O centenário da morte de Camilo Pessanha vai ser assinalado com dois eventos no início de Março, que pretendem resgatar a memória e o legado de um dos maiores poetas da língua portuguesa. As celebrações começam no dia exacto em que se completam cem anos desde o seu desaparecimento, no domingo, com uma mesa-redonda na Casa Garden. No dia 3, é a vez de o IPOR receber uma discussão sobre as várias dimensões de um homem que, mais do que poeta, foi professor, jurista e até tradutor de chinês-português. Faleceu em Macau a 1 de Março de 1926
Camilo Pessanha é um poeta tão grande
que Macau inteiro não chega para seu túmulo, disse Eugénio de Andrade. Não
basta, portanto, que o centenário do seu falecimento seja assinalado uma única
vez. A vida e a obra do poeta – um dos vultos de maior dimensão na literatura
de língua portuguesa – serão homenageadas ao longo do corrente ano de 2026,
começando com duas sessões no início de Março.
A primeira mesa-redonda está agendada para domingo, dia
1, quando terá decorrido exactamente um século desde o desaparecimento de
Pessanha. O painel de convidados vai reunir-se na Casa Garden, pelas 16h, para
uma conversa distribuída por seis oradores e moderada por Sérgio Sousa,
professor catedrático no Departamento de Português da Faculdade de Letras da
Universidade de Macau (UM).
Os nomes convidados para esta sessão são o poeta,
professor e ensaísta António Carlos Cortez, os escritores e jornalistas Carlos
Morais José e Christopher Chu, os professores da UM Diego Giménez, Maggie Hoi e
Yao Feng e o arquitecto Carlos Marreiros. Importa sublinhar que todos estes
oradores possuem um conhecimento aprofundado da obra de Camilo Pessanha, sendo
responsáveis por ensaios, recensões críticas, documentários cinematográficos
(no caso de Carlos Morais José) e até traduções oficiais do seu único livro de
poemas, “Clepsidra” (no caso de Yao Feng).
O evento tem como título “Ir assim, a bordo de um navio,
sem destino”, em alusão às palavras que Camilo Pessanha dirigiu ao amigo Carlos
Amaro numa carta escrita em 1909, embalado pelas ondas que o levavam de
regresso a Macau. É um reflexo da identidade muito própria do poeta e do homem,
ambos eternamente seduzidos pela ideia do vaguear sem rumo (e da ameaça
constante do naufrágio libertador), e também uma reflexão directa sobre o
caminho desbravado entre Lisboa e Macau.
A relação com o território asiático é densa, complexa e
ambígua, revista em tempos contemporâneos como cravada de orientalismos e
preconceitos. Chegar a Macau não era avistar um farol depois de uma temporada
em alto-mar: era regressar ao “chão antipático do exílio”, como lhe chamou. Num
texto escrito em 1924 para o jornal A Pátria, extinto dois anos depois,
a descrição geral que Pessanha fazia sobre os poetas expatriados parecia conter
um carácter auto-biográfico. “Os poucos [poetas] que vagueiam e se definham por
longínquas regiões, se acaso escreverem um verso, é sempre para cantar a pátria
ausente”.
Diz-se que o poeta se exilou voluntariamente em Macau
após um desgosto amoroso, quando Ana de Castro Osório recusou o seu pedido de
casamento. Sugere-o o poema “Canção da Partida”, em que o poeta alude ao
noivado da escritora e activista com Paulino de Oliveira, também homem de
letras. Um ano depois, cruzava os oceanos rumo a Macau.
Homem de várias facetas
A versão trágico-romântica da história insiste no coração
partido, mas a verdade é que a partida para Macau surgiu também amparada pela
necessidade de encontrar oportunidades profissionais. É assim que vai parar ao
recém-criado Liceu de Macau, onde leccionou diferentes disciplinas: Filosofia,
Língua Portuguesa, História, Geografia, Economia Política, Direito Comercial e
História da China.
A mundividência de Camilo Pessanha reflectiu-se também
nos diferentes ofícios que ocupou até à data da morte. Para além de docente,
foi conservador, advogado, juiz, auditor e, à excepção da última década de
vida, sempre poeta – talvez a mais desconhecida das suas ocupações para a
população local, que o interpretava como excêntrico e de aparência peculiar
(percepção exacerbada pelo vício de ópio).
O escritor e investigador Danilo Barreiros, que chegou a
ser contemporâneo do poeta, descreveu-o do seguinte modo na obra “O Testamento
de Camilo Pessanha”: “Magro esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à
testa, seminu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a
chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projetava a sombra desfigurada
nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos
opiómanos”.
O reconhecimento literário foi póstumo e possível graças
aos esforços de Ana de Castro Osório, com quem manteve uma estreita amizade
apesar do romance gorado. “Clepsidra” – obra única no repertório de Camilo
Pessanha, obra máxima na literatura portuguesa – reúne as composições que o
poeta criava ao longo da sua vida e mantinha vivas apenas na sua memória, sem
as passar para papel. Em edições posteriores, a obra viria a ser ampliada com
poemas entretanto descobertos.
O evento de 3 de Março no IPOR – Instituto Português do
Oriente, marcado para as 18h30, vem pôr em foco as várias facetas do poeta. O
médico e escritor Shee Vá, responsável pela moderação, conta ao Ponto Final que
a escolha de cada um dos três oradores convidados foi intencional.
José Basto da Silva, membro do conselho de administração
da Fundação da Escola Portuguesa, vai debruçar-se sobre a actividade
professoral do poeta, enquanto Frederico Rato, advogado e notário de Macau, vai
explorar o seu percurso como advogado e jurista. Por fim, António Carlos Cortez
– que também estará presente na sessão de dia 1 na Casa Garden – vai focar-se
no domínio da poesia.
“Vou dar-lhe dois temas para desenvolver”, conta Shee Vá.
“O primeiro, para saber se Camilo teria tantas saudades de Portugal como se diz
habitualmente. E se isto se reflectiu ou não na sua poesia, porque, como
sabemos, a maior parte da sua obra foi escrita antes de vir para Macau – e em
Macau corrigiu, corrigiu, corrigiu”.
Uma segunda área de discussão incide sobre os contactos
que mantinha com Portugal. “Camilo manteve correspondência com os jornais e as
revistas portugueses, que eram lá publicados. Também mandava muitas crónicas.
Portanto, vamos também questionar se a faceta de prosador se reflectia nos seus
poemas”.
Depois da intervenção do trio de oradores, haverá espaço
para um “clube de leitura” em que serão declamados poemas, alguns deles já
mencionados no decorrer da conversa. “Aliás, a introdução que vou fazer em
relação à vida de Camilo até vir para Macau já vai introduzindo alguma da obra
poética”, explica Shee Vá. E desvenda ainda alguns dos outros temas que poderão
ser mencionados ao longo da conversa: a faceta de Camilo Pessanha enquanto
coleccionador (“foram enviadas muitas obras de arte para Portugal, e seria
interessante saber se têm ou não muito valor”) e os seus anos tardios, marcados
pelo vício de ópio e uma degradação lenta que culminou na sua morte aos 58
anos.
Recuperar um legado empoeirado
Nas últimas décadas de vida, Pessanha fez viagens
sucessivas a Portugal para tratamentos médicos, onde conheceu – e influenciou
directamente – os membros da geração da revista “Orpheu”. Regressou sempre a
Macau. Macau, esse território que descreveu em 1916, numa carta endereçada a
Ana de Castro Osório, como um “meio acanhadíssimo – mexeriqueiro e boçal – a
todos os respeitos misérrimo”.
Mas Pessanha era um homem de contradições e paradoxos, e
centrarmo-nos nas suas (sucessivas) críticas ao território seria ignorar o
respeito que demonstrou sentir pela cultura local. Aprendeu cantonês, leu
poesia chinesa, coleccionou antiguidades. Dedicou-se também a um importante
trabalho de tradução que incluiu as “Oito Elegias Chinesas” da dinastia Ming,
conferindo-lhes visibilidade e relevância no mundo lusófono.
A sua visão de Macau parecia, acima de tudo, enevoada
pelo saudosismo umbilical de uma pátria à distância de meio mundo. Descrevia-o
assim o poeta, no seu ensaio sobre a gruta de Camões: “Em Macau é fácil à
imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos frequentada
pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes
chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas (…) e
criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra
portuguesa”.
Hoje, Camilo Pessanha faz parte dessa mesma portugalidade
de Macau. A sua imagem está inscrita num mural no jardim do Consulado de
Portugal, assinado pelo artista Vhils, ou na estátua que o representa apoiado
na bengala, no Jardim das Artes. De resto, num território em que apenas 2,3% da
população diz ser fluente em português, os seus versos circulam entre um grupo
restrito de apreciadores de poesia. Macau inteiro não chega para túmulo de
Pessanha, dizia Eugénio de Andrade, mas o seu legado vai sendo empoeirado pelos
anos – que formam agora um século. A sua campa singela passa despercebida a
quem passeia, desatento ou com outros destinos, no Cemitério de São Miguel
Arcanjo.
As iniciativas marcadas para este ano ajudam a recuperar
a memória de um poeta irrepetível, que elevou o Simbolismo em Portugal à sua
máxima expressão. Para além das duas sessões já mencionadas, o IPOR pretende
organizar uma série de actividades relacionadas com o poeta ao longo de todo o
ano de 2026.
Em declarações ao Ponto Final,
Patrícia Quaresma confirma que os futuros eventos “estão planeados, mas ainda
não confirmados, portanto não podemos falar muito sobre eles”. Adianta, porém,
que o IPOR está “a tentar estudar a possibilidade de trazer uma exposição
bibliográfica, em conjunto com o Instituto Camões”, assim como a realização de
“outras actividades sobre o poeta, ou na biblioteca [pertinentemente chamada de
Biblioteca Camilo Pessanha] ou no Café Oriente”. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto
Final”
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