Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 28 de março de 2026

Portugal - Revista DiVersos publica poemas de José Luís Hopffer Almada em crioulo e português

Lisboa – A revista DiVersos – Poesia e Tradução publicou sete poemas do escritor cabo-verdiano José Luís Hopffer Almada, em versão bilingue, em crioulo cabo-verdiano e português.


Os poemas de Nzé Di Sant'y Ago, um dos heterónimos do autor, foram traduzidos para português por Rui Guilherme Silva.

Os títulos incluem “Buska” (“Procura”), “Ta madura na spiga” (“A amadurecer na espiga”), “Ami ku nha raís” (“Eu e as minhas raízes”), “Liberdade”, “Kantiga na rosa padja” (“Cantiga ao mondar a palha”), “Destinu” (“Destino”) e “Más e more livri” (“Todavia morreu livre”).

Em declarações à Inforpress, o editor da revista, José Carlos Marques, explicou que a edição 39 comemorativa dos 30 anos procurou incluir pelo menos um poeta cabo-verdiano.

A publicação reúne 33 poetas, 16 tradutores e 17 línguas e presta homenagem a um dos fundadores da revista, Manuel Resende (1948-2020).

Marques acrescentou que a edição número 26 da DiVersos foi dedicada exclusivamente a poetas cabo-verdianos, em versão bilingue, e adiantou a intenção de publicar e traduzir outros autores cabo-verdianos em futuras edições.

O lançamento contou com a leitura de poemas nas suas versões original e traduzida, bem como com um recital de poesia bilingue alusiva à mulher cabo-verdiana, organizado por Rapazin di Munisa.

A iniciativa decorreu nas instalações da Associação Cabo-verdiana de Lisboa (ACL) e integra a programação da Quinzena da Literatura, da Escrita, da Oratura e da Cultura em Língua Cabo-verdiana, promovida pela Associação da Língua Materna Cabo-verdiana em Portugal (Dalmacv-PT), em parceria com a ACL e a editora Rosa de Porcelana.

Segundo a organização, a Quinzena Cultural, que decorre entre Fevereiro e Novembro, visa abranger todas as expressões da língua materna, no código escrito e oral, incluindo manifestações culturais na música, literatura e tradições orais, desde as finadeiras e cantoras modernas até novos escritores, valorizando a tradição literária cabo-verdiana. In “Inforpress” – Cabo Verde


quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Cabo Verde - Ministério da Educação “não tem competência para acto de padronização linguística” segundo escritor José Luiz Tavares

Cidade da Praia – O escritor José Luiz Tavares afirmou que o Ministério da Educação “não tem competência orgânica” para a realização de um acto de padronização linguística.


“Tal competência é do Ministério da Cultura, que resolveu que a melhor tática é permanecer mudo até que a borrasca passe”, esclareceu o escritor, em entrevista à Inforpress a propósito de uma providencia cautelar que vai interpor, ainda esta semana, para a suspensão do uso do manual do 10.º ano de Língua e Cultura Cabo-verdiana.

À Inforpress, o poeta explicou que, além do “atropelo de todos os comandos legais” sobre a língua cabo-verdiana, há ainda a “incompetência orgânica do Ministério da Educação para a realização de um acto de padronização linguística, ainda que encapotada", pois que “as mentes engendradoras de tal façanha, apesar das evidências em contrário, juram por este mundo e pelo outro que não se trata de tal coisa”.

“Portanto, o ministro Amadeu Cruz tem duas opções: uma sensata, que é suspender e mandar refazer o manual, extirpando a montanha de ilegalidade e anticientificidade, que é a tal (anti)norma pandialetal”, lançou, ou insistir nesse projecto “bairrista e divisionista”, com vista “à eliminação” da matriz histórica da língua cabo-verdiana.

E, então, continuou, arcar com as consequências cíveis e penais, que irá pedir ao tribunal, e que se averigue se as houver, para além das políticas, que, “estranhamente ninguém neste país assaca ao ministro”, finalizou. In “Inforpress” – Cabo Verde


Cabo Verde - Linguista Eleutério Afonso defende que padronização da língua cabo-verdiana “não é prioridade”

Assomada – O linguista Eleutério Afonso considerou que a padronização da Língua Cabo-verdiana “não é uma prioridade” e que o programa do 10.º ano visa ensinar normas, variações e leis de funcionamento da língua e “combater o preconceito linguístico interno”.


Em resposta às declarações da investigadora Fernanda Pratas, que defendeu a necessidade urgente de padronização ortográfica como condição para a oficialização da Língua Cabo-verdiana (LCV), o linguista, docente e co-autor do programa do 10.º ano, reforçou que o objetivo pedagógico não é padronizar, mas compreender a língua em toda a sua diversidade.

Segundo Eleutério Afonso, a controvérsia em torno da chamada “escrita pandialetal”, presente nos manuais do 10.º ano elaborados pela Porto Editora, está a “desviar o debate do verdadeiro objectivo” do programa experimental, ressaltando que as autoras do projecto afirmaram inicialmente que a proposta não buscava padronizar.

“O programa nunca foi concebido para padronizar, mas para ensinar a diversidade da língua e combater preconceitos linguísticos. A padronização, se vier a acontecer, deve resultar de um consenso social e cultural amplo, e não de um atalho técnico imposto por manuais”, afirmou.

Entre os pontos defendidos pelo especialista, está a ideia de que a língua não se reduz apenas à escrita, reforçando que é preciso valorizar a oralidade e promover metalinguagem a partir das modalidades orais, sem que a padronização seja imposta de forma rápida ou unilateral.

Aliás, mencionou que “a padronização laboratorial” pode “provocar resistência e dividir a comunidade”.

O linguista recordou que a história mostra diferentes caminhos para a uniformização linguística, como o modelo grego - adoção espontânea de uma variedade comum - ou o modelo alemão - difusão de uma variedade prestigiada -, mas frisou que em nenhum desses casos inventou-se uma variedade “em laboratório, desligada do uso vivo”.

“Antecipar uma padronização artificial pode confundir o debate, ameaçar o processo de valorização da língua e até ser ilegal, porque nem o ministério da Educação, nem a Porto Editora têm mandato institucional para impor uma norma”, advertiu.

O programa do 10.º ano, conforme o especialista, prioriza ensinar as regras, as variações e as condições de uso da LCV, bem como fomentar o entendimento de que a língua é viva e plural.

Para Eleutério Afonso, a prioridade deve ser consolidar o ensino da LCV, garantir acompanhamento pedagógico e permitir que os falantes se apropriem da língua em toda a sua diversidade.

“O essencial é combater o preconceito linguístico, valorizar as variedades insulares e fortalecer a apropriação popular da língua. Só depois se poderá falar em padronização, se for vontade e consenso da sociedade cabo-verdiana”, concluiu. In “Inforpress” – Cabo Verde 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Cabo Verde – Língua cabo-verdiana e Língua portuguesa: Uma ligação perene

Temos vindo a reflectir quase que diariamente – passe o exagero – sobre a evolução, sobre a transformação e sobre a vitalidade que o nosso idioma ilhéu tem vindo a demonstrar, tanto na oralidade como na escrita; e a sua aproximação cada vez mais audível da Língua portuguesa actual.

Antes de continuar, gostaria de aqui fazer uma espécie de comparação, entre um filho que mesmo atingida a maioridade, não deixa a casa paterna; assim a Língua cabo-verdiana, que a cada dia que passa ilustra tanto na sua expressão, sobretudo oral, como também escrita, um léxico e uma construção sintáctica, que estão cada vez mais próximos da norma actual da Língua portuguesa. Aliás, sua principal matriz. Daí que o crioulo destas ilhas seja considerado de “base portuguesa” com válidos fundamentos históricos e etimológicos.

Vale aqui repetir que, nunca a Língua cabo-verdiana, o crioulo das ilhas, esteve tão próximo e tão dependente da Língua portuguesa como o está na hora actual, fazendo daquela língua o seu “banco fornecedor” (principal) de vocábulos e de construções morfossintácticas.

Poderão, eventualmente, dizer-me que o fenómeno apenas é observável no meio urbano. Direi que não, pois, as “fronteiras” entre o campo e a cidade, hoje mais do que nunca, estão muito esbatidas no que toca à recepção da televisão, da rádio, dos jornais, todos órgãos que circulam regular e abrangentemente no espaço nacional. E os mesmos níveis de ensino universal, obrigatório, vamos encontrá-los tanto na cidade como no campo. De destacar ainda, a aproximação urbana/rural, trazida pelo desenvolvimento imprimido pelas autarquias locais, pelo fenómeno de uma migração crescente dos nossos jovens do meio rural para a cidade, normalmente designado “êxodo rural”, e ainda por um regular trânsito de uma população flutuante para os principais centros urbanos. A confluência de todos estes factores, conjugados com a tendência mimética de seguir o modelo de fala usada na comunicação social, apresam o crioulo a revestir-se gradualmente de modos e de construção similares aos usados na Língua portuguesa.

Ora bem, a vitalidade e a evolução do nosso crioulo, tem residido também, nessa apropriação que ele vem fazendo da língua portuguesa e da maneira como a incorpora na sua fala e na sua escrita hodiernas.

Estamos cientes de que tal acontece e tem origem em vários factores, dos quais, apenas citamos os considerados mais evidentes: a filiação natural,  a contínua e ininterrupta ligação da Língua cabo-verdiana à Língua portuguesa; a escolarização alargada e universal, que leva a uma maior exposição e contacto dos aprendentes com a Língua portuguesa; uma cobertura nacional dos meios da comunicação social, com os principais programas (noticiários, debates, notícias do desporto, artigos de opinião) em Língua portuguesa; o fenómeno das telenovelas faladas em português, a já denominada globalização, entre outros factores.  E como resultado de tudo isso, temos que o falante do cabo-verdiano escolarizado, vem incorporando com uma notória visibilidade e intensidade, expressões portuguesas “ipsis verbis” com o eventual fito de enriquecer ou precisar a sua mensagem oral. 

Clamo, pois, a vossa atenção para que as escutemos quando presentes em entrevistas de rua ou/e de estúdio, nos discursos políticos; nos programas de educação e de saúde, entre outras participações, radiodifundidas e televisivas, em que ouvimos, diariamente, o falante cabo-verdiano ilustrado ou academicamente habilitado, expressando-se na sua Língua materna, através de vocábulos, de articuladores do discurso, directamente provenientes da Língua portuguesa actual. As mais das vezes, como atrás referimos, sem qualquer alteração ou, transformação (na passagem do português para o crioulo) fonética ou morfológica dos vocábulos.

O mais interessante desta fenomenologia linguística cabo-verdiana sincrónica, é que vão desaparecendo os monemas lexicais e gramaticais; a corruptela dos semantemas; os vestígios que ainda subsistem na Língua cabo-verdiana, cuja origem remonta ao português arcaico do século XV, trazido pelos portugueses; e os substractos das várias Línguas das terras e dos países da Costa africana – Felupe, Jalofo, Balanta, Papel e Bijagó - que aqui aportaram na boca dos escravos.  De facto, já se podem considerar residuais ou, pelo menos, em pouca quantidade, no falante nacional, escolarizado.  Sim, esses adstractos e substractos que conformavam de maneira notória, a Língua materna cabo-verdiana, tendem a desaparecer no modo de falar hodierno do cabo-verdiano. Repito: do falante nacional escolarizado.

Curioso é que se trata de um processo que já havia sido previsto por Baltazar Lopes da Silva, quando, em 1947 no ensaio «Uma Experiência Românica nos Trópicos» afirmava a determinada altura: “(…) um esforço generalizado de aristocratização, cada vez maior, à medida que maior for o derrame da instrução e forem maiores os contactos com a cultura europeia.”

E continuava o nosso eminente filólogo, referindo-se às senhoras e às raparigas “que fizeram o seu Liceu e que contavam em crioulo os romances e folhetins que liam (…) crioulo especial, repleto de fenómenos linguísticos reinóis.”  Fim de transcrição. Ver obra acima citada.

Abro aqui um pequeno parêntesis para ilustrar o facto interessante de Baltazar Lopes da Silva se referir à leitora (e não à contraparte masculina) dos romances recontá-los em crioulo e, deste modo, voltarmos àquela ideia que se tinha em Cabo Verde de que o português era a fala masculina e o crioulo a fala feminina, nas ilhas. Fecho o parêntesis.

O que me espanta – enquanto leitora dos escritos filológicos de Baltazar Lopes da Silva – são a sua profundidade filológica e a sua actualidade, actualidade aliás, que residiu na capacidade extraordinária de prever fenómenos linguísticos, no que ao crioulo cabo-verdiano concernem.

Para além do mais, é curioso o facto conclusivo que B. Lopes da Silva retira da fala crioula na boca do cabo-verdiano escolarizado: (…) do impulso inovador que extrai o seu vigor do profundo sentimento aristocratizante de aproximação do padrão linguístico metropolitano”.

Nota a destacar, a similitude com o que se passa nos tempos que correm. De facto, actualmente, tornou-se muito mais fácil, para um falante de Língua portuguesa, entender o seu interlocutor cabo-verdiano que não se expresse totalmente em português, visto que a Língua cabo-verdiana se aproximou e vem se aproximando – diria que quase acelerada e quantiosamente (perdoem-me o eventual exagero) – do português. Aliás, tenho ouvido de amigos e conhecidos, falantes da Língua portuguesa que nos visitam a isso referirem-se com alguma frequência.

Pois bem, são observações que faço de forma rotineira, sem qualquer juízo de valor e de forma objectiva, tentando assim, convidar os mais interessados, linguistas ou não, simples falantes do nosso idioma materno e da Língua portuguesa, a interpretar estes sinais linguísticos e dinâmicos (todas as Línguas são corpos dinâmicos em transformação, sincrónica e diacrónica, constantes) que projectam a Língua cabo-verdiana.

Por um lado, essas apropriações, importações ou até mesmo empréstimos (?) que o nosso Crioulo faz de vocábulos, de construções sintácticas e de articuladores do discurso, da Língua  que lhe esteve na origem, só demonstram a riqueza, a  vitalidade crescente do mesmo, o seu grau de desenvolvimento, e a resolução das suas necessidades em matéria semântica ao ir à Língua portuguesa satisfazê-las de cada vez que surge uma situação elocutória em que a Língua cabo-verdiana, não possuindo recursos endógenos, vai  busca-los à Língua matriz. Até aqui tudo certo.

Por outro lado, temo que a tarefa do professor que tem a seu cargo o ensino da Língua portuguesa, seja agora mais complexa e mais difícil, – ainda que com os métodos que se usam para o ensino de uma Língua viva, de comunicação, presente entre nós – dada a mistura e a contaminação dos dois idiomas. Ainda que seja ensinada com os métodos aplicados a uma língua segunda, a uma língua estrangeira, o entranhamento e o entrosamento entre as duas línguas, a cabo-verdiana e a portuguesa, são de tal monta que as duas, na boca do aprendente, se confluem, se misturam e, naturalmente, se contaminam.

Nesta oportunidade, acrescentarei que o professor da disciplina da Língua portuguesa, deve estar bem atento a esses sinais e munido de uma didáctica específica para o ensino do português – Língua viva, Língua segunda e Língua veicular do ensino – e que desta forma, consiga levar a bom porto os objectivos esperados da disciplina. De recordar que estes objectivos, deverão estar focados na compreensão, na leitura, na interpretação de textos e no aperfeiçoamento continuado da expressão escrita e oral do aprendente.

Para finalizar, solicitarei – apesar da minha formação – como disse alguém: “concedam-me a liberdade própria de um artigo de opinião, sem as obrigações de um ensaio.”  porque não é deste género de texto – ensaio – que se trata. É de apenas um texto de opinião. Não vá alguém, algum comentador nos media, confundir (como já aconteceu) “Artigo de Opinião” com “Ensaio” ou “Tese Universitária”. Ondina Ferreira – Cabo Verde in coral-vermelho.blogspot


domingo, 20 de agosto de 2023

Cabo Verde - Primeiro romance de N’Gosi Nelly, “No Colour Love (Kriolidades)” com lançamento marcado para final do mês

O escritor N’Gosi Nelly de seu nome próprio Adolfo Lopes já tem pronto o seu primeiro romance intitulado “No Colour Love (Kriolidades)”. Trata-se de um projecto que reflecte sobre as origens da língua cabo-verdiana. O lançamento deverá acontecer no dia 31 deste mês, na Cidade da Praia

Com este livro, N´Gosi Nelly quer resgatar a memória para reflectir sobre as origens da nossa língua cabo-verdiana, procurando os diversos elementos linguísticos que estiveram na sua formação como o português, espanhol, italiano, wolof, mandinga e fula.

Segundo o autor, a obra surgiu da necessidade de dar a sua humilde contribuição para entendermos como é que a língua cabo-verdiana surgiu.

“O livro relata a origem da língua cabo-verdiana baseada na invasão do pirata inglês Francis Drake, no ano de 1585, na Ribeira Grande de Santiago. A língua cabo-verdiana tem influências de línguas europeias como o português, espanhol, italiano, e do lado das línguas africanas temos o wolof, fula e mandinga. Ou seja, é desse cruzamento de povos e de línguas que surgiu a língua cabo-verdiana”, relata.

A obra está dividida em três capítulos: No 1º capítulo: “Kual ke prese de liberdéd?”, no 2º capítulo: “Es ka tá manga di nos” e no 3º capítulo “Dia ke sol nasce igual pa nos tud”.

Adolfo Lopes conta que o livro já está feito, mas que estão a fazer um sketch de 15 minutos, em parceria com o grupo teatral Fladu Fla. “Vamos fazer um sketch sobre o livro, porque o objectivo do mesmo é fazer um filme sobre a obra. Já estabelecemos a parceria com o grupo teatral Fladu Fla”.

“Também temos uma parceria com a estilista Gessilene Alves, que será responsável por todos os vestuários daquela época. Também temos a parceria com a Mizé Varela que ficará responsável pelas bijuterias daquela altura”, explica.

Para Adolfo Lopes, o objectivo do livro é fazer a divulgação do nosso património material, porque é importante fazermos a requalificação dos monumentos. “Mas este livro acaba por criar uma história em torno dos monumentos, ou seja, este livro tem a componente de valorização do nosso património”.

O prefácio da obra é da professora da Universidade de Cabo Verde, Maria Baptista dos Céus.

Adolfo Lopes Varela (N’Gosi Nelly) é escritor, poeta e investigador, natural de Tarrafal de Santiago. Licenciado em Ciências Políticas e Relações Internacionais, detentor de um curso de especialização tecnológica em Gestão Administrativa de recursos humanos, cursos obtidos na Universidade Lusófona de Lisboa.

Também é especializado em direitos humanos na vertente de igualdade e equidade do género, pela Universidade Metropolitana de Manchester, Inglaterra, Reino Unido.

A sua escrita é influenciada pela poetisa Ineida Nelly, e também pela escritora e dramaturga nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O autor optou por fundir as suas maiores referências num nome só N’Gosi Nelly.

Em 2014 publicou a sua primeira obra literária “Rabés di Mundu” fruto de uma participação num concurso literário para jovens escritores, promovido pela Corpos Editora, da Cidade do Porto, Portugal. Saiu como vencedor do concurso e foi galardoado pela editora mencionada anteriormente.

No ano de 2020, N’Gosi Nelly publicou a sua segunda obra literária “Sanpabadiu” desta vez livro que veio pelas mãos da Manga Editora. O livro é fruto de uma pesquisa de campo que teve como primeira fase as ilhas de Santo Antão, São Vicente e Santiago e de uma pesquisa documental relacionada com as mencionadas ilhas.

Em 2022 fez parte de uma antologia poética intitulada “Canja pa nos alma” projecto dirigido por Destaney Andrade, livro que conta com a participação de mais de 27 poetas cabo-verdianos. De realçar que em 2021 começou-se a fazer um estudo relacionado com a variedade linguística da ilha do Maio.

Estudo que teve o mais alto patrocínio e envolvimento da Câmara Municipal do Maio. Em Junho de 2022 foi feita a primeira fase do estudo que teve como base a variedade linguística da ilha do Sal, à semelhança da ilha do Maio.

Este trabalho de investigação conta com o envolvimento da Manga Editora, editora que procura trabalhar em prol da promoção e valorização da língua Materna o Crioulo de Cabo Verde, e que no qual será feito o segundo volume do livro “Sanpabadiu” tendo como objecto de estudo as ilhas do Sal, Boa Vista e Maio. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


segunda-feira, 10 de julho de 2023

UCCLA - Lançamento do livro “Di voz di mudjer pa humanidade” de Helena Furtado

Vai ter lugar, no dia 14 de julho, às 17 horas, o lançamento do livro de poesia “Di voz di mudjer pa humanidade” da autoria de Helena Furtado. O livro, que será apresentado no auditório da UCCLA, está escrito nas duas línguas da autora - português e crioulo de Cabo Verde - e reflete os sentimentos de uma mulher.


O lançamento do livro será transmitido em direto através da página do Facebook da UCCLA em:

https://www.facebook.com/UniaodasCidadesCapitaisLinguaPortuguesa.

Sinopse do Livro:

O livro, cujos acontecimentos decorrem num tempo e espaço difusos, está escrito nas duas línguas da autora - português e crioulo de Cabo Verde. É sobre os sentimentos de uma mulher, semelhante aos sentimentos de todas as mulheres do mundo, até a mãe da humanidade, que se enche de mágoa ao ver os filhos em conflito e sendo egoístas uns com os outros. É sobre a descoberta do mistério do Homem e da beleza da Mulher, o amor, as mágoas, dúvidas, medos e angústias das mulheres, mas também dos homens, quando não escondem os seus sentimentos. Há espaço para o agradecimento, a oração, a lamentação e a paixão.

Biografia da autora:

Maria Helena Gonçalves Furtado nasceu em Cabo Verde e reside em Portugal, desde 1978. É licenciada em Ensino de Matemática e Ciências da Natureza, pela Escola Superior de Educação de Setúbal, pós-graduada em Educação Especial, pela Universidade Lusíada do Porto, mestranda em Estudos Africanos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigadora do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Tem interesse em política, tendo frequentado módulos de Política Externa, Geopolítica e Geoestratégia e Diplomacia na Faculdade de Letras. Tem certificado de formadora para os Direitos Humanos pela Amnistia Internacional e frequentou curso de Ética no Contexto Global, pela Universidade de Lucerna, Suíça. Atualmente frequenta a pós-graduação em Gestão de Projetos de Cooperação para o Desenvolvimento, na Universidade Católica do Porto. É professora de Educação Básica desde 1999 e de Educação Especial, desde 2006. Desenvolve investigação nas áreas de Desenvolvimento, Políticas de Pescas e Cooperação. Publicou, recentemente, o seu primeiro livro de poesia, nas suas duas línguas, português e o crioulo de Cabo Verde.


segunda-feira, 6 de março de 2023

Cabo Verde – Proibição do Crioulo ou Recomendação do Português?

“…. Pode não ser intencional, mas resulta seguramente num método muito eficaz para reduzir drasticamente ou mesmo extinguir uma virtual (ou real) ameaça da concorrência.”


Tenho seguido em conversa rigorosamente de café, no caso no “Nhô Eugénio” que frequento regularmente, – felizmente que há muito que deixei de ler artigos sobre o assunto – uma polémica à volta de uma eventual “proibição” de falar outra língua que não o português, na circunstância o crioulo, entre os alunos da Escola Portuguesa de Cabo Verde, pelo menos no espaço restrito da Escola. Não descortinei qualquer problema no assunto e fiquei deveras surpreendido com a dimensão da polémica. Daí, ou melhor, daqui a minha surpresa; e esta apoia-se nos pressupostos seguintes:

1. Será que a medida tomada vai ao arrepio dos objectivos pedagógicos da Escola e, consequentemente, prejudicial aos alunos? Esta seria a minha preocupação primeira: Se os alunos são, de algum modo, prejudicados com a medida. Nessas discussões, alguém com conhecimentos nesta matéria, lembrou que o método que possivelmente usa a Escola Portuguesa no ensino do português, é o método vulgarmente chamado de “banho imersivo” dos alunos na aprendizagem de uma língua viva, segunda ou estrangeira, isto é, elimina-se à volta dela qualquer interferência de outra língua, ainda que seja a Língua nacional, para que o aprendente  possa interiorizar e automatizar no fim da aprendizagem a língua ensinada, no caso  em  foco,  a Língua portuguesa.

2. Ter em conta que a Escola Portuguesa é, para Cabo Verde, um estabelecimento de ensino privado, com o seu programa e com objectivos bem definidos entre os quais, – não sei se expressos nos Estatutos, – o fomento e a promoção da Língua portuguesa. Deste modo só a frequenta quem quer, e aquele que o fizer terá de se cingir aos seus objectivos e métodos desde que os mesmos não sejam inconstitucionais ou contrários às leis do País.

3. Outrossim, a recomendação – trata-se de uma recomendação pedagógica e não de uma proibição, – há anos que vem sendo praticada pelos estudantes do “Les Alizés” com o francês e, neste caso, mais me parece que tenha havido uma ufania, uma vanglória, na apresentação deste procedimento da parte dos pais e encarregados de educação dos estudantes que frequentam esse estabelecimento de ensino francês do que uma condenação ou repúdio como agora acontece com o português.

4. Que indivíduos da geração pós-independência – são eles os pais ou encarregados de educação dos alunos – a geração mais escolarizada e qualificada que Cabo Verde alguma vez já teve, sejam ainda, na era da globalização, reféns de um nacionalismo serôdio e em muitos aspectos retrógrado, que eu pensava ter ficado pela minha geração…

5. Pensar, depois de quase 50 anos de independência que se trata, ou poderia tratar-se, de uma retoma de práticas “coloniais” de um Portugal inquestionavelmente de Liberdade e Democracia, só pode resultar de uma ignorância total do Portugal de hoje, de um exercício de má-fé ou de falta de um mínimo de conhecimento do ensino de língua (segunda ou estrangeira) não materna ou de algum problema mais profundo muito mal resolvido.

6. Isto quando muitos dos nossos mais acérrimos “nacionalistas” já têm duas ou três nacionalidades – uma delas, seguramente, portuguesa – que tanto negaram aos seus concidadãos que viviam na emigração.

7. Ter sempre presente que se trata de uma Escola Portuguesa!!! Não uma Escola Pública cabo-verdiana. Uma Escola orientada prioritariamente para os portugueses que vivem na emigração e para a promoção da Língua portuguesa. A sua escolha, por parte de cabo-verdianos não é obrigatória nem imperativa. Ou não seria assim, se a Escola fosse na Arábia Saudita, no Quénia ou no Senegal?

Não se compreende a polémica e a sanha que sucedem com o ensino da língua portuguesa em Cabo Verde. Se calhar, é por este acantonamento, que no Brasil, um país de língua portuguesa, se exige ao estudante cabo-verdiano a prova do domínio da língua portuguesa e que em Portugal muitos conterrâneos são preteridos na procura de empregos em relação a outros da CPLP. Conheço vários casos confessos.

Mas, o mais interessante de tudo isto é que os mais exacerbados polemistas são todos indivíduos que bem dominam – e, muitos vivem, ou já viveram, quase que exclusivamente desse domínio, – a língua portuguesa.  Pode não ser intencional, mas resulta seguramente num método muito eficaz para reduzir drasticamente ou mesmo extinguir uma virtual (ou real) ameaça da concorrência.

O Governo bate palmas. A polémica vem mesmo a calhar: Enquanto se dissipam energias na discussão deste (não) assunto, esquecem-se os sérios e importantes problemas que o país enfrenta com a má qualidade do nosso ensino e com a oferta indigente da Escola pública nacional cuja contínua decadência constituiu uma das principais razões da instalação da Escola Portuguesa decorridos mais de 40 anos da Independência Nacional.

E, não há dúvidas que o êxito, o sucesso declarado e reconhecido da Escola Portuguesa de Cabo Verde - Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPCV-CELP) vem seguramente incomodando muita gente!...

É claro que não defendo que aqueles que não consideram a recomendação (ou mesmo “proibição” pedagógica) pertinente e benéfica que retirem os seus filhos ou educandos dessa Escola, mas sim, que promovam uma reflexão pedagógica sobre o assunto de onde resultem propostas alternativas, pelo menos, de igual eficácia. Seria uma reforma e, presumivelmente, a Escola agradeceria!!! Armindo Ferreira – Cabo Verde in “coral-vermelho.blogspot”


sábado, 29 de janeiro de 2022

Cabo Verde – Candidaturas ao Prémio Literário Pedro Cardoso até 16 de Abril

São Filipe – A institucionalização do prémio literário Pedro Cardoso, além de homenagear esta personalidade, visa incentivar e promover a escrita literária em língua cabo-verdiana na vertente da ilha do Fogo, disse Nuías Silva no acto do lançamento do prémio.

“Enquanto promotora, a Câmara Municipal espera, também com esta iniciativa cultural e cívica descobrir novos valores literários, tanto no Fogo, em todo o arquipélago como na diáspora”, referiu o presidente da câmara de São Filipe, assegurando que o prémio é anual e com abrangência nacional.

As inscrições para o prémio decorrem até 16 de Abril, sendo que os trabalhos concorrentes nos géneros da poesia e do ensaio vão ser apreciados por um júri entre 23 de Abril e 23 de Junho, já que o mesmo será entregue a 12 de Julho, dia da celebração do centenário da cidade.

Depois de fazer referência à personalidade do patrono do prémio, Pedro Monteiro Cardoso, como poeta e ensaísta, professor e jornalista, o presidente da câmara salientou que o programa comemorativo do centenário terá de incluir a dimensão pedagógica e cívica, interpelando não só ao reconhecimento das personagens centrais da cidade como ao conhecimento das novas gerações no impulso da requalificação da identidade colectiva.

“O centenário estará atento à sua obrigação de quem somos e de onde viemos para que, mais do que um evento, mas um marco histórico determinante, nos permita gizar para onde vamos e como vamos na construção de São Filipe”, destacou.

Ainda no quadro da comemoração do centenário mais dois prémios serão criados, nomeadamente o prémio literário Dr. Henrique Teixeira de Sousa, orientado para o romance e o ensaio científico, e o prémio B. Léza, se possível, em parceria com a autarquia de São Vicente e o alto patrocínio da Presidência da República.

Igualmente, a câmara está a equacionar a questão ligada à “casa-museu” Pedro Monteiro Cardoso, assim como a realização de uma extensão do Festival de Literatura – Mundo do Sal, que traz anualmente escritores internacionais para a ilha do Sal. In “Inforpress” – Cabo Verde

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Portugal - Sonetos de Camões traduzidos para língua cabo-verdiana por José Tavares integram Plano Nacional de Leitura


Lisboa – O livro Ku ki Vos/Com que Voz, resultado da tradução feita para a língua cabo-verdiana, por José Luiz Tavares, de 65 sonetos de Luís de Camões, foi incluído no Plano Nacional de Leitura de Portugal.

A informação está no sítio do programa Ler+ do Plano Nacional de Leitura consultado hoje pela Inforpress e posteriormente confirmada pelo autor e pela editora Abysmo, que destacou as “qualidades pedagógicas” desse volume.

“A escolha do Ku Ki Vos/Com Que Voz acaba sendo um singelo reconhecimento do valor do trabalho de criação de um corpus literário pujante em cabo-verdiano pelo José Luiz Tavares, mas também das potencialidades pedagógicas deste volume”, considerou o fundador da editora João Paulo Cotrim, em comentário enviado à Agência Inforpress.

Luís Vaz de Camões, prosseguiu João Paulo Cotrim, “renova-se com esta transmigração” e “encontrará novos leitores, sobretudo na comunidade escolar”.

“Pelo menos, nisso depositamos esperança”, concluiu.

Contactado pela Inforpress, o autor de “Paraíso Apagado por um Trovão”, Prémio Mário António de Poesia 2004, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian à melhor obra de autor africano de língua portuguesa e de Timor-Leste publicada no triénio 2001-2003, explicou que quando traduziu os sonetos de Camões não tinha público algum em vista.

“Fi-lo, primeiramente, para o meu próprio prazer de ouvir aqueles poemas a reverberar na minha língua materna, e, segundo, na tentativa de dar um corpus poético relevante à língua cabo-verdiana”, esclareceu.

O objectivo maior deste livro é a defesa da diversidade cultural dentro da unidade, tendo para tal o autor dado a ganhar, à língua cabo-verdiana, um “monumento literário” onde se poderão, mais tarde, alicerçar outros poetas, como explica o autor no prefácio da obra.

“Sirva este trabalho (ambicioso enquanto ideia, se não pelo resultado) como pretexto de um fito bem maior: a construção de uma comunidade de povos, línguas e culturas, ao abrigo de tentações hegemónicas, tutelares ou neoimperiais, ainda que urdidas sob os véus da `política da língua`”, escreve José Luiz Tavares.

José Luiz Tavares nasceu a 10 de Junho 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde. Estudou literatura e filosofia em Portugal, onde vive.

Entre 2003 e 2020 publicou catorze livros espalhados por Portugal, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Colômbia.

Recebeu uma dezena de prémios atribuídos em Cabo Verde, Brasil, Portugal e Espanha, sendo o autor cabo-verdiano mais premiado de sempre. Não aceitou nenhuma medalha ou comenda, até agora.

Traduziu Camões e Pessoa para a língua cabo-verdiana. As obras do poeta estão traduzidas para inglês, castelhano, francês, alemão, mandarim, neerlandês, italiano, catalão, russo, galês, finlandês e letão. In “Inforpress” – Cabo Verde


 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Parabéns, Cabo Verde!

Cabo Verde celebra hoje o seu 46.º aniversário de independência. No país, a língua oficial portuguesa convive, em situação de diglossia, com a língua nacional do país, o cabo-verdiano. A língua cabo-verdiana é um crioulo de base lexical portuguesa; pertence ao ramo dos crioulos afro-portugueses da Alta-Guiné, da família dos crioulos de base portuguesa. Além de língua materna de quase todos os cabo-verdianos, ela é língua segunda ou língua de herança dos descendentes da numerosa diáspora espalhada pelo mundo. É, ainda, língua cultural e artística por excelência, presente na poesia, nas canções, na música cabo-verdiana.

Os crioulos surgiram em sociedades tão diversificadas culturalmente que não é possível a comunidade adotar nenhuma das línguas naturais faladas nesse contexto, como aconteceu frequentemente na sequência dos Descobrimentos e da colonização. Por isso existem(iram) tantos crioulos, muitos de base portuguesa. Na ausência do domínio da língua do colonizador e na de uma língua natural capaz de ser veicular, estas comunidades desenvolveram pidgins, i.e. sistemas linguísticos rudimentares, que permitem estabelecer comunicação mínima entre os membros da comunidade e entre estes e os colonizadores. Com frequência, chega um momento em que as crianças transformam o pidgin na sua língua materna, por não dispor de outra língua natural que desempenhe esse papel; essa geração constitui a primeira de falantes nativos da nova língua natural, crioulo, que, tal como acontece com todas as demais línguas naturais, se irá enriquecendo e complexificando lexical e gramaticalmente até se tornar uma língua natural capaz de desempenhar todas as funções que uma língua pode desempenhar.

A língua cabo-verdiana é o crioulo mais antigo ainda falado, o de base portuguesa com mais falantes nativos, aquele que é mais estudado e que mais próximo se encontra de adquirir oficialidade (pelo menos na letra da lei). Apesar disto, tal como acontece com a generalidade dos crioulos, esta língua é muitas vezes, fruto de ignorância e intolerância, encarada como "português mal falado", "linguajar", "dialeto", não porque seja uma língua "inferior", que não é, mas por ter nascido em contexto de dominação e ser falada pelas franjas mais desfavorecidas da população; o uso de uma língua própria, diferente da dominante, contribui para que a comunidade que a fala seja ostracizada, estigmatizada e veja a sua integração social e o seu acesso à plena cidadania bastante dificultados.

Portugal não constituiu exceção a esta regra. Na sociedade portuguesa do pós-1974 foi terrível a estigmatização de que a comunidade cabo-verdiana foi alvo. Lembro-me de fake news e mitos revoltantes que circulavam, e.g. na Grande Lisboa, sobre os cabo-verdianos, que viviam em verdadeiros guetos, como a ainda tristemente célebre Cova da Moura. Na escola, os meninos cabo-verdianos, que não falavam português, eram os eternos repetentes até se tornarem os novos desistentes. A situação melhorou: a sociedade portuguesa conseguiu, também ela, sair do seu gueto de ignorância e intolerância, e ser hoje maioritariamente feita de cidadãos; porém, não só sei que ainda temos muito a fazer, como me desespera o retrocesso a que assisto.

Cabo Verde está, hoje especialmente, de parabéns pelos seus 46 anos de idade. O seu povo está-o sobretudo pela língua, a arte, o engenho, a resiliência e por ter transformado o "país improvável" num dos mais bem-sucedidos países de língua portuguesa. Margarita Correia – Portugal in Diário de Notícias

 

Margarita Correia - Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Cabo Verde - Presidente do Museu de Educação desafia futuro Governo a oficializar e introduzir ensino da língua cabo-verdiana nas escolas


Cidade da Praia - A presidente do Museu de Educação, Clara Marques, lançou hoje um repto a todos os partidos políticos para que na próxima legislatura a oficialização da língua cabo-verdiana e o seu ensino nas escolas seja uma prioridade.

“Deixo um repto no sentido de, na próxima legislatura, que seja uma das prioridades do Governo fazer de tudo com que a língua cabo-verdiana seja oficializada, seja ensinada nas escolas, que se criem condições pedagógicas, materiais e didácticos, no sentido de podermos realmente começar a ter paridade entre a língua cabo-verdiana e a língua portuguesa”, desafiou Clara Marques.

Clara Marques falava em declarações à Inforpress, no âmbito de uma palestra “Língua Materna: O que queremos? O que podemos fazer?”, realizada pelo Museu de Educação e destinado aos alunos e professores da Escola Secundária “Cónego Jacinto”.

Esta palestra, que serve para comemorar o Dia da Língua Materna, que se assinala no dia 21, é, segundo a mesma fonte, uma forma de consciencializar os estudantes a darem, cada vez, mais importância a língua materna e a reflectirem sobre o trajecto feito desde 1978 até a data de hoje.

Conforme explicou, antes da independência de Cabo Verde era proibido o ensino do crioulo nas escolas, mas, depois da independência havia uma “grande expectativa” de que a língua cabo-verdiana iria ter um estatuto diferente.

Isto porque, precisou Clara Marques, depois de 78 foram criadas várias condições para este reconhecimento, foram realizados vários fóruns sobre a língua cabo-verdiana, com destaque para o colóquio de Mindelo, a comunidade linguística tem feito muita produção literária, foi criado o ALUPEC.

Entretanto, o passo “mais importante” que é a sua oficialização não foi dada, criticou.

“Já é altura de se fazer esse reconhecimento, ou seja, aprovar, oficializar a língua cabo-verdiana. Começamos com uma experiência interessante a nível da educação, há quatro anos, com várias escolas, aquilo correu bem, mas, no entanto, nesses quatro anos nada se falou, ou seja, dá-se três ou quatro passos e torna-se a ir para trás”, disse, sustentado que dessa forma jamais terão a língua materna como língua oficial.

Clara Marques apelou à vontade política do próximo Governo que vai liderar o País e exortou a comunidade linguística a impulsionar a criação do Dia Nacional da Língua Cabo-verdiana, para que este dia sirva para reflexão e para valorização da língua materna, que é a identidade do povo cabo-verdiano.

Na mesma linha, a linguista Adelaide Monteiro, que pede a oficialização e o ensino da língua cabo-verdiana, informou que hoje em dia há muitos instrumentos que permitem com que as pessoas possam conhecer a língua e ainda ensinar o crioulo, desde gramática, dicionário, e muitos outros livros de autores cabo-verdiano. In “Inforpress” – Cabo Verde