e nos interesses dos contribuintes britânicos, que são melhor atendidos com o encerramento da nossa participação no projeto neste momento. Embora essas decisões nunca sejam fáceis, o governo acredita que o financiamento britânico deste projeto não contribuirá para os interesses do nosso país”, acrescentou.

“A UKEF reembolsará o projeto pelo prémio pago, refletindo o fim da exposição ao risco do departamento no projeto”, disse Kyle.

O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, classificou sábado como falsas as acusações de violação dos direitos humanos no megaprojeto de gás da TotalEnergies.

“Quando começaram a aparecer as desinformações e a manipulação da opinião pública a nível nacional e internacional sobre o respeito aos direitos humanos em Cabo Delgado, o que nós fizemos primeiro foi enviar a Comissão Nacional de Direitos Humanos [CNDH] para Cabo Delgado, que fez um trabalho profundo, extraordinário, em toda a província ,(…) e não constataram as questões que os jornais e alguns que se fazem de investigadores a nível internacional estão a evocar”, disse Chapo.

Garantiu que não há evidências – na investigação daquela instituição – das acusações de violação dos direitos humanos, que levaram uma organização europeia a apresentar uma queixa-crime contra a TotalEnergies por “crimes de guerra”.

A organização jurídica europeia ECCHR apresentou em 17 de novembro, em França, uma queixa-crime acusando a TotalEnergies de “cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimento forçado” de populares naquele megaprojeto de gás. Acusou então a multinacional de “ter financiado diretamente e apoiado materialmente a Força-Tarefa Conjunta, composta pelas forças armadas moçambicanas, que, entre julho e setembro de 2021, terá detido, torturado e assassinado dezenas de civis nas instalações de gás da TotalEnergies”.

A ECCHR referiu que submeteu esta queixa na Procuradoria Nacional Antiterrorismo (PNAT) francesa e que a “denúncia centra-se no chamado ‘massacre dos contentores’ nas instalações da empresa”, em Cabo Delgado, alegações que foram inicialmente divulgadas pelo jornal Político, em setembro de 2024.

Segundo o mais recente relatório, com dados até 23 de novembro, da organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), dos 2270 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, um total de 2107 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), provocaram 6341 mortos.

O Governo moçambicano deu 30 dias à TotalEnergies para apresentar o cronograma para retoma do megaprojeto de gás, que não deve esperar, acrescenta, pelas conclusões da auditoria exigida aos custos incorridos no período de ‘força maior’.

Numa resolução de 19 de novembro, do Conselho de Ministros, noticiada então pela Lusa, é definido que “a retoma e a implementação do projeto”, que esteve suspenso quatro anos e meio devido aos ataques terroristas, “não devem estar condicionadas à conclusão e submissão da apresentação do relatório de auditoria” aos custos nesse período. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Moçambique - Cerca de 22 mil pessoas fogem de nova escalada da violência numa semana

A Acnur afirma que desde o início do conflito, em 2017, mais de 1,3 milhão de moçambicanos tornaram-se deslocados internos. O plano humanitário de 2025 precisa de US$ 352 milhões, mas recebeu menos de 20% do valor


O representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, em Moçambique, Xavier Créach manifestou profunda preocupação com o rápido aumento de deslocados no norte de Moçambique.

Em apenas uma semana, cerca de 22 mil pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas por causa de uma nova escalada da violência.

Exaustão e perda de esperança

Depois de anos de incerteza, muitas famílias estão a chegar ao limite, algumas permanecem apesar do perigo, enquanto outras fogem novamente, sem esperança de regresso.

Isadora Zoni, Oficial de Comunicação do Acnur em Moçambique, narra o drama que se vive em alguns distritos de Cabo Delgado.

“Nas últimas semanas, estive no terreno com as equipas em distritos como Chiúre, Mueda....em Chiúre eu conheci uma mulher deslocada pela terceira vez. Ela contou que quando regressou à sua aldeia no ano passado, acreditava que a paz estava a voltar, agora depois de perder tudo outra vez, ela disse que já não sabe se há para onde voltar. Esta sessão de exaustão e perda de esperança é hoje uma realidade em todo o norte.”

Aumento da violência no norte de Moçambique

Ao longo de 2025, a violência aumentou. Dados do Acnur indicam que até ao final de agosto, ocorreram mais de 500 incidentes de segurança afetando civis, incluindo saques a aldeias, raptos, assassinatos, pilhagens e destruição de casas e infraestruturas.

Em comparação, em 2022 considerado um dos períodos mais intensos do conflito, foram relatados 435 incidentes.

A agência afirma que a nova onda de deslocamento é uma das maiores registadas, nos últimos oito anos.

“Hoje, os 17 distritos da província de Cabo Delgado, o epicentro da crise, já foram afetados. E só nas últimas semanas quase 22 mil pessoas foram forcadas a fugir das suas casas, somando-se as mais de 100 mil pessoas deslocadas apenas em 2025, mas o número de deslocados não conta a história completa. O que estamos a ver é uma mudança de paradigma. Os civis deixam de ser danos colaterais e passaram a ser alvo direto da violência em ataques, raptos e assassinatos inclusive em vilas e cidades que antes eram consideradas seguras.”

De famílias acolhedoras a deslocados

Desde o início do conflito, em 2017, mais de 1,3 milhão de pessoas foram deslocadas, apanhadas entre a insegurança, a perda e a repetição de deslocamentos.

Muitos dos recentemente deslocados eram anteriormente famílias acolhedoras, que abriram as portas das suas casas a outros, e que agora se encontram também sem abrigo e em necessidade.

As preocupações com a segurança aumentam, os civis continuam a ser alvo de ataques, com relatos de assassinatos, raptos e violência sexual.

As crianças estão entre as mais afetadas, com casos de recrutamento forçado e ataques deliberados por grupos armados não estatais.

Agências da ONU e plano de resposta conjunto

“Em Chiúre no âmbito do plano de resposta conjunto, 5 mil famílias já receberam apoio em proteção e saúde mental. As nossas equipas estão no terreno em Mecúfi juntamente com OIM, PMA e Unicef para responder ao novo fluxo de deslocados. Nos próximos dias esperamos apoiar cerca de 1000 famílias com assistência emergencial e serviços de proteção. Prestamos ainda apoio a pessoas com deficiência, distribuímos dispositivos de mobilidade e kits de dignidade para mulheres e raparigas. O nosso foco é garantir que ninguém fique para trás.”

A crise no norte de Moçambique transformou-se numa das situações humanitárias mais complexas da região. Para além da violência, as famílias enfrentam os efeitos combinados de ciclones repetidos, inundações e secas prolongadas.

Os meios de subsistência foram destruídos, os preços dos alimentos estão a subir, e os serviços básicos são escassos. O impacto cumulativo do conflito e dos choques climáticos criou um ciclo de vulnerabilidade cada vez mais difícil de quebrar.

Restrições financeiras e Prioridades da Acnur

Proteger as pessoas, estabelecer a documentação civil, assegurar abrigo de emergência e reforçar a coesão social são algumas das prioridades da agência segundo explica a especialista do Acnur, Isadora Zoni.

“O plano humanitário de 2025 precisa de US$ 352 milhões e apenas US$ 66 milhões foram recebidos. O número de parceiros humanitários também caiu de 78 para 56 organizações, incluindo 26 internacionais, 21 nacionais, 6 entidades governamentais e 3 agências da ONU. Isto significa menos capacidade no terreno, com menos parceiros e menos fundos estamos a “esticar” cada recurso ao limite, mas investir em proteção hoje é evitar novas deslocações amanhã.”

Apesar das restrições financeiras globais, o Acnur e os seus parceiros continuam a apoiar as populações deslocadas e as comunidades de acolhimento em todo o norte de Moçambique.

Balcões de atendimento foram estabelecidos para identificar pessoas com necessidades específicas, oferecer apoio psicossocial e ajudar famílias a recuperar documentos civis perdidos, em coordenação com as autoridades locais.

O Acnur apela à comunidade internacional para renovar o seu apoio a Moçambique. A proteção dos civis, a restauração do acesso a serviços essenciais e o investimento em soluções duradouras são urgentemente necessários para evitar mais sofrimento. Ouri Pota – Moçambique ONU News


terça-feira, 25 de março de 2025

Moçambique - Pelo menos 900 crianças deslocadas em Cabo Delgado reintegradas no ensino

Pelo menos 900 crianças deslocadas na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, estão a ser reintegradas no sistema nacional de educação, no âmbito do Programa de Educação Acelerada para menores que abandonaram o ensino devido a ataques terroristas.



“Estes programas permitem que as crianças recuperem o tempo perdido e as competências não desenvolvidas no momento oportuno, alcançando deste modo os colegas da mesma idade e nível escolar”, disse o diretor de educação em Cabo Delgado, Afonso Sacume, durante o Conselho consultivo provincial.

Desde outubro de 2017, Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada, que provocou milhares de mortos e uma crise humanitária, com mais de um milhão de pessoas deslocadas.

Segundo o diretor de educação na província de Cabo Delgado, o Programa de Educação Acelerada, aprovado pelo Governo em 2024, está a ser implementado nos distritos de Mueda, Ancuabe e Chiúre e visa “melhorar a aprendizagem de crianças deslocadas”.

O responsável disse que o programa visa “recuperar as crianças deslocadas e fora da escola e devolve-las ao ensino do sistema nacional de educação e integrar de forma satisfatória as crianças deslocadas através da recuperação do tempo e competências perdidos”.

Só em 2024, pelo menos 349 pessoas morreram em ataques de grupos extremistas islâmicos na província, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo dados divulgados recentemente pelo Centro de Estudos Estratégicos de África, uma instituição académica do Departamento de Defesa do Governo norte-americano que analisa conflitos em África.

O último grande ataque deu-se em 10 e 11 de maio de 2024, à sede distrital de Macomia, com cerca de uma centena de rebeldes a saquearem a vila, provocando vários mortos e fortes combates com as Forças de Defesa e Segurança moçambicanas e militares ruandeses, que apoiam Moçambique no combate aos ataques armados. In “Ponto Final” - Macau


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Moçambique - Cerca de 650 mil crianças em risco devido ao ciclone Chido

Cerca de 650 mil crianças estão em risco face aos impactos do ciclone Chido no norte de Moçambique, alertou ontem a Organização Não-Governamental (ONG) Save The Children, avançando que decorrem ações de ajuda



“O ciclone Chido é uma catástrofe para as crianças no norte de Moçambique. Elas correm o risco de perder as suas casas, serem separadas das suas famílias e ver o acesso à água, saneamento, cuidados de saúde e educação extremamente limitado”, disse Ilaria Manunza, diretora da Save The Children em Moçambique, citada num comunicado da organização.

A responsável avançou que a Save The Children preparou equipas e recursos para apoiar os mais afetados pela intempérie, como parte de uma “resposta urgente e multidimensional”, fazendo também menção à vulnerabilidade das comunidades expostas ao Chido. “Esta tempestade é mais um exemplo de condições climáticas extremas a devastarem uma comunidade já vulnerável, dilacerada pelo conflito e mergulhada na pobreza”, acrescentou Ilaria Manunza.

Segundo a ONG, estão presentes equipas de organização na maioria das áreas mais atingidas pelo ciclone, que deverão apoiar o estabelecimento de sistemas e serviços de proteção às crianças, além de apoiar a reabilitação de escolas destruídas. “A Save the Children está a preparar-se para apoiar as comunidades afetadas com kits de sobrevivência e outros artigos essenciais, em coordenação com outras agências”, lê-se ainda no comunicado, que alerta também para dificuldades de assistência a Cabo Delgado, devido à presença de grupos armados que protagonizam ataques na região desde 2017.

Pelo menos quatro pessoas morreram e outras 37 ficaram feridas na sequência da passagem do ciclone Chido nas províncias de Cabo Delgado e Nampula, anunciaram organizações no terreno.

O ciclone, de escala 3 (1 a 5), atingiu a zona costeira do norte de Moçambique na noite de sábado para domingo, segundo o Centro Nacional Operativo de Emergência (CNOE).

O mesmo serviço indicou que o ciclone enfraqueceu para tempestade tropical severa, mas que continua a fustigar aquelas duas províncias do norte, com “chuvas muito fortes acima de 250 mm [milímetros]/24 horas, acompanhada de trovoadas e ventos com rajadas muito fortes”. “Este cenário apresenta elevado risco de inundações urbanas e erosão nas cidades de Pemba, Nacala e Lichinga, assim como em áreas baixas e ribeirinhas das bacias dos rios Muaguide, Megaruma, Lúrio”, refere a informação do CNOE, consultada pela Lusa.

Cerca de 200 mil clientes ficaram sem eletricidade em Nampula e Cabo Delgado devido aos efeitos da passagem do Chido, divulgou, no domingo, a Eletricidade de Moçambique (EDM) e pelo menos três voos com destino à região norte foram, no mesmo dia, cancelados pela companhia aérea Linhas Aéreas de Moçambique (LAM).

As autoridades moçambicanas já tinham admitido na quinta-feira que cerca de 2,5 milhões de pessoas poderiam ser afetadas pelo ciclone nas províncias de Nampula, Cabo Delgado e Niassa, no norte, e na Zambézia e Tete, no centro.

Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetados pelas alterações climáticas no mundo, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre entre outubro e abril.

O período chuvoso de 2018/2019 foi dos mais severos de que há memória em Moçambique: 714 pessoas morreram, incluindo 648 vítimas dos ciclones Idai e Kenneth, dois dos maiores de sempre a atingir o país.

Já na primeira metade de 2023, as chuvas intensas e a passagem do ciclone Freddy provocaram 306 mortos, afetaram mais de 1,3 milhões de pessoas, destruíram 236 mil casas e 3200 salas de aula, de acordo com dados oficiais do Governo. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Moçambique - Contrabando de madeira está a financiar insurgentes, alerta ONG

Milhões de toneladas de madeira continuam a ser exportadas ilegalmente de Moçambique para a China e os grupos insurgentes no norte do país estão a beneficiar financeiramente, revelou a organização norte-americana Agência de Investigação Ambiental.

Apesar das restrições do Governo moçambicano à exportação de madeira, a Environmental Investigation Agency (EIA) estima que, entre 2017 e 2023, foram enviadas para a China cerca de 3,7 milhões de toneladas de toros, com um valor calculado de 1,3 mil milhões de dólares.

A organização, com escritórios em Londres e Nova Iorque, está a monitorizar o setor madeireiro em Moçambique há vários anos, tendo-se centrado em Cabo Delgado mais recentemente, e acredita existir uma relação entre este comércio ilegal de madeira e os grupos de insurgentes islamistas.

Um relatório publicado este mês cita uma fonte bem colocada que estima que “30% da madeira explorada em Cabo Delgado corre um risco elevado de ser proveniente de florestas ocupadas pelos insurgentes”.

A madeira terá sido cortada nos distritos de Montepuez, Muidumbe, Meluco, Quissanga, Mueda, até na província vizinha de Nampula, e depois transportada para as serrações de Montepuez, por vezes de mota ou dissimulada nos porões de autocarros.  Com base em mais de 30 fontes locais, com profissionais do sector, sociedade civil e funcionários públicos, a EIA descreve como o movimento da madeira é facilitado graças a subornos pagos à polícia, soldados, representantes governamentais e inspetores alfandegários.

O relatório refere que “indivíduos do partido Frelimo beneficiam do comércio de madeira ilegal e do caos e insegurança causados pela insurreição”. A madeira é depois comprada por empresários chineses, que enviam os toros em contentores para o país asiático através de transportadoras marítimas internacionais.

Os toros de pau-preto, em particular, uma espécie nativa protegida, podem ser comprados por poucos dólares mas servem depois para fazer peças de mobiliário que custam milhares de dólares.

Os empresários compram madeira de diferentes origens, algumas delas ilegais, incluindo de florestas ocupadas por insurgentes, afirmou a responsável pelo estudo, Alexandra Bloom. “Por vezes é madeira que os insurgentes cortaram eles próprios, e eles beneficiam do dinheiro que ganham com a venda desta madeira. Uma fonte disse que eles estavam escondidos na floresta e que estavam a ficar com pouco dinheiro, por isso passaram a vender madeira”, explicou.

Este negócio acaba por gerar financiamento para o grupo terrorista Ahlu Sunnah Wal Jamaah (ASWJ), o principal da região, também conhecido internacionalmente como ISIS-Moçambique e localmente designado por Al-Shebab.  Bloom, que é analista especializada em comércio na EIA, acredita que Maputo esteja a fazer esforços para combater os insurgentes e este tipo de actividades ilícitas.  No entanto, acrescentou, “muitas pessoas estão a receber subornos ao longo do processo da cadeia de abastecimento de madeira ilegal, por isso, têm um certo incentivo para permitir que continue”. In “Ponto Final” - Macau


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Moçambique - Terroristas ocupam distrito de Macomia em Cabo Delgado

A vila sede do distrito de Macomia, no centro da província de Cabo Delgado foi ocupada pelos terroristas na madrugada de hoje, 10 de Maio. Há troca de tiros nas matas de Macomia entre os militares e os terroristas. A informação foi confirmada por um sobrevivente.


O grupo terrorista que assola a província de Cabo Delgado voltou a entrar em acção. Desta vez foi no distrito de Macomia.

“Eles entraram por volta das cinco horas e, até agora, ninguém sabe de nada porque continuamos escondidos aqui no mato”, contou um sobrevivente do mais recente ataque terrorista a vila de Macomia, onde está instalado um dos acampamentos militares dos países da África Austral, que desde 2021 ajudam Moçambique no combate ao terrorismo.

Com este ataque, a circulação na estrada N380 que liga a zona norte de Cabo Delgado e a República da Tanzânia foi interrompida.

As autoridades continuam no silêncio e pouco ou quase nada se sabe sobre as consequências deste ataque que ocorreu a quase 200 quilómetros de Pemba, a capital da província.

Macomia já foi alvo de ataques terroristas por várias vezes, e o penúltimo ocorreu em Maio de 2020, quando o grupo armado deixou a vila parcialmente em ruínas, depois de ter ocupado por quase uma semana. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 28 de novembro de 2023

Japão - Pede “mais esforços” para melhorar segurança na província de Cabo Delgado em Moçambique

A ministra dos Negócios Estrangeiros do Japão, Yoko Kamikawa, pediu “mais esforços” a Moçambique para melhorar e manter a situação de segurança em Cabo Delgado, onde as empresas japonesas têm interesse nos projectos de gás natural, lê-se numa nota divulgada hoje pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês, sobre o encontro da governante, em Tóquio, com a homóloga moçambicana Verónica Macamo, que se encontra em visita ao país.

“As duas ministras afirmaram também a importância de trabalhar em conjunto no desenvolvimento multifacetado que levará à estabilização da província de Cabo Delgado e ao crescimento da região norte como um todo”, refere a declaração final, acrescentando a disponibilidade do Governo do Japão para apoiar uma agenda comum para esse efeito.

As empresas japonesas estão envolvidas no projecto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, estimado em 20 mil milhões de dólares, mas que foi suspenso devido aos ataques terroristas em Cabo Delgado, com a multinacional francesa a admitir, entretanto, a retoma no início do próximo ano. In “O País” - Moçambique

 

terça-feira, 2 de maio de 2023

Moçambique - A Paróquia de Santa Cecília de Ocua, na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado

Sabe onde fica a 552ª paróquia da Arquidiocese de Braga? Fica muito longe, a mais de 11 mil quilómetros de distância. É na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, a região mais pobre de Moçambique, que vamos encontrar a Paróquia de Santa Cecília de Ocua


É aí também que está Fátima Castro jovem leiga missionária portuguesa procura “mudar os pequeninos mundos de alguém”.

Desde Outubro de 2014 que a Arquidiocese de Braga apadrinhou a paróquia de Ocua, situada na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

O projecto Salama tem levado até Ocua vários jovens missionários leigos e também sacerdotes. Eles são uma presença solidária numa região marcada pela pobreza e, desde 2017, também pela violência do terrorismo.

A 552ª paróquia da Arquidiocese de Braga é mesmo um mundo à parte. São 98 comunidades, sem electricidade nem água canalizada. A pobreza está presente em todo o lado, em todos os rostos.

Fátima Castro, uma jovem missionária leiga portuguesa oriunda de Santo Emilião, uma pequena aldeia do concelho de Póvoa de Lanhoso, está em Ocua desde agosto de 2021. “Vivo esta experiência como uma humilde tentativa de viver o Evangelho. Cedo percebi que não iria mudar o mundo, mas que podia mudar os pequeninos mundos de alguém”, explica.

Fátima faz um balanço positivo desta experiência, destacando a importância da presença junto dos que mais sofrem, dos que não têm quase nada nem ninguém. “Aprendi que, às vezes, o mais importante é estar. Estar com outro e ser para o outro. Mais do que fazer muitas coisas, procuro ser presença, ser ajuda, ser porto de abrigo, ser a mão estendida para ir ao encontro…”

Desde o final de 2017 que Cabo Delgado vive em sobressalto por causa dos ataques terroristas. Têm sido anos de violência, com mais de 4 mil mortos e quase um milhão de deslocados. Fátima Castro encontra todos os dias pessoas com olhos suplicantes por comida, mães inquietas com o choro de fome dos seus filhos. Fátima Castro sabe todos os dias como é difícil a vida em Ocua, a 160 km da cidade de Pemba. “É frequente, nos últimos tempos, chegarem à missão bebés que são alimentados com farinha de milho nos primeiros meses de vida, porque as mamãs não conseguem amamentar porque também não têm o que comer. Uma das mamãs já não comia há dois dias! Os papás vão apanhando todo o tipo de folhas para conseguir sobreviver e alimentar a família. Muitas crianças enganam a fome roendo pau de mandioca seca ou chupando cana-de-açúcar.”

Ocua é um ponto quase imperceptível no mapa. À sua volta há ainda lugares mais minúsculos, mas onde vivem pessoas. Esta é uma zona rural, demasiado distante da cidade, das coisas mais básicas. “Em Ocua a electricidade pública ainda não chegou e só encontramos água nos poços comunitários”, relata a missionária de Póvoa de Lanhoso. “Ao poço da missão chegam-nos mais de 50 mamãs todos os dias para tirar água. Este é o retrato de toda a paróquia.

O meio de subsistência deste povo passa pelo trabalho nas machambas (hortas) onde, em tempos ‘abastados’, conseguem cultivar mandioca, milho, feijão e gergelim. Mas não será a realidade deste ano. As pragas e o período das chuvas foram tão intensos que muitas das colheitas estão a apodrecer.” Ser missionária em Ocua significa ter coragem e disponibilidade, ter os braços sempre abertos.

“Cada dia é um novo dia e lá vou encontrando forças para cuidar, com caridade, das preocupações e do olhar deste povo que expressa, tantas vezes, um grito silenciado pelas dificuldades enfrentadas. É um olhar de sofrimento. De dor. De incerteza pelo dia de amanhã.” Fátima Castro gosta de citar São João Paulo II, gosta de dizer que a solidariedade prova que nenhum povo está sozinho ou abandonado. “Neste cantinho da Diocese de Pemba, vou sentindo que há muitas pessoas que não só abraçam as causas, mas tornam-se parte delas, até porque quando falamos de sofrimento humano não olhamos a raças, religiões, cores, etnias… somos todos irmãos.” In “Bom dia Europa” - Luxemburgo