Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Internacional - Estudo apresenta guia prático sobre como a inteligência artificial pode reforçar a proteção dos oceanos

Um estudo internacional em que participa Catarina Silva, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), apresenta, pela primeira vez, um guia prático para garantir que a inteligência artificial (IA) aplicada aos ecossistemas marinhos – desde câmaras instaladas em embarcações de pesca até modelos que preveem a saúde do oceano – seja clara, segura e válida.


A investigação, coordenada pelo centro AZTI – Marine and Food Research, publicada na revista Fish and Fisheries, defende que a IA não deve substituir, mas sim reforçar, a aptidão humana de tomar decisões informadas sobre o oceano.

Os investigadores propõem um enquadramento baseado em três pilares para tornar a IA marinha fiável, ética e cientificamente robusta, num contexto em que a sua adoção cresce rapidamente, mas a regulação permanece fragmentada a nível global.

«Estamos a assistir a um aumento massivo na utilização de algoritmos de IA que processam os vastos fluxos de dados marinhos - desde câmaras e sonares, a observações por satélite – mas estes algoritmos muitas vezes não correspondem às expectativas», explica José A. Fernandes, especialista em IA do AZTI e autor principal do estudo, acrescentando que «a questão-chave é: quanta confiança podemos depositar nos algoritmos de IA? Dado que a IA já é uma realidade para o setor das pescas e da investigação marinha, só será útil se for fiável. O nosso trabalho estabelece como garantir essa confiança, combinando ciência, ética e envolvimento do setor».

O estudo alerta para riscos associados ao uso de IA, como erros causados por dados enviesados, falta de validação ou ausência de transparência, que podem comprometer decisões com impacto nos ecossistemas marinhos, comunidades piscatórias e políticas públicas.

O primeiro pilar do enquadramento aborda a viabilidade socioeconómica e legal, defendendo uma IA acessível a todo o setor marinho, alinhada com a regulamentação europeia e desenvolvida com a participação direta das partes interessadas. O segundo pilar foca-se na governação ética dos dados, recomendando a aplicação dos princípios FAIR, CARE e TRUST para garantir qualidade, rastreabilidade, respeito pelas comunidades e preservação a longo prazo.

«Quando a IA é utilizada para orientar decisões que afetam ecossistemas marinhos e meios de subsistência, a acessibilidade, a transparência e a validação são essenciais», afirma Catarina Silva, coautora e investigadora do CFE/FCTUC. «O nosso enquadramento fornece orientações práticas para garantir que a IA reforça a evidência científica e a confiança em todo o setor marinho».

O terceiro pilar centra-se na robustez técnica e na validação científica, defendendo que os modelos de IA devem ser testados em condições reais, com dados independentes e comparações com medições no terreno, assegurando resultados fiáveis e úteis para a gestão.

O enquadramento traz benefícios para a investigação, para a gestão das pescas e para a sociedade, ao reforçar sistemas de apoio à decisão, promover a sustentabilidade, combater a pesca ilegal e apoiar uma economia azul responsável. Em Portugal, o guia pode apoiar a digitalização da economia azul, alinhando a inovação nacional com padrões internacionais de ‘IA de Confiança’.

«Regular a IA será um dos grandes desafios de governação da nossa vida», afirma Julian Lilkendey, biólogo das pescas no Leibniz Centre for Tropical Marine Research (ZMT), Alemanha, e autor sénior do estudo. «No oceano, onde dados e decisões moldam ecossistemas e sociedades, a IA deve servir como ponte entre o julgamento humano e a precisão das máquinas. Só alinhando governação ética, validação científica e inclusão social poderemos garantir que a IA reforça – e não substitui – a nossa capacidade de tomar decisões informadas sobre o mar». Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Internacional – Projeto para reduzir a captura acidental de megafauna marinha integra a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) integra um projeto internacional que tem como principal objetivo reduzir a captura acidental de megafauna marinha. O “REDUCE - Reducing bycatch of threatened megafauna in the east central Atlantic” acaba de ser financiado pelo programa Horizonte Europa com aproximadamente 9 milhões de euros.


O consórcio do projeto é liderado pela Universidade de Barcelona e o pacote de trabalhos relacionado com a temática “Bycatch monitoring” é coordenado por Catarina Silva, investigadora do Departamento de Ciências da Vida (DCV). Fazem ainda parte da equipa da FCTUC Zara Teixeira e Filipe Martinho, também investigadores do DCV.

A captura acidental pode representar até 40% do total das capturas de pesca, atingindo globalmente até 38 milhões de toneladas descartadas por ano, perturbando a cadeia alimentar oceânica e podendo representar uma ameaça à sobrevivência de espécies já sob pressão de várias outras atividades humanas. Atualmente, já são vários os regulamentos nacionais, europeus e internacionais que partilham um objetivo, que também consta da Estratégia de Biodiversidade da União Europeia (UE): tornar a pesca compatível com medidas de proteção ambiental para conservar espécies marinhas ameaçadas.

«O REDUCE vai apostar no desenvolvimento e teste de novas tecnologias e estratégias de gestão para uma melhor avaliação, monitorização e redução das capturas acessórias de aves, tartarugas, cetáceos, tubarões e raias na frota europeia de pesca de longa distância composta por arrastões, cercadores e palangreiros que operam nas águas do Oceano Atlântico, desde as costas da Península Ibérica até à Macaronésia e Golfo da Guiné».

Assim, este projeto «pretende melhorar os programas de monitorização das pescas, incorporando a monitorização eletrónica, promover a compreensão das capturas acessórias e dos seus impactos nas dimensões científica, económica e social, e avaliar potenciais medidas de mitigação. O “Bycatch monitoring” irá melhorar os programas tradicionais de observação e monitorização de capturas acessórias a bordo e combiná-los com a implementação de novos sistemas modernos de monitorização eletrónica (EMS – “Electronic monitoring systems”) a bordo, permitindo um teste rigoroso da sua função e eficácia», revela a investigadora do DCV.


Os EMS são cada vez mais utilizados para aumentar a cobertura dos observadores, potencialmente até 100%, mas continuam a ser limitados à pesca de palangre e arrasto da UE que atuam na região ECAO. Uma barreira para uma maior utilização dos EMS são os recursos e o esforço significativos para recolher dados.

«Este pacote de trabalhos promoverá a instalação e o teste de EMS na frota de palangre e de arrasto e o desenvolvimento de modelos inteligentes de identificação automática de espécies através de imagens (modelos de Machine Learning) que aumentarão drasticamente a eficiência da recuperação de dados de EMS baseados em câmaras», termina.

O consórcio do projeto é composto por 13 parceiros de países como Espanha, França, Portugal, Reino Unido e Senegal. Universidade de Coimbra - Portugal