Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Macau - Nova exposição apresenta mais de 40 fotografias dos quatro cantos do mundo lusófono

A Somos – ACLP inaugura no fim do mês uma exposição fotográfica que apresenta as fotografias vencedoras e as menções honrosas do seu concurso anual de fotografia dedicado à cultura lusófona. A exposição “Somos Imagens da Lusofonia – Em cada rosto, um legado colectivo” quer promover a comunicação em português e a divulgação das tradições lusófonas


A Somos – ACLP, Associação de Comunicação de Língua Portuguesa, estreia, no dia 27 de Setembro, a exposição de fotografia “Somos Imagens da Lusofonia – Em cada rosto, um legado colectivo”, que permanecerá de portas abertas até ao dia 12 de Outubro do corrente ano. A exposição, comissariada pelo arquitecto Francisco Ricarte, apresenta as fotografias vencedoras do concurso anual organizado pelo Somos. O foco desta edição foi a fotografia de retrato, dando a conhecer as várias que compõem o mundo lusófono e reflectindo a multiculturalidade e a interculturalidade dessa rede. A cerimónia de abertura, no dia 27 de Setembro, inclui um espectáculo de dança contemporânea pela companhia Dança Brasil e música pelo DJ Cuco.

O primeiro prémio do concurso foi atribuído a Luís Godinho, de Portugal, pela sua fotografia “São Tomé e Príncipe”, que capta a alegria das crianças deste país. O segundo prémio foi entregue a Bruno Pedro pela sua fotografia “Paz em Cabo Delgado”, que retrata uma menina sorridente no meio da província de Cabo Delgado, em Moçambique, assolada por conflitos. O terceiro prémio foi dado a Jorge Bacelar pela sua fotografia “Momento de descanso”, que reflecte a vida de um agricultor em Salreu, Portugal, com as suas vacas e cães. Foram ainda conferidas três menções honrosas a João Galamba, de Portugal, Milton Ostetto, do Brasil, e Raphael Alves, do Brasil, pelas suas fotografias que destacam as festas tradicionais, a pesca artesanal e os efeitos da seca na bacia amazónica, respectivamente.

A exposição, que conta com o apoio do Fundo para o Desenvolvimento da Cultura do Governo de Macau, apresenta não só as fotografias vencedoras, mas também cerca de quatro dezenas de outras fotografias seleccionadas pelo júri, pela sua relevância e valor na representação das dimensões culturais da Lusofonia. Com esta exposição, a Somos – ACLP pretende promover a comunicação em português e fomentar um conhecimento mais profundo do mundo lusófono, principalmente das tradições e características da lusofonia. A Somos pretende, simultaneamente, realçar o papel de Macau como plataforma de união entre a China e os países/regiões de língua portuguesa.

Esta exposição fotográfica organizada pela Somos – ACLP oferece uma plataforma para os fotógrafos mostrarem a diversidade cultural e o património do mundo lusófono através da lente da fotografia de retrato. Com foco nas caras individuais, as fotografias reflectem a singularidade das tradições e caraterísticas lusófonas. As fotografias vencedoras, bem como outras imagens seleccionadas, destacam vários aspectos da cultura lusófona, incluindo a alegria, a resiliência, a esperança e o legado. In “Ponto Final” - Macau


terça-feira, 4 de junho de 2024

Macau - Exposição da Halftone vai mostrar as marcas portuguesas presentes em Macau

A Galeria da Residência Consular vai receber, a partir deste sábado, a exposição “A Presença da Matriz Portuguesa em Macau, nas Imagens Entre Tempos”, organizada pela associação Halftone. Nesta mostra, estarão patentes registos fotográficos de 12 fotógrafos locais que propõem diferentes visões sobre as marcas da presença portuguesa na região


“A Presença da Matriz Portuguesa em Macau, nas Imagens Entre Tempos” é o título da exposição da Halftone que vai ser inaugurada no sábado, pelas 17h, na Galeria da Residência Consular. A exposição estará patente até ao dia 30 de Junho. Nesta mostra, 12 fotógrafos membros da associação de fotografia vão expor as suas obras sob o prisma da marca lusa no território.

André Ritchie, presidente da Halftone, explicou ao Ponto Final que a associação lançou um ‘open call’ aos seus membros, deixando em aberto a forma como interpretar o tema. Isto resultou num “leque bastante rico de obras, que vão desde o mais material e evidente, até situações em que se trata de uma presença portuguesa de forma imaterial”. Salientando que é nessa variedade de interpretações que está a grande mais-valia desta exposição, afirmou: “É interessante fazer uma comparação entre diversos trabalhos, para vermos como é que cada autor abordou e interpretou esse tema, para depois reflectir a sua ideia através da fotografia”.

Os membros da Halftone que vão expor na Residência Consular são: André Ritchie, Catarina Cortesão Terra, Eloi Scarva, Francisco Ricarte, Gonçalo Lobo Pinheiro, Joana Freitas, João Palla, Mide Plácido, Ricardo Meireles, Rusty Fox, Sara Augusto e Wu Haozheng.

André Ritchie descreveu as suas fotografias como sendo uma “celebração da vulgaridade”. O presidente da associação apresenta três imagens de dentro de uma casa em Macau onde está patente uma “componente religiosa, uma forma de estar num espaço que é muito atípica, mas que também pode ser vista como uma coisa normalíssima em Macau”. João Palla, por exemplo, apresenta retratos de lusodescendentes, que “é uma forma muito interessante de mostrar o ADN português”, comentou Ritchie. Por outro lado, Francisco Ricarte mostra fotografias mais conceptuais de pormenores de um edifício de Macau.

No texto introdutório sobre esta exposição, a Halftone questiona: “Sob o prisma do olhar da fotografia enquanto prática de arquivo diacrítico, subordinado ao tema da memória e identidade, faz sentido olhar a cidade hoje e reflectir sobre os seus traços identitários de Matriz Portuguesa? Quais os marcos históricos e patrimoniais, os registos culturais e persistências humanas nela existentes? Como têm as diversas comunidades olhado para a presença do ‘outro’ neste território em constante transição e transformação? Como são essas marcas, físicas ou imagéticas, entendidas por outras comunidades? São essas marcas também parte integrante da sua memória colectiva e individual, ou apresentam-se como extemporâneas?”.

“Macau é, historicamente, um território em transição. Na sua cartografia constrói lugares novos, desdobra-se, aprofunda, concentra novas camadas de memórias colectivas no mapa da cidade”, pode ler-se na nota de apresentação da exposição, que assinala ainda que as imagens a serem expostas revelam-se “na afirmação da identidade do exercício da memória individual de cada um de nós – afinal memória colectiva, através do que vivenciamos ou experienciamos ou, de forma subjectiva, através do exercício da ‘pós-memória’, as memórias e registos visuais que outros nos convocam”.

Esta exposição tem o patrocínio do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal – Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. A associação Halftone, actualmente com perto de 50 membros, tem como objectivo promover e divulgar a fotografia contemporânea nos seus mais diversos aspectos. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Macau - Francisco Ricarte apresenta exposição de fotografia seguida de workshop para jovens iniciantes na arte

Um fim-de-semana cheio de actividades para todos os amantes da fotografia. O arquitecto e fotógrafo Francisco Ricarte apresentará dois dias de imersão na arte da imagem, através de uma exposição que pretende incentivar os jovens a ganhar mais interesse pela fotografia e um workshop que demonstrará o ofício na prática. Uma organização da Casa de Portugal em Macau (CPM) e com patrocínio da Fundação Macau, estes dois eventos fazem parte do programa “Junho, Mês de Portugal na RAEM”. A exposição inaugura este sábado, dia 1 de Junho, às 17h. No dia seguinte, a primeira sessão do workshop dará início às 10h30. Ambos eventos serão realizados na Casa Garden


O mês de Junho arranca com uma série de novas actividades culturais que marcam as celebrações do Dia de Portugal, anualmente comemorado no dia 10 de Junho. Para inaugurar a entrada no primeiro dia do mês com uma pertinente contribuição para o âmbito artístico de Macau e em celebração ao Dia Mundial da Criança, Francisco Ricarte, arquitecto e fotógrafo, apresenta dois eventos inteiramente ligados à arte da fotografia, uma exposição e um workshop, dividido em duas sessões.

A exposição leva o nome “Para os olhos dos jovens (de espírito)” e reúne 23 registos fotográficos, que pretendem instigar um interesse mais aprofundado pela fotografia aos jovens iniciantes na arte. Com imagens a apresentar intrigantes momentos corriqueiros e situações inesperadas do dia-a-dia, carregam em si algum humor e ironia, que dessa forma poderão captar a atenção da camada mais jovem da população e surpreender os espectadores mais velhos – jovens de espírito – através da curiosidade e da brincadeira.

Por entre as fotografias de rua, o fotógrafo também incluiu registos de performances de grande intensidade coreográfica e visual, para não só apresentar o lado mais sensível da fotografia, como introduzir os espectadores ao poder pictórico da produção de imagens.

“A fotografia, pela sua imensa abrangência e possibilidades criativas, tem sido um instrumento fundamental no desenvolvimento das artes visuais”, diz Ricarte. Ultimamente, tem sido figura central na divulgação da fotografia como arte independente e influente no âmbito das artes visuais existentes em Macau. Membro fundador da associação Halftone, tem vindo a realizar várias exposições e eventos que contribuem para a expansão desta prática como forma de expressão entre o público da região.

“Sob variadas abordagens estéticas e tecnológicas, esta forma de expressão artística (a fotografia) tem-nos dado a conhecer facetas tão fascinantes e diversificadas, como o meio natural e construído que nos rodeiam, bem como das nossas aspirações e manifestações culturais, entre muitas outras facetas da condição humana”, esclareceu.

Foi através deste deslumbre, por uma prática aparentemente banal nos tempos de hoje, que o artista pretende demonstrar o universo de possibilidades e a influência que uma boa fotografia pode ter na sociedade.

Para complementar este primeiro dia de imersão na arte de Francisco Ricarte, a Casa de Portugal em Macau, que está activamente envolvida na organização e divulgação de actividades artísticas durante este próximo “Mês de Portugal”, em conjunto com o apoio financeiro da Fundação Macau, decidiu organizar, para além da exposição, duas sessões de aprendizagem da prática da fotografia, que instigará os jovens participantes a aplicarem os conhecimentos adquiridos com as obras observadas no dia anterior.

Com Francisco Ricarte como monitor, os workshops de domingo, dia 2 de Junho, são divididos em duas sessões de duas horas cada uma, com a primeira direccionada para jovens entre 8 e 11 anos, a dar início às 10h30 da manhã. A segunda sessão dá início às 15h e é aberta a jovens a partir dos 12 anos de idade. Máquinas fotográficas Polaroid serão disponibilizadas aos participantes pela organização. As sessões são limitadas a 10 vagas cada uma, e a CPM sugere reservar com antecedência a inscrição, através dos contactos que podem ser encontrados no programa “Junho, Mês de Portugal na RAEM”.

Para além da CPM, estes dois eventos recebem o apoio institucional do Consulado Geral de Portugal em Macau, AICEP, Fundação Oriente e IPOR. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


domingo, 7 de janeiro de 2024

Macau – Associação “Somos!” inaugura sexta-feira nova exposição

Francisco Ricarte é o curador da nova exposição de fotografia da “Somos! – Associação de Comunicação em Língua Portuguesa”, que será inaugurada na próxima sexta-feira. “Somos Imagens da Lusofonia 2022 – Na Solidão dos Dias” é o nome da mostra patente na Casa Garden que nasce de um concurso organizado pela associação


A “Somos! – Associação de Comunicação em Língua Portuguesa” (Somos – ACLP) inaugura esta sexta-feira, 12, a partir das 18h30, a exposição “Somos Imagens da Lusofonia 2022 – Na Solidão dos Dias”, que estará patente até ao dia 28 deste mês na Casa Garden.

A mostra conta com curadoria do arquitecto Francisco Ricarte, apresentando as fotografias vencedoras do concurso lançado em Julho do ano passado, assim como as menções honrosas e outras imagens que o júri considerou relevantes por promoverem a comunicação em língua portuguesa e a disseminação das tradições e características lusófonas.

A quarta edição deste concurso de fotografia, organizado anualmente pela “Somos!”, teve como mote “uma autorreflexão fotográfica sobre a solidão vivida nos dias de restrições impostas globalmente pelas autoridades sanitárias, medidas que causaram medo, solidão e deixaram-nos órfãos de afectos”, esclarece a associação em comunicado. Assim, as imagens seleccionadas “transbordam o que sentiram as comunidades dos países de língua portuguesa e de Macau nesse período”, pretendendo-se agora, “com o devido distanciamento, dar uma visão de como se vai fechando esse ciclo de solidão”.

Dos vencedores

O brasileiro Raphael Alves foi o grande vencedor do concurso com a fotografia intitulada “Insulae”, arrecadando, desta forma, o primeiro prémio, no valor de dez mil patacas. A imagem foi captada num cemitério em Manaus, no Brasil. Na memória descritiva, Raphael Alves refere que a fotografia retrata as desigualdades socioeconómicas e a “falta de políticas para a região mostraram a fragilidade do maior estado brasileiro, o Amazonas”. “Durante a pandemia de covid-19, apenas três familiares de cada vítima podiam comparecer aos enterros nos cemitérios de Manaus. Uma morte isolada”, acrescentou.

O segundo prémio, no valor de cinco mil patacas, foi atribuído ao português Jorge Meira, que apresentou a fotografia “Safe Distance”, tirada em Julho de 2020 em Vila Praia de Âncora, depois do plano de desconfinamento do Governo português que previa um distanciamento de 1,5 metros entre veraneantes. “Alguns fizeram marcações na areia para garantirem o cumprimento das medidas governamentais.

Por sua vez, Dário Paraíso arrecadou o terceiro prémio, de 3500 patacas, com uma imagem de São Tomé, captada no Mercado de Bobo Forro em 2020. A “Espera”, descreve a paragem no tempo há muito conhecida de São Tomé e Príncipe que “após a sua independência, as estruturas físicas e matérias pararam no tempo de mãos dadas com as estruturas imateriais (…) Aqui já se sabia o seu significado. Isolamento. Insularidade. Distâncias. Separação.”

Outras distinções

Este ano foram também atribuídas três menções honrosas, nomeadamente a Bruno Taveira com a fotografia “Em busca do essencial”, que retrata uma fila de pessoas na busca incessante de bens alimentares, de primeira necessidade, nos supermercados no Concelho de Cascais, logo após o Governo português decretar o estado de emergência.

Por sua vez, Rodrigo Cabrita foi distinguido com “Solidão Colectiva”, uma imagem descritiva do dia-a-dia da sua própria família, o “eu” inserido numa espécie de solidão colectiva, esbatida pelas tecnologias. Já o moçambicano Marcos Júnior destacou-se com a fotografia “Distância”, onde o fotógrafo refere nunca ter imaginado que uma doença pudesse impedir os afectos, sobretudo de alguém que saiu do seu ventre.

O concurso fotográfico foi aberto a todos os cidadãos dos países e regiões da Lusofonia e residentes de Macau, com fotografias tiradas em qualquer um destes locais: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste ou Goa, Damão e Diu.

O painel de jurados foi composto por um grupo de fotojornalistas de Macau, Brasil e Portugal, designadamente Gonçalo Lobo Pinheiro, presidente do júri e representante da Somos – ACLP, Rui Miguel Pedrosa; Francisco Ricarte; Marcio Pimenta e Henry Milleo. In “Hoje Macau” - Macau


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Macau - Plano de salvaguarda do centro histórico é instrumento decisivo e urgente

Alguns arquitectos de Macau reagem à necessidade de Macau em acelerar os esforços para implementar o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico. Segundo um projecto de decisão divulgado pela UNESCO e que o Jornal Tribuna de Macau deu a conhecer em artigo recente, a RAEM deve submeter o respectivo regulamento ao Centro do Património Mundial, com as revisões sugeridas pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios. Alguns passos dados pelas autoridades locais nos últimos anos, têm sido elogiados pelo Comité do Património Mundial, mas este quer receber informações sobe vários estudos. Francisco Ricarte, Mário Duque e Maria José de Freitas dão a sua opinião sobre os últimos requisitos impostos pela UNESCO


Nos últimos anos Macau tem lançado algumas medidas para preservar o Valor Universal Excepcional (OUV, na sigla em inglês) do Centro Histórico, mas a UNESCO, responsável pela implementação da Convenção do Património Mundial, considera que alguns dos processos devem ser mais céleres. De entre esses processos está o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico, que se arrasta desde 2014.

Um projecto de decisão vai ser votado na 45ª sessão do Comité do Património Mundial, agendada para o período entre 10 e 25 de Setembro próximo, em Riade, capital da Arábia Saudita, e a China deverá submeter o novo documento para análise dos órgãos consultivos. Isto tendo em consideração que o regulamento administrativo sobre o Plano de Salvaguarda e Gestão “será revisto em conformidade com o parecer técnico” do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS).

Lançados os dados para alguma reflexão, o Jornal Tribuna de Macau ouviu algumas opiniões de arquitectos do território.

Francisco Ricarte considera que, com a promulgação em 2005 do Centro Histórico de Macau pela UNESCO a Património Mundial, “a cidade obteve um reconhecimento nacional e internacional do seu significado”, importância histórica e cultural relevantes e do património edificado existente, que “constituem factores decisivos para a sua afirmação e identidade.

Contudo, diz, tal distinção “acarretou – e acarretará ainda mais no futuro – passos decisivos na sua conservação, reabilitação e valorização integrada”. São esses passos que a Unesco e outros organismos de protecção cultural têm vindo, naturalmente, a pedir e, mesmo, a “exigir à RAEM”.

O arquitecto considera que o conceito de “salvaguarda do património” tem vindo a evoluir desde a sua criação (ver a “Carta de Veneza”, 1964), passando de uma abordagem essencialmente física – protecção dos monumentos e edifícios singulares notáveis – “para uma visão mais integrada” abrangendo também “a identidade dos espaços urbanos e as suas características sócio-económicas de base”, como a população residente, as suas actividades económicas e equipamentos de uso público, a sua acessibilidade, as redes de infraestruturas de suporte, entre outros aspectos.

Reconhecendo que a RAEM tem vindo, nas duas últimas décadas, a desenvolver um trabalho consistente na identificação e classificação dos monumentos e edifícios notáveis da cidade, e estabelecendo perímetros – tanto quanto possível consistentes – de protecção da sua área envolvente imediata, Francisco Ricarte, afirma que “é preciso ser mais ambicioso e atender a outros aspectos de natureza social, económica e ambiental que promovam a reabilitação harmoniosa e integrada da área”.

Acelerar medidas de protecção integrada

Na linha do reivindicado pela UNESCO, prossegue o arquitecto, importa agora “acelerar” as medidas de protecção integrada do Centro Histórico de Macau que “acautelem também o que não é singular ou monumental”, como os edifícios existentes de acompanhamento, as actividades económicas neles desenvolvidas, a fixação dos seus habitantes e atracção de novos residentes, a sua acessibilidade e a mobilidade urbanas.

Em síntese, é de opinião que o Plano de Salvaguarda “deverá também proteger e valorizar a vivência integrada do centro da cidade, evitando quer a sua sub-ocupação com edifícios em degradação já sem ocupação viável, ou a sua sobre-utilização agora que os fluxos turísticos voltaram, em massa, à cidade.”

O Plano, que surge na sequência de outros, será “um dos instrumentos fundamentais para conseguir o propósito de salvaguarda e reabilitação integrada do Centro Histórico”. Não deverá, obviamente, ser o único instrumento, “mas ser prosseguido por intervenções de pormenor quer de iniciativa da RAEM (Processo de renovação urbana e de reabilitação do edificado, por exemplo), quer privada sob sua orientação”.

Terá, contudo, prossegue, “um papel decisivo no estabelecimento de regras base e claras de utilização do espaço edificado e urbano existentes, dos edifícios a salvaguardar e dos passíveis de alteração, do desenho das ruas e seu mobiliário urbano de suporte, bem como de definir a potencial utilização dos espaços “vazios” e logradouros existentes, das volumetrias possíveis para as novas edificações e sua imagem arquitectónica geral”.

Neste domínio é imprescindível ser elaborado um Regulamento “ponderado” e com suficiente detalhe, “que dê resposta aos desafios e situações particulares que, naturalmente, surgirão”.

O arquitecto vai um pouco mais longe e expressa o seu ponto de vista sobre a matéria dizendo que que o Plano de Salvaguarda “terá que ir muito mais além do que abordar apenas aspectos físicos”. Como acima referido, “deverá avaliar e ponderar medias de valorização social e humana da área de forma integrada”, estipulando medidas de apoio aos seus residentes actuais e futuros, às actividades económicas de suporte, designadamente as tradicionais, ou à “criação de redes de equipamentos e serviços públicos fundamentais que propiciem uma melhoria da qualidade de vida da área”.

Neste aspecto, “dois dos desafios são enormes” e terão de ser abordados, designadamente a “valorização do Ambiente e Eco-sistema da área e o controlo da sua sobre-utilização por fluxos turísticos cada vez maiores”.

Francisco Ricarte lembra que a visão integrada do Plano de Salvaguarda não se deverá restringir ao seu limite territorial, que deverá ser o mais alargado quanto possível, mas identificar ações e intervenções articuladas com áreas adjacentes, como salientou a UNESCO, que deverão igualmente ser objecto de planeamento de detalhe e valorização, como a envolvente Norte e Sul da Colina da Guia, a Av. Rodrigo Rodrigues, a reabilitação e valorização integrada do Porto Interior, entre outros.

Na abordagem final, o arquitecto considera que o Plano de Salvaguarda do Centro Histórico “será um instrumento decisivo que urge elaborar”, as suas propostas e acções integradas serem discutidas publicamente, “e ser promulgado”. Cada dia que passa torna-se mais “urgente e necessário”.

Concretização de raiz implica um esforço significativo

Mário Duque deu igualmente ao JTM a sua opinião, começando por dizer que a demora na concretização do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico não é muito diferente do que se passou com o Plano Director da RAEM. “São diplomas no topo da hierarquia das matérias que regulam, que se actualizam ocasionalmente, mas a concretização de raiz implica um esforço muito significativo em reunir e tratar sistematicamente conteúdos, de os enquadrar numa síntese com as orientações necessárias e certas”.

Acrescenta que “é ainda tarefa que se torna cada vez mais difícil à medida que o tempo passa, as complexidades urbanas e económicas crescem, e proliferam as intervenções mal-avisadas, mas consolidadas”.

O arquitecto revela que a salvaguarda e a gestão do Centro Histórico da RAEM tem sido possível através de considerações e de diplomas avulsos que têm valido como medidas cautelares até à concretização do plano em vista, “mas sem a mesma eficácia ou consequência de um Plano de Salvaguarda e Gestão que se espera capaz de integrar e tratar todas as questões num único corpo”, completando o que falta, reformando e revogando o que ficou obsoleto.

Por isso, também à semelhança do que se passou com o Plano Director, muito possivelmente o formato do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico “será de início apenas as linhas geradoras dessa salvaguarda e gestão”, para serem preenchidas com especificação de detalhe, “sendo essa a modalidade que se afigura possível e desejável na impossibilidade de tratar toda a realidade”, e para que a entrada em vigor de um plano não seja recorrentemente protelada.

Mário Duque ressalva, no entanto, que existem “questões de articulação temática”, nomeadamente com o Plano Director, “para o qual um Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico compreensivo, e não apenas uma estrutura de plano, é já esperado e é necessário”, sem o qual “não é possível concretizar os planos de pormenor”, para que a cidade deixe de ser “avisada e decidida avulsamente”.

Mesmo assim, discorre o arquitecto, “a possibilidade de esse plano de salvaguarda ser ainda num formato de intenções”, ou de uma estrutura para ser preenchida com especificação de detalhe, “não significa que o mesmo não enuncie já os princípios que orientem significativamente o que irá suceder”. As questões do “impacto do desenvolvimento e da morfologia urbana” serão sempre aquelas que os órgãos de fiscalização acompanharão pelas razões mais standard e mais recorrentes.

Mário Duque observa que as questões da interpretação pela qual se pauta a renovação urbana, na qual se tomam posições respeitantes às características tipológicas das edificações e do espaço urbano, e não apenas aos desenhos das fachadas, abrindo assim espaço e conferindo sentido à interpretação, como motor de actualização e de inovação do mesmo património, “já não será imposição dos órgãos de supervisão”. “Seria antes a visão do plano”, diz.

No remate final da sua análise, o arquitecto fecha com a frase: “Se se diz que pela constituição que tens, dir-te-ei que país és, da mesma forma se pode dizer qual é a pauta cultural de determinado lugar, a integração do seu património histórico no quotidiano das suas gentes, e a forma como isso repercute no estilo da vida, a partir dos princípios por que se norteia um plano de salvaguarda para um centro histórico”.

É importante que permaneça a atmosfera única de Macau

Por fim as declarações de Maria José de Freitas, ligada à área do património há mais de 30 anos, não só em Macau, mas igualmente em Portugal. “O Plano de Gestão para o Centro Histórico de Macau é urgente e a sua necessidade faz-se sentir desde que o Centro Histórico, pelas caraterísticas que revela, foi incluído na lista Classificada da UNESCO em 2005”, inicia assim a sua abordagem ao tema que lhe propusemos comentar.

A arquitecta refere que “mais tarde, em 2013, a Lei 11/2013 veio abordar novamente esta situação – a promulgação do Plano de Gestão – como uma das prioridades a concretizar para salvaguardar o património existente em Macau”.

E cita alguns pontos importantes: “compete ao Instituto Cultural (IC) a elaboração e execução do plano em cooperação com outros serviços públicos que, no âmbito das respectivas competências, exerçam poderes relativos ao «Centro Histórico de Macau», nomeadamente a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) e o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM)” – na altura IACM; “O plano de salvaguarda e gestão subordina-se ao estabelecido na lei e às orientações da UNESCO, devendo conter medidas específicas que garantam o uso sustentável do espaço em termos urbanos, culturais e ambientais”.

Desde então, continua Maria José de Freitas, “temos assistido ao adiamento sucessivo da publicação do Plano de Gestão, o património vai sofrendo a consequência dessa ausência e as situações são resolvidas de forma casuística”, sendo certo que o Instituto Cultural tem zelado pela manutenção e cuidado dos bens patrimoniais, no entanto, “a inexistência de um plano consagrado e aprovado” torna a gestão “mais complexa, morosa e pouco transparente”. “As regras devem estar definidas, devem ser claras e a população está ciente disso”, afirma.

A UNESCO e o ICOMOS como entidades que cuidam da proteção patrimonial e sua defesa de modo que seja possível a existência de legados com significado e manutenção dos respetivos valores universais – Outstanding Universal Values [OUV] – tem feito pressão nesse sentido, a vigilância é permanente como denotam as sucessivas recomendações feitas ao longo dos últimos anos.

Aquela que é actualmente membro do Conselho do Património Cultural, juntamente com mais sete elementos, considera que a UNESCO e o ICOMOS como entidades que cuidam da proteção patrimonial e sua defesa, “de modo que seja possível a existência de legados com significado e manutenção dos respetivos valores universais” – Outstanding Universal Values [OUV] – “tem feito pressão nesse sentido, a vigilância é permanente, como denotam as sucessivas recomendações feitas ao longo dos últimos anos”.

Maria José de Freitas termina apontando que “em Macau as autoridades estão conscientes dessa situação e em Pequim têm-se feito sentir os ecos desta carência”, principalmente pela voz de associações patrimoniais locais, “designadamente no caso da envolvente do Farol da Guia e volumetria das construções a edificar nos novos aterros”.

Julgando ser importante que os corredores visuais se mantenham e permitam a visualização dos bens patrimoniais e considerando que é relevante que a atmosfera única de Macau permaneça, a arquitecta faz votos para que os prometidos Plano de Gestão e respectivo Regulamento sejam uma realidade em breve. Vitor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 20 de março de 2023

Macau - Francisco Ricarte lança livro na Creative Macau


A obra, intitulada “Treasure Hotel”, é uma narrativa visual relativa ao período de quarentena obrigatória de 21 dias vivida pelo autor, entre os dias 5 e 21 de Janeiro de 2022, aquando do seu regresso à RAEM. “É uma ilustração simbólica dos estados de alma, expectativas e anseios decorrentes do período de isolamento”, referiu ao Ponto Final o autor do livro que será co-apresentado pelo advogado e fotógrafo João Miguel Barros.

O arquitecto-fotógrafo Francisco Ricarte prepara-se para lançar, no próximo dia 18 de Março, pelas 17h, na Creative Macau, o seu fotolivro “Treasure Hotel”. Trata-se de uma narrativa visual relativa ao período de quarentena obrigatória de 21 dias vivida pelo autor no Hotel Tesouro, em Macau, entre os dias 5 e 21 de Janeiro de 2022, aquando do seu regresso à RAEM, conforme nos explicou.

Ricarte referiu ainda que o livro, co-apresentado pelo advogado e fotógrafo João Miguel Barros, é uma edição de autor com 64 páginas e cerca de 40 fotografias a cores e a preto e branco, limitada a 60 exemplares, assinados e numerados. “Documento visual e ficção justapõem-se segundo uma linguagem fotográfica intimista que elabora sobre o registo quotidiano e vivência sentida durante o referido período”, explicou o autor ao Ponto Final.

O fotolivro, pela sequência proposta dos registos fotográficos e “capítulos” criados – relativos à viagem, chegada, espaço interior, vivência quotidiana, leituras e visão para o exterior –, propõe uma narrativa própria e de cariz pessoal, mas também a ser interpretado pelo potencial leitor. “É por isso, também, uma ilustração simbólica dos estados de alma, expectativas e anseios decorrentes do período de isolamento, gerador de momentos de introspecção intensos e muito específicos”, acrescentou Ricarte.

“Treasure Hotel”, porventura, considera ainda o português, “permitirá encontrar semelhanças com visões e experiências similares vividas por outros viajantes chegados a Macau em circunstâncias similares, bem assim como propiciar, aos que não viveram semelhante experiência, uma ilustração de um processo para o qual nunca estamos suficientemente preparados”. Por tal facto, conforme referenciado no texto de suporte do fotolivro, é um registo de “21 dias de uma outra realidade” em que “aos dias se seguiam às noites, onde ambos pareciam ser sem sentido e sem fim”.

Nos últimos anos, Francisco Ricarte, nascido em 1955, dedicou-se mais à apresentação dos seus trabalhos em formato de exposição, de onde se destacam “Dark Matter” no Art Garden com curadoria de Alice Kok, e “ASIA.FAR” na Casa Garden, ambas em 2022. Em 2021, expôs “Unnoticeable Objects” no Terra Drip Bar. Expõe os seus trabalhos, com regularidade, desde 2013.

Antes de se tornar arquitecto profissional, Francisco Ricarte já se dedicava à fotografia desde os 21 anos, nos idos anos de 1970, quando lhe foi oferecida a sua primeira câmara fotográfica reflex. Desde então, tem vindo a usar o meio de comunicação como uma expressão da sua própria visão sobre o ambiente que o rodeia. Em 2006, mudou-se para Macau e trabalhou como gestor de projecto em arquitectura até hoje. Nos últimos anos, tem participado em diversas exposições colectivas onde apresentou os seus trabalhos fotográficos baseados principalmente nos temas paisagem e arquitectura. O autor é ainda membro fundador da associação de fotografia local Halftone.

Como a fotografia pode potenciar o entendimento do que nos rodeia – seja humano, construído ou natural – tem sido uma pesquisa e prática fotográfica persistente, expressa em diversas séries fotográficas que tem desenvolvido ao longo dos anos, porventura, a serem “reveladas” a outros, um dia. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Macau - Pelos trilhos de Coloane em época de confinamento

“Unnoticeable Objects” é o título da exposição individual do arquitecto Francisco Ricarte, que procura olhar para objectos “aparentemente simples, quer naturais, quer produzidos pelo ser humano”, e que existem nos trilhos da natureza de Macau, mais precisamente em Coloane. Os trabalhos estão patentes no café Terra – Drip Bar, no bairro da Areia Preta, até final deste mês



“Esta ideia surgiu devido a um convite da Associação Dialect, que é vocacionada para a fotografia”, começou por explicar Francisco Ricarte ao Ponto Final, acrescentando que estarão expostas nove fotografias da sua autoria em “Unnoticeable Objects”.

A exposição encontra-se patente no café Terra – Drip Bar, localizado no bairro da Areia Preta. “Este café tem exposições com uma certa regularidade, então, quando surgiu o convite para organizar, preparei este tema sobre os percursos pedonais de Coloane e a visão desses recursos nesta época particular, em que nós estamos confinados aos percursos pedonais se queremos contactar com a natureza. Nesse sentido propus este projecto, que eles gostaram e aderiram,” explicou o arquitecto sediado em Macau.

Francisco Ricarte referiu que teve a oportunidade de fazer uma espécie de apresentação prévia na Pin-to Books sobre este projecto e outros em que está envolvido. “Fiquei contente com o convite, pois a minha última exposição individual foi em 2018 e esteve tudo muito bem organizado pela associação, que preparou tudo”, disse ao Ponto Final. “É um projecto engraçado porque está mais próximo das pessoas que noutras circunstâncias não iriam a exposições assim tão formais. Assim, pelo menos há o usufruto do café, e também estão com uma realidade que os aproxima da natureza de Macau através do meu projecto”, prosseguiu.

O café, segundo o fotógrafo, situa-se num edifício novo, inserido num complexo habitacional alto. “É num bairro que tem alta densidade e não tem assim tantos espaços verdes, e sob esse ponto de vista também pensei que seria interessante até pelo próprio local”, aponta o autor do projecto, explicando que pensou que a iniciativa poderia ser quase como um convite aos residentes da Areia Preta e, ao mesmo tempo, ser uma chamada a atenção para estes espaços verdes, da natureza e dos trilhos, com “elementos singulares e singelos” que foram aqui, através das fotografias expostas, identificados, segundo o artista.

“São, ao todo, nove fotografias, na maioria de formato quadrangular, excepto uma que é rectangular para marcar a capa e a apresentação da exposição”, refere. “Agrada-me muito porque é um projecto consistente que se baseia num tema e que tem uma paleta de cores que é também proporcionalmente uniforme, e nesse sentido deu-me muito gosto preparar e estar em exibição e em exposição desta forma também informal”, assinala.

Quando questionado sobre o porquê de ter escolhido esses trilhos específicos, o autor contou que há um que gosta particularmente. “Fica olhando para o mar, para quem está em Hac Sá, do lado direito, onde há uma colina. Há aí um trilho que eu considero muito agradável e que é de fácil acesso, e depois há um trilho maior que é aquele trilho que vai à volta, passa a montante da barragem e da albufeira de Hac Sá”, explicou.

Em relação à sua inspiração pessoal para o tema, aponta: “Eu acho que é uma coisa fundamental a pessoa usufruir dos espaços naturais e naturalizados que Macau dispõe, e é uma coisa que também me chamou a atenção, os pequenos objectos, as pequenas pedras e pequenos bancos de jardim, de repouso, que não têm grande presença, mas que, ao mesmo tempo, são referências e são marcos da própria identidade do trilho”, disse Ricarte, adiantando que considera importante chamar a atenção para o significado do papel da natureza no contexto urbano em Macau, “uma cidade super povoada e densificada em que temos a sorte de ter estes pequenos recantos que não são tão evidentes, mas que também são importantes para serem usufruídos pelos cidadãos de Macau, ainda por cima agora nesta altura que estamos confinados a um território de que não podemos sair”, concluiu. Joana Chantre – Macau in “Ponto Final”

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