As
experiências utilizaram muões (partículas semelhantes aos eletrões e cerca de
200 vezes mais pesadas), e foram realizadas no Paul Scherrer Institut
(PSI), Suíça, o único centro de investigação do mundo capaz de produzir uma
quantidade suficiente de muões para esta investigação.
A
seguir ao hidrogénio, o hélio é o segundo elemento mais abundante no universo.
Cerca de um quarto dos núcleos atómicos que se formaram nos primeiros minutos
após o Big Bang eram núcleos de hélio. Eles são constituídos por quatro blocos
de construção: dois protões e dois neutrões. Do ponto de vista da física
fundamental, é crucial conhecer as propriedades do núcleo do hélio para, entre
outros, entender os processos de outros núcleos atómicos que são mais pesados
que o hélio.
Tal
como tinha acontecido com o protão, o conhecimento prévio sobre o núcleo de
hélio provém de experiências com eletrões. Esta colaboração desenvolveu um novo
método para a medição, utilizando muões em vez de eletrões, que permitiu
determinar o tamanho do núcleo do hélio com uma precisão cerca de cinco vezes
superior à das anteriores medições. De acordo com os resultados obtidos, o
designado raio de carga médio do núcleo do hélio é 1,67824 fentómetros (há mil
biliões de fentómetros num metro).
O
conceito em que assenta a nova metodologia é simples: num átomo “normal” são
eletrões que orbitam em torno do núcleo; nesta abordagem, os eletrões são
substituídos por um muão, formando um átomo exótico, no presente caso o hélio
muónico. O muão é considerado o irmão do eletrão, mas cerca de 200 vezes mais
pesado. Um muão está muito mais fortemente ligado ao núcleo atómico do que um
eletrão e orbita em órbitas cerca de 200 vezes mais próximas do núcleo. Consequentemente,
o hélio muónico permite tirar conclusões sobre a estrutura do núcleo atómico e
medir suas propriedades.
Este
trabalho de investigação contou com a colaboração de 40 investigadores,
provenientes da Alemanha, entre os quais se destaca T. W. Hänsch, prémio Nobel
da Física de 2005, Suíça, França, Taiwan e Portugal. Cinco investigadores são
do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade
de Coimbra (Luís Fernandes, Fernando Amaro, Cristina Monteiro, Andreia Gouvea e
Joaquim Santos, o coordenador), três são da Universidade NOVA de Lisboa (Jorge
Machado, Pedro Amaro e José Paulo Santos, o coordenador) e dois são da
Universidade de Aveiro (Daniel Covita e João Veloso, o coordenador).
A
equipa portuguesa deu uma contribuição decisiva para o sistema de deteção dos
raios-X emitidos pelos átomos muónicos, para o sistema de controlo e
monitorização da experiência e para a teoria.
O mistério do raio do protão está a deslindar-se
Esta
colaboração internacional já tinha medido o raio do protão em 2010 utilizando a
mesma abordagem. Nessa altura, o valor medido diferia do obtido por outros
métodos de medição que utilizavam eletrões. Falou-se de um mistério do raio do
protão, e alguns especularam que uma nova física poderia estar por trás disso
na forma de uma interação até então desconhecida entre o muão e o protão,
diferente da interação entre o eletrão e o protão.
Desta
vez, não há contradição entre o novo valor mais preciso e as medições efetuadas
com os outros métodos. Tal torna improvável a explicação dos resultados
recorrendo a “nova física” que vai além do modelo padrão. Além do mais, os
valores obtidos nas recentes medições do raio do protão com eletrões
aproximam-se do valor medido por esta colaboração com muões, em 2010. De certa
forma, o enigma do mistério do raio do protão ainda existe, mas está lentamente
a deslindar-se.
Várias aplicações
A
medição deste trabalho pode ser utilizada em vários contextos. Os nucleões
(constituinte dos núcleos) atómicos são mantidos juntos pela designada
interação forte, uma das quatro forças fundamentais da física. Recorrendo à
teoria que descreve a interação forte, conhecida como cromodinâmica quântica,
os físicos podem prever o raio do núcleo do hélio e de outros núcleos atómicos
leves com alguns protões e neutrões. O valor agora medido, com elevada
precisão, do raio do núcleo de hélio coloca as previsões teóricas à prova e
possibilita o teste de novos modelos teóricos da estrutura nuclear.
As
medições do hélio muónico também podem ser comparadas com as que são obtidas em
experiências em que são utilizados átomos e iões “normais”. Ao comparar os
resultados obtidos com as duas abordagens, pode-se tirar conclusões sobre
constantes naturais fundamentais, como a constante de Rydberg, a constante da
Física que foi determinada com maior precisão, que está fortemente interligada
com o tamanho do protão e que desempenha um papel importante na mecânica
quântica.
Uma colaboração com uma longa tradição
Esta
medição é o resultado de 20 anos de colaboração comprovada entre institutos de
renome internacional, incluindo PSI, ETH Zurich, o Instituto Max Planck de
Ótica Quântica em Garching, o Institut für Strahlwerkzeuge da Universidade de
Stuttgart e o PRISMA + Cluster de Excelência na Universidade Johannes Gutenberg
de Mainz, bem como o Laboratório Kastler-Brossel em Paris, e as Universidades
de Coimbra, de Aveiro e Nova de Lisboa, em Portugal, e a Universidade Nacional
Tsing Hua, em Taiwan.
O
trabalho foi financiado pelo European Research Council, pela Swiss
National Science Foundation, German Research Foundation e Fundação
para a Ciência e a Tecnologia, entre outros.
A
versão online do artigo “The alpha particle charge radius from laser
spectroscopy of the muonic helium-4 ion”, pode ser consultada aqui. Universidade
de Coimbra - Portugal