Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

França - Dino D’Santiago fala em Paris de “uma nova Lisboa feita de cruzamentos de povos”

Paris – O artista luso-cabo-verdiano Dino D’Santiago abriu, em Paris, um festival que celebra os 50 anos de independência dos países africanos de língua portuguesa saudando “uma nova Lisboa” que se renova no tempo, “feita de cruzamentos de povos”.


“Lisboa nu bai Paris” - “Lisboa vai a Paris” em crioulo cabo-verdiano -, o festival concebido por Dino D’Santiago em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian para celebrar os 50 anos das independências, realizou-se este fim de semana em Paris.

Em declarações à Lusa à margem do concerto de sábado à noite, Dino D’Santiago considerou ser importante falar da capital portuguesa porque, 50 anos depois das independências, “nasceu uma nova Lisboa”, que “é uma filosofia que se renova com o tempo”, e “mais um fragmento dessa história feita de cruzamentos de povos”.

“É um manifesto de convivência, um sonho de um lugar onde todos os corpos se sintam em casa”, disse.

“Lisboa nu bai Paris” define-se como um espaço de encontro entre artistas, músicos e pensadores de diferentes origens. Na abertura, o festival propôs uma conversa aberta ao público, gratuita, entre o artista Dino D’Santiago e a filósofa Luísa Semedo, sobre o legado da independência dos países de África de língua portuguesa.

Para Luísa Semedo, o colonialismo continua a ser uma realidade nestes países, apesar de já terem passado cinquenta anos desde a independência, sendo o maior desafio “chegar a uma verdadeira independência”.

“Não basta dizer agora somos independentes, é preciso viver essa independência, apesar das dificuldades económicas”, afirmou.

A filósofa apelou ainda às novas gerações de activistas para que “não traiam os valores dos revolucionários de antigamente”, citando Amílcar Cabral, figura emblemática da independência, e sublinhando que a luta revolucionária pela independência não tem fim porque “os próprios revolucionários, como Amílcar Cabral, sabiam que esta luta era um processo e, portanto, é uma luta que não tem fim”.

Para Dino D’Santiago, “os jovens estão muito à frente, misturam culturas, usam t-shirts de Angola ou Cabo Verde com orgulho”. Para além de Lisboa, é “Portugal que está a transformar-se, com miúdos a falar crioulo no metro, sejam brancos ou negros”.

O festival representa um movimento contemporâneo de afirmação da africanidade dos afro-portugueses, segundo o artista, que considera que é mais fácil para estas populações viverem em Portugal hoje do que há 20 anos.

“Se fosse adolescente actualmente, “seria mais fácil”, diz, apontando que vê pelas sobrinhas “uma aceitação natural, um orgulho em usar o cabelo afro, em falar crioulo, em vestir padrões africanos”.

Esta evolução, considera, acabou por ter também um impacto nas gerações que conheceram a luta pela independência: “Mesmo os nossos pais estão a mudar: falam crioulo, ensinam aos netos”.

Em 50 anos, estas mudanças são também visíveis nos gostos musicais dos portugueses, que colocam nos topos dos rankings artistas de África de língua portuguesa. No entanto, a extrema-direita avança em Portugal, mas isso não assusta Dino D’Santiago, que afirma que “a extrema-direita parece maior por causa das redes sociais, mas o povo é mais forte e quer ser feliz”.

“A música africana sempre trouxe felicidade”, afirmou.

O festival “Lisboa nu bai Paris” foi aberto pela artista cabo-verdiana Kady, neta da voz da rádio Libertação, Amélia Araújo, sentiu-se diretamente tocada pela independência tocou-a diretamente porque a sua “avó foi combatente da luta de libertação: “Sinto que estar aqui é como se eu estivesse a dar continuidade a esse legado, a honrá-la, e a todos os combatentes”, disse à Lusa.

A programação do festival conta também com artistas dessa nova geração lusófona como Fattú Djakité, Nídia, DJ Marfox, EU.CLIDES, Umafricana e Soluna, entre outros. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”


sexta-feira, 4 de abril de 2025

Lusofonia - ONG Mundu Nôbu prepara expansão de Portugal para Cabo Verde

A organização não-governamental (ONG) Mundu Nôbu, criada, há um ano, pelo músico Dino D’Santiago e Liliana Valpaços, para capacitar comunidades sub-representadas em Portugal, vai expandir-se este ano para Cabo Verde, disseram os fundadores à Lusa. “O que nos deixa ainda mais felizes é sabermos que vamos trazer esse projeto, devidamente adaptado, para Cabo Verde”, referiu [...]



A organização não-governamental (ONG) Mundu Nôbu, criada, há um ano, pelo músico Dino D’Santiago e Liliana Valpaços, para capacitar comunidades sub-representadas em Portugal, vai expandir-se este ano para Cabo Verde, disseram os fundadores à Lusa.

“O que nos deixa ainda mais felizes é sabermos que vamos trazer esse projeto, devidamente adaptado, para Cabo Verde”, referiu Liliana Valpaços, vice-presidente da ONG, arrancando as reuniões com autoridades e parceiros, na cidade da Praia.

“Nós criámos a Mundo Nôbu porque sentimos que há várias comunidades, na sociedade portuguesa, que não têm representatividade” em vários setores, profissões e áreas de influência, explicou – tanto comunidades afro-descendentes, como do Brasil, países de leste ou sul-asiáticos.

O programa “O teu lugar no mundo” inclui 12 módulos curriculares (literacia financeira, gestão de emoções, liderança, entre outros) e atividades complementares em que os participantes – dos 14 aos 18 anos – se envolvem por quatro a seis anos (até aos 22 anos, no máximo), “para que sintam que podem sonhar o que quiserem, serem o que quiserem”.

As atividades complementares “podem ser visitas a museus, contactos com determinadas pessoas, estágios em empresas, atividades que permitam romper horizontes”, tudo com o objetivo de “desenvolver o pensamento crítico e construir um projeto de vida sólido”.

Atualmente, o programa inclui 123 inscritos, que se candidataram voluntariamente, e Liliana Valpaços ambiciona chegar ao mesmo número em Cabo Verde, na fase inicial.

“Houve uma primeira intenção para que [a ONG] tivesse nascido em Cabo Verde”, recordou Dino D’Santigao.

“Felizmente fui aconselhado pela Liliana Valpaços”, disse à Lusa.

Uma conversa em que lhe apontou um facto sobre muitos filhos de pais africanos: “nasceram em Portugal, mas não sentem que este também é o seu lugar”, apesar de já merecerem “sentir isso, como ninguém”.

“Um ano depois, ver os resultados dos jovens que por lá passaram, é gratificante. Poder materializá-lo em Cabo Verde, já está acima do que eu tinha sonhado. Mas é a prova máxima de que, quando juntamos outra pessoa, agregando sonhos, conseguimos viver num mundo bem melhor”, concluiu.

A Mundu Nôbu (do crioulo, Mundo Novo) dá prioridade “à igualdade de acesso às oportunidades”, defendendo “valores morais e éticos, à luz da Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Luís Fonseca – “Agência Lusa” in “Forbes” 


sábado, 3 de agosto de 2024

São Tomé e Príncipe - Novo EP dos Calema é uma viagem às origens

Intitulado Voyage (Parte 1) o trabalho conta com quatro singles, nomeadamente “Distinu”, “Xinguinha”, “Alice” e “Diaxi Má Kua Buaru”


A dupla Calema, composta pelos irmãos são-tomenses, Fradique e António Mendes Ferreira estrearam nesta sexta-feira, 2 de agosto, o novo EP intitulado “Voyage – Parte 1″. O primeiro single do EP apresentado ao público no mesmo dia é o tema “Distinu”, uma colaboração com o cantor cabo-verdiano Dino d’Santiago. A informação foi avançada pela produtora Universal Music Portugal em comunicado.

Conforme avançou a produtora dos artistas, “Voyage – Parte 1” celebra as raízes africanas dos dois irmãos e carrega histórias profundas da família, emigração e resiliência. A ligação familiar dos artistas está presente no single “Distinu”, que é uma homenagem emotiva ao avô materno dos Calema, conhecido como “Nho Toto”.

Este single narra a trajetória de emigração de Cabo Verde para São Tomé, segundo a mesma fonte, em que os artistas enfrentaram adversidades para encontrar um futuro melhor. A colaboração com Dino d’Santiago nesta música traz uma “profundidade emocional” e uma relação “poderosa” de história de várias famílias africanas.

Para além do single “Distinu”, o novo EP conta ainda com mais três temas, nomeadamente, “Xinguinha” que é uma homenagem à avó paterna dos Calema, em seguida o tema “Alice” que conta a história de uma jovem europeia que se apaixona durante as suas férias em São Tomé e Príncipe.

E por último, a música “Dia Xi Má Kua Buaru” (o dia em que as coisas melhorarem) a canção fala sobre um emigrante que deixa a sua terra natal e a sua família em busca de melhores condições de vida.

As músicas que compõem o EP foram criadas durante a pandemia da covid-19 e expressam a vontade dos artistas a se relacionarem novamente com as suas raízes, em que também destacam a importância da família e os sacrifícios feitos por amor.

O novo projeto está disponível ao público a partir desta sexta-feira, dia 2 de agosto. Cidália Semedo – Cabo Verde in “Balai Cabo Verde”


sábado, 5 de agosto de 2023

África - Buruntuma e Dino d’Santiago juntos em nova música “Longe”

Buruntuma é um dos nomes mais considerados da cena Afro House portuguesa e tem causado impacto por toda a Europa. Com raízes na tradicional música da sua terra natal, a Guiné-Bissau, ele combina os ricos sons da África Ocidental com as influências dos subúrbios de Lisboa. Essa mistura resulta numa sonoridade única que tem encantado públicos em diversos países.


A sua mais recente colaboração é com o cantor cabo-verdiano Dino D’Santiago na música intitulada “Longe”. A faixa apresenta fortes influências cabo-verdianas e guineenses, enriquecendo ainda mais a já diversa musicalidade de Buruntuma.

A essência da música “Longe” é fortemente impregnada pela batida contagiante do House music, que convida os ouvintes a deixarem-se levar pela melodia envolvente. No entanto, essa colaboração vai muito além do ritmo e das batidas. Ela toca o coração, pois reflete a jornada difícil que todos nós, como seres humanos, enfrentamos nas nossas vidas.

A mensagem transmitida pela música é poderosa: superar obstáculos e prosperar, confiando na nossa voz interior. É uma odisseia pessoal, uma viagem de autoconhecimento e autodescoberta que muitos de nós trilhamos diariamente. Através de “Longe”, Buruntuma e Dino D’Santiago expressam a importância de ouvirmos a nossa intuição, os nossos desejos mais profundos e seguir em frente, mesmo quando o caminho parece incerto.

A voz de Dino D’Santiago mescla-se perfeitamente com os arranjos de Buruntuma, criando uma harmonia que transcende fronteiras culturais e linguísticas. O resultado é uma experiência musical verdadeiramente emocionante que ressoa na alma de quem a escuta.

Longe” é muito mais do que uma simples colaboração musical; é uma obra que une as influências e raízes dos artistas numa sinergia inigualável. Carrega em si a riqueza da cultura africana, a energia do House music e a mensagem universal de persistência e autoconhecimento.

A trajectória musical de Buruntuma inclui apresentações em prestigiadas salas de espectáculos, como Gretchen em Berlim, Djoon em Paris, Bootshaus em Colônia, Paradiso, em Amesterdão e Bird em Roterdão. Além disso, ele também marcou presença em diversos festivais, como o African Nouveau em Nairobi e Womex em Las Palmas. Essas performances demonstram o alcance global e o impacto da sua música, que transcende fronteiras geográficas e culturais.

Buruntuma assumiu para si a missão de preservar e transmitir a história, conhecimento, poemas e música do seu povo. In “Mais Algarve” - Portugal


domingo, 5 de dezembro de 2021

Portugal – Jornal lisboeta “Mensagem” divulga notícias e reportagens em crioulo de Cabo Verde e da Guiné-Bissau

“Jornalismo na kriolu ê um kumeço di narrativa ki ta ben kaba ku um monti di preconceito” – sim, isto é um título em crioulo


Não estranhem, vizinhos e vizinhas, o texto que se segue é em crioulo – crioulo cabo-verdiano. É o pontapé de saída do novo projeto de jornalismo em crioulo feito na Mensagem – apadrinhado por Dino d’Santiago, e a sua plataforma Lisboa Criola e apoiado pela iniciativa europeia Newspectrum, que promove o jornalismo em línguas minoritárias na Europa.

O crioulo, ou os crioulos, cabo-verdiano e guineense, são línguas não oficiais em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, e são falados e cantados correntemente em Lisboa – e embora não haja números oficiais para uma avaliação, é bem possível que seja a segunda língua mais falada da cidade. Aqui, fazemos-lhe uma homenagem, no caminho de um jornalismo mais inclusivo e de uma cidade mais misturada.

Por isso, nesta estreia, falamos com o padrinho da Nova Lisboa, crioula, e desta iniciativa, Dino D’Santiago. Esta é a cidade que ele canta, a mais crioula da Europa, onde ele descobriu a sua africanidade e origens, e também, o crioulo dos seus pais, cabo-verdianos (ele nasceu em Quarteira). Dino acaba de lançar o disco novo, Badiu, e esta entrevista é sobre o disco, neste contexto.

Leia mais aqui. Karyna Gomes – Guiné-Bissau in “Mensagem”

Karyna Gomes - É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino d’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.


sábado, 27 de novembro de 2021

Cabo Verde - Dino d’Santiago edita álbum que é uma homenagem aos ‘badiu’ de Santiago


Lisboa – No novo álbum, Dino d’Santiago enaltece, mais do que nunca, o ‘batuku’ e o funaná, sons de Cabo Verde “que resistiram à opressão”, tal como os ‘badius’, símbolo de resistência e resiliência, que homenageia com o trabalho hoje editado.

“O ‘Badiu’ é uma homenagem a essas pessoas resistentes, que se apropriaram do nome [‘badiu’], a partir do final do século XX, como símbolo de resistência e de resiliência”, contou o músico em entrevista à agência Lusa.

Essas pessoas, explicou, são as que foram levadas dos territórios onde se situam hoje a Gâmbia e o Senegal e, posteriormente, da Guiné-Bissau para a ilha de Santiago, em Cabo Verde, escravizadas pelos portugueses.

“Eles ficam na Cidade Velha e, da Cidade Velha, após vários ataques piratas, conseguem fugir para o interior de Santiago e, nessa fuga, tornam-se os vadios, ‘badius’, com sotaque do Norte [de Portugal], que era a população portuguesa que habitava Cabo Verde na altura, que fazia parte da corte”, contou.

Os ‘badius’ foram quem “conseguiu manter a tradição dos ritmos que saíram directamente de África e não se aculturaram tanto como os que ficaram reféns e foram depois vendidos para outros países, outros mercados”.

‘Badiu’ era um termo depreciativo, mas acabou por se tornar “um símbolo de resistência”.

Outra coisa que mudou foi a maneira como eram vistos os ritmos do funaná e do ‘batuku’, que só com a independência de Cabo Verde, em Dezembro de 1974, “deixaram de ser considerados música do diabo e profana, usada para o adultério, por terem movimentos corporais femininos”.

“O irónico é que essas mulheres cantavam louvores a Deus, sonhos perdidos, saudade”, disse Dino D’Santiago sobre o funaná e ‘batuku’, que “foram sempre música dos camponeses”.

Estes dois ritmos cabo-verdianos têm estado presentes nos álbuns de Dino d’Santiago, mas, em “Badiu”, o músico decidiu enaltecê-los “ainda mais”, por serem “sons que resistiram à opressão, até hoje”.

O músico lembra que, antes dele, outros enalteceram estes ritmos, levando-os para vários lugares do mundo, como os Tubarões, os Bulimundo, os Ferro Gaita, Lura, Mayra Andrade, Orlando Pantera ou Tcheka.

“Eu já sou de uma fase de mistura, de nação crioula que junta o mais tradicional com o mais contemporâneo e global”, disse.

Dino d’Santiago sentiu “necessidade de contar essa história, qual a sua origem” e, para a fotografia de capa do álbum, escolheu algo que “também representa esta resistência e resiliência, o simples pano de terra”, que “tem uma história incrível”.

“É um pano 100% algodão que vinha com as pessoas escravizadas que vinham da Guiné, e tornou-se tão valioso em Cabo Verde que as famílias portuguesas consideradas poderosas eram as que o tinham”, contou o músico, recordando que o pano de terra “era usado como moeda de troca, para comprar pessoas escravizadas ou pagar multas ao tribunal”.

Com o passar dos anos, este pedaço de tecido “foi entrando na cultura cabo-verdiana, amarrado à cintura na prática do batuku, ou usado em cerimónias como casamentos, baptismos e velórios”.

Segundo Dino d’Santiago, o processo de produção de um pano de terra “é demorado” e este “só é feito por encomenda, não há produção em série”.

Já o processo de criação de “Badiu” aconteceu durante quatro semanas numa casa na zona de Sintra, onde Dino d’Santiago juntou produtores, a família, músicos e técnicos, que iam “estando em sintonia com outros produtores noutros locais”.

Dessa residência artística surgiram 37 canções. “Dessas, escolhemos o sumo que honrava o badiu”, disse.

O “sumo” são 12 canções, nos quais Dino d’Santiago aborda temas como “o aquecimento global, as guerras, as fugas dos refugiados, as mortes dos mares”.

“Todas essas narrativas fizeram parte do disco, ao mesmo tempo que havia uma crença maior, o Lucas [filho do músico, que nasceu este ano], que simbolizava a esperança e a responsabilidade de ter que fazer de tudo para que ele cresça num mundo mais justo e mais unido”, afirmou.

Dino d’Santiago gosta de trabalhar “em comunhão”: “Acho que todos os discos devem nascer assim” e, em “Badiu”, além de produtores como Branko, Toty Sa’Med, Tristany, Sirscrach ou Valete, contou também com participações vocais de pessoas que admira e que olham para a vida da mesma forma que ele, e para a arte e a cultura “com o respeito que elas merecem ter”.

Em alguns temas juntou à sua voz as vozes de Slow J, “que tem feito um trabalho incrível no hip-hop português”, Lido Pimenta, “activista e artista plástica esplendida da Colômbia”, Rincon Sapiência, “que tem feito um trabalho incrível no Brasil de transportar as vozes negras para um lugar de fala e contar a nossa história, enraizá-la”, da avó, “antes de ela falecer”, e de Nayela, “uma feminista nata africana”.

Para Dino d’Santiago, a música só faz sentido se lhe “sair do âmago”, se “reflectir” o que vê e a forma como sente a vida.

“Quem me dera que não tivesse que ser tão activista”, disse, referindo que a música que cria “vai ser activista até não precisar de ser, e o sonho é não necessitar mais de ser”.

Quando se lhe pergunta se acha isso possível, responde que acredita “mesmo, profundamente” que sim.

“Consigo vislumbrar essa nação crioula e aculturada a sentir-se feliz por isso. Nos momentos em que estou a cantar vejo a mistura acontecer à minha volta, ninguém está a reparar na cor de pele do outro, é só alegria”, afirmou.

O músico sobe ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em Abril de 2022, mas, até lá, conta fazer “algo bonito” em Cabo Verde, de forma a “retribuir o amor” que tem recebido da terra onde nasceram os pais, “dois badius, do interior de Santiago”. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”




Esquinas

 

Aqui toda a gente sente

Terra não é só lugar onde se nasceu

é também o chão que trazemos na mente

aqui toda gente é parente

mesmo quando se nasceu doutro ventre

chamamos mãe ao mesmo continente

es trazenu morna pa kici nôs dor

ken ki flau na strangeru ka importa nôs cor

si tudu fin di mês es ta danu korti

sô sakedu na kurva pa dispista morti nu bai!

 

Pé na strada nu manti sô si nôs eh forti

ka nu dexa nôs fidju pa sorti

bô eh luz ki ta mostran nha norti

ta limia kaminhu di nôti, más um skina pa nu dobra

 

Juro se eu não morro goat eu deixo gota pro meu nigga

porque eu não sou do bairro, eu sou da raça que os habita

quando eu canto fado soa a mais do que uma vida e eu não sei explicar

juro se eu não morro goat eu deixo gota pro meu nigga

se eu voltar pra minha terra eu sou da raça lusa vinda

do outro lado do mundo o tempo passa e multiplica, eu já não sei voltar

 

Meu povo vem da lama como Dalai

e fez todo o meu drama virar minha light

mundo é minha Alfama, tou no meu bairro

e por onde eu passar é minha esquina

meu povo vem da lama como Dalai

vai calar quem duvidou,

diz na terra onde eu nasci que o que eu fiz foi por amor!

 

Pé na strada nu manti sô si nôs eh forti

ka nu dexa nôs fidju pa sorti

bô eh luz ki ta mostran nha norti

ta limia kaminhu di nôti, más um skina pa nu dobra

 

Nas curvas do bairro nem todo tuga é luso

Nas curvas do bairro nem todas as quinas são vanglória

Nas curvas do bairro aceno ao corpo negro com quem cruzo

Nas curvas do bairro nossos corpos são também pátria

 

Pé na strada nu manti sô si nôs eh forti

ka nu dexa nôs fidju pa sorti

bô eh luz ki ta mostran nha norti

ta limia kaminhu di nôti, más um skina pa nu dobra

 

Dino d'Santiago e Slow J