Quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia são os primeiros bolseiros da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e independente. Após uma formação intensiva nos Países Baixos e encontros com instituições e redações de referência, os participantes assumem o compromisso de honrar o legado do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999
Nas duas primeiras semanas de
fevereiro deste ano, quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia,
selecionados entre cerca de uma centena de candidatos, integraram a primeira
edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países
Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e de interesse público,
perpetuando a memória do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999.
Uma das selecionadas, Antónia Kastono Martins, jornalista
e diretora do Diligente, em Timor-Leste, que destacou a importância da
experiência. “É uma experiência muito rica, onde aprendi coisas novas,
nomeadamente ferramentas e técnicas para melhorar o trabalho de investigação.
Isso é muito importante para mim e para o nosso órgão de comunicação social,
que pretende investir mais em reportagens investigativas”, afirmou.
Também Juan Robin, jornalista do Narasi, um conhecido
órgão de comunicação social da Indonésia, sublinhou que o programa reforçou o
seu sentido de responsabilidade perante o público. “Através da verificação de
factos e de uma investigação informativa rigorosa e abrangente, conseguimos
evitar a desinformação”, acrescentou.
A bolsa destacou igualmente a importância da ética e da
responsabilidade no contexto digital. Retyan Sekar, jornalista do Kumparan, na
Indonésia, salientou que ser jornalista na era digital exige uma postura
crítica perante as novas ferramentas.
“Ser um jornalista responsável na era digital não
significa apenas responsabilizar o poder, mas também utilizar a inovação
digital, como a Inteligência Artificial, com pensamento crítico e
responsabilidade ética”, partilhou.
“Para mim, esta bolsa de estudo é uma oportunidade para
aprimorar as minhas competências de verificação de factos e de pensamento
crítico, sempre que decidir produzir conteúdos para a minha plataforma”,
afirmou Ricardo Valente Araújo, fundador da Gen Z Talk Timor-Leste, que cria
conteúdos exclusivos dirigidos a jovens.
O legado de Sander Thoenes
Sander Thoenes foi um jornalista holandês que trabalhava
na Indonésia em 1999 para o Financial Times, jornal britânico de referência.
Após 98,5% dos timorenses terem votado pela independência
no referendo de 30 de agosto de 1999, foi destacado para cobrir a situação em
Timor-Leste no período pós-consulta popular.
Os dias que se seguiram ao referendo ficaram marcados
pelo medo e pela violência — um período conhecido como Setembro Negro.
Registaram-se assassinatos, incêndios generalizados e deportações forçadas para
a Indonésia. Sander Thoenes, então com apenas 30 anos, tornou-se uma das
vítimas dessa tragédia.
Enquanto muitos procuravam fugir do conflito, Sander
Thoenes, juntamente com outros jornalistas internacionais, deslocou-se para o
território. Estiveram em Díli antes do referendo, mas foram expulsos logo após
a votação devido à tensão que se seguiu. No entanto, com a entrada das forças
australianas, os jornalistas aproveitaram para regressar ao território.
Thoenes chegou a Díli a 21 de setembro de 1999. No mesmo
dia, pediu a um timorense que o conduzisse pela cidade, passando por Becora,
considerada uma das zonas mais perigosas por ser um centro de presença militar
indonésia. Apesar do alerta do condutor, decidiu avançar e acabou por ser morto
em Becora, Díli.
“Percebemos que também podem silenciar-nos”
Para Step Vaessen, jornalista da Al Jazeera e amiga de
Sander Thoenes, a sua morte representou um dia negro para o jornalismo.
“Foi um ponto de viragem para mim, porque percebi então
que, enquanto jornalistas, não somos intocáveis. Eu achava que estava apenas a
fazer o meu trabalho, a escrever uma história, e que não fazia parte da
história. Mas, de repente, percebemos que também podem silenciar-nos, até para
sempre”, confidenciou, recordando que também era jovem na altura.
Step Vaessen foi a primeira a propor a criação da bolsa,
considerando que muitas pessoas ainda desconheciam a história do colega. Para
si, a iniciativa pretende manter viva a memória de Sander Thoenes e dar
continuidade ao seu legado, formando novos jornalistas comprometidos.
“Temos agora quatro a quem quisemos dar esta
responsabilidade de continuar este trabalho. Há muito a discutir entre nós,
porque temos de nos esforçar nesta carreira.”
Inspirados pela coragem e pelo impacto
Para Antónia Martins, a bolsa reforçou a necessidade de
continuar a escrever com coragem, realizando investigações de forma cautelosa,
ética e sustentada nas ferramentas adquiridas durante a formação.
Juan Robin afirmou que o legado de Sander Thoenes é
claro: “produzir reportagens ousadas, impactantes e de grande relevância”. O
próprio jornalista venceu recentemente um prémio com um vídeo-reportagem que
expõe como a mineração de níquel na Indonésia é justificada em nome do bem
público e da transição verde, quando, na prática, serve para extrair riqueza
para elites, à custa da vida das populações, da saúde pública, do ambiente e da
própria democracia.
Também Retyan Sekar afirmou sentir-se inspirada pela
coragem de Sander Thoenes e motivada para se adaptar às mudanças no setor,
“mantendo-me fiel a um jornalismo baseado em factos, na empatia e no interesse
público”.
Ricardo
compromete-se também a continuar a procurar a verdade e a produzir conteúdos
escritos.
“Queremos mostrar às novas gerações de jornalistas o quão
importante é continuar a nossa profissão e manter-nos fiéis aos factos,
independentes, corajosos e firmes, tal como Sander Thoenes”, concluiu Step
Vaessen.
Formação nos Países Baixos e contacto com instituições
Esta foi a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma
iniciativa da Foreign Policy Community of Indonesia, em colaboração com a
Embaixada do Reino dos Países Baixos na Indonésia e a RNW Media.
Durante cinco dias, os bolseiros participaram num curso
sobre jornalismo ético, impactante e corajoso no Centro de Formação em Media da
RNTC, nos Países Baixos. Tiveram ainda oportunidade de visitar a Câmara Baixa
dos Estados Gerais, órgão legislativo neerlandês, e o Ministério dos Negócios
Estrangeiros, onde aprofundaram o conhecimento sobre o funcionamento do sistema
político do país.
Os jovens jornalistas visitaram igualmente a Associação
de Jornalistas Holandeses (NVJ) e reuniram-se com repórteres experientes na
área da investigação, nomeadamente dos meios independentes Investico e Follow
the Money.
O programa incluiu ainda visitas a órgãos de comunicação
social de referência nos Países Baixos, como a NOS, serviço público de
radiodifusão, e o de Volkskrant, jornal privado de circulação nacional e grande
influência.
A experiência foi enriquecida pelo encontro com a família
de Sander Thoenes, Peter e Eveline. Para Ricardo Araújo, este foi o momento
mais inspirador, ao ouvir a história e os valores do jornalista holandês. As
oportunidades de trocar ideias com jornalistas holandeses também lhe pareceram
interessantes.
Juan Robin, por sua vez, destacou o momento de
apresentação das ideias para futuros projetos com impacto público. “É
memorável, porque consegui aplicar diretamente o valor da coragem de Sander
Thoenes, algo que não pratico todos os dias”, partilhou. O jornalista espera
poder produzir mais conteúdos de impacto, apesar dos desafios que a imprensa
indonésia enfrenta atualmente.
O momento que mais inspirou Antónia Martins foi conhecer
a história de um média independente e privado, dedicado exclusivamente à
investigação. No início, não produzia notícias diárias, mas conseguiu
sobreviver e atualmente conta com dezenas de jornalistas, publicando um artigo
investigativo por dia. “O desafio deve ser enorme, mas mantiveram-se fiéis ao
modelo que escolheram e conquistaram a confiança do público que os apoia,
permitindo-lhes continuar a investigar e a escrever”, observou a jornalista.
Retyan Sekar também partilhou o seu
momento mais memorável, quando conheceu os jornalistas de Timor-Leste e a
família de Sander Thoenes. “Estamos ligados pela história, pela
responsabilidade e, felizmente, por valores partilhados. É incrível pensar que
este programa consegue reunir-nos, vindos de todos os cantos do mundo e de
diferentes gerações, por causa do legado de um jornalista. Aquele momento
fez-me perceber o quão poderoso pode ser o jornalismo na construção de ligações
humanas.” In “Diligente” – Timor-Leste
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