Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 9 de junho de 2026

Internacional - Universidade de Coimbra coordena descoberta de novas orquídeas africanas com sistema de polinização raro

Duas novas espécies de orquídeas descobertas na África Central estão a ajudar cientistas a compreender melhor como plantas tropicais interagem com os seus polinizadores e a revelar um tipo de polinização raramente observado na natureza. O estudo, coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra mostra, ainda, que estas espécies, agora identificadas, já se encontram ameaçadas de extinção.


As espécies, pertencentes ao género Rhipidoglossum, foram identificadas através de uma abordagem que combinou trabalho de campo, análise morfológica e dados de distribuição geográfica. Para além da descoberta, os investigadores conseguiram algo pouco comum: observar diretamente a interação com os seus polinizadores, neste caso mariposas noturnas, um comportamento raramente documentado.

Estas observações ajudam a confirmar que a forma das flores está intimamente adaptada aos insetos que as polinizam, revelando relações ecológicas altamente especializadas.

As novas espécies foram encontradas em regiões da África Central, incluindo áreas montanhosas e florestas tropicais, consideradas importantes centros de biodiversidade. No entanto, apresentam uma distribuição limitada e já foram classificadas como ameaçadas, sobretudo devido à destruição de habitat.

Para os investigadores, este trabalho demonstra que a biodiversidade tropical é não só mais rica do que se pensava, mas também mais complexa nas suas interações ecológicas. A falta de dados e a pressão sobre os ecossistemas tornam urgente continuar a estudar e proteger estas espécies antes que desapareçam.

"No grande quebra-cabeças que é a biodiversidade tropical, cada nova amostra ou registo pode representar uma peça ainda desconhecida pela ciência. Estes ecossistemas estão entre os mais ricos em biodiversidade do planeta, mas também entre os mais ameaçados e com maiores lacunas de informação. Estudos que combinem coleções biológicas, trabalho de campo e colaboração internacional são essenciais para compreender esta diversidade e apoiar estratégias de conservação antes que muitas destas espécies desapareçam", refere Arthur Macedo, doutorando do CFE.

Os investigadores registaram ainda interações entre grilos e flores de orquídeas, um fenómeno extremamente raro e pouco documentado em escala global. Esta observação representa uma descoberta inédita e sugere que estes insetos poderão desempenhar um papel ecológico mais relevante na polinização de algumas espécies tropicais do que se pensava anteriormente.

“A grande diversidade floral de Rhipidoglossum deixa adivinhar muitas interações desconhecidas. Quem sabe se os grilos não poderão ser os polinizadores principais de alguma espécie na flora da África Tropical?”, questiona João Farminhão, investigador do CFE e orientador principal. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Internacional - Estudo apresenta guia prático sobre como a inteligência artificial pode reforçar a proteção dos oceanos

Um estudo internacional em que participa Catarina Silva, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), apresenta, pela primeira vez, um guia prático para garantir que a inteligência artificial (IA) aplicada aos ecossistemas marinhos – desde câmaras instaladas em embarcações de pesca até modelos que preveem a saúde do oceano – seja clara, segura e válida.


A investigação, coordenada pelo centro AZTI – Marine and Food Research, publicada na revista Fish and Fisheries, defende que a IA não deve substituir, mas sim reforçar, a aptidão humana de tomar decisões informadas sobre o oceano.

Os investigadores propõem um enquadramento baseado em três pilares para tornar a IA marinha fiável, ética e cientificamente robusta, num contexto em que a sua adoção cresce rapidamente, mas a regulação permanece fragmentada a nível global.

«Estamos a assistir a um aumento massivo na utilização de algoritmos de IA que processam os vastos fluxos de dados marinhos - desde câmaras e sonares, a observações por satélite – mas estes algoritmos muitas vezes não correspondem às expectativas», explica José A. Fernandes, especialista em IA do AZTI e autor principal do estudo, acrescentando que «a questão-chave é: quanta confiança podemos depositar nos algoritmos de IA? Dado que a IA já é uma realidade para o setor das pescas e da investigação marinha, só será útil se for fiável. O nosso trabalho estabelece como garantir essa confiança, combinando ciência, ética e envolvimento do setor».

O estudo alerta para riscos associados ao uso de IA, como erros causados por dados enviesados, falta de validação ou ausência de transparência, que podem comprometer decisões com impacto nos ecossistemas marinhos, comunidades piscatórias e políticas públicas.

O primeiro pilar do enquadramento aborda a viabilidade socioeconómica e legal, defendendo uma IA acessível a todo o setor marinho, alinhada com a regulamentação europeia e desenvolvida com a participação direta das partes interessadas. O segundo pilar foca-se na governação ética dos dados, recomendando a aplicação dos princípios FAIR, CARE e TRUST para garantir qualidade, rastreabilidade, respeito pelas comunidades e preservação a longo prazo.

«Quando a IA é utilizada para orientar decisões que afetam ecossistemas marinhos e meios de subsistência, a acessibilidade, a transparência e a validação são essenciais», afirma Catarina Silva, coautora e investigadora do CFE/FCTUC. «O nosso enquadramento fornece orientações práticas para garantir que a IA reforça a evidência científica e a confiança em todo o setor marinho».

O terceiro pilar centra-se na robustez técnica e na validação científica, defendendo que os modelos de IA devem ser testados em condições reais, com dados independentes e comparações com medições no terreno, assegurando resultados fiáveis e úteis para a gestão.

O enquadramento traz benefícios para a investigação, para a gestão das pescas e para a sociedade, ao reforçar sistemas de apoio à decisão, promover a sustentabilidade, combater a pesca ilegal e apoiar uma economia azul responsável. Em Portugal, o guia pode apoiar a digitalização da economia azul, alinhando a inovação nacional com padrões internacionais de ‘IA de Confiança’.

«Regular a IA será um dos grandes desafios de governação da nossa vida», afirma Julian Lilkendey, biólogo das pescas no Leibniz Centre for Tropical Marine Research (ZMT), Alemanha, e autor sénior do estudo. «No oceano, onde dados e decisões moldam ecossistemas e sociedades, a IA deve servir como ponte entre o julgamento humano e a precisão das máquinas. Só alinhando governação ética, validação científica e inclusão social poderemos garantir que a IA reforça – e não substitui – a nossa capacidade de tomar decisões informadas sobre o mar». Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Portugal – Universidade de Coimbra integra projeto que visa transformar a forma com a natureza é compreendida, planeada e vivida nas cidades

O Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) lidera uma iniciativa pioneira que desafia perspetivas antropocêntricas tradicionais e propõe um novo paradigma onde a natureza é vista como agente ativo dos ecossistemas urbanos, integrando ciência, emoções, cultura e participação comunitária na construção de cidades mais resilientes, inclusivas e criativas.


O projeto RESIGNIFY, em parceria com a Universidade Aberta, pretende transformar a forma como a natureza é compreendida, planeada e vivida nas cidades.

«Nesta investigação procuramos reconhecer os significados atribuídos à natureza urbana através da sua compreensão e das ligações emocionais das populações aos elementos naturais, para a cocriação de soluções baseadas nos imaginários e narrativas das comunidades e para o desenvolvimento de modelos regenerativos que combinam investigação científica, vivências quotidianas, criatividade e experimentação prática», explica, Fátima Alves, investigadora responsável do projeto CFE/FCTUC e professora da Universidade Aberta.

Para alcançar estes objetivos, serão utilizadas metodologias inovadoras integrando revisão científica aprofundada, análise espacial suportada por mapeamento GIS (Sistema de Informação Geográfica), envolvimento comunitário através de inquéritos, grupos focais, workshops e atividades criativas, além da produção de um documentário que dará visibilidade às narrativas humanas e não humanas presentes na cidade.

O projeto inclui, ainda, a criação de um Curso Online Aberto Massivo (MOOC, sigla em inglês) internacional desenvolvido em colaboração com o LE@D – Laboratório de Educação a Distância e E-learning, da Universidade Aberta, dedicado ao planeamento regenerativo e ao envolvimento público em processos urbanos, coordenado pelas professoras Luísa Aires e Marta Abelha.

«Num contexto em que as cidades enfrentam desafios crescentes e cumulativos — como alterações climáticas, perda de biodiversidade, desigualdade no acesso à natureza e crescente afastamento emocional dos ecossistemas — o RESIGNIFY surge como uma resposta essencial», considera Diogo Guedes Vidal, investigador do CFE/FCTUC e professor da Universidade Aberta.

«Trata-se de uma investigação pioneira, que integra emoções e narrativas no planeamento urbano regenerativo, ampliando a participação pública, valorizando saberes culturais e locais, para o desenvolvimento de conhecimento que pode informar atuação dos municípios, ao nível arquitetónico, social e urbanístico, contribuindo para a saúde e o bem-estar das populações», destaca Rosário Rosa, investigadora do CFE/FCTUC e professora da Universidade Aberta.

De acordo com os investigadores, a produção do documentário e do MOOC reforça o impacto social do projeto, garantindo que o conhecimento gerado chega também a públicos não académicos e a profissionais em formação. «O RESIGNIFY tem também potencial para influenciar estratégias de planeamento do espaço público, Planos Diretores Municipais, políticas de infraestruturas verdes, projetos de regeneração urbana baseados na diversidade da natureza e novas práticas de participação cidadã centradas em imaginários e emoções», concluem.

O projeto, que decorre de 2025 a 2028, é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e conta com uma equipa multidisciplinar composta por investigadores do CFE/FCTUC e da sua Extensão na Universidade Aberta, do LE@D da Universidade Aberta, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP) e da Universidade Fernando Pessoa. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Brasil - Estudo revela que conhecimento local melhora a sustentabilidade das pescas interligadas

Uma nova investigação, que conta com a participação de Sérgio Timóteo, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), revela o valor do conhecimento local e da organização das comunidades na criação de estratégias de proteção para a pesca de pirarucu (Arapaima gigas).


O trabalho, publicado no Journal of Applied Ecology, explica como essas estratégias podem ser aplicadas a outros sistemas socioecológicos, utilizando redes espaciais e modelação de meta-população, dentro e fora da Amazónia.

De acordo com Sérgio Timóteo, na Bacia do rio Juruá, na Amazónia Ocidental brasileira, a cogestão do pirarucu - o maior peixe de água doce do mundo - tem atraído atenção para a sua conservação, uma vez que a proteção dos lagos de meandro levada a cabo pelos habitantes locais tem favorecido a recuperação desta espécie emblemática, que estava à beira da extinção, beneficiando a biodiversidade e o bem-estar das comunidades.

«Entre as várias possibilidades, a escolha dos lagos a proteger é feita por pescadores locais experientes, que se baseiam no conhecimento ecológico acumulado ao longo de gerações sobre as dinâmicas sazonais do rio e o comportamento dos peixes. Este conhecimento local é combinado com políticas regulatórias que definem quotas anuais de pesca para os lagos em cogestão, com o objetivo de garantir a sustentabilidade do sistema e prevenir a pesca ilegal», explica o especialista.

Embora as escolhas locais e as regulamentações governamentais tenham demonstrado ser eficazes, os habitantes locais querem saber se as suas decisões são as melhores, enquanto os gestores e governos procuram formas de expandir esta iniciativa por toda a Amazónia. No entanto, experiências empíricas em larga escala são desafiantes, especialmente em áreas remotas como o coração da Amazónia.

Para apoiar esta iniciativa, os autores desenvolveram seis cenários alternativos de cogestão da pesca na região, baseados em dados populacionais de pirarucu recolhidos entre 2011 e 2022 por pescadores locais em 13 lagos protegidos e 19 lagos não protegidos. A equipa construiu uma rede espacial na qual os 31 lagos estudados se ligam entre si dependendo da sua posição geográfica, estado de proteção e ecologia do pirarucu.

Este estudo foi utilizado para desenvolver um modelo populacional que considera o número de adultos de pirarucu em cada lago ao longo do tempo, o crescimento populacional e a capacidade de carga de cada lago. Os cenários alternativos propostos envolvem mudanças nos lagos protegidos com base em fatores como ligações entre lagos, área, posição geográfica, capacidade de carga ou sem critérios específicos. Os autores também modelaram diferentes níveis de pesca ilegal nos lagos não protegidos.

«Os resultados foram surpreendentes», afirma o coautor. «Embora uma estratégia baseada na capacidade de carga ofereça resultados mais eficientes, o esquema de cogestão existente apresentou um desempenho muito próximo. Isto realça a importância e a fiabilidade do conhecimento local dos pescadores, já que os lagos geridos pelas comunidades mantiveram populações elevadas de pirarucu e são importantes refúgios contra a sobre-exploração», sublinha.

«A dinâmica de meta-população e a taxa de crescimento do pirarucu nesta área garantem que os lagos protegidos funcionem como fonte de novos indivíduos para o ecossistema fluvial, moderando o declínio populacional dentro de determinados limites, dependendo de cada cenário», realça o investigador do CFE/FCTUC.

Para além do conhecimento sobre a região do Juruá e a Amazónia, este trabalho oferece um modelo transferível na avaliação de estratégias de cogestão de pescas em diferentes cenários sociais e ecológicos. Ele fornece um guia para integrar o conhecimento local e a modelação ecológica, promovendo a sustentabilidade em ecossistemas complexos em todo o mundo.

«Estes resultados reforçam o valor do conhecimento ecológico local na definição de planos de conservação espacial na Amazónia. Ao selecionar quais os lagos que devem ser protegidos ou geridos de forma sustentável, os pescadores locais realizam uma análise multidimensional que considera vários fatores, como a ecologia dos peixes, as condições ambientais do lago e os aspetos logísticos de acesso. Este processo representa a materialização de uma tecnologia social complexa, forjada ao longo de milénios de interações entre pessoas e a natureza», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 16 de setembro de 2025

Portugal - Estudo da Universidade de Coimbra conclui que atuar cedo sobre pequenas populações de acácias é essencial para travar o seu avanço

Um estudo liderado por Raquel Juan Ovejero, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e da Universidade de Vigo, concluiu que atuar mais cedo sobre as pequenas populações de acácias é essencial para travar o seu avanço.


A invasão por acácias tem consequências críticas para a estabilidade das florestas da faixa atlântica da Península Ibérica e, mesmo em níveis reduzidos de presença, o seu impacto é notável, tanto na vegetação como no solo. Estes resultados estão publicados na revista científica Neobiota.

O estudo foi realizado na Serra da Lousã, uma região com paisagem florestal fragmentada, onde coexistem plantações de pinheiros e outras coníferas introduzidas, florestas nativas de carvalhos e castanheiros, bem como matos mediterrânicos. Os investigadores analisaram de que forma a invasão da Acacia dealbata (acácia-mimosa) e da Acacia melanoxylon (acácia-negra) afeta a estrutura da vegetação, a qualidade do solo e da folhagem (em termos de teor de carbono e azoto), e as comunidades de colêmbolos - pequenos invertebrados do solo fundamentais para o ciclo de nutrientes e para a decomposição da matéria orgânica. Foram ainda estudados os efeitos em cascata que estas alterações podem provocar no funcionamento geral do ecossistema.

«À medida que aumenta a sua cobertura, diminui, de forma significativa a abundância de plantas herbáceas e a riqueza de espécies, o que se traduz numa perda clara de biodiversidade», explica a responsável do estudo. «Não só se detetou uma redução na relação carbono/azoto da folhagem e um aumento do carbono orgânico com a invasão das acácias -  alterações que modificam a disponibilidade de nutrientes e os processos de decomposição -, como também se registaram impactos na fauna», acrescenta a investigadora, destacando que os diferentes grupos funcionais de colêmbolos responderam de forma desigual às modificações no solo e na folhagem, evidenciando «alterações subtis, mas relevantes na dinâmica dos ecossistemas».

Esta investigação refere que as acácias australianas se tornaram, pouco a pouco, num dos principais problemas ambientais da região mediterrânica. A sua capacidade de fixar azoto, formar massas densas e substituir a vegetação autóctone altera profundamente a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas.

«Em Portugal, a situação é especialmente grave. É o país mediterrânico com maior número de espécies de acácias invasoras, favorecidas pelo abandono rural e pela fragmentação florestal», sublinha Raquel Juan. A Galiza acompanha esta tendência, sofrendo também uma expansão acelerada destas espécies. «Estes fatores aumentam a vulnerabilidade das florestas e matos, onde as acácias avançam rapidamente e provocam perdas de biodiversidade, alterações no solo e maiores dificuldades na gestão florestal», afirma.

Os especialistas concluíram que «as intervenções precoces são mais eficazes, menos dispendiosas e reduzem o risco de consequências ecológicas graves. No entanto, a gestão requer acompanhamento contínuo, dado que ambas as espécies possuem bancos de sementes persistentes e podem rebrotar após perturbações», alertam. Além disso, acrescentam que a restauração de habitats nativos surge como uma ferramenta fundamental para reforçar a estabilidade dos ecossistemas e prevenir novas invasões.

Na Galiza e em Portugal, as medidas para conter a expansão das acácias baseiam-se, geralmente, na eliminação manual ou mecânica de plântulas e pequenos núcleos, no descasque ou, quando tal não é viável, na injeção de herbicida em exemplares isolados, bem como no corte basal de manchas mais extensas. Neste último caso, é necessário aplicar tratamentos complementares, que podem incluir cortes repetidos antes de os rebentos atingirem cerca de um metro de altura, a aplicação de herbicida nos rebentos quando possível, ou o tratamento químico direto do cepo.

«Em todos os cenários é essencial garantir um acompanhamento contínuo, dado que tanto a Acacia dealbata, como a Acacia melanoxylon possuem bancos de sementes persistentes e apresentam elevada capacidade de rebrote após corte ou incêndio», termina a investigadora, salientando ainda que a restauração dos habitats nativos afetados é uma prática recomendável, uma vez que favorece a recuperação dos ecossistemas e contribui para reduzir o risco de reinvasão.

Este estudo foi realizado no âmbito do projeto-piloto MyForest, integrado do F4F -Forest For Future, um projeto regional que teve como objetivo a valorização da fileira florestal da região centro, financiado pela CCDRC. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Portugal - Estudo avalia risco de exceder limites de segurança de metais tóxicos e iodo pelo consumo de macroalgas e halófitas

Um grupo de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a Universidade de Aveiro, realizou, em Portugal, o levantamento dos níveis de metais tóxicos e iodo em macroalgas e plantas naturalmente adaptadas a biótopos salinos, conhecidas como halófitas.


Atualmente, as macroalgas e halófitas são reconhecidas como alimentos funcionais, representando uma fonte de nutrientes essenciais e compostos bioativos. O aumento do consumo destes produtos e o facto de serem ainda pouco estudados justificaram esta avaliação a nível nacional.

Os resultados mostram que o arsénio e o iodo são os dois elementos químicos que limitam o consumo, em segurança, de macroalgas, principalmente de macroalgas castanhas, que são as que as pessoas mais consomem. Por outro lado, as halófitas parecem ser uma boa alternativa se cultivadas em locais não contaminados.

Importa destacar que a Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classifica o arsénio como cancerígeno para o ser humano (Grupo I). A mesma organização reconhece, ainda, que a ingestão excessiva de iodo pode causar disfunção da glândula tiroide. O nível dos elementos químicos estudados está em curso em vários países europeus, em cumprimento de uma recomendação da Agência Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), de 2018, que visa garantir a segurança alimentar e promover o desenvolvimento sustentável e responsável do setor.

«Este trabalho teve como principais objetivos determinar em que medida a ingestão de cádmio, chumbo, mercúrio, arsénio e iodo presentes em macroalgas e halófitas excede os limites de segurança conhecidos. Para além disso, foi avaliado o potencial das várias espécies e dos locais de amostragem estudados como possíveis promotores da economia azul e da agricultura marinha em Portugal, considerando que a acumulação dos elementos químicos está relacionada com a localização geográfica em que as várias espécies crescem», elucida Elsa Teresa Rodrigues, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC.

Nesta investigação concluiu-se, ainda, que as zonas estuarinas não são apropriadas para desenvolver agricultura marinha, enquanto a costa rochosa portuguesa apresenta condições seguras para esse fim.

De acordo com a equipa de investigadores, a implementação da agricultura marinha, em Portugal, deve ser feita apenas em zonas restritas da costa, com qualidade ambiental comprovada. Os produtos alimentares comercializados devem apresentar elevada qualidade, ser vendidos a preços justos e garantir benefícios económicos e ambientais, nomeadamente pelo aproveitamento dos subprodutos para o desenvolvimento de outro tipo de indústrias.

«É fundamental a Comissão Europeia estabelecer limites máximos para arsénio e iodo em macroalgas destinadas ao consumo humano e a sua monitorização rigorosa deve ser assegurada pelas autoridades nacionais competentes», consideram os especialistas.

«Faz-se, ainda, o apelo à população para limitar o consumo de macroalgas castanhas, devido ao seu elevado teor de arsénio e iodo, dada a possibilidade de haver efeitos adversos para a saúde», concluem.

O artigo científico “Risks of exceeding health-based guidance values for toxic metals and metalloids through seaweed and halophyte consumption” está disponível aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 12 de junho de 2025

Investigadora da Universidade de Coimbra colabora em livro que destaca a urgência da conservação da flora única de São Tomé e Príncipe

Maria do Céu Madureira, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), colaborou no “Livro Vermelho das Espécies Endémicas de São Tomé e Príncipe”, resultado do projeto “Characterization of the threatened flora of São Tomé & Príncipe - Projecto Flora Ameaçada”, financiado pelo Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF).


Esta obra pioneira fornece a primeira visão geral do estado de conservação de 106 espécies de plantas (sub)endémicas, avaliadas de acordo com os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

«O livro mostra que duas espécies estão já extintas, enquanto doze se encontram criticamente em perigo, 53 em perigo, e 25 consideradas vulneráveis. A publicação evidencia a urgência da ação conservacionista, numa altura em que a biodiversidade das ilhas enfrenta ameaças crescentes, como a expansão agrícola, desflorestação e espécies invasoras», revela Maria do Céu Madureira.

De acordo com a especialista da FCTUC, a redescoberta de espécies raras como Balthasaria mannii e Psychotria exellii, não vistas há mais de meio século, bem como a identificação de pelo menos 17 espécies novas para a ciência – incluindo uma nova espécie dominante de Cleistanthus nas florestas secas do norte de São Tomé –, estão entre as descobertas mais marcantes.

O livro, ilustrado com gráficos e mapas de distribuição, destaca também os ecossistemas do arquipélago, apresenta as metodologias utilizadas e propõe diretrizes para a conservação. Identifica 21 áreas de elevada importância para a preservação da flora, muitas das quais fora da atual rede de Áreas Chave da Biodiversidade (KBA’s). Além disso, foram realizadas ações de conservação ex situ, com a plantação de espécimes ameaçados em viveiros locais, no Jardim Botânico de Bom Sucesso e em áreas florestais degradadas.

«Esta publicação sublinha a importância de reforçar o conhecimento científico local e a formação de técnicos e botânicos são-tomenses, reconhecendo a flora endémica como um património natural de valor incalculável para a resiliência dos ecossistemas face às alterações climáticas», conclui Maria do Céu Madureira.

O “Livro Vermelho das Espécies Endémicas de São Tomé e Príncipe” representa uma ferramenta científica vital para orientar decisões políticas, educativas e de conservação, sendo dirigido a autoridades governamentais, comunidades locais, setor privado e profissionais da conservação.

A obra pode ser descarregada de forma gratuita aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 10 de junho de 2025

Internacional - Estudo mostra benefícios de monitorizar gigantes dos oceanos para a conservação marinha

Uma equipa de cientistas internacionais acompanhou mais de 12 mil indivíduos de 110 espécies de megafauna marinha, durante 30 anos, identificando os locais mais críticos nos oceanos globais para reforçar os esforços de conservação marinha. A investigação, na qual participa a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), faz parte do projeto “MegaMove”, liderado pela Universidade Nacional da Austrália (ANU) e financiado pela Organização das Nações Unidas (ONU).


Este estudo envolve cerca de 400 cientistas de mais de 50 países e mostra onde pode ser implementada proteção específica para a conservação da megafauna marinha. André Afonso, Filipe Ceia, Jaime Ramos, José Xavier e Vítor Paiva, investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC, são cinco dos coautores desta investigação, publicada na revista Science.

Atualmente, as áreas marinhas protegidas cobrem apenas 8% dos oceanos do mundo, sendo que o Tratado das Nações Unidas para as Águas Internacionais visa aumentar essa proteção para 30%.

A investigação concluiu que os objetivos do atual Tratado – assinado por 115 países, mas ainda por ratificar – representam um passo na direção certa e serão fundamentais para apoiar a conservação. No entanto, estes objetivos são insuficientes para cobrir todas as zonas críticas utilizadas por espécies ameaçadas da megafauna marinha, sugerindo que são necessárias medidas adicionais para mitigar as ameaças.

A megafauna marinha inclui aves marinhas, tubarões ou baleias, que são normalmente predadores de topo com papéis essenciais nas cadeias alimentares marinhas, mas enfrentam ameaças crescentes resultantes do impacto ambiental humano. Segundo os autores, este estudo teve como objetivo identificar as áreas utilizadas pela megafauna marinha para comportamentos importantes como alimentação, descanso e migrações – áreas que só podem ser detetadas com base nos seus padrões de movimento rastreados.

«Descobrimos que as áreas utilizadas por estes animais se sobrepõem significativamente com ameaças como a pesca, o tráfego marítimo, o aumento da temperatura das águas e a poluição por plásticos. Por exemplo, a cagarra, uma ave marinha que se reproduz nos arquipélagos dos Açores, Madeira e Berlengas, migra anualmente até à costa sul do Brasil, África do Sul ou Moçambique, demonstrando uma capacidade extraordinária de explorar o ambiente marinho, estando, por isso, exposta a diversas ameaças em diferentes bacias oceânicas», revela Vítor Paiva, investigador do CFE.


«O mesmo ocorre com inúmeras espécies de tubarões, que percorrem milhares de quilómetros ao longo da sua vida e atravessam múltiplas áreas marinhas com regimes jurídicos distintos, dificultando a sua conservação devido à heterogeneidade das políticas de gestão e proteção desses recursos», declara André Afonso, investigador CFE.

«O objetivo de proteger 30% dos oceanos é visto como útil, mas insuficiente para salvaguardar todas as áreas importantes, o que significa que são necessárias estratégias adicionais de mitigação para aliviar pressões fora das zonas protegidas», consideram os especialistas. A investigação está também ligada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, nomeadamente o Objetivo 14 sobre a vida marinha, e especificamente ao Objetivo A da Estrutura Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, que visa travar a extinção provocada pelo ser humano de espécies ameaçadas.

«O MegaMove reúne uma rede internacional de investigadores para fornecer investigação inovadora que promova a conservação global da megafauna marinha e seus habitats. A nossa investigação mostra que, para além das áreas protegidas, a implementação de estratégias de mitigação, como a alteração de artes de pesca, a utilização de diferentes luzes nas redes e esquemas de tráfego para navios, será fundamental para aliviar a pressão humana atual sobre estas espécies», afirmam.

De acordo com os investigadores, foram identificadas 30% das principais zonas para a proteger, classificando-as com base na sua utilização pelas espécies de megafauna marinha. «A nossa análise identifica quais as zonas do oceano global que estas espécies utilizam como áreas de residência ou corredores migratórios. Demos prioridade às zonas utilizadas para estes comportamentos importantes por um maior número de espécies», declaram.

«No entanto, em última análise, mesmo que os 30% de proteção fossem implementados nas zonas-chave utilizadas pela megafauna marinha, não seriam suficientes para as conservar», concluem. Universidade de Coimbra - Portugal

 



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Portugal - Investigadores desenvolvem produtos naturais à base de algas com potencial contra o SARS-CoV-2

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a Faculdade de Farmácia da UC (FFUC), está a desenvolver vários produtos naturais à base de macroalgas com potencial contra o vírus SARS-CoV-2. 

O projeto AlgaMar4antivirus nasceu no contexto da pandemia provocada pela Covid-19 para dar resposta às necessidades urgentes de soluções antivirais eficazes. Esta investigação centra-se no desenvolvimento de novos produtos naturais baseados em macroalgas, explorando os seus compostos bioativos com propriedades antivirais. 

«Focado na luta contra o SARS-CoV-2, o AlgaMar4antivirus pretende desenvolver um composto natural que poderá ser utilizado tanto na prevenção como no tratamento deste vírus. Já identificámos as macroalgas da costa portuguesa – verdes, vermelhas e castanhas – que demonstraram resultados promissores, tendo sido sempre privilegiado o cultivo em aquacultura para garantir a sustentabilidade dos recursos marinhos e a obtenção de biomassa suficiente para a extração dos compostos bioativos», revela Ana Marta Gonçalves, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) do Departamento de Ciências da Vida e líder do projeto. 

Os ensaios, realizados em colaboração com a FFUC, têm demonstrado a eficácia antiviral de vários compostos extraídos. «Estas descobertas representam um importante avanço no desenvolvimento de soluções farmacêuticas naturais, que podem futuramente ser aplicadas a outros vírus além do SARS-CoV-2», refere a especialista. 

A equipa vai continuar os ensaios laboratoriais para validar a eficácia e segurança dos compostos desenvolvidos e concluir o produto farmacêutico de forma a introduzi-lo no mercado. No futuro, os investigadores pretendem expandir a investigação para avaliar o potencial destes compostos contra outros vírus. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Portugal - Estudo mostra que dispersores de sementes ajudam plantas a subir às montanhas para escapar das alterações climáticas

Um estudo liderado por Sara Mendes e Rúben Heleno, investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que os dispersores de sementes ajudam as plantas a subir às montanhas para escapar das alterações climáticas.


 

Esta investigação, publicada na revista New Phytologist, documentou todas as espécies de animais que dispersam cada espécie de planta ao longo dos cinco pisos de vegetação altitudinais da ilha de Tenerife, nas Canárias. Esta ilha é o ponto mais alto do Oceano Atlântico, atingindo os 3718 metros acima do nível do mar, e a sua vegetação está estruturada verticalmente, o que a torna o local ideal para explorar como as espécies respondem às alterações climáticas em ecossistemas montanhosos. 

«Durante dois anos, subimos e descemos a serra, culminando numa das redes de dispersão de sementes mais completas já compiladas a nível mundial. Os resultados que obtivemos indicam que os dispersores de sementes conectam os diferentes pisos de vegetação, comendo frutos e dispersando sementes viáveis ao longo de "corredores" que vão da praia ao cume da montanha. Desta forma, permitem que as próximas gerações de plantas consigam germinar e crescer em altitudes mais elevadas, escapando às duras alterações climáticas nas zonas mais baixas (seca e calor)», revela Sara Mendes, primeira autora do estudo. 

De acordo com os autores, um dos resultados mais importantes e inesperado foi terem encontrado sementes de onze espécies de plantas a ser dispersadas pelos animais (nos seus excrementos) para altitudes superiores àquelas onde as plantas adultas atualmente existem.  «Estas sementes mostram que os animais conseguem ajudar as plantas a subir a montanha a uma velocidade suficiente para que estas consigam acompanhar as alterações climáticas», afirmam. 

Contudo, alertam os especialistas, «o estudo revelou um resultado preocupante: mais de metade dessas plantas que os animais estão a ajudar são espécies exóticas, que podem tirar vantagem desta boleia, representando uma potencial ameaça para os ecossistemas nativos».

Esta investigação frisa a importância de proteger as espécies de animais que dispersam sementes, não apenas pelo seu valor intrínseco, mas também pelo serviço que prestam para a sobrevivência das plantas nas montanhas num clima em mudança. No entanto, evidencia ainda a necessidade urgente de controlar a propagação de espécies exóticas. 

«Proteger os dispersores de sementes e investir em estratégias de conservação para mitigar a invasão de espécies exóticas são passos cruciais para salvaguardar a integridade dos ecossistemas montanhosos», concluem. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Portugal - Investigadores exploram células do tamarilho com potencial para produção de substâncias ativas

Um grupo de investigadores do Laboratório de Biotecnologia Vegetal do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) tem vindo a explorar, ao longo dos últimos anos, linhas celulares de plantas solanáceas, nomeadamente o tamarilho, com o objetivo de induzir a produção de moléculas ativas em cultura in vitro com potencial para aplicação em diferentes setores.

O projeto PlantReact, um dos vencedores dos Prémios Semente da Universidade de Coimbra, centrou-se na produção de enzimas hidrolíticas, moléculas com a capacidade de decompor outras moléculas em frações mais simples. 

«Estas enzimas têm um amplo leque de aplicações, incluindo nos setores industrial, farmacêutico e na luta contra fungos e bactérias, devido às suas propriedades de resposta a reações de stress. A obtenção de fontes sustentáveis para a produção destas enzimas é de grande relevância», considera Sandra Correia, investigadora do CFE e diretora do Departamento de Proteção de Culturas Específicas no Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect. 

Até ao momento, os resultados alcançados mostram que os produtos obtidos se enquadram na classe de compostos ativos com potencial para reduzir o impacto de fungos em determinadas culturas agrícolas, embora seja necessário mais financiamento para realizar testes adicionais e validar esta aplicação.

Segundo a especialista, no decorrer da investigação, foi possível realizar análises proteómicas detalhadas e compreender em que condições estas proteínas são produzidas, assim como identificar fatores que estimulam a sua produção. Além disso, foram conduzidos ensaios de atividade enzimática em condições in vitro, marcando um avanço significativo na exploração do potencial destas células vegetais. Foi ainda possível aumentar a escala de produção desses compostos através de crescimentos celulares em bioreatores. 

«A agricultura celular, apesar de ser uma área emergente, mostra um enorme potencial para a produção de compostos ativos de forma controlada, segura e sustentável. As células vegetais destacam-se por possuírem características únicas que permitem produzir compostos de interesse industrial e alimentar, sem a necessidade de explorar recursos naturais de forma intensiva», revela a especialista, sublinhando que «este método possibilita controlar e até aumentar a produção de forma rigorosa». 

De acordo com o grupo de investigação, o tamarilho revelou-se uma espécie particularmente adequada para esta investigação, dada a facilidade de indução de linhas celulares a partir de uma simples folha, transformando-a numa massa de células pluripotentes com um potencial metabólico variado. Estas células podem, assim, ser estimuladas a produzir diferentes compostos de interesse.

«O projeto PlantReact posiciona-se, assim, como um avanço promissor no desenvolvimento de soluções sustentáveis para a produção de moléculas ativas de alto valor, contribuindo para a inovação na agricultura celular e na biotecnologia vegetal», conclui. 

O projeto PlantReact, financiado pelo Banco Santander, contou com a colaboração entre o CFE, o Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), o Centro de Apoio Tecnológico Agro-Alimentar (CATAA) e a Universidade de Antioquia, na Colômbia. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Europa - Estudo da Science revela crise preocupante de dispersão de sementes

Um estudo, liderado por investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e publicado na prestigiada revista Science, revela que a Europa está a atravessar uma preocupante crise de dispersão de sementes.


Os resultados desta investigação mostram que um terço das 398 espécies de animais que dispersam sementes ou está já ameaçado de extinção ou as suas populações estão em declínio e poderão vir a enfrentar risco de extinção num futuro próximo. Por outro lado, pelo menos 190 espécies de plantas selvagens na Europa têm a maioria dos seus dispersores conhecidos ameaçados ou em declínio.

«Este estudo demonstra claramente que existe uma crise de dispersão de sementes em todos os biomas europeus. Por outro lado, evidencia ainda que apenas conhecemos os dispersores de 26% das espécies de plantas que produzem frutos carnudos da Europa, pelo que é urgente conhecer melhor quais os animais que podem ajudar as plantas selvagens a escapar das rápidas alterações climáticas e da desertificação, principalmente no Sul da Europa», alerta Sara Mendes, investigadora do CFE e primeira autora do estudo. 

Por sua vez, Rúben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC e coautor deste estudo, considera que «é necessário investira mais na investigação e na conservação do serviço de dispersão de sementes na Europa e no mundo, já que este serviço é fundamental para garantir um funcionamento sustentável e a resiliência das florestas.

As plantas não se movem e por isso dependem dos serviços dos animais que se alimentam dos seus frutos para levar as suas sementes para novos locais onde possam crescer. Proteger os animais selvagens que prestam este serviço, beneficiará não só os próprios animais, como também as plantas e todo o ecossistema, do qual depende em última análise a economia e a nossa própria qualidade de vida», nota o também investigador do CFE.

«Este serviço é essencial para recuperar áreas perturbadas, por exemplo por incêndios florestais, cheias ou atividades humanas, especialmente em paisagens muito fragmentadas por vias de comunicação, cidades e vilas, como as que dominam a Europa. Além disso, no atual cenário de alterações climáticas, os animais que se alimentam de frutos são essenciais para ajudar as plantas a acompanhar as alterações do clima, mudando-se para locais com condições mais favoráveis», concluem os especialistas.

A investigação reuniu informação de cerca de dois mil artigos, publicados entre 1660 e 2023, em 27 línguas e de 38 países, para identificar quais os animais que prestam este serviço de dispersão de sementes na Europa e qual o seu estado de conservação. A compilação desta informação demorou mais de três anos e resultou na maior rede de dispersão de sementes do mundo, e a primeira a reunir informação de um continente inteiro. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Internacional - Estudo da Nature mostra que plantas em zonas secas adotam estratégias de adaptação diferentes

Um estudo internacional em que participam Alexandra Rodríguez, Helena Castro e Jorge Durán, investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), mostra que as plantas em zonas secas adotam muitas estratégias de adaptação diferentes e que, surpreendentemente, essa diversidade aumenta com os níveis de aridez.


Acabado de publicar na prestigiada Nature, este estudo envolveu 120 cientistas de 27 países com o objetivo de entender como as plantas encontradas em terras áridas se adaptaram a esses habitats extremos. Durante oito anos, os cientistas recolheram amostras de várias centenas de parcelas de terras áridas selecionadas em seis continentes.

De acordo com Helena Castro «o isolamento dessas plantas em zonas mais áridas parece ter reduzido a competição entre as espécies, permitindo que elas expressem uma diversidade de formas e funções que é globalmente única, exibindo o dobro da diversidade encontrada em zonas mais temperadas».

«Este estudo lança uma nova luz sobre a nossa compreensão da arquitetura vegetal, adaptação vegetal a habitats extremos, colonização histórica de plantas em ambientes terrestres e a capacidade das plantas de responder às mudanças globais atuais», considera a Alexandra Rodríguez.  

Os cientistas recolheram e processaram amostras de 301 espécies de plantas encontradas em 326 parcelas representativas de todos os continentes (exceto a Antártida) para caracterizar a diversidade funcional das zonas, gerando um total de 1347 conjuntos completos de observações de características para análise.

Inicialmente, pensava-se que a aridez reduziria a diversidade de plantas por meio de seleção, deixando apenas as espécies capazes de tolerar extrema escassez de água e stress por calor. No entanto, os especialistas descobriram que nas zonas mais secas do planeta as plantas exibem uma ampla gama de estratégias de adaptação.

«Por exemplo, algumas plantas desenvolveram altos níveis de cálcio, fortalecendo as paredes celulares como proteção contra a dessecação. Outras contêm altas concentrações de sal, reduzindo a transpiração. Embora sejam observadas menos espécies em escala local comparativamente a outras regiões do planeta, as plantas em zonas áridas exibem uma extraordinária diversidade de formas, tamanhos e funcionamento», garante Jorge Durán.

Esse aumento na diversidade de características ocorre abruptamente no ponto em que a quantidade de chuva diminui do limite anual de 400 mm. Este é também o limite para um declínio pronunciado na cobertura vegetal e o surgimento de grandes áreas de solo descoberto. Para explicar esse fenómeno, os autores do estudo sugerem que a perda da cobertura vegetal leva à síndrome da solidão vegetal, na qual o aumento do isolamento e a redução da competição por recursos produzem altos graus de singularidade de características e diversidade funcional que são globalmente excecionais.

«Este estudo revela a importância das terras secas como um reservatório global de diversidade funcional das plantas, fornecendo uma nova lente através da qual podemos ver a arquitetura vegetal, a adaptação das plantas a habitats extremos, a colonização histórica de plantas em ambientes terrestres e a capacidade das plantas de responder às mudanças globais atuais», concluem os especialistas. Universidade de Coimbra - Portugal




quinta-feira, 2 de maio de 2024

Portugal - Universidade de Coimbra promove iniciativa dedicada ao Dia Marítimo Europeu em Quiaios

O Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai promover no próximo dia 9 de maio, entre as 10h e as 12h, uma iniciativa dedicada ao Dia Marítimo Europeu, na praia de Quiaios, Figueira da Foz.


Durante a iniciativa os participantes terão a oportunidade de desenvolver uma atividade de ciência cidadã, no âmbito do projeto Viajantes do Oceano, que pretende determinar a presença de espécies marinhas que possam colonizar objetos de plástico perdidos nas praias.

Os eventos de celebração do "European Maritime Day in my country - 2024 (EMD2024)” têm como objetivo sensibilizar e envolver a comunidade para a importância dos oceanos, em particular, os jovens. Pretende-se ainda que as pessoas tomem consciência de que as atividades no mar, como por exemplo, turismo costeiro, pesca, vela, navegação, energia renovável offshore, aquacultura, entre outras, são fundamentais para os cidadãos e economias da União Europeia.

A participação no evento é gratuita, voluntária e a inscrição é obrigatória (com certificado de participação). O registo pode ser feito através desta ligação: EMD 2024. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 22 de abril de 2024

Internacional - Estudo revela subestimação dos valores de dependência dos polinizadores na agricultura e destaca a sua importância

Um estudo internacional conduzido por investigadores da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em parceria com a Universidade Federal de Goiás, Brasil, revelou que mais de 74% das culturas polinizadas por animais dependem fortemente dos polinizadores, contribuindo com mais de 40% da sua produção agrícola. A investigação revela ainda que as metodologias atuais de determinação da dependência dos polinizadores tendem a subestimar a sua importância na produção agrícola.


O artigo científico, publicado na revista científica Journal of Applied Ecology, conta com a participação de Catarina Siopa, Sílvia Castro, João Loureiro e Helena Castro, investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da FCTUC. A equipa contou também com a importante colaboração de Luísa Gigante Carvalheiro, investigadora da Universidade Federal de Goiás.

O objetivo principal desta investigação foi «atualizar e avaliar os valores de dependência dos polinizadores em culturas agrícolas a nível global», revela Catarina Siopa, aluna de doutoramento na FCTUC e primeira autora do estudo. Estes valores são «cruciais para compreender e quantificar a contribuição dos polinizadores na produção agrícola e são utilizados para orientar políticas e práticas de gestão visando uma produção sustentável de alimentos», assegura a investigadora.

No entanto, de acordo com este estudo, as compilações destes valores ao nível global encontram-se desatualizadas e não contemplam a variabilidade entre culturas relacionadas, nem a limitação de pólen, isto é, a produção que se perde devido à baixa quantidade e/ou qualidade de pólen depositado pelos polinizadores.

A investigação baseou-se numa análise de dados publicados em 2023, resultantes de uma revisão sistemática da literatura conduzida por Catarina Siopa, que compilou estudos sobre experiências de polinização. Este estudo, inclui também uma lista de 141 culturas agrícolas e os seus valores de dependência, considerando pela primeira vez a variedade agrícola. A lista está disponível aqui e será atualizada regularmente pela equipa.

A autora sublinha ainda que estes resultados «constituem uma ferramenta importante para produtores e agricultores na tomada de decisões, uma vez que podem definir as culturas e, dentro destas, as variedades a plantar conforme as necessidades de polinização e as características do local».

O artigo destaca também a importância de considerar a limitação de pólen ao avaliar a dependência dos polinizadores das culturas. «As metodologias tradicionais podem levar a uma subestimação significativa, o que pode ter implicações sérias para as políticas de gestão agrícola e conservação dos polinizadores», elucida a investigadora.

Este trabalho representa «um passo importante para compreender melhor a contribuição dos polinizadores para a segurança alimentar e para desenvolver práticas agrícolas sustentáveis», concluiu. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 8 de abril de 2024

Europa - Universidade de Coimbra lidera projeto que visa rever e melhorar coleções de referência de polinizadores em Portugal

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) é líder do projeto europeu “Aligning Reference Collections with tAxonomic Development Efforts for pollinator conservation in Portugal - ARCADE”, destinado a rever e a melhorar as coleções dos principais grupos de polinizadores em Portugal.


Sob a coordenação da docente e investigadora Sílvia Castro, e com o envolvimento dos investigadores Hugo Gaspar, Cristina Rufino, Ana Afonso e João Loureiro, do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e do Departamento de Ciências da Vida (DCV), o projeto tem como objetivo indexar, rever e melhorar as principais coleções de referência de abelhas, moscas-das-flores e borboletas diurnas, em todo o país.

Atualmente, a informação sobre os insetos polinizadores em Portugal é limitada, e as maiores coleções públicas necessitam de ser indexadas e organizadas de forma a identificar lacunas no conhecimento sobre os principais insetos polinizadores. Portanto, o projeto ARCADE visa resolver este problema, «proporcionando uma base sólida de referência para futuras iniciativas relacionadas com a taxonomia, conservação e monitorização de polinizadores em território nacional», esclarece a coordenadora do projeto, Sílvia Castro.

O ARCADE integra um projeto europeu maior, o “TETTRIs”, e conta com três grandes metas que incluem a criação de uma base de dados acessível e atualizada a partir de diversas subcoleções de polinizadores em Portugal, a revisão e melhoria de três coleções públicas portuguesas para servirem como referência em projetos futuros, e o desenvolvimento de protocolos de boas práticas para a organização e preservação das coleções existentes e futuras.

Hugo Gaspar, aluno de doutoramento da FCTUC, focado no estudo da taxonomia e distribuição das abelhas de Portugal continental, salienta que «é importante destacar que as três coleções a serem revistas e organizadas estão no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa e no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto».

O jovem investigador acredita que o ARCADE «será essencial para a realização dos objetivos de projetos já em execução, como é o caso do PolinizAÇÃO, também coordenado pela UC, e para a rede polli.NET, na qual está inserido». Hugo Gaspar destaca ainda que este novo projeto «representa um avanço significativo no conhecimento sobre a taxonomia e distribuição dos polinizadores em Portugal, fornecendo acesso a coleções de referência de elevada qualidade e padronizadas em todo o país».

Para além do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa e do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, o projeto ARCADE reúne também o FLOWer Lab do CFE/FCTUC, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Centro de Conservação das Borboletas de Portugal (TAGIS), a Universidade dos Açores e a Universidade da Madeira, num trabalho colaborativo em prol dos polinizadores.

Para mais informações sobre o projeto ARCADE consultar aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 21 de março de 2024

Europa - Cientistas da Universidade de Coimbra avaliam impacto da utilização de pesticidas em vinhas da Bairrada

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai monitorizar e avaliar o impacto da utilização de produtos fitofarmacêuticos na biodiversidade das vinhas da Bairrada.


O projeto “Syberac - Mitigating the impacts of Chemicsls on Biodiversity”, que vai decorrer nos próximos quatro anos, recebeu um financiamento global de cerca de 5 milhões de euros, por parte da Comissão Europeia (Programa Horizonte Europa).

«Este projeto pretende contribuir para uma avaliação de risco dos produtos fitofarmacêuticos de forma holística, ao contrário da avaliação que é feita atualmente, produto a produto. Vamos olhar para a utilização destes compostos de uma forma integrada, em contextos específicos, tendo em conta outros fatores que podem alterar o seu impacto», explica José Paulo Sousa, docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) e investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE).

Neste sentido, continua o coordenador do projeto na UC, «a ideia é tentar perceber qual o efeito da composição e estrutura da paisagem e das práticas agrícolas ao nível do risco que os pesticidas têm na fauna auxiliar, que são os agentes que fazem o controlo biológico das pragas, e na fauna de solo, que é importante em termos da saúde do solo».

Portanto, para compreender qual o nível de exposição dos organismos aos pesticidas e até que ponto pode haver efeito dessa exposição em diferentes contextos de paisagem, os investigadores da FCTUC vão monitorizar a fauna auxiliar e de solo, assim como recolher amostras de solo e de vegetação, dentro e fora das vinhas.

«Acreditamos que o que for desenvolvido ao longo deste projeto pode auxiliar não só no cumprimento das metas traçadas por diferentes regulamentações europeias, mas também no desenvolvimento de novas abordagens para a avaliação de risco de pesticidas a nível europeu. Pretendemos ainda contribuir para um aumento da adoção de práticas de gestão ambientalmente sustentáveis no setor vitivinícola», conclui.

O projeto Syberac é coordenado pela Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, e conta com a participação total de 12 instituições de vários países da Europa. Em Portugal, a UC conta com a colaboração de atores locais, como por exemplo as Caves Aliança, a Vadio Wines Unipessoal, Lda. e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I. P. (CCDR Centro, I. P.). Universidade de Coimbra - Portugal