Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Macau - Alice Costa apresenta primeira exposição individual de pintura abstracta na Creative Macau

Do Direito à Arte. A macaense Alice Costa vai inaugurar a sua primeira exposição individual, intitulada “FLOW”, a 8 de Janeiro na galeria da Creative Macau, no rés-do-chão do Centro Cultural de Macau. A mostra, que decorrerá até 31 de Janeiro, apresenta uma série de pinturas abstractas inspiradas na natureza e nas suas formas orgânicas, e toda a receita líquida da venda de obras será doada à ORBIS Macau


A jornada profissional da macaense Alice Costa (conhecida também por Lili) atravessou uma transformação notável, da magistratura para as artes plásticas. A artista, licenciada em Direito pela Universidade de Macau em 1994 e juíza do Tribunal de Primeira Instância entre 1997 e 2023, vai agora apresentar a sua primeira exposição individual, “FLOW”, numa nova etapa dedicada inteiramente à pintura abstracta. A mostra inaugura a 8 de Janeiro, pelas 18h30, na galeria da Creative Macau, localizada no rés-do-chão do Centro Cultural de Macau, e ficará patente ao público até 31 de Janeiro.

A série “FLOW” explora a essência da natureza através de formas, texturas e emoções, sem representar a realidade visual de forma literal. Como a própria artista explica, “a arte abstracta não tenta representar a realidade visual, mas usa formas, cores e marcas gestuais para alcançar o seu efeito”. As suas pinturas caracterizam-se por formas orgânicas, linhas fluidas e transições dinâmicas, numa paleta cromática intensa e impactante, que evocam formas que trazem à mente florestas, marés, cadeias de montanhas, tempestades ou até superfícies de planetas, convidando o observador a “sentir” em vez de “reconhecer”.

A técnica utilizada por Costa é profundamente táctil, empregando métodos como o empasto (aplicação espessa de tinta), salpicos, a famosa técnica de Jackson Pollock, bem como a sobreposição de camadas para construir superfícies texturadas que estimulam tanto a visão como o toque. Esta abordagem material confere uma energia física e espontânea às obras, reflectindo o que a artista descreve como “movimento orgânico, fluidez, transições perfeitas e energia dinâmica”.

O regresso de Costa à pintura, uma paixão antiga que inicialmente servia para relaxar do trabalho na magistratura, deu-se há três anos, através de aulas e workshops em Hong Kong. O seu percurso multicultural, sendo filha de pai português e mãe chinesa, e as experiências das suas viagens são fontes de inspiração fundamentais.

A exposição reveste-se também de um propósito solidário. A artista decidiu doar toda a receita líquida resultante das vendas de obras à organização não-governamental ORBIS Macau. A ORBIS é uma entidade internacional sem fins lucrativos dedicada a construir sistemas de cuidados oculares fortes e sustentáveis a nível global, com o objectivo de tornar o tratamento e a prevenção acessíveis a todos. A organização atua em toda a cadeia de cuidados, desde a educação para a saúde ocular até ao tratamento e serviços de acompanhamento.

“FLOW” marca assim uma estreia interessante, não só no circuito artístico de Macau, como na nova vida de Alice Costa, que mudou da toga para a paleta, oferecendo agora ao público uma experiência sensorial única e um gesto de generosidade para com a comunidade. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


terça-feira, 7 de maio de 2024

Macau - Humor, música e palco cheio: Está de volta a sátira dos Dóci Papiaçám

Os Dóci Papiaçám di Macau estão de volta. Este sábado e domingo, pelas 20h, sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau o espectáculo intitulado “Unga Istrêla ta vem”. O enredo tem a ver com uma disputa entre duas professoras e uma ‘junket’ que tenta rentabilizar a situação. Em palco estará um dos maiores elencos de sempre do espectáculo, adiantou Miguel de Senna Fernandes ao Ponto Final. Sobre o pedido das autoridades para verem o guião de antemão, o fundador do grupo indicou que não houve qualquer interferência e afirmou: “A sociedade moderna tem de ter capacidade de aceitar o humor”


Está de regresso o espectáculo de teatro em patuá dos Dóci Papiaçám di Macau. Este fim-de-semana, dias 11 e 12 de Maio, pelas 20h, “Unga Istrêla ta vem” sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau.

Este ano, a história gira em torno de uma disputa entre duas professoras e de uma aposta organizada por uma ‘junket’ na miséria, explica ao Ponto Final Miguel de Senna Fernandes, fundador e encenador do grupo de teatro: Délia, uma professora humilde e envergonhada que tem um defeito na fala, é acossada por Elvira, uma professora conhecida e ‘bully’. Um despique entre as duas é aproveitado por Giselda, a tal ‘junket’ que precisa de dinheiro rápido, dada a situação actual de fragilidade dos promotores de jogo em Macau. “A aposta está no sangue da população de Macau”, comenta o encenador.

Este ano, há 21 actores em palco: “É um dos maiores elencos de sempre”. Entre os actores, o destaque vai para a forte presença juvenil em palco. Há cinco crianças, entre os 9 e 11 anos. “Elas portam-se lindamente, eu fico absolutamente maravilhado com aquilo que elas fazem”, diz Miguel de Senna Fernandes.

A música, tal como nos espectáculos anteriores, estará também em destaque. Ainda não é um musical, mas para lá caminha, confidencia Senna Fernandes. Este ano, a peça vai incorporar seis temas da autoria do próprio fundador dos Dóci. Os vídeos humorísticos apresentados no intervalo, realizados por Sérgio Perez, também se mantêm este ano.

“Não há razões para temer o humor dos Dóci Papiaçám”

Em Março, depois da apresentação do programa do Festival de Artes de Macau – no qual o espectáculo dos Dóci Papiaçám di Macau está integrado – ficou a saber-se que, este ano, as autoridades exigiram ver os guiões dos espectáculos em antemão. Na altura, Miguel de Senna Fernandes mostrou-se descontente com a situação, assinalando que esta era uma situação inédita desde que começaram a apresentar o teatro em patuá.

Agora, o encenador indicou que, depois disso, a comissão de avaliação dos espectáculos não disse mais nada e, portanto, não exigiu nenhuma alteração à peça dos Dóci.

“Compreendo que os espectáculos são subsidiados pelo Governo e que o Governo quer minimamente saber quais são os conteúdos. Eu compreendo isto. [Porém], a entidade competente que convida tem de saber de antemão o que é que pode esperar”, diz, acrescentando: “A questão de fundo é a capacidade de humor e de aceitar o humor. Qualquer sociedade precisa de humor. A sociedade moderna tem de ter capacidade de aceitar o humor”. Em conclusão, atirou: “Não há razões para temer o humor dos Dóci Papiaçám”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Macau - Camané e músicos da orquestra chinesa falam a língua universal da música

O que têm Erhu, Pipa e Gaohu em comum com a guitarra portuguesa, a guitarra clássica e a viola? Muito mais do que se imagina, a julgar pela satisfação com que o fadista Camané, o maestro e o concertino da Orquestra Tradicional Chinesa falaram sobre a forma como têm corrido os ensaios em preparação para o concerto deste sábado no CCM, um espectáculo que volta a trazer o aclamado fadista português pela quarta vez a Macau


Camané vai actuar amanhã no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), num concerto que conta com o acompanhamento da Orquestra Chinesa de Macau. Ainda a recuperar do jetlag, o fadista nascido em Oeiras confessou que devido aos ensaios pouco tempo terá para passear pela cidade onde já actuou três vezes: duas com a orquestra chinesa, em 1999 e 2007, e outra só com guitarra e viola, num concerto no Venetian para o Festival Literário Rota das Letras de 2013.

Satisfeito com a forma como estão a decorrer os ensaios, partilhou com os jornalistas presentes algumas das suas impressões da experiência. “Fica muito bem o Fado com esta orquestra, aliás, qualquer orquestra fica bem, e esta em particular está a funcionar muito bem. Os instrumentos chineses funcionam muito bem no Fado, algumas cordas são fantásticas”.

Também Zhang Yueru, concertino da Orquestra Tradicional Chinesa, confessou achar interessante haver três instrumentos na música chinesa – o Erhu, a Pipa e o Gaohu – que são parecidos com os da guitarra portuguesa, em que se consegue “ter um som muito aproximado” ao do Fado. O músico chinês também partilhou o gosto que tem sido ver os músicos portugueses que estão a acompanhar o fadista neste concerto quererem saber mais sobre estes instrumentos chineses. “Durante as nossas conversas também trocamos ideias de como manusear o instrumento chinês para que ele tenha um som parecido com o da guitarra portuguesa”, partilhou.

Para o concerto deste sábado, Camané traz “muitos fados tradicionais”, com letras que adaptou dos fados tradicionais, com “poemas lindíssimos”, e músicas que fazem parte do seu percurso, músicas de José Mário Branco, que foi seu produtor durante 20 anos, lembrou. “Acho que o espectáculo vai ser um bocado daquilo que eu faço normalmente, só que a única diferença é que tem uma orquestra chinesa. Já o fiz com outras orquestras também, diferentes, em Portugal e fora de Portugal”. A responsabilidade, no entanto, é sempre enorme, e diz que vai para o “palco cheio de medo”, mas que, com os ensaios a correrem tão bem, sente-se mais confiante.

Quanto ao facto de ir cantar para um público composto em parte por pessoas que não falam português, Camané diz que a “música ultrapassa a barreira da língua”, desde que esta seja interpretada com muita emoção. “É preciso estar ali com prazer e transmitir essa emoção, e essas coisas muitas vezes não se explicam. Como quando olhamos para um quadro, e não percebemos, mas toca-nos. É isso”. O fadista português diz que, de resto, também não consegue explicar a razão da boa aceitação das suas actuações em tantos países onde não se fala português. “Não sei, mas tenho tido imensa sorte, porque as coisas têm corrido bem”.

Esta é, aliás, uma velha história do Fado, este fascínio do mundo pelas canções nascidas nas ruas de Alfama e da Mouraria. Recordando o início da sua carreira, em que “tinha vergonha de dizer que cantava Fado na escola”, lembrou os tempos em que o Fado não estava na moda em Portugal, e em que, no entanto, na altura “fora de Portugal havia um grande interesse pelo Fado. Carlos do Carmo, Amália, grandes fadistas cantavam muitas vezes fora de Portugal, e tinham um sucesso enorme. Em Portugal as coisas estavam um pouco complicadas, mas isso foi mudando”. Com o seu primeiro álbum, “as coisas começaram a mudar”, e hoje em dia, cada vez mais jovens querem tocar guitarra portuguesa, cantar Fado. “Acho que é fantástico, estou muito contente”, confessou Camané ao Ponto Final.

Música triste e romântica

Yao Shenshen, maestro da Orquestra Chinesa, falou-nos do que conseguiu compreender para além das palavras cantadas. “Acho que o Fado é um tipo de música triste e romântica, que consegue transmitir a emoção de tristeza ao público”. Confessando-se satisfeito com toda a experiência, que lhe permitiu aumentar o seu conhecimento musical e “aprender muita coisa porque não conhecia o Fado”, diz ter ficado a “gostar muito do lado romântico” do Fado. Durante os ensaios, sempre que precisavam de comunicar e esclarecer dúvidas, o maestro e o fadista trocavam algumas palavras em inglês, mas para si o mais importante foi simplesmente tocar. “O principal é começarmos a tocar música. A música é uma língua universal. Em tempos nem era preciso falarmos uns com os outros, era só tocar”, salientou.

Quanto ao ritmo e à forma das canções tradicionais portuguesas, Yao Shenshen contou-nos que houve momentos interessantes nos ensaios devido ao facto de o Fado não ser muito regular. “Há sempre variações, e algumas vezes até o cantor parou de cantar, e não sabíamos se devíamos parar também, mas depois, na segunda vez, já soubemos como acompanhar o fadista de uma forma melhor. Fiquei a gostar muito de Fado”. O colega da Orquestra Tradicional Chinesa, Zhang Yueru, também aproveitou para recordar que esta não é a primeira vez que “a música chinesa teve contacto com a cultura portuguesa”, e que apesar de haver novos músicos na formação da orquestra, na verdade esta é a segunda vez que a orquestra está a actuar com Camané. Sobretudo, o facto de os dois lados terem uma boa “compreensão musical ajuda a combinar as duas culturas, porque a música chinesa tem pontos parecidos com o Fado, e por isso o concerto resulta. É um prazer ter este concerto de novo com o Camané”, acrescentou.

Uma jornalista quis saber se Camané tenciona lançar um álbum com a orquestra chinesa em breve, ao que este retorquiu que, para já, esta ideia não está nos seus planos, embora esteja aberto a essa possibilidade. Para si, o processo de lançar álbuns tem de ser feito com tempo e sem pressões. Recordando um álbum que fez com o pianista Mário Laginha, experiência que “adorou”, quatro anos depois quis lançar um segundo álbum, em 2021, com o mesmo pianista. “No outro dia, na Covilhã, tive numa sala esgotada com um concerto com o Mário Laginha”, recordou. Também falou sobre algumas participações em discos de músicos com orquestra, e até num álbum de rock, como foi o caso do projecto “Humanos”, com Manuela Azevedo, dos Clã, e David Fonseca, uma experiência que Camané insistiu em frisar não ser o seu estilo de música, apesar de boas memórias da colaboração. “Fizemos três concertos e um disco, mais nada. Ainda hoje às vezes me pedem [para dar mais concertos], mas cada músico tinha os seus projectos e ninguém quis continuar com mais concertos. Foi uma coisa pontual, uma homenagem de músicas que o António Variações nunca tinha cantado porque morreu antes, e nós fizemo-las”. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 3 de julho de 2023

Macau - Inaugurado Teatro-Estúdio do Centro Cultural de Macau, um “espaço de actuação mais profissional para o sector de artes e cultura”

Foi inaugurado o Teatro-Estúdio do Centro Cultural de Macau (CCM), um espaço com 3110 metros quadrados desenhado para ser a nova casa do sector das artes e cultura de Macau. Leong Wai Man, presidente do Instituto Cultural, indicou que, com este Teatro-Estúdio, a indústria cultural local terá “um espaço de actuação mais profissional”


Foi inaugurado o Teatro-Estúdio do Centro Cultural de Macau (CCM). Com três pisos e uma área total de 3110 metros quadrados, este espaço conta com dois teatros e uma sala polivalente.

Segundo informação do Instituto Cultural (IC), as instalações dispõem ainda de um monta-cargas com acesso directo a uma zona de cargas e descargas, bem como de quatro pontos de suspensão que permitem içar e instalar elementos cenográficos de grande dimensão em posições elevadas, sendo todos estes meios disponibilizados com vista a atender, o melhor possível, às necessidades dos profissionais do sector.

O edifício onde se encontra o Teatro-Estúdio possui dois teatros com capacidade para 140 e 160 espectadores, respectivamente. O Estúdio I caracteriza-se pelo seu tecto equipado com uma rede de tensão feita de cabos de aço entrelaçados, permitindo atender a requisitos de diferentes actuações por meio de cordas suspensórias e de grades. Por sua vez, o Estúdio II dispõe de um sistema de suspensão que se move ao longo de uma calha no tecto, providenciando vários pontos de suspensão de posicionamento flexível e ajustável.

O Teatro-Estúdio abrange ainda outras instalações auxiliares, incluindo sala de ensaios polivalente, vestiários, um bar dos actores, camarins e sala polivalente. A configuração do espaço de actuação do Teatro-Estúdio é flexível, podendo o palco ser alterado de acordo com as necessidades dos espectáculos e podendo a plateia ser adaptada à cenografia dos mesmos, “o que é adequado para os artistas desenvolverem actuações inovadoras e providencia mais possibilidades de produção para teatros experimentais”, explicou o IC numa nota de imprensa, que acrescenta que as actividades originalmente programadas para o Teatro Caixa Preta do Edifício do Antigo Tribunal pelas companhias que arrendavam um espaço no mesmo serão transferidas para o Teatro-Estúdio do Centro Cultural de Macau.

Na ocasião, Leong Wai Man, presidente do IC, afirmou que o Teatro-Estúdio “vai oferecer um espaço de actuação mais profissional para o sector de artes e cultura de Macau, o que demonstra também o apoio dado pelo Governo da RAEM ao mesmo sector”. “Esperamos que a inauguração do novo teatro possa contribuir para a criação artística e o desenvolvimento das indústrias culturais locais, incentivando o sector de artes e cultura a criar mais obras excelentes”, afirmou a presidente do IC no seu discurso.

Leong Wai Man aproveitou também para garantir que o Governo “irá continuar a apoiar as criações culturais e artísticas locais, contribuindo para o estabelecimento e desenvolvimento humanístico da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau e da ‘Uma Base'”.

“O Governo da RAEM atribui uma grande importância ao desenvolvimento cultural e artístico, dedicando-se a proporcionar um ambiente favorável aos profissionais das artes e da cultura. Sob a liderança do Chefe do Executivo, foi dada prioridade ao desenvolvimento do projecto do Teatro-Estúdio a que se tem prestado muita atenção”, sublinhou também a presidente do IC. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 21 de abril de 2023

Macau - Um bairro de macaenses em peça do patuá

A pouco mais de um mês da estreia, a Tribuna de Macau foi assistir a um dos ensaios do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que este ano apresenta a sátira “Oh, Que Arraial”, no Centro Cultural de Macau. A história passa-se num bairro de macaenses, o qual o Governo pretende revitalizar para atrair turistas. O grande drama começa quando a artista convidada não é de Macau. Miguel de Senna Fernandes, encenador e dramaturgo, disse a este jornal que a peça pretende mostrar o conflito existente entre o bairro não querer perder as suas características, mas precisar de gente de fora para se desenvolver. Revelou ainda que pela primeira vez se vai falar mandarim. Como já tem sido habitual, haverá também muita música à mistura. “A peça tem condições para ser um espectáculo engraçado”, observou Senna Fernandes


Um bairro macaense em plena época pós-pandémica – onde as brigas e intrigas não vão faltar, até porque há um café bastante frequentado pelos fregueses – e um plano do Governo para revitalizar os bairros antigos vão cruzar-se na peça “Oh, Que Arraial”, dos Dóci Papiaçám di Macau. O espectáculo vai subir ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), no final de Maio (dias 26, 27 e 28). A pouco mais de um mês da estreia, os ensaios estão a correr bem, como disse Miguel de Senna Fernandes, apontando que o próprio bairro vai funcionar como “actor principal”.

“A ideia da peça assenta numa experiência-piloto do Governo de revitalização dos bairros antigos para atracção de turistas. Certo é que vai haver um bairro dos macaenses e interessa às autoridades que participem nesta revitalização – e isso terá sempre de ser com um carnaval”, explicou o encenador ao Jornal Tribuna de Macau. Fechar o bairro, instalar tendas de comes e bebes, e montar um palco para actuações são os objectivos das autoridades – ainda que na peça nada disto vá ser visível.

A notícia é recebida com muito bom agrado e todos se prontificam para aderir à festa, oferecendo-se para actuações diversas. Todavia, para atrair o maior número de pessoas e para o espanto do bairro, é contratado um artista de fora para abrilhantar a festa. “A artista principal vem de fora, como não poderia deixar de ser, e, portanto, há todo um drama em relação a este aspecto”, conta Miguel, acrescentando que o café da D. Rosália é onde se vão encontrar os vários membros da comunidade para comentar tudo e mais alguma coisa.

“Mano”, a personagem interpretada por Armando Ritchie, vai ser um dos fregueses “assíduos” do café. “Vai haver cenas hilariantes, vai ser uma comédia muito interessante”, conta o actor que começou a fazer teatro no Brasil e que desde 2012 integra os Dóci Papiaçám di Macau.

Também Sónia Palma, uma veterana e aliás fundadora do grupo de teatro em patuá, vai encarnar uma das clientes do café, uma “personagem pequena”, disse. “Vai ser um típico café de bairro em que as pessoas falam das coisas do dia-a-dia e às vezes de outras que aconteceram no passado”. “Há sempre intrigas”, acrescentou, entre risos.

Mandarim pela “primeira vez”

A artista convidada pelo Governo para actuar no Carnaval a decorrer no bairro dos macaenses não é local, como conta Helena Leong, que pela segunda vez participa no teatro em patuá. “Vou ser uma cantora da China. E vou falar mandarim no início, pelo que as pessoas não vão perceber nada do que digo, vai haver muitas confusões e coisas engraçadas a acontecer”, explicou a actriz, acrescentando que depois começa a falar cantonês, mas não “da forma correcta”.

Esta é uma das novidades da peça de teatro deste ano: a introdução do mandarim. “Vou levar uma pancada por causa disto. É a primeira vez que vamos ouvir mandarim na nossa peça, é só um cheirinho. A personagem depois começa a falar cantonense, mas com um sotaque muito forte do Continente”, referiu o dramaturgo.

“Tudo isto para dizer que isto é uma zona cantonense e não nos podemos esquecer disso. Culturalmente, é zona de Cantão e a cultura cantonense tem muito que ver com os macaenses. Os macaenses não têm tradição nenhuma de mandarim”, prosseguiu Miguel de Senna Fernandes, reiterando que o sotaque carregado com que a personagem encarnada por Helena Leong vai falar é assim de forma “intencional”.

Fazendo a ponte entre a ficção e a realidade, Miguel de Senna Fernandes defendeu que Macau tem de se abrir, e a própria comunidade macaense também: “Há muitos Velhos do Restelo aqui entre nós, a sociedade é assim. Temos de abrir para todo o lado, mas obviamente as portas do Continente estão aqui ao lado”.

No meio de tudo isto, aparece um português “faz-tudo”, porque está “à rasca e precisa de emprego”. É a personagem à qual João Picanço vai dar forma. “Sou um cidadão português que vem para Macau numa altura em que os portugueses estão a sair, portanto não podemos dizer que seja o português com melhor sentido de orientação”, afirmou, acrescentando que é provavelmente isso que dará “alguma graça” a “Maurício”.

A participar no teatro há já alguns anos, o jovem português disse ainda estar “muito interessado” em perceber como é que a personagem e a peça em si se vai desenvolver. “Digo isto porque os papéis que desempenhei anteriormente eram bastante sérios e este é muito mais ingénuo. É uma experiência nova e estou muito entusiasmado”, contou. Por outro lado, João Picanço vai também cantar pela primeira vez.

Música, maestro

Miguel de Senna Fernandes contou à Tribuna de Macau que este ano a peça de teatro vai contar com uma série de músicas às quais o próprio deu forma. “Fiz aí umas cinco ou seis músicas, que ainda tenho de produzir. Vai haver músicas em patuá, claro, depois uma em português e outra em chinês”, apontou. Este ano, há também um pequeno grupo de jovens interessados nesta missão de preservar o patuá que vão cantar algumas destas canções.

Também “Susana”, uma personagem interpretada por Agurtzane Azpiazu, e que namora com o filho da dona da tasca, o “Tito”, vai cantar em patuá. Agurtzane Azpiazu actuou pela primeira vez com os Dóci Papiaçám em 1999, tinha 15 anos. Em 2019 regressou ao território e desde então tem feito parte do elenco.

A jovem desvendou depois uma pouco sobre a personagem que lhe calhou desta vez: “A Susana é famosa e tem uma revista. Além disso namora com o Tito, um homem que não quer trabalhar, não quer fazer nada. E é aquela namorada chata que quer obrigá-lo a fazer alguma coisa. Sei que ele canta bem, então quero puxar por ele”, revelou.

Miguel de Senna Fernandes diz que “a peça tem condições para ser um espectáculo engraçado”. “As bocas que mandamos são para todos, até para nós próprios”, apontou, frisando que a mensagem que se pretende passar: o conflito entre manter as “características” e, por outro lado, de “haver a necessidade de ter pessoas de fora”. “Só isso é que faz andar o bairro, caso contrário, nunca mais sai do mesmo sítio”, defendeu.

Os bilhetes para a peça já estão à venda. Além do espectáculo, este ano haverá ainda, na Sala de Conferências do CCM, uma exposição fotográfica intitulada “Dóci Papiaçám di Macau – 30 anos no palco da multiculturalidade”.

O teatro em patuá, uma arte performativa única apresentada pela comunidade macaense, foi inscrito na Lista Nacional de Itens Representativos do Património Cultural Intangível da China em 2021. O patuá é um crioulo de Macau com origem na língua portuguesa antiga, combinada com malaio, espanhol, concanim, inglês e cantonense. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


terça-feira, 10 de maio de 2022

Macau - Levantou âncora a “Lorcha di Amor” dos Dóci Papiaçám di Macau

Depois de dois espectáculos no Centro Cultural de Macau (CCM), Miguel de Senna Fernandes mostrou-se satisfeito pelo ‘feedback’ do público. Ao Ponto Final, o encenador comentou que o Grande Auditório só não encheu para ver a “Lorcha di Amor” dos Dóci Papiaçám di Macau devido às restrições pandémicas


Na noite de sábado e tarde de domingo levantou âncora a “Lorcha di Amor” dos Dóci Papiaçám di Macau. O espectáculo deste ano brinca com a vontade de sair de Macau num período pós-pandemia. O caminho até Hainão é feito de contratempos, percalços, histórias de amor, referências à actualidade de Macau e humor.

Miguel de Senna Fernandes, homem do leme dos Dóci Papiaçám di Macau, faz uma avaliação positiva dos dois espectáculos, apesar de, segundo ele, nunca haver expectativas. “É esse mesmo o espírito de não saber como é que vai correr que dá animação”, disse ao Ponto FinaL. “Toda a gente estava muito entusiasmada para fazer um grande espectáculo e foi muito bom”, descreveu.

Só não houve casa cheia devido às restrições pandémicas, sendo que apenas metade dos lugares estavam disponíveis. Mais de 90% dos lugares disponíveis estavam cheios para cada um dos dois espectáculos. “Em termos estatísticos acho que foi um número muito bom”, comentou o encenador.

“As pessoas perceberam bem o espectáculo e a mensagem do espectáculo”, apontou o encenador do grupo, assinalando que “em tempos de pandemia, precisamos de humor”. O espectáculo, de duas horas e meia, foi interpretado em patuá e língua chinesa, com legendas em chinês, português e inglês. “Lorcha di Amor” foi apresentado no Grande Auditório do Centro Cultural inserido no 32.º aniversário do Festival de Artes de Macau.

No espectáculo de domingo, estiveram presentes, por exemplo, Elsie Ao Ieong, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura; Leong Wai Man, presidente do Instituto Cultural (IC); Fu Ziying, director do Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau; e Liu Xianfa, Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na RAEM. No final do espectáculo, Leong Wai Man foi ter com Miguel de Senna Fernandes para deixar elogios à peça deste ano, contou o encenador.

Foram mais de 80 pessoas a trabalhar no espectáculo deste ano e, segundo Miguel de Senna Fernandes, a cada ano que passa há mais interessados em participar na peça. “É um grande trabalho de logística. É muito complexo fazer uma produção dos Dóci para o Festival de Artes”, notou.

Este ano, os Dóci Papiaçám di Macau estão a celebrar o 29.º aniversário. Para já, indicou o dramaturgo, ainda não há nenhuma ideia concreta para comemorar os 30 anos do grupo no espectáculo do próximo ano. No entanto, Miguel de Senna Fernandes mantém a possibilidade de fazer um musical: “Para o próximo ano não desisto da ideia de fazer um musical. Mas vai ser complicado”. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Macau - Companhia Stella & Artists celebra aniversário no palco do Centro Cultural de Macau

No próximo sábado, o grande auditório do Centro Cultural de Macau recebe dois espectáculos da companhia de dança local Stella & Artists, depois do adiamento em Fevereiro devido à pandemia. O grupo irá brindar o público com interpretações que cruzam géneros tão díspares como dança folclórica chinesa, ballet e dança contemporânea



O grande auditório do Centro Cultural de Macau está reservado no próximo sábado para dois espectáculos de dança, às 15h30 e às 20h, intitulados “The 7th Anniversary Performance of Stella & Artists”. Como o nome indica, a companhia dirigida por Stella Ho celebra em palco sete anos de existência, com um percurso que vai muito além de ensaios e performances em palco.

O HM falou com a mentora e directora artística do projecto, Stella Ho, que revelou que o espectáculo de celebração começou a ser preparado em Outubro do ano passado com o objectivo de ser apresentado a 2 de Fevereiro. “Devido à covid-19, a data de apresentação da performance foi alterada para 8 de Agosto.

Portanto, recomeçámos os ensaios em Maio para cumprir as medidas exigidas pelo Instituto Cultural e podermos actuar no Centro Cultural”, conta Stella Ho. O espectáculo foi redimensionado, com limites impostos ao número de bailarinos e aos elementos da equipa de produção. A adaptação às condições impostas por razões de saúde pública forçou à reinvenção do espectáculo. “A performance de 2 de Fevereiro foi adaptada para as duas performances que vamos apresentar no sábado”, revela a directora artística.

O grupo de intérpretes que dá corpo ao “The 7th Anniversary Performance of Stella & Artists” é variado, com idades a partir dos 4 anos até pessoas mais maduras. “Damos cursos de dança chinesa e ballet como formação de base para os nossos alunos e bailarinos. Apesar de as nossas produções serem principalmente focadas na dança contemporânea, esta é um testemunho do percurso que fizemos nos últimos sete anos, com a apresentação de diversos géneros como dança folclórica chinesa, ballet, ballet contemporâneo e dança contemporânea”, desvenda a directora artística.

Em palco vão cruzar-se professores e alunos de dança, assim como os bailarinos da companhia. Uma parte do espectáculo, interpretada por um dueto de professores, foi pensada pela promissora coreógrafa de Hong Kong Justyne Li.

O espectáculo de sábado será o somatório de vários géneros de dança coreografados pelos professores da Stella & Artists e do progresso que os alunos fizeram ao longo dos anos.

Para Macau

“Quando olho para trás, para o caminho que a Stella & Artists percorreu em sete anos, só posso ficar feliz com os objectivos que conquistámos, passo a passo, e a nossa contribuição para o desenvolvimento da dança em Macau.” É assim que Stella Ho arrisca um balanço do tempo de actividade da companhia que fundou.

Além de produção de qualidade e intercâmbios recheados de significado e colaborações com artistas estrangeiros, a preparação do espectáculo de aniversário tem servido para a directora artística reflectir no trabalho feito até agora. Os ensaios e a forma como a performance de aniversário correu enche Stella Ho de confiança no caminho que a companhia tem pela frente, especialmente na oferta educativa de formação de dança. “Estou muito contente com o progresso que os nossos professores fizeram, que se pode ver nas coreografias e performances dos alunos. O trabalho de equipa e a atitude positiva dos professores tornou possível o progresso”, remata a directora artística.

A Stella & Artists foi fundada em 2012 com o objectivo de promover a dança contemporânea ao mesmo tempo que actua como veículo para dar a conhecer os elementos tradicionais da dança chinesa. Absorver e incorporar o quotidiano de Macau, assim como reflectir a partilha de expressão artística com outras culturas são também metas da companhia que celebra o sétimo aniversário. Os bilhetes para o espectáculo estão à venda e custam entre 150 e 200 patacas. Pedro Arede – Macau in “Hoje Macau


Pedro Arede - Jornalista com 31 anos de idade. Começou na área de economia mas escreve sobretudo sobre política, cultura e sociedade. Tem experiência em produção audiovisual e é atleta de alta competição na modalidade de esgrima.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Macau - Festival Lunar 2019

As celebrações do Festival Lunar 2019 trazem a dança e a cultura Thangka ao Pequeno Auditório do Centro Cultural de Macau a 13 de Setembro. Os bilhetes começaram a ser vendidos



A “Noite de Luar de Haojiang” é o título da peça de dança tibetana escolhida para celebrar o Festival Lunar no próximo mês, integrada no evento “Arte Macau”, que sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau no dia 13 de Setembro às 20h.

Apresentada pelo Grupo Teatral e Artístico de Qinghai, esta dança da lua é um projecto dramático que apresenta a arte religiosa Thangka à população local, numa festa de simbolismo único que “transmite um apelo artístico forte e rico”, reafirmando “a cultura tradicional chinesa com personagens vivas e vocabulário de palco inovador”, segundo o Instituto Cultural.

O bailado original “retrata artistas Thangka descrevendo as suas vidas”, inspirados nos temas da “verdade, bondade e beleza” presentes na pintura budista de influência tibetana. “A paixão e o amor do herói e da heroína por Thangka e a cultura tibetana estão presentes em todo o drama”.

O espectáculo que vem a Macau conta uma história de três épocas da vida – Vida Anterior, Outra Vida e Esta Vida – coreografadas de forma a transmitir sentimentos históricos e humanísticos, através da integração dos costumes folclóricos autóctones, na música, na dança, na arquitectura e na pintura tradicional da província de Qinghai, no noroeste da China.

As pinturas religiosas Thangka foram seleccionadas para o projecto de arte do Fundo Nacional para as Artes, que contou com exposições e espectáculos criativos da Província de Qinghai nas celebrações do 22º Aniversário do Retorno de Hong Kong à Pátria, que decorreram durante o mês de Julho no vizinho território.

Budismo em Qinghai

Qinghai é uma grande província chinesa, de população dispersa, situada ao longo do planalto tibetano acima dos seis mil metros de altitude. É um lugar de fortes tradições culturais tibetanas e mongóis, onde se situam as montanhas Kunlun, um local sagrado para os peregrinos budistas.

Existem mais de vinte mosteiros e templos budistas em Qinghai. Os principais são os Mosteiros Wutong e Longwu, cujos monges são conhecidos produtores de Thangka, pinturas religiosas em algodão ou seda, geralmente retratando divindades, cenas ou mandalas budistas. Estas peças de arte estão reconhecidas como Património Cultural Intangível da Humanidade, na lista da UNESCO, desde 2009.

A arte sacra do Thangka remonta ao século VII e tem origem no Tibete. A maioria das obras são criadas para meditação pessoal ou para a aprendizagem de estudantes monásticos. A sua importância religiosa sobrepõe-se ao valor artístico e estético. Os praticantes desenvolvem estes trabalhos como auxílio às práticas de concentração e visualização das deidades com quem pretendem fortalecer vínculos espirituais. Há muitas representações das visões dos grandes mestres, nos momentos de realização, que foram gravados e incorporados na escritura budista.

Os bilhetes para o espectáculo estão à venda desde ontem, 1 de Agosto. Os preços variam entre 100 e 300 patacas e têm desconto de 50 por cento para portadores de BIR, Cartão de Professor e de Estudante de Macau, válidos. Raquel Moz – Macau in “Hoje Macau”