Dos descendentes de Camilo Pessanha estão apenas vivos os nove trisnetos, filhos da neta Ana Maria Jorge, falecida em 2018. O mais velho admitiu ao Jornal Tribuna de Macau conhecer pouco sobre o percurso do seu trisavô como poeta, apenas sabendo que “viajava muito” entre Macau e Portugal. Victor Jorge gostaria que “se tivesse feito mais no território para assinalar a carreira dele”. Sobre a aventada hipótese de trasladar os restos mortais para o Panteão Nacional, em Lisboa, confessa que “seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muita supersticiosa e recusou o pedido”
Como o primogénito dos nove irmãos,
todos trisnetos de Camilo Pessanha, Victor Jorge, de 76 anos, reconheceu ao
Jornal Tribuna de Macau que não conhece muito sobre o percurso do trisavô como
escritor. Apenas soube, pela boca da sua avó, Ana Maria Jorge, falecida em
2018, que o poeta “viajava muito” entre Macau e Portugal.
“O meu trisavô tinha uma neta (minha avó) e um neto que
também tinha o mesmo nome do avô, ambos falecidos, e que eu saiba não há mais
descendentes, apenas resta a minha família”, começou por referir.
Mesmo com a existência de alguns sinais da sua passagem
pelo território, como por exemplo a estátua no Jardim das Artes e a rua com o
seu nome, “Macau [as autoridades] devia ter feito mais sobre a carreira dele”,
lamenta, ainda que se congratule com algumas iniciativas organizadas aquando da
passagem dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha.
Lembra-se, no entanto, de algumas histórias que foi
ouvindo na família, que o trisavô sempre sustentou a neta. “Depois da morte do
poeta, houve disputa das heranças que ele deixou, uma vez que tinha muitas
antiguidades, e a madrasta não quis dividir para a minha avó invocando que ela
não fazia parte da família por não ser filha legítima de Camilo Pessanha”,
contou.
O caso foi para tribunal, que “deu razão à minha avó,
após ter lido uma carta escrita pelo pai dela que a identificava como filha”,
recorda.
No próximo mês de Maio, completam-se 10 anos desde que,
em Portugal, foi aventada a possibilidade de trasladação dos restos mortais de
Camilo Pessanha para o Panteão Nacional, onde se encontram túmulos de outros
nomes do panorama literário, como por exemplo, Sophia de Mello Breyner
Andresen, Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus. A
oposição dos familiares de Camilo Pessanha, acompanhada pela também não
concordância do Instituto Cultural, foi decisiva para que a Comissão de Cultura,
Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República encerrasse o caso.
Victor Jorge comenta essa intenção de Portugal. “Isso
seria para mim uma honra, mas a minha mãe é muito supersticiosa e recusou o
pedido”.
Mesmo depois da morte de Ana Maria Jorge, os seus filhos
querem respeitar a opinião da família. “Julgo que é difícil voltar atrás a
propósito da trasladação dos restos mortais para Portugal, uma vez que os
familiares não querem que se mexa no túmulo, por entenderem que ele escolheu
ficar em Macau”, destacou.
Para marcar a efeméride da morte do poeta, a família não
tem nada de especial programado. “No dia 1 de Março vamos fazer a limpeza e
colocar flores na campa instalada no Cemitério de São Miguel Arcanjo”,
adiantou, ressalvando que “fazemos isso anualmente, para além de pagarmos a um
operário para tratar do jazigo”.
Lembra também que o filho do Camilo Pessanha tinha um
afilhado que residia em Hong Kong e que foi ele que mandou fazer a lápide da
sepultura com caracteres em cantonense. “Não sei se ainda está vivo, perdi o
contacto dele”, esclareceu.
Victor Jorge, que acedeu prontamente a tirar uma
fotografia junto à estátua do trisavô no Jardim das Artes, a qual integra ainda
um pedestal com o cão do poeta, Arminho, confessou a este jornal que o
interesse pela vida e obra de Camilo começou na sua juventude. “Quando eu era
ainda jovem, um colega mostrou-me uma nota de 100 patacas com a gravura do
poeta e perguntou-me quem era, mas na altura eu não sabia que era o meu
trisavô. Depois disso, comecei a inteirar-me sobre a história dele”, afirma.
Questionado sobre documentos que possivelmente se
encontrem na posse dos familiares, o trisneto disse ter apenas um livro que
fala de Camilo Pessanha e da sua família. “Tem alguns poemas ilustrados e
também um documento oficial que relata a identidade da minha avó como filha
ilegítima, por os pais não terem sido casados”, revela.
O poeta, recorde-se, era também filho ilegítimo de
Francisco António de Almeida Pessanha, um aristocrata estudante de Direito e de
Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua empregada.
Tirou o
curso de direito em Coimbra, foi procurador régio em Mirandela (1892), advogado
em Óbidos, em 1894, e depois de se mudar para Macau foi, durante três anos
professor de Filosofia Elementar no Liceu.
Entre 1894 e 1915, voltou a Portugal algumas vezes, para
tratamentos de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa,
que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia.
Morreu devido ao uso excessivo de ópio e a tuberculose
pulmonar. Nos relatos sobre a sua morte, extraídos do livro Camilo Pessanha de
António Dias Miguel, é referido que na manhã de 1 de Março de 1926 “falece
Camilo Pessanha, depois de prolongado sofrimento”. O funeral realizou-se no dia
seguinte, a meio da tarde.
O seu enterro, “singelo e civil”, foi muito concorrido.
Transportado, a seu pedido, num armão militar, coberto pela bandeira nacional,
o poeta foi conduzido por sargentos, cabos e soldados e ladeado pelos
estudantes do Liceu e outras escolas.
No cemitério, a oração fúnebre foi pronunciada pelo
reitor Borges Delgado, com estas palavras: “Espírito altamente filosófico e
amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida
desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar
tudo e todos”.
Os jornais de Lisboa deram grande relevo à morte de
Camilo Pessanha. Em 1949, a Câmara Municipal da capital portuguesa homenageou o
escritor dando o nome dele a uma rua junto à Avenida da Igreja, em Alvalade.
Estátua terá nova placa informativa
A escultura em bronze, de corpo inteiro, do poeta Camilo Pessanha, acompanhada pelo seu cão Arminho, no Jardim das Artes, vai ser alvo de colocação de uma placa informativa, uma vez que a “concepção original é de difícil leitura”, segundo referiu o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM). Em resposta ao Jornal Tribuna de Macau, o organismo indicou que a escultura, da autoria do arquitecto Carlos Marreiros, foi erguida no local há mais de 10 anos, e na coluna de pedra atrás da mesma, encontra-se gravado o texto de apresentação do poeta. “Com vista a melhorar a situação, inicia-se, nesta fase, a recolha das respectivas informações”, complementou o IAM. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”
Sem comentários:
Enviar um comentário