Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidade de Díli. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidade de Díli. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de maio de 2026

Timor-Leste - Celebra a língua portuguesa entre diplomacia, cultura e desafios educativos

A Semana da Língua Portuguesa em Díli evidencia a expansão do idioma em Timor-Leste, mas também os desafios estruturais que ainda limitam o seu ensino nas escolas e universidades. “Em 2000, menos de 1% da população falava português. Hoje, mais de 30% domina a língua, segundo dados oficiais”, afirmou José Ramos-Horta, classificando a evolução como “extraordinária”.


Arrancou ontem, 4 de maio, em Díli, a Semana da Língua Portuguesa, uma iniciativa do Grupo de Embaixadores da CPLP que reúne Angola, Brasil e Portugal, assinalando o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado hoje, 5 de maio, e instituído pela UNESCO em 2019.

A iniciativa, que decorre até 10 de maio, transforma a capital timorense num ponto de encontro da lusofonia, com um programa cultural alargado que inclui literatura, cinema, música e debates sobre o futuro do ensino da língua no país.

A sessão de abertura teve lugar na Embaixada de Portugal em Díli e contou com a presença de representantes diplomáticos, autoridades timorenses e convidados. Entre os principais destaques está uma exposição dedicada ao escritor José Saramago, único autor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, cuja obra assume um papel simbólico central nas celebrações e estará patente ao público durante todo o mês de maio.

Angola participa com atividades de promoção literária, enquanto o Brasil apresenta sessões de cinema. Portugal encerra o programa cultural com um concerto do grupo SENZA, agendado para 10 de maio, na Fundação Oriente.

Diplomacia destaca língua como instrumento de identidade e cooperação

O embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, destacou a importância da Semana da Língua Portuguesa como uma iniciativa alargada e simbólica da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), destacando o papel crescente do português no país e o seu potencial de desenvolvimento futuro.

Segundo o diplomata, o alargamento das celebrações em Timor-Leste reflete o contexto particular do país, que assume a presidência da CPLP em 2026 e integra este ano as comemorações dos 30 anos da organização. Nesse sentido, considerou essencial promover um programa “grande, ambicioso e robusto”.

O embaixador referiu que a escolha de José Saramago se deve ao facto de ser o único autor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, critério que, segundo afirmou, foi consensual entre os embaixadores de Portugal, Angola e Brasil.

Destacou ainda o crescimento “exponencial” da língua portuguesa no país e reforçou o compromisso com a expansão do ensino, no âmbito das celebrações da Semana da Língua Portuguesa. “Comparado com o ano 2000, o crescimento é evidente e consistente”, afirmou, sublinhando que o aumento do número de falantes reflete o investimento contínuo na educação e na cooperação internacional.

Duarte Bué Alves destacou ainda o papel das escolas CAFE (Centros de Aprendizagem e Formação Escolar) e da Escola Portuguesa de Díli como pilares fundamentais na promoção da língua. Atualmente, existem 14 escolas CAFE em todo o território, com cerca de 12 mil alunos, mas a procura continua a superar a oferta.

“O nosso grande desafio é expandir a rede e aumentar a capacidade de resposta”, afirmou, acrescentando que o objetivo passa também pela formação de professores timorenses. “O modelo das escolas CAFE assenta na colaboração entre docentes portugueses e locais, promovendo a partilha de conhecimentos e o desenvolvimento conjunto.”

O embaixador referiu ainda projetos como o “Consultório da Língua para Jornalistas”, voltado para a capacitação de profissionais da comunicação social, como parte dos esforços para consolidar o uso do português em diferentes setores.

Para o diplomata, o interesse dos jovens pela língua é evidente. “A elevada procura nas escolas demonstra que os jovens reconhecem o valor do português”, disse, defendendo que o domínio do idioma abre portas no ensino superior e no mercado de trabalho.

O diplomata sublinhou que, perante esse cenário, a prioridade passa por reforçar e expandir os programas existentes de ensino da língua. “É nisso que estamos a apostar: crescer, expandir e consolidar”, acrescentou, defendendo o aumento da capacidade institucional para responder à procura crescente.

O embaixador de Angola em Timor-Leste, José Andrade de Lemos, destacou o significado simbólico da iniciativa, sublinhando a língua portuguesa como um “património comum” que ultrapassa fronteiras geográficas e gerações.

O diplomata afirmou que a língua portuguesa constitui mais do que um instrumento de comunicação, descrevendo-o como um “veículo de cultura, ciência, diplomacia e socialização”, falado por mais de 256 milhões de pessoas em todo o mundo. Defendeu ainda que cabe às instituições e aos cidadãos promover oportunidades para que a língua seja um instrumento de conhecimento e inclusão, reforçando o papel dos jovens como “guardiões da língua portuguesa”.

O embaixador apelou a uma reflexão conjunta sobre a importância do idioma na construção de identidade e cooperação entre os países da CPLP, desejando que a semana de celebrações fortaleça os laços de amizade e diversidade cultural entre os povos lusófonos.

Também presente na cerimónia, o embaixador do Brasil em Timor-Leste, Ricardo Lustosa Leal, destacou a importância de uma construção coletiva em torno da língua portuguesa, sublinhando que a sua valorização exige não apenas inspiração, mas também “escolhas políticas concretas” e um trabalho contínuo de cooperação entre os países.

O diplomata recordou ainda um poema do escritor português José Saramago, sublinhando a ideia de que a língua deve ser moldada com consciência e responsabilidade. Nesse sentido, defendeu que a construção de uma comunidade lusófona exige cultivo, compromisso e ações concretas.

Ricardo Lustosa Leal destacou a importância do encontro no Instituto Camões, em Díli, como espaço de convergência entre Angola, Brasil, Timor-Leste e Portugal, sublinhando o respeito pela diversidade das expressões do português em diferentes países.

O Presidente da República, José Ramos-Horta, destacou os avanços significativos da língua portuguesa em Timor-Leste, sublinhando o seu papel na identidade nacional e no acesso às oportunidades internacionais.

Segundo o Chefe de Estado, a Semana da Língua Portuguesa tem sido marcada por diversas iniciativas, incluindo uma reunião de ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Díli, focada na educação. Para Ramos-Horta, estes encontros representam uma oportunidade estratégica para avaliar o progresso do idioma no país.

“Em 2000, menos de 1% da população falava português. Hoje, mais de 30% domina a língua, segundo dados oficiais”, afirmou, classificando a evolução como “extraordinária”.

O Presidente atribui este progresso às políticas do Estado timorense, com apoio dos países como Portugal e Brasil. Recordou ainda que, após a ocupação e ausência do ensino formal em português, o país teve de “resgatar” a língua praticamente do zero, num contexto marcado por perdas humanas e pela diáspora de falantes.

Ramos-Horta destacou também o papel histórico da resistência timorense, nomeadamente das FALINTIL, na preservação de português, bem como de instituições como a Escola São José, que chegou a ser encerrada após o Massacre de Santa Cruz.

O Chefe de Estado elogiou ainda a capacidade linguística dos jovens timorenses, considerando-os “poliglotas por natureza”. “Um jovem timorense pode falar três, quatro ou mais línguas com facilidade”, afirmou, incentivando a aprendizagem simultânea de português, inglês e outras línguas.

Ramos-Horta reforçou a importância do português não só como elemento de identidade, mas também como ferramenta de acesso à educação internacional, especialmente em Portugal e no espaço europeu, no âmbito do Acordo de Bolonha. “Um diploma obtido em Portugal é reconhecido em toda a Europa”, sublinhou.

Apesar de reconhecer que o português ainda não é amplamente utilizado no quotidiano, o Presidente rejeita a ideia de estagnação. “Muitos jovens já falam bem português, especialmente os que frequentam escolas como o CAFE ou a Escola Portuguesa de Díli”, afirmou, citando também conquistas recentes de estudantes timorenses em concursos internacionais.

Questionado sobre se o inglês se torna dominante no país, Ramos-Horta esclareceu que a língua é utilizada sobretudo como ferramenta de trabalho, sem substituir as línguas nacionais. Disse que nenhum país abandona a sua língua. O inglês é apenas complementar.

Respondendo a críticas sobre o uso limitado do português no quotidiano, o Presidente reconheceu que o tétum continua a ser a língua dominante em casa, o que considera natural e comparável a outras realidades internacionais. Ainda assim, afirmou que muitos jovens já conseguem comunicar em português, especialmente os que frequentam escolas que seguem o currículo português.

José Ramos-Horta defendeu ainda que o domínio de diferentes línguas é uma vantagem estratégica. “Quanto mais línguas os timorenses falam, melhor para cada um de nós”, afirmou, encorajando os jovens a não terem receio de aprender novas línguas.

Ensino do português enfrenta desafios estruturais em Timor-Leste

Mas para lá do discurso político e do simbolismo cultural, a realidade do ensino da língua portuguesa em Timor-Leste revela desafios profundos que continuam por resolver.

Flávia Maria Augusta Martins, docente de Língua Portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais, alertou para problemas transversais ao sistema educativo. “Há desafios por parte dos governantes, do ministério competente, dos professores e, sobretudo, na capacidade de aprendizagem dos próprios estudantes”, afirmou.

Segundo a docente, muitos alunos chegam ao ensino superior com lacunas profundas. “Os estudantes não têm conhecimentos básicos da língua portuguesa quando entram na universidade, o que dificulta o processo de ensino.”

Na instituição onde leciona, os alunos têm apenas dois semestres de português, o que considera insuficiente. “Não posso voltar ao nível do ensino básico. Tenho de avançar com conteúdos do ensino superior, mas muitos alunos não conseguem acompanhar.”

A professora critica ainda a falta de condições no ensino básico e secundário e a ausência de formação contínua dos docentes. “Um professor de língua portuguesa precisa de atualização regular, pelo menos uma vez por ano, mas isso raramente acontece em Timor-Leste.”

Em turmas com até 80 alunos, apenas uma minoria demonstra domínio básico da língua. “Muitos têm dificuldades em compreender e expressar-se em português, até mesmo em frases simples.”

Para além das falhas estruturais, a docente aponta também a falta de empenho individual dos estudantes como um fator determinante. “Alguns estudantes não assumem responsabilidade pela sua aprendizagem e mostram pouco interesse em estudar ou pesquisar fora da sala de aula.”

Ainda assim, reconhece o potencial da tecnologia como ferramenta de apoio. “Há muitos materiais disponíveis, inclusive de professores brasileiros, mas os alunos precisam de iniciativa para os procurar.”

Flávia Martins sublinha também que a língua é essencial para o acesso ao conhecimento. “Muitos estudantes não compreendem as matérias porque estão em português.”

Jovens veem no português uma oportunidade de futuro

Apesar dos desafios, muitos jovens veem o português como uma oportunidade de futuro. Para Febriana Teixeira, estudante da Universidade Católica Timorense, a língua portuguesa vai muito além de um simples meio de comunicação. É “o caminho para atingir os meus sonhos” e a ponte que a levou a explorar o mundo da literatura e do direito.

A estudante descreve o português como uma língua que representa “a harmonia da vida poética, a diversidade e a dinâmica”, além de desempenhar um papel fundamental na interpretação jurídica, área em que pretende construir a sua carreira. Para Febriana, o domínio do idioma abre portas concretas, especialmente no contexto do Estado timorense.

A propósito da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado a 5 de maio, a estudante considerou essencial marcar a data. “É importante para relembrar cada conquista que tivemos com a presença da língua portuguesa”, afirmou, acrescentando que a celebração também reforça a ligação entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Na sua perspetiva, o português não é apenas uma língua, mas um “universo” que integra cultura, identidade, etnia, nacionalidade e fé.

Apesar do entusiasmo, Febriana reconheceu que o processo de aprendizagem não é simples. “No início é sempre difícil, mas com prática contínua torna-se mais fácil e flexível”, explicou. Para a estudante, aprender português exige resiliência e disciplina, características que considera fundamentais para alcançar bons resultados.

Entre as principais dificuldades, destacou fatores emocionais e estruturais. “Muitas vezes, sentia desmotivação ao ouvir constantemente que era necessário conjugar verbos ou seguir regras gramaticais complexas”, recordou. No entanto, encontrou motivação ao entrar em contacto com diferentes sotaques, especialmente do Brasil e de Portugal, o que despertou ainda mais interesse pela língua.

A estudante apontou também desafios no acesso a recursos educativos em Timor-Leste, como a escassez de livros em português e a limitada oferta de conteúdos audiovisuais na língua, muitas vezes substituídos por materiais em indonésio.

Mesmo assim, Febriana vê no português uma oportunidade concreta de crescimento. Em 2025, essa visão tornou-se realidade ao vencer um concurso de discurso público em língua portuguesa, conquista que lhe garantiu uma vaga num curso de verão na Universidade de Macau.

“Para mim, não é apenas teoria. A língua portuguesa já abriu portas reais na minha vida”, disse, reforçando a importância do idioma como ferramenta para o futuro académico e profissional em Timor-Leste.

Estela Maia Soares, estudante do quinto semestre de Contabilidade na Faculdade de Economia e Gestão, Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, considera a língua portuguesa um elemento fundamental na identidade e no desenvolvimento de Timor-Leste, apesar dos desafios enfrentados no seu processo de aprendizagem.

Segundo a estudante, o português, sendo uma das línguas oficiais do país, assume um papel relevante tanto a nível nacional como internacional. “É uma língua utilizada em vários países e também muito presente entre as gerações mais velhas. Além disso, muitas palavras do tétum têm origem no português, o que demonstra a sua influência no nosso dia a dia”, afirmou.

“Timor-Leste faz parte da CPLP, por isso, devemos celebrar esta data como forma de reconhecer a importância da língua”, disse.

No entanto, a estudante reconheceu que aprender português não é um processo fácil. Entre as principais dificuldades, aponta a complexidade da conjugação verbal. “Diferente do inglês, o português exige atenção aos tempos verbais. Não se pode falar de qualquer maneira, é preciso conjugar corretamente, o que se torna a aprendizagem mais exigente”, explicou.

A experiência de Estela com a língua começou ainda no ensino básico e secundário, na Escola CAFE, onde teve frequentemente contacto com professores estrangeiros que utilizavam o português. Contudo, após concluir essa etapa, a prática da língua diminuiu devido ao ambiente social.

“No meu círculo de amigos e família, poucas pessoas falam português. Apenas o meu pai fala um pouco, e é com ele que ainda consigo praticar”, relatou.

Já no ensino superior, embora os materiais académicos estejam maioritariamente em português, a realidade nas salas de aula é diferente. “Os professores utilizam materiais em português, mas muitas vezes explicam em tétum porque os estudantes ainda não dominam bem a língua”, disse. Entre colegas, o uso do português também é limitado, sendo mais comum entre aqueles que já têm alguma fluência.

Para superar essas dificuldades, Estela tem recorrido a conteúdos digitais, sobretudo nas redes sociais. “Vejo vídeos no TikTok em português, principalmente de outros países, o que me ajuda a compreender melhor a língua e a aprender novas formas de comunicação”, afirmou.

Apesar dos desafios, a estudante defende que a aprendizagem do português depende também da iniciativa individual. Para ela, o contacto contínuo com a língua, seja na escola ou através de meios digitais, é essencial para melhorar a fluência e garantir que o português continue a ter um papel relevante na sociedade timorense.

Por sua vez, a estudante Melinda da Conceição Pinto, do Departamento de Contabilidade da Faculdade de Economia e Gestão, da UNTL, partilhou a sua experiência de aprendizagem da língua portuguesa, sublinhando a importância da prática constante e da comunicação no processo de aquisição da língua.

Melinda afirmou ter aprendido português desde o ensino primário até ao ensino secundário na Escola CAFE de Baucau, localizada em Vila Nova. Segundo a estudante, a aprendizagem não se limitou ao contexto escolar, tendo também sido reforçada no ambiente familiar, através da comunicação frequente com os pais e irmãos.

Durante o seu percurso académico, explicou que continuou a utilizar a língua portuguesa tanto em casa como na universidade, ainda que de forma variável. “Já na universidade, também falo com alguns colegas, acompanho as explicações dos professores e faço perguntas em português”, referiu, acrescentando que a utilização da língua ocorre com alguma regularidade.

No entanto, Melinda reconhece que aprender português em Timor-Leste continua a ser um desafio. “Não é muito fácil, porque muitas pessoas tentam aprender português, mas nem todas conseguem”, afirmou, destacando a necessidade de maior prática comunicativa entre os falantes para melhorar o domínio da língua.

Outro desafio mencionado foi a escassez de conteúdos educativos produzidos localmente em português. Segundo a estudante, embora existam muitos materiais disponíveis na internet, sobretudo de países estrangeiros, em Timor-Leste ainda há poucos criadores de conteúdos em língua portuguesa. “Isso poderia ajudar e incentivar mais pessoas a aprender”, afirmou, defendendo maior iniciativa individual por parte dos estudantes.

Quanto ao papel das instituições, Melinda considera que tanto o Governo como as escolas têm investido na promoção da língua portuguesa, embora os resultados dependam também da prática dos falantes. “O investimento existe, mas se as pessoas não praticarem, torna-se um desafio”, observou.

Por fim, deixou uma mensagem aos colegas e aos estudantes mais novos, incentivando a prática diária da língua. “O mais importante é praticar todos os dias, mesmo cometendo erros. Começar pelo básico e falar sobre coisas simples ajuda muito. O essencial é comunicar”, afirmou.

Apesar do crescimento significativo da língua portuguesa em Timor-Leste, o ensino continua a enfrentar desafios estruturais que contrastam com a forte aposta política, cultural e simbólica no seu reforço. Rilijanto Viana – Timor-Leste In Diligente


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Timor-Leste - Bolseiros da Bolsa Sander Thoenes assumem compromisso de honrar legado do jornalista holandês morto no país

Quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia são os primeiros bolseiros da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e independente. Após uma formação intensiva nos Países Baixos e encontros com instituições e redações de referência, os participantes assumem o compromisso de honrar o legado do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999


Nas duas primeiras semanas de fevereiro deste ano, quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia, selecionados entre cerca de uma centena de candidatos, integraram a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e de interesse público, perpetuando a memória do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999.

Uma das selecionadas, Antónia Kastono Martins, jornalista e diretora do Diligente, em Timor-Leste, que destacou a importância da experiência. “É uma experiência muito rica, onde aprendi coisas novas, nomeadamente ferramentas e técnicas para melhorar o trabalho de investigação. Isso é muito importante para mim e para o nosso órgão de comunicação social, que pretende investir mais em reportagens investigativas”, afirmou.

Também Juan Robin, jornalista do Narasi, um conhecido órgão de comunicação social da Indonésia, sublinhou que o programa reforçou o seu sentido de responsabilidade perante o público. “Através da verificação de factos e de uma investigação informativa rigorosa e abrangente, conseguimos evitar a desinformação”, acrescentou.

A bolsa destacou igualmente a importância da ética e da responsabilidade no contexto digital. Retyan Sekar, jornalista do Kumparan, na Indonésia, salientou que ser jornalista na era digital exige uma postura crítica perante as novas ferramentas.

“Ser um jornalista responsável na era digital não significa apenas responsabilizar o poder, mas também utilizar a inovação digital, como a Inteligência Artificial, com pensamento crítico e responsabilidade ética”, partilhou.

“Para mim, esta bolsa de estudo é uma oportunidade para aprimorar as minhas competências de verificação de factos e de pensamento crítico, sempre que decidir produzir conteúdos para a minha plataforma”, afirmou Ricardo Valente Araújo, fundador da Gen Z Talk Timor-Leste, que cria conteúdos exclusivos dirigidos a jovens.

O legado de Sander Thoenes

Sander Thoenes foi um jornalista holandês que trabalhava na Indonésia em 1999 para o Financial Times, jornal britânico de referência.

Após 98,5% dos timorenses terem votado pela independência no referendo de 30 de agosto de 1999, foi destacado para cobrir a situação em Timor-Leste no período pós-consulta popular.

Os dias que se seguiram ao referendo ficaram marcados pelo medo e pela violência — um período conhecido como Setembro Negro. Registaram-se assassinatos, incêndios generalizados e deportações forçadas para a Indonésia. Sander Thoenes, então com apenas 30 anos, tornou-se uma das vítimas dessa tragédia.

Enquanto muitos procuravam fugir do conflito, Sander Thoenes, juntamente com outros jornalistas internacionais, deslocou-se para o território. Estiveram em Díli antes do referendo, mas foram expulsos logo após a votação devido à tensão que se seguiu. No entanto, com a entrada das forças australianas, os jornalistas aproveitaram para regressar ao território.

Thoenes chegou a Díli a 21 de setembro de 1999. No mesmo dia, pediu a um timorense que o conduzisse pela cidade, passando por Becora, considerada uma das zonas mais perigosas por ser um centro de presença militar indonésia. Apesar do alerta do condutor, decidiu avançar e acabou por ser morto em Becora, Díli.

“Percebemos que também podem silenciar-nos”

Para Step Vaessen, jornalista da Al Jazeera e amiga de Sander Thoenes, a sua morte representou um dia negro para o jornalismo.

“Foi um ponto de viragem para mim, porque percebi então que, enquanto jornalistas, não somos intocáveis. Eu achava que estava apenas a fazer o meu trabalho, a escrever uma história, e que não fazia parte da história. Mas, de repente, percebemos que também podem silenciar-nos, até para sempre”, confidenciou, recordando que também era jovem na altura.

Step Vaessen foi a primeira a propor a criação da bolsa, considerando que muitas pessoas ainda desconheciam a história do colega. Para si, a iniciativa pretende manter viva a memória de Sander Thoenes e dar continuidade ao seu legado, formando novos jornalistas comprometidos.

“Temos agora quatro a quem quisemos dar esta responsabilidade de continuar este trabalho. Há muito a discutir entre nós, porque temos de nos esforçar nesta carreira.”

Inspirados pela coragem e pelo impacto

Para Antónia Martins, a bolsa reforçou a necessidade de continuar a escrever com coragem, realizando investigações de forma cautelosa, ética e sustentada nas ferramentas adquiridas durante a formação.

Juan Robin afirmou que o legado de Sander Thoenes é claro: “produzir reportagens ousadas, impactantes e de grande relevância”. O próprio jornalista venceu recentemente um prémio com um vídeo-reportagem que expõe como a mineração de níquel na Indonésia é justificada em nome do bem público e da transição verde, quando, na prática, serve para extrair riqueza para elites, à custa da vida das populações, da saúde pública, do ambiente e da própria democracia.

Também Retyan Sekar afirmou sentir-se inspirada pela coragem de Sander Thoenes e motivada para se adaptar às mudanças no setor, “mantendo-me fiel a um jornalismo baseado em factos, na empatia e no interesse público”.

Ricardo compromete-se também a continuar a procurar a verdade e a produzir conteúdos escritos.

“Queremos mostrar às novas gerações de jornalistas o quão importante é continuar a nossa profissão e manter-nos fiéis aos factos, independentes, corajosos e firmes, tal como Sander Thoenes”, concluiu Step Vaessen.

Formação nos Países Baixos e contacto com instituições

Esta foi a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa da Foreign Policy Community of Indonesia, em colaboração com a Embaixada do Reino dos Países Baixos na Indonésia e a RNW Media.

Durante cinco dias, os bolseiros participaram num curso sobre jornalismo ético, impactante e corajoso no Centro de Formação em Media da RNTC, nos Países Baixos. Tiveram ainda oportunidade de visitar a Câmara Baixa dos Estados Gerais, órgão legislativo neerlandês, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde aprofundaram o conhecimento sobre o funcionamento do sistema político do país.

Os jovens jornalistas visitaram igualmente a Associação de Jornalistas Holandeses (NVJ) e reuniram-se com repórteres experientes na área da investigação, nomeadamente dos meios independentes Investico e Follow the Money.

O programa incluiu ainda visitas a órgãos de comunicação social de referência nos Países Baixos, como a NOS, serviço público de radiodifusão, e o de Volkskrant, jornal privado de circulação nacional e grande influência.

A experiência foi enriquecida pelo encontro com a família de Sander Thoenes, Peter e Eveline. Para Ricardo Araújo, este foi o momento mais inspirador, ao ouvir a história e os valores do jornalista holandês. As oportunidades de trocar ideias com jornalistas holandeses também lhe pareceram interessantes.

Juan Robin, por sua vez, destacou o momento de apresentação das ideias para futuros projetos com impacto público. “É memorável, porque consegui aplicar diretamente o valor da coragem de Sander Thoenes, algo que não pratico todos os dias”, partilhou. O jornalista espera poder produzir mais conteúdos de impacto, apesar dos desafios que a imprensa indonésia enfrenta atualmente.

O momento que mais inspirou Antónia Martins foi conhecer a história de um média independente e privado, dedicado exclusivamente à investigação. No início, não produzia notícias diárias, mas conseguiu sobreviver e atualmente conta com dezenas de jornalistas, publicando um artigo investigativo por dia. “O desafio deve ser enorme, mas mantiveram-se fiéis ao modelo que escolheram e conquistaram a confiança do público que os apoia, permitindo-lhes continuar a investigar e a escrever”, observou a jornalista.

Retyan Sekar também partilhou o seu momento mais memorável, quando conheceu os jornalistas de Timor-Leste e a família de Sander Thoenes. “Estamos ligados pela história, pela responsabilidade e, felizmente, por valores partilhados. É incrível pensar que este programa consegue reunir-nos, vindos de todos os cantos do mundo e de diferentes gerações, por causa do legado de um jornalista. Aquele momento fez-me perceber o quão poderoso pode ser o jornalismo na construção de ligações humanas.” In Diligente” – Timor-Leste


terça-feira, 11 de novembro de 2025

Timor-Leste defende reforço da cooperação com Portugal

A ministra da Educação de Timor-Leste, Dulce Soares, defendeu o reforço da cooperação com Portugal, incluindo nas bibliotecas móveis, na criação de novos espaços educativos e no desenvolvimento de projectos culturais e pedagógicos inovadores


“Portugal e Timor-Leste poderão continuar a trabalhar lado a lado em novas áreas de cooperação, nomeadamente no reforço das bibliotecas móveis, na criação de novos espaços educativos e no desenvolvimento de projetos culturais e pedagógicos inovadores” para garantir que “cada criança timorense tenha acesso a uma educação de qualidade e a um futuro de esperança”, afirmou Dulce Soares. A ministra falava na cerimónia de inauguração das novas sete salas de aulas da Escola Básica do Farol, reabilitadas no âmbito de um memorando de entendimento assinado em abril entre o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e o Ministério da Educação de Timor-Leste para reabilitar a parte mais antiga daquele estabelecimento de ensino.

A reabilitação, no valor de 138 mil euros, contemplou também a eletrificação das salas, a reabilitação da sala da direção e a construção de um furo de água. A antiga escola básica central do Farol, em Díli, foi construída pelos portugueses em 1962 e é actualmente frequentada por mais de dois mil alunos. “Esta inauguração é também um exemplo claro do que podemos alcançar quando Portugal e Timor-Leste trabalham de mãos dadas. Mais do que uma parceria técnica, esta cooperação representa um compromisso conjunto com o desenvolvimento humano, com a valorização dos professores e com a criação de melhores oportunidades para todos os estudantes”, salientou a ministra.

Na sua intervenção na cerimónia, Dulce Soares deu também as boas-vindas ao novo embaixador de Portugal em Timor-Leste, Duarte Bué Alves, considerando tratar-se um “momento simbólico e especial, que marca o início de uma nova etapa de cooperação dinâmica e produtiva” entre os dois países. “Acredito que a chegada do novo embaixador traz consigo um novo impulso e um verdadeiro ar de renovação, reforçando o entusiasmo e a confiança no trabalho conjunto que continuaremos a desenvolver em prol da educação e do desenvolvimento sustentável do nosso país”, acrescentou.

Em declarações aos jornalistas, o embaixador Duarte Bué Alves afirmou que o setor da educação é um sector onde Portugal está e quer estar com “absoluta prioridade”. “É uma área que foi identificada pelos governos de Portugal e Timor-Leste como sendo absolutamente essencial e Portugal tem dado a resposta na medida do possível e na medida de todas as nossas capacidades e no quadro do nosso Programa Estratégico de Cooperação”, disse o embaixador, salientando que Portugal, ao nível da educação, está presente em todos os municípios. In “Ponto Final” - Macau


domingo, 31 de agosto de 2025

Timor-Leste - Festival Literário desafia o país a transformar-se através da leitura

O Movimento LETRAS acredita que Timor-Leste enfrenta uma “crise silenciosa” de leitura que ameaça o pensamento crítico e o futuro do país. O grupo aposta num festival literário para transformar hábitos e desafiar o Estado a encarar a literacia como prioridade nacional. Estudantes, professores e ativistas denunciam o desinteresse pela leitura e a falta de políticas públicas eficazes


“O Estado torna-se frágil quando os cidadãos são fracos.” É o alerta lançado pelo Movimento LETRAS, que em setembro organiza a terceira edição do Festival Literário sob o tema “Ler para a Transformação Social”. O evento, gratuito e aberto a toda a comunidade, terá lugar entre 6 e 8 de setembro de 2025 na Fundação Oriente, em Díli, e assinalará o Dia Internacional da Literacia.

Apesar de uma parte significativa da população timorense saber ler e escrever, o LETRAS considera que o hábito da leitura em Timor-Leste está numa situação “profundamente preocupante”, sobretudo entre a comunidade académica. Esta fragilidade, sublinha o movimento, afeta diretamente a capacidade crítica das pessoas de analisar textos, refletir sobre os acontecimentos e tomar decisões conscientes no dia a dia.

A docente de Didática da Literatura da Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), Maria da Cunha, confirma a tendência. Para a professora, o problema não é a falta de recursos, mas a ausência de uma verdadeira cultura de leitura. “Concordo com a avaliação de que a comunidade académica lê pouco. Isso é algo que observo e experiencio diariamente com os meus próprios alunos”, afirmou.

Apesar de propor leituras e trabalhos, poucos alunos cumprem as tarefas. “Entre dez estudantes, às vezes, apenas um ou dois leem os textos. Os restantes não mostram progressos”, lamentou a docente, acrescentando que o uso excessivo das tecnologias e dos telemóveis é uma das principais razões do desinteresse. “Hoje, até crianças andam com o telemóvel na mão. Os jovens preferem estar online a ler”, criticou.

A docente sublinhou que as bibliotecas estão acessíveis e muitos textos são distribuídos em formato digital, mas, mesmo com estas facilidades, o desinteresse persiste. Segundo a professora, a falta de leitura afeta diretamente o desenvolvimento do pensamento crítico, o enriquecimento do vocabulário e o domínio da língua. “O contacto com o professor não é suficiente para adquirir conhecimentos profundos nas áreas filosófica, científica, pedagógica, literária, social e cultural”, explicou.

Maria da Cunha defende que os alunos devem assumir responsabilidade pelo seu próprio percurso académico. “Nas universidades, o encontro com o professor representa apenas 25%. Os outros 75% dependem do esforço individual do aluno. Infelizmente, os nossos estudantes ainda não têm essa mentalidade voltada para a leitura”, afirmou.

A docente recordou ainda as dificuldades do seu tempo de estudante, quando os recursos eram muito mais limitados. “Não tínhamos telemóveis nem energia elétrica como agora. Usávamos petromax para estudar, mas, mesmo assim, tínhamos de ler”, lembrou.

Para inverter este cenário, sugere iniciativas práticas dentro e fora das universidades, como prémios literários, oficinas de escrita, tertúlias e atividades que estimulem o gosto pela leitura. “A promoção da leitura deve envolver todas as áreas do conhecimento, porque a literatura é essencial para o desenvolvimento do pensamento crítico e da identidade cultural de um país”, concluiu.

Segundo o Censo de 2022, 72,4% da população timorense com 10 anos ou mais sabe ler e escrever, o que representa um progresso em relação a 2015, quando a taxa era de 67,3%.

Apesar da melhoria, os dados revelam fortes desigualdades entre género, faixas etárias e regiões. Os homens continuam a apresentar níveis mais elevados de alfabetização (74,7%) do que as mulheres (70,0%).

Entre os jovens com menos de 25 anos, a taxa varia entre 85% e 90%. Já na população com mais de 30 anos, os níveis descem drasticamente. Entre as mulheres com idades entre 60 e 65 anos, apenas 21,0% sabem ler e escrever, contra 45,2% dos homens da mesma faixa etária.

Em termos regionais, Díli lidera com 89,6% da população alfabetizada, seguido de Manufahi com 75,8%. Oé-Cusse, por sua vez, regista os números mais baixos, com apenas 56,7% de alfabetização entre pessoas com 10 ou mais anos.

O organizador e gerente do programa, Basílio Sanches Sávio, afirmou que o festival pretende mobilizar a sociedade para refletir sobre a importância da leitura, promovendo-a como base de uma cidadania crítica e informada.

Segundo o responsável, a iniciativa surge como resposta ao panorama frágil da cultura de leitura no país, ainda longe de estar enraizada. “A influência da globalização tem reduzido a consciência crítica dos cidadãos, afastando-os do hábito de ler livros com atenção e profundidade”, afirmou.

“O nosso compromisso é promover a leitura como um direito e um dever cívico fundamental”, acrescentou. A programação será diversificada: debates temáticos sobre feminismo, política, economia, arte e literatura de resistência; sessões com autores nacionais e internacionais; seminários de escrita criativa; oficinas de colagens e produção de zines; e uma feira do livro com participação de bibliotecas, livrarias e movimentos literários do país.

Para as crianças, haverá a hora do conto e atividades artísticas, enquanto a vertente cultural trará exposições, pintura ao vivo, poesia, música e teatro.

“O festival não é apenas uma celebração da literatura, mas também um espaço para valorizar a arte como ferramenta de construção social e intelectual”, destacou Basílio. Queremos reforçar o papel da literacia como base de uma sociedade mais crítica, justa e participativa”, concluiu.

O evento está a gerar grande expetativa entre jovens e estudantes, que o veem como um espaço de partilha e reflexão crítica.

Heger Robinson, de 22 anos, participa regularmente nas atividades do grupo e sublinha a importância do evento. “Se conseguir participar, será a minha primeira experiência. Vai ser um espaço de diálogo para os jovens e vai aumentar o interesse e a paixão pela literatura”, disse.

Para Robinson, a leitura é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento pessoal e social. “O conhecimento que adquirimos através da leitura deve ser aplicado no quotidiano, para nos tornarmos cidadãos críticos e ativos na sociedade”, acrescentou.

Também Alcinda Menezes Martins, de 22 anos, estudante do Departamento de Gestão da UNTL, mostrou entusiasmo. “Quero ganhar experiência e aprender com os conhecimentos que os escritores vão partilhar. Espero que as atividades sirvam de motivação para nós, estudantes, dedicarmos mais tempo à leitura”, afirmou.

Alcinda reconheceu, contudo, os desafios no acesso aos livros. Segundo a estudante, uma das maiores barreiras é a escassez de títulos nas bibliotecas universitárias. “Muitas vezes, os livros que precisamos não estão disponíveis e temos de recorrer ao Google”, explicou.

Outro entrave é o preço elevado dos livros em Díli. “Gostaríamos de comprar para apoiar os nossos estudos, mas os preços variam entre 10 e 15 dólares. Muitos de nós não temos capacidade financeira”, lamentou.

Apesar disso, Alcinda defende a importância da leitura. “Ler ajuda-nos a formar pensamento crítico e a tomar consciência da realidade social em que vivemos. É essencial para construirmos um futuro melhor”, concluiu.

O Movimento LETRAS defende que uma sociedade com uma forte cultura de leitura e altos níveis de literacia é essencial para a construção de uma nação desenvolvida, próspera, justa e democrática. “Não basta apenas ler; é preciso compreender o que se lê e transformar essa compreensão em ação social, promovendo os valores da humanidade e dos direitos humanos”, frisou o coletivo.

Contudo, acusa o Governo de negligenciar a promoção da leitura. Em Timor-Leste, a leitura continua marginalizada pela falta de políticas públicas e pelo desinteresse institucional.

Mesmo assim, a participação da população nas atividades continua reduzida. Para Henrique dos Santos, membro do LETRAS, a causa não é apenas desinteresse individual, mas sobretudo a falta de condições estruturais. “O país não tem uma Biblioteca Nacional e os currículos escolares, do básico ao superior, não exigem a leitura de obras literárias como parte essencial da formação dos estudantes”, afirmou.

Já Basílio apontou outro problema: a falta de atualização e distribuição de livros nas escolas, agravada pelos preços elevados no mercado. “O Governo poderia subsidiar editoras e livrarias para tornar os livros mais acessíveis”, defendeu.

Segundo ele, essa situação desincentiva o gosto pela leitura. “A cultura de leitura em Timor-Leste é extremamente frágil, porque não têm sido feitos esforços consistentes para criar condições que a promovam.”

Educação quer transformar leitura em prioridade nacional

A chefe do Departamento de Currículo do Ensino Básico do Ministério da Educação, Édia Monteiro, reconheceu a falta de hábitos de leitura em Timor-Leste e sublinhou que o Governo está a intensificar os esforços para transformar a leitura num hábito nas escolas. A prioridade é melhorar as competências de literacia dos estudantes desde o primeiro ano de escolaridade.

Segundo Édia Monteiro, vários estudos demonstram que muitos alunos apresentam ainda níveis baixos de leitura. Para combater esta realidade, o Ministério da Educação tem implementado diversas iniciativas, como a distribuição de livros de histórias a todas as escolas e a formação de formadores para apoiar os professores na melhoria da literacia dos alunos.

“Começámos a implementar um programa de leitura antes das aulas para todos os estudantes do primeiro e segundo ciclos do ensino básico. Temos também o programa EMLULI (Educação na Língua Materna), que nos ajuda a avaliar a capacidade de leitura dos alunos”, destacou.

Apesar de alguns alunos já conseguirem ler, a compreensão dos textos continua a ser um grande desafio. “Estamos a trabalhar para mudar esta realidade e reforçar a literacia de forma contínua”, acrescentou Édia.

Para tornar os livros mais acessíveis, o Ministério criou o programa “Cantinas de Leitura”, em que os professores disponibilizam livros em sala de aula. “As bibliotecas gerais são limitadas devido à falta de infraestruturas e de pessoal qualificado para o atendimento”, reconheceu.

De acordo com a responsável, nas turmas iniciais — como a pré-escola e os dois primeiros ciclos do ensino básico — já foram criadas minibibliotecas em cada sala. Os livros distribuídos estão adaptados a cada disciplina e incluem ainda histórias infantis, de forma a incentivar o gosto pela leitura.

“A leitura passou a ser uma prioridade nacional. Por isso, no currículo do primeiro e segundo ciclos, colocámos o foco na literacia em tétum e português, com o objetivo de desenvolver a leitura e a escrita. Estamos a implementar programas para que as crianças se familiarizem com os livros desde cedo”, reforçou Édia Monteiro.

A Ministra da Educação, Dulce de Jesus Soares, recordou que o hábito de leitura não é uma responsabilidade exclusiva do Ministério, mas de toda a sociedade, sobretudo dos pais e encarregados de educação. “Os pais devem incentivar e acompanhar os seus filhos na leitura dos livros distribuídos pelo Ministério”, apelou.

De acordo com a governante, este ano o foco está na literacia básica. “As crianças precisam de livros interessantes, que as motivem a ler. Para o currículo do 3.º ciclo, temos livros escritos por timorenses, com o apoio de consultores nacionais, para criar conteúdos atrativos. Queremos que a escola seja um espaço interessante, e não um ambiente intimidador”, sublinhou.

A ministra acrescentou que o Ministério continua a produzir e a adquirir livros para distribuir às escolas em todo o país. “Mesmo que alguns livros estejam desatualizados, ainda são úteis, porque contêm conhecimentos e ciências de que precisamos”, afirmou.

Dulce de Jesus Soares apelou ainda à comunidade escolar para que os livros não fiquem guardados nas bibliotecas, mas sejam levados pelos alunos para casa, como preparação para as aulas. “Queremos evitar a prática em que os professores escrevem no quadro e os alunos apenas copiam. Precisamos de mudar essa realidade”, concluiu.

Ameaça às elites

No entanto, o movimento LETRAS vai mais longe, afirmando que o sistema político, dominado por elites, dá prioridade a interesses pessoais em vez de decisões públicas que beneficiem todos. “As elites sentem-se ameaçadas quando percebem que a sociedade começa a pensar de forma crítica. Uma sociedade que lê e produz conhecimento é um risco para quem pretende manter o controlo”, denunciou Basílio.

Para o jovem ativista, esta realidade não é fruto do acaso, mas de um sistema nacional e global construído sobre bases injustas, que impede o desenvolvimento do pensamento crítico. “Isso abre espaço para que elites políticas usem os recursos públicos em benefício próprio e de pequenos grupos de interesse”, acusou.

Apesar da falta de apoio estatal e dos recursos limitados, o Movimento LETRAS mantém a sua atuação com base no voluntariado. Este ano, além do festival, vai lançar o projeto-piloto “Literacia para Todos”, em seis municípios: Díli, Baucau, Lautém, Ainaro, Aileu e Liquiçá, com o apoio de jovens, estudantes e colaboradores.

Com o lema “Nós lemos, nós sabemos, nós transformamos”, o LETRAS quer fortalecer a cultura de leitura em Timor-Leste como passo essencial para o desenvolvimento humano e social.

A visão do movimento é criar condições para a construção de uma sociedade crítica, criativa e capaz de se transformar, promovendo a justiça social e os direitos humanos. Entre os seus principais objetivos estão: aumentar a consciência pública sobre a importância da leitura, influenciar políticas públicas que favoreçam o acesso ao conhecimento e garantir a disponibilização de materiais e espaços de leitura nas comunidades.

“O acesso à leitura é um direito fundamental. Investir na literacia é investir no futuro do país”, concluiu o Movimento LETRAS. Rilijanto Viana – Timor-Leste in Diligente


segunda-feira, 30 de junho de 2025

Ásia - Marca deixada pelos portugueses “não foi apagada”, diz Ramos-Horta

O Presidente de Timor-Leste considera que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”. O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem


O Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, afirmou que a marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada e que as comunidades luso-asiáticas espalhadas pela região são a “prova viva desta verdade incontornável”.

“A marca deixada pelos portugueses na Ásia não foi apagada pelo tempo. As nossas comunidades são a prova viva desta verdade incontornável. O resultado é algo que perdura: o nascimento de comunidades simultaneamente europeias e asiáticas”, disse José Ramos-Horta.

O chefe de Estado falava na sessão de abertura da quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas, que terminou ontem, com a participação de comunidades do Sri Lanka, Malaca (Malásia), Myanmar, Macau, Tailândia, Goa (Índia) e das Flores e Jacarta (Indonésia).

De acordo com Ramos-Horta, aquelas comunidades não estão apenas “ligadas a Portugal”, mas também umas às outras, porque os “portugueses administraram os seus territórios asiáticos com um sentido de interligação”. “Laços culturais, administrativos e religiosos uniam Goa e Malaca, Flores e Sri Lanka. Durante um período, Timor chegou a ser administrado pelo Governador de Macau”, disse, explicando que a igreja também teve um papel central naquela ligação. A igreja, segundo o Presidente, trouxe a fé, mas também a “educação formal, escrita e disciplina espiritual”.

Lembrando que as comunidades descendentes de portugueses na Ásia são “frequentemente invisíveis nas narrativas nacionais” e “esquecidas pelos manuais escolares”, o Presidente salientou a importância de se juntarem para lembrar, mas [também] para reinventar”.

“Esta conferência dá-vos espaço para reflectir sobre o passado”, mas também, continuou o chefe de Estado, para uma “oportunidade de moldar o próximo capítulo da história”, que será discutido com a proposta da Declaração de Díli, que foi aprovada este domingo, e com a criação da Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia. “Esta associação será mais do que uma rede de pessoas e comunidades. É uma promessa e um compromisso: preservar, registar e capacitar. Reconhecer o valor das comunidades muitas vezes marginalizadas ou esquecidas”, disse José Ramos-Horta.

Segundo o Presidente, a Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia dará voz às comunidades lusófonas com governos e instituições internacionais, apoiará a investigação e a sustentabilidade económica, mas também ajudará a proteger as histórias e identidades dos povos.

Numa mensagem, lida pela embaixadora portuguesa em Díli, Manuela Bairos, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, manifestou o apoio do Governo português aos objetivos da conferência, a disponibilidade para acolher um encontro em Portugal, bem como “acompanhar os esforços de institucionalização do projecto que a conferência de Díli se propõe a promover”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 26 de junho de 2025

Timor-Leste acolhe 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas em Díli

De 27 a 29 de junho de 2025, Timor-Leste vai acolher a 4.ª edição da Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC), no Centro Convenções de Díli, na capital, Díli. Este importante evento cultural regional celebra o legado duradouro da herança portuguesa em toda a Ásia.



A conferência bienal, com duração de três dias, é organizada pelo IX Governo Constitucional de Timor-Leste, em parceria com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O tema da 4.ª Conferência da APCC em 2025 é “Unidos na Diversidade: Desafios e Oportunidades de um Legado Secular”.

O Primeiro-Ministro, Kay Rala Xanana Gusmão, dará as boas-vindas a Timor-Leste aos grupos que representam a Comunidade Portuguesa de Malaca (Malásia), os Burghers Portugueses de Batticaloa (Sri Lanka), os Bayingyis do Vale Mu (Mianmar), as Paróquias de Conceição, Sta. Cruz e Nossa Senhora do Rosário (Tailândia), Macau (China), Goa (Índia), os Tugu Mardijkers de Jacarta e os Larantuqueiros/Topasses da ilha das Flores (Indonésia). Esta conferência reunirá também académicos, investigadores, líderes culturais, artistas e dignitários do mundo lusófono para partilhar os resultados dos seus estudos e diversas experiências.

A APCC foi originalmente fundada em Malaca, na Malásia, em 2016, com o objetivo de reunir comunidades que mantêm a sua herança portuguesa e laços culturais em toda a região asiática. Timor-Leste foi representado pelo então Ministro do Planeamento e Investimento Estratégico, Xanana Gusmão, que participou como convidado de honra e aproveitou a oportunidade para desafiar os organizadores a considerarem a possibilidade de acolher uma futura edição do APCC em Díli.

O programa de três dias da 4.ª Conferência APCC inclui palestras, mesas redondas, exposições culturais, apresentações académicas e apresentações culinárias e culturais.

Um marco importante da conferência será a assinatura da Declaração de Dili, que formaliza a criação da Associação das Comunidades Portuguesas da Ásia (APCA), uma nova plataforma regional dedicada à cooperação cultural, preservação do património e partilha de conhecimento.

Este importante encontro de diversos grupos com uma história comum reafirma o compromisso de Timor-Leste, enquanto único país de língua portuguesa na Ásia, em preservar as ligações a um património cultural que pode fortalecer os laços entre as nações asiáticas e as nações de língua portuguesa.

A primeira Conferência da APCC, realizada em Malaca em 2016, teve como objetivo estreitar laços, promover a língua e a cultura portuguesas e incentivar a colaboração duradoura entre as comunidades de ascendência portuguesa na Ásia. Este evento marcante reuniu delegados de países como a Austrália, a China e Timor-Leste.

O programa completo da 4.ª Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APCC) pode ser consultado aqui. Governo de Timor-Leste


segunda-feira, 17 de março de 2025

Macau - Conselho das Comunidades Portuguesas e Fórum de Macau reúnem-se em Timor-Leste

Os conselheiros das comunidades portuguesas na Ásia e Oceânia reuniram-se neste dia 17 de Março, com membros do Secretariado Permanente do Fórum de Macau. O encontro decorreu no âmbito de uma visita oficial a Díli, a propósito da reunião presencial do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), a realizar-se nos dias 20 e 21 de Março de 2025.



O presidente do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do CCP, Rui Marcelo, e os Conselheiros das Comunidades Portuguesas do Círculo da China, Marília Coutinho e Luís Neves, mantiveram uma “audiência e apresentação de cumprimentos” de cerca de uma hora com o delegado de Timor-Leste junto do secretariado permanente do Fórum de Macau, António Ramos Silva, e o secretário-geral adjunto do secretariado permanente do Fórum de Macau, Danilo Afonso Henriques.

De acordo com uma nota de imprensa, o encontro “decorreu num ambiente cordial e amigável” e abordou “assuntos de interesse comum, com foco na promoção da língua e cultura portuguesas, através do reforço e cooperação no sector da educação, no intercâmbio na cooperação económica entre Macau e Timor-Leste e no fortalecimento da relação entre as comunidades portuguesas do Conselho Regional da Ásia e Oceânia”.

Para além da discussão destes tópicos, foi ainda divulgado o “intenso” programa de actividades a efectuar durante a estadia na capital de Timor-Leste, que inclui uma audiência com o presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, e a embaixadora de Portugal em Díli, Maria Manuela Freitas Barios.

No comunicado do CCP, lê-se que António Ramos Silva e Danilo Afonso Henriques “agradeceram a visita dos Conselheiros das Comunidades Portuguesas do Círculo da China e a partilha de informação relativa ao seu programa”, disponibilizando-se para “colaborar e apoiar as actividades do CCP” e a promover o “estreitamento de relações entre ambas as regiões”.

Para além do Círculo da China (Macau, Hong Kong, interior da China, Tóquio, Banguecoque, Seul e Singapura), o Conselho Regional da Ásia e Oceânia inclui os círculos de Timor-Leste e da Austrália. In “Ponto Final” - Macau


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Timor-Leste - Aero Dili começa ano com nova rota aérea que vai ligar a capital à China

A companhia aérea timorense Aero Dili inaugura na próxima sexta-feira a rota aérea de ligação da capital de Timor-Leste à cidade chinesa de Xiamen, disse Lourenço de Oliveira, diretor executivo daquela empresa privada



Em declarações à Lusa, na sede da empresa em Díli, Lourenço de Oliveira explicou que decidiu abrir a rota porque esta “representa um grande mercado”, tendo em conta os milhares de chineses que vivem no território timorense.

Mas, salientou, também porque quando começou há dois anos a voar para Bali, na Indonésia, e depois para Singapura, a comunidade chinesa lhe pediu para fazer uma rota direta. “O processo não foi fácil”, disse o empresário timorense, mas o dia 14 de fevereiro marca o início do voo para Xiamen, cidade da província de Fujian, no sul da China.

A ligação entre as duas cidades demora cerca de 05:20 horas e a viagem de ida e volta vai custar cerca de 1060 dólares.

Questionado pela Lusa sobre se a expansão da empresa inclui ligações aéreas para a Austrália, Lourenço de Oliveira disse que já está a “submeter os documentos”. “Se aprovarem, tenho planos para fazer a rota Díli/Darwin e Díli/Melbourne”, afirmou.

Lourenço de Oliveira disse também que o futuro da companhia é de sucesso, principalmente se Timor-Leste for admitido como membro pleno na Associação das Nações do Sudeste Asiático, processo que as autoridades esperam concluir ainda no decorrer deste ano.

Criada em 2023, a Aero Dili fez o seu voo inaugural para Denpasar, Bali, em março do mesmo ano, e atualmente voa todos os dias para a capital daquela ilha indonésia.

No ano passado iniciou a ligação a Singapura com um voo semanal e também tem várias ligações semanais a Oecussi, enclave timorense situado no lado indonésio da ilha.

O único apoio financeiro que a Aero Dili recebe do Governo timorense é uma compensação de 50.000 dólares mensais para voar para Oecussi. “Ainda assim, tenho de dar também um subsídio de 7500 dólares” para manter os preços dos bilhetes acessíveis, disse Lourenço de Oliveira.

Questionado pela Lusa sobre se já pediu um aumento da compensação ao Governo, Lourenço de Oliveira explicou que nunca pediu, mas salientou a rota para a Oecussi está a correr “muito bem”. “Mas de qualquer maneira é bom e tem um bom aeroporto, podia era ser em Díli. Se eu pudesse mudar o aeroporto”, disse, salientando que as obras no aeroporto internacional Nicolau Lobato são “muito importantes”, principalmente o aumento da pista, que é pequena.

O director executivo da Aero Dili explicou que fica com as operações condicionadas, porque não pode utilizar aviões maiores.

A Aero Dili tem dois aviões, o segundo tem chegada prevista em Março. “Estou a precisar de um outro avião para cumprir os critérios”, disse o empresário, salientando que para Singapura está prevista a realização de dois voos semanais e que aguarda a assinatura de um acordo aéreo entre Timor-Leste e a Tailândia para começar também a voar para aquele país.

O empresário timorense afirmou que decidiu formar a Aero Dili, porque passados mais de 20 anos o país não tinha uma empresa aérea de bandeira nacional, apesar de antes operar as ligações aéreas entre a capital timorense e Bali com voos ‘charter’. “Comecei a formar recursos humanos e agora já temos 22 aeromoças, três pilotos, mais três por causa da Airbus, que estão agora também a pilotar, e formei o pessoal do Governo na Aviação Civil, porque se não temos inspector, não podemos colaborar”, disse Lourenço de Oliveira. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”