Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Macau - Um século depois da sua morte, Camilo Pessanha é homenageado

O centenário da morte de Camilo Pessanha vai ser assinalado com dois eventos no início de Março, que pretendem resgatar a memória e o legado de um dos maiores poetas da língua portuguesa. As celebrações começam no dia exacto em que se completam cem anos desde o seu desaparecimento, no domingo, com uma mesa-redonda na Casa Garden. No dia 3, é a vez de o IPOR receber uma discussão sobre as várias dimensões de um homem que, mais do que poeta, foi professor, jurista e até tradutor de chinês-português. Faleceu em Macau a 1 de Março de 1926


Camilo Pessanha é um poeta tão grande que Macau inteiro não chega para seu túmulo, disse Eugénio de Andrade. Não basta, portanto, que o centenário do seu falecimento seja assinalado uma única vez. A vida e a obra do poeta – um dos vultos de maior dimensão na literatura de língua portuguesa – serão homenageadas ao longo do corrente ano de 2026, começando com duas sessões no início de Março.

A primeira mesa-redonda está agendada para domingo, dia 1, quando terá decorrido exactamente um século desde o desaparecimento de Pessanha. O painel de convidados vai reunir-se na Casa Garden, pelas 16h, para uma conversa distribuída por seis oradores e moderada por Sérgio Sousa, professor catedrático no Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM).

Os nomes convidados para esta sessão são o poeta, professor e ensaísta António Carlos Cortez, os escritores e jornalistas Carlos Morais José e Christopher Chu, os professores da UM Diego Giménez, Maggie Hoi e Yao Feng e o arquitecto Carlos Marreiros. Importa sublinhar que todos estes oradores possuem um conhecimento aprofundado da obra de Camilo Pessanha, sendo responsáveis por ensaios, recensões críticas, documentários cinematográficos (no caso de Carlos Morais José) e até traduções oficiais do seu único livro de poemas, “Clepsidra” (no caso de Yao Feng).

O evento tem como título “Ir assim, a bordo de um navio, sem destino”, em alusão às palavras que Camilo Pessanha dirigiu ao amigo Carlos Amaro numa carta escrita em 1909, embalado pelas ondas que o levavam de regresso a Macau. É um reflexo da identidade muito própria do poeta e do homem, ambos eternamente seduzidos pela ideia do vaguear sem rumo (e da ameaça constante do naufrágio libertador), e também uma reflexão directa sobre o caminho desbravado entre Lisboa e Macau.

A relação com o território asiático é densa, complexa e ambígua, revista em tempos contemporâneos como cravada de orientalismos e preconceitos. Chegar a Macau não era avistar um farol depois de uma temporada em alto-mar: era regressar ao “chão antipático do exílio”, como lhe chamou. Num texto escrito em 1924 para o jornal A Pátria, extinto dois anos depois, a descrição geral que Pessanha fazia sobre os poetas expatriados parecia conter um carácter auto-biográfico. “Os poucos [poetas] que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escreverem um verso, é sempre para cantar a pátria ausente”.

Diz-se que o poeta se exilou voluntariamente em Macau após um desgosto amoroso, quando Ana de Castro Osório recusou o seu pedido de casamento. Sugere-o o poema “Canção da Partida”, em que o poeta alude ao noivado da escritora e activista com Paulino de Oliveira, também homem de letras. Um ano depois, cruzava os oceanos rumo a Macau.

Homem de várias facetas

A versão trágico-romântica da história insiste no coração partido, mas a verdade é que a partida para Macau surgiu também amparada pela necessidade de encontrar oportunidades profissionais. É assim que vai parar ao recém-criado Liceu de Macau, onde leccionou diferentes disciplinas: Filosofia, Língua Portuguesa, História, Geografia, Economia Política, Direito Comercial e História da China.

A mundividência de Camilo Pessanha reflectiu-se também nos diferentes ofícios que ocupou até à data da morte. Para além de docente, foi conservador, advogado, juiz, auditor e, à excepção da última década de vida, sempre poeta – talvez a mais desconhecida das suas ocupações para a população local, que o interpretava como excêntrico e de aparência peculiar (percepção exacerbada pelo vício de ópio).

O escritor e investigador Danilo Barreiros, que chegou a ser contemporâneo do poeta, descreveu-o do seguinte modo na obra “O Testamento de Camilo Pessanha”: “Magro esquálido, a barba hirsuta, o cabelo colado à testa, seminu sobre o leito, aspirando voluptuosamente o longo cachimbo sobre a chama amarelada da lâmpada de cristal, que lhe projetava a sombra desfigurada nas paredes obscurecidas, tendo no semblante a expressão hipnótica dos opiómanos”.

O reconhecimento literário foi póstumo e possível graças aos esforços de Ana de Castro Osório, com quem manteve uma estreita amizade apesar do romance gorado. “Clepsidra” – obra única no repertório de Camilo Pessanha, obra máxima na literatura portuguesa – reúne as composições que o poeta criava ao longo da sua vida e mantinha vivas apenas na sua memória, sem as passar para papel. Em edições posteriores, a obra viria a ser ampliada com poemas entretanto descobertos.

O evento de 3 de Março no IPOR – Instituto Português do Oriente, marcado para as 18h30, vem pôr em foco as várias facetas do poeta. O médico e escritor Shee Vá, responsável pela moderação, conta ao Ponto Final que a escolha de cada um dos três oradores convidados foi intencional.

José Basto da Silva, membro do conselho de administração da Fundação da Escola Portuguesa, vai debruçar-se sobre a actividade professoral do poeta, enquanto Frederico Rato, advogado e notário de Macau, vai explorar o seu percurso como advogado e jurista. Por fim, António Carlos Cortez – que também estará presente na sessão de dia 1 na Casa Garden – vai focar-se no domínio da poesia.

“Vou dar-lhe dois temas para desenvolver”, conta Shee Vá. “O primeiro, para saber se Camilo teria tantas saudades de Portugal como se diz habitualmente. E se isto se reflectiu ou não na sua poesia, porque, como sabemos, a maior parte da sua obra foi escrita antes de vir para Macau – e em Macau corrigiu, corrigiu, corrigiu”.

Uma segunda área de discussão incide sobre os contactos que mantinha com Portugal. “Camilo manteve correspondência com os jornais e as revistas portugueses, que eram lá publicados. Também mandava muitas crónicas. Portanto, vamos também questionar se a faceta de prosador se reflectia nos seus poemas”.

Depois da intervenção do trio de oradores, haverá espaço para um “clube de leitura” em que serão declamados poemas, alguns deles já mencionados no decorrer da conversa. “Aliás, a introdução que vou fazer em relação à vida de Camilo até vir para Macau já vai introduzindo alguma da obra poética”, explica Shee Vá. E desvenda ainda alguns dos outros temas que poderão ser mencionados ao longo da conversa: a faceta de Camilo Pessanha enquanto coleccionador (“foram enviadas muitas obras de arte para Portugal, e seria interessante saber se têm ou não muito valor”) e os seus anos tardios, marcados pelo vício de ópio e uma degradação lenta que culminou na sua morte aos 58 anos.

Recuperar um legado empoeirado

Nas últimas décadas de vida, Pessanha fez viagens sucessivas a Portugal para tratamentos médicos, onde conheceu – e influenciou directamente – os membros da geração da revista “Orpheu”. Regressou sempre a Macau. Macau, esse território que descreveu em 1916, numa carta endereçada a Ana de Castro Osório, como um “meio acanhadíssimo – mexeriqueiro e boçal – a todos os respeitos misérrimo”.

Mas Pessanha era um homem de contradições e paradoxos, e centrarmo-nos nas suas (sucessivas) críticas ao território seria ignorar o respeito que demonstrou sentir pela cultura local. Aprendeu cantonês, leu poesia chinesa, coleccionou antiguidades. Dedicou-se também a um importante trabalho de tradução que incluiu as “Oito Elegias Chinesas” da dinastia Ming, conferindo-lhes visibilidade e relevância no mundo lusófono.

A sua visão de Macau parecia, acima de tudo, enevoada pelo saudosismo umbilical de uma pátria à distância de meio mundo. Descrevia-o assim o poeta, no seu ensaio sobre a gruta de Camões: “Em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas (…) e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa”.

Hoje, Camilo Pessanha faz parte dessa mesma portugalidade de Macau. A sua imagem está inscrita num mural no jardim do Consulado de Portugal, assinado pelo artista Vhils, ou na estátua que o representa apoiado na bengala, no Jardim das Artes. De resto, num território em que apenas 2,3% da população diz ser fluente em português, os seus versos circulam entre um grupo restrito de apreciadores de poesia. Macau inteiro não chega para túmulo de Pessanha, dizia Eugénio de Andrade, mas o seu legado vai sendo empoeirado pelos anos – que formam agora um século. A sua campa singela passa despercebida a quem passeia, desatento ou com outros destinos, no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

As iniciativas marcadas para este ano ajudam a recuperar a memória de um poeta irrepetível, que elevou o Simbolismo em Portugal à sua máxima expressão. Para além das duas sessões já mencionadas, o IPOR pretende organizar uma série de actividades relacionadas com o poeta ao longo de todo o ano de 2026.

Em declarações ao Ponto Final, Patrícia Quaresma confirma que os futuros eventos “estão planeados, mas ainda não confirmados, portanto não podemos falar muito sobre eles”. Adianta, porém, que o IPOR está “a tentar estudar a possibilidade de trazer uma exposição bibliográfica, em conjunto com o Instituto Camões”, assim como a realização de “outras actividades sobre o poeta, ou na biblioteca [pertinentemente chamada de Biblioteca Camilo Pessanha] ou no Café Oriente”. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


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